segunda-feira, 5 de outubro de 2026

DE VOLTA AOS UNIVERSOS PARALELOS — CONCLUSÃO

SE VIRES TRÊS, DESCONFIA DE UM; SE VIRES UM, DESCONFIA DE TRÊS. 


O raio estimado do Universo observável (horizonte de partículas) é de aproximadamente 46,5 bilhões de anos-luz, e o da Esfera de Hubble (distância onde a recessão cósmica atinge a velocidade da luz), de apenas 14,4 bilhões de anos-luz. 


O Multiverso de Nível 1 corresponde ao espaço que a luz ainda não alcançou desde o Big Bang, e obedece a todas as leis da física e constantes cosmológicas do nosso Universo. Teoricamente, poderíamos acessá-lo viajando numa nave capaz de avançar pelo cosmos por tempo suficiente para percorrer uma distância da ordem de 10^(10^29) metros, e provavelmente chegaríamos a um sistema planetário igual ao nosso, com um planeta idêntico à Terra, povoado por clones de cada um de nós. 


A existência desses clones não é uma simples possibilidade, mas uma consequência matemática desse modelo cosmológico, uma vez que a "realidade" é apenas a forma como o cosmos organiza suas partículas em um dado momento. Com tempo e espaço suficientes, as partículas se rearranjariam de todas as maneiras possíveis, incluindo a que existe no corpo de cada um de nós. Mal comparando, é como o célebre teorema do macaco infinito: se teclassem ao acaso por tempo igualmente infinito, infinitos macacos quase certamente produziriam todos os textos possíveis, incluindo as obras completas de Shakespeare. 


Observação: Em matemática, "quase certamente" significa que a probabilidade é igual a 1, mas ainda existe a possibilidade lógica (com probabilidade 0) de que os macacos digitem apenas a letra "A" para sempre. É um conceito de infinito: o infinito não garante todas as combinações, mas garante que a probabilidade de não sair Shakespeare é tão pequena que é zero.


Em um universo com combinações finitas de partículas, um número finito de possibilidades certamente irá gerar um "universo-espelho". E como o Multiverso de Nível 1 segue as mesmas leis físicas e constantes cosmológicas do nosso Universo, em tese é possível explorá-lo — desde que nossa tecnologia evolua o suficiente. 


Para entender o Multiverso de Nível 2, é preciso compreender a Teoria da Inflação Cósmica, que é a hipótese mais bem aceita pelos cientistas para explicar a expansão extremamente rápida do Universo em seus primeiros instantes. Segundo essa ideia, um momento de inflação imensa e quase instantânea que se seguiu ao Big Bang, deu origem ao nosso Universo. Entretanto, diferentemente de uma bolha de sabão, ele não ocupa espaço do ambiente externo, existe dentro de um espaço finito e pode criar massa e espaço a partir de quase nada. Isso nos leva à seguinte pergunta: de onde vem tanta força pra vencer toda a pressão que existe “fora” desse universo-bebê?


Conforme Einstein previu matematicamente em suas equações relativísticas, pressão negativa gera gravidade repulsiva. Assim, uma substância em estado de inflação cósmica produz uma antigravidade que faz com que ela se expanda violentamente, e a energia resultante cria massa suficiente para que a substância cresça de tamanho e continue igualmente densa. Em outras palavras, um desdobramento dessa teoria pode criar todo um universo a partir de (quase) nada, e dado que algo pode se expandir infinitamente sem aumentar o espaço que ocupa quando visto "de fora", infinitos espaços podem existir dentro de um espaço finito.


A Teoria do Multiverso não é uma teoria isolada, mas uma consequência de abordagens como a Inflação Eterna e a mecânica quântica. A Inflação Eterna — um desdobramento da teoria da Inflação Cósmica — defende que nosso universo não é único ou especial, que existem outras Inflações Cósmicas acontecendo o tempo todo, dando origem a inúmeros novos universos. Isso significa que o Multiverso de Nível 2 compreende inúmeros universos em diferentes “bolhas inflacionárias”, cada qual com constantes cosmológicas e leis da física específicas, sendo a melhor hipótese apresentada até agora para resolver o problema do ajuste fino (ou fine-tuning) do Universo. 


Nossas constantes fundamentais são compostas por números aparentemente aleatórios, mas, assim como existe um universo exatamente com esses valores, deve haver inúmeros outros universos ocultos, cada qual com valores específicos, e o Multiverso de Nível 2 seria um conjunto de universos eternamente incomunicáveis, já que cada um deles é infinito, embora ocupe um espaço finito quando visto "de fora". 


O Multiverso de Nível 3 não só difere dos outros dois como também é o "queridinho" das obras de ficção científica, como o filme Coerência, por exemplo. De acordo com a Interpretação de Copenhague, proposta por Niels Bohr e Werner Heisenberg, antes de ser observada, cada partícula se comporta também como onda e permanece num estado de superposição quântica. Quando é observada, no entanto, ela colapsa e ‘escolhe’ um único local para se mostrar como partícula. Mas uma teoria alternativa que está ganhando cada vez mais atenção é a chamada Interpretação dos Muitos Mundos, proposta por Hugh Everett em 1957.


Segundo Everett, a onda nunca colapsa; todas as possibilidades de localização da partícula são igualmente verdadeiras, criando a cada instante uma infinidade de bifurcações quânticas, cada qual originando um universo paralelo onde tudo que pode acontecer acontece (em algum lugar). Ou seja, existem inúmeras versões de cada um de nós vivendo em um universo levemente ou completamente diferente, e a cada decisão que tomamos, nosso clone toma uma decisão oposta em algum universo paralelo. Essa infinidade de estados possíveis é descrita matematicamente pelo chamado Espaço de Hilbert, dentro do qual a Interpretação dos Muitos Mundos representa cada ramo como uma realidade distinta.


No famoso experimento de Schrödinger combinado com a Interpretação de Copenhague (detalhes no capítulo anterior), um gato permanece vivo e morto ao mesmo tempo até a caixa onde ele se encontra confinado ser aberta, fazendo com que o estado quântico resulte ou não na morte do gato. Na Interpretação de Everett, no entanto, o universo se separa em dois; num deles o gato está vivo, e no outro, ele está morto. Da mesma forma, nós nos dividimos em dois, e cada uma das nossas realidades fica para sempre conectada com um dos estados do átomo e só participa de um dos universos, que, uma vez separados, seguem cada qual seu próprio caminho e nunca mais interagem com os outros.


A ideia de milhões de universos paralelos existirem parece absurda e contraintuitiva, mas não é mais incoerente do que a ideia de uma partícula se comportar como onda, estar em vários locais ao mesmo tempo e mudar seu comportamento de forma totalmente randômica quando observada — como bem observou Richard Feynman, ninguém realmente compreende a mecânica quântica.


Os cientistas avessos à Interpretação dos Muitos Mundos se apoiam na Navalha de Occam, segundo a qual a solução mais simples tende a ser a verdadeira, até porque seria muito complexo ter que adicionar infinitos universos paralelos para justificar a existência do nosso. Mas o interessante é que a Interpretação dos Muitos Mundos é apenas uma maneira diferente de ver os mesmos dados e os mesmos resultados. A única diferença é que os cientistas que estudam a ideia dos Muitos Mundos acreditam que o observador fica entrelaçado com um dos estados da partícula assim que interage com ela, para nunca mais se separar.


Assim, no Multiverso de Nível 3 tudo o que pode acontecer de fato acontece, e a partícula quântica, em vez de entrar em colapso, ocupa todos os lugares, dando origem a infinitas realidades diferentes a cada segundo. 


No Multiverso de Nível 4, Tegmark defende que todos os multiversos de níveis anteriores fazem parte de uma única estrutura matemática infinitamente e inconcebivelmente complexa, e que, além da estrutura geométrica de quatro dimensões — três espaciais e uma temporal — existem outros universos formados por outras geometrias.


É normal sermos avessos a ideias que contradizem nossa impressão mais imediata da realidade, mas talvez devamos evitar a impressão mais intuitiva. A maioria de nós acredita ser o centro absoluto do universo — ou seja, a pessoa mais real, vívida e importante que existe —, mas raramente falamos desse tipo de egocentrismo por ele ser socialmente repulsivo.


Ainda assim, trata-se de nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento, mesmo porque jamais tivemos uma experiência em que não fôssemos o centro absoluto. Aliás, talvez o fato de esses níveis de multiverso nos colocarem numa posição insignificante seja o que nos incomoda nessa teoria.

domingo, 4 de outubro de 2026

PIZZA DE PÃO AMANHECIDO

A PACIÊNCIA É AMARGA, MAS SEU FRUTO É DOCE.

Reza a lenda que a pizza foi criada pelos egípcios há cerca de 4 mil anos, inicialmente como uma massa fina à base de farinha de trigo ou de arroz — algo parecido com o "pão sírio" —, e que, no final do século XIX, o padeiro napolitano Raffaele Esposito cobriu com molho de tomate, muçarela, rodelas de tomate e folhas de manjericão — as cores da bandeira italiana — e voilà: salta uma pizza margherita.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Lula e Flávio Bolsonaro transformaram o cancelamento do debate da Globo num mote para lamentar a ausência de debate. Empatados nas pesquisas. Igualaram-se também na hipocrisia, mataram todas as tentativas de debate e chegaram ao tribunal das urnas fazendo pose de órfãos do contraditório.

O molusco falou ao podcast Flow sem adversários, e o filho do presidiário se exibiu numa live, com aliados, para seus apoiadores. O petista atribuiu a fuga à inadequação do formato dos debates de primeiro turno, que ele reputa "infrutíferos", ao passo que seu principal desafiante justificou a ausência pela "censura" dos "amigos do Lula" no Judiciário. Nessa versão, o debate foi impedido.

Otimista, Lula disse confiar numa vitória no domingo. Flávio tocou o bumbo do voto útil. Convidou o "voto da revolta" a liquidar a fatura no primeiro turno, não em duas prestações. As torcidas organizadas estão mobilizadas. O eleitor despolarizado talvez prefira esticar a disputa. Senão por outra razão, pelo menos para forçar a exibição de meio quilo de ideias em debates reais.

Fugindo dos debates, os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas atravessaram o primeiro turno embaralhando crises, enquanto os demais viraram cartas fora do baralho. Submetido à escassez de ideias, o pedaço não alinhado do eleitorado saiu do pôquer e se refugiou no marasmo.

Escorados na pujança de suas torcidas organizadas, os favoritos dizem confiar que a fatura será liquidada à vista, sem segunda prestação. Convém torcer para que estejam errados. No Datafolha de quinta-feira, Lula e o filho de Bolsonaro aparecem novamente em empate técnico. Os números da pesquisa sugerem um segundo turno. Mas os dados não permitem tratá-lo como inevitável.

Esticando-se a campanha para a segunda etapa, os favoritos teriam 21 dias para abrir suas cartas. A exposição à controvérsia franca é sempre salutar numa democracia. Mais ainda quando um dos postulantes ao Planalto representa um bloco político cujo líder cumpre pena de prisão por conspirar contra a própria democracia.

Em outras palavras, a concessão de uma vitória antecipada corresponderia a entregar uma carta branca a um dos candidatos. E todos sabem — ou deveriam saber — que, em política, as cartas nada têm de brancas.


A pizza foi trazida ao Brasil pelos imigrantes italianos. As primeiras pizzarias surgiram na década de 1910 e se espalharam pelos bairros paulistanos no final dos anos 1940. A modalidade "para viagem" ganhou força nos anos 1960 e 70, acompanhando o crescimento urbano e o ritmo acelerado das grandes cidades. O "delivery" (entrega em domicílio) revolucionou o setor a partir de 1982, quando a Telepizza popularizou o conceito de "pizza por telefone".


Pedir pizza por telefone e recebê-la quentinha meia hora depois é mais prático e menos trabalhoso do que fazê-la em casa, a menos que se opte por versões de liquidificador ou de pão de forma, entre outras adaptações. Dito isso, com 4 pães franceses amanhecidos (ou 1 baguete) é possível fazer uma pizza caseira bastante aceitável. 


Além do pão, você vai precisar de: 


— 200 a 300 ml de água;

— 3 colheres de sopa (30g) de margarina;

— 3 colheres de sopa (15g) de queijo parmesão ralado;

— ½xícara de chá (160g) de molho de tomate;

— 250 g queijo muçarela em fatias ou ralado

— 1 tomate maduro em rodelas finas;

— Sal, pimenta-do-reino e orégano a gosto;

— Folhas de manjericão fresco a gosto.


Corte os pães em pedaços pequenos e coloque-os em uma tigela com 200ml de água, a margarina e o queijo parmesão ralado. Sove com as mãos até obter uma massa homogênea — se necessário, adicione mais água e tempere com sal a gosto.


Unte uma assadeira de pizza com um pouco margarina e acomode a massa, pressionando-a levemente para formar a base da pizza. Leve ao forno pré-aquecido em temperatura média-alta por 15 a 20 minutos ou até dourar.


Retire a massa do forno, cubra com o molho de tomate e espalhe a muçarela  por cima dele.


Distribua as rodelas de tomate sobre o queijo, tempere com pimenta-do-reino a gosto, leve ao forno por cerca de 15 minutos ou até que o queijo esteja completamente derretido e as bordas douradas e finalize com o orégano e as folhas de manjericão fresco.


Bom apetite.

sábado, 3 de outubro de 2026

DE VOLTA AOS UNIVERSOS PARALELOS

NÃO É PORQUE NÃO VEMOS QUE NÃO EXISTE; NÃO É PORQUE NÃO PODEMOS EXPLICAR QUE NÃO É REAL.

Os astrônomos e astrofísicos não sabem quanto tempo durou a inflação cósmica que marcou os primeiros instantes do Universo, mas, segundo o Teorema de Borde-Guth-Vilenkin, espaços inflacionários não podem ser eternos no passado e precisam ter um começo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O fantasma da interferência dos Estados Unidos ronda a sucessão presidencial brasileira, e na bica do primeiro turno o receio ganhou contornos financeiros. Em notícia-crime enviada à PGR e à PF, a AGU pede a investigação de denúncia veiculada pelo jornal britânico The Guardian, segundo a qual existe um projeto do governo Trump de nome sugestivo — "Combate à Litigância Deliberativa e à Censura no Brasil" — que prevê o investimento de US$ 176,9 milhões de um fundo do Departamento de Estado norte-americano em 43 projetos. O pretexto seria combater a "censura" e um hipotético "abuso de poder" do STF. Horas antes da divulgação da notícia-crime da AGU, Trump sacudiu seu lençol em Washington ao afirmar que acompanha "bem de perto" a eleição no Brasil e classificar a disputa como "muito importante".

Entrementes, o primogênito do presidiário e candidato do PL ao Planalto fugiu do debate da Globo: esgrimindo decisões judiciais inusitadas — numa, a ministra Estela Aranha, do TSE, subverteu regras com as quais todos os candidatos haviam concordado e determinou que a Globo retirasse do cenário o púlpito vazio de Lula e proibisse os os debatedores de dirigirem perguntas ao candidato ausente. 

Uma vez que o molusco macróbio já havia tomado a rota de fuga, o esvaziamento levou a emissora a cancelar o debate. Noutro despacho sui generis, Gilmar Mendes rasgou no Supremo a lei que exclui dos debates candidatos cujos partidos não disponham de cinco representantes na Câmara e ordenou à Globo que admitisse no debate o candidato Renan Santos, atropelando decisões anteriores tomadas por Nunes Marques, no TSE, e por Cármen Lúcia, no próprio STF. No início da semana, Nunes Marques já havia enfiado goela abaixo da Globo a participação de Romeu Zema.

O extravagante protagonismo eleitoral do Judiciário produziu um efeito deletério: o eleitor foi privado de assistir à fricção de ideias dos candidatos que se dispuseram a debater. Ganhou Lula, que havia acertado uma entrevista com o podcast Flow. Perdeu Flávio Bolsonaro, que passou um atestado de covardia para si mesmo. Tremeu com a perspectiva de ser fustigado por Renan Santos. 

Ao cancelar o debate, a Globo produziu dois perdedores adicionais: o eleitor e, sobretudo, a democracia.


Tampouco se sabe o tamanho do cosmos, mas admite-se a possibilidade de ele ser infinitamente maior do que sua porção observável. Até porque, se tivesse uma geometria fechada, uma nave viajando pelo espaço em linha reta por tempo suficiente poderia acabar retornando ao ponto de partida.


Algumas teorias sugerem a existência de múltiplos universos semelhantes ao nosso, mas com diferenças fundamentais. Se essas hipóteses forem corretas, o cosmos pode ser muito mais vasto do que imaginamos, abrigando um número imenso — talvez infinito — de universos paralelos. Em alguns desses cenários, podem existir versões alternativas de cada um de nós, vivendo em realidades semelhantes ou completamente diferentes e fazendo escolhas divergentes a cada decisão tomada.


Admitindo que a inflação tenha gerado inúmeros universos dentro de um multiverso, a quantidade de realidades possíveis implica a existência de fenômenos impossíveis de serem observados. No célebre experimento de Schrödinger, um gato é trancado numa caixa e o decaimento de um único átomo determina se ele vai morrer ou sobreviver. Na leitura de Everett, cada realidade permanece conectada a um dos possíveis estados do átomo. Uma vez separados, esses universos seguem seus próprios caminhos e nunca mais interagem com os demais.


Observação: Segundo a Interpretação de Copenhague, o gato está em um estado de superposição quântica — ou seja, vivo e morto ao mesmo tempo —, e seu futuro será decidido no momento em que a caixa for aberta. Já na Interpretação de Everett o universo se separa em dois; num deles, o gato está vivo, no outro, ele está morto.


Durante muito tempo, falar sobre universos paralelos foi quase um tabu na comunidade científica. Nos últimos anos, porém, a ideia de multiverso passou a receber atenção crescente, não por constituir uma teoria independente, mas por surgir como consequência possível de diferentes modelos físicos amplamente estudados. 


A Relatividade Geral, por exemplo, prevê matematicamente a existência do interior dos buracos negros, embora essa região não possa ser observada diretamente. De maneira semelhante, algumas versões da Inflação Eterna e certas interpretações da mecânica quântica também admitem, como consequência de suas equações, a possibilidade da existência de universos paralelos.


O conceito de multiverso soa menos estranho quando lembramos que, diferentemente dos bits da computação tradicional — que assumem apenas um valor por vez (0 ou 1) —, os qubits (bits quânticos) podem existir em superposição de estados. Na Interpretação dos Muitos Mundos, essa superposição não desaparece com a observação: ela se desdobra em diferentes ramos da realidade. Em outras palavras, cada resultado possível continua existindo, não no mesmo universo, mas em histórias paralelas que evoluem independentemente umas das outras. 


Observação: No chamado Multiverso de Nível 3 — sobre o qual falaremos mais adiante —, a natureza não escolhe apenas um entre vários resultados possíveis. Segundo a Interpretação dos Muitos Mundos, todos eles continuam existindo, cada qual em um ramo distinto da realidade. Em vez de um único futuro, haveria uma multiplicidade de histórias paralelas, descritas matematicamente no Espaço de Hilbert.


Para cientistas do quilate de Neil deGrasse Tyson e Stephen Hawking, a existência de multiversos é uma possibilidade que merece ser levada a sério. O problema é que a expressão "universo paralelo" pode significar coisas muito diferentes, dependendo da teoria considerada, o que dificulta o debate. Para organizar esse cenário, o cosmólogo Max Tegmark propôs uma classificação dos multiversos em quatro níveis, que abordaremos na postagem de amanhã.


Continua…

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A FORÇA MISTERIOSA QUE PODE REESCREVER AS REGRAS DO COSMOS

QUE O TEMPO PERCA A PRESSA E O MISTÉRIO GANHE O MUNDO.


Existem na natureza quatro forças fundamentais: a força gravitacional, a força eletromagnética e as forças nucleares forte e fraca. As três últimas são descritas com grande sucesso pelo Modelo Padrão da física de partículas. A gravidade, porém, continua sendo a grande exceção: domina o comportamento do Universo em larga escala, mas ainda resiste a uma descrição quântica satisfatória.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Nossa Senhora Aparecida escreve certo por linhas tortas. O plenário do TSE decidiu manter a remoção de postagens que atribuem a Flávio Bolsonaro o plano de retirar da santa o título de padroeira do Brasil. Mas o tribunal forçou o relator a recuar da censura: Emendando o próprio voto, o ministro André Mendonça liberou o post polêmico em que o humorista Antonio Tabet publicou uma imagem da padroeira com a seguinte legenda: "A família miliciana odeia tanto mulher preta que decidiu atacar Nossa Senhora Aparecida!".

Com a meia-volta do ministro a postagem de Tabet foi ressuscitada por unanimidade. Ficou decidido que serão apagadas apenas publicações que atribuam ao filho do presidiário o que ele não disse, mas decidiu-se também que é proibido estender a proibição a postagens que nem citam o nome do candidato. Ou que mencionem a hipótese de uma perseguição futura dos Bolsonaro ao título da padroeira. Isso posto, a caligrafia de Nossa Senhora desentortou a ação da campanha do candidato do PL no TSE, e o país está liberado para chamar o clã de "família miliciana". 

Não precisa citar o sobrenome. O primogênito do mito vestiu a carapuça.


Nos átomos e moléculas, os componentes se atraem principalmente por meio da força eletromagnética. A gravidade, por ser muito mais fraca, torna-se insignificante nesse nível, mas domina completamente em escalas maiores — como entre planetas, estrelas e galáxias. Esse desencontro entre o Modelo Padrão e a Relatividade levanta uma das questões mais intrigantes da física moderna: como unificar a gravidade com a mecânica quântica? 


Uma das possibilidades mais promissoras seria a chamada gravidade quântica, que explicaria como a gravidade se comporta nas menores escalas possíveis. Uma das propostas mais discutidas é a existência do gráviton — partícula hipotética responsável por transmitir a gravidade, assim como o fóton transmite o eletromagnetismo —, mas que nenhum experimento conseguiu comprovar até agora.


A gravidade se tornou a queridinha dos físicos depois que a existência das ondas gravitacionais, prevista na Relatividade Geral, foi comprovada. Mais recentemente, físicos da Academia Húngara de Ciências descobriram evidências de uma quinta força fundamental da natureza, que poderia explicar as origens da matéria escura — lembrando que essa misteriosa matéria compõe 27% do Universo, que outros 68% são formados por energia escura e apenas os 5% restantes correspondem à matéria comum (bariônica).


Ao disparar prótons em lítio-7, os pesquisadores descobriram um novo tipo de bóson — cerca de 33 vezes mais pesado do que um elétron e não previsto pelo Modelo Padrão da física de partículas. Segundo eles, cada uma das quatro forças fundamentais tem um bóson mediador já confirmado experimentalmente — fóton, bósons W e Z, e glúons —, com exceção da gravidade, cujo bóson hipotético, o gráviton, é previsto por teorias de gravidade quântica (fora do Modelo Padrão), mas cuja existência ainda não foi comprovada.


Em 2016, pesquisadores da Academia Húngara de Ciências anunciaram resultados experimentais compatíveis com a existência de uma nova partícula, posteriormente apelidada de X17. Caso venham a ser confirmados por outros grupos de pesquisa, esses resultados poderão apontar para a existência de uma quinta força fundamental da natureza. 


Se isso acontecer, a quinta força poderá se juntar ao eletromagnetismo e às forças nucleares forte e fraca, numa interação que ajude a explicar a natureza da matéria escura. Caso contrário, essa hipótese ainda terá cumprido um papel importante: lembrar que a ciência avança justamente investigando anomalias, e que perguntas bem formuladas costumam ser mais valiosas do que respostas precipitadas. 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — INTERLÚDIO

O MAPA NÃO É O TERRITÓRIO

Ao longo dos últimos capítulos, falamos de dimensões ocultas, da Teoria das Cordas, da Teoria M, de branas cósmicas e, por fim, dos buracos de minhoca. Como não poderia deixar de ser, algumas ideias paralelas foram omitidas para não quebrar o ritmo da narrativa, e agora chegou o momento de amarrar essas pontas soltas e só então abordar os paradoxos das viagens no tempo. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Não existem ateus em campanhas eleitorais, mas a família Bolsonaro exagera. Ao fazer da facada de 2018 parte de uma via-crúcis particular, o patriarca do clã, hoje em prisão domiciliar, age como messias. Já o primogênito e herdeiro do martírio faz uma associação mórbida entre a tentativa de homicídio e um suposto plano de tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. 

"Acho que posso considerar uma espécie de facada também essa fake news em mim", disse o filho do "mito" a um podcast católico. Como de hábito, vinculou o criminoso ao ecossistema de Lula — "um ex-integrante do PSOL" —, esquecendo de lembrar ou lembrando de esquecer esquecer que a PF constatou que Adélio Bispo, o agressor, agiu como "lobo solitário", foi diagnosticado com transtorno delirante persistente e está internado numa penitenciária federal de Campo Grande, de onde não sairá antes de 2038.

Um dia depois de acusar a CNBB de orquestrar a aleivosia da tramoia contra Nossa Senhora, o filho do pai disse não ter nada contra religiões diferentes da dele, além de ressaltar que presidente não se mete em religião e definir-se como evangélico, relembrando, emocionado, sua conversão, em 2022. 

Considerando-se o histórico do pai, é difícil saber se a conversão do filho é sincera, mas convém não duvidar: para quem aceitou Daniel Vorcaro a ponto de pedir dinheiro a ele, a adesão à metafísica não chega a ser algo tão radical.


A ciência nem sempre avança em linha reta; às vezes ela cresce justamente explorando caminhos que não conduzem a lugar algum. Mas o importante não é que toda hipótese esteja correta, e sim que seja suficientemente consistente para merecer a devida investigação.


Uma dessas hipóteses nasceu da Teoria M, proposta em 1995 pelo físico Edward Witten como uma tentativa de unificar as cinco versões existentes da Teoria das Supercordas, juntamente com a Supergravidade, dentro de um único arcabouço matemático. No entanto, embora ela seja frequentemente apresentada como candidata à chamada Teoria de Tudo, convém não confundir alhos com bugalhos: a Teoria M procura unificar as leis fundamentais da física; a ideia de um multiverso pode surgir dela, mas também aparece em outras áreas da cosmologia e da mecânica quântica.


Se esse modelo estiver correto, talvez o Universo seja apenas uma entre inúmeras "branas" coexistindo em um espaço de dimensões superiores. Embora pareça um tanto bizarra, essa premissa decorre naturalmente das equações utilizadas em alguns modelos matemáticos, levando a uma pergunta inevitável: se existem outras dimensões, por que nunca as percebemos?


A resposta proposta pela teoria é que essas dimensões não seriam grandes extensões ocultas em algum lugar do cosmos, mas estariam compactificadas e enroladas sobre si mesmas em escalas próximas ao comprimento de Planck — cerca de 10⁻³⁵ metro —, uma distância tão pequena que desafia qualquer tentativa atual de observação direta.


Para compreender melhor, imagine — mais uma vez — uma formiga caminhando sobre uma mangueira de jardim. Vista de longe, essa mangueira parece apenas uma linha, mas a formiga percebe algo que escapa ao observador distante: além de seguir para frente ou para trás, ela pode ainda contornar a circunferência — uma dimensão adicional que sempre esteve ali, mas permanecia invisível em razão da escala.


Segundo alguns físicos, algo semelhante poderia acontecer conosco. Se for assim, isso explica a extraordinária fraqueza da gravidade quando comparada às demais forças fundamentais: enquanto o eletromagnetismo e as forças nucleares permaneceriam confinados à nossa "brana", a gravidade se espalharia pelas dimensões extras, chegando até nós bastante diluída. Mas vale destacar que, embora seja uma ideia elegante, ela ainda carece de confirmação experimental.


Outra proposta igualmente fascinante surge na chamada Interpretação dos Muitos Mundos da mecânica quântica. Segundo ela, o Universo não escolheria um único resultado para cada evento quântico. Em vez disso, todas as possibilidades compatíveis com as leis da física continuariam existindo, cada uma em sua própria ramificação da realidade. Note que não se trata de universos separados por dimensões espaciais, como na Teoria M, mas de histórias alternativas que se desdobram continuamente.


À primeira vista, ambas as ideias parecem defender a existência de inúmeros universos, mas elas nascem de fundamentos completamente diferentes e não devem ser confundidas. Em uma, os universos coexistem como branas em dimensões superiores; na outra, eles surgem como ramificações naturais da evolução quântica. 


Convém ter em mente que nenhuma dessas hipóteses foi confirmada até agora, mas a história da ciência está repleta de teorias que permaneceram décadas — ou mesmo séculos — aguardando instrumentos capazes de colocá-las à prova, bem como de ideias brilhantes que acabaram abandonadas quando confrontadas com novos dados. E isso também se aplica aos buracos de minhoca, que, diferentemente dos buracos negros — que já foram inclusive fotografados pelo Event Horizon Telescope —, continuam envoltos na bruma das especulações. 


As equações da Relatividade Geral admitem soluções que descrevem túneis ligando regiões muito distantes do espaço-tempo, mas o problema é que essas estruturas seriam instáveis e colapsariam antes que qualquer partícula pudesse atravessá-las. Daí surgiu outra formulação igualmente ousada: a utilização de matéria exótica — uma forma hipotética de matéria ou energia capaz de apresentar densidade de energia negativa — que nada tem de extraterrestre ou sobrenatural, pois é apenas uma configuração física diferente daquela observada na matéria comum.


Alguns efeitos previstos pela mecânica quântica — como o efeito Casimir — mostram que pequenas regiões de energia negativa podem surgir em condições muito específicas. O enorme desafio consiste em transformar esse fenômeno microscópico em algo suficiente para manter aberto um túnel através do espaço-tempo.


Há poucos anos, o físico português João Luís Rosa propôs uma alternativa interessante baseada em uma versão modificada da gravidade. Segundo seus cálculos, é possível obter buracos de minhoca atravessáveis sem recorrer às quantidades gigantescas de matéria exótica normalmente exigidas pelos modelos tradicionais. A proposta despertou interesse, mas, como tantas outras ideias de fronteira, ainda aguarda confirmação observacional.


É importante notar que nenhum desses cenários constitui licença para acreditar em qualquer possibilidade imaginável. Pelo contrário. Todos eles nascem de modelos matemáticos rigorosos e permanecem submetidos ao mesmo juiz implacável: a realidade. Isso posto, por que devemos levar essas ideias a sério, mesmo sem provas? Talvez a melhor resposta seja: porque é justamente essa disposição para submeter as próprias ideias ao teste dos fatos que distingue a ciência da fantasia.


É possível que essas teorias não sobrevivam às próximas décadas, mas pode ser que algumas resistam, ou que venhamos a descobrir que o Universo é ainda mais estranho do que todas elas juntas nos levam a imaginar. Ademais, cada hipótese bem construída amplia um pouco mais o horizonte das perguntas possíveis, e mesmo os fracassos ensinam, uma vez que delimitam o caminho pelo qual a natureza decidiu não seguir.


Em última análise, para descobrir como o Universo realmente funciona é preciso aceitar a desconcertante possibilidade de que ele funcione de um modo muito diferente daquele que nossa intuição considera possível.