SE NÃO EXISTE VIDA FORA DA TERRA, ENTÃO O UNIVERSO É UM GRANDE DESPERDÍCIO DE ESPAÇO.
Há frases que envelhecem mal. Outras parecem ficar cada vez mais interessantes com o passar do tempo. Esta segunda categoria talvez se aplique à velha provocação segundo a qual, se estivermos sozinhos no Universo, todo esse espaço sideral terá sido um monumental desperdício de matéria-prima. Mas será que estamos mesmo sozinhos? Eu não tenho a resposta, e se alguém disser que tem, desconfie.
O assunto voltou a ganhar combustível — e não foi pouco — depois que o governo dos Estados Unidos liberou, em 12 de junho deste ano, uma terceira leva de documentos relacionados aos chamados UFOs, OVNIs ou UAPs. Foram 72 arquivos provenientes do FBI, da CIA e do Pentágono, contendo depoimentos, vídeos, fotografias e representações artísticas de fenômenos observados principalmente no nordeste dos Estados Unidos. Os dois primeiros lotes haviam sido divulgados em 8 e 22 de maio, e os relatos são daqueles que parecem ter saído diretamente de um roteiro de ficção científica.
Um dos documentos descreve um episódio ocorrido em julho de 2025. Uma testemunha afirmou ter encontrado, no quintal de casa, uma esfera vermelha extraordinariamente brilhante, pairando a poucos metros do solo. O objeto teria aproximadamente um metro de diâmetro e, em seu centro, havia algo que a testemunha comparou a um “sol de plasma” branco do tamanho de uma bola de basquete.
A testemunha e seu cônjuge teriam observado a esfera subir lentamente e deslocar-se para o lado. Em seguida, perceberam uma segunda esfera semelhante pairando acima da primeira. Outros relatos da mesma região mencionaram posteriormente várias esferas brancas em altitudes maiores.
Outro caso, registrado em outubro de 2024, descreve uma fonte luminosa aparentemente pairando sobre um lago ou lagoa. Segundo o relato, a luz lembrava uma “esfera semelhante a plasma”, mudava intermitentemente de forma e intensidade e, em determinados momentos, parecia dividir-se em pontos luminosos menores.
O detalhe mais interessante é que esse episódio foi registrado em vídeo por um cidadão usando um iPhone. O governo americano informa que a gravação foi analisada e autenticada, embora tenha sido cortada para preservar a privacidade do autor. O FBI classificou como altamente crível a pessoa que relatou o episódio.
Por outro lado, o fato de uma testemunha ser considerada confiável não significa que sua interpretação do fenômeno esteja correta. Uma pessoa pode ter visto exatamente aquilo que descreveu e, ainda assim, não saber o que estava vendo. É justamente por isso que o governo americano prefere atualmente a expressão UAP — Unidentified Anomalous Phenomena, ou fenômenos anômalos não identificados.
O termo é deliberadamente mais amplo que UFO ou OVNI: não pressupõe sequer que aquilo observado seja um “objeto” propriamente dito, muito menos que seja uma aeronave. E “não identificado” é uma expressão muito mais modesta do que parece. Significa, simplesmente, que os dados disponíveis não foram suficientes para determinar o que foi observado. Não significa alienígena, nave espacial, tecnologia extraterrestre, ou que o fenômeno seja impossível de explicar.
Pode ser um balão, um drone, uma aeronave convencional, um satélite, um fenômeno atmosférico, um reflexo, um artefato de câmera, uma ilusão de perspectiva ou simplesmente um erro de percepção. Pode também ser alguma coisa que ainda não conseguimos identificar. A diferença entre essas possibilidades é justamente o que torna o assunto interessante.
Nos primeiros lotes liberados pelo governo americano, diversos episódios receberam explicações convencionais ou foram considerados compatíveis com fenômenos já conhecidos. Outros permaneceram sem uma conclusão definitiva. E isso, embora possa frustrar tanto os ufólogos quanto os céticos militantes, é exatamente o que se espera de uma investigação séria: quando os dados não permitem uma conclusão, a conclusão é que não há dados suficientes para concluir.
Parece óbvio, mas experimente dizer isso numa discussão sobre OVNIs e veja quanto tempo leva para alguém lhe explicar que você está “negando as evidências” — ou, dependendo do interlocutor, “acreditando em homenzinhos verdes”. Entre uma interpretação e outra, permanece uma constatação bastante curiosa: o céu continua produzindo acontecimentos que, pelo menos inicialmente, desafiam nossa capacidade de identificá-los, e o governo americano já não trata o assunto apenas como folclore.
Nos últimos anos, audiências no Congresso, a criação de estruturas específicas para investigar UAPs e a divulgação periódica de documentos transformaram o tema em uma questão institucional. O assunto envolve segurança aérea, defesa, inteligência, tecnologia e, inevitavelmente, a eterna pergunta que desperta a imaginação humana desde que olhamos para as estrelas: e se não estivermos sozinhos?
Não são apenas os americanos que andam olhando para o céu. Por aqui, a história também é bastante interessante. Aliás, o Brasil possui um arquivo público de relatos de fenômenos aéreos não identificados, e os registros não se limitam a histórias antigas de discos voadores vistos por agricultores no meio da noite.
Há relatos envolvendo pilotos, controladores de tráfego aéreo e outras pessoas ligadas à aviação, inclusive em anos recentes.A Força Aérea Brasileira mantém há décadas registros de ocorrências envolvendo objetos voadores não identificados. E existe, inclusive, uma norma específica para isso.
A Portaria nº 551/GC3, de 9 de agosto de 2010, determina que as atividades do Comando da Aeronáutica relacionadas aos OVNIs se restrinjam ao registro das ocorrências e ao encaminhamento da documentação ao Arquivo Nacional. Os relatos recebidos são registrados e catalogados, seguindo posteriormente o trâmite estabelecido pela própria Aeronáutica.
Entre os casos registrados em 2025 aparecem relatos de pontos luminosos observados por profissionais da aviação, inclusive na região de Londrina, no Paraná. Em um dos episódios, um operador da torre teria registrado imagens dos objetos, embora o vídeo não esteja disponível junto à documentação consultada. Outro relato, de 1º de setembro de 2025, em Guarulhos, descreve três — ou possivelmente dois — pontos luminosos com luzes brancas, vermelhas e amarelas realizando movimentos aparentemente irregulares.
Nada disso prova que alguém tenha avistado uma nave extraterrestre. Mas também não há motivo para, pura e simplesmente, arquivar esses relatos no gavetão das bobagens e teorias da conspiração. A aviação moderna é justamente um dos ambientes nos quais um fenômeno aéreo desconhecido merece ser registrado. Pilotos e controladores trabalham com radares, instrumentos, procedimentos e comunicação permanente. Se alguma coisa incomum aparece no céu, o registro da ocorrência é muito mais útil do que simplesmente dizer: “Vi uma coisa estranha ontem.”
E há um detalhe delicioso nessa história: o céu brasileiro continua produzindo relatos enquanto nós continuamos tentando descobrir o que, afinal, as pessoas estão vendo. Em julho deste ano, por exemplo, um piloto de uma aeronave particular que fazia a rota entre São Paulo e Maringá entrou em contato com o Controle de Aproximação de Londrina depois de observar duas luzes muito intensas e de movimento rápido. O episódio foi registrado na comunicação entre a aeronave e o controle de tráfego aéreo e posteriormente divulgado. O piloto chegou a descrever o fenômeno como “sobrenatural”. E para um piloto, que provavelmente já viu muita coisa no céu, essa não é exatamente uma palavra que passe despercebida.
Mas, novamente, sobrenatural é a descrição de uma sensação, não uma conclusão científica. E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro mistério dos OVNIs. Não na pergunta simplista “são extraterrestres ou não?”, mas em uma questão muito mais interessante: quantas coisas nós realmente conseguimos identificar quando olhamos para o céu? Porque o Universo é enorme, e a nossa capacidade de observá-lo, apesar de telescópios, radares, satélites, câmeras e sensores cada vez mais sofisticados é limitada.
Aquilo que chamamos de “não identificado” pode significar muitas coisas diferentes. Pode ser algo perfeitamente terrestre que ainda não reconhecemos. Pode ser um fenômeno natural que ainda não compreendemos. Pode ser uma tecnologia humana desconhecida Pode ser simplesmente um engano, mas também pode ser algo que veio de muito mais longe. Só que, antes de saltarmos para essa última hipótese, existe uma pergunta que precisamos responder: o que seria necessário observar para podermos afirmar, de maneira cientificamente convincente, que um UAP é realmente extraterrestre?
É justamente aí que a história começa a ficar muito mais interessante.
Continua…




