sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O TEMPO ESTÁ PASSANDO CADA VEZ MAIS RÁPIDO?

TEMPUS FUGIT.

Até a invenção da escrita, o tempo era medido com base em fenômenos naturais sazonais. Mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias e os egípcios criaram um calendário lunar baseado no aparecimento anual da estrela Sirius.


No final do século XVI, o calendário Juliano foi substituído pelo modelo Gregoriano, que atualmente é adotado pela maioria dos países. Mas ainda não se sabe se é o tempo que passa ou se somos nós que passamos por ele como areia entre as câmaras de uma ampulheta.


Atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede — e sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo. Ainda assim, podemos comparar o passado a um lugar distante que gostaríamos de visitar. Mas vale lembrar que uma viagem à Disneylândia ou ao Coliseu depende basicamente de quanto podemos gastar, enquanto viajar para tempos idos, mesmo sendo uma possibilidade matematicamente plausível à luz da Teoria da Relatividade Geral, é bem mais complicado. 


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Edson Fachin presidiu uma sessão com cenas típicas de um bar de quinta instância. Engalfinharam-se as facções de Alexandre de Moraes e André Mendonça. No lance mais violento, Gilmar Mendes partiu para cima de Mendonça e o acusou de atirar contra Moraes perto do 7 de Setembro por razões eleitorais, e o ministro-pastor chamou o desafeto de "leviano". Teve até "pixuleco" na Paulista, lembrou Gilmar, antes de tratar Mendonça como um submafioso: "Até a máfia tem ética".

Em outra garrafada, Moraes acusou Mendonça de estar "a serviço" do bolsonarismo. Disse ter testemunhas de que o rival pressionou a PF para incluí-lo numa delação premiada. Chamado de mentiroso, Moraes não se deu por achado: "Vamos chamar aqui as testemunhas". A condução do caso por Mendonça gerou acusações de parcialidade e abusos. Em reação, Moraes pediu uma investigação contra o rival.

Numa tabelinha com Gilmar, Dino propôs a análise conjunta dos dois casos. O que ocorreria na quarta-feira da semana que vem. Para Dino, o Judiciário vive "o momento mais corrupto da história". Antevê a investigação de outras togas. Toffoli aguarda na fila. Gilmar sustentou que Mendonça protege aliados. Mencionou Nunes Marques. Dino mencionou Luiz Fux e pediu vista, adiando a decisão sobre a investigação de Moraes. Em meio a garrafadas, o Supremo entrou em autocombustão. Cármen Lúcia se disse "envergonhada". Pediu "desculpas" ao país.

Amigos são como táxis. Debaixo de chuva, somem. Apenas 48 horas depois de a Quaest ter trovejado a ultrapassagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula no cenário de segundo turno, Flávio Dino disparou no plenário do Supremo um raio que o parta. Colocou Alexandre de Moraes no colo de Lula.

Diante da tempestade perfeita, Lula tentou abrir o guarda-chuva. Em entrevista à TV Record, defendeu investigações "sem trégua". Disse que Edson Fachin "tem a faca e o queijo na mão" para investigar togas tisnadas pelo Master. Ciente de que o sangramento de Moraes respinga em sua candidatura, Lula repetiu que o Supremo não é lugar para quem deseja enriquecer.

De passagem por Fortaleza, o filho de Bolsonaro realçou o óbvio: com um pedido de vista-bloqueio, Dino tirou a faca das mãos de Fachin. E escondeu o queijo. O debate sobre a investigação de Moraes ficou para depois da eleição. Flávio disse que "a tropa de choque do Lula no Supremo entrou em campo" para blindar Moraes. Não chamou Dino pelo nome. Preferiu chamá-lo de "ex-ministro da Injustiça do Lula."

Segundo o Datafolha, 85% dos eleitores dizem que as acusações contra Moraes não mudam seus votos. Uma ínfima minoria, de 4%, disse ter trocado de candidato. E 7% disseram estar em dúvida. Numa eleição apertada, definida no olho mágico, 7% podem fazer 100% de diferença. Se a minoria indecisa pender para Flávio, um candidato que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, Lula se lembrará de Dino como um táxi que não apareceu na hora da chuva.


Em tese, qualquer tentativa de alterar o passado é automaticamente corrigida pelo próprio curso dos eventos, de modo que o tempo é imutável — ou pelo menos impermeável a grandes alterações. Por outro lado, a Teoria do Multiverso sustenta que cada decisão ou evento gera um desdobramento alternativo, que não afeta a linha do tempo original.


De um tempo a esta parte, por alguma razão incerta e não sabida, o tempo parece estar passando cada vez mais depressa. Isso acontece porque nossa mente “vê” o tempo passar como uma cena exibida em slow-motion. Uma vez que o registro feito pelo cérebro é flexível e leva em conta emoções, expectativas, o quanto as tarefas exigiam de nós num determinado período, e até os nossos sentidos.


Isso explica por que a maioria das pessoas se lembra mais nitidamente do que viveu entre os 15 e os 25 anos — época em que se têm mais experiências novas, e coisas novas tendem a ter um registro mais intenso na memória, já que nosso cérebro parece perceber esses episódios como mais duradouros. No entanto, conforme envelhecemos, os últimos 10 anos parecem ter passado bem mais rapidamente do que as décadas anteriores. 


Enquanto nos deslocamos de casa para o trabalho, por exemplo, temos a impressão de que a viagem demora uma eternidade, mas a sensação é bem diferente quando pensamos nisso na hora do almoço ou no meio da tarde. Mas parece que essa impressão não é só impressão.


Em comparação à época de sua formação, a Terra tem dias muito mais longos. Cerca de 1,4 bilhão de anos atrás, uma rotação levava menos de 19 horas, mas os dias começaram a ficar cerca 13,5 microssegundos mais longos a cada ano, e a precisão dos relógios atômicos levou os cientistas à conclusão de que a Terra vinha desacelerando seu giro muito gradualmente.


Ocorre que, de um tempo a esta parte, nosso planeta voltou a girar mais rapidamente, completando sua rotação em 1,4602 milissegundos a menos do que os habituais 86.400 segundos. Essa aceleração começou a acontecer em 2016, e o dia 29 de junho de 2022 foi o mais curto desde o início das medições. Se a tendência se mantiver, um segundo bissexto negativo será necessário para manter os relógios alinhados com a rotação do planeta. 

 

Observação: Seria a primeira vez na história que se removeria um segundo dos relógios globais, o que poderia ser um problema, pois grande parte da tecnologia moderna é baseada no que se convencionou chamar de “tempo real”. Para alguns especialistas, a solução seria alterar os relógios do mundo da hora solar para a hora atômica, mas essa é uma outra conversa.


Se você vai para a cama com a impressão de que o dia não rendeu, seja bem-vindo ao clube. Embora as horas continuem a ter 60 minutos, o dia solar, 24 horas, e o dia sideral, — tempo que a Terra leva para uma volta completa em torno do seu eixo — 23 horas, 56 minutos e 4 segundos; Mas o tempo medido de uma forma mais sutil e abstrata pela nossa percepção mudou radicalmente ao longo da História. 


Para o soldado romano dos tempos de Júlio César, o tempo parecia passar num ritmo; para o camponês do século 18, esse ritmo era outro; há 30 anos, a gente lia o jornal da manhã e esperava até 20h30 para o Jornal Nacional dar as notícias do dia. Séries eram interrompidas para intervalos comerciais — essas pausas eram aceitas como um respiro, entre um segmento e outro de uma antiga série. Hoje, no entanto, ficamos furiosos quando um serviço de streaming interrompe a exibição do filme por meros 60 segundos para exibir propagandas, talvez porque o tempo pareça ter ficado mais escasso e, portanto, mais valioso.


Em outras palavras, na percepção de tempo atual a areia parece escapar de uma

ampulheta quebrada. Não existe começo nem fim, apenas uma sucessão de ansiedades. Antigamente, a gente esperava pacientemente pela resposta

a uma carta; agora somos bombardeados diariamente no WhatsApp por notinhas, frases, memes, desaforos em grupos de colegas de trabalho, de condôminos e de familiares, e por aí vai.


O único momento em que o tempo parece passar devagar é quando temos insônia. Aí não tem jeito; os segundos viram minutos que se arrastam penosamente, enquanto nós oramos ou criamos fantasias para não pensar nas contas a pagar, no câncer que nos está matando e no tratamento médico que estamos adiando por ser chato e tedioso. Ou seja, o tempo passa devagar porque não estamos nos divertindo ou produzindo nada.


O fato de o tempo parecer tão acelerado não é ruim em si, apenas significa que nossas necessidades são atendidas em tempo cada vez menor, e que estamos vivendo mais intensamente, adquirindo experiências e conhecimentos numa velocidade impensável há apenas algumas décadas. E isso vai se acelerar ainda mais para quem souber usar recursos como a inteligência artificial. 


A questão é que, por não estarmos mentalmente preparados para isso, a adaptação completa demora. O psicólogo alemão Marc Wittmann destacou no livro Felt Time (“Tempo Sentido”) que nós normalmente filtramos nossas lembranças, e isso faz com que os momentos de grande emoção e alegria parecem se esticar em nossas memórias, como num filme em câmera lenta, enquanto os momentos de rotina parecem sumir. Isso foi demonstrado em vários estudos: quanto mais rotina as pessoas relatam, mais rápido o tempo parece passar em retrospectiva.


Para entender como os ciclos de sono, alimentação e produtividade são afetados pela referência das horas, o pesquisador francês Michel Siffre passou dois meses numa caverna escura, sem relógio nem qualquer outra maneira de saber o tempo. A única fonte de luz disponível era uma lâmpada de mineração, que ele usava para cozinhar, ler e escrever em um diário pessoal. No livro Beyond Time (1964), ele relatou que tomava o próprio pulso e contava os segundos até 120 sempre que se comunicava por rádio com a equipe de apoio, mas o tempo real cronometrado por sua equipe era de quase 5 minutos. Sem os indicadores naturais (como nascer e pôr-do-sol), seu ciclo circadiano passou de 24 para 48 horas, e o tempo psicológico foi reduzido à metade do cronológico. O experimento se estendeu por dois meses, que para ele pareceram menos de um.


Décadas depois — mais exatamente em 21 de novembro de 2021 — uma atleta espanhola chamada Beatriz Flamini entrou numa caverna a 70 metros de profundidade e lá permaneceu isolada do mundo por 500 dias. Monitorada à distância, mas sem manter diálogo com ninguém, ela passou seu tempo fazendo exercícios, desenhando, lendo, fazendo tricô e conversando consigo mesma. Para ela, não havia dia ou noite, nem chuva ou sol. Eventualmente, parou de contar os dias, e quando saiu, um ano e meio depois, disse que achava ter ficado na caverna por cerca de seis meses.


Segundo Adrian Bejan, pesquisador da Duke University, não percebemos a passagem do tempo diretamente; percebemos apenas as mudanças que ocorrem à nossa volta e as registramos como uma sequência mental. É por isso que o presente difere do passado: não porque o relógio avançou, mas porque nossa percepção da realidade mudou. No escuro da caverna, onde quase nada se alterava para Michel Siffre e Beatriz Flamini, havia poucos estímulos para renovar essa sequência de imagens. Sem essas referências, o tempo parecia quase não passar.


Um dos maiores especialistas no tema hoje é o sociólogo alemão Hartmut Rosa, autor de Social Acceleration: A New Theory of Modernity (“Aceleração Social: Uma Nova Teoria da Modernidade”). Segundo ele, vivemos uma ordem social que depende da aceleração para continuar funcionando. Temos que produzir mais, comunicarmo-nos mais rapidamente, tomar decisões em menor tempo, acumular mais experiências durante uma vida limitada, e por aí afora. 


Rosa descreve três formas de aceleração. A primeira é a tecnológica — viagens e comunicações encurtaram distâncias, e o tempo, por estar comprimido, torna-se escasso. Um exemplo disso é a correspondência por escrito, um processo lento que o correio eletrônico acelerou significativamente. Todavia, por ser tão rápido e prático, ele nos obriga a lidar com dezenas, centenas de emails por dia. O tempo economizado pela aceleração é ocupado pela multiplicação das tarefas, e assim o dia fica curto.


A segunda aceleração apontada por Rosa é o das transformações sociais. Profissões, conhecimentos, relacionamentos, identidades sociais ocorrem dentro de uma geração, dando azo à “contração do presente”: o intervalo durante o qual nossas experiências passadas ainda servem para orientar o futuro torna-se

cada vez menor. Aquilo que aprendemos ontem pode não funcionar

amanhã. A terceira é a aceleração da vida em si. Viramos multitarefas, reduzimos pausas e intervalos, comemos rapidamente de olho no celular e sentimos culpa por momentos em que não estamos produzindo algo. Esse novo comportamento nos leva à impressão de que o tempo está curto e não temos mais tempo para exercer todas as tarefas que nos impomos.


Tudo isso pode parecer negativo, mas você voltaria ao tempo das cartas, dos telegramas, dos aviões a hélice, dos telefones discados, da televisão com cinco canais, dos empregos fixos pela vida inteira, da aposentadoria no sofá esperando a morte chegar? As sociedades mudam desde que a humanidade se organizou, e o modelo atual precisa dessa aceleração até para sobreviver. Nas palavras de Rosa: “Uma sociedade é moderna quando só consegue estabilizar-se dinamicamente", isto é, quando necessita sistematicamente de crescimento, inovação e aceleração para conservar sua estrutura e reproduzir o status quo.


"Sed fugit interea fugit irreparabile tempus”, dizia o poeta romano Virgílio,

que morreu pouco antes do nascimento de Cristo. Já naquela época, ele constatou que o tempo foge irreversivelmente — e hoje foge com muito mais velocidade. Em face do exposto, a pergunta é: como tocar nossas vidas diminuindo a sensação de

ansiedade? 


A resposta é: 1) reduza a fragmentação do dia – mudar de atividade a cada dez minutos aumenta nossa aflição; 2) tente reservar períodos de 30 a 60

minutos para realizar só uma tarefa; 3) Estabeleça intervalos para conferir

mensagens e e-mails e reserve cinco minutos para fazer nada; 4) Mude a rotina – fazer tudo igual todos os dias dá essa sensação de diminuir o tempo; 5) Escreva um diário – não precisa ser um longo relatório das suas atividades, apenas registre-as (em papel ou num computador) em poucas linhas o que aconteceu, especialmente os momentos mais agradáveis.


Adicionalmente, crie prioridades na sua agenda – fazer tudo o tempo todo todos os dias destrói a noção de tempo. Defina tarefas essenciais, valorize suas opções principais, já que a ansiedade tende a aumentar com a sensação de que temos de fazer várias coisas ao mesmo tempo.


Boa sorte.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O MONSTRO DE OLHOS VERDES

O CIÚME É UMA FORMA DE AMOR OU APENAS UMA FORMA DE POSSE?

Costuma-se dizer que “ciúme não é de todo ruim: a pessoa se sente valorizada”. No entanto, não se trata de uma opinião unânime. Para muita gente, “ciúme é uma merda” — e ponto final.


Mas afinal, o que é o ciúme? Uma reação natural à ameaça de perder alguém que amamos? Uma característica inata do Homo sapiens, desenvolvida ao longo da evolução para proteger parceiros, vínculos e descendentes? Ou simplesmente uma construção cultural das sociedades que adotaram a monogamia como modelo predominante?


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Ao decidir não decidir, os ministros do STF deram margem a dois finais, nenhum dos dois feliz; na melhor das hipóteses, Alexandre de Moraes passará de juiz implacável a investigado precário; na pior, as suspeitas sobre o relacionamento potencialmente criminoso do magistrado com Daniel Vorcaro serão ignoradas. 

A primeira alternativa seria melhor, pois abriria a perspectiva de que outras togas sob suspeição fossem investigadas. A segunda é pior porque representaria o suicídio do Supremo, que cavou a própria cova em fevereiro, ao ignorar as 35 milhões de razões que a PF apresentou para a abertura de um inquérito contra Dias Toffoli, e, ao blindar Moraes, joga terra em cima de si mesmo.

Não são apenas os erros que matam uma instituição, mas o modo como reagem seus membros depois de cometê-los. Certas togas aprendem tanto com seus erros que flertam com a tentação de cometer mais alguns. Todos são iguais perante a lei, mas são piores os que, tendo a obrigação de proteger a Constituição, afrontam os princípios constitucionais.

Moraes estreou na vida pública como promotor. Foi um exímio acusador. No Supremo, tornou-se um juiz implacável. Forçado pelas circunstâncias a advogar em causa própria, aplica mal os princípios que fizeram seu sucesso. Em vez de se defender, ataca. Rigoroso com os outros, pede ao país que seja condescendente com ele. Sua defesa tem 44 páginas, chama de "farsa" o relatório da PF, sustenta que André Mendonça encomendou o documento por "motivação político-eleitoral" e que é vítima de "vingança" de uma toga bolsonarista pelas condenações de Bolsonaro e seus cúmplices no complô do golpe.

Mendonça, de fato, não é cristão que se cheire. Virou boneco inflável em comício de Flávio Bolsonaro. Mas isso não apaga as 52 mensagens endereçadas por Daniel Vorcaro ao celular do ministro mais poderoso do Supremo até o ano passado. Se pudesse, Moraes diria: não recebo mensagem de bandido. Cuidadoso, preferiu construir um teste de múltipla escolha: Letra A) o conteúdo do bloco de notas de Vorcaro pode não ter sido enviado a alguém; letra B) pode ter sido remetido a diversas pessoas; letra C) as mensagens talvez tenham sido apagadas antes de serem visualizadas; letra D) as mensagens talvez nunca tenham sido efetivamente lidas. Por fim, Moraes realçou que não há vestígio de mensagem enviada por ele a Vorcaro. Portanto, os diálogos são fantasiosos".

O ministro não mencionou que trocou de celular. Como o aparelho não foi cedido nem apreendido pela PF, a tese da fantasia vale até certo ponto: o ponto de interrogação. A dúvida pede investigação. Moraes considera-se merecedor de uma estátua por ter ajudado a salvar a democracia. O problema é que virou pardal de si mesmo. Começou a sujar a calva de bronze ao avalizar o contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório da mulher. Descobre agora que o Olimpo não tem escadas.


A resposta, como quase sempre acontece quando o assunto é comportamento humano, parece ser: um pouco de cada coisa. Pesquisadores que estudam o comportamento sob uma perspectiva evolucionista consideram que o ciúme pode ter desempenhado uma função adaptativa: diante da ameaça real ou imaginária de um rival, ele poderia estimular comportamentos destinados a preservar uma relação considerada valiosa. Daí surgiriam estratégias de “retenção do parceiro”, que podem ir de atitudes perfeitamente inofensivas — demonstrar afeto, aproximar-se, reforçar o vínculo — até comportamentos de controle e, nos casos extremos, violência.


Mas Isso não significa que o ciúme seja um “programa genético” inevitável, nem que comportamentos destrutivos possam ser justificados pela evolução. A própria pesquisa mostra que a intensidade e a forma de manifestação do ciúme variam conforme a cultura, a experiência de vida, as características do relacionamento e até as atitudes de cada indivíduo diante da infidelidade.


Discussões acadêmicas à parte, o ciúme já rendeu muito boa literatura. Ele aparece em textos religiosos antiquíssimos — inclusive no livro de Números, onde existe uma curiosíssima “lei dos ciúmes”, destinada a lidar com a suspeita de infidelidade conjugal. O marido podia levar a mulher diante do sacerdote para que sua suspeita fosse submetida a um ritual. Ou seja: a humanidade já havia descoberto, há muitos séculos, que o ciúme também precisava de burocracia.


Na literatura clássica, o tema aparece sob inúmeras formas. Está por trás de conflitos da Ilíada, explode em episódios do Decameron, de Boccaccio, e reaparece, com roupagens diferentes, em incontáveis histórias de amor, traição e vingança. Mas sua expressão literária mais conhecida talvez seja mesmo Otelo, de William Shakespeare.


Embora a ideia não fosse original — Shakespeare baseou-se em uma narrativa italiana anterior —, o tratamento que deu ao tema, a construção dos personagens e, sobretudo, a exploração dos mecanismos psicológicos envolvidos fizeram da peça uma das obras-primas da literatura universal.


Otelo é, essencialmente, uma peça sobre o ciúme. Resumindo — e simplificando bastante —, a história começa em Veneza. Otelo, um general mouro a serviço da República, casa-se secretamente com Desdêmona, filha de um importante senador veneziano. Entre seus subordinados está Iago, que guarda ressentimento contra o comandante por ter sido preterido numa promoção em favor do jovem Cássio.


Iago é um sujeito ressentido, inteligente e perverso. E descobre uma arma muito mais poderosa que uma espada: a dúvida. Por meio de insinuações, meias-verdades e mentiras cuidadosamente construídas, ele faz Otelo acreditar que Cássio é amante de Desdêmona. O que começa como uma suspeita vai ganhando corpo na imaginação do general até se transformar, para ele, numa certeza. E é aí que Shakespeare mostra o verdadeiro poder destrutivo do ciúme.


Otelo deixa de enxergar o mundo como ele é e passa a enxergá-lo como o ciúme determina que ele seja. Cada gesto de Desdêmona pode ser interpretado como prova de infidelidade; cada coincidência, como evidência; cada explicação, como tentativa de encobrir a verdade.


O ciúme já não precisa de fatos. Ele próprio produz os fatos de que necessita. Iago percebe isso perfeitamente e pronuncia uma das frases mais famosas da literatura: “Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta.”


A expressão “monstro de olhos verdes” entrou para a linguagem corrente como metáfora do ciúme. E há uma ironia deliciosa na imagem: o monstro alimenta-se justamente da pessoa que o abriga. Quanto mais ciúme, mais sofrimento; quanto mais sofrimento, mais motivos imaginários para sentir ciúme.


Shakespeare volta ao assunto pouco depois, quando Emília observa que certas pessoas “não são ciumentas por causa de alguma coisa: são ciumentas porque são ciumentas”. É uma observação extraordinariamente moderna. O ciúme pode deixar de ser reação a uma ameaça e transformar-se em um sistema autossustentável de suspeitas. É exatamente aí que a literatura encontra a psicologia.


O ciúme começa, muitas vezes, como uma emoção perfeitamente compreensível: “Tenho medo de perder alguém que considero importante.” O problema aparece quando o medo se transforma em vigilância; a vigilância, em controle; o controle, em posse; e a posse, em violência. E talvez seja justamente por isso que o ciúme tenha sobrevivido tão bem ao longo da história humana. Ele toca em algo bastante primitivo: o medo da perda.


Perder o parceiro, perder a atenção, perder o afeto, perder o lugar que ocupamos na vida de alguém. Em termos evolucionistas, a ameaça de um rival poderia representar perda de investimento, de proteção, de parceria ou, em sociedades ancestrais, problemas relacionados à reprodução e à sobrevivência da prole. Não é por acaso que a ciência trata o ciúme como uma emoção associada à ameaça de perda de um relacionamento valioso.


Mas seria simplista concluir que tudo se resume à biologia. A cultura entra em cena com enorme força. O que é considerado traição varia entre sociedades; o que um casal considera aceitável ou inaceitável também varia; e até a importância atribuída à exclusividade sexual e emocional pode mudar conforme a época e o grupo social.


Além disso, as pessoas não sentem ciúme exatamente da mesma maneira. Há quem sofra mais diante da possibilidade de uma ligação emocional do parceiro com outra pessoa; há quem se angustie principalmente diante da possibilidade de uma relação sexual. Pesquisas encontram diferenças médias entre homens e mulheres em determinados cenários, mas também mostram que essas diferenças são influenciadas por fatores culturais, biográficos e relacionais. Portanto, talvez a pergunta correta não seja se o ciúme é “inato” ou “cultural”.


É provável que exista uma predisposição humana para reagir à ameaça de perder um vínculo importante, enquanto a cultura, a personalidade e a história de cada pessoa determinam boa parte da maneira como essa predisposição será expressa. Em outras palavras: a natureza pode fornecer o pavio; a cultura e a experiência decidem, em boa medida, o que será feito com a pólvora.


E, por falar em literatura, há outro personagem que sempre me vem à lembrança quando penso no assunto: Luzia Cambará, de O Continente, primeira parte de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. De todos os volumes da obra, o episódio que mais me fascina é justamente “A Teiniaguá”, narrativa em que surge Luzia, personagem extraordinariamente complexa, sedutora e inquietante.


Luzia é casada com Bolívar Cambará e parece exercer sobre ele uma espécie de fascínio que mistura desejo, medo, sofrimento e ciúme. É uma personagem de personalidade perturbadora, marcada por uma sensualidade quase ameaçadora e por uma relação peculiar com o sofrimento alheio. 


Seu apelido, “Teiniaguá”, não é gratuito: a Teiniaguá pertence à tradição lendária gaúcha da Salamanca do Jarau: uma princesa moura transformada em uma criatura semelhante a uma salamandra, com uma pedra preciosa na cabeça, cuja beleza e fascínio atraem os homens. A lenda foi registrada por João Simões Lopes Neto em Lendas do Sul e serviu de inspiração para Érico Veríssimo.


Luzia é, portanto, uma espécie de Teiniaguá humana: fascinante e perigosa. E aqui aparece uma diferença interessante em relação a Otelo. Em Shakespeare, o ciúme é essencialmente destrutivo para aquele que o sente e, sobretudo, para aquele que dele se torna vítima. Otelo acredita na infidelidade de Desdêmona, deixa-se consumir pela suspeita e acaba assassinando a mulher que ama — que, ironicamente, jamais o traiu.


Em O Tempo e o Vento, o ciúme de Bolívar assume outra configuração. Luzia não é simplesmente uma vítima passiva da paixão possessiva do marido. Ela parece provocar, explorar e até se alimentar desse sofrimento. O ciúme, nesse caso, participa do próprio jogo de poder e sedução entre os personagens. São, portanto, duas faces literárias de uma mesma emoção: Desdêmona é vítima do monstro de olhos verdes. Luzia parece brincar com ele.


E há uma curiosidade pessoal nessa história que talvez seja imperdoavelmente pouco científica, mas absolutamente verdadeira. No seriado O Tempo e o Vento, exibido pela Globo em 1985, e de Carla Camurati interpretando Luzia. O rosto da atriz ficou indelevelmente associado à personagem. Depois disso, tornou-se praticamente impossível encontrar Carla Camurati na televisão ou no cinema sem que aquela Luzia me viesse imediatamente à lembrança. Talvez seja esse o poder da literatura — e, por extensão, do cinema e da televisão: determinados personagens deixam de pertencer exclusivamente ao autor e passam a morar na memória de quem os conheceu.

Voltando ao ciúme, não creio em amor completamente desprovido de qualquer forma de ciúme. Afinal, se alguém ocupa lugar importante em nossa vida, é natural que a possibilidade de perdê-lo provoque alguma inquietação. Mas há uma diferença enorme entre “não quero perder você” e “você não pode pertencer a mais ninguém”. No primeiro caso, existe afeto; no segundo, existe existe posse. E talvez esteja aí a fronteira que realmente importa.


Um pouco de ciúme pode ser apenas o reconhecimento de que o outro é importante. Quando moderado e transformado em diálogo, pode até reforçar a percepção de valor e compromisso dentro de uma relação. Mas, quando se transforma em vigilância, desconfiança permanente, controle, isolamento ou ameaça, deixa de ser demonstração de amor e passa a ser uma forma de sofrimento — para quem sente e, principalmente, para quem é submetido a ele.


No fundo, amar alguém talvez seja aceitar uma coisa bastante incômoda: ninguém possui ninguém. O outro permanece porque quer permanecer, e talvez seja justamente isso que torne uma relação amorosa tão bonita — e tão assustadora. Porque, no amor, não existe contrato de propriedade. Existe escolha. Todos os dias.


E que saudades da Carla Camurati...

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

CRISTAL QUE VIRA BURACO NEGRO

A VIDA É 10% O QUE ACONTECE E 90% COMO A GENTE REAGE A ISSO.

Em 1783, o clérigo e cientista inglês John Michell propôs a existência de "estrelas escuras" e sugeriu que seria possível detectá-las pela influência gravitacional exercida sobre estrelas luminosas que orbitassem ao seu redor.

Treze anos depois, em 1796, o matemático e astrônomo francês Pierre-Simon de Laplace chegou independentemente à mesma conclusão e a publicou no livro Exposition du Système du Monde

Mas foi a Teoria da Relatividade Geral, apresentada por Einstein em 1915 e publicada em sua forma definitiva em 1916, que forneceu as bases matemáticas modernas para a existência dos buracos negros — nome cunhado décadas mais tarde pelo astrônomo norte-americano John Wheeler — e contribuiu para sua popularização tanto na ciência quanto na ficção científica.

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Numa crise institucional, só há duas posições possíveis para um presidente da República: ou é parte da solução ou é parte do problema. 

Flávio Bolsonaro se aproveita do silêncio do Planalto para arrastar Lula para o mesmo pântano em que se encontra Alexandre de Moraes. Antes de reagir, Lula decidiu flertar com a imprudência: testa a profundidade do lodo do Supremo com os dois pés.

Estalando de pureza moral, o filho de Bolsonaro sonega explicações sobre o Dark Horse e cavalga o mote "Fora Lula - Fora Moraes" para turbinar nas redes o ato bolsonarista de 7 de Setembro.. Simultaneamente, Lula se encontrou com três togas em dois dias — na terça-feira, Gilmar Mendes e Edson Fachin; quarta, Flávio Dino.

Gilmar foi o mais explícito. Disse a Lula que o governo é culpado pela crise que engolfa o Supremo. Nessa versão, o Planalto teria ignorado alertas do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sobre intromissões de André Mendonça nas investigações do caso Master e do INSS. Lula optou pela tentativa de pacificação sugerida pelo advogado-geral Jorge Messias, "irmão em Cristo" de Mendonça.

Há um mês, Lula tomou um lado e assumiu um risco ao fazer as pazes com Davi Alcolumbre num jantar na casa de Moraes. Agora, demora a notar que o silêncio deixou de ser uma opção. O caso das relações promíscuas do togado com Vorcaro passou de problema de um magistrado para crise institucional do Supremo, com respingos na PGR e na PF.

Conviria ao molusco eneadáctilo informar rapidamente de que lado escolheu ficar. Um posicionamento adequado não resolve a crise, mas ajudaria a expor o cinismo do 7 de Setembro bolsonarista.

Einstein morreu 64 anos antes que o telescópio Event Horizon capturasse a primeira imagem de um buraco negro, localizado no centro da galáxia Messier 87, a cerca de 53 milhões de anos-luz da Terra (aproximadamente 503,5 quintilhões de quilômetros). A fotografia, divulgada em 2019, confirmou de maneira impressionante a existência desses objetos, que normalmente se formam quando estrelas muito massivas colapsam ao final de sua evolução, podendo também resultar da fusão entre estrelas de nêutrons ou entre buracos negros menores.

Os buracos negros são invisíveis, mas "engolem" tudo o que se aproxima de seu horizonte de eventos, região onde a força gravitacional é tão intensa que nem mesmo a luz consegue escapar. Vale destacar que o termo singularidade costuma ser usado indevidamente como sinônimo de buraco negro, embora designe, na verdade, um ponto onde, segundo as equações da Relatividade Geral, a densidade tenderia ao infinito, produzindo uma curvatura igualmente infinita no espaço-tempo. Mais correto seria dizer que os buracos negros constituem o melhor exemplo de lugares onde uma singularidade pode existir.

Os cientistas ainda não sabem exatamente o que acontece com um objeto depois que ele cruza o horizonte de eventos. Devido aos efeitos da dilatação gravitacional do tempo, escritores e roteiristas costumam associar os buracos negros às viagens no tempo. Curiosamente, porém, são os hipotéticos buracos de minhoca — também chamados de Pontes Einstein-Rosen — que, em teoria, poderiam funcionar como atalhos cósmicos, encurtando a distância entre dois pontos do Universo ou até mesmo entre diferentes momentos da linha do tempo.

O nome buraco de verme, tradução literal de wormhole, surgiu da analogia com o túnel aberto por um verme ao atravessar uma maçã, chegando ao lado oposto sem percorrer toda a superfície da fruta. Em algumas soluções matemáticas da Relatividade Geral, esses "atalhos" aparecem associados aos buracos negros, razão pela qual muitos especulam que civilizações extraterrestres tecnologicamente avançadas poderiam utilizá-los para viajar pelo cosmos.

Ao contrário dos buracos negros, que já foram fotografados, os buracos de minhoca continuam sendo apenas soluções matemáticas sem qualquer comprovação experimental. Alguns cientistas acreditam que, caso esses túneis possuam entradas com raios entre 100 e 10 milhões de quilômetros e sejam tão numerosos quanto as estrelas, sua detecção poderá ser apenas uma questão de tempo. Por outro lado, considerando que um dos buracos negros conhecidos mais próximos da Terra está a cerca de 1.600 anos-luz de distância, viajar até ele na velocidade da Parker Solar Probe — o artefato mais veloz já lançado pela NASA, que atingiu 0,064% da velocidade da luz em dezembro de 2024 — levaria aproximadamente 2,5 milhões de anos.

Buracos negros microscópicos podem surgir durante um processo conhecido como colapso crítico, quando o espaço-tempo passa a se organizar em uma estrutura regular semelhante a um cristal. Até recentemente, essa possibilidade existia apenas no campo da teoria. Agora, um trio de pesquisadores das universidades de Frankfurt e Viena conseguiu demonstrá-la matematicamente pela primeira vez.

A ideia pode parecer estranha, mas a analogia é simples. Assim como as moléculas de água podem se reorganizar espontaneamente para formar um cristal de gelo, a curvatura do espaço-tempo também pode, em determinadas condições, organizar-se de maneira altamente regular, formando aquilo que os físicos chamam de cristal espaço-temporal.

Trata-se de um estado intermediário extremamente instável, capaz de evoluir em duas direções completamente diferentes: dissolver-se novamente, retornando ao espaço-tempo comum preenchido por partículas em movimento livre, ou seguir outro caminho e colapsar, dando origem a um minúsculo buraco negro.

Para compreender melhor esse comportamento, vale recorrer novamente ao exemplo da água. Pouco antes do congelamento, ela permanece líquida, embora esteja muito próxima da transição para o estado sólido. Nessa situação, uma variação mínima de temperatura basta para reorganizar completamente suas moléculas, transformando água líquida em um cristal de gelo.

Segundo a Relatividade Geral, algo semelhante pode ocorrer com o próprio tecido do Universo. Sempre que se deslocam, as partículas influenciam a geometria do espaço-tempo, que é deformado pela presença da massa e da energia. Corpos gigantescos, como estrelas, produzem curvaturas intensas; objetos menores também deformam o espaço-tempo, porém em escala reduzida. Em circunstâncias muito especiais, essa curvatura pode reorganizar-se espontaneamente em um cristal espaço-temporal, abrindo caminho para o surgimento de um buraco negro microscópico.

Ao estudar esse fenômeno em um universo com muitas dimensões, os pesquisadores descobriram algo surpreendente: em vez de tornar os cálculos mais complicados, o aumento do número de dimensões simplificou drasticamente a matemática, permitindo encontrar uma solução exata para a possível transformação do cristal espaço-temporal em um buraco negro. O próximo desafio será verificar se essa solução também pode ser adaptada ao nosso Universo de quatro dimensões. Se isso acontecer, os físicos poderão compreender melhor a realidade em que vivemos recorrendo, paradoxalmente, a um universo hipotético com infinitas dimensões.

Às vezes, para encontrar o caminho mais curto até a realidade, é preciso fazer um enorme desvio pela matemática. Afinal. o Universo nunca foi adepto do caminho mais fácil. Se ele consegue transformar o espaço-tempo em um cristal e, logo depois, em um buraco negro, quem somos nós para reclamar quando a vida complica um simples quebra-cabeça?

terça-feira, 15 de setembro de 2026

MITOS E VERDADES SOBRE A BATERIA DO CELULAR

QUEM SABE FAZ, QUEM COMPREENDE ENSINA. 

Depois que os dumbphones se tornaram smart, a autonomia da bateria se tornou tão importante quanto a memória e o armazenamento interno. Embora esses componentes tenham evoluído significativamente desde os jurássicos modelos à base de níquel-cádmio, o tempo durante o qual o aparelho opera longe da tomada depende da capacidade de sua bateria, do seu consumo energético e do perfil do usuário.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Fachin desligou Mendonça da tomada. Assumiu no sábado a relatoria do caso sobre as relações potencialmente criminosas entre Moraes e Vorcaro. Com isso, será o presidente da corte, e não Mendonça, quem fará o relato dos fatos na sessão plenária da próxima terça-feira. Caberá a ele também proferir o primeiro voto e dizer se há indícios fortes o bastante para investigar Moraes.

A conjuntura exala um aroma de história. É a primeira vez que o plenário do Supremo se reúne para decidir se abre investigação criminal contra uma de suas togas. O ineditismo está crivado de suprema ironia. Moraes é vice-presidente do tribunal. Se nada acontecer, assumirá o comando em setembro de 2027.

Há o risco de um pedido de vista na sessão desta terça. Isso adiaria a decisão. Mas antes de executar a manobra, a falange pró-Moraes terá que ouvir o voto de Fachin. Ele tem declarado que seu dever é "assegurar a integridade" do Supremo. Não é desprezível a hipótese de Fachin votar pela investigação. Ainda que surja no plenário um pedido de vista, ministros contrários ao adiamento podem antecipar seus votos. Isso não impediria a postergação, mas pioraria a imagem de Moraes. 

Nunca um vice do Supremo pareceu tão controversa — a ponto de a eventual vitória de um magistrado ser tratada como perdição da instituição.


Uma bateria de 12 V fornecendo uma corrente de 2 A estará entrega 24 W de potência (tensão × corrente). Um mAh (miliampere/hora) corresponde à carga elétrica transferida por uma corrente constante de um miliampere durante uma hora. Já a potência da bateria é expressa em watts (W) ou joules por segundo (J/s). Assim, se uma bateria opera entre 3,7 V a 4,4 V e fornece 2A, sua potência instantânea fica entre 7,4 W e 8,8 W. No entanto, quanto mais recursos forem ativados, mais rápido a reserva de energia irá se esgotar. 

Em tese, quanto maior a capacidade, maior tende a ser a autonomia da bateria. Na prática, porém, dois aparelhos idênticos usados por pessoas de perfis diferentes podem exigir recargas em intervalos distintos. E como nem mesmo as baterias de 5.000 ou 6.000 mAh desobrigam os heavy users de fazer um “pit stop” entre recargas, os carregadores rápidos se tornaram um item de primeira necessidade.


É possível aumentar a capacidade das baterias (haja vista os modelos que equipam os cada vez mais comuns veículos elétricos). O problema é obter esse resultado sem comprometer o tamanho do componente ou elevar excessivamente seu custo de fabricação. 


A chinesa Xiaomi surpreendeu o mercado no ano passado com o lançamento do Redmi K80 Ultra — modelo de preço intermediário que integra uma bateria de silício-carbono de 7.410 mAh, capaz de resistir até dois dias de uso intenso — e carregamento rápido de 100W — que recupera até 80% da carga em menos de 30 minutos. A também chinesa Oukitel oferece modelos com bateria de 18.000 mAh, que proporcionam 10 dias de uso moderado ou até 4 dias de uso intenso sem necessidade de recarga (o WP19 chega a 21.000 mAh e promete uma semana completa mesmo em uso intenso, mas nem todo mundo está disposto a carregar no bolso um "tijolão" que lembra um rádio comunicador militar.


A pergunta é: se é possível equipar smartphones com baterias de mais de 10.000 mAh, o que a Apple, a Samsung e a Motorola estão esperando para lançar modelos com esse "poder de fogo"? A resposta está no equilíbrio entre design e usabilidade: a maioria dos usuários prioriza aparelhos finos e leves, confortáveis no bolso e na mão, e uma bateria convencional dessa capacidade exigiria um aparelho muito mais espesso e pesado que um iPhone. E isso sem falar no custo de fabricação e no tempo de recarga, que pode variar entre 3 e 5 horas, mesmo com carregadores rápidos.


A Honor já oferece smartphones com baterias de silício-carbono que prometem até três dias de autonomia e mantêm a capacidade máxima de carga mesmo após três anos de uso. A Realme já apresentou protótipos com baterias de 10.000 mAh — um avanço significativo em relação às baterias convencionais de 5.000 mAh da concorrência. O iPhone 17 Air integra uma bateria com maior densidade energética do que a dos dispositivos baseados em polímeros de lítio.


Pesquisas em outros segmentos apresentam avanços notáveis: os chineses criaram uma mini bateria nuclear que promete durar mais de 7.000 anos (destinada principalmente a sensores, dispositivos médicos e aplicações de baixíssimo consumo), enquanto os dinamarqueses desenvolveram uma superbateria com eficiência de 90%, capaz de abastecer 100 mil casas por até 10 horas. Mas ainda não se sabe quando — nem se — essas soluções chegarão ao usuário final.


Existem diversas recomendações relacionadas ao uso da bateria que deixaram de fazer sentido quando os fabricantes substituíram o níquel-cádmio pelos íons de lítio (ou polímeros, em alguns casos). Entre outras coisas, essa mudança pôs fim ao famigerado "efeito memória" — perda progressiva da capacidade de carga quando a reserva de energia não era esgotada integralmente antes de a bateria ser recarregada. 


Observação: Os dumbphones passavam dias longe da tomada porque eram usados basicamente em chamadas de voz e mensagens de texto. Já os smartphones rodam sistemas complexos e executam os mais diversos aplicativos, daí seu consumo energético ser maior, e sua autonomia, menor.


Concluído esta (não tão) breve contextualização, resta lembrar a quem interessar possa que tanto a autonomia quanto a vida útil das baterias podem ser prolongadas com a adoção de alguns cuidados simples, mas, de novo, é preciso separar o joio do trigo, ou melhor, os mitos da realidade. 


Usar o aparelho durante a recarga da bateria não causa danos, mas retarda o processo. Para ganhar tempo, ative o "modo avião" ou simplesmente desligue o telefone durante a recarga — isso mata dois coelhos com uma única cajadada, já que reiniciar (ou desligar e religar) o dispositivo diariamente ou a cada dois ou três dias ajuda a manter o desempenho nos trinques. 


Embora não seja o ideal, você pode utilizar carregadores de outras marcas, mas convém fugir de produtos xing-ling, vendidos por uma fração do preço dos originais, pois eles não passam de imitações baratas que podem causar estragos e pôr em risco sua segurança. Use somente dispositivos certificados e compatíveis com os padrões exigidos pelo fabricante (USB Power Delivery, Quick Charge etc.)."


Convém também evitar manter o telefone na carga por mais tempo que o necessário (os fabricantes recomendam manter o nível de carga entre 20% e 80%). É fato que os riscos de superaquecimento e explosão são desprezíveis quando a bateria e o carregador são originais ou homologados pelo fabricante do celular, já que um sistema inteligente interrompe a passagem de corrente quando a bateria está cheia —, mas seguro morreu de velho. 


Retire o carregador da tomada quando terminar de carregar a bateria, — mantê-lo conectado à tomada desnecessariamente gera o chamado "consumo fantasma", diminui a vida útil do dispositivo e aumenta o risco de acidentes. 


Observação: O consumo é extremamente baixo para um carregador original e certificado, mas o desgaste contínuo dos circuitos internos é real, pois o carregador é essencialmente uma fonte de alimentação eletrônica chaveada — quando você o mantém na tomada, seus circuitos ficam permanentemente energizados e aquecidos, sem falar nos danos causados por eventuais picos ou quedas de tensão da rede elétrica (comuns durante tempestades com raios). Quando a bateria está carregada, os aparelhos simplesmente interrompem o processo, mesmo que você o mantenha conectado ao carregador, mas, pelo menos até onde se sabe, cautela e canja de galinha (se me concedem a redundância) nunca fizeram mal a ninguém. 


Se o manual de instruções do seu aparelho recomendar uma carga completa antes de ser colocado em uso (alguns, inclusive, falam em deixar o aparelho carregando por 12 ou mesmo 24 horas), ignore, pois as baterias modernas costumam vir com pelo menos 40% de carga. Por outro lado, considerando que a configuração do aparelho novo — e a importação dos dados armazenados no aparelho antigo — consomem muita energia, de maneira que o ideal é executar esse processo quando a bateria estiver 100% carregada ou com o carregador conectado ao aparelho e à tomada. 


Embora seja normal o smartphone e o carregador aquecerem durante a recarga, executar esse procedimento em local ventilado e abrigado da luz solar ajuda a manter a temperatura em patamares aceitáveis. Além disso, evite deixar a bateria carregando durante toda a noite — mesmo que o processo seja interrompido quando o nível de carga atinge 100%, o ideal é desconectar o telefone do carregador e este da tomada quando a bateria estiver de 80% a 100% carregada, e então remova o carregador da tomada (na hora de colocar o aparelho para carregar, conecte primeiro o carregador na tomada e depois o cabinho no telefone).  


As baterias são projetadas para suportar de 800 a 1.600 ciclos completos de carga (usar 50% da bateria em um dia, carregá-la até 100%, usar outros 50% no dia seguinte e tornar a carregá-la também conta como um ciclo completo), o que representa uma vida útil de 3 a 5 anos. Considerando que a maioria de nós troca o aparelho por um modelo novo a cada 2 anos, em média, essa vida útil costuma ser mais que suficiente. 


A despeito da evolução ocorrida nos últimos anos ter anulado o efeito memória e sanado outros problemas dos tempos de antanho, as baterias continuam sujeitas às leis da Física. Enquanto não inventarem um smartphone que funcione uma semana inteira longe da tomada sem ganhar o tamanho de um tijolo baiano, resta ao usuário administrar bem a energia disponível e desconfiar de receitas milagrosas espalhadas pela internet.


Afinal, quando o assunto é bateria, há muito mais mitos do que miliampères.