segunda-feira, 21 de setembro de 2026

HUMOR À BRASILEIRA VS HUMOR À PORTUGUESA

A VIDA É CURTA DEMAIS PARA LEVAR TUDO A FERRO E FOGO. SE VOCÊ NÃO PUDER RIR DE SI MESMO, ME CHAME QUE EU RIO POR VOCÊ.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que foi firmado em 1990 entrou em vigor no Brasil em 2009 e se tornou obrigatório a partir de 2016 (em Portugal, a obrigatoriedade começou em 2015) nasceu com o propósito de aproximar e uniformizar a ortografia dos países lusófonos. Mas a tarefa não é simples, quanto mais não seja porque a língua natal faz parte da cultura de cada povo. 


A “Última Flor do Lácio”, como o poeta Olavo Bilac se referiu à língua portuguesa, é idioma oficial em nove países: Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Guiné Equatorial, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Só que os falantes de cá nem sempre — ou quase nunca — entendem perfeitamente o que falam os de lá e de acolá. E vice-versa.


Além de a cultura brasileira ser diferente da dos demais países que adotam o português como idioma oficial, o próprio português falado aqui pelas nossas bandas está longe de ser uniforme. São comuns as variações de pronúncia, vocabulário e gramática conforme a região, a faixa etária, o grupo social e a situação de comunicação. Um paulista que estiver no Rio de Janeiro e quiser comprar “coxão mole”, por exemplo, deverá pedir “chã de dentro”; se estiver em Belém do Pará e quiser “carne moída”, terá de pedir “picadinho”.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Tem sido fabuloso o inverno brasileiro de 2026. Os presidentes do Senado e da República flertaram, namoraram ou se desentenderam, não por motivos políticos, mas para ganhar eleição ou dinheiro. O milagreiro — agora de chapéu — celebrou outra semeadura imaginária e prometeu que será ainda mais farta a colheita sucessivamente adiada desde 2024. Em agosto, garantiu que a picanha para todos estava prestes a descer do palanque em que se esconde desde a campanha de 2022. Até agora só deu as caras em churrascos no Palácio da Alvorada. Ocorrências espantosas animaram o inverno que vai terminando. Lula vive ensinando que quando um não quer dois não brigam, e que não há guerra que resista a uma conversa regada a cerveja no botequim da esquina. Mas agora anda provocando Donald Trump com desafios que o gringo valentão teme aceitar. Como se viu no desfile de 7 de Setembro, tropas armadas com carabinas, trabucos e facões deixam claro qual é a superpotência militar do subcontinente. É bom não mexer com o Brasil. Se mexerem com o País do Carnaval, aí estão a China, a Rússia, o MST e a agricultura familiar para enquadrar a extrema direita. Aparentemente insensatos, movimentos na seita lulista apenas reafirmam que, num inverno eleitoral, convém cumprir disciplinadamente as ordens do chefe que tudo sabe e tudo vê. Para que Fernando Haddad reprise em São Paulo o naufrágio de 2022, por exemplo, Lula ordenou à acriana Marina Silva e à sul-matogrossense Simone Tebet que disputem vagas no Senado discursando com sotaque de Piracicaba. Ao vice-presidente Geraldo Alckmin coube tornar-se o principal cabo eleitoral de José Dirceu. Janja parece ter guardado para as últimas horas da caça ao voto o trunfo que ensaiou ao longo do inverno: recitar com aquela voz de sessentona tatibitate os dois xingamentos em inglês que conseguiu decorar. Oitentão, Lula jura manter o tesão dos 30. O que anda piorando neste inverno é a memória do Biden brasileiro. Ele jurou, por exemplo, que nem sabia quem era a facilitadora de negociatas Roberta Luchsinger, comparsa do filho Lulinha. “Nunca vi essa mulher”, garantiu na sabatina na Globo. É possível que o buquê de fotos em que o presidente e a vigarista aparecem juntos seja parte de algum projeto secreto que logo mostrará ao mundo a sofisticação da inteligência artificial à brasileira. Como emergiram mais bandalheiras promovidas em parceria por Roberta, pelo filho Lulinha e por Marcola do Lula, seu chefe de gabinete, Lula pediu de volta a sala ao lado da sua. Mas faz de conta que mal conheceu o concorrente do Marcola do PCC. Com o estranhíssimo inverno entrando em seu último mês, muita gente imaginou que já vira coisas demais. Esses ignoram que a Era da Corrupção, inaugurada há quase 25 anos pela chegada da seita petista ao poder federal, transformou o Brasil numa espécie de clube dos cafajestes reservado a figurões que se julgam condenados à perpétua impunidade. Nunca faltaram representantes do Legislativo e do Executivo. A entrada de ministros do Supremo no bando dos que topam tudo por dinheiro transformou em questão de tempo o 15 de setembro de 2026. Daqui a muitas décadas, os brasileiros que tinham neste fim de inverno mais de 15 anos de idade e pelo menos 10 neurônios na cabeça continuarão lembrando com desoladora nitidez o que aconteceu no que deveria ter sido uma sessão extraordinária do STF convocada para tratar dos crimes cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes. Que Vargas Llosa, que nada. Que García Márquez, que nada. Perto do que se viu e ouviu, os assombros eternizados pelos gênios do realismo mágico são coisa de principiante pouco imaginoso. No tribunal que existiu até o começo do século, nem haveria caso a julgar: juízes corruptos só agiam nos campos de futebol. O plenário do Supremo era reservado a homens honrados. Se as trapaças da sorte ali infiltrassem um Alexandre de Moraes ou um Dias Toffoli, o corpo estranho seria expulso em meia hora pela maioria esmagadora de juristas decentes. Nem precisariam meter-se em patifarias: bastaria abrirem a boca ou redigirem um parágrafo. No documento em que tentou livrar-se das provas e evidências empilhadas pela Polícia Federal, por exemplo, Moraes cometeu mais de 50 atentados à língua portuguesa. Não pode mais posar de juiz por ter usado seus poderes ou para tentar manter em atividade a usina de dinheiro sujo administrada por Daniel Vorcaro. Como sofre de um profundo apreço por castigos adicionais, merece ser matriculado num curso de alfabetização de adultos e comparecer às aulas carregando a guilhotina que amputa todos os erres finais de verbos no infinitivo. Ele ainda acha que tem muita gente “pra prendê” e muita multa “pra aplicá”. Toffoli considerou-se impedido de participar do julgamento. Moraes não viu problema algum em absolver-se, sustentar que o criminoso é o ministro André Mendonça, que ousou divulgar o que a Polícia Federal descobriu ao devassar um celular pertencente a Vorcaro. Moraes, que se considera perseguido por inimigos da democracia, tenta acreditar que não é um cadáver insepulto. Fingem acreditar na fantasia outras três cavalgaduras que, na terça-feira, tentaram matar de vergonha o Supremo e o Brasil decente. O líder do grupo é o decano Gilmar Mendes. A caminho da aposentadoria, ele exibe o humor de quem vive perdendo a namorada. Também por isso, forma uma dupla afinada com o cinismo debochado do comunista Flávio Dino. Devoto de Mao Tsé-tung até a morte do ditador chinês, Dino aprecia assaltos noturnos a geladeiras e passeios em carros blindados emprestados pelo Judiciário maranhense. Completa o quarteto Cristiano Zanin. O que há na cabeça do novato? Pelo visto, apenas fios de cabelo que, enquanto agonizam, são penteados com muito capricho pelo ex-advogado de Lula. Os destroços produzidos pela passagem das quatro cavalgaduras do apocalipse transformaram o plenário do STF num terreno baldio que empilha trechos dos Dez Mandamentos, alguns dos sete pecados capitais, páginas rasuradas dos códigos legais, cláusulas de contratos suspeitíssimos e, claro, exemplares destroçados da Constituição. Foram encontradas também duas anotações manuscritas. “Lula é Moraes, Moraes é Lula”, dizia uma delas. A outra já pertence ao patrimônio popular: “Gilmar: cuide de não encher meu saco”. Talvez coubesse aí um “Vossa Excelência”. Mas só se deve tratar com polidez quem merece respeito. Não é o caso de chicaneiros que fizeram do STF uma instituição agonizante.

Texto publicado por Augusto Nunes na revista OESTE sob o título "AS BESTAS DO APOCALIPSE — CAVALGADURAS DE TOGA DESMORALIZAM O SUPREMO".



Em quase todos os países europeus existem variedades linguísticas regionais que, em maior ou menor grau, foram suplantadas pelo idioma nacional. Na Itália, por exemplo, as diferenças linguísticas podem ser bastante marcantes entre regiões e até entre cidades. Mas convém não confundir dialeto com sotaque: embora um mesmo dialeto possa ser pronunciado com diferentes sotaques, o sotaque diz respeito principalmente à pronúncia, enquanto o dialeto envolve também vocabulário, gramática e outros aspectos estruturais da língua.


Em Portugal, quem tentar furar uma fila será mandado para o “rabo da bicha”. As “pastelarias” não vendem pastéis de carne, queijo, palmito etc., mas pães doces, bolinhos e outras guloseimas do gênero. Lá, não se vai necessariamente ao dentista, mas ao estomatologista. Puto é garoto, e canalha pode designar um grupo de crianças. Autocarro é ônibus; comboio é trem; e “almeida” pode designar, coloquialmente, um gari. Bica é cafezinho; cueca é o que no Brasil chamamos de calcinha, e “pica” pode significar injeção. Boceta é uma pequena caixa para guardar miudezas; punheta, em “punheta de bacalhau”, é um prato; cacete é pão; e grelo é o rebento ou haste de certas plantas, usado inclusive na culinária.


No Brasil, com 5.570 municípios espalhados por mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, não seria de esperar que mais de 200 milhões de habitantes falassem todos do mesmo jeito e se comportassem do mesmo modo. Mas convém lembrar que tamanho não é documento: o território da Itália é muito menor que o brasileiro e, ainda assim, apresenta uma enorme diversidade linguística.


Por essas e outras, não espere que alguém nascido e criado no município gaúcho de Santa Vitória do Palmar, na divisa com o Uruguai, entabule uma conversa perfeitamente fluente com um baiano de Ibó, na divisa com Pernambuco. Para ter uma ideia melhor do ponto que quero ressaltar, assista a este vídeo.


Tecnicamente, a língua é um sistema de comunicação compartilhado por uma comunidade; o idioma é a língua reconhecida como própria de determinado povo ou país; e os dialetos são variedades linguísticas associadas, entre outros fatores, a determinadas regiões ou grupos. No entanto, outras peculiaridades além do sotaque e das expressões idiomáticas “personalizam” a maneira como o idioma que herdamos dos colonizadores é falado no Brasil muda conforme a localização geográfica, a história, o grupo social e a situação em que é utilizado.


As variações podem ser diatópicas (regionais), diacrônicas (históricas), diastráticas (sociais) e diafásicas (estilísticas). Os dialetos, por sua vez, são variedades linguísticas associadas sobretudo a diferenças regionais, embora possam sofrer a influência de fatores históricos e sociais.


Palavras como “mandioca”, “aipim”, “macaxeira”, “castelinha”, “uaipi”, “maniva”, “maniveira” e “pão-de-pobre”, entre outras, designam a mesma raiz tuberosa, mas são usadas em diferentes regiões do Brasil. O chamado R caipira, característico de várias regiões do interior do país, é resultado de uma história linguística complexa, que envolve a formação do português brasileiro, o contato com línguas indígenas e africanas e a evolução regional da língua. Sua origem, portanto, não cabe numa explicação tão simples quanto a de que os indígenas “não conseguiam pronunciar” o R dos portugueses.


Isso também ajuda a explicar por que determinadas regiões desenvolveram pronúncias bastante particulares, inclusive fenômenos como a transformação de determinados sons em outros. E, com a chegada dos italianos a São Paulo, o sotaque paulistano incorporou características da pronúncia dos imigrantes, especialmente em bairros tradicionais como Moóca, Brás e Bexiga.


Já o R carioca, especialmente em determinadas posições, apresenta características que foram historicamente associadas à influência portuguesa e francesa, entre outras. O S chiado do Rio também tem uma história ligada ao português europeu. Em matéria de sotaque, como se vê, até a história da imigração deixa suas digitais.


Um poeta escreveu: “Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar.” Às vezes, não acentuar parece ser mesmo a solução. Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê e o coco ao cocô. Mas nem sempre a ausência do acento é favorável: pense no cágado, por exemplo, cujo nome pode ficar bastante comprometido quando alguém pensa que o acento é mera decoração. E há outros casos, claro. Eu não me medico; vou ao médico. Quem baba não é a babá. Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária. Seus pais vêm do mesmo país?


A diferença na palavra pode ser apenas um acento — e assento não tem acento. Assento fica embaixo; acento, em cima. Embaixo é junto; em cima, separado. Seria maio o mês mais apropriado para usar maiô? Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá? O que tem a pele do Pelé? O que há em comum entre o camelo e o camelô? O que será que a fábrica fabrica? E tudo que se musica vira música?


Será melhor lidar com as adversidades da conjunção “mas” ou com pessoas más? Será que tudo que eu valido se torna válido? E, entre o amem e o amém, que tal os dois? Na sexta, comprei uma cesta logo após a sesta. 


É a primeira vez que tu não o vês. Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha. Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo. Vão cassar o direito de casar de dois pais no meu país. Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração. Para começar o concerto, tiveram que fazer um conserto. Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas.


Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa. Calça, você bota; bota, você calça. Oxítona é proparoxítona. Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico. E paro por aqui, sem mais delongas, que esta lista já está longa.


Toda essa conversa sobre língua nos leva, finalmente, ao assunto que motivou esta postagem: o humor. Da mesma forma que as palavras, as piadas e as anedotas também mudam conforme o país Ou seja, é quase a mesma língua, mas não é necessariamente o mesmo riso.


No Brasil, o humor costuma estar muito ancorado no cotidiano, no regional e nos personagens. A gente ri do sotaque mineiro, da tia do zap, do carioca malandro, da sogra, do sujeito atrapalhado. É um humor frequentemente baseado na identificação imediata. Por isso, o stand-up comedy encontrou terreno fértil por aqui: um sujeito sozinho, contando situações da própria vida, pode sustentar uma apresentação inteira. E não raro entram em cena o corpo, a careta, a imitação, o improviso e, sobretudo, a velocidade.


Em Portugal há uma forte tradição de humor baseado na observação social, na ironia, no jogo de palavras e no absurdo. Menos personagem necessariamente caricato; mais situação banal levada às últimas consequências. Uma reunião de condomínio, um telejornal, uma repartição pública: basta pegar uma coisa perfeitamente normal e esticá-la até ela se tornar surreal. E as referências históricas, políticas, literárias e culturais podem desempenhar um papel importante. No caso de Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, estudos sobre suas crônicas identificam justamente o uso recorrente da ironia, da intertextualidade, dos contrassensos e do nonsense.


No Brasil, “português” ainda é, há décadas, personagem recorrente de piada — geralmente por causa de supostos mal-entendidos linguísticos ou de uma pretensa ingenuidade. O próprio Ricardo Araújo Pereira já observou que muitas dessas piadas podem nascer justamente de diferenças na maneira de interpretar as palavras e as situações. E o caminho inverso também existe: em Portugal, o brasileiro frequentemente aparece como personagem humorístico por causa do sotaque, das novelas, dos estereótipos culturais e das diferenças de comportamento.


Há ainda uma diferença interessante de ritmo. No humor brasileiro, é comum a sucessão rápida de gags e punchlines. No humor português, muitas vezes a graça pode depender mais da ironia, da pausa, da construção da situação e do contraste entre o que é dito e a maneira como é dito. Mas convém ter em mente que isso é tendência, não regra. 


Há humoristas brasileiros de humor seco, cerebral e cheio de ironia, assim como há portugueses perfeitamente escrachados. O humor, felizmente, não respeita fronteiras nem tratados internacionais. Até porque o próprio intercâmbio entre os dois países mostra que as diferenças podem ser matéria-prima para a comédia. Gregório Duvivier e Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, já transformaram as diferenças linguísticas entre Brasil e Portugal em espetáculo conjunto.


No fundo, talvez a diferença possa ser resumida assim: O brasileiro frequentemente quer fazer você rir junto. O português, muitas vezes, quer fazer você perceber o absurdo da situação — e rir depois. Ou, para simplificar ainda mais: Piada brasileira: “Olha o que aconteceu COMIGO.” Piada portuguesa: “Olha como NÓS somos ridículos.”


Se você não entendeu a piada, não se preocupe. Pode ser apenas uma questão de sotaque. Ou de acento. Ou de assento. Ou, quem sabe, de português mesmo. 

domingo, 20 de setembro de 2026

MACARRÃO POMODORO

A VIDA É UMA COMBINAÇÃO DE MÁGICA E MACARRÃO.


Consta que Marco Polo trouxe o macarrão da China para a Itália no século XIII, mas há indícios de que os sicilianos já consumiam uma forma primitiva desse tipo de massa séculos antes da viagem do explorador veneziano. 

Controvérsias à parte, a "pastasciutta" se tornou a peça chave da dieta dos italianos e foi trazida para o Brasil no início dos anos 1900, juntamente com o queijo, o vinho e outros produtos típicos, e não demorou a ser produzida nos "bairros italianos" de algumas cidades das regiões sul e sudeste. 

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Na política, o impossível é apenas uma palavra que carrega o possível dentro de si. Numa campanha marcada por divergências abissais, petismo e bolsonarismo encontraram no populismo um ponto de contato.
Na campanha de 2022, Lula criticou o uso da máquina pública por Bolsonaro. Chamou de eleitoreiro o aumento de 50% no Bolsa Família, rebatizado à época de Auxílio Brasil. O acréscimo foi de R$ 200 por mês. Hoje o filho de Bolsonaro classifica de "ilegal" o reajuste de 15% concedido por Lula aos beneficiários do programa social. Coisa de R$ 100 a mais no benefício médio.
Há quatro anos, embora batesse no adversário, Lula prometeu manter o valor reajustado depois de eleito. Ralou para cumprir a palavra, pois os R$ 200 adicionais, que elevaram o benefício a R$ 600, estava previsto apenas até dezembro de 2022. A proposta de Orçamento para 2023, enviada ao Congresso por Bolsonaro, não reservou dinheiro para cobrir a generosidade do capitão derrotado. 
Agora, Flávio Bolsonaro chama Lula de "desesperado". Mas se apressa em assegurar que não vai rever o reajuste de Lula. Ao contrário, diz que irá melhorá-lo. O petismo recorreu ao TSE contra o populismo eleitoral de Bolsonaro em 2022. Decorridos quatro anos, o bolsonarismo terceirizou o serviço ao deputado Zé Trovão. Os dois polos deveriam considerar a hipótese de processar um ao outro por plágio.

Mais adiante, a produção das massas passou de artesanal a industrial, e o consumo, antes limitado aos nati e oriundi, se disseminou entre os brasileiros, que logo as combinaram com ingredientes locais para criar pratos saborosos e baratos.

Dizem que macarrão sem molho é como pastel sem recheio ou pizza sem cobertura. Embora eu — e acredito que muita gente mais — aprecie uma bela macarronada ao alho e óleo (desde que o óleo seja azeite extravirgem), molhos ao sugo e bolonhesa são "campeões de bilheteria". Para fazer macarrão pomodoro — "pomodoro" é simplesmente a palavra italiana para "tomate", mas é usado para dar um ar mais refinado ao prato, já que soa mais sofisticado aos ouvidos dos comensais — você vai precisar de:

— 300 g de macarrão (talharim, fettuccine, farfalle, penne, espaguete, enfim, o formato que você preferir);
— 1kg de tomate italiano;
— 4 dentes de alho;
— 2 colheres (sopa) de azeite;
— 1 cebola;
— 1 folha de louro;
— 1 ramo de tomilho fresco;
— Sal, pimenta-do-reino e folhas de manjericão a gosto..

O segredo do macarrão pomodoro (e de outros molhos) é preparar o molho antes de cozinhar a massa, para não correr o risco de ela esfriar, grudar e formar uma maçaroca desagradável. 

Comece lavando e cortando os tomates e batendo-os no liquidificador. Se desejar um molho mais liso, faça pequenos cortes em X com uma faca na base da fruta, cozinhe água quente por 1 minuto, escorra e puxe a pele, que descolará facilmente dos tomates. Adicione os 4 dentes de alho e bata até obter um molho homogêneo — não coloque água, pois a própria água do tomate é suficiente — e reserve.

Em uma panela grande em fogo médio, refogue a cebola picada no azeite até que ela doure levemente, tomando cuidado para não queimar. Acrescente então o molho de tomate que você reservou, o louro, o tomilho, regue com um fio generoso de azeite, misture bem e deixe cozinhar por cerca de 20 minutos.

Passado esse tempo, o molho de tomate terá reduzido (ou seja, ficado mais grosso). Acrescentar o manjericão, o sal e a pimenta-do-reino, misture tudo e desligue o fogo.

Em uma panela à parte, cozinhe o macarrão conforme as instruções da embalagem, calculando 1 minuto a menos que o tempo indicado. Lembre-se de adicionar sal à água do cozimento para que sua massa não fique insossa, mas somente quando ela estiver fervendo.

Quando a massa estiver al dente, junte 1 concha da água do cozimento ao molho de tomate, misture bem, entre com a massa cozida e, mantendo o fogo baixo, misture delicadamente por 30 segundos. Transfira para uma travessa e sirva quente, acompanhado de queijo parmesão ou grana padano ralado para polvilhar por cima.

Bom apetite

sábado, 19 de setembro de 2026

O PRIMEIRO GRANDE EVENTO DE EXTINÇÃO DA TERRA PODE TER EXTERMINADO 80% DAS ESPÉCIES

NADA É TÃO RUIM QUE NÃO POSSA PIORAR

Esqueçamos por um momento a extinção dos dinossauros, supostamente causada pela queda de um gigantesco meteoro há cerca de 65 milhões de anos. O primeiro grande evento de extinção da Terra foi muito pior do que pensávamos, e pode ter exterminado quase 80% das espécies.


O equilíbrio dos ecossistemas terrestres enfrentou seu primeiro grande desafio há cerca de 550 milhões de anos, num cenário de transformações drásticas, entre as quais uma queda crítica nos níveis de oxigênio nos oceanos primordiais.


Devido à magnitude dessa catástrofe, os organismos de corpo mole que habitavam os mares antes da famosa explosão cambriana foram extintos. Aliás, a perda massiva de linhagens genéticas representou um retrocesso sem precedentes na evolução biológica, demonstrando a vulnerabilidade extrema das espécies diante de alterações atmosféricas. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Em meio aos desgastes da crise do Master, o ministro Edson Fachin tende a adiar a análise sobre as alegações de abuso de autoridade contra André Mendonça, designado para a próxima quarta-feira (23). A decisão deve ser tomada nos próximos dias, em um novo capítulo da escalada de tensões no Supremo, o que inclui um movimento inicial de ministros para obstruir as pautas mais sensíveis da corte.

A avaliação do entorno do presidente do tribunal é a de que, na prática, o pedido de vista do ministro Flávio Dino na sessão histórica de terça (15) inviabilizou tecnicamente que o caso de Mendonça vá ao plenário semana que vem. Isso porque a vista ocorreu em uma questão de ordem que discute justamente se o pedido de investigação contra Mendonça deve ser julgado junto ou apartado do caso sobre as mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes.

Dois servidores da área técnica do STF afirmam que é ilógico levar o caso ao plenário, pois o impasse sobre a união ou separação dos processos ainda não se resolveu. O prazo do regimento interno para devolução do pedido de vista é de 90 dias.


A instabilidade geoquímica foi o motor principal por trás do desaparecimento desses seres fascinantes e diversos que habitavam os mares primitivos. Os registros fósseis mostram um cenário desolador, onde a maioria absoluta dos seres vivos simplesmente foi extinta sem deixar descendentes diretos para as gerações seguintes.


A redução brusca da disponibilidade de oxigênio nas águas profundas e superficiais sufocou a capacidade de sobrevivência de comunidades inteiras de forma rápida e letal. Mas vários elementos ambientais contribuíram para que esse evento atingisse proporções tão catastróficas em uma escala global de tempo geológico e biológico. Entre outros, vale citar as alterações severas na circulação das correntes marítimas globais e as mudanças profundas na composição química dos sedimentos oceânicos.


A hipóxia generalizada atuou como um filtro seletivo impiedoso, que reorganizou toda a estrutura da biosfera de maneira permanente na história terrestre. Nesse processo de seleção natural forçada, as espécies que conseguiram resistir a essas condições extremas foram as responsáveis por dar continuidade ao ciclo da vida em um mundo transformado e escasso de recursos, permitindo que novos padrões corporais e estratégias de sobrevivência surgissem após o período de crise aguda. 


Os principais impactos ocorridos durante a fase de transição drástica incluíram transformações biológicas e geológicas que resultaram no desaparecimento de grupos taxonômico inteiros e importantes, no surgimento de nichos vazios para a futura diversificação biológica e na modificação permanente dos ciclos de carbono e nutrientes globais.


A história da Terra mostra que a resiliência da natureza possui limites claros quando as condições fundamentais para a respiração e nutrição são comprometidas seriamente por fatores externos, e observar esse passado remoto serve de alerta para os riscos que mudanças rápidas no ambiente representam para a estabilidade do equilíbrio global. 


Vale destacar que não ocorreu um desvanecimento lento, mas sim um colapso brusco que apagou uma grande parcela da vida marinha primitiva há mais de meio bilhão de anos. Por essas e outras, manter a integridade dos oceanos é a lição mais valiosa que podemos extrair de uma catástrofe que ocorreu há tanto tempo.


Vale ressaltar que a preservação da biodiversidade depende diretamente da nossa capacidade de monitorar e mitigar as alterações químicas que os sistemas terrestres enfrentam no presente momento de incertezas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

O TEMPO ESTÁ PASSANDO CADA VEZ MAIS RÁPIDO?

TEMPUS FUGIT.

Até a invenção da escrita, o tempo era medido com base em fenômenos naturais sazonais. Mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias e os egípcios criaram um calendário lunar baseado no aparecimento anual da estrela Sirius.


No final do século XVI, o calendário Juliano foi substituído pelo modelo Gregoriano, que atualmente é adotado pela maioria dos países. Mas ainda não se sabe se é o tempo que passa ou se somos nós que passamos por ele como areia entre as câmaras de uma ampulheta.


Atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede — e sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo. Ainda assim, podemos comparar o passado a um lugar distante que gostaríamos de visitar. Mas vale lembrar que uma viagem à Disneylândia ou ao Coliseu depende basicamente de quanto podemos gastar, enquanto viajar para tempos idos, mesmo sendo uma possibilidade matematicamente plausível à luz da Teoria da Relatividade Geral, é bem mais complicado. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Edson Fachin presidiu uma sessão com cenas típicas de um bar de quinta instância. Engalfinharam-se as facções de Alexandre de Moraes e André Mendonça. No lance mais violento, Gilmar Mendes partiu para cima de Mendonça e o acusou de atirar contra Moraes perto do 7 de Setembro por razões eleitorais, e o ministro-pastor chamou o desafeto de "leviano". Teve até "pixuleco" na Paulista, lembrou Gilmar, antes de tratar Mendonça como um submafioso: "Até a máfia tem ética".

Em outra garrafada, Moraes acusou Mendonça de estar "a serviço" do bolsonarismo. Disse ter testemunhas de que o rival pressionou a PF para incluí-lo numa delação premiada. Chamado de mentiroso, Moraes não se deu por achado: "Vamos chamar aqui as testemunhas". A condução do caso por Mendonça gerou acusações de parcialidade e abusos. Em reação, Moraes pediu uma investigação contra o rival.

Numa tabelinha com Gilmar, Dino propôs a análise conjunta dos dois casos. O que ocorreria na quarta-feira da semana que vem. Para Dino, o Judiciário vive "o momento mais corrupto da história". Antevê a investigação de outras togas. Toffoli aguarda na fila. Gilmar sustentou que Mendonça protege aliados. Mencionou Nunes Marques. Dino mencionou Luiz Fux e pediu vista, adiando a decisão sobre a investigação de Moraes. Em meio a garrafadas, o Supremo entrou em autocombustão. Cármen Lúcia se disse "envergonhada". Pediu "desculpas" ao país.

Amigos são como táxis. Debaixo de chuva, somem. Apenas 48 horas depois de a Quaest ter trovejado a ultrapassagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula no cenário de segundo turno, Flávio Dino disparou no plenário do Supremo um raio que o parta. Colocou Alexandre de Moraes no colo de Lula.

Diante da tempestade perfeita, Lula tentou abrir o guarda-chuva. Em entrevista à TV Record, defendeu investigações "sem trégua". Disse que Edson Fachin "tem a faca e o queijo na mão" para investigar togas tisnadas pelo Master. Ciente de que o sangramento de Moraes respinga em sua candidatura, Lula repetiu que o Supremo não é lugar para quem deseja enriquecer.

De passagem por Fortaleza, o filho de Bolsonaro realçou o óbvio: com um pedido de vista-bloqueio, Dino tirou a faca das mãos de Fachin. E escondeu o queijo. O debate sobre a investigação de Moraes ficou para depois da eleição. Flávio disse que "a tropa de choque do Lula no Supremo entrou em campo" para blindar Moraes. Não chamou Dino pelo nome. Preferiu chamá-lo de "ex-ministro da Injustiça do Lula."

Segundo o Datafolha, 85% dos eleitores dizem que as acusações contra Moraes não mudam seus votos. Uma ínfima minoria, de 4%, disse ter trocado de candidato. E 7% disseram estar em dúvida. Numa eleição apertada, definida no olho mágico, 7% podem fazer 100% de diferença. Se a minoria indecisa pender para Flávio, um candidato que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, Lula se lembrará de Dino como um táxi que não apareceu na hora da chuva.


Em tese, qualquer tentativa de alterar o passado é automaticamente corrigida pelo próprio curso dos eventos, de modo que o tempo é imutável — ou pelo menos impermeável a grandes alterações. Por outro lado, a Teoria do Multiverso sustenta que cada decisão ou evento gera um desdobramento alternativo, que não afeta a linha do tempo original.


De um tempo a esta parte, por alguma razão incerta e não sabida, o tempo parece estar passando cada vez mais depressa. Isso acontece porque nossa mente “vê” o tempo passar como uma cena exibida em slow-motion. Uma vez que o registro feito pelo cérebro é flexível e leva em conta emoções, expectativas, o quanto as tarefas exigiam de nós num determinado período, e até os nossos sentidos.


Isso explica por que a maioria das pessoas se lembra mais nitidamente do que viveu entre os 15 e os 25 anos — época em que se têm mais experiências novas, e coisas novas tendem a ter um registro mais intenso na memória, já que nosso cérebro parece perceber esses episódios como mais duradouros. No entanto, conforme envelhecemos, os últimos 10 anos parecem ter passado bem mais rapidamente do que as décadas anteriores. 


Enquanto nos deslocamos de casa para o trabalho, por exemplo, temos a impressão de que a viagem demora uma eternidade, mas a sensação é bem diferente quando pensamos nisso na hora do almoço ou no meio da tarde. Mas parece que essa impressão não é só impressão.


Em comparação à época de sua formação, a Terra tem dias muito mais longos. Cerca de 1,4 bilhão de anos atrás, uma rotação levava menos de 19 horas, mas os dias começaram a ficar cerca 13,5 microssegundos mais longos a cada ano, e a precisão dos relógios atômicos levou os cientistas à conclusão de que a Terra vinha desacelerando seu giro muito gradualmente.


Ocorre que, de um tempo a esta parte, nosso planeta voltou a girar mais rapidamente, completando sua rotação em 1,4602 milissegundos a menos do que os habituais 86.400 segundos. Essa aceleração começou a acontecer em 2016, e o dia 29 de junho de 2022 foi o mais curto desde o início das medições. Se a tendência se mantiver, um segundo bissexto negativo será necessário para manter os relógios alinhados com a rotação do planeta. 

 

Observação: Seria a primeira vez na história que se removeria um segundo dos relógios globais, o que poderia ser um problema, pois grande parte da tecnologia moderna é baseada no que se convencionou chamar de “tempo real”. Para alguns especialistas, a solução seria alterar os relógios do mundo da hora solar para a hora atômica, mas essa é uma outra conversa.


Se você vai para a cama com a impressão de que o dia não rendeu, seja bem-vindo ao clube. Embora as horas continuem a ter 60 minutos, o dia solar, 24 horas, e o dia sideral, — tempo que a Terra leva para uma volta completa em torno do seu eixo — 23 horas, 56 minutos e 4 segundos; Mas o tempo medido de uma forma mais sutil e abstrata pela nossa percepção mudou radicalmente ao longo da História. 


Para o soldado romano dos tempos de Júlio César, o tempo parecia passar num ritmo; para o camponês do século 18, esse ritmo era outro; há 30 anos, a gente lia o jornal da manhã e esperava até 20h30 para o Jornal Nacional dar as notícias do dia. Séries eram interrompidas para intervalos comerciais — essas pausas eram aceitas como um respiro, entre um segmento e outro de uma antiga série. Hoje, no entanto, ficamos furiosos quando um serviço de streaming interrompe a exibição do filme por meros 60 segundos para exibir propagandas, talvez porque o tempo pareça ter ficado mais escasso e, portanto, mais valioso.


Em outras palavras, na percepção de tempo atual a areia parece escapar de uma

ampulheta quebrada. Não existe começo nem fim, apenas uma sucessão de ansiedades. Antigamente, a gente esperava pacientemente pela resposta

a uma carta; agora somos bombardeados diariamente no WhatsApp por notinhas, frases, memes, desaforos em grupos de colegas de trabalho, de condôminos e de familiares, e por aí vai.


O único momento em que o tempo parece passar devagar é quando temos insônia. Aí não tem jeito; os segundos viram minutos que se arrastam penosamente, enquanto nós oramos ou criamos fantasias para não pensar nas contas a pagar, no câncer que nos está matando e no tratamento médico que estamos adiando por ser chato e tedioso. Ou seja, o tempo passa devagar porque não estamos nos divertindo ou produzindo nada.


O fato de o tempo parecer tão acelerado não é ruim em si, apenas significa que nossas necessidades são atendidas em tempo cada vez menor, e que estamos vivendo mais intensamente, adquirindo experiências e conhecimentos numa velocidade impensável há apenas algumas décadas. E isso vai se acelerar ainda mais para quem souber usar recursos como a inteligência artificial. 


A questão é que, por não estarmos mentalmente preparados para isso, a adaptação completa demora. O psicólogo alemão Marc Wittmann destacou no livro Felt Time (“Tempo Sentido”) que nós normalmente filtramos nossas lembranças, e isso faz com que os momentos de grande emoção e alegria parecem se esticar em nossas memórias, como num filme em câmera lenta, enquanto os momentos de rotina parecem sumir. Isso foi demonstrado em vários estudos: quanto mais rotina as pessoas relatam, mais rápido o tempo parece passar em retrospectiva.


Para entender como os ciclos de sono, alimentação e produtividade são afetados pela referência das horas, o pesquisador francês Michel Siffre passou dois meses numa caverna escura, sem relógio nem qualquer outra maneira de saber o tempo. A única fonte de luz disponível era uma lâmpada de mineração, que ele usava para cozinhar, ler e escrever em um diário pessoal. No livro Beyond Time (1964), ele relatou que tomava o próprio pulso e contava os segundos até 120 sempre que se comunicava por rádio com a equipe de apoio, mas o tempo real cronometrado por sua equipe era de quase 5 minutos. Sem os indicadores naturais (como nascer e pôr-do-sol), seu ciclo circadiano passou de 24 para 48 horas, e o tempo psicológico foi reduzido à metade do cronológico. O experimento se estendeu por dois meses, que para ele pareceram menos de um.


Décadas depois — mais exatamente em 21 de novembro de 2021 — uma atleta espanhola chamada Beatriz Flamini entrou numa caverna a 70 metros de profundidade e lá permaneceu isolada do mundo por 500 dias. Monitorada à distância, mas sem manter diálogo com ninguém, ela passou seu tempo fazendo exercícios, desenhando, lendo, fazendo tricô e conversando consigo mesma. Para ela, não havia dia ou noite, nem chuva ou sol. Eventualmente, parou de contar os dias, e quando saiu, um ano e meio depois, disse que achava ter ficado na caverna por cerca de seis meses.


Segundo Adrian Bejan, pesquisador da Duke University, não percebemos a passagem do tempo diretamente; percebemos apenas as mudanças que ocorrem à nossa volta e as registramos como uma sequência mental. É por isso que o presente difere do passado: não porque o relógio avançou, mas porque nossa percepção da realidade mudou. No escuro da caverna, onde quase nada se alterava para Michel Siffre e Beatriz Flamini, havia poucos estímulos para renovar essa sequência de imagens. Sem essas referências, o tempo parecia quase não passar.


Um dos maiores especialistas no tema hoje é o sociólogo alemão Hartmut Rosa, autor de Social Acceleration: A New Theory of Modernity (“Aceleração Social: Uma Nova Teoria da Modernidade”). Segundo ele, vivemos uma ordem social que depende da aceleração para continuar funcionando. Temos que produzir mais, comunicarmo-nos mais rapidamente, tomar decisões em menor tempo, acumular mais experiências durante uma vida limitada, e por aí afora. 


Rosa descreve três formas de aceleração. A primeira é a tecnológica — viagens e comunicações encurtaram distâncias, e o tempo, por estar comprimido, torna-se escasso. Um exemplo disso é a correspondência por escrito, um processo lento que o correio eletrônico acelerou significativamente. Todavia, por ser tão rápido e prático, ele nos obriga a lidar com dezenas, centenas de emails por dia. O tempo economizado pela aceleração é ocupado pela multiplicação das tarefas, e assim o dia fica curto.


A segunda aceleração apontada por Rosa é o das transformações sociais. Profissões, conhecimentos, relacionamentos, identidades sociais ocorrem dentro de uma geração, dando azo à “contração do presente”: o intervalo durante o qual nossas experiências passadas ainda servem para orientar o futuro torna-se

cada vez menor. Aquilo que aprendemos ontem pode não funcionar

amanhã. A terceira é a aceleração da vida em si. Viramos multitarefas, reduzimos pausas e intervalos, comemos rapidamente de olho no celular e sentimos culpa por momentos em que não estamos produzindo algo. Esse novo comportamento nos leva à impressão de que o tempo está curto e não temos mais tempo para exercer todas as tarefas que nos impomos.


Tudo isso pode parecer negativo, mas você voltaria ao tempo das cartas, dos telegramas, dos aviões a hélice, dos telefones discados, da televisão com cinco canais, dos empregos fixos pela vida inteira, da aposentadoria no sofá esperando a morte chegar? As sociedades mudam desde que a humanidade se organizou, e o modelo atual precisa dessa aceleração até para sobreviver. Nas palavras de Rosa: “Uma sociedade é moderna quando só consegue estabilizar-se dinamicamente", isto é, quando necessita sistematicamente de crescimento, inovação e aceleração para conservar sua estrutura e reproduzir o status quo.


"Sed fugit interea fugit irreparabile tempus”, dizia o poeta romano Virgílio,

que morreu pouco antes do nascimento de Cristo. Já naquela época, ele constatou que o tempo foge irreversivelmente — e hoje foge com muito mais velocidade. Em face do exposto, a pergunta é: como tocar nossas vidas diminuindo a sensação de

ansiedade? 


A resposta é: 1) reduza a fragmentação do dia – mudar de atividade a cada dez minutos aumenta nossa aflição; 2) tente reservar períodos de 30 a 60

minutos para realizar só uma tarefa; 3) Estabeleça intervalos para conferir

mensagens e e-mails e reserve cinco minutos para fazer nada; 4) Mude a rotina – fazer tudo igual todos os dias dá essa sensação de diminuir o tempo; 5) Escreva um diário – não precisa ser um longo relatório das suas atividades, apenas registre-as (em papel ou num computador) em poucas linhas o que aconteceu, especialmente os momentos mais agradáveis.


Adicionalmente, crie prioridades na sua agenda – fazer tudo o tempo todo todos os dias destrói a noção de tempo. Defina tarefas essenciais, valorize suas opções principais, já que a ansiedade tende a aumentar com a sensação de que temos de fazer várias coisas ao mesmo tempo.


Boa sorte.


quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O MONSTRO DE OLHOS VERDES

O CIÚME É UMA FORMA DE AMOR OU APENAS UMA FORMA DE POSSE?

Costuma-se dizer que “ciúme não é de todo ruim: a pessoa se sente valorizada”. No entanto, não se trata de uma opinião unânime. Para muita gente, “ciúme é uma merda” — e ponto final.


Mas afinal, o que é o ciúme? Uma reação natural à ameaça de perder alguém que amamos? Uma característica inata do Homo sapiens, desenvolvida ao longo da evolução para proteger parceiros, vínculos e descendentes? Ou simplesmente uma construção cultural das sociedades que adotaram a monogamia como modelo predominante?


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Ao decidir não decidir, os ministros do STF deram margem a dois finais, nenhum dos dois feliz; na melhor das hipóteses, Alexandre de Moraes passará de juiz implacável a investigado precário; na pior, as suspeitas sobre o relacionamento potencialmente criminoso do magistrado com Daniel Vorcaro serão ignoradas. 

A primeira alternativa seria melhor, pois abriria a perspectiva de que outras togas sob suspeição fossem investigadas. A segunda é pior porque representaria o suicídio do Supremo, que cavou a própria cova em fevereiro, ao ignorar as 35 milhões de razões que a PF apresentou para a abertura de um inquérito contra Dias Toffoli, e, ao blindar Moraes, joga terra em cima de si mesmo.

Não são apenas os erros que matam uma instituição, mas o modo como reagem seus membros depois de cometê-los. Certas togas aprendem tanto com seus erros que flertam com a tentação de cometer mais alguns. Todos são iguais perante a lei, mas são piores os que, tendo a obrigação de proteger a Constituição, afrontam os princípios constitucionais.

Moraes estreou na vida pública como promotor. Foi um exímio acusador. No Supremo, tornou-se um juiz implacável. Forçado pelas circunstâncias a advogar em causa própria, aplica mal os princípios que fizeram seu sucesso. Em vez de se defender, ataca. Rigoroso com os outros, pede ao país que seja condescendente com ele. Sua defesa tem 44 páginas, chama de "farsa" o relatório da PF, sustenta que André Mendonça encomendou o documento por "motivação político-eleitoral" e que é vítima de "vingança" de uma toga bolsonarista pelas condenações de Bolsonaro e seus cúmplices no complô do golpe.

Mendonça, de fato, não é cristão que se cheire. Virou boneco inflável em comício de Flávio Bolsonaro. Mas isso não apaga as 52 mensagens endereçadas por Daniel Vorcaro ao celular do ministro mais poderoso do Supremo até o ano passado. Se pudesse, Moraes diria: não recebo mensagem de bandido. Cuidadoso, preferiu construir um teste de múltipla escolha: Letra A) o conteúdo do bloco de notas de Vorcaro pode não ter sido enviado a alguém; letra B) pode ter sido remetido a diversas pessoas; letra C) as mensagens talvez tenham sido apagadas antes de serem visualizadas; letra D) as mensagens talvez nunca tenham sido efetivamente lidas. Por fim, Moraes realçou que não há vestígio de mensagem enviada por ele a Vorcaro. Portanto, os diálogos são fantasiosos".

O ministro não mencionou que trocou de celular. Como o aparelho não foi cedido nem apreendido pela PF, a tese da fantasia vale até certo ponto: o ponto de interrogação. A dúvida pede investigação. Moraes considera-se merecedor de uma estátua por ter ajudado a salvar a democracia. O problema é que virou pardal de si mesmo. Começou a sujar a calva de bronze ao avalizar o contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório da mulher. Descobre agora que o Olimpo não tem escadas.


A resposta, como quase sempre acontece quando o assunto é comportamento humano, parece ser: um pouco de cada coisa. Pesquisadores que estudam o comportamento sob uma perspectiva evolucionista consideram que o ciúme pode ter desempenhado uma função adaptativa: diante da ameaça real ou imaginária de um rival, ele poderia estimular comportamentos destinados a preservar uma relação considerada valiosa. Daí surgiriam estratégias de “retenção do parceiro”, que podem ir de atitudes perfeitamente inofensivas — demonstrar afeto, aproximar-se, reforçar o vínculo — até comportamentos de controle e, nos casos extremos, violência.


Mas Isso não significa que o ciúme seja um “programa genético” inevitável, nem que comportamentos destrutivos possam ser justificados pela evolução. A própria pesquisa mostra que a intensidade e a forma de manifestação do ciúme variam conforme a cultura, a experiência de vida, as características do relacionamento e até as atitudes de cada indivíduo diante da infidelidade.


Discussões acadêmicas à parte, o ciúme já rendeu muito boa literatura. Ele aparece em textos religiosos antiquíssimos — inclusive no livro de Números, onde existe uma curiosíssima “lei dos ciúmes”, destinada a lidar com a suspeita de infidelidade conjugal. O marido podia levar a mulher diante do sacerdote para que sua suspeita fosse submetida a um ritual. Ou seja: a humanidade já havia descoberto, há muitos séculos, que o ciúme também precisava de burocracia.


Na literatura clássica, o tema aparece sob inúmeras formas. Está por trás de conflitos da Ilíada, explode em episódios do Decameron, de Boccaccio, e reaparece, com roupagens diferentes, em incontáveis histórias de amor, traição e vingança. Mas sua expressão literária mais conhecida talvez seja mesmo Otelo, de William Shakespeare.


Embora a ideia não fosse original — Shakespeare baseou-se em uma narrativa italiana anterior —, o tratamento que deu ao tema, a construção dos personagens e, sobretudo, a exploração dos mecanismos psicológicos envolvidos fizeram da peça uma das obras-primas da literatura universal.


Otelo é, essencialmente, uma peça sobre o ciúme. Resumindo — e simplificando bastante —, a história começa em Veneza. Otelo, um general mouro a serviço da República, casa-se secretamente com Desdêmona, filha de um importante senador veneziano. Entre seus subordinados está Iago, que guarda ressentimento contra o comandante por ter sido preterido numa promoção em favor do jovem Cássio.


Iago é um sujeito ressentido, inteligente e perverso. E descobre uma arma muito mais poderosa que uma espada: a dúvida. Por meio de insinuações, meias-verdades e mentiras cuidadosamente construídas, ele faz Otelo acreditar que Cássio é amante de Desdêmona. O que começa como uma suspeita vai ganhando corpo na imaginação do general até se transformar, para ele, numa certeza. E é aí que Shakespeare mostra o verdadeiro poder destrutivo do ciúme.


Otelo deixa de enxergar o mundo como ele é e passa a enxergá-lo como o ciúme determina que ele seja. Cada gesto de Desdêmona pode ser interpretado como prova de infidelidade; cada coincidência, como evidência; cada explicação, como tentativa de encobrir a verdade.


O ciúme já não precisa de fatos. Ele próprio produz os fatos de que necessita. Iago percebe isso perfeitamente e pronuncia uma das frases mais famosas da literatura: “Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta.”


A expressão “monstro de olhos verdes” entrou para a linguagem corrente como metáfora do ciúme. E há uma ironia deliciosa na imagem: o monstro alimenta-se justamente da pessoa que o abriga. Quanto mais ciúme, mais sofrimento; quanto mais sofrimento, mais motivos imaginários para sentir ciúme.


Shakespeare volta ao assunto pouco depois, quando Emília observa que certas pessoas “não são ciumentas por causa de alguma coisa: são ciumentas porque são ciumentas”. É uma observação extraordinariamente moderna. O ciúme pode deixar de ser reação a uma ameaça e transformar-se em um sistema autossustentável de suspeitas. É exatamente aí que a literatura encontra a psicologia.


O ciúme começa, muitas vezes, como uma emoção perfeitamente compreensível: “Tenho medo de perder alguém que considero importante.” O problema aparece quando o medo se transforma em vigilância; a vigilância, em controle; o controle, em posse; e a posse, em violência. E talvez seja justamente por isso que o ciúme tenha sobrevivido tão bem ao longo da história humana. Ele toca em algo bastante primitivo: o medo da perda.


Perder o parceiro, perder a atenção, perder o afeto, perder o lugar que ocupamos na vida de alguém. Em termos evolucionistas, a ameaça de um rival poderia representar perda de investimento, de proteção, de parceria ou, em sociedades ancestrais, problemas relacionados à reprodução e à sobrevivência da prole. Não é por acaso que a ciência trata o ciúme como uma emoção associada à ameaça de perda de um relacionamento valioso.


Mas seria simplista concluir que tudo se resume à biologia. A cultura entra em cena com enorme força. O que é considerado traição varia entre sociedades; o que um casal considera aceitável ou inaceitável também varia; e até a importância atribuída à exclusividade sexual e emocional pode mudar conforme a época e o grupo social.


Além disso, as pessoas não sentem ciúme exatamente da mesma maneira. Há quem sofra mais diante da possibilidade de uma ligação emocional do parceiro com outra pessoa; há quem se angustie principalmente diante da possibilidade de uma relação sexual. Pesquisas encontram diferenças médias entre homens e mulheres em determinados cenários, mas também mostram que essas diferenças são influenciadas por fatores culturais, biográficos e relacionais. Portanto, talvez a pergunta correta não seja se o ciúme é “inato” ou “cultural”.


É provável que exista uma predisposição humana para reagir à ameaça de perder um vínculo importante, enquanto a cultura, a personalidade e a história de cada pessoa determinam boa parte da maneira como essa predisposição será expressa. Em outras palavras: a natureza pode fornecer o pavio; a cultura e a experiência decidem, em boa medida, o que será feito com a pólvora.


E, por falar em literatura, há outro personagem que sempre me vem à lembrança quando penso no assunto: Luzia Cambará, de O Continente, primeira parte de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. De todos os volumes da obra, o episódio que mais me fascina é justamente “A Teiniaguá”, narrativa em que surge Luzia, personagem extraordinariamente complexa, sedutora e inquietante.


Luzia é casada com Bolívar Cambará e parece exercer sobre ele uma espécie de fascínio que mistura desejo, medo, sofrimento e ciúme. É uma personagem de personalidade perturbadora, marcada por uma sensualidade quase ameaçadora e por uma relação peculiar com o sofrimento alheio. 


Seu apelido, “Teiniaguá”, não é gratuito: a Teiniaguá pertence à tradição lendária gaúcha da Salamanca do Jarau: uma princesa moura transformada em uma criatura semelhante a uma salamandra, com uma pedra preciosa na cabeça, cuja beleza e fascínio atraem os homens. A lenda foi registrada por João Simões Lopes Neto em Lendas do Sul e serviu de inspiração para Érico Veríssimo.


Luzia é, portanto, uma espécie de Teiniaguá humana: fascinante e perigosa. E aqui aparece uma diferença interessante em relação a Otelo. Em Shakespeare, o ciúme é essencialmente destrutivo para aquele que o sente e, sobretudo, para aquele que dele se torna vítima. Otelo acredita na infidelidade de Desdêmona, deixa-se consumir pela suspeita e acaba assassinando a mulher que ama — que, ironicamente, jamais o traiu.


Em O Tempo e o Vento, o ciúme de Bolívar assume outra configuração. Luzia não é simplesmente uma vítima passiva da paixão possessiva do marido. Ela parece provocar, explorar e até se alimentar desse sofrimento. O ciúme, nesse caso, participa do próprio jogo de poder e sedução entre os personagens. São, portanto, duas faces literárias de uma mesma emoção: Desdêmona é vítima do monstro de olhos verdes. Luzia parece brincar com ele.


E há uma curiosidade pessoal nessa história que talvez seja imperdoavelmente pouco científica, mas absolutamente verdadeira. No seriado O Tempo e o Vento, exibido pela Globo em 1985, e de Carla Camurati interpretando Luzia. O rosto da atriz ficou indelevelmente associado à personagem. Depois disso, tornou-se praticamente impossível encontrar Carla Camurati na televisão ou no cinema sem que aquela Luzia me viesse imediatamente à lembrança. Talvez seja esse o poder da literatura — e, por extensão, do cinema e da televisão: determinados personagens deixam de pertencer exclusivamente ao autor e passam a morar na memória de quem os conheceu.

Voltando ao ciúme, não creio em amor completamente desprovido de qualquer forma de ciúme. Afinal, se alguém ocupa lugar importante em nossa vida, é natural que a possibilidade de perdê-lo provoque alguma inquietação. Mas há uma diferença enorme entre “não quero perder você” e “você não pode pertencer a mais ninguém”. No primeiro caso, existe afeto; no segundo, existe existe posse. E talvez esteja aí a fronteira que realmente importa.


Um pouco de ciúme pode ser apenas o reconhecimento de que o outro é importante. Quando moderado e transformado em diálogo, pode até reforçar a percepção de valor e compromisso dentro de uma relação. Mas, quando se transforma em vigilância, desconfiança permanente, controle, isolamento ou ameaça, deixa de ser demonstração de amor e passa a ser uma forma de sofrimento — para quem sente e, principalmente, para quem é submetido a ele.


No fundo, amar alguém talvez seja aceitar uma coisa bastante incômoda: ninguém possui ninguém. O outro permanece porque quer permanecer, e talvez seja justamente isso que torne uma relação amorosa tão bonita — e tão assustadora. Porque, no amor, não existe contrato de propriedade. Existe escolha. Todos os dias.


E que saudades da Carla Camurati...