A ABSTINÊNCIA É UMA BOA COISA, DESDE QUE PRATICADA COM MODERAÇÃO.
Depois que Plutão foi rebaixado a objeto transnetuniano (2006), nosso sistema solar ficou reduzido a 8 planetas, sendo quatro internos (os rochosos Mercúrio, Vênus, Terra e Marte) e quatro externos (os gasosos Júpiter, Saturno, Urano e Netuno).
Mercúrio é o primeiro planeta por ordem de afastamento do Sol, mas a ausência de atmosfera provoca variações brutais de temperatura (de 430 °C no lado iluminado a −180 °C no lado noturno). Vênus, por outro lado, mantém a maior média térmica do Sistema Solar — 475 °C de forma constante, dia e noite, em qualquer ponto da superfície, como uma estufa perfeita e infernal.
Mercúrio ganhou o nome do deus associado ao comércio, às viagens e à eloquência (correspondente a Hermes, o mensageiro dos deuses na mitologia grega), completa sua translação em 87 dias terrestres, mas leva 58 dias e 16 horas para girar em torno do próprio eixo. A distância média entre ele e a Terra é de 91,7 milhões de km, mas cai para 77 milhões de km na conjunção inferior e aumenta para 221 milhões de km quando passa pelo lado oposto do Sol em relação a nós.
Mercúrio sempre teve um órbita estranha (para os padrões da gravidade newtoniana). Urbain Le Verrier passou a vida acreditando ter descoberto um planeta ainda mais próximo do Sol, e chegou mesmo a batizá-lo de Vulcano (em homenagem ao deus romano do fogo). Sua teoria foi entusiasticamente recebida por astrônomos profissionais e amadores, que decretaram aberta a "temporada de caça a Vulcano". Como a suposta existência desse planeta mais complicava do que simplificava as coisas, a comunidade científica a descartou, a teoria morreu junto com Le Verrier (1877) e o mistério das anomalias na órbita de Mercúrio só foi desvendado quando Einstein publicou sua célebre teoria.
Observação: Acredita-se que nosso sistema solar começou com vários planetas nas vizinhanças do Sol, mas suas órbitas se tornaram instáveis demais, e Mercúrio foi o único sobrevivente. De acordo com Brett Gladman e Kathryn Volk, o planetinha pode ter tido vários "irmãos", mas foi trombando com eles até destruí-los todos.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Mercúrio pode ter encolhido entre 10% e 30% a mais do que os cientistas estimavam anteriormente. Um novo estudo sugere que parte das marcas deixadas pela contração do planeta está escondida sob detritos produzidos por impactos de asteroides. E isso permite traçar uma nova estimativa, que indica que Mercúrio pode ter perdido até 23 km de diâmetro ao longo de sua história. O trabalho, publicado na revista Geophysical Research Letters, foi liderado pelo cientista planetário Gaku Nishiyama, do Instituto de Pesquisa Espacial do Centro Aeroespacial Alemão (DLR).
Assim como os outros planetas rochosos do Sistema Solar, Mercúrio se formou há cerca de 4,5 bilhões de anos, em meio a colisões entre rochas e asteroides que orbitavam o Sol. Esses impactos produziram grandes quantidades de calor, que o planeta vem perdendo desde então. Conforme seu interior esfria, ele se contrai. As camadas rochosas mais externas precisam se adaptar à redução de tamanho e, nesse processo, se deformam e se rompem, originando estruturas tectônicas como escarpas e cristas — uma espécie de registro geológico do encolhimento do planeta.
Saber quanto Mercúrio se contraiu pode revelar características de seu interior. Uma maior contração significa que ele poderia ter um núcleo metálico maior, menos elementos leves como o silício misturados ao núcleo metálico ou uma temperatura inicial mais alta. Como o resfriamento deveria provocar uma contração relativamente uniforme, os sinais desse processo também deveriam estar distribuídos de maneira semelhante pela superfície. Mas há um problema: novos impactos formam crateras, criam depressões e espalham detritos pelo local, tornando algumas regiões mais irregulares e dificultando a identificação das marcas do encolhimento.
Para investigar essa questão, os pesquisadores combinaram mapas anteriores das evidências geológicas de contração com novos mapas da rugosidade de toda a superfície de Mercúrio. Pela primeira vez, a equipe mostrou que as regiões mais irregulares apresentam menos sinais visíveis de contração.
A hipótese levantada pela equipe é que os detritos produzidos pelos impactos estejam encobrindo parte dessas estruturas. Nishiyama compara o processo a uma camada de cascalho recém-colocada sobre uma estrada, capaz de esconder os sulcos que existiam anteriormente. A equipe então usou a contração necessária para formar cristas e escarpas nas áreas menos afetadas por impactos para estimar quanto o planeta teria encolhido como um todo, incluindo as regiões onde possíveis estruturas estão escondidas.
Até agora, estimava-se que Mercúrio tivesse perdido entre 4 e 16 km de seu diâmetro ao longo de sua história. O novo cálculo indica que a contração pode ter sido de 10% a 30% maior do que se pensava, elevando a redução total para até 23 km. Para Nishiyama, embora o valor de 30% seja surpreendente, a estimativa corrigida faz sentido. Com os novos números, as observações sobre o resfriamento e a contração de Mercúrio ficam mais próximas das previsões feitas com base na física, o que pode contribuir para uma compreensão mais precisa do interior do planeta. Ainda assim, o novo cálculo pode continuar subestimando o fenômeno. Os dados disponíveis da missão MESSENGER, da NASA, encerrada em 2015, permitem medir de maneira confiável apenas estruturas com mais de aproximadamente 5 km de diâmetro.]
A expectativa é que esse cenário mude em novembro deste ano, quando a missão BepiColombo começará a obter imagens de maior resolução da superfície de Mercúrio. Nishiyama, que integra a equipe científica da missão, espera que os novos dados permitam observar escarpas, cristas e crateras de impacto com detalhes inéditos, e, assim, revelar outras marcas do encolhimento do planeta.


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