O TEMPO NÃO PARA NO PORTO, NÃO APITA NA CURVA, NÃO ESPERA NINGUÉM;
Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado, devolvia os filhos ao útero de Gaia, até que, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que castrasse o pai.
Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas quem sai aos seus não degenera, e assim ele devorou a própria prole até que Réia escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o pai a regurgitar seus irmãos.
Zeus não só cumpriu a missão como derrotou Cronos numa guerra que durou dez anos e se tornou o rei dos deuses.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Flávio Bolsonaro parecia ter princípios sólidos para refutar a proposta de emenda constitucional que acaba com a escala de trabalho 6x1, que chamou de "inoportuna e eleitoreira". Além disso, acusou Lula de recorrer à "hipocrisia" para obter votos e disse que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem redução salarial, produziria "desemprego em massa".
No entanto, após visitar o pai em seu domicílio prisional, o primogênito do refugo da escória da humanidade afirmou que "a maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da escala 6x1" e antecipou a posição que acabou por adotar no Senado: "Vou votar a favor do fim da 6x1". Lula ironizou: "Parece que, depois da pressão da sociedade, o PL resolveu votar o fim da escala 6x1."
No primeiro turno, o filho do pai obteve 2,2 milhões de votos a mais que o macróbio petista. Segundo o Ministério do Trabalho, 14,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada atuam na escala 6x1. O molusco enxergou nessa legião de beneficiários da PEC uma oportunidade para tentar a virada eleitoral. Num esforço para manter o rival nas cordas, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias mostrou, enfim, que tem princípios. Mas pode ter outros se o trabalhador não gostar deles. Na disputa pelo poder, não hesita em aderir ao que chamava de hipocrisia.
Urano e Cronos são deuses mitológicos, assim como Saturno — a versão romana de Cronos, posteriormente associada ao tempo, que ceifava os dias com sua foice. Mas há uma distinção fundamental entre Cronos (χρόνος) e Kairós (καιρός): o primeiro representa o tempo cronológico, linear e mensurável, e o segundo é associado ao tempo da experiência, do acontecimento, do instante significativo. Alguns pensadores da Antiguidade falavam de Aión, que representa um tempo que não se mede nem se aproveita, mas que se habita e escapa ao relógio e às urgências do agora.
Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos — aquele que o relógio mede e os calendários transformam segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. Essa lógica nos leva a tratá-lo como algo mensurável e manejável — um recurso a ser administrado, otimizado e explorado a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano.
Embora outras formas de compreender e viver o tempo persistam entre povos tradicionais, povos originários, povos indígenas, africanos e do sul global — nessas cosmovisões, o tempo não se comporta como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente, podendo ser cíclico, circular ou espiralar —, convencionou-se adotar o tempo cronológico como padrão universal por ele colonizar o presente — sequestrando nossa atenção —, capturar o passado — reduzindo a memória a registro — e comprometer o futuro — empobrecendo nossa capacidade de imaginá-lo.
Na era dos algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração: tornou-se um sistema de controle íntimo, automático e permanente. No fim das contas, ele venceu não como mito, mas como método. Já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina no Olimpo, mas rege os calendários, metas, prazos e as notificações. Não precisa mais devorar os filhos; apenas convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que ele sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.
Poucas expressões resumem melhor uma experiência humana universal do que "agora ou nunca", pois remete à ideia de que existe um instante preciso para agir e que, se o deixarmos escapar, ele talvez não volte — e com efeito: às vezes nós só compreendemos a importância desses momentos depois que eles já passaram, e então vêm os lamentos: "se eu tivesse dito alguma coisa naquele momento!", ou então as comemorações: "ainda bem que tive coragem", ou ainda a satisfação de descobrir que uma decisão tomada no último minuto foi mesmo a correta.
Além de perceberem o valor desses sopros fugazes, os gregos antigos batizaram esse conceito com o nome do deus, kairós, que, diferentemente de Cronos — que rege o tempo do calendário e do relógio — representa algo mais fugidio, como a ocasião oportuna que se abre e se fecha, o instante em que algo, uma palavra, uma decisão, uma ação, pode acontecer com toda a sua força ou se perder para sempre. Dito com outras palavras, enquanto Cronos expressa a concepção quantitativa do tempo, a duração, a idade, a velocidade, Kairós remete ao momento que marca uma oportunidade que talvez não volte.
Em essência, nem todo instante é igual: alguns têm peso, e esse peso não é medido em horas. Para os antigos gregos, esse peso era tão importante que merecia mais do que uma palavra, e por isso foi personificado em Kairós — uma divindade menor do panteão grego, filho de Zeus segundo algumas fontes, irmão do Destino segundo outras. E além de sua genealogia divina, vale a pena observar sua aparência — quando se tratava de imaginar seus deuses, os gregos deixavam pouco ao acaso: cada detalhe tinha um significado.
Continua...





