YESTERDAY'S GONE, TOMORROW NEVER COMES.
Publicado por H.G. Wells em 1895, o romance A Máquina do Tempo não só inaugurou o conceito de uma tecnologia capaz de nos levar a outros pontos da linha temporal como espaço para dilemas filosóficos e sociais e forneceu material para os escritores e roteiristas de ficção científica.
Nos filmes, os buracos negros são retratados como “atalhos” que permitem percorrer milhares de anos-luz em poucos segundos e chegar a outras galáxias, neste ou em outro universo, no passado ou num ponto futuro da linha do tempo, mas esse papel cabe na verdade aos buracos de minhoca, também como Pontes de Einstein-Rosen.
Previstos nas soluções teóricas das equações da relatividade geral, esses túneis cósmicos ficam nas imediações ou no interior dos buracos negros. No entanto, enquanto os buracos negros “engolem” tudo que atravessa seu horizonte de eventos, os buracos de minhoca só permitem uma travessia segura se permanecerem abertos e estáveis por tempo suficiente, e isso exigiria uma quantidade imensa de um tipo hipotético de matéria com massa negativa e propriedades antigravitacionais que nunca foi observadas na natureza.
Alguns modelos matemáticos sugerem que atravessar um buraco de minhoca pode ser mais demorado do que fazer a viagem pelo espaço convencional, pois a geometria interna do túnel poderia se alongar de forma imprevisível, tornando-o não apenas inútil, mas potencialmente perigoso. Esse paradoxo entre a promessa da ficção científica e as limitações da física teórica ilustra o quanto ainda há para compreender sobre a verdadeira natureza do espaço-tempo.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
O julgamento dos mentores do assassinato de Marielle Franco foi como a radiografia que expõe as células de um tumor que virou metástase, e as condenações são parte do tratamento, não a cura.
Na cobertura da organização criminosa, estavam um conselheiro do Tribunal de Contas do Rio e um deputado federal cassado, que pegaram 76 anos e três meses de cadeia. Abaixo deles, um ex-chefe da Polícia Civil e policiais militares, cujas penas foram de 9 a 56 anos de prisão.
O crime demorou oito anos para ser julgado porque havia no banco dos réus um sujeito oculto: o Estado. A infiltração de criminosos no aparato estatal é um câncer nacional. Mas no Rio de Janeiro a doença evoluiu da contaminação para a fusão. Ali, o crime e a política operam em regime de coalizão
Milicianos e traficantes atuam como sócios na exploração de pedaços do mapa, controlam o território e os votos, elegem representantes na Câmara Municipal, na Assembleia Legislativa e no Congresso e indicam prepostos para cargos públicos, inclusive no setor de segurança. Para saber como o câncer evolui, basta olhar para o que acontece no México.
A existência de portais dimensionais no Universo é uma perspectiva sedutora. Diversos cientistas publicaram estudos sobre a possibilidade de haver buracos de minhoca nas profundezas dos buracos negros, a despeito da inexistência de provas concretas. Por outro lado, a teoria da relatividade geral sustenta que o espaço-tempo pode ser distorcido e comprimido por qualquer objeto massivo o bastante — e essa distorção é o fenômeno que chamamos de gravidade.
Comprimindo o espaço-tempo, podemos chegar mais longe viajando menos. A metáfora da folha de papel dobrada facilita a compreensão dessa premissa, mas os pesquisadores se baseiam principalmente em cálculos matemáticos das equações de Einstein. Dependendo de como esses problemas se resolvem, um buraco de minhoca poderia criar um “atalho” no espaço-tempo através do qual seria possível chegar a um lugar distante 10 milhões de anos-luz numa fração de segundo no referencial dos astronautas, já que a velocidade com que o tempo passa diminui à medida que a velocidade do observador aumenta. Na prática, porém, as coisas podem ser diferentes.
Voltando aos buracos negros, o tamanho desses corpos celestes depende do chamado raio de Schwarzschild, que estabelece o limite crítico a partir do qual um objeto de determinada massa se torna um buraco negro. O raio de Schwarzschild do Sol, por exemplo, é de aproximadamente 3 km, e o da Terra, de aproximadamente 9 mm. Isso significa que, se o Sol fosse comprimido até atingir um raio de apenas 3 km (ou seja, 6 km de diâmetro), ele se transformaria em um buraco negro. O mesmo ocorreria com a Terra se fosse espremida até ter apenas 9 mm de raio.
Esse processo de compressão extrema não ocorre naturalmente com estrelas como o Sol. Para que uma estrela colapse e dê origem a um buraco negro no final da vida requer uma massa pelo menos dez vezes superior à do Sol. E uma vez formado o buraco negro, só seria possível escapar dele ultrapassando a velocidade da luz — algo impossível segundo a física clássica, que estabelece a luz como o limite máximo de velocidade no universo.
Os astrônomos não sabem exatamente qual o tamanho máximo que um buraco negro pode atingir, mas existem limites para tudo no Universo, incluindo esses titãs cósmicos. Quando estudam a natureza dos buracos negros, alguns cientistas optam por usar um modelo teórico (como a métrica de Schwarzschild) ou o que é conhecido como buraco negro astrofísico, que leva em conta apenas o que se pode ter certeza a respeito desses objetos. Por não ser bem compreendida, a singularidade gravitacional não é levada em conta nesses cálculos.
Observação: A singularidade gravitacional é basicamente o ponto onde toda a massa se achatou para formar um buraco negro. Esse ponto é inferior ao comprimento de Planck (10⁻³⁵ metro, cerca de 10²⁰ vezes menor que o raio do próton), mas sua densidade tende ao infinito. Como a física clássica não lida com infinitos nem com coisas menores que o comprimento de Planck, a existência da singularidade continua sendo discutida.
Além dos hipotéticos buracos de minhoca, a física teórica oferece outras possibilidades intrigantes para as viagens no tempo. Entre as soluções que derivam diretamente das equações da relatividade geral de Einstein, destacam-se os cilindros de Tipler e as cordas cósmicas — estruturas hipotéticas que poderiam distorcer o espaço-tempo de maneiras surpreendentes e potencialmente úteis nas viagens temporais, tanto para o passado quanto para o futuro.
Propostos pelo físico Frank Tipler em 1974, os Cilindros de Tipler consistem em cilindros infinitamente longos e extremamente densos girando em altíssima velocidade. Sua rotação distorceria o espaço-tempo a seu redor de tal forma que as linhas temporais se curvariam, criando curvas temporais fechadas (CTCs, na sigla em inglês), ou seja, trajetórias através do espaço-tempo que retornam ao mesmo ponto no tempo de onde partiram.
Em teoria, uma espaçonave que orbitasse esse cilindro em espiral poderia emergir em um momento anterior ao da partida. Na prática, construir ou encontrar tal objeto exigiria uma quantidade de matéria e energia absolutamente proibitiva, além de tecnologias que nem sequer começamos a arranhar conceitualmente.
Já as cordas cósmicas são defeitos topológicos no tecido do espaço-tempo que teriam se formado nos primeiros momentos após o Big Bang, durante as transições de fase do Universo primitivo. Para facilitar a compreensão, podemos imaginá-las como "rachaduras" unidimensionais extremamente finas, mas incrivelmente densas: uma corda cósmica com a espessura de um átomo poderia pesar tanto quanto uma montanha.
Quando passam uma pela outra em alta velocidade, duas cordas cósmicas distorcem o espaço-tempo de maneira tão intensa que criam condições para viagens temporais. No entanto, a exemplo dos Cilindros de Tipler, elas permanecem no campo da especulação, já que não existem evidências observacionais que confirmem sua existência — e mesmo que existissem, controlá-las ou interagir com elas seria um desafio colossal.
Outro conceito fascinante são os táquions — partículas hipotéticas que, em algumas formulações da teoria da relatividade, são superluminais, isto é, movem-se mais rápido que a luz. Supõe-se que sua energia diminui à medida que eles aceleram, e que eles são capazes de transmitir informações para o passado, violando o princípio da causalidade. Muitos físicos acreditam que essas partículas sejam matematicamente possíveis e fisicamente inexistentes, mas isso não muda o fato de que a perspectiva de serem reais vem dando margem a questões filosóficas sobre a natureza do tempo e da causalidade.
Em teoria, já temos o mapa dos atalhos cósmicos. Falta apenas construí-los — o que, convenhamos, é tão complicado quanto dobrar o espaço-tempo com as próprias mãos. Mas vai que algum dia alguém consegue. Talvez alguém já tenha conseguido e não contou pra ninguém — não seria a primeira vez que a ciência se disfarça de ficção — e vice-versa.
Talvez as chaves do tempo não estejam apenas nas equações de Einstein, mas também nas entrelinhas da curiosidade humana — esse motor que, desde H.G. Wells, insiste em girar no sentido contrário das impossibilidades. Há até quem diga que o primeiro a realmente testar uma dessas teorias não foi um físico, e sim um homem comum — cujo desaparecimento ainda hoje intriga tanto quanto as equações que ele dizia ter decifrado. Em última análise, impossível mesmo é voltar atrás depois de cruzar o horizonte de eventos da própria curiosidade.
Continua…
