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segunda-feira, 29 de março de 2021

A PERSEVERANÇA E A OBSTINAÇÃO


O Teorema do Macaco Infinito, descrito pelo matemático Émile Borel em 1913, afirma que um macaco, digitando aleatoriamente em um teclado por um intervalo de tempo infinito, quase certamente escreverá a obra completa de Shakespeare — “quase certamente” é um termo matemático com um significado preciso, enquanto o macaco é apenas uma metáfora para um dispositivo abstrato que produza uma sequência aleatória de letras ad infinitum.

Aceitar essa premissa nos autorizaria a dizer que o governo de Jair Messias Bolsonaro, se mantido por um intervalo de tempo infinito, quase certamente produziria ao menos um resultado positivo. A questão é que o país não dispõe de um intervalo de tempo infinito para pôr à prova a teoria.

Por outro lado, antecipar a troca de comando a 18 meses da próxima eleição presidencial é virtualmente impossível, pelo menos se a ideia for seguir o que reza a Constituição. Pôr para andar um dos mais de 70 pedidos de impeachment que dormitam nos escaninhos da Câmara (ora sob o comando do réu Artur Lira) era algo que deveria ter sido feito em algum momento do biênio 2019/20, quando Rodrigo Maia, cantava de galo no terreiro. Mas Botafogo perdeu o bonde da história. 

Levar adiante o pedido de abertura de CPI para investigar as atrocidades havidas na Saúde durante a gestão do vassalo do capitão-cloroquina — que, se houver empenho dos senadores, trará a lume indícios de crimes de responsabilidade suficientes para embasar mais uma dúzia de pedidos de impeachment contra o suserano do general-interventor Eduardo Pesadelo — também demanda tempo e vontade política. Pelo visto, a permanência (ou não) do general da banda no coreto até o final do ano que vem vai depender do Sars-CoV-2 e a prorrogação de seu mandato, da récua de muares descrebrados (que atendem por "elitorado") que sobreviver à pandemia. 

Vale lembrar que o primeiro caso de Covid no Brasil foi registrado em 26 de fevereiro de 2020 e a primeira morte, 20 dias depois. Março contabilizou 5.717 novas infecções e 201 vítimas fatais. Em junho, o número de casos passou de 1 milhão; julho terminou com 2,7 milhões de infecções e 90 mil mortos e 2020, com 7,7 milhões e 195 mil. Hoje, enquanto as águas de março fecham o verão tupiniquim, o braço verde e amarelo da pandemia bate firme e forte: somadas aos 3.368 óbitos ocorridos somente no último sábado, a pilha de cadáveres ultrapassou 310 mil, e a média móvel de mortes nos últimos 7 dias chegou a 2.548 (um aumento de 39% em relação a duas semanas atrás). 

Seria injusto culpar apenas a péssima gestão do capitão-negação no enfrentamento da pandemia por tamanho descalabro, embora não seja possível eximi-lo da responsabilidade. O gerenciamento da crise sanitária foi inepto (para não dizer trágico) desde o início. Uma combinação de negacionismo, gritaria em torno de pautas irrelevantes, silêncio sobre assuntos relevantes e estímulo à discórdia levou a esse descalabro. 

Na gestão Mandetta houve mais acertos do que erros; da passagem de Teich pelo ministério — que durou menos de um mês, porque o oncologista se recusou a recomendar oficialmente um protocolo para uso da cloroquina no tratamento da Covid — restaram a valiosa lição de que “a vida é feita de escolhas”. Promovido pelo morubixaba da aldeia a pajé interino em 16 de maio e efetivado no cargo quatro meses depois, o autodeclarado luminar da logística, fiel seguidor do mandamento militar segundo o qual “um manda e o outro obedece”, transformou em cabide de farda a pasta sob seu comando e numa calamidade maior do que a própria pandemia sua desditosa gestão.

Observação: Em entrevista ao Estadão, Ricardo Lacerda, presidente do banco de investimentos BR Partners, assim se pronunciou: “O despreparo de Jair Bolsonaro está levando ao colapso da saúde e da economia. Seus erros estão fartamente documentados. Chegou a hora de dar um basta a tudo isso. O presidente precisa assumir um compromisso com a ciência e com pessoas que trabalhem e deixem a ideologia de lado. Se for incapaz disso, melhor deixar o cargo.”

Em novembro, o jornal O Estado de S. Paulo revelou que 7 milhões de testes PT-PCR próximos do fim da validade haviam sido “esquecidos” num depósito federal em Guarulhos. O ministério culpou os estados e municípios pela situação, dizendo que se limita a repassar os testes a pedido dos entes federativos. Secretários estaduais e municipais de Saúde acusaram a pasta de ter enviado testes incompletos, com número reduzido de reagentes, tubos e cotonetes para coletar amostras.

Pazuello só apresentou o Plano Nacional de Vacinação após exigência do STF. Pressionado, chegou a dizer que disse que a população começaria a ser imunizada no dia D e na hora H, e a questionar, irritado, o porquê de “tanta ansiedade, tanta angústia” , como se a morte de mais de 1.000 brasileiros todos os dias fosse a coisa mais natural deste mundo. Depois que o governador João Doria ameaçou começar a vacinar os paulistas no dia 17 de janeiro, Pazunaro — ou Bolzuello — despertou de sua letargia, mas os primeiros meses de execução do plano foram marcados por atrasos e revisões de prazo. Só neste mês, em apenas oito dias, o general vassalo do capitão suserano reduziu cinco vezes a previsão de entrega de vacinas (no final de fevereiro, a pasta falava em entregar quase 49 milhões de doses para estados e municípios; em 10 de março, a projeção era de entre 22 milhões e 25 milhões de doses).

Mas não é só. Durante o ápice do colapso sanitário em Manaus, enquanto pacientes morriam nos hospitais por falta de oxigênio, o mestre em logística distribuía kits-covid para um tal “tratamento precoce” que recomendava a ingestão de cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina e doxiciclina a quem apresentasse os primeiros sintomas da doença. Em janeiro, o general esteve em Manaus para lançar um aplicativo (de uso restrito médico) que indicava os mesmos remédios ineficazes, inclusive para crianças. Dias depois, quando a cidade passou a registrar mortes de pacientes por falta de oxigênio, o app foi tirado do ar.

Sob pressão, Pazuello tentou mudar o discurso: “Falamos de atendimento precoce. Não de tratamento precoce”, disse o militar, tornando a emenda ainda pior que o soneto — além de não conter o avanço da doença, a obstinação pelo tratamento inócuo custou rios de dinheiro que poderiam ter sido canalizados para outras ações, como logística de distribuição de vacinas e suprimento de oxigênio para hospitais. Ainda em janeiro, criticado pela compra frustrada de seringas para a campanha de vacinação o logístico de araque argumentou que o fiasco ocorreu porque o preço cobrado pelas empresas ficou acima do valor estimado pelo governo, quando na verdade faltou planejamento para adquirir os insumos com a devida antecedência.

A despeito disso tudo e mais um pouco, ao anunciar a substituição da incompetência em forma de gente pelo cardiologista Marcelo Queiroga, Bolsonaro assim se pronunciou: “Quero cumprimentar o Pazuello, que está nos deixando amanhã (sexta-feira) e fez um brilhante trabalho no Ministério da Saúde. Quando ele assumiu, lá tinha um problema seríssimo de gestão, muitos ralos, muita coisa esquisita e quase nada informatizado. Ele teve fazer uma assepsia no Ministério da Saúde. E fez um trabalho excepcional”.

Errar é humano, persistir no erro é burrice e repeti-lo incontáveis vezes, esperando produzir um acerto, é uma das melhores definições de cretinice que conheço. Em março do ano passado, a pretexto de aumentar a adesão ao isolamento social, o prefeito Bruno Covas bloqueou ruas e avenidas da capital paulista. A medida só não foi inócua porque serviu para produzir engarrafamentos monstruosos. Em maio, com o mesmo propósito, o tucano achou de endurecer as regras do rodízio municipal — mas voltou atrás 5 dias depois, já que a sandice resultou na superlotação no transporte público. Mais adiante, também a pretexto de estimular a adesão ao isolamento social, Covas e o governador João Doria anteciparam uma penca de feriados para produzir um "megaferiadão". Como era esperado, o tiro saiu pela culatra.

Passado um ano, nosso alcaide se inspirou no inusitado “toque de recolher” que foi incluído pelo governo do Estado na fase mais restritiva de combate à pandemia para alterar o horário do rodízio municipal de veículos, que passou a ser das 8h da noite às 5h da manhã, inclusive nos finais de semana. E como se dois erros tivessem o condão de produzir um acerto, Covas requentou a ideia do “megaferiadão”  — desta vez à revelia de Doria, que criticou a “falta de bom senso” do correligionário. Assiste razão ao governador. Pelo que se viu até agora, para além de gerar atritos com prefeitos de municípios da Baixada Santista — que enfrentam o pior momento da pandemia — a ideia asinina do prefeito causou engarrafamentos quilométricos nas rodovias que levam ao litoral. Nem mesmo as barreiras sanitárias feitas pelas prefeituras foram suficientes para barrar a entrada dos viajantes.

Doria governa o maior e mais importante estado do País — a terceira maior economia da América Latina, responsável por 32% do PIB nacional e o único ente da Federação que apresentou crescimento econômico em 2020. Diante de números assim, pergunta o blogueiro, colunista e contestador por natureza Ricardo Kertzman, qual presidente da República poderia ser estúpido o bastante para, em vez de se associar a São Paulo, ser seu detrator? A resposta é: o mesmo que prefere cloroquina à vacina e curandeirismo à ciência, que é amigão de Fabrício Queiroz, pai do dono de uma mansão de R$ 6 milhões e reconhecido mundialmente como o pior governante do mundo.

Políticos vivem da imagem que constroem e das realizações de seus mandatos. Nada mais natural que politizar ao máximo aquilo que importa à população. Tanto Doria quanto Bolsonaro estão de olho em 2022 e nenhum dos faz um pronunciamento público que não seja de cunho político-eleitoral. A diferença é que Doria politizou a pandemia para o bem e salvou vidas, e Bolsonaro, para o mal, e ajudou a matar seus compatriotas. Enquanto o tucano tem o que mostrar, o sociopata sem partido que transformou o Brasil num cemitério continental mente e ofende por não ter o que mostrar. 

Goste-se ou não do jeito do governador de São Paulo — que para mim não fede nem cheira — devemos muito a ele. Goste-se ou não do jeito do presidente da República — que passei a considerar uma versão de Lula com a polaridade invertida, mas ainda mais tosca e mal-acabada que o ex-presidiário — não lhe devemos nada, senão ações penais pela conduta homicida. O “calça apertada” doa seu salário. O “mito” se apropria de rachadinhas. O marqueteiro de São Paulo faz propaganda de vacina. O de Brasília, de cloroquina. 

Se for para aguentar político fanfarrão e ruim de marketing, fico com o “engomadinho” mesmo.

terça-feira, 29 de abril de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 22ª PARTE

UM BARCO SEM COMANDANTE É UM BARCO À DERIVA.


Diversas teorias amplamente aceitas preveem a existência de fenômenos impossíveis de serem observados diretamente. A Relatividade Geral, por exemplo, previu a existência dos buracos negros décadas antes de eles serem avistados de fotografados, e descreveu matematicamente seu interior, embora nenhum buraco negro tenha sido acessado diretamente.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Condenado em 2023 a oito anos e 10 meses de cana, Collor finalmente foi preso última sexta-feira. Visando converter o regime fechado em prisão domiciliar, sua defesa argumentara que, além de ser idoso, o ex-presidente padece de diversas comorbidades que exigem cuidados contínuos e acompanhamento médico especializado.
Não foi essa a impressão deixada pelo Rei Sol durante a audiência de custódia. Interrogado por videoconferência pelo juiz Rafael Henrique, da equipe de Alexandre de Moraes, ele demonstrou estar bem-disposto e chegou a exibir um leve sorriso. Ao ser questionado se tinha alguma doença ou fazia uso de medicação contínua, foi curto e grosso: "Não". Indagado se havia passado por exame de corpo de delito, relatou que uma enfermeira aferiu sua pressão e auscultou seu coração. "Se isso é corpo de delito, então foi feito", concluiu. 
Moraes atendeu ao pedido do réu e o enviou para uma hospedaria "especial" do presídio alagoano de Baldomero Cavalcanti de Oliveira, e determinou que a instituição informasse no prazo de 24 se dispõe de estrutura para garantir que o detento continue vendendo saúde. 
Talvez conviesse à defesa adicionar a amnésia em nova petição ao Supremo: somente um surto de falta de memória levaria um paciente de Parkinson, apneia grave e transtorno bipolar a dizer que não toma remédios.

A Teoria do Multiverso não é uma teoria isolada, mas uma consequência de abordagens como a Inflação Eterna e a Mecânica Quântica. Cientistas renomados — incluindo o saudoso Stephen Hawking — sustentam que os universos paralelos são plausíveis, e Max Tegmark foi além, classificando-os em quatro níveis.

O Multiverso de Nível 1 corresponde à porção do cosmos que ainda não conseguimos avistar porque os últimos 13,8 bilhões de anos foram insuficientes para que sua luz chegasse até nós. Se o universo é infinito, é razoável supor que existam incontáveis regiões idênticas à nossa, além da Esfera de Hubble, que se estende para todos os lados por 49 bilhões de anos-luz. 

A ideia de que tudo que está além desse limite pode ser considerado outro universo se torna ainda mais intrigante quando pensamos que, embora o universo possa ser infinito, as formas de organizar suas partículas são finitas. Assim, se viajássemos indefinidamente em linha reta, acabaríamos encontrando uma galáxia idêntica à Via Láctea, com um planeta igual à Terra e cópias exatas de cada um de nós. A existência desses clones não é apenas uma possibilidade, mas uma previsão matemática. 
 
O que chamamos de "realidade" é apenas a forma como cosmos organiza suas partículas em um dado momento. Esse princípio lembra o famoso teorema do macaco infinito: em um universo com combinações finitas de partículas, um número infinito de possibilidades inevitavelmente gera "universos-espelho". Como o Multiverso de Nível 1 segue as mesmas leis físicas e constantes cosmológicas do nosso Universo, ele poderia, pelo menos em tese, ser explorado quando (e se) nossa tecnologia assim o permitir.

O Multiverso de Nível 2 se baseia na Inflação Cósmica, um desdobramento da Inflação Eterna. Segundo Tegmark, a energia usada para expandir uma região em estado de inflação cria massa suficiente para que essa região continue crescendo sem perder densidade. Como esse processo é autossustentável, ele pode gerar universos inteiros a partir de quase nada. Isso significa que um espaço finito poderia abrigar inúmeros espaços infinitos.

Em resumo, o Multiverso de Nível 2 consiste em vários universos incomunicáveis, cada um infinito em si mesmo. Ainda que sua existência não possa ser provada experimentalmente, a teoria que o sustenta é parte do "pacote" da Inflação Eterna, e aceitar um implica aceitar o outro.

Continua...

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

O BRASILEIRO MERECE!

Em 1949, ao descobrir que todos os eletrodos de um equipamento destinado a medir os efeitos da aceleração e desaceleração em pilotos, o engenheiro aeroespacial panamenho Edward A. Murphy criou um corolário de máximas que ficaria conhecido, mais adiante, como a “Lei de Murphy”. Alguns consideram-na um tratado de negativismo, mas o fato é que ninguém conseguiu revogá-la.

Se algo pode dar errado, dará”, anotou Murphy. Soa fatalista, mas é pura lógica. Se nada dura para sempre, um dia vai quebrar, estragar, deixar de funcionar ou morrer. É mera questão de tempo. 

No Teorema do Macaco Infinito, descrito pelo matemático Émile Borel em 1913, um macaco, digitando aleatoriamente num teclado por um intervalo de tempo infinito, quase certamente criará a obra completa de Shakespeare. O macaco é apenas uma metáfora para um dispositivo abstrato que produza uma sequência aleatória de letras ad infinitum, mas “quase certamente” é um termo matemático com significado preciso.

Fato é que o pão do pobre sempre cai com o lado da manteiga para baixo, e que basta a gente escolher uma fila para a outra começar a andar mais depressa. Por outro lado, se sempre achamos as coisas no último lugar em que as procuramos, é porque não continuamos procurando depois que as encontramos. Mas isso é assunto para outra hora.

O que me leva a essas considerações é o artigo da Lei de Murphy segundo o qual não há nada tão ruim que não possa piorar. Impossível negar essa dura realidade. Cito como exemplo o cenário político atual. Vejamos isso melhor.

Durante o reinado de Lula, passei a ter vergonha de ser brasileiro. Com Dilma na presidência, a vergonha virou nojo. Num primeiro momento, a deposição da anta e a ascensão de Temer acendeu uma luz no fim do túnel. Mas a conversa de alcova que o vampiro do Jaburu manteve, na calada da noite, com certo moedor de carne bilionário deixou evidente que a tal luz era o farol do trem.  

A chama bruxuleante da esperança ressurgiu com a perspectiva da troca de comando em 2018. Mas durou pouco: tivemos de escolher entre o diabo que conhecíamos e o diabo que inevitavelmente passaríamos a conhecer (votar na marionete do criminoso de Garanhuns jamais foi uma opção). Para impedir que o bonifrate do presidiário levasse sua quadrilha de volta ao poder. elegemos o dublê de mau militar e parlamentar medíocre que hoje ocupa o Palácio do Planalto (e o da Alvorada, e a Granja do Torto, e por aí afora).

No segundo turno, votar em quem não se quer para evitar a vitória de quem se quer menos ainda faz parte do jogo político, mas tudo tem limite. Jamais botei fé no capetão, porém nunca imaginei que sua passagem pela Presidência pudesse ser tão desastrosa. 

Como se  vê, nada é tão ruim que não possa piorar.

Observação: Tanto a insistência do picareta dos picaretas em disputar a presidência, mesmo fingindo cumprir pena em Curitiba, numa sala VIP que se fingia de cela, quanto a excrescência a que chamamos "Justiça Eleitoral" reunir sua mais alta cúpula para julgar um pedido cuja desconformidade com a legislação eleitoral qualquer balconista da repartição pública onde se registram candidaturas não levaria mais que alguns minutos para determinar, foram um escárnio, uma bofetada nas fuças dos cidadãos de bem. A essa altura, porém, eu já nem sabia mais como qualificar meu “sentimento nativista”.

A pandemia foi uma fatalidade imprevisível, mas as coisas já andavam mal muito antes de a Covid-19 dar as caras por aqui. 

Relembro o “pibinho” de 2019, que virou chacota nas redes sociais. 

A reforma previdenciária, por cuja aprovação o presidente não só não se empenhou como fez o possível para atrapalhar

A demissão de Mandetta em meio à maior pandemia sanitária dos últimos cem anos. 

A nomeação de um general da ativa para transformar o ministério da Saúde em cabide de fardas (general esse que se sujeita ao papel de taifeiro do capitão-cloroquina e, feito por ele de gato e sapato, dá de ombros e diz que “um manda e o outro obedece”). 

As articulações para empurrar com a barriga a investigação sobre sua interferência na PF (visando proteger familiares e amigos, como o próprio presidente reconheceu). 

A nomeação de ministros da pior qualidade (só na Educação foram quatro até agora, e um pior que o outro). E por aí segue a procissão.

Pelas últimas contas, mais de 50 pedidos de impeachment dormitam sobre a mesa do presidente da Câmara, que só tem olhos para a própria reeleição. Não fosse assim, “Botafogo” veria que o morubixaba de festim afrontou a lei em diversas oportunidades. Entre outras:

Ao apoiar manifestações antidemocráticas;

Ao declarar, em Miami, que as eleições de 2018 foram fraudadas

Ao postar conteúdo pornográfico durante o Carnaval de 2019; 

Ao mandar comemorar o golpe militar de 1964

Ao praticar ofensas de cunho sexual contra a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha

Ao ignorar lei federal e atuar de modo temerário, propiciando a expansão do coronavírus

Ao flertar com a greve de PMs no Ceará, reconhecendo a suposta legitimidade do movimento

Ao afirmar abertamente que foi à CIA para tratar da deposição de Nicolás Maduro

Ao permitir que ministro, sob o seu comando, demitisse de cargo de confiança um fiscal que o havia multado por pesca irregular;

Um oficial militar disse a Eliane Cantanhêde que, para parar de falar besteira, o presidente tem de “tomar um remedinho”. A jornalista comentou: “Isolado no plano internacional, Bolsonaro será derrotado na eleição para prefeitos e tem contra si parcelas expressivas de governadores, juristas, cientistas, médicos, professores, ambientalistas, diplomatas, artistas e analistas. Não satisfeito, bate boca com Mourão, o que divide os militares. Aonde, afinal, o presidente quer chegar?

Pode-se acusar Bolsonaro de tudo, menos de ser original. Até porque a originalidade exige... bom, deixa pra lá. 

Difícil é identificar de quem o presidente de turno “herdou” seus invejáveis predicados. Seu populismo desbragado teria vindo de Lula ou de Jânio? Sua falta de compostura seria inata ou copiada de Trump? Sua inglória gestão acabará como a de Dilma, de Collor, de Jânio ou de Getúlio? Façam suas apostas.

Para concluir, um texto atribuído ao cineasta e jornalista carioca Arnaldo Jabor:

Brasileiro é um povo solidário. Mentira. Brasileiro é babaca. 

Eleger para o cargo mais importante do Estado um sujeito que não tem escolaridade e preparo nem para ser gari, só porque tem uma história de vida sofrida; pagar 40% de sua renda em tributos e ainda dar esmola para pobre na rua, ao invés de cobrar do governo uma solução para pobreza; aceitar que ONG's de direitos humanos fiquem dando pitacos na forma como tratamos nossa criminalidade... Não protestar cada vez que o governo compra colchões para presidiários que queimaram os deles de propósito não é coisa de gente solidária. É coisa de gente otária.

Brasileiro é um povo alegre. Mentira. Brasileiro é bobalhão. 

Fazer piadinha com as imundices que acompanhamos todo dia é o mesmo que tomar bofetada na cara e dar risada. Depois de um massacre que durou quatro dias em São Paulo, ouvir o José Simão fazer piadinha a respeito e achar graça é o mesmo que contar piada no enterro do pai. Brasileiro tem um sério problema. Quando surge um escândalo, em vez de protestar e tomar providências como cidadão, ri feito bobo.

Brasileiro é um povo trabalhador. Mentira. 

Brasileiro é vagabundo por excelência. O brasileiro tenta se enganar, fingindo que os políticos que ocupam cargos públicos no país surgiram de Marte e pousaram em seus cargos, quando na verdade são oriundos do povo. O brasileiro, ao mesmo tempo que fica indignado ao ver um deputado receber R$ 33 mil por mês para trabalhar 3 dias e coçar o saco o resto da semana, também sente inveja e sabe que se estivesse no lugar dele faria o mesmo. Um povo que se conforma em receber uma esmola do governo de R$ 300 mensais para não fazer nada e não aproveita isso para alavancar sua vida (realidade da brutal maioria dos beneficiários do bolsa família) não pode ser adjetivado de outra coisa que não de vagabundo.

Brasileiro é um povo honesto. Mentira. Já foi; hoje é uma qualidade em baixa. 

Se você oferecer 50 euros a um policial europeu para ele não te autuar, provavelmente irá preso. Não por medo de ser pego, mas porque ele sabe ser errado aceitar propinas. O brasileiro, ao mesmo tempo que fica indignado com a roubalheira dos políticos, pensa intimamente o que faria se arrumasse uma boquinha dessas, quando na realidade isso sequer deveria passar por sua cabeça.

90% de quem vive na favela é gente honesta e trabalhadora. Mentira. Já foi. 

Historicamente, as favelas se iniciaram nos morros cariocas quando os negros e mulatos, retornando da Guerra do Paraguai, ali se instalaram. Naquela época, quem morava lá era gente honesta, que não tinha alternativa e não concordava com o crime. Hoje a realidade é diferente. Muito pai de família sonha que o filho seja aceito como "aviãozinho" do tráfico. Se a maioria da favela fosse honesta, os bandidos já teriam sido tocados de lá, pois podem matar 2 ou 3, mas não milhares de pessoas. Além disso, cooperariam com a polícia na identificação dos criminosos, inibindo-os de montar suas bases de operação nas favelas.

O Brasil é um país democrático. Mentira. 

Num país democrático, a vontade da maioria é Lei. A maioria do povo acha que bandido bom é bandido morto, mas sucumbe a uma minoria barulhenta que se apressa em dizer que um bandido que foi morto numa troca de tiros foi executado friamente. Num país onde todos têm direitos, mas ninguém tem obrigações, não há que falar em democracia, e sim em anarquia. Num país onde a maioria sucumbe bovinamente ante uma minoria barulhenta, não existe democracia, mas um simulacro hipócrita. Se tirarmos o pano do politicamente correto, veremos que vivemos numa sociedade feudal: um rei que detém o poder central (presidente e suas MPs), seguido de duques, condes, arquiduques e senhores feudais (ministros, senadores, deputados, prefeitos, vereadores). Todos sustentados pelo povo, que paga tributos para sustentar os privilégios do poder. E ainda somos obrigados a votar!

Democracia isso? Pense! 

O famoso jeitinho brasileiro é um dos maiores responsáveis pelo caos que se tornou a política. Brasileiro se acha malandro, muito esperto. Faz um "gato" puxando a TV a cabo do vizinho e acha que está botando pra quebrar. Se o caixa da padaria erra no troco e devolve 6 reais a mais, caramba, ele sai de lá feliz como se tivesse ganhado na loto... malandrões, esquecem que pagam a maior carga tributária do planeta e o retorno é zero. Zero saúde, zero emprego, zero educação. Mas e daí? Somos penta campeões do mundo, né?

O Brasil é o país do futuro. 

Caramba, meus avós diziam isso em 1950. Muitas vezes cheguei a imaginar como seria sua indignação se ainda estivessem vivos. Dessa vergonha eles se safaram... Brasil, o país do futuro!? Hoje o futuro chegou e tivemos uma das piores taxas de crescimento do mundo.

Deus é brasileiro. 

Puxa, essa eu não vou nem comentar... O que me deixa mais triste e inconformado é ver todos os dias nos jornais a manchete da vitória do governo mais sujo já visto em toda a história brasileira.

Para finalizar: O brasileiro merece! Como diz o ditado, é igual mulher de malandro, gosta de apanhar.

P.S. Publiquei esse texto de Jabor em 2007. Naquela época, visitantes e blogueiro interagiam regularmente. Raro era o dia em que eu não recebia dezenas de mensagens com comentários, sugestões, dúvidas, pedidos de informação e até "colaborações". Esse artigo foi uma delas, e eu o vendi pelo preço que paguei, ou seja, mantive o crédito dado originalmente a Jabor, o que não significa necessariamente que o cineasta o tenha escrito. Evitei ao máximo mexer no conteúdo, embora tenha alterado duas ou três vírgulas, não só pelo fato de a má colocação fugir à norma culta (outras fugiram e eu as mantive), mas porque comprometia o sentido da frase. Ah, também atualizei os valores. Mas o fulcro da questão, a meu ver, é que, se analisarmos o contexto com um todo, veremos que só mudaram as moscas. A merda, infelizmente, continua a mesma.

sábado, 25 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — DAS CAVERNAS ÀS ESTRELAS

PER ASPERA AD ASTRA.


Segundo os criacionistas, religiosos e outros que abdicaram do bom-senso, Deus criou o mundo e tudo que nele existe em seis dias e descansou no sétimo. De acordo com o arcebispo irlandês James Ussher e seu contemporâneo John Lightfoot, o Criador iniciou os trabalhos às 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C.


À luz da ciência, o Universo surgiu a partir de uma hipotética singularidade há 13,8 bilhões de anos; nosso sistema solar e o planeta Terra se formaram há 4,6 bilhões de anos; a família dos Hominídeos (que inclui os humanos e os grandes símios) divergiu das demais há 20 milhões de anos; o gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos; e o Homo Sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A privatização de serviços públicos tornou-se um tema incontornável da agenda eleitoral de São Paulo. Quando o problema era a falta de luz, o governador culpou as árvores, a concessionária Enel e o governo federal; na hora em que reparos da Sabesp resultam em explosões de tubulações de gás e vagões de trens são convertidos em sucursais do inferno, começa a enxergar um culpado no reflexo do espelho.

Há três dias, a empresa Trivia Trens assumiu a operação de três linhas antes operadas pela CPTM, e desde então inferniza a rotina de cerca de 1 milhão de passageiros que transitam diariamente pelos vagões que seriam administrados com maior eficiência. Nesta quinta-feira, a encrenca evoluiu para o caos, com incêndio, falta de luz e interrupção do serviço.

Há três semanas, a autocrítica disse "bom dia" a Tarcísio de Freitas, apresentando o governador de São Paulo a si mesmo. Aconteceu numa conversa com jornalistas, após a inauguração de uma estação de metrô. Privatista ardoroso, Tarcísio descartou promover novas concessões de transportes sobre trilhos à iniciativa privada.

"Já parou para pensar quantas vezes eu já mudei de opinião?", perguntou o governador. "A gente não concede algo por conceder". 

Tarcísio parece viver a síndrome do que está por vir na campanha. É como se intuísse que as privatizações mal planejadas viraram um vistoso passivo de sua campanha à reeleição. O problema da autocrítica é que ela costuma chegar tarde.


Argumentar com que abriu mão da lógica, como os cegos mentais do escritor português José Saramago, é tão inútil quando medicar um defunto, mas vamos lá:


— O Göbekli Tepe — monumento na Turquia é considerado o templo mais antigo do mundo — foi erguido há mais de 11 mil anos


— As Muralhas de Jericó, que remontam mais ou menos à mesma época, figuram como uma das primeiras proezas de engenharia militar e proteção civil do mundo. 


— Troncos deliberadamente entalhados e encaixados para formar plataformas e passarelas antecedem ao surgimento do próprio Homo sapiens. 


— Marcas artísticas encontradas na Espanha datam de 60 mil anos, e pinturas rupestres representando o cotidiano das cavernas há 50 mil anos. reafirmam as habilidades avançadas de marcenaria na Idade da Pedra. 


— Desenhos de animais na Caverna de Chauvet (França), feitos há 36 mil anos, denotam a. pareceria do Homo Sapiens com os ancestrais dos cães. 


— Adornos e colares descobertos no sítio arqueológico de Santa Elina, em Mato Grosso, têm aproximadamente 25 mil anos, e instrumentos musicais feitos com ossos de abutre e marfim de mamutes, encontrados na caverna de Hohle Fels, na Alemanha, indicam o desenvolvimento da teoria musical e do pensamento complexo abstrato no período Paleolítico.


— Os fragmentos de cerâmica mais antigos conhecidos, com cerca de 20 mil anos, pertencem à caverna Xianrendong, na China, comprovam que os vasos eram modelados e cozidos para armazenar alimentos e ferver água muito antes do início da agricultura estável. 


— Embarcações como as que propiciaram a chegada dos seres humanos à Austrália cruzaram milhares de quilômetros de oceano aberto a partir do Sudeste Asiático, demonstrando que nossos ancestrais tinham conhecimentos rudimentares, de logística e astronomia.


E por aí segue a procissão.


Enquanto o dogma se alimenta da rigidez, a ciência avança justamente por duvidar, por questionar o que hoje parece sólido. Como nos lembram Platão, no Mito da Caverna, Aristóteles, com o axioma "o sábio duvida e o sensato reflete", e a própria ciência, só a dúvida e a revisão constante nos libertam das sombras. 


O que enfraquece a ciência não é a dúvida, mas a arrogância das certezas definitivas. E é justamente essa maleabilidade que a torna tão poderosa — e tão diferente dos discursos religiosos que prometem respostas eternas.


Voltando ao Big Bang, ao surgimento do cosmos e a formação do nosso sistema solar, o universo observável se estende em todas as direções por 42 bilhões de anos-luz (cerca de 397 quatrilhões de quilômetros), e a combinação de seus prótons, elétrons, nêutrons, fótons etc. deu origem a tudo o que existe, de um singelo grão de areia até estrelas e seres vivos. Aliás, o total de grãos de areia de todas as praias da Terra é estimada em 10ˆ22 (ou 10 sextilhões, no sistema de numeração curta usado no Brasil). O cosmos é comparável a uma "colcha" formada por 2ˆ10ˆ118 de "retalhos" (em números ordinários, seriam mais de 30 bilhões de algarismos), cada qual com suas próprias leis físicas, constantes específicas, e cerca de 1 quatrigintilhão (10ˆ105) de partículas subatômicas. 


Físicos renomados sustentam que uma espaçonave singrando o cosmos em linha reta por zilhões de anos acabaria numa galáxia semelhante à nossa, com um sistema solar igual ao nosso e um planeta idêntico à Terra. Não se trata de uma simples possibilidade, como a do teorema do macaco infinito, mas de uma imposição matemática num Universo infinito com combinações finitas de partículas. 


Se nosso hipotético cosmonauta deparasse com um planeta igual ao nosso num universo paralelo, encontraria um clone dele próprio morando numa casa igual à sua, cercado por clones de seus familiares, trabalhando com clones de seus colegas e bebendo com eles em happy hours — tudo isso a 10ˆ10ˆ115 de anos-luz daqui. Para dar uma ideia dessa distância, a Terra fica a 26.000 anos-luz (cerca de 244 quatrilhões de quilômetros) do centro da Via Láctea.

 

Matematicamente falando, é provável que a espaçonave deparasse com uma série de universos paralelos onde as partículas não geraram vida — ou geraram, mas nem remotamente parecido com a vida que existe na Terra. E talvez os "terráqueos" de um desses universos tenham encontrado a cura do câncer, ou Hitler tenha vencido a 2ª Guerra Mundial, dependendo das configurações possíveis das partículas que formam esse universo, mesmo porque, num cosmos grande o suficiente, a existência infinitos clones de nós ou de versões distorcidas de tudo que conhecemos se torna uma certeza.


À luz da física clássica, nada com massa pode se mover à velocidade da luz (sem trocadilho), de modo que talvez jamais encontraremos nossos clones ou versões alternativas da história. Isso sem mencionar que a distância entre o "retalho" que habitamos e o próximo "retalho da colcha cósmica" aumenta conforme o universo se expande, e que as galáxias mais distantes que nossos telescópios conseguem observar ficam nos confins do "nosso retalho".


Se o cosmos não se expandisse, as estrelas mais vetustas distariam pouco menos de 13,8 bilhões de anos-luz da Terra, mas na verdade elas estão a mais de 40 bilhões de anos-luz e continuam se afastando a uma velocidade superluminal. No entanto, como não enxergamos nada além do limite do "nosso retalho", a luz que essas estrekas emitem jamais será captada pelos nossos telescópios.

 

Ironicamente, as leis que governam o cosmos são permissivas a ponto de suportar a tese de "mundos paralelos" habitados por clones nossos, mas implacáveis a ponto de mantê-los fora de nosso alcance. E a suprema ironia é que, do ponto de vista do meu clone, que está escrevendo este texto, ou do seu, que o está lendo em outro "retalho", quem está fora de alcance somos nós.


Continua… 

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR



Se tanto Bolsonaro quanto Lula odeiam a imprensa, por que o fundador do partido dos trabalhadores que não trabalham sempre foi mimado e enaltecendo até por virtudes que não tinha, enquanto o capitão caverna é tratado como inimigo público?

Se o juiz condena o réu, como este pode continuar a ser considerado inocente?

Se a súmula 09 do STJ cristalizou o entendimento de que a prisão do condenado em segunda instância não ofende a presunção de inocência; se, nos últimos 80 anos, a prisão após o trânsito em julgado vigeu somente entre 2009 e 2016, e se, a despeito de esse tema ter sido rediscutido três vezes desde 2016, por que diabos o STF o está julgando novamente?

Observação: A suprema banda podre, digo, ala garantista, parece querer pôr à prova o Teorema do Macaco Infinito, segundo o qual um milhão de macacos datilografando aleatoriamente em um milhão de máquinas de escrever formaria em algum momento a obra completa de Shakespeare.

Por ter vestido uma camiseta com a foto do candidato Bolsonaro, a procuradora Carmen Bastos teve de se afastar do caso Marielle; por ter sido advogado de Lula, Dias Toffoli virou presidente do STF e quer livrar o chefão da cadeia com o fim da prisão de condenados em 2ª instância. Será que há dois tipos de procuradores no Ministério Público? É o que parece, pois os que votaram em Bolsonaro são expulsos de casos que interessam o PT, e os que votam no PT podem tudo, o mundo acaba se alguém tocar neles.

Por que mortes como as de Ulysses Guimarães (1992), PC Farias (1996), Celso Daniel (2002), Eduardo Campos (2014), Teori Zavascki (2017), Marielle Franco (2018) e o atentado contra o então candidato Jair Bolsonaro (2018) continuam sem solução ou foram classificados como "acidentes" e soterrados sob conclusões nada convincentes? Falta competência à nossa polícia ou vontade política para deixar os policiais fazerem seu trabalho?

Observação: Embora não se trate de crime contra a vida e sim de assassinato de reputações, a espúria Vaza-Jato, produzida a partir de informações tóxicas extraídas de arquivos com conteúdo mais que suspeito e obtidos criminosamente (hackeamento digital), tem indícios claros do envolvimento de Manuela D'Ávila. Segundo diálogos anexados ao inquérito que apura o caso, o líder do grupo hacker, conhecido como Vermelho, ofereceu à ex-deputada psolista munição com poder de fogo para de tirar Lula da prisão e anular os processos da Lava-Jato, e ela mediou a transação entre ele e Verdevaldo das Couves. Tudo com a mais pura das intenções, naturalmente...

Responda quem souber.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE EQMs

OS HOMENS TEMEM A MORTE COMO AS CRIANÇAS TEMEM A ESCURIDÃO.

Evidências são indícios que apontam para a ocorrência de fatos; fatos são os acontecimentos propriamente ditos; e provas são os meios usados para demonstrar que os fatos efetivamente ocorreram. 


Na percepção distorcida e limitada dos que padecem de cegueira mental, as EQMs (detalhes no capítulo anterior) não são evidências de coisa alguma. Os céticos as veem como um fato, mas não como prova da existência da "alma imortal" ou de que a consciência sobrevive à morte clínica. Para quem tem a mente aberta e cultiva o saudável hábito de raciocinar, esse fenômeno dá o que pensar.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Até um burro cego morde a cenoura de vez em quando. Lula falou muita bobagem durante suas três gestões (bem menos do que Dilma em uma gestão e meia, mas enfim), e, como ensina o teorema do macaco infinito, toda araruta tem seu dia de mingau. Interessa dizer que o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, seu provável adversário na disputa pela Presidência deste ano (que Deus nos livre da vitória de qualquer um desses dois dejetos) foi o sujeito oculto do macróbio eneadáctilo no Fórum em Defesa da Democracia, no sábado 19, em Barcelona. Sem citá-lo, o xamã petista o tratou como um risco à democracia no Brasil. Em timbre de palanque, Lula disse: "Temos um ex-presidente preso condenado a 27 anos de cadeia, temos quatro generais quatro-estrelas presos porque tentaram dar o golpe." Numa referência ao filho de Bolsonaro, disse que "o extremismo não acabou, ele continua vivo e vai disputar eleição outra vez." Quem sabe ouvir nas entrelinhas percebe na fala a intenção de Lula de reativar em 2026 o fator democrático que lhe rendeu a vitória, por pequena margem, na sucessão de 2022. Na campanha de 2022, Lula prometeu governar para todos. Assegurou que faria um governo "para além do PT". Eleito com uma diferença de 1,8 ponto percentual, preferiu intensificar a polarização. Perdeu ao longo de três anos e meio de mandato o apoio dos eleitores que votaram nele para mandar Bolsonaro mais cedo para casa. Na pesquisa Quaest do mês passado, 48% dos independentes diziam que o filho do pai não era mais moderado que sua família. Na sondagem divulgada nesta semana, esse percentual caiu para 45%. Em janeiro, o molusco estava 16 pontos à frente do rival nesse nicho do eleitorado. Agora, a diferença se inverteu por uma vantagem de sete pontos.


EQMs que acontecem quando não há atividade no córtex frontal (morte clínica) são documentadas a partir de relatos feitos pelos próprios pacientes após a reanimação. Se não há registros delas em casos de morte encefálica, é porque a irreversibilidade dessa condição exclui a possibilidade de reanimação — ou seja, se o paciente já atravessou a via de mão única que leva ao "lado de lá", não há como colher seu depoimento, a menos que ele compareça a uma sessão de mesa branca ou reencarne e preserve lembranças da vida anterior.

 

O "roteiro" da maioria das EQMs documentadas é quase sempre o mesmo: a pessoa "trazida de volta" relata que viu próprio corpo morto, foi "sugada" para um túnel de luz, viu a própria vida como num filme, reencontrou parentes já falecidos, mas sentiu que precisava retornar ao corpo. Alguns pacientes descrevem um profundo sentimento de paz e um estado ampliado de consciência, mas os relatos mais impressionantes são os que incluem detalhes do que aconteceu enquanto eles estavam clinicamente mortos, sobretudo porque esses detalhes são confirmados por médicos, parentes e outras pessoas que assistiram aos procedimentos de reanimação. 

 

Se a consciência é produzida pelo cérebro, como ela pode continuar existindo depois que o cérebro parou de funcionar? Não há uma resposta fácil, a não ser para quem se escora em dogmas meramente impositivos — se Deus quis assim, então é assim e ponto final. Mas à luz da ciência, o buraco é mais embaixo (a propósito, sugiro a leitura do livro Experiências de Quase Morte – Ciência, mente e cérebro, do neurocirurgião Edson Amâncio).


EQMs e vida após a morte são coisas diferentes, ainda que correlacionadas. Tudo se resume — se é que se pode "resumir" conceitos tão complexos — à incerteza sobre o que acontece "depois", ou mesmo se existe um "depois". Os religiosos acreditam na imortalidade da alma, mas o que é a religião senão a evolução do misticismo que levou nossos ancestrais a endeusar o Sol, a Lua, os raios, os trovões e tantos outros fenômenos que hoje sabemos que são naturais? 

 

Para os católicos, a alma é única e eterna e a morte carimba o passaporte que autoriza os "bons" a ingressarem no Reino dos Céus — depois de uma escala no Purgatório — e despacha os "maus" para as profundezas da Inferno, onde serão cozidos em óleo fervente ou assados em espetos por toda a eternidade.


Observação: Aqui caberia abrir um parêntese para discutir o conceito de eternidade, mas vou deixar essa discussão para outra ocasião. Quanto ao inferno, sugiro a leitura desta anedota sobre o "inferno brasileiro".

 

Os espíritas acreditam que a alma sobrevive à morte física e passa para um novo plano astral; que Deus nos criou simples e ignorantes — sem discernimento do mal e do bem —; que quem pratica o mal reencarna várias vezes até evoluir espiritualmente; e que quem pratica a caridade, o bem e o amor só reencarna se quiser. Para eles, os espíritos desencarnados possuem a capacidade de se ligar a outros espíritos — encarnados ou não, de acordo com a sintonia e a afinidade dessas almas —, o que explicaria a existência de lugares com diferentes níveis vibratórios..


O Judaísmo admite múltiplas interpretações. Algumas vertentes acreditam na sobrevivência da alma, mas não têm um roteiro definido sobre o que acontece depois da morte — ou mesmo se existe vida após a morte. Segundo a Cabala, a alma é imortal, e as provações que cada um enfrenta em vida levam a seu aperfeiçoamento. Existem, segundo eles, três tipos de almas, e o desligamento do corpo não é imediato (podendo levar de 30 dias a 1 ano). Enquanto a alma está ligada ao corpo, não há possibilidade de reencarnação, daí os familiares do finado cobrirem os espelhos da casa e rezarem o Kadish.

 

Os budistas acreditam que o espírito reencarna, podendo voltar como gente ou como animal, dependendo de sua conduta durante a vida, e que esse ciclo se repete até que o espírito se liberte de seu carma. No Japão, além de flores no caixão, uma tigela com arroz cozido, água, um vaso com flores, velas e incenso são colocados sobre uma mesa, para que nada falte ao morto. 


Para os islâmicos, a vida é uma preparação para outra existência. A morte dá início ao primeiro dia na eternidade, onde as almas dos muçulmanos ficam aguardando o juízo final. Quem seguiu as leis de Alá e as tradições dos profetas é enviado para o Paraíso; e quem foi desviado por Xeitã é despachado para o Inferno.


Segundo o Candomblé, as pessoas são formadas por elementos constitutivos perecíveis (corpo) e imperecíveis (ori), e a vida continua por meio da força vital (o ori retorna em outro corpo, mas dentro da mesma família. Não há punição eterna nem a ideia preconcebida de Céu e Inferno; a morte é considerada uma passagem para outra dimensão, onde os espíritos se reúnem aos guias e orixás. Já na visão dos umbandistas, o universo é formado por sete linhas, cada qual regida por um orixá, e a morte é uma etapa evolutiva (clique aqui para mais detalhes sobre as religiões afro-brasileiras).

 

No Hinduísmo, a pessoa é a alma, não o corpo físico. Após a morte, a alma se separa do corpo e parte rumo a outra dimensão. Almas evoluídas voltam em altas castas — como a dos brâmanes, composta por filósofos e sacerdotes. Guerreiros e políticos pertencem à casta dos xátrias, e os menos evoluídos reencarnam como comerciantes (casta dos vaishyas) ou trabalhadores (casta dos sudras). Quem consegue se desapegar do mundo material e atinge um patamar elevado não está obrigado a reencarnar.

 

Para os batistas, quem aceitar Jesus terá uma vida de paz e felicidade no Paraíso, e quem não aceitar, uma vida de dor, angústias e sofrimento no inferno. Já os adventistas acreditam que os mortos dormem até o momento da ressurreição, quando então os que cumpriram seu papel na Terra ganham a vida eterna, e os demais desaparecem. Para os sectários da Cientologia — como John Travolta e Tom Cruise — o thetan (espírito) sai em busca de um novo corpo no qual retornará à vida. Segundo seus sectários, 75 milhões de anos atrás havia dezenas de planetas governados como uma confederação por Xenu — um líder maligno que enviou bilhões de espíritos para a Terra. Assim, os terráqueos são reencarnações desses extraterrestres, que são imortais e, portanto, continuam reencarnando ad aeternum.

 

A exemplo dos católicos, os evangélicos acreditam no juízo final e na existência de Paraíso, Inferno e Purgatório. A diferença é que, segundo eles, as almas ficam adormecidas até Jesus voltar à Terra e decidir quem irá com ele para o Reino dos Céus e quem passará a eternidade num lago de enxofre e fogo. Já os protestantes descartam a reencarnação, mas não a existência de Céu e Inferno. Segundo eles, o julgamento ocorre não pelas ações da pessoa em vida, mas pela fé que ela teve na palavra de Deus e pelo amor ao Senhor.


De acordo com o fisicalismo — que é o cientificismo reducionista e materialista aplicado à neurociência — o cérebro produz a mente. Seus sectários desdenham das experiências de quase-morte, escarnecem de quem afirma lembrar de vidas passadas e negam a mediunidade — mas não oferecem uma explicação convincente para casos notórios, como os da norte-americana Leonora Piper e do brasileiro Chico Xavier.

 

Não há provas irrefutáveis de que a consciência (ou alma, ou espírito) sobreviva à morte física, mas sobram indícios que levam água a esse moinho. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e cosmólogo e romancista Carl Sagan, ausência de evidências não é evidência de ausência (na verdade, essa ideia foi desenvolvida por William Wright em 1887; Sagan apenas popularizou o aforismo num livro que escreveu sobre a existência de seres extraterrestres). 

 

Escorar-se na falta de evidências para negar a existência de seja lá o que for é afrontar a ciência, já que ela amplia os limites do conhecimento transitando entre o conhecido e o desconhecido. Os fenômenos que mencionei ao longo deste capítulo existem, mas explicá-los é outra história. Por outro lado, refutá-los de plano é o mesmo que retroceder pelo caminho que levou a humanidade do obscurantismo ao iluminismo. Em outras palavras, em não havendo fraude envolvida, negá-los é comprovar o que teria dito Einstein sobre a infinitude da estupidez humana.

 

Continua…