sábado, 21 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 87ª PARTE

CRER OU NÃO CRER, EIS A QUESTÃO.

Crer ou não crer são opções personalíssimas, mas crer piamente na criação do mundo segundo o
Velho Testamento é o mesmo que negar a esfericidade da Terra.

A Bíblia é um conjunto de mitos, lendas, mitos e tradições culturais transmitido oralmente por várias gerações, até ser compilado (por volta de 1200 a.C.).


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Bolsonaro foi internado na UTI do Hospital DF Star no último dia 13 e, a despeito da boa evolução clínica, ainda não há previsão de alta. Como o diabo detesta concorrência, parece que não será desta vez que nos livraremos do golpista fracassado. O mais provável é que ele consiga a tão sonhada “prisão domiciliar por razões humanitárias”, em que pese seu comportamento nada humanitário no auge da pandemia, quando o então mandatário ridicularizou infectados com uma piada homofóbica e imitou, em pelo menos duas lives, um paciente com dificuldades respiratórias (sintoma comum da Covid-19).

Os sucessivos pedidos apresentados pela defesa do “mito” já se tornam cansativos. Na semana passada, Flávio Bolsonaro conversou com Alexandre de Moraes, e Michelle Bolsonaro solicitou uma nova reunião com o ministro.

Da mesma forma que os direitos humanos não deveriam beneficiar criminosos da pior espécie, a prisão domiciliar humanitária também não deveria contemplar sacripantas como o ex-presidente. Mas vale tudo nesta banânia, e alguns togados avaliam que essa medida evitaria que eventual agravamento do quadro de saúde do preso ampliasse ainda mais o desgaste da Corte perante a opinião pública.

Falando em sacripantas, a delação premiada de Daniel Vorcaro avança a passos largos. O ministro André Mendonça, relator do imbróglio, já autorizou a transferência do dito-cujo para a Superintendência da Polícia Federal, em Brasília — que é considerada como o primeiro passo para o acordo de delação.

O ex-banqueiro que antes jantava com a República agora ameaça “jantar” a própria República e já mandou dizer que não pretende livrar ninguém. Afinal, não basta jogar tudo no ventilador: revelação sem comprovação é mero mexerico.

Tudo indica que as revelações atingirão parlamentares de praticamente todos os partidos e pelo menos dois ministros do STF — Toffoli terá de explicar a compra do resort Tayayá; e Moraes, o contrato milionário celebrado entre o banco Master e o escritório de advocacia da família, comandado pela advogada Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro.

A esta altura, interessa saber quem Vorcaro pagou e o que recebeu em troca no caminho do que pode vir a ser a maior fraude financeira da história. De resto, é preciso assegurar que ele restitua o patrimônio bilionário que teria amealhado à margem da lei e que não saia da ação penal que está por vir sem punição adequada, já que delação não implica impunidade.

Paulo Gonet já deixou claro que a PGR não pretende avançar nessa questão. No entanto, como há uma disputa com a PF, caberá ao ministro André Mendonça, relator do imbróglio, definir os próximos passos.

As lambanças da Lava-Jato tisnaram o instituto da delação, mas a ferramenta foi reabilitada nas ações penais contra os mentores do complô do golpe e do assassinato de Marielle Franco. A diferença é que, no caso de Vorcaro, o potencial destrutivo é inédito.


O Gênesis começa com a palavra bereshit (no princípio, numa tradução livre do hebraico) e narra a origem da vida, do mundo e do povo que Moisés supostamente guiou até a terra que Jeová supostamente prometeu a Abraão e seus descendentes. A certa altura, o guia dos judeus errantes teria estendido seu cajado e o Mar Vermelho se abriu, permitindo que ele e seu povo o atravessassem, e fechou-se em seguida, afogando o exército egípcio que os perseguia.


Embora dominasse os segredos das águas, Moisés não fez bom uso do GPS fornecido por Jeová, pois só encontrou Canaã depois de errar pelo deserto do Sinai durante 40 anos. Sem falar que o conceito de terra prometida só fez sentido dali a quase 3 mil anos, com a criação do Estado de Israel


As narrativas que compõem o Gênesis não fornecem uma explicação científica ou histórica sobre o passado, mesmo porque literatura religiosa não é jornalismo nem registra os fatos em tempo real. Ainda assim, criacionistas e seguidores das religiões abraâmicas acreditam que o mundo e tudo que nele existe foi criado em seis dias. Aliás, o bispo irlandês James Ussher foi mais além: em "The Annals of the World", ele anotou que o Criador iniciou sua obra exatamente às 9h00 da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C


Enquanto os dogmas religiosos pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las por meio de experimentos. Premissas científicas podem — e devem — ser questionadas e modificadas à luz de novas descobertas. Já a interpretação literal da Bíblia desconsidera o conhecimento científico acumulado nos últimos séculos em áreas como física, astronomia e biologia, segundo os quais a evolução das espécies e a formação de estrelas e planetas, por exemplo, ocorreram ao longo de bilhões de anos. 


Escorado na Teoria do Big Bang, o modelo cosmológico mais aceito atualmente sustenta que o Universo surgiu a partir de uma explosão de energia e matéria ocorrida há 13,8 bilhões de anos, que nosso sistema solar se formou há 4,6 bilhões de anos, e a Terra, cerca de 100 milhões de anos depois. A família dos Hominídeos divergiu das demais há 20 milhões de anos, o Gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos e o Homo sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos. Não se trata de conjecturas, mas de estimativas baseadas em descobertas arqueológicas e no estudo de ossos e crânios encontrados por paleontólogos.

 

Fé e ciência não são mutuamente excludentes quando a esfera de cada é respeitada. Às religiões compete oferecer conforto espiritual e respostas a questões como o propósito e o sentido da vida. Embora não devamos subestimar a importância da Bíblia nem negar a enorme influência cultural do Gênesis, devemos mantê-los dentro de seu contexto histórico e mitológico, e não interpretá-los como revelações científicas sobre a criação do mundo.


Tomar os textos bíblicos como evidências factuais é ignorar séculos de progresso científico que expandiram nossa compreensão sobre o mundo e tudo que existe nele. Como bem disse o pintor grego Apeles, não vá o sapateiro além das sandálias. O literalismo religioso alimenta a negação de descobertas científicas amplamente aceitas e mina o progresso em questões vitais ao futuro da humanidade.


No tempo das cavernas, tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais. Esse misticismo deu origem às religiões, que não devem ser confundidas com a fé. Ainda que ambas andem de mãos dadas, tanto é possível ter fé e não ser religioso como seguir uma religião simplesmente por tradição familiar ou convenção social. 


As religiões deveriam "religar" o homem a Deus, mas cada vertente — cristã, budista, hinduísta, xamânica, espiritualista, agnóstica, etc. — define deus à sua maneira. Ao longo da História, Cristo, Buda, Maomé, Krishna e outros ícones religiosos deixaram mensagens para determinados povos em determinadas épocas. Todavia, em vez de levarem à unidade, ao amor e ao bem de todos, essas mensagens foram deturpadas para servir a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam na manipulação de seus semelhantes. 


Os primeiros textos védicos remontam a 1.500 a.C., mas os conceitos que eles encerram foram transmitidos oralmente durante séculos. A frase “este é o meu corpo”, que Cristo teria dito na Última Ceia, continua sendo repetida até hoje durante a Eucaristia. Ao “lavar as mãos” Pilatos deixou clara a ligação entre a religião e a política.


Como velhos hábitos são difíceis de erradicar, toda sociedade tem uma religião, toda religião tem um propósito social e toda cerimônia religiosa tem um ritual. O Seder de Pessach e a comunhão são adaptações litúrgicas de uma prática observada nos chimpanzés. As religiões perderam muito da empatia que tinham nos tempos de antanho, mas fenômenos complexos se desenvolvem a partir de começos simples. E como tudo que fazemos é influenciado por nossa história biológica e cosmológica, as próprias religiões têm raízes em comportamentos evolutivos fundamentais, e a Igreja e o Estado foram as duas faces da mesma moeda até a Revolução Francesa.

 

Assim como os vaga-lumes, as religiões precisam da escuridão para brilhar, e são úteis para os poderosos, que lhes dão ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos. É imperativo questionar e erradicar crenças enraizadas, pois é a partir da reflexão que se alcança uma espiritualidade mais ampla e profunda.


A possibilidade de existir um ente superior é plausível, mas como acreditar em um deus criador que concede livre-arbítrio às criaturas se ele promete recompensar os bons com a vida eterna num paraíso celestial e punir os maus com o fogo eterno num inferno comandado por um anjo caído?

 

A rigidez das religiões tende a perpetuar tradições e práticas que raramente resistem ao questionamento crítico, mas a fé que resulta de experiências empíricas leva as pessoas a crer em algo sem que isso lhes seja enfiado goela abaixo por dogmas religiosos.


Essa flexibilidade faz com que a fé se adapte aos valores e interpretações de cada um, tornando sua relação com a religião ainda mais intrigante quando questionamos a natureza da divindade — aliás, dizem que Deus criou a fé e o amor, e o diabo, invejoso, as religiões e o casamento. 


Aristóteles ensinou que o sábio duvida e o sensato reflete. Toda religião é a verdade absoluta para quem a professa, mas não passa de mera fantasia para os devotos das outras seitas. No entanto, qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria refutar a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem ou assando lentamente num espeto. Mesmo assim, em pleno século XXI, algumas doutrinas claramente inverossímeis têm hostes de seguidores que pegam em lanças para defender seus rituais e liturgias. 

 

No Mito da Caverna, Platão ensina que a sabedoria e o conhecimento estão além das aparências superficiais, e que só a reflexão crítica leva à compreensão das nossas convicções e das narrativas que escolhemos abraçar. Infelizmente, argumentar com quem renunciou à lógica é o mesmo que dar remédio a um defunto.


Continua…

sexta-feira, 20 de março de 2026

ENTRE A CRUZ E A CALDEIRINHA

EDUCAI AS CRIANÇAS E NÃO PRECISAREIS PUNIR OS HOMENS.

O mercado de smartphones vive um cenário curioso. De um lado, as fabricantes anunciam atualizações de sistema que chegam a sete anos; de outro, o hardware dos aparelhos deixou de acompanhar o fôlego do software, sobretudo depois que o aumento no preço das memórias e processadores voltados para IA forçou as marcas a priorizar dispositivos intermediários com configurações chinfrins e acabamento cada vez mais simples.


A grande armadilha de 2026 é a potência: um smartphone topo de linha de 2022 ainda oferece mais desempenho que um bom intermediário de 2025 — aparelhos premium de dois anos atrás foram construídos com titânio ou alumínio reforçado, ao passo que os modelos médios de 2026 utilizam materiais mais simples para manter o preço competitivo diante da alta dos semicondutores.

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Com as pesquisas de opinião evidenciando o desgaste que o escândalo do caso Master provocou na imagem do STF, o ex-presidiário "descondenado" que pugna por um quarto mandato presidencial no país do futuro que tem um imenso passado inglório pela frente tenta conter um dos principais focos da crise articulando nos bastidores a aposentadoria antecipada de Dias Toffoli — cujos ombros ele próprio cobriu com a suprema toga, em 2009, como forma de agradecer os "valiosos serviços prestados" ao PT. 
O Supremo não é a única instituição que terá problemas se Vorcaro abrir o bico. Mesmo porque uma eventual delação pode levar o escândalo para dentro do Palácio do Planalto, tendo em vista os contratos celebrados entre empresas ligadas ao Master e o governo da Bahia, então comandado pelo hoje ministro ministro Rui Costa — que diz ter “preocupação zero” com eventuais denúncias, mas não custa lembrar que Bolsonaro disse mais de uma vez que estava cagando para a CPI da Covid, e hoje cumpre pena na Papudinha.
Lulinha afirmou que está disposto a depor no inquérito que apura supostas irregularidades nos descontos do INSS. Seu advogado disse que "há zero chance" de prisão se ele retornar ao Brasil. As investigações sobre suas relações com o Careca do INSS podem dar em nada, mas nada virou um pepino que ultrapassa tudo na estratégia dos opositores do xamã petista, que podem usar as evidências que pesam contra o filho na campanha eleitoral do pai. 
Formado em biologia e tendo atuado como monitor do zoológico de São Paulo, o Ronaldinho dos negócios caprichou na escolha do nome da empresa que abriu em janeiro na Espanha: "Synapta" remete a um tipo específico de pepino-do-mar que tem o formato de serpente e frequenta as profundezas lodosas do Oceano Pacífico.
Lulinha, Lulão, aliados e advogados precisam sincronizar seus passos. Quando Bibo Pai disse que "se tiver filho meu metido nisso, será investigado", uma testemunha já havia cochichado para a PF a suspeita de que Lulinha recebia mesada de R$ 300 mil do Careca. A defesa só deu as caras quando veio a público que Lula depositou R$ 9,7 milhões na conta do filho . 
Os advogados admitiram que Lulinha viajou a Portugal na companhia do Careca e com as despesas pagas pagas por ele. Sobre a Synapta, ssustentam que a empresa se destina a "negócios futuros". Lula deveria considerar a hipótese de convidar seu rebento para ministrar um seminário no PT sobre a arte do empreendedorismo — um setor no qual o petismo tem dificuldades para prospectar votos.

No setor de câmeras, o marketing alardeia a alta resolução para esconder a falta de recursos ópticos reais — sem lentes telefoto dedicadas, os celulares dependem apenas do corte digital, o que gera imagens com ruído. Em outras palavras, um topo de linha antigo ainda entrega fotos superiores devido aos sensores maiores e processadores de imagem mais potentes.

A promessa de prolongar as atualizações também deve ser vista com cautela, pois nada garante que o hardware de um Moto G75, por exemplo, suporte o Android 19 de forma fluida em 2029, pois o excesso de recursos do sistema pode tornar a experiência lenta em componentes que já nasceram limitados.

Para quem busca o melhor custo-benefício, a recomendação técnica aponta para o mercado de seminovos ou recondicionados. Modelos como o iPhone 15 Pro, o Galaxy S24 Ultra ou o Motorola Edge 50 Ultra oferecem uma experiência de uso muito mais consistente do que os lançamentos médios atuais, além de manterem o suporte de segurança em dia e contarem com o desempenho necessário para rodar as inovações de software futuras sem engasgos.

Note que:


1 — Atualizar o Android é crucial para garantir a segurança e o acesso a novos recursos, mas a decisão depende do estado do aparelho e das prioridades de desempenho do usuário. 


2 — Para saber se há atualizações disponíveis, toque em Configurações e em Atualização de software (ou Sobre o telefone). Se houver, faça um backup de seus arquivos e garanta que o aparelho disponha de pelo menos 75% de bateria e conexão Wi-Fi. E tenha em mente que as atualizações costumam exigir vários gigabytes de armazenamento (memória interna do aparelho).


3 — Atualizações de segurança corrigem brechas e protegem os dados contra hackers e golpes, ao passo que upgrades de versão do sistema garantem que aplicativos modernos de bancos e redes sociais (como o WhatsApp) continuem funcionando. Mas se o aparelho for antigo, e o hardware, limitado, o sistema pode ficar lento e/ou a bateria pode durar menos após a atualização. 


4 — Grandes atualizações (como mudar do Android 15 para o 16) podem conter erros iniciais, razão pela qual é recomendável esperar alguns dias para ver relatos de outros usuários — como diz um velho ditado, os pioneiros são reconhecidos pela flecha espetada no peito.


Boa sorte.

quinta-feira, 19 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 86ª PARTE

AS RELIGIÕES SÃO O ÓPIO DO POVO.

Um dos mitos que circundam o mundo científico é o de que todo físico é ateu, mas na prática a coisa não é bem assim. Crer ou não crer jamais impediu cientistas notáveis de avançarem em suas descobertas.

Galileu (1564-1642) se viu forçado a renegar suas descobertas diante do tribunal da Inquisição, mas disse tempos depois que não concebia a ideia de que o mesmo Deus que nos deu inteligência, razão e bom senso nos proibiu de usá-los.

Newton (1643-1727), conhecido por sua castidade e religiosidade, dedicou-se a estudos teológicos e também à alquimia.

Quando perguntaram ao astrofísico Neil deGrasse Tyson se acreditava em Deus, ele respondeu com outra pergunta: Qual Deus, o Deus do Cristianismo, do Judaísmo, do Islã, os Deuses do Hinduísmo?


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Para Lula, a mais recente pesquisa Datafolha rima com o primeiro verso de Águas de Março: "É pau, é pedra, é o fim do caminho..." Entre os resultados obtidos no início de dezembro passado e os divulgados no último sábado, a vantagem do macróbio petista sobre o filho do golpista ora presidiário recuou de quinze pontos percentuais para apenas três. Graças a esse movimento — detectado também por outras pesquisas de institutos respeitáveis —, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias obteve no curto intervalo de três meses um relampejante empate técnico. Por outro lado, o Datafolha consolida a percepção segundo a qual o principal adversário do candidato ao quarto mandato é um fenômeno que os engenheiros chamam de fadiga do material.

Ao término do atual gestão, somando-se o tempo de Presidência de Lula e Dilma, o PT terá dado as cartas no Planalto por 17 anos e oito meses. Com um novo período de quatro anos, seriam mais de duas décadas no poder. Para desgáudio do molusco, um pedaço do eleitorado parece indagar aos seus botões: "Alguém ainda aguenta?"

Ironicamente, o xamã do partido dos trabalhadores que não trabalham idealizou uma disputa em que o "fato novo" da direita fosse o velho bolsonarismo ao preferir Flávio a Tarcísio — o apadrinhado do mito considerado mais duro de roer. Mas o desempregado que deu certo não imaginava que a transferência de votos do pai preso para o filho seria instantânea, nem que Zero Um seduzisse tão rapidamente um naco expressivo da direita não bolsonarista.

Ainda segundo o Datafolha, 46% dos eleitores declaram que jamais votariam em Lula, enquanto a aversão a Flávio soma 45%. Numa disputa que se prenuncia como apertada, os candidatos disputarão a tapa os votos dos "isentões" (ou "nem-nens"). Nesse contexto, a simultaneidade de três grandes escândalos — do Master, do assalto contra os aposentados e da farra das emendas orçamentárias — leva água para o monjolo da oposição, pois o eleitor tende a cultivar um sentimento vago e fluido contra "tudo o que está aí".

Num cenário onde as mazelas são suprapartidárias e o lodo se espalha pelo assoalho dos Três Poderes, a crítica às estruturas privilegia a ênfase na moralidade administrativa. A mochila de Flávio contém as mazelas golpistas do pai e a biografia rachadinha do filho, mas os tiros previsíveis do petismo serão respondidos com dois torpedos da oposição: a proximidade de Lula com um Supremo de supremacia alquebrada e a movimentação bancária milionária de Lulinha.

Se a campanha evoluir para um embate de paus e pedras, como parece previsível, o fator democrático que impulsionou o renascimento de Lula na vitória apertada de 2022 será diluído numa disputa do tipo sujos contra mal-lavados. Nessa hipótese, o Brasil estará mais distante dos versos que encerram a canção de Jobim: "São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração".


O alemão Max Planck (1858-1947), que formulou a Lei da Radiação do Corpo Negro — marco fundamental no início da física quântica moderna — e foi laureado com Nobel de Física em 1918, vinha de uma família luterana cristã, foi diácono da Igreja de 1920 até sua morte e achava que Deus desempenhava um papel importante tanto na religião quanto na ciência, embora isso não significasse a mesma coisa para ambas e sim uma reverência diante de um Poder sobrenatural ao qual a vida humana é subordinada.


Werner Heisenberg (1901-1976) — laureado com o Nobel de Física por ter estabelecido o Princípio da Incerteza na mecânica quântica em 1927 e reconhecido como um dos pioneiros da mecânica quântica moderna — cresceu em uma família cristã luterana e era cristão fervoroso. Segundo ele, o primeiro gole do copo da ciência nos torna ateus, mas no fundo do copo, Deus está esperando por nós.


Einstein disse em uma de suas mais conhecidas manifestações que Deus é sutil, mas não malicioso, e não joga dados com o Universo. Ele era avesso às religiões demasiado radicais e institucionalizadas, mas cultivava uma profunda religiosidade. Certa vez, numa conversa com o polímata Rabindranath Tagore, ele reconheceu que, embora fosse judeu étnico, era fascinado pela figura de Jesus Cristo.


O físico britânico James Clerk Maxwell (1831-1879) unificou fenômenos elétricos e magnéticos por meio de equações diferenciais fundamentais para várias áreas da física. Suas descobertas embasaram o desenvolvimento da mecânica quântica e da relatividade, além de contribuírem significativamente para a teoria cinética dos gases e a engenharia elétrica moderna. Mas uma carta a um amigo na Trinity College, em Cambridge, revelou que ele somente superou suas fraquezas depois que se entregou a Deus.


Stephen Hawking (​​1942-2018) era declaradamente ateu e via o Universo regido apenas por leis físicas, sem a necessidade de uma intervenção divina. Em uma de suas declarações notáveis, ele disse que não havia evidências da existência de um Deus e que a ideia de um ser sobrenatural criador não era necessária para explicar o Universo.


Fato é que a maioria dos cientistas é avessa ao obscurantismo, à autoridade das igrejas e seitas que tentam impor suas regras e interpretações através de dogmas, impedindo os fiéis de questionar suas premissas. Mesmo porque a ciência só reconhece ou refuta algo de maneira definitiva após observações absolutamente conclusivas. Qualquer radicalismo, seja do lado da crença em Deus, seja do ateísmo mais renhido, não tem nada a ver com fazer ciência.


Em última análise, a história da ciência mostra que curiosidade intelectual, rigor metodológico e busca pela verdade não são incompatíveis com sentimentos de transcendência ou reverência diante do cosmos. O que atrapalha não é a fé em si, mas a imposição dogmática de "verdades" inquestionáveis — algo que pode vir tanto de religiões quanto de ideologias seculares.


Continua…