quinta-feira, 24 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 119ª PARTE

O TEMPORA, O MORES…

Ariano Suassuna teria dito que o otimista é um ingênuo e o pessimista, um chato; melhor mesmo é ser um realista esperançoso — que reconhece os fatos, inclusive os desagradáveis, não fecha os olhos diante de estatísticas desfavoráveis e resultados preocupantes, mas tampouco transforma probabilidades em certezas. 


Existe uma diferença enorme entre dizer "a situação é complicada" e dizer "está tudo perdido". A primeira frase descreve um cenário; a segunda decreta um destino. Essa postura é muito próxima do método científico: os pesquisadores não partem do princípio de que tudo vai dar certo nem de que tudo vai dar errado, e sim formulam hipóteses, reúnem evidências, reveem conclusões quando surgem novos dados e seguem investigando enquanto a resposta não é conhecida.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Ganhar a eleição já no primeiro turno é a meta de todos os candidatos. Sonho quase impossível, considerando que, das últimas nove disputas presidenciais, só duas foram decididas na etapa inicial — em 1994 e 1998 —, e isso porque FHC surfou no ocasional fator da unidade nacional em torno do combate à inflação e da estabilidade econômica. Em 2002, a eleição do macróbio que ora postula o quarto mandato — e cujos garranchos verbais milhões de brasileiros não suportam mais ouvir — introduziu na cena o antagonismo materializado no conceito do "nós contra eles", cuja continuidade se traduziu na reação do "eles contra nós" e tornou o debate político refém de duas forças políticas conduzidas pela afeição ou rejeição da maioria dos brasileiros. Essa dinâmica reduziu a possibilidade de construção de consensos mínimos e minou a probabilidade de as eleições presidenciais serem resolvidas na primeira etapa. Lula não conseguiu liquidar logo a fatura, mesmo quando estava nos píncaros da popularidade. É de se imaginar que tenha sido vítima do próprio veneno ao jogar na divisão, apostando na hipótese de a maioria se perfilar ao lado dele. Os índices de mais de 80% de aprovação ao fim do segundo mandato não se traduziram em apoio suficiente para repetir o feito de FHC, que apostou num projeto coletivo de economia estável enquanto Lula se apoiou no culto à própria personalidade. Insistiu nessa toada no terceiro mandato, a despeito das evidências de fadiga dessa matéria-prima, subestimou a oposição aos seus planos de continuidade eterna, dentro e fora do universo político. Agora, apresenta-se ao presidente um dilema. O molusco eneadáctilo se vê como grande líder, mas não lidera uma saída para a crise institucional, arrisca-se a encerrar a carreira com uma derrota vexaminosa para o herdeiro do golpista condenado. E, se ganhar, não está apto a oferecer ao Brasil nada além da promessa de "fazer mais" do mesmo.

Em qualquer dos cenários, o que se vê adiante é estrada escura e um caminho deserto.


Mutatis mutandis, a mesma premissa embasa esta série, até porque em vez de afirmar que viajar no tempo é possível ou impossível, prefiro convidar o leitor a acompanhar o que a física realmente diz, distinguindo fatos, hipóteses e especulações: em última análise, uma postura de curiosidade disciplinada, não de crença, na qual o otimista aposta sem olhar as cartas, o pessimista desiste antes do embaralhar, e o realista esperançoso joga sabendo que pode ganhar ou perder, e só descobrirá o resultado se permanecer na mesa.


Não há aqui qualquer pretensão de oferecer receitas para a felicidade ou frases de efeito, mas apenas uma constatação bem-humorada sobre a condição humana: vivemos sem garantias, porém com escolhas. E, enquanto houver escolhas, sempre fará sentido seguir em frente.


Feitas essas considerações, voltemos à nossa viagem, começando por dizer que, até aqui, tratamos o universo como um palco composto por três dimensões espaciais e uma temporal — um modelo que, durante mais de um século, descreveu com extraordinária precisão praticamente tudo o que observamos. Mas e se ele estiver incompleto? E se existirem outras dimensões ocultas de nossos sentidos, tão pequenas que passam despercebidas?


Embora possam soar como ficção científica, essas possibilidades estão no coração de uma das mais ousadas construções da física moderna: a Teoria das Cordas, que nasceu da tentativa de unificar todas as forças fundamentais da natureza, mas exige algo que desafia profundamente nossa intuição: a existência de dimensões adicionais do espaço. Segundo ela, todas as coisas do universo são compostas por filamentos de energia que vibram como as cordas de um violão, criando diferentes modos de vibração que supostamente correspondem às diversas partículas fundamentais da natureza.


Nessa analogia, o universo seria uma gigantesca sinfonia, na qual cada 'nota' daria origem a uma partícula diferente, mas dificuldade de provar a existência de algo tão minúsculo divide a comunidade científica: alguns pesquisadores consideram a Teoria das Cordas a candidata mais promissora à tão sonhada teoria de tudo, enquanto outros argumentam que, sem previsões passíveis de verificação experimental, ela corre o risco de permanecer mais próxima de uma elegante construção matemática do que de uma teoria física propriamente dita.


Vale ressaltar que, enquanto a Relatividade Geral descreve o universo em quatro dimensões (três espaciais e uma temporal), a Teoria das Cordas exige dimensões adicionais para que sua estrutura matemática permaneça consistente. Nas versões atuais da Teoria das Supercordas, são necessárias dez dimensões, e em sua formulação mais abrangente, conhecida como Teoria M, esse número sobe para onze, sendo sete ocultas à nossa percepção, cujas diferentes formas de vibração corresponderiam, entre outras partículas, aos fótons — partículas da luz — e aos grávitons, partículas hipotéticas que surgiriam numa descrição quântica da gravidade.


A Teoria das Cordas impressiona os físicos pela elegância, pela simetria de suas formulações matemáticas e por apontar para algo profundo sobre a estrutura do universo. No entanto, nosso primeiro impulso é reagir com incredulidade. Afinal, basta olhar ao redor para percebermos que vivemos em um universo com três dimensões espaciais, às quais o tempo assoma como uma quarta dimensão. Onde, então, estariam as dimensões adicionais? E se elas realmente existem, por que não conseguimos percebê-las?


A resposta começa por uma constatação curiosa: nossos sentidos não são árbitros absolutos da realidade. Durante milênios, acreditamos que a Terra era imóvel, que o Sol girava ao seu redor e que o espaço e o tempo eram absolutos. Cada uma dessas certezas acabou sendo revista à medida que novas observações e teorias ampliaram nossa compreensão do universo. Não seria a primeira vez que a natureza se revelaria mais complexa do que nossa intuição permitia imaginar.


É justamente aí que entra uma das analogias mais conhecidas da física teórica. Imagine uma formiga caminhando sobre uma longa mangueira de jardim. Vista de muito longe, a mangueira parece apenas uma linha. Para quem a observa à distância, existe apenas uma direção possível: para frente ou para trás. A formiga, entretanto, enxerga uma realidade diferente. Além de avançar ao longo da mangueira, ela pode contorná-la, caminhando em torno de sua circunferência. Em outras palavras, a formiga percebe uma dimensão que passa despercebida ao observador distante.


Segundo a Teoria das Cordas, algo semelhante poderia acontecer conosco. As dimensões adicionais não seriam grandes extensões ocultas em algum lugar do cosmos, mas dimensões extraordinariamente pequenas, "enroladas" sobre si mesmas — tão diminutas que escapam completamente à nossa percepção e aos instrumentos atualmente disponíveis. É por isso que, embora vivamos imersos nelas, temos a impressão de existir em apenas três dimensões espaciais.


Essa ideia recebeu o nome de compactificação. Em termos simples, significa que certas dimensões não desapareceram nem deixaram de existir; apenas permanecem compactadas em escalas tão minúsculas que, para todos os efeitos práticos, tornam-se invisíveis.


Se isso já parece difícil de imaginar, as dimensões extras são apenas o começo. No próximo capítulo, veremos que algumas versões da Teoria das Cordas abrem caminho para algo ainda mais surpreendente: outros universos coexistindo ao lado do nosso.


Continua…

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

DUAS PELO PREÇO DE UMA

NINGUÉM LHE DEVE NADA. O MUNDO NÃO É JUSTO; FAÇA O QUE VOCÊ TEM DE FAZER SEM ESPERAR NADA DE NINGUÉM.

Cientistas alemães desenvolveram uma nova técnica capaz de identificar os mínimos detalhes da "assinatura" das moléculas, incluindo seus níveis de energia, com precisão espectroscópica, e assim alcançar o limite quântico definitivo.


A precisão espectroscópica não se limita a "ver" a molécula e sua localização, mas também a medir exatamente como ela vibra, gira ou muda de estado quando recebe energia. Já o limite quântico é a fronteira fundamental de uma medição, imposta pelas próprias leis da mecânica quântica, como o Princípio da Incerteza de Heisenberg. Em outras palavras, a nova técnica atinge o nível máximo absoluto de sensibilidade e de resolução que a natureza permite.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O Congresso é a casa do povo, mas é difícil despejar seus inquilinos. A 13 dias das eleições, a maioria já sabe em quem vai votar para presidente e governador, mas ganha uma estátua em praça pública o eleitor que já tiver escolhido todos os candidatos ao Legislativo. E ganha duas estátuas quem se lembrar dos candidatos em quem votou nas eleições passadas.

Dois em cada três eleitores esqueceram o voto para o Legislativo em 2022 e não se lembram de quem escolheram para senador, deputado federal e deputado estadual. Deveriam certificar-se de que não esqueceram a consciência em casa ao entrarem na cabine de votação em 4 de outubro, pois quem não vota com a cabeça paga com o bolso. 

Verbas orçamentárias continuam escorrendo pelo ladrão porque os ladrões não param de entrar nos orçamentos — federal e estaduais. Em meio à perversão, todos os gatunos parecem pardos. Mas igualdade absoluta é uma impossibilidade genética. Cabe ao eleitor impaciente punir os eleitos inconsequentes. Na dúvida, vote no contrário.

O maior escândalo do Legislativo não está nos que estão lá, mas nos que ainda não chegaram. A maior contribuição que muitos políticos podem dar ao país é perder as eleições. Você pode ajudá-los. Faça alguns parlamentares trabalharem: não os reeleja.


Observar as coisas nesse nível de detalhamento é importante porque muitas tecnologias dependem de objetos em nanoescala, como moléculas ou átomos, que interagem fortemente com a luz. Esses objetos são usados para gerar fótons individuais, armazenar informações quânticas e distribuir o entrelaçamento, processos com aplicações que vão das comunicações e da computação quânticas aos sensores mais avançados, capazes de realizar observações em escalas que vão da subatômica à cosmológica.


Estudar átomos e moléculas - ou sistemas quânticos, como os cientistas os chamam - exige mantê-los parados no lugar por um longo período, o que geralmente é feito colocando-os sobre um material hospedeiro em uma atmosfera de vácuo. O problema é que as superfícies facilmente absorvem contaminantes do ambiente, criando um entorno altamente instável e "ruidoso", que não apenas atrapalha a observação, mas também compromete as propriedades dos emissores quânticos, o que significa que as medições feitas não são confiáveis.


O avanço consistiu em gerar uma superfície totalmente limpa, onde o objeto quântico a ser observado pode ser depositado e manter-se lá sem contaminação.. Para obter essa superfície limpa, os pesquisadores tiraram proveito do fato de que um cristal orgânico evapora lentamente à temperatura ambiente. Assim, ao colocar um pequeno cristal em um criostato sob vácuo, as camadas superiores do cristal se desprendem naturalmente, levando consigo os contaminantes. Em seguida, o cristal é resfriado a apenas alguns graus Kelvin acima do zero absoluto para interromper a sublimação. Feito isso, basta depositar as moléculas a serem observadas sobre a superfície do cristal nessas baixas temperaturas, o que é feito em uma espécie de "forno" que a equipe construiu. Adeus ruídos, e bem-vindas medições com precisão espectroscópica no limite quântico.


Uma métrica essencial na observação de um sistema quântico é o seu tempo de coerência, que nunca pode ser maior do que o chamado limite de Fourier, que é dado pelo tempo que a molécula ou átomo leva para transferir sua energia para o ambiente. No entanto, em ambientes "sujos", ou ruidosos, o tempo de coerência acaba ficando centenas ou até milhares de vezes menor.


***


As leis da física são geralmente simétricas, e os processos naturais tendem a seguir uma direção definida, conhecida como seta do tempo. Mas num sistema quântico monitorado, os efeitos da medição e o mecanismo de retroalimentação induzem o sentido da seta do tempo. 


Explicando melhor: na maioria dos processos naturais, observamos que estes seguem uma seta do tempo: os cristais partem-se, os ovos eclodem, as estrelas explodem, etc., mas não se observa que esses processos tenham um comportamento na ordem inversa. No entanto, um estudo recente demonstra que é possível suprimir a seta do tempo num sistema quântico e, consequentemente, fazendo com que o fluxo temporal aparente possa ser alongado, difuso ou apresentar comportamento semelhante ao de uma evolução temporal invertida.


Aorma como a direção da seta do tempo se manifesta, com base nas leis da simetria temporal, tem suscitado incerteza e perplexidade entre cientistas e filósofos há décadas. As setas do tempo têm sido atribuídas a muitas origens diferentes; algumas delas têm sido associadas à gravidade. A seta do tempo mais reconhecível é talvez a termodinâmica: que surge da simetria temporal da dinâmica microscópica subjacente aos processos termodinâmicos. 


Na Segunda Lei da Termodinâmica, explica-se que, para os sistemas macroscópicos, os processos que aumentam a entropia são mais prováveis do que aqueles que a diminuem. Nos sistemas quânticos, porém, as regras da mecânica quântica implicam que as medições não só observam, como também alteram ativamente o sistema que está sendo medido. Essas características permitem conceber dinâmicas quânticas diferenciadas, incomuns e inesperadas, incluindo trajetórias que parecem uma evolução invertida do tempo.


No geral, a entropia do Universo aumenta. Quanto maior o sistema, mais difícil é identificar dinâmicas anômalas e mais complexo se torna observar dinâmicas que diminuam essa entropia. A manifestação da seta do tempo pode ser medida comparando-se a probabilidade de ocorrência de um processo com o seu inverso temporal.


Sabe-se que a aleatoriedade clássica é o resultado de uma falta de conhecimento completo da descrição microscópica de um sistema. Essa aleatoriedade quântica nos resultados das medições é fundamental. A descrição mais completa de um sistema quântico produz probabilidades de possíveis resultados de medição.


No trabalho de pesquisa, foram identificadas relações complexas entre os regimes de funcionamento dos motores de medição, o fluxo energético 

proveniente das medições, bem como a forma como o feedback afeta a percepção da seta do tempo.


Se estas medições extraem energia do sistema, o mecanismo de retroalimentação que prolonga a seta do tempo também extrai trabalho. No trabalho de simulação, os pesquisadores utilizaram os avanços alcançados para conceber um motor capaz de converter em trabalho parte da energia associada ao próprio processo de medição do sistema quântico.


A conferir.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

VIAGENS ESPACIAIS E ESTADO DE CONSCIÊNCIA

WHEN GRAVITY LETS GO OF THE MIND

Há pouco mais de seis décadas, os primeiros seres humanos deixaram a Terra e contemplaram-na como ninguém jamais o havia visto: uma pequena esfera azul suspensa na imensidão escura do cosmos, sem fronteiras, sem divisões políticas e incrivelmente frágil.
Ao retornarem, muitos astronautas descreveram essa experiência como profundamente transformadora. Entre outras coisas, eles afirmaram enxergar a humanidade sob uma perspectiva completamente diferente, desenvolvendo um sentimento de pertencimento, responsabilidade ambiental e unidade entre os povos.
Essa mudança de percepção recebeu o nome de overview effect (efeito perspectiva) e foi considerada apenas uma resposta emocional provocada pela grandiosidade da paisagem espacial até uma pesquisa recente, publicada na revista Frontiers in Psychology, propor uma hipótese fascinante: talvez a transformação experimentada pelos astronautas não seja apenas psicológica, já que a gravidade terrestre pode desempenhar um papel muito mais importante na organização da nossa percepção consciente do que se imaginava.
Desde o nascimento, nosso cérebro evoluiu imerso em um ambiente de gravidade constante. Os sensores do sistema vestibular, localizados no ouvido interno, enviam continuamente sinais sobre a orientação do corpo, permitindo que o cérebro saiba, de forma praticamente automática, onde fica o "chão". Esse referencial gravitacional torna-se tão familiar que sequer percebemos sua existência durante a vida cotidiana, e quando essa referência desaparece, o cérebro precisa reorganizar rapidamente a maneira como interpreta a realidade.
As primeiras missões espaciais já registravam episódios de desorientação, vertigens e perda da noção espacial. Hoje, sabe-se que esses sintomas representam apenas a fase inicial de uma adaptação muito mais profunda. Estudos recentes sugerem que a ausência prolongada de gravidade modifica não apenas o equilíbrio corporal, mas também a forma como o cérebro integra informações sensoriais, processa emoções e constrói a percepção do próprio "eu".
Foi exatamente isso que impressionou o astronauta Edgar Mitchell, da missão Apollo 14. Após caminhar na superfície da Lua, ele declarou que observar a Terra daquela distância fazia as disputas políticas parecerem insignificantes diante da unidade da espécie humana. Mas aquilo que muitos interpretaram como uma experiência quase mística pode ter, ao menos em parte, uma explicação neurocientífica: exames realizados em astronautas após longas permanências no espaço revelam alterações estruturais e funcionais no cérebro. 
Os fluidos corporais deslocam-se em direção à cabeça, os ventrículos cerebrais tendem a aumentar de volume e algumas regiões da substância cinzenta apresentam remodelação. Paralelamente, redes neurais responsáveis pelo controle motor adaptam-se ao ambiente de microgravidade, enquanto circuitos associados à autoconsciência parecem sofrer modificações temporárias.
Registros eletroencefalográficos também mostram mudanças na atividade cerebral. Alguns desses padrões apresentam semelhanças matemáticas com aqueles observados em estudos envolvendo substâncias psicodélicas, como LSD e psilocibina. Isso não significa que um astronauta experimente os mesmos efeitos subjetivos dessas drogas, mas sugere que, em ambos os casos, ocorre um relaxamento temporário de certos padrões rígidos de comunicação entre diferentes regiões do cérebro, permitindo uma integração mais ampla das informações sensoriais.
Essas descobertas transformam a exploração espacial em um extraordinário laboratório para investigar um dos maiores mistérios da ciência: a natureza da consciência. Os próprios pesquisadores sugerem que simulações de microgravidade, combinadas com tecnologias de realidade virtual, poderão futuramente contribuir para o desenvolvimento de terapias destinadas ao tratamento de transtornos caracterizados por padrões de pensamento excessivamente rígidos, como alguns tipos de depressão.
Além disso, à medida que o turismo espacial deixa de pertencer exclusivamente aos astronautas profissionais e passa a integrar os planos de empresas privadas, compreender os efeitos psicológicos e neurológicos da ausência de gravidade torna-se uma necessidade prática.
Talvez o maior ensinamento dessas pesquisas seja perceber que, além de habitantes da Terra, somos também produtos dela. Durante milhões de anos, nosso cérebro evoluiu tendo a gravidade como uma presença silenciosa e permanente. Quando essa referência desaparece, não muda apenas a forma como o corpo se movimenta, mas também — ainda que temporariamente — a maneira como enxergamos o mundo e, talvez, a nós mesmos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

HUMOR À BRASILEIRA VS HUMOR À PORTUGUESA

A VIDA É CURTA DEMAIS PARA LEVAR TUDO A FERRO E FOGO. SE VOCÊ NÃO PUDER RIR DE SI MESMO, ME CHAME QUE EU RIO POR VOCÊ.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que foi firmado em 1990 entrou em vigor no Brasil em 2009 e se tornou obrigatório a partir de 2016 (em Portugal, a obrigatoriedade começou em 2015) nasceu com o propósito de aproximar e uniformizar a ortografia dos países lusófonos. Mas a tarefa não é simples, quanto mais não seja porque a língua natal faz parte da cultura de cada povo. 


A “Última Flor do Lácio”, como o poeta Olavo Bilac se referiu à língua portuguesa, é idioma oficial em Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Guiné Equatorial, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Só que os falantes de cá nem sempre — ou quase nunca — entendem perfeitamente o que falam os de lá e de acolá. E vice-versa.


Além de a cultura brasileira ser diferente, o próprio português falado aqui pelas nossas bandas está longe de ser uniforme. São comuns as variações de pronúncia, vocabulário e gramática conforme a região, a faixa etária, o grupo social e a situação de comunicação. Um paulista que estiver no Rio de Janeiro e quiser comprar “coxão mole”, por exemplo, deverá pedir “chã de dentro”; se estiver em Belém do Pará e quiser “carne moída”, terá de pedir “picadinho”.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Tem sido fabuloso o inverno brasileiro de 2026. Os presidentes do Senado e da República flertaram, namoraram ou se desentenderam, não por motivos políticos, mas para ganhar eleição ou dinheiro. O milagreiro — agora de chapéu — celebrou outra semeadura imaginária e prometeu que será ainda mais farta a colheita sucessivamente adiada desde 2024. Em agosto, garantiu que a picanha para todos estava prestes a descer do palanque em que se esconde desde a campanha de 2022. Até agora só deu as caras em churrascos no Palácio da Alvorada. Ocorrências espantosas animaram o inverno que vai terminando. Lula vive ensinando que quando um não quer dois não brigam, e que não há guerra que resista a uma conversa regada a cerveja no botequim da esquina. Mas agora anda provocando Donald Trump com desafios que o gringo valentão teme aceitar. Como se viu no desfile de 7 de Setembro, tropas armadas com carabinas, trabucos e facões deixam claro qual é a superpotência militar do subcontinente. É bom não mexer com o Brasil. Se mexerem com o País do Carnaval, aí estão a China, a Rússia, o MST e a agricultura familiar para enquadrar a extrema direita. Aparentemente insensatos, movimentos na seita lulista apenas reafirmam que, num inverno eleitoral, convém cumprir disciplinadamente as ordens do chefe que tudo sabe e tudo vê. Para que Fernando Haddad reprise em São Paulo o naufrágio de 2022, por exemplo, Lula ordenou à acriana Marina Silva e à sul-matogrossense Simone Tebet que disputem vagas no Senado discursando com sotaque de Piracicaba. Ao vice-presidente Geraldo Alckmin coube tornar-se o principal cabo eleitoral de José Dirceu. Janja parece ter guardado para as últimas horas da caça ao voto o trunfo que ensaiou ao longo do inverno: recitar com aquela voz de sessentona tatibitate os dois xingamentos em inglês que conseguiu decorar. Oitentão, Lula jura manter o tesão dos 30. O que anda piorando neste inverno é a memória do Biden brasileiro. Ele jurou, por exemplo, que nem sabia quem era a facilitadora de negociatas Roberta Luchsinger, comparsa do filho Lulinha. “Nunca vi essa mulher”, garantiu na sabatina na Globo. É possível que o buquê de fotos em que o presidente e a vigarista aparecem juntos seja parte de algum projeto secreto que logo mostrará ao mundo a sofisticação da inteligência artificial à brasileira. Como emergiram mais bandalheiras promovidas em parceria por Roberta, pelo filho Lulinha e por Marcola do Lula, seu chefe de gabinete, Lula pediu de volta a sala ao lado da sua. Mas faz de conta que mal conheceu o concorrente do Marcola do PCC. Com o estranhíssimo inverno entrando em seu último mês, muita gente imaginou que já vira coisas demais. Esses ignoram que a Era da Corrupção, inaugurada há quase 25 anos pela chegada da seita petista ao poder federal, transformou o Brasil numa espécie de clube dos cafajestes reservado a figurões que se julgam condenados à perpétua impunidade. Nunca faltaram representantes do Legislativo e do Executivo. A entrada de ministros do Supremo no bando dos que topam tudo por dinheiro transformou em questão de tempo o 15 de setembro de 2026. Daqui a muitas décadas, os brasileiros que tinham neste fim de inverno mais de 15 anos de idade e pelo menos 10 neurônios na cabeça continuarão lembrando com desoladora nitidez o que aconteceu no que deveria ter sido uma sessão extraordinária do STF convocada para tratar dos crimes cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes. Que Vargas Llosa, que nada. Que García Márquez, que nada. Perto do que se viu e ouviu, os assombros eternizados pelos gênios do realismo mágico são coisa de principiante pouco imaginoso. No tribunal que existiu até o começo do século, nem haveria caso a julgar: juízes corruptos só agiam nos campos de futebol. O plenário do Supremo era reservado a homens honrados. Se as trapaças da sorte ali infiltrassem um Alexandre de Moraes ou um Dias Toffoli, o corpo estranho seria expulso em meia hora pela maioria esmagadora de juristas decentes. Nem precisariam meter-se em patifarias: bastaria abrirem a boca ou redigirem um parágrafo. No documento em que tentou livrar-se das provas e evidências empilhadas pela Polícia Federal, por exemplo, Moraes cometeu mais de 50 atentados à língua portuguesa. Não pode mais posar de juiz por ter usado seus poderes ou para tentar manter em atividade a usina de dinheiro sujo administrada por Daniel Vorcaro. Como sofre de um profundo apreço por castigos adicionais, merece ser matriculado num curso de alfabetização de adultos e comparecer às aulas carregando a guilhotina que amputa todos os erres finais de verbos no infinitivo. Ele ainda acha que tem muita gente “pra prendê” e muita multa “pra aplicá”. Toffoli considerou-se impedido de participar do julgamento. Moraes não viu problema algum em absolver-se, sustentar que o criminoso é o ministro André Mendonça, que ousou divulgar o que a Polícia Federal descobriu ao devassar um celular pertencente a Vorcaro. Moraes, que se considera perseguido por inimigos da democracia, tenta acreditar que não é um cadáver insepulto. Fingem acreditar na fantasia outras três cavalgaduras que, na terça-feira, tentaram matar de vergonha o Supremo e o Brasil decente. O líder do grupo é o decano Gilmar Mendes. A caminho da aposentadoria, ele exibe o humor de quem vive perdendo a namorada. Também por isso, forma uma dupla afinada com o cinismo debochado do comunista Flávio Dino. Devoto de Mao Tsé-tung até a morte do ditador chinês, Dino aprecia assaltos noturnos a geladeiras e passeios em carros blindados emprestados pelo Judiciário maranhense. Completa o quarteto Cristiano Zanin. O que há na cabeça do novato? Pelo visto, apenas fios de cabelo que, enquanto agonizam, são penteados com muito capricho pelo ex-advogado de Lula. Os destroços produzidos pela passagem das quatro cavalgaduras do apocalipse transformaram o plenário do STF num terreno baldio que empilha trechos dos Dez Mandamentos, alguns dos sete pecados capitais, páginas rasuradas dos códigos legais, cláusulas de contratos suspeitíssimos e, claro, exemplares destroçados da Constituição. Foram encontradas também duas anotações manuscritas. “Lula é Moraes, Moraes é Lula”, dizia uma delas. A outra já pertence ao patrimônio popular: “Gilmar: cuide de não encher meu saco”. Talvez coubesse aí um “Vossa Excelência”. Mas só se deve tratar com polidez quem merece respeito. Não é o caso de chicaneiros que fizeram do STF uma instituição agonizante.

Texto publicado por Augusto Nunes na revista OESTE sob o título "AS BESTAS DO APOCALIPSE — CAVALGADURAS DE TOGA DESMORALIZAM O SUPREMO".



Em quase todos os países europeus existem variedades linguísticas regionais que, em maior ou menor grau, foram suplantadas pelo idioma nacional. Na Itália, por exemplo, as diferenças linguísticas podem ser bastante marcantes entre regiões e até entre cidades. Mas convém não confundir dialeto com sotaque: embora um mesmo dialeto possa ser pronunciado com diferentes sotaques, o sotaque diz respeito principalmente à pronúncia, enquanto o dialeto envolve também vocabulário, gramática e outros aspectos estruturais da língua.


Em Portugal, quem tentar furar uma fila será mandado para o “rabo da bicha”. As “pastelarias” não vendem pastéis de carne, queijo, palmito etc., mas pães doces, bolinhos e outras guloseimas do gênero. Lá, não se vai necessariamente ao dentista, mas ao estomatologista. Puto é garoto, e canalha pode designar um grupo de crianças. Autocarro é ônibus; comboio é trem; e “almeida” pode designar, coloquialmente, um gari. Bica é cafezinho; cueca é o que no Brasil chamamos de calcinha, e “pica” pode significar injeção. Boceta é uma pequena caixa para guardar miudezas; punheta, em “punheta de bacalhau”, é um prato; cacete é pão; e grelo é o rebento ou haste de certas plantas, usado inclusive na culinária.


No Brasil, com 5.570 municípios espalhados por mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, não seria de esperar que mais de 200 milhões de habitantes falassem todos do mesmo jeito e se comportassem do mesmo modo. Mas convém lembrar que tamanho não é documento: o território da Itália é muito menor que o brasileiro e, ainda assim, apresenta uma enorme diversidade linguística.


Por essas e outras, não espere que alguém nascido e criado no município gaúcho de Santa Vitória do Palmar, na divisa com o Uruguai, entabule uma conversa perfeitamente fluente com um baiano de Ibó, na divisa com Pernambuco. Para ter uma ideia melhor do ponto que quero ressaltar, assista a este vídeo.


Tecnicamente, a língua é um sistema de comunicação compartilhado por uma comunidade; o idioma é a língua reconhecida como própria de determinado povo ou país; e os dialetos são variedades linguísticas associadas, entre outros fatores, a determinadas regiões ou grupos. No entanto, outras peculiaridades além do sotaque e das expressões idiomáticas “personalizam” a maneira como o idioma que herdamos dos colonizadores é falado no Brasil muda conforme a localização geográfica, a história, o grupo social e a situação em que é utilizado.


As variações podem ser diatópicas (regionais), diacrônicas (históricas), diastráticas (sociais) e diafásicas (estilísticas). Os dialetos, por sua vez, são variedades linguísticas associadas sobretudo a diferenças regionais, embora possam sofrer a influência de fatores históricos e sociais.


Palavras como “mandioca”, “aipim”, “macaxeira”, “castelinha”, “uaipi”, “maniva”, “maniveira” e “pão-de-pobre”, entre outras, designam a mesma raiz tuberosa, mas são usadas em diferentes regiões do Brasil. O chamado R caipira, característico de várias regiões do interior do país, é resultado de uma história linguística complexa, que envolve a formação do português brasileiro, o contato com línguas indígenas e africanas e a evolução regional da língua. Sua origem, portanto, não cabe numa explicação tão simples quanto a de que os indígenas “não conseguiam pronunciar” o R dos portugueses.


Isso também ajuda a explicar por que determinadas regiões desenvolveram pronúncias bastante particulares, inclusive fenômenos como a transformação de determinados sons em outros. E, com a chegada dos italianos a São Paulo, o sotaque paulistano incorporou características da pronúncia dos imigrantes, especialmente em bairros tradicionais como Moóca, Brás e Bexiga.


Já o R carioca, especialmente em determinadas posições, apresenta características que foram historicamente associadas à influência portuguesa e francesa, entre outras. O S chiado do Rio também tem uma história ligada ao português europeu. Em matéria de sotaque, como se vê, até a história da imigração deixa suas digitais.


Um poeta escreveu: “Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar.” Às vezes, não acentuar parece ser mesmo a solução. Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê e o coco ao cocô. Mas nem sempre a ausência do acento é favorável: pense no cágado, por exemplo, cujo nome pode ficar bastante comprometido quando alguém pensa que o acento é mera decoração. E há outros casos, claro. Eu não me medico; vou ao médico. Quem baba não é a babá. Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária. Seus pais vêm do mesmo país?


A diferença na palavra pode ser apenas um acento — e assento não tem acento. Assento fica embaixo; acento, em cima. Embaixo é junto; em cima, separado. Seria maio o mês mais apropriado para usar maiô? Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá? O que tem a pele do Pelé? O que há em comum entre o camelo e o camelô? O que será que a fábrica fabrica? E tudo que se musica vira música?


Será melhor lidar com as adversidades da conjunção “mas” ou com pessoas más? Será que tudo que eu valido se torna válido? E, entre o amem e o amém, que tal os dois? Na sexta, comprei uma cesta logo após a sesta. 


É a primeira vez que tu não o vês. Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha. Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo. Vão cassar o direito de casar de dois pais no meu país. Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração. Para começar o concerto, tiveram que fazer um conserto. Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas.


Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa. Calça, você bota; bota, você calça. Oxítona é proparoxítona. Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico. E paro por aqui, sem mais delongas, que esta lista já está longa.


Toda essa conversa sobre língua nos leva, finalmente, ao assunto que motivou esta postagem: o humor. Da mesma forma que as palavras, as piadas e as anedotas também mudam conforme o país Ou seja, é quase a mesma língua, mas não é necessariamente o mesmo riso.


No Brasil, o humor costuma estar muito ancorado no cotidiano, no regional e nos personagens. A gente ri do sotaque mineiro, da tia do zap, do carioca malandro, da sogra, do sujeito atrapalhado. É um humor frequentemente baseado na identificação imediata. Por isso, o stand-up comedy encontrou terreno fértil por aqui: um sujeito sozinho, contando situações da própria vida, pode sustentar uma apresentação inteira. E não raro entram em cena o corpo, a careta, a imitação, o improviso e, sobretudo, a velocidade.


Em Portugal há uma forte tradição de humor baseado na observação social, na ironia, no jogo de palavras e no absurdo. Menos personagem necessariamente caricato; mais situação banal levada às últimas consequências. Uma reunião de condomínio, um telejornal, uma repartição pública: basta pegar uma coisa perfeitamente normal e esticá-la até ela se tornar surreal. E as referências históricas, políticas, literárias e culturais podem desempenhar um papel importante. No caso de Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, estudos sobre suas crônicas identificam justamente o uso recorrente da ironia, da intertextualidade, dos contrassensos e do nonsense.


No Brasil, “português” ainda é, há décadas, personagem recorrente de piada — geralmente por causa de supostos mal-entendidos linguísticos ou de uma pretensa ingenuidade. O próprio Ricardo Araújo Pereira já observou que muitas dessas piadas podem nascer justamente de diferenças na maneira de interpretar as palavras e as situações. E o caminho inverso também existe: em Portugal, o brasileiro frequentemente aparece como personagem humorístico por causa do sotaque, das novelas, dos estereótipos culturais e das diferenças de comportamento.


Há ainda uma diferença interessante de ritmo. No humor brasileiro, é comum a sucessão rápida de gags e punchlines. No humor português, muitas vezes a graça pode depender mais da ironia, da pausa, da construção da situação e do contraste entre o que é dito e a maneira como é dito. Mas convém ter em mente que isso é tendência, não regra. 


Há humoristas brasileiros de humor seco, cerebral e cheio de ironia, assim como há portugueses perfeitamente escrachados. O humor, felizmente, não respeita fronteiras nem tratados internacionais. Até porque o próprio intercâmbio entre os dois países mostra que as diferenças podem ser matéria-prima para a comédia. Gregório Duvivier e Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, já transformaram as diferenças linguísticas entre Brasil e Portugal em espetáculo conjunto.


No fundo, talvez a diferença possa ser resumida assim: O brasileiro frequentemente quer fazer você rir junto. O português, muitas vezes, quer fazer você perceber o absurdo da situação — e rir depois. Ou, para simplificar ainda mais: Piada brasileira: “Olha o que aconteceu COMIGO.” Piada portuguesa: “Olha como NÓS somos ridículos.”


Se você não entendeu a piada, não se preocupe. Pode ser apenas uma questão de sotaque. Ou de acento. Ou de assento. Ou, quem sabe, de português mesmo. 

domingo, 20 de setembro de 2026

MACARRÃO POMODORO

A VIDA É UMA COMBINAÇÃO DE MÁGICA E MACARRÃO.


Consta que Marco Polo trouxe o macarrão da China para a Itália no século XIII, mas há indícios de que os sicilianos já consumiam uma forma primitiva desse tipo de massa séculos antes da viagem do explorador veneziano. 

Controvérsias à parte, a "pastasciutta" se tornou a peça chave da dieta dos italianos e foi trazida para o Brasil no início dos anos 1900, juntamente com o queijo, o vinho e outros produtos típicos, e não demorou a ser produzida nos "bairros italianos" de algumas cidades das regiões sul e sudeste. 

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Na política, o impossível é apenas uma palavra que carrega o possível dentro de si. Numa campanha marcada por divergências abissais, petismo e bolsonarismo encontraram no populismo um ponto de contato.
Na campanha de 2022, Lula criticou o uso da máquina pública por Bolsonaro. Chamou de eleitoreiro o aumento de 50% no Bolsa Família, rebatizado à época de Auxílio Brasil. O acréscimo foi de R$ 200 por mês. Hoje o filho de Bolsonaro classifica de "ilegal" o reajuste de 15% concedido por Lula aos beneficiários do programa social. Coisa de R$ 100 a mais no benefício médio.
Há quatro anos, embora batesse no adversário, Lula prometeu manter o valor reajustado depois de eleito. Ralou para cumprir a palavra, pois os R$ 200 adicionais, que elevaram o benefício a R$ 600, estava previsto apenas até dezembro de 2022. A proposta de Orçamento para 2023, enviada ao Congresso por Bolsonaro, não reservou dinheiro para cobrir a generosidade do capitão derrotado. 
Agora, Flávio Bolsonaro chama Lula de "desesperado". Mas se apressa em assegurar que não vai rever o reajuste de Lula. Ao contrário, diz que irá melhorá-lo. O petismo recorreu ao TSE contra o populismo eleitoral de Bolsonaro em 2022. Decorridos quatro anos, o bolsonarismo terceirizou o serviço ao deputado Zé Trovão. Os dois polos deveriam considerar a hipótese de processar um ao outro por plágio.

Mais adiante, a produção das massas passou de artesanal a industrial, e o consumo, antes limitado aos nati e oriundi, se disseminou entre os brasileiros, que logo as combinaram com ingredientes locais para criar pratos saborosos e baratos.

Dizem que macarrão sem molho é como pastel sem recheio ou pizza sem cobertura. Embora eu — e acredito que muita gente mais — aprecie uma bela macarronada ao alho e óleo (desde que o óleo seja azeite extravirgem), molhos ao sugo e bolonhesa são "campeões de bilheteria". Para fazer macarrão pomodoro — "pomodoro" é simplesmente a palavra italiana para "tomate", mas é usado para dar um ar mais refinado ao prato, já que soa mais sofisticado aos ouvidos dos comensais — você vai precisar de:

— 300 g de macarrão (talharim, fettuccine, farfalle, penne, espaguete, enfim, o formato que você preferir);
— 1kg de tomate italiano;
— 4 dentes de alho;
— 2 colheres (sopa) de azeite;
— 1 cebola;
— 1 folha de louro;
— 1 ramo de tomilho fresco;
— Sal, pimenta-do-reino e folhas de manjericão a gosto..

O segredo do macarrão pomodoro (e de outros molhos) é preparar o molho antes de cozinhar a massa, para não correr o risco de ela esfriar, grudar e formar uma maçaroca desagradável. 

Comece lavando e cortando os tomates e batendo-os no liquidificador. Se desejar um molho mais liso, faça pequenos cortes em X com uma faca na base da fruta, cozinhe água quente por 1 minuto, escorra e puxe a pele, que descolará facilmente dos tomates. Adicione os 4 dentes de alho e bata até obter um molho homogêneo — não coloque água, pois a própria água do tomate é suficiente — e reserve.

Em uma panela grande em fogo médio, refogue a cebola picada no azeite até que ela doure levemente, tomando cuidado para não queimar. Acrescente então o molho de tomate que você reservou, o louro, o tomilho, regue com um fio generoso de azeite, misture bem e deixe cozinhar por cerca de 20 minutos.

Passado esse tempo, o molho de tomate terá reduzido (ou seja, ficado mais grosso). Acrescentar o manjericão, o sal e a pimenta-do-reino, misture tudo e desligue o fogo.

Em uma panela à parte, cozinhe o macarrão conforme as instruções da embalagem, calculando 1 minuto a menos que o tempo indicado. Lembre-se de adicionar sal à água do cozimento para que sua massa não fique insossa, mas somente quando ela estiver fervendo.

Quando a massa estiver al dente, junte 1 concha da água do cozimento ao molho de tomate, misture bem, entre com a massa cozida e, mantendo o fogo baixo, misture delicadamente por 30 segundos. Transfira para uma travessa e sirva quente, acompanhado de queijo parmesão ou grana padano ralado para polvilhar por cima.

Bom apetite

sábado, 19 de setembro de 2026

O PRIMEIRO GRANDE EVENTO DE EXTINÇÃO DA TERRA PODE TER EXTERMINADO 80% DAS ESPÉCIES

NADA É TÃO RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR

Esqueçamos por um momento a extinção dos dinossauros, supostamente causada pela queda de um gigantesco meteoro há cerca de 65 milhões de anos. O primeiro grande evento de extinção da Terra foi muito pior do que pensávamos, e pode ter exterminado quase 80% das espécies.


O equilíbrio dos ecossistemas terrestres enfrentou seu primeiro grande desafio há cerca de 550 milhões de anos, num cenário de transformações drásticas, entre as quais uma queda crítica nos níveis de oxigênio nos oceanos primordiais.


Devido à magnitude dessa catástrofe, os organismos de corpo mole que habitavam os mares antes da famosa explosão cambriana foram extintos. Aliás, a perda massiva de linhagens genéticas representou um retrocesso sem precedentes na evolução biológica, demonstrando a vulnerabilidade extrema das espécies diante de alterações atmosféricas. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Em meio aos desgastes da crise do Master, o ministro Edson Fachin tende a adiar a análise sobre as alegações de abuso de autoridade contra André Mendonça, designado para a próxima quarta-feira (23). A decisão deve ser tomada nos próximos dias, em um novo capítulo da escalada de tensões no Supremo, o que inclui um movimento inicial de ministros para obstruir as pautas mais sensíveis da corte.

A avaliação do entorno do presidente do tribunal é a de que, na prática, o pedido de vista do ministro Flávio Dino na sessão histórica de terça (15) inviabilizou tecnicamente que o caso de Mendonça vá ao plenário semana que vem. Isso porque a vista ocorreu em uma questão de ordem que discute justamente se o pedido de investigação contra Mendonça deve ser julgado junto ou apartado do caso sobre as mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes.

Dois servidores da área técnica do STF afirmam que é ilógico levar o caso ao plenário, pois o impasse sobre a união ou separação dos processos ainda não se resolveu. O prazo do regimento interno para devolução do pedido de vista é de 90 dias.


A instabilidade geoquímica foi o motor principal por trás do desaparecimento desses seres fascinantes e diversos que habitavam os mares primitivos. Os registros fósseis mostram um cenário desolador, onde a maioria absoluta dos seres vivos simplesmente foi extinta sem deixar descendentes diretos para as gerações seguintes.


A redução brusca da disponibilidade de oxigênio nas águas profundas e superficiais sufocou a capacidade de sobrevivência de comunidades inteiras de forma rápida e letal. Mas vários elementos ambientais contribuíram para que esse evento atingisse proporções tão catastróficas em uma escala global de tempo geológico e biológico. Entre outros, vale citar as alterações severas na circulação das correntes marítimas globais e as mudanças profundas na composição química dos sedimentos oceânicos.


A hipóxia generalizada atuou como um filtro seletivo impiedoso, que reorganizou toda a estrutura da biosfera de maneira permanente na história terrestre. Nesse processo de seleção natural forçada, as espécies que conseguiram resistir a essas condições extremas foram as responsáveis por dar continuidade ao ciclo da vida em um mundo transformado e escasso de recursos, permitindo que novos padrões corporais e estratégias de sobrevivência surgissem após o período de crise aguda. 


Os principais impactos ocorridos durante a fase de transição drástica incluíram transformações biológicas e geológicas que resultaram no desaparecimento de grupos taxonômico inteiros e importantes, no surgimento de nichos vazios para a futura diversificação biológica e na modificação permanente dos ciclos de carbono e nutrientes globais.


A história da Terra mostra que a resiliência da natureza possui limites claros quando as condições fundamentais para a respiração e nutrição são comprometidas seriamente por fatores externos, e observar esse passado remoto serve de alerta para os riscos que mudanças rápidas no ambiente representam para a estabilidade do equilíbrio global. 


Vale destacar que não ocorreu um desvanecimento lento, mas sim um colapso brusco que apagou uma grande parcela da vida marinha primitiva há mais de meio bilhão de anos. Por essas e outras, manter a integridade dos oceanos é a lição mais valiosa que podemos extrair de uma catástrofe que ocorreu há tanto tempo.


Vale ressaltar que a preservação da biodiversidade depende diretamente da nossa capacidade de monitorar e mitigar as alterações químicas que os sistemas terrestres enfrentam no presente momento de incertezas.