Mostrando postagens classificadas por data para a consulta registro. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta registro. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de abril de 2026

QUANDO A TOGA JÁ NÃO ESCONDE OS GLÚTEOS

TEM SEMPRE UM DIA EM QUE A CASA CAI…

Diálogos entre Daniel Vorcaro e sua ex-noiva obtidos pela PF indicam que o ministro Alexandre de Moraes esteve com o banqueiro em datas próximas às viagens que realizou em jatos executivos dele e de seu cunhado, Fabiano Zettel.


Segundo levantamento feito pela Folha a partir de dados da ANAC e do DECEA da Aeronáutica, o magistrado e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, constam do registro de passageiros de terminais executivos no Aeroporto de Brasília. 


Em 21 de maio, véspera da viagem de Moraes de Brasília a São Paulo em um jato da Prime Aviation — empresa da qual Vorcaro foi sócio e que também é dona de sua mansão em Brasília — o ex-banqueiro disse à ex-noiva que estava com o ministro e o senador Ciro Nogueira. Na noite seguinte, Moraes aparece como passageiro em um hangar de aviação executiva no Aeroporto de Brasília às 19h. Segundo a Folha, 33 minutos depois, um avião da Prime Aviation decolou rumo ao Aeroporto de Catarina, voltado para jatos privados. 


Quatro dias depois, Vorcaro comenta com a ex-noiva que terá um encontro com Moraes e que resolveu organizar um jantar com ele, Viviane e outros dois convidados (o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e sua mulher, Patrícia Abravanel). Passados três dias, Moraes e senhora voaram de Brasília ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a bordo de um jato Embraer pertencente à Prime Aviation.


Zettel é tratado pelos investigadores do caso Master como operador financeiro do esquema e controlador do fundo Arleen — que comprou por R$ 35 milhões a fatia do Resort Tayayá que pertencia ao ministro Dias Toffoli. Moraes alegou jamais ter viajado em aeronaves de Vorcaro e Zettel ou na companhia deles. O escritório de Viviane disse contratar “diversos serviços de táxi aéreo”, entre os quais o da Prime Aviation, mas alegou que Vorcaro e o cunhado jamais viajaram com integrantes da banca de advogados, e que todos os valores foram abatidos dos honorários advocatícios nos termos contratuais.


O histórico de conversas entre Vorcaro e a ex-noiva que chegou ao Congresso termina em 13 de agosto de 2025. Até a primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro, não há registro de diálogos para a conferência de outras convergências de datas, mas o levantamento da Folha revelou que casal Moraes viajou em jatos ligados ao grupo Master até um mês antes da segunda prisão de seu CEO — no Aeroporto Internacional de Guarulhos tentando embarcar em um jato rumo a Dubai com escala em Malta, o que foi encarado pelos investigadores como uma tentativa de fuga. 


Moraes procurou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, pelo menos quatro vezes para discutir sobre o Master no período em que a tentativa de compra da instituição pelo BRB enfrentava resistências crescentes dentro da instituição. Àquela altura, já se sabia também que o contrato de Viviane com o banco previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos, com atuação em frentes no Judiciário, Legislativo e órgãos do Executivo, bem como a atuação do escritório junto ao BC, ao Cade, à PGFN e à Receita Federal. Todos esses órgãos informaram não haver registros da atuação de Viviane em nome do Master.


A discrepância entre o tamanho da remuneração e a falta de rastros administrativos deu novo fôlego às dúvidas sobre a natureza real dos serviços prestados. O BC afirmou que encontros com altas autoridades não são documentados, a despeito de Galípolo ter declarado publicamente que todas as discussões sobre o caso Master foram registradas pelo órgão regulador.


A pressão aumentou ainda mais em março, quando o conteúdo extraído do celular de Vorcaro revelou a troca de mensagens com Moraes em 17 de novembro do ano passado — dia de sua primeira prisão. Nos textos, o banqueiro relata tentativas de salvar o banco junto a investidores árabes e perguntava ao ministro: “Conseguiu bloquear?”.


Ao cruzar os céus em jatos executivos de Vorcaro, Moraes encostou sua reputação na fabulosa história de Ícaro, que voou com asas de penas coladas com cera, subiu alto demais e, maravilhado com a própria ascensão, ignorou o poder do Sol. No caso de Xandão, não há asas de cera, mas a analogia se impõe: nem todo prestígio resiste ao brilho intenso, e quanto mais alto se voa, mais arriscado se torna o deslumbramento. Sobre a alegada compensação dos serviços aéreos com os honorários advocatícios, o "xerife" que ama cobrar explicações e detesta ter que se explicar chamou a notícia de "fantasiosa". 


O ministro demora a notar o derretimento de sua reputação, mas não está sozinho. Toffoli, que ganhou a suprema toga de Lula em 2009, como recompensa pelos "bons serviços prestados ao Sindicato dos Metalúrgicos de SBC e ao PT" — a despeito de seu currículo ser abrilhantado por duas reprovações em concursos para juiz de primeira instância — viajou nas asas da Air Master para ir ao resort Tayayá e em pelo menos mais cinco voos patrocinados por empresários amigos. Procurado, defendeu-se com o silêncio.


Num primeiro momento, Moraes disse jamais ter voado em aeronaves de Vorcaro. Acuado pelos fatos, alegou que o serviço foi abatido dos honorários milionários que o escritório da mulher recebia do Master, mas faltou explicar por que ele fruiu das mordomias proporcionadas pelo contrato promíscuo. As obscenidades dele e do Maquiavel de Marília diferem entre si, mas têm um ponto em comum: a arrogância de quem acha que pode fazer o que bem entende sem dar explicações plausíveis. Vivendo numa realidade paralela, os semideuses togados demoram a notar que as togas já não lhes escondem os glúteos.


O jurista Potter Stewart, que atuou como juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, pronunciou num julgamento uma frase que se tornou célebre: "Não sei definir obscenidade, mas eu a reconheço quando vejo." Mesmo quem não entende de despudor sabe reconhecer a pornografia quando a vê, e magistrado supremo que voa em aeronave de mafioso que tinha um banco é obscenidade que nenhuma toga consegue esconder.

segunda-feira, 9 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 82ª PARTE

O REAL NÃO ESTÁ NA SAÍDA NEM NA CHEGADA, MAS NO MEIO DA TRAVESSIA.

Compreender o tempo como ele realmente é pode ser tão letal quanto dobrá-lo, e talvez por isso não existam provas, vestígios e testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.

Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 dentro de uma tumba da Dinastia Ming que ficou selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis indicam fraude.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Lulinha ficou tão isolado que precisa parar de andar sozinho se quiser evitar as más companhias. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, confirmou a votação da CPI do INSS que quebrou o sigilo bancários do "Ronaldinho dos negócios", e a bancada governista desistiu de resistir: "A gente luta para vencer, mas aceita quando perde", disse Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso. 

Deve-se a resignação ao fato de o ministro André Mendonça ter autorizado em janeiro a PF a invadir as contas bancárias e o Imposto de Renda de Lulinha, dada a suspeita de que ele recebeu dinheiro do Careca do INSS, operador do assalto contra os aposentados.

O Planalto passaria atestado de burrice se continuasse erguendo barricadas numa CPMI que deve terminar em 28 de março. O filho do pai já havia recebido um chega-prá-lá: "Se tiver filho meu metido nisso, será investigado." Haddad também tomou distância: "Lulinha não participa do governo, não conheço a sua vida."

Sem apoio no Congresso e com a PF dentro das suas contas, o primogênito de Lula logo estará cantarolando versos do clássico de Cazuza "Maior Abandonado".


Numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork em British Columbia (Canadá), em 1941, um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos de turno, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros como aqueles eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo".


A guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta.


Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das Mil e Uma Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos.


Sherlock Holmes ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia, que “se houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. O grosso das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua...

sábado, 7 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 81ª PARTE

ÀS VEZES, BASTA UMA MUDANÇA DE PERSPECTIVA PARA REVELAR A VERDADE.

Ninguém sabe ao certo quem ele foi ou de onde veio. Há quem jure que se chamava Rudolph Fentz e que apareceu do nada em plena Times Square, trajando roupas do século XIX e segurando moedas antigas no bolso. Outros sustentam que se tratava de Andrew Carlssin, um investidor anônimo que multiplicou o capital em 126 operações seguidas na Bolsa por ter vindo do futuro (2256), e os mais céticos afirmam que ele nunca existiu, que sua "aparição" não passou de uma sucessão de coincidências, boatos e más interpretações.

O que poucos percebem é que as três versões contam a mesma história: Fentz, Carlssin, ou seja lá quem for, teria descoberto o segredo que há séculos atormenta físicos e filósofos: não é o tempo que nos atravessa, somos nós que o dobramos sem perceber — nas decisões que adiamos, nos caminhos que não tomamos, nas lembranças que nos visitam fora de hora.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


É enorme o empenho suprapartidário para acobertar o escândalo do Master, mas, a despeito das articulações anti-CPI, o avanço das investigações é proporcional à quantidade de dados estocados nos dispositivos eletrônicos de Daniel Vorcaro, e os abafadores vêm enfrentando dificuldades para conter a sujeira nos limites das bordas do tapetão.

A conjuntura está assentada sobre um paiol em que se misturam os favores de Vorcaro e as facilidades que os favorecidos — entre eles autoridades dos Três Poderes e políticos de todas as ideologias — ofereceram ao dono do Master para praticar crimes — as gentilezas incluíram desde contribuições de campanha a contratos milionários, além de convites para festas de arromba.

Se a apuração é incontornável, procrastinar a limpeza é conspirar pela conturbação do processo eleitoral, que pode transformar a sucessão presidencial num grande ventilador.

A ventania aumentou desde André Mendonça acumulou a relatoria do roubo das aposentadorias do INSS e o caso Master. Os dados obtidos por meio da quebra do sigilo telemático de Vorcaro já estão sendo processados pelos computadores da CPI, e o vazamento é tão certo quanto o nascer no leste.

Há em Brasília dois tipos de políticos: os que temem o enrosco e os que desejam desgastar os enroscados. Numa escala de zero a dez, a hipótese de uma combinação como essa terminar bem é de menos onze.


A história teria começado com um projeto confidencial de pesquisa em física experimental, conduzido fora dos grandes centros, sem patrocínio estatal e longe de olhares curiosos. O objetivo oficial era estudar os efeitos da ressonância quântica do vácuo — uma expressão bonita para designar o comportamento errático das partículas virtuais que simplesmente aparecem e desaparecem. Extraoficialmente, porém, havia quem falasse em curvatura artificial do espaço-tempo.


Segundo alguns conspirólogos, o homem misterioso — cujo verdadeiro nome ninguém soube ao certo — trabalhava num laboratório subterrâneo e, engolido acidentalmente pela própria criação, acabou saltando para um ponto qualquer entre o ontem e o amanhã. Mas talvez ele tenha conseguido o que todos sonham e ninguém admite: voltar ao instante em que tudo ainda podia ser diferente. Fala-se que ele acreditava que o tempo era um campo vibratório que, sob determinadas condições de frequência e energia, poderia provocar uma espécie de desalinhamento temporal — talvez não uma viagem física no sentido clássico, mas uma transposição de perspectiva em que a mente se projetaria para um outro ponto da linha temporal… e foi aí que o impossível aconteceu.


Os registros fragmentários e contraditórios falam de um experimento realizado às três da madrugada numa câmara blindada revestida de chumbo e grafeno. Há menção a uma sequência de pulsos eletromagnéticos sincronizados com a rotação da Terra, a um breve colapso de energia e a uma luminosidade azulada que “parecia vibrar como se tivesse vontade própria”. Depois disso, silêncio. Nenhum alarme, nenhuma explosão, nenhuma evidência de falha. Passados 30 segundos, o sistema religou sozinho. O ar estava ionizado, o relógio da câmara marcava um horário diferente dos demais relógios do laboratório — e o homem havia simplesmente desaparecido.


Há quem diga que o homem nunca saiu do lugar, que sua consciência apenas “saltou de trilho”, enxergando simultaneamente o passado, o presente e o futuro — e que isso o enlouqueceu. No entanto, um guarda noturno de Nova York em 1951 disse ter deparado com um sujeito desorientado, vestindo roupas antiquadas e incapaz de explicar onde estava. Uma semana depois, jornais sensacionalistas publicaram a história de um "viajante do tempo acidental". Coincidência? Talvez. Mas algumas coincidências soam mais como recados.


Talvez compreender o tempo como ele realmente é seja tão letal quanto dobrá-lo, e por isso não há provas, nem vestígios, nem testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.


Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 no interior de uma tumba da Dinastia Ming que permaneceu selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis sugeriam fraude.


Numa foto tirada em 1941, durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". Mas a guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Por outro lado, a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta. Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das 1.001 Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos. Sherlock Holmes nos ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia —, que “quando houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. A maioria das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…

sábado, 14 de fevereiro de 2026

TOFFOLI E O IMBRÓGLIO DO BANCO MASTER

ALGUMA COISA SEMPRE PRECISA MUDAR PARA QUE TUDO SEMPRE PERMANEÇA IGUAL. 

Com as vergonhas expostas no relatório da PF, o ministro Dias Toffoli divulgou uma nota que ofende a inteligência alheia. Embora tenha admitido ser sócio da empresa Maridt e ter vendido sua participação no Resort Tayayá para um fundo ligado ao Banco Master, ele negou ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro e do cunhado dele, Fabiano Zettel, embora o documento da PF mencione expressamente essa conversa.


Toffoli integrava uma sociedade anônima com capital social de R$ 150, sede em uma casa humilde situada na cidade paulista de Marília e administrada por dois irmãos do ministro (um padre e um engenheiro eletricista). O recebimento de dividendos, segundo ele, não era ilegal, pois não exercia funções gerenciais, e os negócios com um fundo ligado ao Master ocorreram antes de ele se tornar relator do caso. Mas sua cunhada negou que o marido tivesse sido sócio do resort, borrifando na conjuntura a percepção de que os irmãos do ministro não passavam de laranjas.


Paulista de Marília (SP), José Antonio Dias Toffoli formou-se bacharel em Direito, foi advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de SBC, consultor jurídico da CUT, assessor jurídico do PT e do ex-ministro José Dirceu. Também atuou advogado nas campanhas de Lula à presidência em 1998, 2002 e 2006 e como subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil da presidência da República. Em 2007, foi promovido a Advogado Geral da União e permaneceu no cargo até 2009.


A despeito de duas reprovações em concursos para juiz de primeiro grau abrilhantarem seu currículo, Toffoli foi indicado por Lula para o STF, numa demonstração cabal de falta de noção do xamã petista sobre a dimensão do cargo. Assim, sem currículo, sem conhecimento, sem luz própria e sem laços com a rede protetora do PT ou com os referenciais do padrinho, o recém-chegado foi buscar apoio em Gilmar Mendes — que é quem melhor encarna a figura do velho coronel políticoe passou a emular a arrogância incontida, a grosseria e a falta de limites do novo padrinho.. 


Em 2005, quando o escândalo do mensalão veio à tona, Toffoli respondia diretamente a José Dirceu, que foi apontado como chefe do esquema. Mas isso não o impediu de participar do julgamento da Ação Penal 470 (vulgo “processo do mensalão”) ou de votar pela absolvição de Dirceu. Em 2015, pediu transferência para a segunda turma, que ficou responsável pelos processos da Lava-Jato no STF. Foi ele quem sugeriu que casos sem conexão com a Petrobras não deveriam ficar sob a pena do então juiz Sérgio Morolivrando por tabela o rabo de Gleisi Hoffmann — e o autor do pedido de vista que interrompeu a votação da limitação do foro privilegiado de políticos quando já se havia formado maioria de ministros a favor.


A Lava-Jato chegou a bafejar o cangote do ministro quando Léo Pinheiro revelou que a OAS havia executado reformas em sua casa, mas a informação vazou, Veja publicou, Rodrigo Janot (que era petista de carteirinha) rodou a baiana e o acordo não chegou a ser firmado. A força-tarefa também descobriu que um consórcio suspeito de firmar contratos espúrios com a Petrobras repassou R$ 300 mil ao escritório de advocacia de Roberta Gurgel, mulher de Toffoli, de quem ele foi sócio até 2007 e de quem recebia uma mesada de 100 mil reais — metade desse valor era transferido para a conta de sua ex, Mônica Ortega, e a outra metade era usada para pagar despesas correntes, como faturas de cartão.


Os indícios de conexão de Toffoli com o caso Master já colocavam em xeque sua relatoria, mas o ministro Fachin, presidente de turno do STF, achou por bem evitar a abertura formal de um incidente de suspeição que poderia prolongar a crise e anular medidas já tomadas no processo.


Toffoli insistia na tese de que não havia impedimento nem suspeição, e se recusava a abrir mão da relatoria. Mas o impedimento decorrente de parentesco era de uma clareza meridiana, e a suspeição tornou-se cristalina quando o ministro buscou engessar as apurações da PF e assumir o o comando da investigação.


Os documentos sobre as transações apontavam para a venda do Resort Tayayá em 2021 e o pagamento de R$ 20 milhões, em 2024, à empresa da qual Toffoli era sócio administrador oculto. Dúvidas acerca do potencial econômico dos irmãos do ministro para a aquisição do empreendimento Tayayá levou seus pares a ponderar que seria melhor ele entregar os anéis do que perder os dedos.


Após novo sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria da investigação  — sob uma chuva de críticas de seus pares à PF a pretexto de o material enviado ao STF ser fruto de uma investigação sem autorização judicial. A troca na relatoria preocupa especialmente setores do Congresso ligados ao senador Davi Alcolumbre, que segurou por cinco meses a sabatina do ministro "terrivelmente evangélico" indicado por Bolsonaro, numa clara tentativa de levar o então presidente a rever sua indicação.


Na avaliação desses parlamentares, Mendonça não deve impor limites para evitar que a investigação avance em eventuais relações políticas do ex-dono do Banco Master. Um dia após ser eleito relator, o ministro agendou um encontro com delegados da PF para avaliar o andamento e as próximas etapas das apurações. e o que não falta no elenco dessa novela é ator de rabo preso — parafraseando Ary do Cavaco e Bebeto di São João, se gritar pega ladrão não fica um.


Lula guarda mágoa de Toffoli porque ele não o autorizou a deixar a cadeia para acompanhar o enterro do irmãoVavá. No entanto, em 1978, quando seu pai foi sepultado como indigente no cemitério de Vicente de Carvalho, nenhuma mulher, ex-mulher ou filho se dignou a lhe conceder um túmulo.


Não se sabe ao certo quantos filhos o "homem das sete mulheres" espalhou pelo Brasil. Pelos cálculos de Frei Chico — que não era padre e tampouco se chamava Francisco — foram 19; pelas contas de Jackson Inácio da Silva, foram 25; e segundo Denise Paraná — biógrafa oficial do molusco —, foram 22. Mas o fato é que Lula nunca foi próximo de seus irmãos. 


Quando era líder sindical, o futuro presidente passou 30 dias nos porões da ditadura, mas o então diretor-geral do DOPS o autorizava a ler jornais, receber visitas importantes e até visitar a mãe, Dona Lindú, que estava com câncer terminal (ele ia deitado no banco traseiro de uma viatura, escoltado por agentes vestidos como operários). Quando ela morreu, ele foi autorizado a comparecer ao velório — onde sindicalistas bradavam Lula Livre e o cantor Agnaldo Timóteo pedia a prisão dos corruptos.


Durante a campanha presidencial de 2002, Lula derramou lágrimas de crocodilo para as câmeras de Duda Mendonça ao relembrar a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes da Silva, embora não tenha esperado nem dois anos para engatilhar nova família ao lado de Marisa Letícia.


Entre 2003 e 2010, já inquilino Planalto, ele perdeu os irmãos João Inácio — que morreu de câncer em 2004 — e Odair Inácio — vítima de um infarto em 2005 —, mas não compareceu ao enterro de nenhum dos dois. Segundo o site Conexão Política, enquanto o corpo do primeiro era velado, o presidente jantava com ministros e assessores na Granja do Torto.


Em 2017, já em pré-campanha, transformou o velório de Marisa Letícia em comício e o cadáver em arma contra seus adversários políticos. Em 2018, fez de sua prisão um espetáculo de circo mambembe, com direito a missa campal, showmício e utilização de sindicalistas como escudos humanos. Em 2019, hospedado compulsoriamente numa cela VIP da PF em Curitiba, pareceu ter sido acometido por um mui suspeito e inesperado amor fraternal por Vavá.


Pouco antes da sessão administrativa secreta das togas na última quinta-feira, Lula chamou Paulo Gonet para uma conversa — lembrando que o PGR é o único que tem legitimidade para arguir o afastamento de um ministro do STF. Comenta-se nos bastidores que a aposentadoria compulsória de Toffoli chegou a ser cogitada, e que o ministro só desistiu da relatoria depois que o diretor-geral da PF entregou a Fachin um relatório sobre os dados extraídos do celular de Vorcaro, incluindo as menções do relator que motivaram a PF a pedir sua suspeição.

A desistência ocorreu um dia Em última análise, cabe a Gonet pedir autorização ao Supremo para investigar Toffoli criminalmente, sob pena de prevaricação.


No País dos Contrastes — como o Brasil era chamado até algum tempo atrás —, o fato de paradoxos abundarem no Judiciário não chega a surpreender. O mais recente é o comunicado sem pé nem cabeça divulgado pelo STF na noite da última quinta-feira. Sem pé porque o documento diz num trecho que Toffoli deixou a relatoria do inquérito sobre o Master "a pedido" e informa em outro que o plenário do tribunal decidiu por unanimidade que "não havia elementos" para considerá-lo um juiz suspeito. Sem cabeça porque ninguém com dois neurônios avalizaria a conduta do ministro, e seus pares fizeram questão de expressar por escrito seu "apoio pessoal" e enaltecer seu respeito pelos "altos interesses institucionais". 


Toffoli parece achar que o Brasil é 100% formado por idiotas, e esperteza, quando é demais, vira bicho e engole o dono. Já o STF — definido pelo ex-ministro Sepúlveda Pertence como um arquipélago de onze ilhas independentes e em constante conflito — cantou em coro a "dignidade" do colega ora na berlinda — lembrando que havia dez cabeças e poucos miolos na reunião em que o texto escabroso foi esboçado, já que a poltrona que pertencia ao ministro Luís Roberto Barroso ainda não foi ocupada.


Toffoli já perambulava com as indignidades à mostra antes de ser substituído, e ficou inteiramente nu depois que a PF esmiuçou suas relações pessoais e financeiras com Daniel Vorcaro. A questão agora é que o STF precisa liberar a PF para aprofundar a investigação dos indícios de envolvimento de uma toga despida em perversões criminais — blindada, sua
nudez conduz a crise do Judiciário à fase do despudor, e dignidade é como virgindade: não dá segunda safra. Mas ele não é o único que mantinha relações suspeitas com Vorcaro.: Alexandre de Moraes também é citado no relatório da PF, e não tem interesse no derretimento do colega.

Lula ouviu tanto Moraes quanto Gilmar Mendes padrinhos de Gonet em sua ascensão ao cargo de PGR — e ambos se empenharam em defender Toffoli, que tinha maioria de votos a seu favor — só Fachin e Cármen Lúcia sinalizavam ser contrários —, mas prevaleceu sugestão de Flávio Dino para uma nota pública com todos apoiando o ministro e uma troca na relatoria da investigação. Mas o cenário mudou devido aos diálogos revelados pelo site Poder360, que reproduzem as conversas de forma literal e precisa, sugerindo que alguém gravou clandestinamente aa sessão secreta do dia 12.

Toffoli negou ter feito qualquer registro e levantou a suspeita de que algum funcionário do Tribunal seja o responsável, mas a situação sem precedentes gerou uma quebra de confiança inédita, mesmo porque quem fez a gravação divulgou apenas trechos favoráveis ao ministro, sem mostrar a complexidade do que foi discutido na sessão.

Fato é que os supremos togados sabem o que fizeram e do que podem ser acusados pelos colegas, que também têm culpa no cartório. Edson Fachin foi alçado ao STF com apoio dos irmãos Batista, da J & F; Luiz Fux foi apadrinhado por Sérgio Cabral; Gilmar Mendes e André Mendonça fazem parte de organizações que promovem encontros empresariais e seminários patrocinados e/ou financiados por empresas e empresários com ações em trâmite no STF; Nunes Marques também é empresário “nas horas vagas”; enfim, somente Cármen Lúcia e Cristiano Zanin parecem “sobrar”.


Uma matéria recente do Estadão mostrou que cerca de 70% das ações de escritórios de parentes de ministros correm no próprio Supremo — ou seja, o sangue fala mais alto na hora da escolha dos advogados, e o DNA fala mais alto ainda na hora do acerto dos honorários. A despeito do corporativismo estrutural de todos os órgãos públicos, é inegável que há algo estranho nessa relação de compadrio explícito, quase subserviente, que impera na mais alta casa de Justiça deste país. A mídia e a população mais antenada desconfiam do porquê, mas suas excelência sabem muito bem os motivos — tão bem como sabem valorizar o segredo.

Triste Brasil.