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sábado, 5 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 115ª PARTE

SPACE BENDS, TIME BREAKS (O ESPAÇO SE CURVA, O TEMPO PARA). 


Vimos que nem toda a evolução havida desde a invenção da roda até os tempos atuais permitiu que a ciência explicasse a natureza do tempo, que acomodasse numa única equação matemática a teoria da relatividade e a mecânica quântica, e que viajar para o futuro depende somente de conseguirmos construir espaçonaves capazes de singrar o cosmos em velocidades próximas à da luz, levar os astronautas até as proximidades do horizonte de eventos de um buraco negro, ou então atravessar um buraco de minhoca.


Voltar ao passado, todavia, é mais complicado, pois esbarra numa série de obstáculos impostos pelas leis da física clássica — sem falar que o simples desembarque do viajante numa época pretérita bastaria para alterar os acontecimentos e criar um "novo futuro", como explica o célebre paradoxo do avô


A boa notícia é que segundo o físico Lorenzo Gavassino, uma combinação da teoria da relatividade geral com a mecânica quântica e a termodinâmica sugere que é possível viajar para o passado sem criar contradições. Para não estender demais este texto, vou deixar para detalhar o Paradoxo do Avô e a Teoria das Cordas numa próxima postagem, até porque, quando escrevemos sobre esses assuntos, cada pena puxada traz uma galinha inteira.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

André Mendonça levantou o tapete. Mandou ouvir a PGR sobre o mau cheiro. O procurador-geral Paulo Gonet opinou pela anulação da imundície. Apontou "dupla nulidade", sob o pretexto de que a Polícia Federal e a Procuradoria não pediram a vassoura. E o plenário do Supremo não autorizou a faxina nas relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.
A coisa se encaminha para mais um acobertamento de rotina. Mas a turma do abafa precisará responder a uma pergunta singela: "E a sujeira?". O que fazer com as mensagens endereçadas a Moraes? Com o pedido de proteção? Com os apelos para que intercedesse junto aos chefes da PF, da PGR e do BC? Com a pergunta de Vorcaro a Moraes sobre se deveria sair do país pouco antes de ser preso?
Gonet aparece no relatório que Mendonça encomendou à PF como parte do detrito. Numa mensagem, manda um advogado amigo dizer a Vorcaro que está "com saudade". Confirma presença num evento patrocinado pelo banqueiro mafioso em Londres: "Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan". Pede a inclusão do filho, Pedro Gonet, no convescote.
A liberalidade metodológica, quando é muita, acaba engolindo os donos. O tapete do Supremo ficou pequeno. O resort vendido por Toffoli ao cunhado de Vorcaro já vaza pelas bordas. Com Moraes, o excesso tende a tornar tudo insignificante, exceto a pergunta: "E a sujeira?"

Embora nossa compreensão do tempo se baseie na física newtoniana, a teoria da relatividade desafia o pressuposto intuitivo de que os acontecimentos progridem linearmente do passado para o futuro, sugerindo que o espaço-tempo pode se comportar de formas bizarras, como demonstram os buracos negros (cuja existência já foi comprovada).

Como dito no post anterior, uma curva temporal fechada permitiria a um viajante do tempo seguir caminhos diferentes sem alterar o futuro, já que a criação de uma linha do tempo alternativa a cada decisão tomada tornaria a volta ao passado factível. Por outro lado, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e consequências.

Einstein bem que tentou, mas não conseguiu desenvolver uma equação capaz de descrever a realidade inteira. Outros físicos seguiram seus passos — entre os quais Stephen Hawking —, mas nenhum deles teve melhor sorte, e a busca por uma regra fundamental escondida por trás da diversidade do universo continua. E não faltam teorias que visam elucidar essa questão, sendo a Teoria de Tudo uma das mais promissoras.

Por muito tempo, falar sobre universos paralelos foi tabu entre a comunidade científica, mas não há nada como o tempo para passar, e teorias que se baseiam na hipotética existência de multiversos têm seus defensores e seus detratores. Mas os universos paralelos não são teorias em si, e sim previsões de determinadas teorias que sustentam a existência de fenômenos impossíveis de ser observados — como os buracos de minhoca, que continuam no campo das conjecturas embora "façam parte do pacote" da relatividade geral de Einstein, e o mesmo acontece com os universos paralelos em teorias como a inflação infinita, e talvez até na mecânica quântica.

A existência de universos paralelos foi defendida por cientistas do quilate de Stephen Hawking e Neil deGrasse Tyson, mas o problema é que o tema suscita muita confusão, sobretudo porque não se sabe de qual tipo de universo paralelo se está falando. Para facilitar, o livro Our Mathematical Universe, do cosmólogo Max Tegmark, dividiu os universos paralelos em quatro níveis diferentes. Vamos a eles:

O Multiverso de Nível 1, também conhecido como Quilted, é todo o cosmos que está tão longe que sua luz ainda não teve tempo de chegar até nós, embora o Big Bang tenha ocorrido há cerca de 13,8 bilhões de anos. A propósito, o universo "observável" é uma esfera com raio de 49 bilhões de anos-luz, conhecida como Esfera Hubble, e tudo que fica fora dela pode ser considerado outro universo.

Esse nível fica mais interessante quando paramos para pensar que existem apenas finitas maneiras de rearranjar as partículas do universo observável. Significa dizer que se pudéssemos singrar o cosmos por tempo suficiente, acabaríamos nos deparando com um clone da Terra com cópias idênticas dos terráqueos, da mesma forma que um macaco digitando aleatoriamente em um teclado por um período de tempo infinito acabará escrevendo a obra completa de Shakespeare. Vale destacar que esse nível do universo obedece às leis da física clássica e às constantes cosmológicas conhecidas, de modo que, pelo menos, em teoria, poderemos alcançá-lo quando e se desenvolvermos tecnologia avançada o suficiente para isso.

Para entender o Multiverso de Nível 2 é preciso compreender a Teoria da Inflação Cósmica, segundo a qual existiu um momento de inflação imensa e quase instantânea logo depois do Big Bang. Todavia, diferentemente de uma bolha de sabão, que ocupa espaço em um ambiente externo, o Universo não precisa de um exterior para se expandir. Uma teoria elegante, proposta por Stephen Hawking, é a da fronteira sem fronteira — um modelo de tempo imaginário no qual o cosmos seria como a superfície da Terra: finito, mas sem uma borda nem uma singularidade inicial.

Conforme Einstein estabeleceu em sua teoria da relatividade geral, pressão negativa gera gravidade repulsiva. Assim, uma substância em estado de inflação cósmica produz uma antigravidade que a explode, e a energia que essa antigravidade usa para expandir cria massa suficiente para que ela duplique de tamanho e continue a duplicar de novo e de novo. Ou seja, cria-se um universo inteiro sem tomar lugar de qualquer outra coisa, e assim diversos espaços infinitos poderiam existir dentro de um espaço finito.

Observação: Não se sabe porque as constantes cósmicas do universo têm os valores que têm, mas sabe-se que isso é fundamental para que tudo exista como conhecemos. O físico Alan Lightman explica no livro The Accidental Universe que se a quantidade de energia escura do nosso universo fosse um pouquinho diferente, a vida nunca poderia ter surgido.

Em suma, o Multiverso de Nível 2 é um conjunto de universos tecnicamente incomunicáveis, já que cada um deles é infinito, apesar de ocupar um espaço finito se visto de fora. Mas a aceitação desse nível de multiverso depende da aceitação geral da própria Teoria da Inflação Eterna, que sugere boas soluções para vários outros problemas misteriosos. Aliás, trata-se da melhor hipótese que temos para resolver um dos problemas mais misteriosos do nosso próprio Universo: o da “afinação” (ou fine-tuning). 

Diferente dos outros dois, o Multiverso de Nível 3 é o "queridinho" das obras de ficção científica e do imaginário popular. Segundo a interpretação de Copenhague, proposta por Niels Bohr e Werner Heisenberg, antes de ser observada, cada partícula se comporta também como onda e está em um estado de superposição quântica — ou seja, em dois ou mais locais ao mesmo tempo. Mas quando observamos essa partícula/onda, ela "escolhe" um local único para se mostrar como partícula. Mas uma teoria alternativa que está ganhando cada vez mais atenção é a chamada Interpretação dos Muitos Mundos, proposta por Hugh Everett em 1957.

Segundo essa teoria, a onda jamais entra em colapso, de modo que todas as possibilidades de localização seriam igualmente verdadeiras, criando uma infinidade de bifurcações quânticas, cada uma dando origem a um universo paralelo, onde tudo que pode acontecer acontece em algum lugar. Ou seja – existem milhões de versões de cada um de nós vivendo em universos ligeiramente ou totalmente diferentes, e cada vez que tomamos uma decisão, um clone de nós toma a decisão oposta em algum universo paralelo.

No famoso experimento do gato de Schrödinger, o gato está em um estado de superposição quântica — vivo e morto ao mesmo tempo —, e seu futuro só é decidido no momento em que a caixa é aberta (obrigando a partícula a decidir se decai ou não). Na Interpretação de Everett, no entanto, o universo se separa em dois, e o gato está vivo num deles e morto no outro, sem jamais interagirem um com o outro.

A ideia de que milhões de universos paralelos existem parece absurda, mas não é mais incoerente do que a possibilidade de uma partícula se comportar como onda, estar em vários locais ao mesmo tempo e mudar de estado de modo totalmente randômico quando é observada (como disse Richard Feynman, "ninguém realmente compreende a mecânica quântica").

Os cientistas avessos à Interpretação dos Muitos Mundos se escoram na Navalha de Occam — a explicação mais simples tende a ser a verdadeira — já que seria complicado adicionar infinitos universos paralelos para justificar a existência do nosso. Mas trata-se apenas de uma maneira diferente de olhar para os mesmos dados e os mesmos resultados, já que as equações que admitem a existência desses universos já existem.

Por último, mas não menos importante, resta dizer que o Multiverso de Nível 4 engloba todos os multiversos dos níveis 1, 2 e 3 numa única estrutura matemática infinitamente complexa, e que aceitar essas hipóteses sobre a maneira como a realidade se comporta vai de encontro (e não ao encontro) a nosso instinto fundamental de acreditar que somos o centro do universo.

Esse tipo de egocentrismo natural pode até ser socialmente repulsivo, mas é a nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento. Mesmo porque nunca tivemos uma experiência da qual não fomos o centro absoluto. Mas talvez o multiverso incomode porque reduz a existência de cada um à sua insignificância, e o ser humano tem dificuldade em aceitar a ideia de que ele não é essencialmente especial.

Continua…

segunda-feira, 27 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — MAIS SOBRE CAVERNAS, ESTRELAS E O BIG BANG

O COSMOS É TUDO O QUE EXISTE, EXISTIU E EXISTIRÁ. OLHE AS ESTRELAS, MAS MANTENHA OS PÉS NO CHÃO. 

Vimos que o Universo se formou há quase 14 bilhões de anos, que nosso sistema solar tem 5 bilhões de anos, que nosso planeta surgiu há cerca de 4,5 bilhões de anos — e que, mesmo assim, bilhões de pessoas tomam o Velho Testamento como jornalismo confiável e o criacionismo como explicação para a origem da vida na Terra. (Mais detalhes no capítulo anterior.)


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Se quiser salvar esta banânia da falência, quem assumir a Presidência em 1º de janeiro de 2027 terá de desarmar a bomba que Lula armou torrando bilhões em programas sociais para dar a falsa ideia de que o país está melhorando. Como ocorreu no início do segundo mandato de Dilma Rousseff, a conta vai ficar no vermelho. Aliás, o roteiro dessa ópera bufa é muito parecido com a de que levou ao impeachment da anta. 

Para segurar a inflação, o Banco Central se vê obrigado a manter a Selic elevada, o que na prática significa que o dinheiro vale menos no mercado e o custo de vida aumenta. Vale destacar que a dívida pública vem crescendo nos últimos quatro anos: em 2022, era 71,7% do PIB; neste ano em que Lula tenta se reeleger, a projeção do mercado é que passe dos 86% em 2026. De acordo com o Ipea, até 2028 a dívida bruta pode alcançar 90% e até 2030, 94,1% do PIB. Para piorar, o tarifaço dos Estados Unidos vai afetar as exportações brasileiras, o crescimento econômico e a geração de emprego, o que atinge o orçamento das famílias, principalmente as mais pobres.

Para não mexer nos benefícios, seria necessário promover um imediato enxugamento da máquina pública ou melhorar a arrecadação do governo sem aumentar impostos — mediante a venda ou concessão de ativos da União, com os recursos direcionados à redução do endividamento. Seja qual for o caminho escolhido pelo próximo presidente, o essencial é reconstruir a previsibilidade. O país precisa mostrar que consegue controlar a dívida sem paralisar a economia e promover crescimento sem reacender a inflação. Caso contrário, continuaremos presos a uma combinação conhecida: juros altos, câmbio vulnerável e crescimento abaixo do potencial.


Não se sabe ao certo por que tantos se recusam a ver o que está diante dos próprios narizes. Afinal, conhecer a verdade, enxergar a verdade e ainda assim abraçar a mentira é tão absurdo quanto repetir os mesmos erros esperando, como no Teorema do Macaco Infinito, que a perseverança produza um acerto.


Uma explicação está no fato de o cérebro humano ser extraordinariamente ruim em lidar com escalas geológicas, e 13,8 bilhões de anos é um número que a intuição simplesmente recusa. Outra explicação passa pela religião tradicional — não confundir com fé —, que não só cumpre (ou deveria cumprir) funções psicológicas e sociais, bem como oferece (ou deveria oferecer) um conforto diante da morte que não tem paralelo na cosmologia científica.


Pode-se argumentar, ainda, que aderir ao criacionismo não é uma posição epistemológica, mas sim uma identidade cultural e tribal, resistente por definição a qualquer evidência. Convém ter em mente que isso não diminui o valor da Bíblia como literatura, mitologia e registro histórico, mas tratar textos do século X a.C. como cosmologia literal — ignorando evidências convergentes de física, biologia, geologia e astronomia — é um problema sério de alfabetização científica, e argumentar com quem renunciou à lógica faz tanto sentido quanto medicar defunto.


As teorias científicas mais aceitas atualmente se baseiam no modelo cosmológico padrão, que é escorado no Big Bang — que, apesar do nome, não teria sido uma explosão, mas o início de uma grande expansão que perdura até hoje. A título de contextualização, dois anos depois de publicar a Teoria da Relatividade Geral, Einstein propôs um modelo de Universo estático e introduziu a constante cosmológica para equilibrar a gravidade e evitar um colapso gravitacional. 


Uma década depois, Edwin Hubble observou que as galáxias estavam se afastando — evidência de que o cosmos estava, de fato, em expansão. Na mesma época, Georges Lemaître deduziu que algo que estava se expandindo deveria ter sido menor em algum momento. Assim, a possibilidade de retornar ao instante em que toda a vastidão do Universo estava concentrada em uma massa extremamente quente e densa deu origem à hipótese do "átomo primordial", segundo a qual o tempo e o espaço só passaram a existir quando esse "átomo primitivo" começou a se expandir. 


A proposta ganhou tração em 1948, quando George Gamow sugeriu que o Universo teria surgido de um clarão de energia oriundo de um gás primordial superdenso. No calor dessa erupção cósmica, os elementos químicos teriam sido "cozinhados" a partir de uma "sopa de partículas fundamentais", deixando como resquício uma radiação de fundo que permeia o cosmos até hoje.

 

No mesmo ano, Fred Hoyle, Thomas Gold e Hermann Bondi levantaram a hipótese de que o Universo não tinha começo nem fim, pois era constantemente "reabastecido" com matéria nova, gerada em todos os lugares e momentos. Durante uma palestra, Hoyle ironizou a ideia de um surgimento cósmico repentino, dizendo que toda a matéria fora criada em um "grande estrondo", num momento específico do passado remoto. 


A ironia pegou, e o termo Big Bang foi rapidamente adotado pela imprensa, mas ignorado por físicos e astrônomos, já que o fenômeno descrito não seria uma explosão no sentido tradicional, mas o início de uma expansão cósmica que começou há quase 14 bilhões de anos e cujos efeitos ainda podem ser observados por meio do desvio para o vermelho na luz das galáxias distantes — indicando que elas continuam se afastando de nós.

 

A despeito da imprecisão, o nome Big Bang se espalhou pelo mundo como um bordão irresistível, e como bem observou alguém mais sábio, "palavras são como arpões, depois que entram é muito difícil tirá-las". Em 1993, a revista Sky and Telescope organizou um concurso para substituir o nome e recebeu 13.099 sugestões de 41 países, mas nenhuma convenceu a banca de jurados, que incluía Carl Sagan, e o nome permaneceu.

 

Hoyle demonstrou que todos os elementos que compõem o Universo estão sendo "cozidos" no caldeirão das estrelas desde sempre, e que a vida deveria ser uma ocorrência comum no cosmos. A ideia não soava absurda para a comunidade científica — segundo o especialista em poeira estelar Ashley King, quase todos os elementos do corpo humano foram forjados em estrelas, muitos deles ejetados por sucessivas supernovas. 


Hoyle foi mais além, sustentando que inúmeras epidemias estariam associadas à passagem de meteoritos cujas partículas trariam vírus à Terra, mas essa tese foi vista como mais compatível com seus 19 romances de ficção científica do que com seu trabalho acadêmico. Ao final, ele entrou para a história como o homem que batizou uma teoria na qual nunca acreditou.


Continua...

sábado, 25 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — DAS CAVERNAS ÀS ESTRELAS

PER ASPERA AD ASTRA.


Segundo os criacionistas, religiosos e outros que abdicaram do bom-senso, Deus criou o mundo e tudo que nele existe em seis dias e descansou no sétimo. De acordo com o arcebispo irlandês James Ussher e seu contemporâneo John Lightfoot, o Criador iniciou os trabalhos às 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C.


À luz da ciência, o Universo surgiu a partir de uma hipotética singularidade há 13,8 bilhões de anos; nosso sistema solar e o planeta Terra se formaram há 4,6 bilhões de anos; a família dos Hominídeos (que inclui os humanos e os grandes símios) divergiu das demais há 20 milhões de anos; o gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos; e o Homo Sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A privatização de serviços públicos tornou-se um tema incontornável da agenda eleitoral de São Paulo. Quando o problema era a falta de luz, o governador culpou as árvores, a concessionária Enel e o governo federal; na hora em que reparos da Sabesp resultam em explosões de tubulações de gás e vagões de trens são convertidos em sucursais do inferno, começa a enxergar um culpado no reflexo do espelho.

Há três dias, a empresa Trivia Trens assumiu a operação de três linhas antes operadas pela CPTM, e desde então inferniza a rotina de cerca de 1 milhão de passageiros que transitam diariamente pelos vagões que seriam administrados com maior eficiência. Nesta quinta-feira, a encrenca evoluiu para o caos, com incêndio, falta de luz e interrupção do serviço.

Há três semanas, a autocrítica disse "bom dia" a Tarcísio de Freitas, apresentando o governador de São Paulo a si mesmo. Aconteceu numa conversa com jornalistas, após a inauguração de uma estação de metrô. Privatista ardoroso, Tarcísio descartou promover novas concessões de transportes sobre trilhos à iniciativa privada.

"Já parou para pensar quantas vezes eu já mudei de opinião?", perguntou o governador. "A gente não concede algo por conceder". 

Tarcísio parece viver a síndrome do que está por vir na campanha. É como se intuísse que as privatizações mal planejadas viraram um vistoso passivo de sua campanha à reeleição. O problema da autocrítica é que ela costuma chegar tarde.


Argumentar com que abriu mão da lógica, como os cegos mentais do escritor português José Saramago, é tão inútil quando medicar um defunto, mas vamos lá:


— O Göbekli Tepe — monumento na Turquia é considerado o templo mais antigo do mundo — foi erguido há mais de 11 mil anos


— As Muralhas de Jericó, que remontam mais ou menos à mesma época, figuram como uma das primeiras proezas de engenharia militar e proteção civil do mundo. 


— Troncos deliberadamente entalhados e encaixados para formar plataformas e passarelas antecedem ao surgimento do próprio Homo sapiens. 


— Marcas artísticas encontradas na Espanha datam de 60 mil anos, e pinturas rupestres representando o cotidiano das cavernas há 50 mil anos. reafirmam as habilidades avançadas de marcenaria na Idade da Pedra. 


— Desenhos de animais na Caverna de Chauvet (França), feitos há 36 mil anos, denotam a. pareceria do Homo Sapiens com os ancestrais dos cães. 


— Adornos e colares descobertos no sítio arqueológico de Santa Elina, em Mato Grosso, têm aproximadamente 25 mil anos, e instrumentos musicais feitos com ossos de abutre e marfim de mamutes, encontrados na caverna de Hohle Fels, na Alemanha, indicam o desenvolvimento da teoria musical e do pensamento complexo abstrato no período Paleolítico.


— Os fragmentos de cerâmica mais antigos conhecidos, com cerca de 20 mil anos, pertencem à caverna Xianrendong, na China, comprovam que os vasos eram modelados e cozidos para armazenar alimentos e ferver água muito antes do início da agricultura estável. 


— Embarcações como as que propiciaram a chegada dos seres humanos à Austrália cruzaram milhares de quilômetros de oceano aberto a partir do Sudeste Asiático, demonstrando que nossos ancestrais tinham conhecimentos rudimentares, de logística e astronomia.


E por aí segue a procissão.


Enquanto o dogma se alimenta da rigidez, a ciência avança justamente por duvidar, por questionar o que hoje parece sólido. Como nos lembram Platão, no Mito da Caverna, Aristóteles, com o axioma "o sábio duvida e o sensato reflete", e a própria ciência, só a dúvida e a revisão constante nos libertam das sombras. 


O que enfraquece a ciência não é a dúvida, mas a arrogância das certezas definitivas. E é justamente essa maleabilidade que a torna tão poderosa — e tão diferente dos discursos religiosos que prometem respostas eternas.


Voltando ao Big Bang, ao surgimento do cosmos e a formação do nosso sistema solar, o universo observável se estende em todas as direções por 42 bilhões de anos-luz (cerca de 397 quatrilhões de quilômetros), e a combinação de seus prótons, elétrons, nêutrons, fótons etc. deu origem a tudo o que existe, de um singelo grão de areia até estrelas e seres vivos. Aliás, o total de grãos de areia de todas as praias da Terra é estimada em 10ˆ22 (ou 10 sextilhões, no sistema de numeração curta usado no Brasil). O cosmos é comparável a uma "colcha" formada por 2ˆ10ˆ118 de "retalhos" (em números ordinários, seriam mais de 30 bilhões de algarismos), cada qual com suas próprias leis físicas, constantes específicas, e cerca de 1 quatrigintilhão (10ˆ105) de partículas subatômicas. 


Físicos renomados sustentam que uma espaçonave singrando o cosmos em linha reta por zilhões de anos acabaria numa galáxia semelhante à nossa, com um sistema solar igual ao nosso e um planeta idêntico à Terra. Não se trata de uma simples possibilidade, como a do teorema do macaco infinito, mas de uma imposição matemática num Universo infinito com combinações finitas de partículas. 


Se nosso hipotético cosmonauta deparasse com um planeta igual ao nosso num universo paralelo, encontraria um clone dele próprio morando numa casa igual à sua, cercado por clones de seus familiares, trabalhando com clones de seus colegas e bebendo com eles em happy hours — tudo isso a 10ˆ10ˆ115 de anos-luz daqui. Para dar uma ideia dessa distância, a Terra fica a 26.000 anos-luz (cerca de 244 quatrilhões de quilômetros) do centro da Via Láctea.

 

Matematicamente falando, é provável que a espaçonave deparasse com uma série de universos paralelos onde as partículas não geraram vida — ou geraram, mas nem remotamente parecido com a vida que existe na Terra. E talvez os "terráqueos" de um desses universos tenham encontrado a cura do câncer, ou Hitler tenha vencido a 2ª Guerra Mundial, dependendo das configurações possíveis das partículas que formam esse universo, mesmo porque, num cosmos grande o suficiente, a existência infinitos clones de nós ou de versões distorcidas de tudo que conhecemos se torna uma certeza.


À luz da física clássica, nada com massa pode se mover à velocidade da luz (sem trocadilho), de modo que talvez jamais encontraremos nossos clones ou versões alternativas da história. Isso sem mencionar que a distância entre o "retalho" que habitamos e o próximo "retalho da colcha cósmica" aumenta conforme o universo se expande, e que as galáxias mais distantes que nossos telescópios conseguem observar ficam nos confins do "nosso retalho".


Se o cosmos não se expandisse, as estrelas mais vetustas distariam pouco menos de 13,8 bilhões de anos-luz da Terra, mas na verdade elas estão a mais de 40 bilhões de anos-luz e continuam se afastando numa velocidade superluminal. Mas como não enxergamos nada além do limite do "nosso retalho", a luz que elas emitem jamais será captada pelos nossos telescópios.

 

Ironicamente, as leis que governam o cosmos são permissivas a ponto de suportar a tese de "mundos paralelos" habitados por clones nossos, mas implacáveis a ponto de mantê-los fora de nosso alcance. E a suprema ironia é que, do ponto de vista do meu clone, que está escrevendo este texto, ou do seu, que o está lendo em outro "retalho", quem está fora de alcance somos nós.


Continua… 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE EQMs

OS HOMENS TEMEM A MORTE COMO AS CRIANÇAS TEMEM A ESCURIDÃO.

Evidências são indícios que apontam para a ocorrência de fatos; fatos são os acontecimentos propriamente ditos; e provas são os meios usados para demonstrar que os fatos efetivamente ocorreram. 


Na percepção distorcida e limitada dos que padecem de cegueira mental, as EQMs (detalhes no capítulo anterior) não são evidências de coisa alguma. Os céticos as veem como um fato, mas não como prova da existência da "alma imortal" ou de que a consciência sobrevive à morte clínica. Para quem tem a mente aberta e cultiva o saudável hábito de raciocinar, esse fenômeno dá o que pensar.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Até um burro cego morde a cenoura de vez em quando. Lula falou muita bobagem durante suas três gestões (bem menos do que Dilma em uma gestão e meia, mas enfim), e, como ensina o teorema do macaco infinito, toda araruta tem seu dia de mingau. Interessa dizer que o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, seu provável adversário na disputa pela Presidência deste ano (que Deus nos livre da vitória de qualquer um desses dois dejetos) foi o sujeito oculto do macróbio eneadáctilo no Fórum em Defesa da Democracia, no sábado 19, em Barcelona. Sem citá-lo, o xamã petista o tratou como um risco à democracia no Brasil. Em timbre de palanque, Lula disse: "Temos um ex-presidente preso condenado a 27 anos de cadeia, temos quatro generais quatro-estrelas presos porque tentaram dar o golpe." Numa referência ao filho de Bolsonaro, disse que "o extremismo não acabou, ele continua vivo e vai disputar eleição outra vez." Quem sabe ouvir nas entrelinhas percebe na fala a intenção de Lula de reativar em 2026 o fator democrático que lhe rendeu a vitória, por pequena margem, na sucessão de 2022. Na campanha de 2022, Lula prometeu governar para todos. Assegurou que faria um governo "para além do PT". Eleito com uma diferença de 1,8 ponto percentual, preferiu intensificar a polarização. Perdeu ao longo de três anos e meio de mandato o apoio dos eleitores que votaram nele para mandar Bolsonaro mais cedo para casa. Na pesquisa Quaest do mês passado, 48% dos independentes diziam que o filho do pai não era mais moderado que sua família. Na sondagem divulgada nesta semana, esse percentual caiu para 45%. Em janeiro, o molusco estava 16 pontos à frente do rival nesse nicho do eleitorado. Agora, a diferença se inverteu por uma vantagem de sete pontos.


EQMs que acontecem quando não há atividade no córtex frontal (morte clínica) são documentadas a partir de relatos feitos pelos próprios pacientes após a reanimação. Se não há registros delas em casos de morte encefálica, é porque a irreversibilidade dessa condição exclui a possibilidade de reanimação — ou seja, se o paciente já atravessou a via de mão única que leva ao "lado de lá", não há como colher seu depoimento, a menos que ele compareça a uma sessão de mesa branca ou reencarne e preserve lembranças da vida anterior.

 

O "roteiro" da maioria das EQMs documentadas é quase sempre o mesmo: a pessoa "trazida de volta" relata que viu próprio corpo morto, foi "sugada" para um túnel de luz, viu a própria vida como num filme, reencontrou parentes já falecidos, mas sentiu que precisava retornar ao corpo. Alguns pacientes descrevem um profundo sentimento de paz e um estado ampliado de consciência, mas os relatos mais impressionantes são os que incluem detalhes do que aconteceu enquanto eles estavam clinicamente mortos, sobretudo porque esses detalhes são confirmados por médicos, parentes e outras pessoas que assistiram aos procedimentos de reanimação. 

 

Se a consciência é produzida pelo cérebro, como ela pode continuar existindo depois que o cérebro parou de funcionar? Não há uma resposta fácil, a não ser para quem se escora em dogmas meramente impositivos — se Deus quis assim, então é assim e ponto final. Mas à luz da ciência, o buraco é mais embaixo (a propósito, sugiro a leitura do livro Experiências de Quase Morte – Ciência, mente e cérebro, do neurocirurgião Edson Amâncio).


EQMs e vida após a morte são coisas diferentes, ainda que correlacionadas. Tudo se resume — se é que se pode "resumir" conceitos tão complexos — à incerteza sobre o que acontece "depois", ou mesmo se existe um "depois". Os religiosos acreditam na imortalidade da alma, mas o que é a religião senão a evolução do misticismo que levou nossos ancestrais a endeusar o Sol, a Lua, os raios, os trovões e tantos outros fenômenos que hoje sabemos que são naturais? 

 

Para os católicos, a alma é única e eterna e a morte carimba o passaporte que autoriza os "bons" a ingressarem no Reino dos Céus — depois de uma escala no Purgatório — e despacha os "maus" para as profundezas da Inferno, onde serão cozidos em óleo fervente ou assados em espetos por toda a eternidade.


Observação: Aqui caberia abrir um parêntese para discutir o conceito de eternidade, mas vou deixar essa discussão para outra ocasião. Quanto ao inferno, sugiro a leitura desta anedota sobre o "inferno brasileiro".

 

Os espíritas acreditam que a alma sobrevive à morte física e passa para um novo plano astral; que Deus nos criou simples e ignorantes — sem discernimento do mal e do bem —; que quem pratica o mal reencarna várias vezes até evoluir espiritualmente; e que quem pratica a caridade, o bem e o amor só reencarna se quiser. Para eles, os espíritos desencarnados possuem a capacidade de se ligar a outros espíritos — encarnados ou não, de acordo com a sintonia e a afinidade dessas almas —, o que explicaria a existência de lugares com diferentes níveis vibratórios..


O Judaísmo admite múltiplas interpretações. Algumas vertentes acreditam na sobrevivência da alma, mas não têm um roteiro definido sobre o que acontece depois da morte — ou mesmo se existe vida após a morte. Segundo a Cabala, a alma é imortal, e as provações que cada um enfrenta em vida levam a seu aperfeiçoamento. Existem, segundo eles, três tipos de almas, e o desligamento do corpo não é imediato (podendo levar de 30 dias a 1 ano). Enquanto a alma está ligada ao corpo, não há possibilidade de reencarnação, daí os familiares do finado cobrirem os espelhos da casa e rezarem o Kadish.

 

Os budistas acreditam que o espírito reencarna, podendo voltar como gente ou como animal, dependendo de sua conduta durante a vida, e que esse ciclo se repete até que o espírito se liberte de seu carma. No Japão, além de flores no caixão, uma tigela com arroz cozido, água, um vaso com flores, velas e incenso são colocados sobre uma mesa, para que nada falte ao morto. 


Para os islâmicos, a vida é uma preparação para outra existência. A morte dá início ao primeiro dia na eternidade, onde as almas dos muçulmanos ficam aguardando o juízo final. Quem seguiu as leis de Alá e as tradições dos profetas é enviado para o Paraíso; e quem foi desviado por Xeitã é despachado para o Inferno.


Segundo o Candomblé, as pessoas são formadas por elementos constitutivos perecíveis (corpo) e imperecíveis (ori), e a vida continua por meio da força vital (o ori retorna em outro corpo, mas dentro da mesma família. Não há punição eterna nem a ideia preconcebida de Céu e Inferno; a morte é considerada uma passagem para outra dimensão, onde os espíritos se reúnem aos guias e orixás. Já na visão dos umbandistas, o universo é formado por sete linhas, cada qual regida por um orixá, e a morte é uma etapa evolutiva (clique aqui para mais detalhes sobre as religiões afro-brasileiras).

 

No Hinduísmo, a pessoa é a alma, não o corpo físico. Após a morte, a alma se separa do corpo e parte rumo a outra dimensão. Almas evoluídas voltam em altas castas — como a dos brâmanes, composta por filósofos e sacerdotes. Guerreiros e políticos pertencem à casta dos xátrias, e os menos evoluídos reencarnam como comerciantes (casta dos vaishyas) ou trabalhadores (casta dos sudras). Quem consegue se desapegar do mundo material e atinge um patamar elevado não está obrigado a reencarnar.

 

Para os batistas, quem aceitar Jesus terá uma vida de paz e felicidade no Paraíso, e quem não aceitar, uma vida de dor, angústias e sofrimento no inferno. Já os adventistas acreditam que os mortos dormem até o momento da ressurreição, quando então os que cumpriram seu papel na Terra ganham a vida eterna, e os demais desaparecem. Para os sectários da Cientologia — como John Travolta e Tom Cruise — o thetan (espírito) sai em busca de um novo corpo no qual retornará à vida. Segundo seus sectários, 75 milhões de anos atrás havia dezenas de planetas governados como uma confederação por Xenu — um líder maligno que enviou bilhões de espíritos para a Terra. Assim, os terráqueos são reencarnações desses extraterrestres, que são imortais e, portanto, continuam reencarnando ad aeternum.

 

A exemplo dos católicos, os evangélicos acreditam no juízo final e na existência de Paraíso, Inferno e Purgatório. A diferença é que, segundo eles, as almas ficam adormecidas até Jesus voltar à Terra e decidir quem irá com ele para o Reino dos Céus e quem passará a eternidade num lago de enxofre e fogo. Já os protestantes descartam a reencarnação, mas não a existência de Céu e Inferno. Segundo eles, o julgamento ocorre não pelas ações da pessoa em vida, mas pela fé que ela teve na palavra de Deus e pelo amor ao Senhor.


De acordo com o fisicalismo — que é o cientificismo reducionista e materialista aplicado à neurociência — o cérebro produz a mente. Seus sectários desdenham das experiências de quase-morte, escarnecem de quem afirma lembrar de vidas passadas e negam a mediunidade — mas não oferecem uma explicação convincente para casos notórios, como os da norte-americana Leonora Piper e do brasileiro Chico Xavier.

 

Não há provas irrefutáveis de que a consciência (ou alma, ou espírito) sobreviva à morte física, mas sobram indícios que levam água a esse moinho. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e cosmólogo e romancista Carl Sagan, ausência de evidências não é evidência de ausência (na verdade, essa ideia foi desenvolvida por William Wright em 1887; Sagan apenas popularizou o aforismo num livro que escreveu sobre a existência de seres extraterrestres). 

 

Escorar-se na falta de evidências para negar a existência de seja lá o que for é afrontar a ciência, já que ela amplia os limites do conhecimento transitando entre o conhecido e o desconhecido. Os fenômenos que mencionei ao longo deste capítulo existem, mas explicá-los é outra história. Por outro lado, refutá-los de plano é o mesmo que retroceder pelo caminho que levou a humanidade do obscurantismo ao iluminismo. Em outras palavras, em não havendo fraude envolvida, negá-los é comprovar o que teria dito Einstein sobre a infinitude da estupidez humana.

 

Continua…