domingo, 12 de abril de 2026

CONTRAFILÉ — NA BRASA OU NA FRIGIDEIRA, SEMPRE UMA BOA OPÇÃO

CHATO É AQUELE QUE FALA QUANDO A GENTE QUER QUE OUÇA.

A picanha começou a ser separada da alcatra no final dos anos 1950. Segundo o açougueiro húngaro Laszlo Wessel, os imigrantes alemães que trabalhavam na fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP), utilizavam o corte para preparar o tafelspitz — receita austríaca que consiste em picanha acompanhada de maçã e raiz-forte, servida com batatas.


Considerada carne “de segunda” até meados dos anos 1970, a picanha ganhou status quando passou a figurar nos cardápios das churrascarias e se tornou sinônimo de churrasco no Brasil. Hoje, com o preço nas alturas — a despeito da promessa de palanque de Lula —, acabou sendo preterida por cortes como alcatra, maminha e contrafilé, que são excelentes alternativas para quem busca carne saborosa, versátil, mais em conta e fácil de preparar.


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Com cerca de 733.759 habitantes (5,65 hab./km²), o Amapá é um dos estados brasileiros com menos habitantes e menor densidade demográfica. Já São Paulo, tido como a "locomotiva do Brasil", tem 46,08 milhões de habitantes (média de 180,86 hab./km²). A título de referência, a média nacional gira em torno de 24 hab./km², e cada unidade da Federação (26 Estados e o Distrito Federal) é representada por 3 senadores, sendo o amapaense Davi Alcolumbre o presidente de turno do Senado e do Congresso Nacional. 

Alcolumbre é um típico político brasileiro — grosso modo falando. Lança mão de todos os artifícios para atingir seus subterfúgios. Com dois movimentos, deu um nó no governo e na oposição. Sob holofotes, passou a impressão de atender aos dois lados. No escurinho, satisfez o seu desejo de enterrar o requerimento de uma CPI mista para investigar o escândalo do Master.

Num lance, o eminente senador acenou para o Planalto ao destravar a indicação de Jorge Messias para o Supremo. Noutro, agradou a oposição ao pautar a votação dos vetos de Lula ao projeto da dosimetria, que reduz penas de Bolsonaro e seus cúmplices.

Num acerto de bastidor, líderes partidários aceitaram que a sessão do Congresso de 30 de abril trate apenas dos vetos à lipoaspiração das penas dos golpistas. Adeptos da CPI vão chiar, mas Alcolumbre e o Centrão têm milhões de razões para ignorar a chiadeira. 

Entre mortos e feridos, quase todos se salvam — menos o interesse público.

Como dizia o falecido Marcelo Rezende, "vai vendo!"


Escolher um bom contrafilé começa pela aparência da peça, que deve apresentar coloração vermelho-viva, sem manchas escuras, sinais de oxidação ou aspecto acinzentado. A gordura lateral precisa ser clara e firme, nunca amarelada ou excessivamente mole. Os bifes ou pedaços devem ser espessos, e a capa de gordura deve ser mantida — sob pena de comprometer a suculência, a textura e o sabor da carne. Bifes muito finos cozinham rápido demais e tendem a ressecar, especialmente em preparos de fogo alto; o mesmo se aplica a peças excessivamente “limpas”.


Quando havia combos de padaria, farmácia e açougue espalhados pela cidade, bastava a gente dizer ao açougueiro o que se pretendia fazer, e ele cortava e limpava o contrafilé da maneira mais adequada. Nos supermercados, porém, as carnes quase sempre são cortadas sem critério, acondicionadas naquelas indefectíveis bandejas de isopor e recobertas por filme plástico. Compre somente se a carne estiver vermelhinha e se não houver excesso de líquido na embalagem. Fuja de bandejas gosmentas ou com cheiro desagradável.


Para grelha ou churrasco, corte a carne em pedaços de dois a três dedos de altura, o que garante cozimento mais uniforme e maior controle do ponto. Os bifes podem ser um pouco mais baixos, mas ainda assim longe de cortes muito finos, e sempre fatiados contra os veios da carne. Manter um pouco de gordura é igualmente importante, tanto para realçar o sabor quanto para evitar que os bifes ressequem.


Fatie o contrafilé contra os veios da carne em bifes com cerca de 2 cm de espessura e frite-os em fogo alto numa frigideira de ferro fundido ou de fundo grosso. Coloque um bife de cada vez, somente quando a frigideira estiver quente a ponto de fumegar. Sal e pimenta-do-reino são indispensáveis para realçar o sabor, mas devem ser aplicados apenas minutos antes ou durante o preparo.


No churrasco, corte o contrafilé em pedaços altos e grelhe em fogo médio-alto por quatro ou cinco minutos de cada lado, virando apenas uma vez. Se a ideia for assá-lo como nas churrascarias, mantenha o espeto a uma distância de 30 a 40 cm do braseiro, vire-o de tempos em tempos e vá retirando lascas, como no churrasco grego.


Dica: Para preservar a suculência, embrulhe as sobras do churrasco em papel-alumínio e guarde na geladeira. Se a carne ainda quente for colocada no forno, continuará cozinhando no calor residual; se for armazenada em um recipiente hermético, perderá suculência por causa do vapor acumulado. O papel-alumínio evita a perda de umidade, e o frio da geladeira estabiliza a temperatura interna da carne. Na hora de servir, basta reaquecer e fatiar.


O filé-mignon tem maciez e sabor inconfundíveis; o coxão-mole é versátil e apresenta ótimo custo-benefício; o coxão-duro e o lagarto rendem excelentes assados, ótimos bifes à rolê e carne de panela. Filé, contrafilé e miolo de alcatra podem ser cortados em bifes grossos, sempre no sentido contrário ao das fibras, mas o coxão-mole e o patinho devem ser fatiados finos


Independentemente do corte e da espessura, os bifes devem ser fritos individualmente e virados apenas uma vez. O ponto varia conforme o gosto do comensal, a altura do bife, o material da frigideira e a potência do fogão. Para bifes médios (cerca de 2,5 cm de altura) malpassados, aqueça bem a gordura e frite por dois ou três minutos de cada lado. Para bifes ao ponto ou bem-passados, o tempo sobe para quatro ou cinco minutos, ou de seis a oito minutos por lado, respectivamente. Ao final, coloque-os numa travessa, cubra com papel-alumínio e deixe descansar por alguns minutos, permitindo que os sucos se redistribuam de maneira uniforme.


Bifes à milanesa devem ser finos e fritos por imersão em gordura bem quente (180 °C). Use frigideiras ou panelas largas, de borda alta, e frite um bife de cada vez, para não baixar a temperatura do óleo. A casca ficará mais crocante e não se soltará durante a fritura se os bifes forem passados na farinha de trigo, no ovo batido e na farinha panko, nessa ordem. Ao final, disponha-os sobre uma travessa forrada com papel-toalha, que absorverá o excesso de gordura e deixará os bifes mais sequinhos.


A carne moída refogada aparece como recheio de pastéis, esfihas, almôndegas e empadões, no molho à bolonhesa e até como “mistura” para acompanhar o popular arroz com feijão. Crua, é a base de hambúrgueres e do sofisticado steak tartare. Como é difícil saber a procedência da carne moída vendida nos supermercados — não é incomum que a gordura e o sebo remanescentes da limpeza das peças seja incluída na moagem —, o ideal é escolher o corte desejado e moer em casa — isso permite, inclusive, misturar cerca de 20% de gordura de picanha à paleta ou ao patinho, já que hambúrguer sem gordura não dá liga nem tem sabor.


Para quibe cru e steak tartare, o filé é o corte mais indicado. As butiques de carne o vendem em escalopes, medalhões, tornedós e chateaubriand, mas sai mais barato comprar a peça inteira, limpar e cortar em casa. Comece removendo a fáscia — aquela membrana prateada que endurece os bifes — com uma faca de ponta fina e bem afiada, mantendo-a quase paralela à peça para minimizar a perda de carne. Em seguida, divida o filé em cabeça, lateral, miolo e ponta


Observação: A cabeça é a extremidade mais larga; a lateral, a parte quase solta que corre ao lado; o miolo, o corpo cilíndrico; e a ponta, onde a carne afina. Corte então em chateaubriands (cerca de 4 cm de altura e 300 a 400 g), tornedós (3 cm e 250 g), medalhões (2 cm e 180 g) ou escalopes (cubos de aproximadamente 1 cm). O restante pode virar bifes — e as sobras rendem strogonoff ou escondidinho de filé, por exemplo.


Eu pretendia incluir uma receita de rosbife semelhante à que publiquei em julho do ano retrasado, mas achei melhor deixá-la para o próximo domingo, sob penda de esta postagem ficar longa demais.

sábado, 11 de abril de 2026

LULA E O PÊNDULO DE FOUCAULT

REELEGER LULA OU ELEGER FLÁVIO BOLSONARO É COMO ESCOLHER ENTRE X-BOSTA E BAURU DE MERDA EM VEZ DE IR COMER EM OUTRO BOTEQUIM.

Com a aproximação das eleições, surge uma pergunta que, para ser respondida sem medo de errar, só mesmo aguardando o apito final e a decisão do VAR. Mas pode-se emular um exercício de futurologia dando uma resposta disfarçada de palpite triplo: ganha fulano por causa disso, mas sicrano pode ganhar por causa daquilo, sem falar que a terceira (!?) pode romper a polarização. Previsão mais precisa que essa, só mesmo consultando a cigana do parquinho ou o horóscopo da revista de fofocas.


Fazer prognósticos calcados em pesquisas de intenção de voto é arriscado, sobretudo quando as abordagens são feitas com seis meses de antecedência. Aliás, Magalhães Pinto dizia que "política é como nuvem" (você olha e elas estão de um jeito; olha de novo e elas já mudaram), e Ciro Gomes, que "eleição é filme e pesquisa é frame". Na melhor das hipóteses, os institutos de pesquisa oferecem um "instantâneo" do humor do eleitorado num determinado momento — isso se admitirmos que 2 mil gatos pingados refletem o pensamento de 150 milhões de eleitores. Na pior, considerando que cada pesquisa chega a custar milhão de reais, é comum os resultados ornarem com a preferência dos contratantes. 


Em 2018, todas as pesquisas davam de barato que Dilma seria a senadora mais votada — e ela ficou em 4º lugar —; que Bolsonaro perderia de qualquer adversário no segundo turno — e ele venceu o bonifrate de Lula por uma diferença de quase 12 milhões de votos —; e que Eduardo Suplicy seria reeleito — e ele foi defenestrado após 27 anos de Senado. Na disputa pelo Planalto, Geraldo Alckmin obteve menos de 5% dos votos, e Marina Silva, 1%. No Nordeste — tido como o solo sagrado onde o demiurgo de Garanhuns realizaria o milagre da ressurreição —, o PT teve 10 milhões de votos a menos que em 2014, e perdeu em cinco das sete capitais da região.


De certeza, mesmo, só a vocação inata que o eleitor brasileiro tem de repetir a cada pleito, por ignorância, o que Pandora fez um única vez, por curiosidade. Mas é consenso entre analistas políticos que a esquerda dividem ⅔ do eleitorado, e que os cerca de 50 milhões de "isentões" funcionam como fiel da balança em pleitos polarizados, quando é preciso escolher o candidato "menos pior" 


Em Il Pêndulo di Foucault, do italiano Umberto Eco, três intelectuais inventam uma teoria da conspiração que, de tão perfeita, começa como brincadeira e termina como crença — primeiro para eles, depois para os outros. A versão brasileira entrou em cartaz quando a aberração que postula a reeleição emitiu um garrancho verbal traduzido pelos filólogos de plantão como "ainda não decidi se serei candidato".


A dúvida virou tese ao cabo de poucas horas, e dias depois a tese já se tornara narrativa. Agora, já temos enredo, elenco de apoio e um roteiro que segue um padrão quase didático: alguém lembra a idade, outro puxa os arroubos da primeira-dama, um terceiro esgrime os dados de um instituto de pesquisa chinfrim, e um quarto invoca o humor do mercado.


Com os pontos criados, basta ligá-los para dar à luz um "Plano B" — uma criatura fascinante que ninguém confirma, que tem nome, cronograma e lógica interna que todo mundo descreve em detalhes, mas que não tem comprovação fora das conversas de botequim que a sustentam. Não obstante, como bem observou Eco, nem toda especulação é delírio. Política é risco, cálculo e contingência. A hipótese hoje improvável de Lula não disputar existe como possibilidade porque existe como variável real. No fim das contas, o problema não é a hipótese, mas a velocidade com que ela vira certeza.


Ainda segundo Eco, quando o padrão parece convincente, a prova vira detalhe e a ausência de confirmação passa a ser interpretada como parte do segredo. Se ninguém admite, é porque é sigiloso. Se ninguém confirma, é porque está sendo preparado. A teoria se fecha e, uma vez fechada, conforta.


A questão é que Lula, mais que candidato, é um eixo organizador do sistema político. Sua saída bagunçaria alianças, embaralharia estratégias e reduziria a previsibilidade da eleição, mas não produziria a vitória automática do filho rachadista do pai golpista — pelo contrário: sem o molusco no páreo, o sobrenome Bolsonaro pode perder tração, e como a política brasileira adora um vácuo, não é difícil imaginar o surgimento de um novo "salvador".


Na tão desejável quanto quimérica hipótese de a terceira via prosperar e o segundo turno ser disputado pelo ex-presidiário mais famoso do Brasil ou pelo primogênito do atual presidiário mais famoso desta banânia contra um "outsider", talvez um novo Cacareco — falo do rinoceronte que foi eleito vereador em Sampa no pleito de 1959 — ou um novo Macaco Tião — como o que obteve 400 mil votos na eleição para prefeito do Rio de Janeiro em 1988 —, ou mesmo minha finada cachorrinha teriam chances reais de vitória. 


Voltando à vomitativa realidade, se Lula pendurasse as chuteiras, as alternativas naturais do PT e seus satélites seriam Haddad ou Camilo Santana — este sempre lembrado como alternativa discreta. Ao fim e ao cabo, pode não haver plano algum — apenas um político macróbio, populista, com a data de validade vencida que governa olhando pelo retrovisor, mas, mesmo farto dos rituais palacianos, não abre mão dos salamaleques do poder. 


Por outro lado, como ensinou Eco, a realidade costuma ser simples demais para competir com uma boa teoria. Então, e se Lula desistir?


Triste Brasil

sexta-feira, 10 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — PARTE III

QUEM NUNCA MUDA DE DIREÇÃO ACABA EXATAMENTE ONDE PARTIU. 

Coincidências literárias não constituem evidências de premonição, mas causa espécie o fato de o livro Futility, or the Wreck of the Titan ter sido publicado anos antes da tragédia do Titanic e as “similitudes” jamais terem sido satisfatoriamente explicadas. 


Baseado num pesadelo vívido sobre um transatlântico insubmersível chamado Titan, que colidiu com um iceberg e naufragou ao cruzar o Atlântico, o escritor americano Morgan Robertson descreveu minuciosamente a construção do navio, a rota, o acidente e outras semelhanças impressionantes, como o tamanho do casco, o número de botes salva-vidas, a velocidade e o mês do acidente.


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As campanhas eleitorais para o Planalto estão prests a começar, e tudo indica que a parcela minimamente esclarecida do eleitorado precisará ingerir doses cavalares de Dramin para suportar o cheiro sem vomitar. 

O busílis da questão não é a má qualidade dos candidatos, mas a péssima qualidade dos eleitores — ignorantes que repetem a cada pleito o que Pandora fez uma única vez. 

Polarização política sempre existiu, mas jamais foi tão exacerbada quanto nas duas últimas campanhas presidenciais. Quando PT e PSDB eram a bola da vez, 'mortadelas' e 'coxinhas' se comportavam como adversários. Hoje, bolsonaristas e petistas agem como inimigos figadais. Para piorar, mesmo com o cardápio do segundo turno restrito a X-bosta ou frapê de merda, os eleitores/comensais, cegos como toupeiras, recusam-se a mudar de boteco. 

No último final de semana, o campo bolsonarista ganhou novos contornos com embates internos envolvendo Flávio, Eduardo e Nikolas Ferreira. Por alguma razão incerta e não sabida, a choldra bolsonarista gasta mais tempo e energia falando mal de si mesma do que Lula trombeteando o 'sucesso' de sua terceira gestão. 

Em vídeo postado nas redes, o pré-candidato das rachadinhas, panetones e mansões milionárias pediu "racionalidade" depois que o irmão 'Bananinha' voltou a bater em Nikolas Ferreira abaixo da linha do intelecto e a madrasta tomou o partido do adversário do enteado.

Além de advertir que "todo mundo sai perdendo" nesse tipo de arranca-rabo doméstico e realçar que o "inimigo" está do outro lado, o postulante da biografia rachadinha teve o desplante de receitar um versículo bíblico: "Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou". Num instante em que ele cresce nas pesquisas posando de moderado, os céus parecem avisar aos eleitores que o pior pecado que se pode cometer diante do bolsonarismo boçal é o excesso de moderação.


Leonardo da Vinci concebeu seu "parafuso aéreo" 500 anos antes da construção do primeiro helicóptero, eJúlio Verne escreveu Vinte Mil Léguas Submarinas quase um século antes de o primeiro submarino nuclear ser construído. Isso nos leva a pensar se não assiste razão ao escritor canadense Robin Sharma quando diz que tudo é criado duas vezes — primeiro na mente e depois na realidade —, ou se Pablo Picasso não estava certo quando afirmou que tudo que se consegue imaginar é real. 


A experiência humana atual é bastante limitada quando comparada com o que de fato poderia ser. Às vezes, basta uma mudança de perspectiva para revelar a verdade. Muitas descobertas científicas — como a heliocentricidade, a esfericidade da Terra, a radioatividade, o Universo em expansão e a epigenética — foram consideradas absurdas até serem comprovadas, mas o simples fato de não conseguirmos imaginar como uma coisa poderia ser verdade não significa que não observamos essa coisa sendo verdade. 


Os gregos antigos descobriram que a Terra era redonda milhares de anos antes de Isaac Newton explicar como a gravidade faz com que os oceanos permaneçam no lugar. A Noética ainda está engatinhando no aprendizado de como a consciência não-local funciona, mas suas teorias oferecem respostas para uma série de fenômenos incompreensíveis à luz do entendimento convencional. 


Pode parecer impossível colocar todo o conhecimento do mundo dentro de um recipiente do tamanho de um baralho de cartas, mas essa informação está contida “dentro” de um smartphone. Dizer que o aparelho simplesmente acessa as informações a partir de bancos de dados espalhados mundo afora vai ao encontro do que afirmam os noéticos sobre a consciência não-local. 


Nosso cérebro representa cerca de 2% de nosso peso, embora contenha cerca de 86 bilhões de neurônios que geram trilhões de sinapses. Embora ele consiga armazenar milhões de gigabytes de dados, sua capacidade de acumular informações é tão limitada quanto a de um celular armazenar todas as músicas do mundo. Diante dessa impossibilidade física, talvez o cérebro funcione como uma antena espantosamente avançada, que “escolhe” quais sinais específicos quer receber da nuvem de consciência global que já existe.


Isso parece ficção científica, mas vale lembrar que diversas tradições espirituais — como o Campo Akáshico, a Mente Universal, a Consciência Cósmica e o Reino de Deus, entre outras — defendem a existência de uma consciência universal. A Noética harmoniza com algumas das crenças religiosas mais antigas, mas é sustentada por descobertas em áreas como a física de plasmas, a matemática não-linear e a antropologia da consciência. 


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quinta-feira, 9 de abril de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 93ª PARTE

O DESEJO SINGULARMENTE HUMANO DE SER FAMOSO É NA VERDADE OUTRO TRAÇO SINGULARMENTE HUMANO: O MEDO DA MORTE. SER FAMOSO SIGNIFICA SER LEMBRADO DEPOIS DE MORRER, E A FAMA É UMA ESPÉCIE DE VIDA ETERNA.

Talvez a consciência seja apenas uma ilusão, porém explicar a experiência consciente em si é como tentar ver o próprio olho sem um espelho. A ciência descreve realidades objetivas, só que não garante fidelidade à "realidade lá fora".


Teorias como a da informação Integrada de Tononi propõem medidas matemáticas para correlacionar estruturas cerebrais complexas com níveis de consciência. só que mapear como o cérebro processa visão é uma coisa, e direcionar atenção e elucidar o que é ser consciente é outra.


Dito isso, a questão que se coloca é: como decisões conscientes e intencionais podem surgir de um substrato físico, seja ele determinista ou aleatório?


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Depois que Ratinho Jr desistiu de ser cabeça de chapa do PSD na disputa pela Presidência da República, pouca gente duvidava que Kassab escolheria Ronaldo Caiado em detrimento de Eduardo Leite. Dias atrás, o anúncio oficial encerrou, nas palavras do cacique do PSD, "uma etapa relevante de articulação interna, após a avaliação de diferentes nomes com desempenho consolidado em seus estados”.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o governador gaúcho reclamou que a escolha “mantém um ambiente de polarização radicalizada que tanto limita o Brasil”, e que a definição do partido o decepcionou, embora tenha evitado confrontar diretamente a escolha. 

Herdeiro de uma tradicional oligarquia pecuarista do Centro-Oeste, Caiado é médico de formação, concorreu a presidente em 1989 por outra encarnação do PSD e está em seu segundo mandato à frente do governo de Goiás. Logo após ser anunciado, tratou de apresentar as diretrizes de sua campanha, centradas em anistia “ampla, geral e irrestrita” a Bolsonaro e aos demais golpistas de 8 de janeiro, além de dizer que seu objetivo é governar para que o PT “não seja mais opção no país”. 

O golpismo da direita permanece no centro da disputa eleitoral. Flávio Bolsonaro deu novas demonstrações de fazer o mesmo caminho que o pai presidiário — a quem Caiado defendeu em palanque e prometeu anistia.

Caiado é o candidato, mas sem o apoio total da legenda, e pode ser tudo, menos de ‘centro’. O anúncio de sua candidatura confirma o quanto as várias frentes de direita vêm ocupando espaços de poder, enquanto a esquerda vai se fechando numa bolha que não aponta para o futuro. Talvez seu maior ativo seja a experiência de gestão e os resultados positivos de seus sete anos como governador de Goiás.

Kassab liberou os diretórios, especialmente no Nordeste, para aderirem à reeleição de Lula, mas disse ter feito consultas às bases e concluído que Caiado tinha mais chance de unificar o partido, pois Leite enfrentaria mais resistência na direita, principalmente por sua posição mais crítica em relação ao bolsonarismo. 

No PT, as reações foram mistas. A ministra Gleisi Hoffmann disse que a eleição presidencial deve se manter polarizada, que Caiado tende a ocupar um espaço periférico na disputa, e que o atual cenário político dificulta o avanço de candidaturas fora dos polos consolidados.

A conferir. 


Para ser compatível com o determinismo, o livre-arbítrio precisa ser redefinido como a capacidade de agir segundo nossas próprias razões e desejos, mesmo que esses motivos e desejos sejam determinados..


O universo newtoniano é determinista: conhecendo posições e velocidades de todas as partículas, o futuro é previsível. A mecânica quântica injeta aleatoriedade intrínseca, mas trocá-la por caos não gera liberdade — decisões randômicas são caóticas, não livres. Ela funciona sem ontologia de superposições; pode ser mera descrição operacional eficaz, como as equações de Maxwell capturam relações eletromagnéticas sem "entidades" reais..


Defensores do multiverso postulam infinitos universos com constantes variadas; nós, em um "ajustado", notamos o fine-tuning por viés antrópico. Alternativas sugerem que princípios matemáticos profundos fixam essas constantes, tornando só um universo lógico.


Se o universo requer observadores para "realizar-se" (como na interpretação participativa de Wheeler), e civilizações avançadas simulam realidades indistinguíveis — possivelmente bilhões —, estatisticamente vivemos em simulação, não na base. Mais radical: a consciência co-emerge com o cosmos num bootstrap quântico, onde observadores atualizam a realidade.


Continua...

quarta-feira, 8 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — CONTINUAÇÃO

A HISTÓRIA É UM RIO CUJO CURSO É PERMEADO POR ILHAS DO TEMPO PELAS QUAIS PASSAMOS, MAS PARA AS QUAIS NÃO PODEMOS VOLTAR.  

Desde priscas eras que buscamos respostas — principalmente através da lente da religião — para mistérios como a natureza da consciência e da alma. Porém, a despeito de todo o avanço da ciência, ainda não sabemos o que é a consciência, se ela é criada e hospedada pelo cérebro ou como arranjos específicos de neurônios podem gerar experiências subjetivas, como a sensação do vermelho, o gosto do café ou a dor de uma perda.

Sabemos quais mecanismos cerebrais descrevem sinais elétricos e químicos, mas não por que tais sinais “sentem” algo por dentro. Há quem considere a consciência como uma substância distinta da matéria física, quem dá mais importância à organização funcional do que ao substrato físico, e quem acha que se trata apenas de uma ilusão. 


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Além da demora em se envolver na pré-campanha do enteado Flávio, a madrasta passou a desmontar enredos construídos por Carlos e Eduardo para dramatizar o roteiro em que o pai preso faz o papel de vítima. Três dias depois de o pitbull do clã trombetear nas redes que seu pai "continua enfrentando crises de soluços intermináveis e ininterruptas", Micheque montou seu púlpito no Instagram e deu graças a Deus pela evolução do quadro médico do marido.

Cinco dias antes, ela havia desossado uma patranha de Dudu Bananinha, que gravou um vídeo na CPAC (a conferência conservadora do trumpismo) dizendo que as imagens seriam vistas pelo pai no seu domicílio prisional. Numa postagem, a madrasta esclareceu: ainda que tivesse chegado, a filmagem do enteado não seria exibida ao marido: "Ele está proibido, por força de determinação judicial, de ter acesso a aparelhos celulares", disse ela, num inequívoco aceno a Xandão.

Micheque molha o tailleur para parecer mais útil a Bolsonaro que os filhos dele. Costuma evocar a Bíblia para sustentar que mulheres devem manter uma "submissão saudável" no lar. Já disse que "fazer comidinha gostosa para o marido e cuidar da casa não diminui a mulher."

Numa dinastia patriarcal, deve doer na alma dos varões a percepção de que a madrasta virou uma unha encravada nos pés de barro dos enteados. Cuidadora de mostruário, ela protege Bolsonaro até dos filhos. O eleitor bolsonarista é como que convidado a premiar com uma cadeira no Senado a submissão bíblica da dita-cuja.


A Teoria da Informação Integrada (IIT) sugere que a consciência emerge quando um sistema integra informações de forma específica, e que até sistemas simples podem apresentar níveis minúsculos de consciência. A Redução Objetiva Orquestrada sustenta que a consciência surge de processos quânticos nos microtúbulos neuronais, e que a função de onda aleatórias pode ser “orquestrada” por estruturas cerebrais, resultando em momentos discretos de consciência. Já o Panpsiquismo sustenta que uma propriedade tão fundamental quanto a massa ou a carga elétrica, e que a combina partículas elementares, dando origem a consciências mais elaboradas.


Devido à falta de suporte empírico robusto, os defensores dessas ideias são acusados de flertar com a pseudociência, mesmo porque o cérebro opera em temperaturas e condições que vão na contramão da coerência quântica. Mas o tempo não se comporta na física quântica como Einstein previu na relatividade geral


Embora as equações fundamentais da física sejam simétricas no tempo, a flecha do tempo está associada ao aumento da entropia (medida de desordem de um sistema). Mas as equações não mostram fluxo algum, por que o Universo começou em um estado de baixa entropia? E por que nos lembramos do passado, mas não do futuro?


Na gravidade quântica em loop, não existe um “tempo absoluto” correndo uniformemente, e a relatividade reforça essa ideia ao demonstrar que eventos simultâneos para um observador imóvel não o são para outro em movimento. Mas se não há um agora universal, então o passado, o presente e o futuro são igualmente reais, e nossa percepção de tempo não passa de uma ilusão neurológica bem convincente.


No mais famoso dos paradoxos quânticos, um gato em uma caixa permanece vivo e morto ao mesmo tempo até alguém verificar o estado de um átomo radioativo. Segundo a interpretação de Copenhague, a observação colapsa a superposição, mas não define o que conta como observação nem onde fica a fronteira que separa o mundo quântico do clássico.


O princípio da Decoerência preenche essa lacuna afirmando que o ambiente “mede” o sistema o tempo todo e destrói superposições macroscópicas quase instantaneamente, e a teoria dos Muitos Mundos, que o Universo se divide em duas realidades — numa, o gato vive; na outra, ele morre. 


A questão que se coloca é: será que o próprio gato não é capaz de observar a si mesmo e colapsar sua própria função de onda?


Continua...