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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

VIAGEM FANTÁSTICA — PROJETO: MINIATURIZAÇÃO

A FICÇÃO DE HOJE PODE SER A CIÊNCIA DE AMANHÃ.

Quando falamos em miniaturização, logo nos vem à mente o clássico Viagem Fantástica, no qual cientistas encolhem um submarino e sua tripulação para um tamanho microscópico para navegar pela corrente sanguínea de um diplomata e salvar sua vida. Todavia, esta postagem tem menos a ver com ficção e mais com as mudanças tecnológicas de meados do século passado a esta parte. Senão vejamos.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Flávio Rachadinha Bolsonaro esperou até o último dia do prazo para o registro das candidaturas para definir que o deputado estadual Alfredo Gaspar ocupará a vaga de vice-presidente em sua chapa. A decisão veio depois que o Republicanos, o PP e a federação entre União Brasil optaram pela neutralidade. 

Ex-promotor de Justiça, ex-procurador-geral de Justiça e ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas, Gaspar foi eleito deputado federal em 2022 e ganhou projeção nacional como relator da CPMI do INSS. Na convenção, Flávio destacou a trajetória do parlamentar na área de segurança pública, sua atuação na comissão e a representatividade de Alagoas e do Nordeste na chapa, bem como lembrou que o deputado pediu a prisão de Lulinha e ressaltou que o vice representa “o Nordeste de fato”. A escolha frustrou a expectativa de parte do PL, que defendia o nome de uma mulher para vice..

Segundo aliados, o ex-presidente golpista e atualmente presidiário Jair Bolsonaro aprovou a indicação (é público e notório que, sem o aval de Bibo Pai, Bobi Filho não solta sequer um peido). 

A definição ocorreu de forma acelerada: na terça-feira o deputado havia sido oficializado pelo PL como candidato ao Senado por Alagoas e, menos de 24 horas depois, deixou a disputa estadual para ser anunciado como candidato a vice-presidente, e comprou uma passagem de última hora para Brasília.

Integrantes do bolsonarismo avaliam que o parlamentar tem baixo potencial eleitoral, não amplia a presença da chapa entre o eleitorado feminino e tampouco reduz a resistência de parte do mercado financeiro à candidatura de Flávio. Nos bastidores, dirigentes do PL classificam Gaspar como um nome de pouca projeção nacional e sem capacidade de agregar votos. Isso sem falar que Gaspar é alvo de um pedido de investigação da PF no STF por suspeita de estupro de vulnerável — uma adolescente de 13 anos que teria engravidado —, além de alegações de tentativa de suborno para manter a família em silêncio e do suposto desvio de R$ 6 milhões em emendas parlamentares.

A ex-primeira dama e madrasta de Flávio não compareceu ao anúncio da escolha do vice na chapa do enteado porque, de acordo com a senadora Damares Alves, estava fazendo almoço para o marido, que se encontra em prisão domiciliar.

E viva o povo brasileiro.


Nossa realidade se parece cada vez mais com o desenho animado Os Jetsons, criado por William Hanna e Joseph Barbera e lançado em 1962, na esteira do sucesso de Os Flintstones, que retratava a vida de uma família da idade da pedra. No seriado futurista, os criadores teorizavam como seria viver em 2062, com carros voadores, robôs e outras tecnologias incríveis. 


Como a vida imita a arte, as videochamadas — corriqueiras para a família Jetson, mas que não passavam de ficção científica em 1962 — foram fundamentais durante a pandemia da Covid. Os televisores de telas finíssimas, comuns nos dias atuais, também não existiam na década de 60. Além de mostrar as horas, os relógios funcionavam como videofones e controlavam dispositivos domésticos — coisa que só se tornou possível no mundo real após o lançamento do Samsung Galaxy Gear


Observação: O primeiro relógio "inteligente" foi o Seiko Ruputer (1998), que dispunha de processador de 8 bits a 3.6 MHz, 128 kB de RAM, 2 MB de armazenamento, tela de quartzo líquido (monocromática) de 102 x 64 pixels e um joystick em miniatura, que permitia interagir com o software interno. O gadget oferecia calendário com agenda, calculadora e games, mas sua baixa autonomia e a escassez de aplicativos decepcionaram os consumidores.  

 

Em alguns episódios, Jane, a matriarca da família, ativava um pequeno robô que aspirava a casa os modernos aspiradores inteligentes. Já a robô-faxineira Rosey era um sonho de consumo que pode virar realidade em breve: a Aeolus Robotics já anunciou um robô doméstico com formato humanoide semelhante ao do desenho. 

 

Quando se trata de retratar o futuro em produções audiovisuais, o maior clichê são os carros voadores, que têm presença garantida nos mundo dos Jetsons. Na vida real, ainda não os vemos cruzando o céu, mas a promessa já existe: além do Gênesis X1, da startup cearense Vertical Connect, modelos da Eve — empresa de mobilidade aérea urbana da Embraer — devem ser lançados no mercado brasileiro ainda este ano.


Se as tecnologias exibidas no desenho encantavam os telespectadores pela funcionalidade, o Jetpack ganhava as crianças pelo viés da diversão: colocar uma mochila nas costas e voar, como fazia o menino Elroy, era o sonho de consumo dos pequenos espectadores. Mas essa tecnologia existe desde 2021, quando a empresa JetPack Aviation vendeu várias unidades para militares de um país do sudeste asiático.

 

Quanto às viagens espaciais, um estudo baseado no voo dos albatrozes avalia a possibilidade de aproveitar os ventos gerados pelo Sol para alcançar cerca de 2% da velocidade da luz — o que permitiria a espaçonaves futuras ultrapassar os limites do sistema solar sem propulsores. É uma ideia ainda teórica, mas não muito diferente do que já pareceu impossível antes. Aliás, as sondas Voyager, lançadas pela NASA em 1977, já cruzaram a fronteira do espaço interestelar — o primeiro passo, ainda que minúsculo, na exploração de outros sistemas solares.


Mudando o foco para a informática (conhecida inicialmente como "cibernética"), o ábaco e outras tábuas de contar foram criados não se sabe ao certo se pelos sumérios, chineses e antigos egípcios mais de 4 mil anos antes da Era Cristã, mas não restam dúvidas de que eles foram os antepassados mais remoto dos computadores.


Os gigantescos mainframes (que atendiam por "cérebros eletrônicos" e ocupavam salões inteiros, embora tivessem menos poder de processamento do que uma calculadora eletrônica atual) surgiram na primeira metade do século passado. O primeiro modelo de grande escala foi o ENIAC, que pesava 30 toneladas e tinha 18 mil válvulas que precisavam ser substituídas à razão de uma a cada dois minutos, mas capaz de realizar apenas 5 mil somas, ou 357 multiplicações, ou 38 divisões simultâneas por segundo. Além disso, seu armazenamento era suficiente apenas para manipular os dados envolvidos na tarefa em execução, ou seja, qualquer modificação exigia que os programadores corressem de um lado para outro da sala, desligando e religando centenas de fios.


Os primeiros computadores totalmente transistorizados foram os IBM 1401 e 7094, lançados nos anos 1950. Em 1964, a TEXAS INSTRUMENTS criou o circuito integrado (CI), composto por conjuntos de transistores, resistores e capacitores. Na década seguinte, a INTEL agrupou vários circuitos integrados num único "microchip", propiciando a construção de equipamentos de pequeno porte, como o PET 2001 — lançado em 1976 e tido como o primeiro microcomputador pessoal — e os Apple I e II — este já com unidade de disco flexível.


A computação pessoal surgiu no início dos anos 1960, começou a se popularizar mais de 20 anos depois, mas foi de vento em popa a partir do lançamento do iPhone pelo visionário Steve Jobs, que estimulou o desenvolvimento de "computadores de mão". Depois de ganharem novos recursos e funções, esses gadgets se tornaram um complemento dos PCs tradicionais e, mais recentemente, um substituto dos desktops e notebooks — a não ser quando a tarefa requer monitor de grandes dimensões, teclado e mouse físico e maior capacidade de memória e armazenamento, Atualmente, mesmo numa republiqueta de bananas como a nossa, há dois dispositivos digitais por habitante e mais de 250 milhões de celulares ativos.  


Resumo da ópera: milhares de anos separam a invenção do ábaco do surgimento dos gigantescos mainframes, mas, a partir de então, bastaram algumas décadas para os computadores pessoais serem criados e diminuírem de preço e de tamanho, mas crescessem em poder de processamento e variedade recursos, tornando-se ultraportáteis e indispensáveis. Mas nem tudo foram flores nesse jardim.


Continua…

sábado, 1 de agosto de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — NOSSO SISTEMA SOLAR

A CIÊNCIA NÃO É APENAS COMPATÍVEL COM A ESPIRITUALIDADE; É UMA FONTE PROFUNDA DE ESPIRITUALIDADE.

Se você integra a legião de cegos mentais que tomam o Velho Testamento por jornalismo confiável e o criacionismo por hipótese plausível para a origem da vida na Terra, você não está sozinho: por algum defeito de fabricação, inúmeras pessoas preferem acreditar em mentiras a enxergar a verdade que desfila diante de seus olhos.

Talvez isso ocorra porque o cérebro humano é extraordinariamente ruim em escala geológica, e 13,8 bilhões de anos é um número cognitivamente inapreensível, ou porque as religiões, mesmo tendo se tornado um pool de máquinas caça-níqueis, oferecem um pseudoconforto espiritual que a cosmologia científica não promete por não ser esse seu papel.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Lula, o autoproclamado Sun-Tzu de Garanhuns, agiu corretamente quando mandou o embaixador Júlio Bitelli de volta à Argentina, sinalizando que o governo brasileiro deseja o retorno da normalidade. Por outro lado, sempre que pede a palavra, sua insolência quase nunca a devolve em boas condições. 

Na semana passada, ao falar sobre o maior conflito armado da história da América do Sul, o vocalista do grupo de pagode Fala Merda reescreveu a história numa comentário infeliz, errôneo e desnecessária, no qual afirmou que o Paraguai "invadiu" o Brasil, o Uruguai e a Argentina. 

A fala foi Infeliz porque remexeu numa ferida aberta — para os paraguaios, o Brasil cometeu genocídio na guerra; numa conta conservadora, a historiografia estima as perdas paraguaias entre 150 mil e 300 mil mortos. Foi errônea porque o Paraguai jamais invadiu o Uruguai: no episódio que antecedeu a guerra, foi o Império do Brasil que invadiu o Uruguai para evitar que o beligerante ditador paraguaio, Solano López, tutelasse aquele país. E foi desnecessária porque produziu uma tensão que serviu apenas para criar uma encrenca diplomática com o Paraguai num instante em que o Itamaraty já administra a intromissão do presidente argentino na eleição brasileira. 

A despeito dos três mandatos nas costas, o macróbio eneadáctilo ainda não aprendeu que pior do que uma crise são duas crises.


Pode-se argumentar que abraçar o criacionismo (ou outra religião qualquer) não é uma posição epistemológica, e sim uma identidade cultural e tribal. E muito embora o valor da Bíblia como literatura, mitologia e registro cultural seja indiscutível, tratar textos do século 10 a.C. como cosmologia literal, ignorando evidências convergentes de física, biologia, geologia e astronomia, é sinônimo de analfabetismo científico com consequências práticas — mas, de novo, argumentar com que renunciou à lógica é o mesmo que medicar defunto.

Prova disso é que, a despeito de o modelo cosmológico mais aceito estimar a idade do Universo em 13,8 bilhões de anos, não faltam apedeutas negacionistas que compram a versão do arcebispo irlandês James Ussher, segundo a qual Deus iniciou à criação do mundo e tudo que nele existe às 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C., viu que "tudo era bom" e deu os trabalhos por encerrados no sétimo dia, quando então descansou (!?)

Em tese, vivemos num país livre, onde cada um pode acreditar no que bem entender, da absolvição de Lula — que não passou da anulação dos processos devida a uma tecnicidade territorial — à inocência de Bolsonaro — tanto do pai golpista quanto dos filhos "cineastas" — e mais um sem-número de falácias sem pé nem cabeça. Por outro lado, negar evidências não muda os fatos. As coisas são como são — e não como gostaríamos que fossem — e mentiras não deixam de ser mentiras porque as pessoas acreditam nelas.

Passando ao que interessa, nosso sistema solar é um fascinante conjunto de objetos celestes (planetas, satélites, asteróides, meteoros etc.) interligados pela força da gravidade, tendo o Sol como seu centro. (0:10). Ele se formou há 5 bilhões de anos, e a Terra, cerca de 500 milhões de anos depois. Dito isso, quando o deus do arcebispo Ussher supostamente criou o mundo… enfim, fé e ciência não são mutuamente excludentes quando a esfera de cada uma é respeitada.

Embora não devamos subestimar a importância da Bíblia nem negar a enorme influência cultural do Gênesis, devemos mantê-los dentro de seu contexto histórico e mitológico, e não interpretá-los como revelações científicas sobre a criação do mundo. Assim, tomar os textos bíblicos por evidências factuais é ignorar séculos de progresso científico — como bem disse o pintor grego Apeles, não vá o sapateiro além das sandálias.

O literalismo religioso alimenta a negação de descobertas amplamente aceitas e mina o avanço em questões vitais ao futuro da humanidade. No tempo das cavernas, tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais, e esse misticismo deu origem às religiões. Todavia, embora a fé e religião andem de mãos dadas, tanto é possível ter fé e não ser religioso como seguir uma religião simplesmente por tradição familiar ou convenção social.

Compete às religiões oferecer conforto espiritual, respostas a questões como o propósito e o sentido da vida e "religar" o homem a Deus. No entanto, em vez de levarem à unidade, ao amor e ao bem de todos, elas foram deturpadas para servir a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam na manipulação de seus semelhantes. A possibilidade de existir um ente superior é plausível, mas como acreditar em um deus criador que concede livre-arbítrio às criaturas se ele promete recompensar os bons com a vida eterna num paraíso celestial e punir os maus com o fogo eterno num inferno comandado por um anjo caído?

As religiões perderam muito da empatia que tinham nos tempos de antanho e deitaram suas raízes nos comportamentos evolutivos fundamentais. Assim como os vaga-lumes, elas precisam da escuridão para brilhar, e são úteis para os poderosos, que lhes dão ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos. Enquanto sua rigidez tende a perpetuar tradições e práticas que raramente resistem ao questionamento crítico, a fé que resulta de experiências empíricas leva as pessoas a crer em algo sem que isso lhes seja enfiado goela abaixo por dogmas. Essa flexibilidade faz com que a fé se adapte aos valores e interpretações de cada um, tornando sua relação com a religião ainda mais intrigante quando a natureza da divindade é questionada — aliás, dizem que Deus criou a fé e o amor, e o diabo, invejoso, as religiões e o casamento.

Aristóteles ensinou que o sábio duvida e o sensato reflete. Toda religião é a verdade absoluta para quem a professa, mas não passa de mera fantasia para os devotos das outras seitas. No entanto, qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria refutar a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem ou assando lentamente num espeto. Mesmo assim, em pleno século XXI, algumas doutrinas claramente inverossímeis têm hostes de seguidores que pegam em lanças para defender seus rituais e liturgias.

No Mito da Caverna, Platão ensina que a sabedoria e o conhecimento estão além das aparências superficiais, e que só a reflexão crítica leva à compreensão das nossas convicções e das narrativas que escolhemos abraçar. Infelizmente, pode-se levar um burro até o regato, mas não se pode obrigá-lo a beber.

Continua…

segunda-feira, 27 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — MAIS SOBRE CAVERNAS, ESTRELAS E O BIG BANG

O COSMOS É TUDO O QUE EXISTE, EXISTIU E EXISTIRÁ. OLHE AS ESTRELAS, MAS MANTENHA OS PÉS NO CHÃO. 

Vimos que o Universo se formou há quase 14 bilhões de anos, que nosso sistema solar tem 5 bilhões de anos, que nosso planeta surgiu há cerca de 4,5 bilhões de anos — e que, mesmo assim, bilhões de pessoas tomam o Velho Testamento como jornalismo confiável e o criacionismo como explicação para a origem da vida na Terra. (Mais detalhes no capítulo anterior.)


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Se quiser salvar esta banânia da falência, quem assumir a Presidência em 1º de janeiro de 2027 terá de desarmar a bomba que Lula armou torrando bilhões em programas sociais para dar a falsa ideia de que o país está melhorando. Como ocorreu no início do segundo mandato de Dilma Rousseff, a conta vai ficar no vermelho. Aliás, o roteiro dessa ópera bufa é muito parecido com a de que levou ao impeachment da anta. 

Para segurar a inflação, o Banco Central se vê obrigado a manter a Selic elevada, o que na prática significa que o dinheiro vale menos no mercado e o custo de vida aumenta. Vale destacar que a dívida pública vem crescendo nos últimos quatro anos: em 2022, era 71,7% do PIB; neste ano em que Lula tenta se reeleger, a projeção do mercado é que passe dos 86% em 2026. De acordo com o Ipea, até 2028 a dívida bruta pode alcançar 90% e até 2030, 94,1% do PIB. Para piorar, o tarifaço dos Estados Unidos vai afetar as exportações brasileiras, o crescimento econômico e a geração de emprego, o que atinge o orçamento das famílias, principalmente as mais pobres.

Para não mexer nos benefícios, seria necessário promover um imediato enxugamento da máquina pública ou melhorar a arrecadação do governo sem aumentar impostos — mediante a venda ou concessão de ativos da União, com os recursos direcionados à redução do endividamento. Seja qual for o caminho escolhido pelo próximo presidente, o essencial é reconstruir a previsibilidade. O país precisa mostrar que consegue controlar a dívida sem paralisar a economia e promover crescimento sem reacender a inflação. Caso contrário, continuaremos presos a uma combinação conhecida: juros altos, câmbio vulnerável e crescimento abaixo do potencial.


Não se sabe ao certo por que tantos se recusam a ver o que está diante dos próprios narizes. Afinal, conhecer a verdade, enxergar a verdade e ainda assim abraçar a mentira é tão absurdo quanto repetir os mesmos erros esperando, como no Teorema do Macaco Infinito, que a perseverança produza um acerto.


Uma explicação está no fato de o cérebro humano ser extraordinariamente ruim em lidar com escalas geológicas, e 13,8 bilhões de anos é um número que a intuição simplesmente recusa. Outra explicação passa pela religião tradicional — não confundir com fé —, que não só cumpre (ou deveria cumprir) funções psicológicas e sociais, bem como oferece (ou deveria oferecer) um conforto diante da morte que não tem paralelo na cosmologia científica.


Pode-se argumentar, ainda, que aderir ao criacionismo não é uma posição epistemológica, mas sim uma identidade cultural e tribal, resistente por definição a qualquer evidência. Convém ter em mente que isso não diminui o valor da Bíblia como literatura, mitologia e registro histórico, mas tratar textos do século X a.C. como cosmologia literal — ignorando evidências convergentes de física, biologia, geologia e astronomia — é um problema sério de alfabetização científica, e argumentar com quem renunciou à lógica faz tanto sentido quanto medicar defunto.


As teorias científicas mais aceitas atualmente se baseiam no modelo cosmológico padrão, que é escorado no Big Bang — que, apesar do nome, não teria sido uma explosão, mas o início de uma grande expansão que perdura até hoje. A título de contextualização, dois anos depois de publicar a Teoria da Relatividade Geral, Einstein propôs um modelo de Universo estático e introduziu a constante cosmológica para equilibrar a gravidade e evitar um colapso gravitacional. 


Uma década depois, Edwin Hubble observou que as galáxias estavam se afastando — evidência de que o cosmos estava, de fato, em expansão. Na mesma época, Georges Lemaître deduziu que algo que estava se expandindo deveria ter sido menor em algum momento. Assim, a possibilidade de retornar ao instante em que toda a vastidão do Universo estava concentrada em uma massa extremamente quente e densa deu origem à hipótese do "átomo primordial", segundo a qual o tempo e o espaço só passaram a existir quando esse "átomo primitivo" começou a se expandir. 


A proposta ganhou tração em 1948, quando George Gamow sugeriu que o Universo teria surgido de um clarão de energia oriundo de um gás primordial superdenso. No calor dessa erupção cósmica, os elementos químicos teriam sido "cozinhados" a partir de uma "sopa de partículas fundamentais", deixando como resquício uma radiação de fundo que permeia o cosmos até hoje.

 

No mesmo ano, Fred Hoyle, Thomas Gold e Hermann Bondi levantaram a hipótese de que o Universo não tinha começo nem fim, pois era constantemente "reabastecido" com matéria nova, gerada em todos os lugares e momentos. Durante uma palestra, Hoyle ironizou a ideia de um surgimento cósmico repentino, dizendo que toda a matéria fora criada em um "grande estrondo", num momento específico do passado remoto. 


A ironia pegou, e o termo Big Bang foi rapidamente adotado pela imprensa, mas ignorado por físicos e astrônomos, já que o fenômeno descrito não seria uma explosão no sentido tradicional, mas o início de uma expansão cósmica que começou há quase 14 bilhões de anos e cujos efeitos ainda podem ser observados por meio do desvio para o vermelho na luz das galáxias distantes — indicando que elas continuam se afastando de nós.

 

A despeito da imprecisão, o nome Big Bang se espalhou pelo mundo como um bordão irresistível, e como bem observou alguém mais sábio, "palavras são como arpões, depois que entram é muito difícil tirá-las". Em 1993, a revista Sky and Telescope organizou um concurso para substituir o nome e recebeu 13.099 sugestões de 41 países, mas nenhuma convenceu a banca de jurados, que incluía Carl Sagan, e o nome permaneceu.

 

Hoyle demonstrou que todos os elementos que compõem o Universo estão sendo "cozidos" no caldeirão das estrelas desde sempre, e que a vida deveria ser uma ocorrência comum no cosmos. A ideia não soava absurda para a comunidade científica — segundo o especialista em poeira estelar Ashley King, quase todos os elementos do corpo humano foram forjados em estrelas, muitos deles ejetados por sucessivas supernovas. 


Hoyle foi mais além, sustentando que inúmeras epidemias estariam associadas à passagem de meteoritos cujas partículas trariam vírus à Terra, mas essa tese foi vista como mais compatível com seus 19 romances de ficção científica do que com seu trabalho acadêmico. Ao final, ele entrou para a história como o homem que batizou uma teoria na qual nunca acreditou.


Continua...

segunda-feira, 20 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO (CONTINUAÇÃO)

O QUE CHAMAMOS DE DESTINO NÃO PASSA DE FÍSICA DISFARÇADA

Como vimos, a ciência ainda não se sabe se o tempo existe, se é apenas uma convenção criada para impor alguma lógica ao caos, nem se é uma estrutura, uma substância ou uma metáfora. Ainda assim, é o tempo que define nossos horários, organiza nossos dias, dita compromissos, aniversários, prazos e calendários.


Em última análise, tudo gira em torno do tempo — ou girava, já que um experimento envolvendo um relógio atômico extremamente preciso suscitou a possibilidade de estarmos errados sobre o tempo desde o começo. Mas façamos como o velho marinheiro, que durante um nevoeiro leva o barco devagar.


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O primogênito do golpista perdeu de lavada para o molusco eneadáctilo no quesito tarifaço, como se viu da pesquisa Quaest, na qual o filho do pai gabaritou negativamente o questionário feito sobre o assunto. No universo da política, a avaliação também foi ruim, a começar pelo candidato que já havia reconhecido o prejuízo no pedido de adiamento para não favorecer o adversário. Quem não criticou, calou, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. 

O xamã petista ganhou esse lance, mas passou do ponto ao mandar o governo se enrolar na bandeira brasileira e tomar a frente do batalhão chamando o presidente americano para travar com ele uma "guerra de narrativas".

A pergunta que se impõe é: por quanto tempo e qual o poder que um tema de comércio exterior tem sobre a decisão do voto do eleitorado premido por dificuldades do cotidiano?

Os dois principais oponentes de hoje trocam acusações que nada têm a ver com as preocupações prioritárias da população, como segurança, combate à corrupção e serviços públicos prestados de forma razoavelmente adequada. Espera-se de candidatos sérios que respondam a essas necessidades sem recorrer aos subterfúgios fornecidos pela disputa da posse do verde-louro da flâmula nacional. 

Por outro lado, como esperar políticos sérios disputando a Presidência, se a maioria do eleitorado é apedeuta, desinformada e polarizada, e se digladia para eleger seus bandidos de estimação?


Fomos condicionados a acreditar que o tempo existe, mas não sabemos o que ele é nem tampouco conseguimos defini-lo sem usar a palavra "tempo". Nós o associamos à passagem dos segundos, à duração das coisas ou à sequência dos acontecimentos, mas essas definições se baseiam de forma indireta no próprio conceito de tempo. Curiosamente, podemos "sentir" o tempo, medi-lo e organizar nossa vida em função dele, mas não conseguimos defini-lo sem cair numa espécie de círculo vicioso lógico. 


Como você explicaria o tempo para uma entidade que nunca o vivenciou? Diria que ele mede o intervalo entre dois eventos? Essa definição faz sentido, mas o que seria esse intervalo sem o tempo, se é o tempo que organiza os acontecimentos do passado em direção ao futuro? Como se vê, diferenciar passado e futuro sem o tempo é como tentar explicar o que é esquerda sem mencionar a direita ou qualquer outro ponto de referência espacial. 


Vemos o sol nascer e se pôr todos os dias, notamos a mudança das estações, usamos relógios cada vez mais precisos, capazes de medir intervalos absurdamente pequenos, mas isso prova que o tempo realmente existe ou é apenas a forma como o nosso cérebro interpreta as mudanças ao nosso redor, ou por outra, uma espécie de ilusão convincente? Ademais, o fato de percebermos o tempo não significa que ele é um componente fundamental da realidade. Para entender isso melhor, entremos em nossa máquina do tempo e voltemos ao início do século XX, quando a teoria da relatividade demonstrou que o tempo não é absoluto, pois depende do observador.


Nosso cérebro é uma máquina incrivelmente sofisticada, que armazena memórias do passado e projeta possibilidades para o futuro. No entanto, nossa percepção do tempo está longe de ser constante: quando estamos imersos numa atividade aprazível, ele parece voar, mas quando estamos prestes a borrar as calças e ouvimos de quem está no banheiro “só um minutinho!”, esse minuto pode parecer durar uma eternidade. 


Em vez de ler o tempo diretamente, o cérebro usa mecanismos internos para estimar a passagem do tempo. Esses mecanismos não são exatamente confiáveis: quando vivemos experiências novas, intensas ou fora da rotina, o registro de mais detalhes dá a sensação de que o tempo se alonga, ao passo que na repetição do dia a dia, quando nos damos conta, a semana já acabou. Além disso, nossas experiências se tornam mais previsíveis à medida que envelhecemos, dando-nos a sensação de que o tempo passa cada vez mais depressa, mesmo que os ponteiros do relógio avancem com a mesma velocidade com que avançavam na nossa infância. 


A despeito de os dias sucederem as noites (e vice-versa) a cada doze horas, o tempo não é o mesmo em todos os lugares. Dependendo da velocidade com que duas pessoas se movem e/ou da intensidade da gravidade a que estão submetidas, elas podem experimentar a passagem do tempo de maneiras diferentes. Numa velocidade próxima à da luz, a dilatação do tempo reduz milhares de anos terrestres a poucos segundos. Além disso, a dilatação gravitacional faz com que o tempo passe mais devagar ao nível do mar do que no topo do Monte Everest (fato comprovado por relógios atômicos posicionados com uma diferença de altitude de apenas alguns milímetros, mas suficiente para detectar que o tempo passa em ritmos distintos em cada um deles).


No livro Beyond Time, o pesquisador francês Michel Siffre relata que passou dois meses numa caverna escura, sem relógio nem qualquer outra maneira de saber o tempo, que tomava o próprio pulso e contava os segundos até 120 sempre que se comunicava por rádio com a equipe de apoio, e que o tempo real, cronometrado por seu staff, era de quase 5 minutos. Sem os indicadores naturais (como nascer e pôr-do-sol), seu ciclo circadiano  passou de 24 para 48 horas, e o tempo psicológico foi reduzido à metade do cronológico. O experimento se estendeu por dois meses — que pareceram para ele menos de um.


De acordo com um estudo publicado recentemente pela Nature Reviews Neuroscience, o hipotálamo dos "atrasados crônicos" os faz subestimar o tempo necessário para chegar ao local do compromisso, já que as estimativas são baseadas no tempo gasto para realizar a mesma tarefa no passado, e essas memórias nem sempre são precisas. Ademais, o estado emocional negativo nos dá a sensação de que o tempo está passando mais devagar, e o positivo, a sensação oposta. 


No auge da pandemia da Covid, muitas pessoas queriam "acelerar o tempo" para retomarem a "vida normal". Como emoção e motivação estão interligadas, o tempo pareceu passar ainda mais devagar — quanto maior a motivação, mais acentuada a mudança na percepção de tempo. Enquanto a sensação de aceleração tende a facilitar as conquistas, a desaceleração costuma evitar que demoremos muito em situações potencialmente prejudiciais. Quanto mais o tempo "demora a passar" numa situação de medo, por exemplo, mais rapidamente agimos para nos livrarmos do perigo.


Vale destacar que “ganhar tempo” ou “perder tempo” é um erro de perspectiva. O tempo não é uma moeda que podemos guardar ou desperdiçar, ele simplesmente passa, e tentar “economizá-lo” fazendo várias coisas simultaneamente (multitasking) nos leva a “perder” mais tempo do que se realizássemos uma atividade por vez. Dizem que as mulheres até conseguem, mas eu, particularmente, acho que isso não passa de folclore.


Pensamos no tempo como algo externo, mas ele é um conceito profundamente enraizado em nossa mente. Todos temos um "relógio interno" que regula o sono, a fome e a energia ao longo do dia, e é regulado pelo tempo. Alterá-lo trabalhando à noite ou dormindo em horários irregulares, por exemplo, afeta nossa saúde e compromete nosso bem-estar. Até a invenção da escrita, media-se o tempo com base em fenômenos naturais sazonais; mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias e os egípcios criaram um calendário lunar baseado na estrela Sirius. No final do século XVI, o calendário Juliano foi substituído pelo modelo Gregoriano, que atualmente é adotado pela maioria dos países.


Na maioria das línguas, o passado é descrito como algo que ficou para trás, e o futuro, como algo que está sempre mais adiante. Mas até o idioma e o sistema de escrita (da esquerda para a direita ou vice-versa) fazem diferença. No inglês, as distâncias percorridas são usadas para explicar a duração dos eventos; no grego, o fluxo temporal é percebido como um volume crescente, não como distância física.

Para a física moderna, no entanto, a ideia de que o passado deixou de existir e o futuro ainda não aconteceu pode ser apenas uma limitação dos nossos sentidos. É aqui que entra o conceito do Universo em Bloco: imagine que a realidade é como evento filmado em película: embora nós, os personagens, só consigamos ver um frame por vez (o presente), o rolo inteiro — com o início, o meio e o fim — já está lá, impresso e estático.

Nessa perspectiva, o tempo não flui; ele simplesmente é. O nascimento de uma estrela, sua primeira xícara de café e o último suspiro do universo coexistem em uma estrutura quadridimensional de espaço-tempo. Se isso for verdade, o "agora" não passa de uma coordenada, como o número de uma página em um livro que já foi escrito. O destino, portanto, deixaria de ser uma escolha ou uma maldição para se tornar uma propriedade geométrica da realidade

Em face do exposto, atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede — sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo. Brincadeiras à parte, talvez não seja o tempo que passa por nós — nós é que passamos por ele como grãos de areia entre as câmaras de uma ampulheta. Ou talvez a forma como o sentimos seja em grande parte uma construção da nossa mente.


Continua…

sábado, 4 de julho de 2026

DÉJÁ VU: QUANDO O CÉREBRO NOS PREGA UMA PEÇA

QUANDO A LÓGICA PROTESTA, MAS O CÉREBRO INSISTE.

Se você entra em um lugar pela primeira vez, conversa com alguém sobre um assunto inédito, presencia uma situação totalmente nova, e ainda assim surge uma sensação desconcertante de "eu já vivi isso antes", seja bem-vindo ao curioso universo do déjà vu — expressão francesa que significa literalmente “já visto”, mas pode ser traduzida como “já vivi isso” — ou, em bom português, “tenho certeza de que já passei por essa cena”. 

Isso não significa que você está acessando memórias de uma vida passada, captando ecos de universos paralelos ou recebendo spoilers da Matrix. Na imensa maioria das vezes, é apenas do seu cérebro tropeçando nos próprios arquivos em meio a uma experiência paradoxal em que a novidade vem acompanhada de uma poderosa sensação de familiaridade. Mal comparando, seria como visitar uma cidade na qual você nunca esteve e sentir que conhece cada esquina, ou ouvir uma conversa inédita com a impressão de saber exatamente o que será dito em seguida.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Todas as famílias infelizes exercitam a infelicidade cada uma à sua maneira. A ex-primeira dama aprendeu que o clã do marido gosta de lavar roupa suja não em casa, mas nas redes.
O enredo de Micheque contém dois ingredientes que estão presentes em onze de cada dez novelas de grande audiência: humilhação e vingança. Nesse script, o papel reservado para o enteado é o de machista. "Ele disse que eu não entendia nada de política", contou a madrasta má. 
Dias atrás, o Datafolha mostrou que a sangria do Dark Horse foi estancada, mas a hemorragia feminina permanece: Lula teve sua maior vantagem sobre o rival entre as mulheres: 54% a 37% depois que o vídeo da rainha má enviou para o ralo o esforço do enteado para atenuar essa aversão.

Uma das síndromes mais características da família Bolsonaro é o impulso de, mal terminada uma crise, providenciar a próxima. Michelle Bolsonaro agravou essa patologia. Quando o noticiário ainda estava repleto de Dark Horse, acusou Flávio Bolsonaro de desrespeitá-la, maltratá-la e humilhá-la. Elevou a fervura quando Valdemar Costa Neto chegou com a água fria.

Michelle abdicou da presidência do núcleo feminino do PL. Avisou que não cogita dar as caras na primeira reunião de Flávio com as mulheres do partido e ameaçou jogar para o alto uma poltrona no Senado que o partido considerava favas contadas nas eleições de Brasília. Ou seja: a madrasta atravessou na campanha do enteado não uma encrenca nova, mas um turbilhão de crises. 

As motivações da bruxa-má suscitam muitas dúvidas, mas formou-se uma sólida certeza quanto às consequências dos seus gestos: a menos de cem dias da eleição, ela aprisionou o enteado dentro de uma agenda negativa.

Flávio Bolsonaro capricha na adulação às mulheres e diz que procura uma para ser sua vice. Mas não dá um pio contra os ataques misóginos que os aliados fazem a Michelle. Quer que acreditem que se dispõe a matar ou morrer por ideias e valores que não tem.

Os otimistas dizem que foi reativada a percepção de que a família Bolsonaro é um saco de gatos. Os pessimistas sustentam que o saco contém bichos mais repulsivos.

Num país em que mais de 52% dos votos são femininos, o filho de Bolsonaro vai se consolidando como um candidato bem cotado para tornar o molusco macróbio e indigesto presidente pela quarta vez.


A explicação mais aceita é que o cérebro ativa o mecanismo de familiaridade sem conseguir localizar uma lembrança real correspondente. Em outras palavras, o “alarme” de reconhecimento dispara antes que o sistema de memória contextualizada confirme de onde aquilo veio. É como encontrar um rosto conhecido na rua, acenar com entusiasmo e só depois perceber que nunca viu aquela pessoa na vida.
Segundo o psiquiatra Oswaldo Petermann Neto, da plataforma Doctoralia, o cérebro possui sistemas distintos: um responsável por detectar familiaridade e outro por recuperar memórias contextualizadas. No déjà vu, o primeiro entra em ação sem que o segundo tenha qualquer registro para apresentar, resultando numa falsa sensação de reconhecimento.

Estruturas como o hipocampo e o lobo temporal são fundamentais para distinguir o que é novo daquilo que já foi vivido. Quando ocorre um pequeno descompasso entre esses sistemas, o cérebro interpreta o presente como repetição do passado. Alguns pesquisadores sugerem que o déjà vu funciona como uma espécie de “verificação de fatos” interna: ao detectar essa familiaridade suspeita, o cérebro sinaliza que algo no processamento não bate.

Outra hipótese é que o fenômeno esteja relacionado à fluência cognitiva. Quando processamos uma informação de forma rápida e automática, ela pode parecer familiar mesmo sem motivo concreto. É o cérebro dizendo: “Já vi isso.” E a memória respondendo: “Tem certeza?”

Entre outras condições que podem aumentar a probabilidade de episódios estão o estresse, a ansiedade, a privação de sono, o cansaço mental e o abuso do álcool, de drogas e de alguns medicamentos. Em resumo, quando o cérebro está sobrecarregado, as chances de ele confundir novidade com familiaridade aumentam. Nada muito diferente de chamar alguém pelo nome errado depois de uma noite mal dormida.

Estima-se que a maioria das pessoas já tenha experimentado essa sensação ao menos uma vez, e que episódios ocasionais sejam comuns e, em geral, totalmente benignos. Mas, se o déjà vu ocorre com muita frequência, dura mais do que alguns segundos ou vem acompanhado de sintomas como: Medo, alterações da consciência, lapsos de memória e comportamentos automáticos, a avaliação médica costuma ser recomendável. Mesmo porque, em alguns casos, o fenômeno está associado à epilepsia do lobo temporal, em que o déjà vu pode funcionar como uma aura neurológica — um aviso de que uma crise epiléptica está prestes a ocorrer.

Apesar de relativamente comum, o déjà vu ainda não é totalmente compreendido — e talvez esse seja justamente o seu encanto. Por alguns segundos, o cérebro nos oferece a estranha sensação de que o presente já aconteceu. É como se o tempo tivesse escorregado, se a realidade piscasse, se o roteiro tivesse sido repetido... e então tudo voltasse ao normal. Ou quase.

Porque, convenhamos, poucas coisas são tão intrigantes quanto sentir que você já leu este parágrafo antes.