TALVEZ A FÍSICA NÃO PERMITA MUDAR O PASSADO, MAS PODE DEIXAR QUE ELE ESCUTE O FUTURO.
A evolução tecnológica não raro transforma em ciência o que era visto como magia, e a ficção científica de hoje pode ser realidade amanhã. Algumas ideias parecem ter saído diretamente de um roteiro de cinema, — e às vezes saíram mesmo. É caso do envio de mensagens para o passado, que cheira a ficção, mas na verdade é um truque da física.
No clímax do filme Interestelar, um pai preso em uma região bizarra do espaço-tempo encontra uma maneira de se comunicar com a filha no passado. A cena é dramática, emocionante, e, como toda boa ficção científica, levanta uma pergunta incômoda: E se isso não for completamente absurdo?
Pois foi exatamente essa provocação que levou físicos a explorarem um conceito conhecido como curvas fechadas do tipo tempo (ou CTCs, de Closed Timelike Curve). Trata-se de caminhos teóricos no espaço-tempo, previstos pela Relatividade Geral de Einstein, onde uma trajetória "fechada" permite que um objeto retorne ao próprio passado, desafiando a causalidade linear e possibilitando viajar no tempo.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Iniciada a Copa do Mundo, os políticos precisarão dar tratos às cacholas para manter acesa a chama de uma campanha eleitoral cuja antecipação não mobiliza a maioria da população. Desinteresse que tende a se aprofundar durante as próximas semanas. O torneio termina em 19 de julho, véspera do início das convenções partidárias que até o dia 5 de agosto deverão ter definidas as respectivas candidaturas majoritárias e proporcionais.
Candidatos a presidente, governador, senador e deputado vão procurar preencher o tempo, ocupar espaço, disputar o noticiário e certamente o farão usando referências e alusões ao futebol, por mais forçadas e artificiais que elas pareçam aos torcedores. E se voltar à cena — como certamente voltará — um tema recorrente desde 1994, quando as nossas eleições presidenciais passaram a coincidir com a Copa, descobriremos se o desempenho da seleção brasileira no campeonato tem reflexo no resultado da eleição. O histórico desses 32 anos diz que não.
A literatura da ciência política registra esse tipo de conexão em regimes autoritários. Vimos por aqui a ligação do ditador Emílio Garrastazu Médici com a euforia da conquista do tri em 1970, mas na época das trevas não havia eleição. O tetra veio no mesmo ano de 1994 em que FHC, candidato do governo Itamar Franco, ganhou no primeiro turno, mas o mérito foi do Plano Real. Quatro anos depois, o grão-tucano repetiu o feito, tendo o Brasil perdido a final para a França.
Conquistado o penta em 2002, o governo não fez o sucessor e perdeu para o petista Lula, que foi reeleito em 2006, com a seleção sendo derrotada nas quartas de final. Em 2010, nova eliminação brasileira na mesma fase e Lula elege Dilma Rousseff — que se reelege a despeito do vexame do 7 a 1 em 2014 na Copa em casa.
Em 2018, o país de novo caiu nas quartas, o governo Temer não estava na disputa e em 2022 o Mundial do Qatar ocorreu no fim do ano, depois da eleição de Lula em outubro.
A despeito do demonstrado, o tema voltará a ser demandado.
Vale destacar que construir algo assim exigiria condições físicas totalmente fora do nosso alcance — energia absurda, estruturas exóticas e outras coisas que hoje pertencem mais à matemática do que à engenharia. Mas aí entra a física quântica para bagunçar o coreto.
Em vez de tentar viajar no tempo, alguns pesquisadores decidiram simular o comportamento de sistemas que viajariam no tempo. Em 2010, um grupo liderado por Seth Lloyd, do MIT, usou fótons emaranhados para reproduzir, em laboratório, uma versão minúscula de um “loop temporal”. Não havia ninguém mandando mensagem para o passado, mas havia matemática suficiente para sustentar a seguinte pergunta: "se isso fosse possível, o que teria acontecido com a informação?
A resposta é o tipo de coisa que faz a física parecer quase zombar da nossa intuição: mesmo em um cenário com ruído — como uma ligação cheia de interferência — a mensagem ainda chegaria ao destino, e de maneira mais eficiente do que se fosse enviada para frente no tempo.
A ideia é sutil e perturbadora: se uma mensagem volta no tempo, ela precisa ser consistente com o passado que já aconteceu, sob pena de criar um paradoxo — e paradoxos são personae non gratae nas equações. Assim, o sistema “seleciona” apenas as versões da mensagem que não geram contradições — o erro, por assim dizer, é descartado, não porque alguém o corrigiu, mas porque ele simplesmente não pode existir. Em outras palavras: a própria estrutura do tempo (ou da simulação dele) age como um filtro de ruído.
Isso não significa que estejamos prestes a enviar e-mails para 1998, mas pode significar algo talvez mais interessante: as mesmas ideias podem ser usadas para melhorar sistemas reais de comunicação e tornar redes mais eficientes e as transmissões mais confiáveis, com menos perda de informação.
A viagem no tempo continua sendo o fruto mais cobiçado — e ainda não colhido — da árvore da relatividade, mas fingir que ela é viável pode acabar sendo útil. A ironia deliciosa de tudo isso é que, ao tentarmos dobrar o tempo, acabamos aprendendo a melhorar o Wi-Fi.
No fim das contas, talvez a física não esteja tentando nos dar controle sobre o passado, mas apenas nos lembrando de algo mais desconfortável: que o tempo, assim como a informação, não é tão linear quanto se costuma acreditar.
Resumo da ópera: se você porventura receber uma mensagem perfeita demais, talvez ela tenha sobrevivido aos paradoxos do futuro antes de ser enviada a você.





.jpg)