sábado, 4 de abril de 2026

QUANDO A TOGA JÁ NÃO ESCONDE OS GLÚTEOS

TEM SEMPRE UM DIA EM QUE A CASA CAI…

Diálogos entre Daniel Vorcaro e sua noiva Martha Graeff obtidos pela PF indicam que o ministro Alexandre de Moraes esteve com o banqueiro em datas próximas às viagens que realizou em jatos executivos dele e de seu cunhado, Fabiano Zettel.


Segundo levantamento feito pela Folha a partir de dados da ANAC e do DECEA da Aeronáutica, o ministro e sua esposa, Viviane, constam do registro de passageiros de terminais executivos no Aeroporto de Brasília. 


Em 21 de maio, véspera da viagem de Moraes de Brasília a São Paulo em um jato da Prime Aviation — empresa da qual Vorcaro foi sócio e que também é dona de sua mansão em Brasília — o ex-banqueiro disse à noiva estar com o ministro e o senador Ciro Nogueira. Na noite seguinte, o magistrado aparece como passageiro em um hangar de aviação executiva no Aeroporto de Brasília às 19h. Segundo a Folha, 33 minutos depois, um avião da Prime Aviation decolou rumo ao Aeroporto de Catarina, voltado para jatos privados. 


Quatro dias depois, Vorcaro comenta com a noiva que terá um encontro com Moraes e que resolveu organizar um jantar com ele, sua mulher e outros dois convidados (o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e sua mulher, Patrícia Abravanel). Passados três dias, Moraes e Viviane voaram de Brasília ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a bordo de um jato Embraer pertencente à Prime Aviation.


Zettel é tratado pelos investigadores do caso Master como operador financeiro do esquema e controlador do fundo Arleen — que comprou por R$ 35 milhões a fatia do Resort Tayayá que pertencia ao ministro Dias Toffoli. Moraes alegou jamais ter viajado em aeronaves de Vorcaro e Zettel ou na companhia deles. O escritório de Viviane disse contratar “diversos serviços de táxi aéreo”, entre os quais o da Prime Aviation, mas alegou que Vorcaro e o cunhado jamais viajaram com integrantes da banca de advogados, e que todos os valores foram abatidos dos honorários advocatícios nos termos contratuais.


O histórico de conversas entre Vorcaro e Martha que chegou ao Congresso termina em 13 de agosto de 2025. Até a primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro, não há registro de diálogos para a conferência de outras convergências de datas, mas o levantamento da Folha revelou que casal Moraes viajou em jatos ligados ao grupo Master até um mês antes da segunda prisão de sey CEO — no Aeroporto Internacional de Guarulhos tentando embarcar em um jato rumo a Dubai com escala em Malta, o que foi encarado pelos investigadores como uma tentativa de fuga. 


Moraes procurou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, pelo menos quatro vezes para discutir sobre o Master no período em que a tentativa de compra da instituição pelo BRB enfrentava resistências crescentes dentro da instituição. Àquela altura, já se sabia também que o contrato de Viviane com o banco previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos, com atuação em frentes no Judiciário, Legislativo e órgãos do Executivo, bem como a atuação do escritório junto ao BC, ao Cade, à PGFN e à Receita Federal. Todos esses órgãos informaram não haver registros da atuação de Viviane em nome do Master.


A discrepância entre o tamanho da remuneração e a falta de rastros administrativos deu novo fôlego às dúvidas sobre a natureza real dos serviços prestados. O BC afirmou que encontros com altas autoridades não são documentados, a despeito de Galípolo ter declarado publicamente que todas as discussões sobre o caso Master foram registradas pelo órgão regulador.


A pressão aumentou ainda mais em março, quando o conteúdo extraído do celular de Vorcaro revelou a troca de mensagens com Moraes em 17 de novembro do ano passado — dia de sua primeira prisão. Nos textos, o banqueiro relata tentativas de salvar o banco junto a investidores árabes e perguntava ao ministro: “Conseguiu bloquear?”.


Ao cruzar os céus em jatos executivos de Vorcaro, o ministro encostou sua reputação na fabulosa história de Ícaro, que voou com asas de penas coladas com cera, subiu alto demais e, maravilhado com a própria ascensão, ignorou o poder do Sol. No caso de Xandão, não há asas de cera, mas a analogia se impõe: nem todo prestígio resiste ao brilho intenso, e quanto mais alto se voa, mais arriscado se torna o deslumbramento. Sobre a alegada compensação dos serviços aéreos com os honorários advocatícios, o "xerife" que ama cobrar explicações e detesta ter que se explicar chamou a notícia de "fantasiosa". 


Moraes demora a notar o derretimento de sua reputação, mas não está sozinho. Toffoli, que ganhou a suprema toga de Lula em 2009, como recompensa pelos "bons serviços prestados ao Sindicato dos Metalúrgicos de SBC e ao PT" — a despeito de seu currículo ser abrilhantado por duas reprovações em concursos para juiz de primeira instância — viajou nas asas da Air Master para ir ao resort Tayayá e em pelo menos mais cinco voos patrocinados por empresários amigos. Procurado, defendeu-se com com o silêncio.


Num primeiro momento, Moraes disse jamais ter voado em aeronaves de Vorcaro. Acuado pelos fatos, alegou que o serviço foi abatido dos honorários milionários que o escritório da mulher recebia do Master, mas faltou explicar por que ele fruiu das mordomias proporcionadas pelo contrato promíscuo. As obscenidades dele e do Maquiavel de Marília diferem entre si, mas têm um ponto em comum: a arrogância de quem acha que pode fazer o que bem entende sem dar explicações plausíveis. Vivendo numa realidade paralela, os semideuses togados demoram a notar que as togas já não lhes escondem os glúteos.


O jurista Potter Stewart, que atuou como juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, pronunciou num julgamento uma frase que se tornou célebre: "Não sei definir obscenidade, mas eu a reconheço quando vejo." Mesmo quem não entende de despudor sabe reconhecer a pornografia quando a vê, e magistrado supremo que voa em aeronave de mafioso que tinha um banco é obscenidade que nenhuma toga consegue esconder.