sábado, 28 de fevereiro de 2026

O PAÍS DO FUTURO QUE NUNCA CHEGA

BRASIL, UM PAÍS DE TOLOS

A coisa vai de bem a melhor nesta republiqueta de bananas.

No STF, Dias Toffoli finalmente deixou a relatoria do caso Master, mas o imbróglio não deixou o ministro indicado por Lula em 2009, embora tenha sido reprovado duas vezes seguidas em concursos para juiz de primeira instância em São Paulo.

André Mendonça, o ministro terrivelmente evangélico que Bolsonaro fez nomear para a vaga de Marco Aurélio Mello, acumula a relatoria dos dois escândalos mais rumorosos da República (o roubo das aposentadorias do INSS e as fraudes do Master). Na contramão do antecessor, ele mandou Davi Alcolumbre franquear à CPI o acervo do celular de Daniel Vorcaro, permitindo à PF prosseguir com as investigações.

Exemplo de corporativismo de altíssimo coturno, o STF uniu-se para livrar Toffoli do impedimento e criticou duramente a PF — embora jamais tivesse encerrado o caso Marielle Franco (com oito anos de atraso) sem o auxílio da corporação. 

O julgamento dos mentores foi como a radiografia que expõe as células de um tumor já em metástase, e as condenações não são a cura, apenas parte do tratamento. Na cobertura da “orcrim” estavam um conselheiro do TCE-RJ e um deputado federal cassado; abaixo deles, um ex-chefe da Polícia Civil e policiais militares; e, no banco dos réus, o sujeito oculto era o próprio Estado infiltrado por criminosos.

Na capital fluminense, crime e política operam em regime de coalizão. A doença evoluiu da contaminação para a fusão: quando não concorrem diretamente, os milicianos e os traficantes tornam-se sócios; quando não concorrem, elegem representantes na Câmara Municipal, na ALERJ e no Congresso, indicam prepostos para cargos públicos — inclusive na segurança. Para saber como o câncer evolui, basta olhar o que acontece no México.

Há em Brasília dois tipos de políticos: os que temem o enrosco e os que vivem de desgastar os enroscados. Numa escala de zero a dez, a hipótese de uma combinação como essa terminar bem marca menos onze.

Com as bênçãos do pai presidiário, o ex-deputado das rachadinhas, dos panetones e das mansões milionárias amealhou parte do eleitorado bolsonarista e votos da direita mais ampla, aparecendo tecnicamente empatado com Lula na maioria das pesquisas. 

Eleições altamente polarizadas costumam ser decididas pelos “isentões” (ou “nem-nens”), que não têm bandido de estimação. Em 2018, o misto de mau militar e parlamentar medíocre derrotou o bonifrate do então presidiário mais famoso do Brasil por 13% dos votos válidos. Em 2022, já solto, descondenado e reabilitado politicamente, Lula venceu Bolsonaro pela diferença irrisória de 1,76%.

A polarização desembarcou em Pindorama junto com Cabral e esteve presente em todos os capítulos da nossa história. O quadro se agravou com a rivalidade entre mortadelas e coxinhas, que atravessou décadas até 2002, quando Fernando Henrique não conseguiu emplacar José Serra seu sucessor e entregou “de bandeja” a presidência para Lula, derrotado antes por Collor em 1989 e pelo próprio FHC em 1994 e 1998.

Em 2010, o desempregado que deu certo declarou que a disputa seria “nós contra eles”, acirrando esquerda e direita. Depois de escolher Dilma para manter aquecida a poltrona que pretendia voltar a disputar em 2014, falou em “extirpar” o DEM (atual União Brasil) da política tupiniquim. Durante a campanha da pupila, retomou o ramerrão vomitativo do “nós contra eles” e rebateu acusações de incompetência que a nefelibata da mandioca vinha colecionando.

Em 2016, após o segundo impeachment da Nova República, Lula chamou o vice Michel Temer de “golpista” e vociferou que “a direita raivosa cresce quando os jovens rejeitam a política”. Em 2018, quando o TRF-4 aumentou a pena do camelô de empreiteiras no caso do triplex para 12 anos e 1 mês, a estrelinha vermelha Gleisi Hoffmann — codinomes “coxa” e “amante” nas planilhas da Odebrecht — vaticinou que “para prender Lula seria preciso matar muita gente”. Mas ninguém morreu, noves fora as mais de 700 mil vítimas da Covid durante a gestão negacionista do capetão genocida. 

Lula teve as férias compulsórias interrompidas após míseros 580 dias quando o STF anulou seus processos a pretexto da incompetência territorial da 13ª Vara Federal — tese escatológica que já havia sido rejeitada uma dezena de vezes pela própria Corte. Na pré-campanha de 2022, com a cara de pau que Deus lhe deu, desdenhou dos antigos adversários: “agora quem acabou foi o PSDB”. Os tucanos reagiram dizendo que o PT passara anos tentando reescrever a história, semeando ódio, perseguindo adversários, dividindo a sociedade e montando uma usina de fake news. 

Posteriormente e com a mesma cara de pau, Bolsonaro “lamentou” o 8 de janeiro, atribuiu o vandalismo a uma armadilha da esquerda e afirmou que os ataques às sedes dos Poderes não configuraram tentativa de golpe. O palanque ambulante respondeu dizendo que o rival era um presidente sem controle emocional, desmoralizado pela quantidade de mentiras contadas durante a campanha, que inventou aquilo tudo e ainda fugiu porque não teve coragem de participar.

Todo fato tem pelo menos três versões: a sua, a minha e a verdadeira. Também são três os tipos de polarização: na ideológica, diverge-se sobre programas políticos; na social, as diferenças socioeconômicas dividem; na afetiva, até a imagem ou o som da voz do adversário provoca reações viscerais. 

Basta lembrar a última gestão Vargas, quando situação e oposição não dialogavam, não se reconheciam nem autorizavam a existência uma da outra. Em 1954, o suposto “suicídio” do tirano baixou a fervura, mas não impediu que a polarização crescesse até desaguar no golpe de 1964 — que Bolsonaro tentou reprisar em 2022, sem sucesso, por falta de apoio das Forças Armadas.

Nada de bom resulta de um cenário em que desavenças e violência política continuam crescendo. Um passo necessário — ainda que insuficiente — para recolocar o Brasil nos eixos é drenar a intolerância do discurso político. Mas só Deus e o diabo sabem quando — e se — isso acontecerá. Até lá, o parteiro do Brasil Maravilha e o mito dos descerebrados continuarão empenhados numa repugnante desumanização mútua e esmerdeando-se ao estendê-la aos apoiadores dos respectivos rivais.

Enquanto a régua de muares insistir em fazer, a cada eleição, por ignorância, o que Pandora fez com sua caixa uma única vez, por curiosidade, será mais fácil nevar no inferno do que um país assim dar certo.

Triste Brasil.