sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A VERDADE (AINDA) ESTÁ LÁ FORA

SE NÃO EXISTE VIDA FORA DA TERRA, ENTÃO O UNIVERSO É UM GRANDE DESPERDÍCIO DE ESPAÇO.

Há frases que envelhecem mal. Outras parecem ficar cada vez mais interessantes com o passar do tempo. Esta segunda categoria talvez se aplique à velha provocação segundo a qual, se estivermos sozinhos no Universo, todo esse espaço sideral terá sido um monumental desperdício de matéria-prima. Mas será que estamos mesmo sozinhos? Eu não tenho a resposta, e se alguém disser que tem, desconfie.


O assunto voltou a ganhar combustível — e não foi pouco — depois que o governo dos Estados Unidos liberou, em 12 de junho deste ano, uma terceira leva de documentos relacionados aos chamados UFOs, OVNIs ou UAPs. Foram 72 arquivos provenientes do FBI, da CIA e do Pentágono, contendo depoimentos, vídeos, fotografias e representações artísticas de fenômenos observados principalmente no nordeste dos Estados Unidos. Os dois primeiros lotes haviam sido divulgados em 8 e 22 de maio, e os relatos são daqueles que parecem ter saído diretamente de um roteiro de ficção científica.


Um dos documentos descreve um episódio ocorrido em julho de 2025. Uma testemunha afirmou ter encontrado, no quintal de casa, uma esfera vermelha extraordinariamente brilhante, pairando a poucos metros do solo. O objeto teria aproximadamente um metro de diâmetro e, em seu centro, havia algo que a testemunha comparou a um “sol de plasma” branco do tamanho de uma bola de basquete. 


A testemunha e seu cônjuge teriam observado a esfera subir lentamente e deslocar-se para o lado. Em seguida, perceberam uma segunda esfera semelhante pairando acima da primeira. Outros relatos da mesma região mencionaram posteriormente várias esferas brancas em altitudes maiores.


Outro caso, registrado em outubro de 2024, descreve uma fonte luminosa aparentemente pairando sobre um lago ou lagoa. Segundo o relato, a luz lembrava uma “esfera semelhante a plasma”, mudava intermitentemente de forma e intensidade e, em determinados momentos, parecia dividir-se em pontos luminosos menores. 


O detalhe mais interessante é que esse episódio foi registrado em vídeo por um cidadão usando um iPhone. O governo americano informa que a gravação foi analisada e autenticada, embora tenha sido cortada para preservar a privacidade do autor. O FBI classificou como altamente crível a pessoa que relatou o episódio.


Por outro lado, o fato de uma testemunha ser considerada confiável não significa que sua interpretação do fenômeno esteja correta. Uma pessoa pode ter visto exatamente aquilo que descreveu e, ainda assim, não saber o que estava vendo. É justamente por isso que o governo americano prefere atualmente a expressão UAP — Unidentified Anomalous Phenomena, ou fenômenos anômalos não identificados. 


O termo é deliberadamente mais amplo que UFO ou OVNI: não pressupõe sequer que aquilo observado seja um “objeto” propriamente dito, muito menos que seja uma aeronave. E “não identificado” é uma expressão muito mais modesta do que parece. Significa, simplesmente, que os dados disponíveis não foram suficientes para determinar o que foi observado. Não significa alienígena, nave espacial, tecnologia extraterrestre, ou que o fenômeno seja impossível de explicar. 


Pode ser um balão, um drone, uma aeronave convencional, um satélite, um fenômeno atmosférico, um reflexo, um artefato de câmera, uma ilusão de perspectiva ou simplesmente um erro de percepção. Pode também ser alguma coisa que ainda não conseguimos identificar. A diferença entre essas possibilidades é justamente o que torna o assunto interessante.


Nos primeiros lotes liberados pelo governo americano, diversos episódios receberam explicações convencionais ou foram considerados compatíveis com fenômenos já conhecidos. Outros permaneceram sem uma conclusão definitiva. E isso, embora possa frustrar tanto os ufólogos quanto os céticos militantes, é exatamente o que se espera de uma investigação séria: quando os dados não permitem uma conclusão, a conclusão é que não há dados suficientes para concluir. 


Parece óbvio, mas experimente dizer isso numa discussão sobre OVNIs e veja quanto tempo leva para alguém lhe explicar que você está “negando as evidências” — ou, dependendo do interlocutor, “acreditando em homenzinhos verdes”. Entre uma interpretação e outra, permanece uma constatação bastante curiosa: o céu continua produzindo acontecimentos que, pelo menos inicialmente, desafiam nossa capacidade de identificá-los, e o governo americano já não trata o assunto apenas como folclore. 


Nos últimos anos, audiências no Congresso, a criação de estruturas específicas para investigar UAPs e a divulgação periódica de documentos transformaram o tema em uma questão institucional. O assunto envolve segurança aérea, defesa, inteligência, tecnologia e, inevitavelmente, a eterna pergunta que desperta a imaginação humana desde que olhamos para as estrelas: e se não estivermos sozinhos? 


Não são apenas os americanos que andam olhando para o céu. Por aqui, a história também é bastante interessante. Aliás, o Brasil possui um arquivo público de relatos de fenômenos aéreos não identificados, e os registros não se limitam a histórias antigas de discos voadores vistos por agricultores no meio da noite. 


Há relatos envolvendo pilotos, controladores de tráfego aéreo e outras pessoas ligadas à aviação, inclusive em anos recentes.A Força Aérea Brasileira mantém há décadas registros de ocorrências envolvendo objetos voadores não identificados. E existe, inclusive, uma norma específica para isso. 


A Portaria nº 551/GC3, de 9 de agosto de 2010, determina que as atividades do Comando da Aeronáutica relacionadas aos OVNIs se restrinjam ao registro das ocorrências e ao encaminhamento da documentação ao Arquivo Nacional. Os relatos recebidos são registrados e catalogados, seguindo posteriormente o trâmite estabelecido pela própria Aeronáutica.


Entre os casos registrados em 2025 aparecem relatos de pontos luminosos observados por profissionais da aviação, inclusive na região de Londrina, no Paraná. Em um dos episódios, um operador da torre teria registrado imagens dos objetos, embora o vídeo não esteja disponível junto à documentação consultada. Outro relato, de 1º de setembro de 2025, em Guarulhos, descreve três — ou possivelmente dois — pontos luminosos com luzes brancas, vermelhas e amarelas realizando movimentos aparentemente irregulares.


Nada disso prova que alguém tenha avistado uma nave extraterrestre. Mas também não há motivo para, pura e simplesmente, arquivar esses relatos no gavetão das bobagens e teorias da conspiração. A aviação moderna é justamente um dos ambientes nos quais um fenômeno aéreo desconhecido merece ser registrado. Pilotos e controladores trabalham com radares, instrumentos, procedimentos e comunicação permanente. Se alguma coisa incomum aparece no céu, o registro da ocorrência é muito mais útil do que simplesmente dizer: “Vi uma coisa estranha ontem.”


E há um detalhe delicioso nessa história: o céu brasileiro continua produzindo relatos enquanto nós continuamos tentando descobrir o que, afinal, as pessoas estão vendo. Em julho deste ano, por exemplo, um piloto de uma aeronave particular que fazia a rota entre São Paulo e Maringá entrou em contato com o Controle de Aproximação de Londrina depois de observar duas luzes muito intensas e de movimento rápido. O episódio foi registrado na comunicação entre a aeronave e o controle de tráfego aéreo e posteriormente divulgado. O piloto chegou a descrever o fenômeno como “sobrenatural”. E para um piloto, que provavelmente já viu muita coisa no céu, essa não é exatamente uma palavra que passe despercebida.


Mas, novamente, sobrenatural é a descrição de uma sensação, não uma conclusão científica. E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro mistério dos OVNIs. Não na pergunta simplista “são extraterrestres ou não?”, mas em uma questão muito mais interessante: quantas coisas nós realmente conseguimos identificar quando olhamos para o céu? Porque o Universo é enorme, e a nossa capacidade de observá-lo, apesar de telescópios, radares, satélites, câmeras e sensores cada vez mais sofisticados é limitada.


Aquilo que chamamos de “não identificado” pode significar muitas coisas diferentes. Pode ser algo perfeitamente terrestre que ainda não reconhecemos. Pode ser um fenômeno natural que ainda não compreendemos. Pode ser uma tecnologia humana desconhecida Pode ser simplesmente um engano, mas também pode ser algo que veio de muito mais longe. Só que, antes de saltarmos para essa última hipótese, existe uma pergunta que precisamos responder: o que seria necessário observar para podermos afirmar, de maneira cientificamente convincente, que um UAP é realmente extraterrestre?


É justamente aí que a história começa a ficar muito mais interessante.


Continua…

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

ATALHOS DE TECLADO

A RETA É O CAMINHO MAIS CURTO ENTRE DOIS PONTOS.

Depois que Steve Jobs revolucionou a telefonia celular com o lançamento do iPhone, a concorrência se viu forçada a promover seus dumbphones a smartphones.


Mais adiante, os telefoninhos inteligentes se tornaram verdadeiros computadores ultraportáteis, e hoje a maioria dos usuários só recorre a um PC de mesa ou portátil quando precisa de tela grande, teclado físico e mais poder de processamento do que os pequenos notáveis são capazes de oferecer.


Cerca de 70% dos smartphones usam atualmente o sistema Android, lançado pelo Google em 2008, enquanto 30% rodam o iOS — sistema proprietário desenvolvido pela Apple para seus iPhones (segundo dados do StatCounter referentes a junho de 2026).


A Microsoft perdeu o bonde da história ao não conseguir transformar o Windows Mobile numa alternativa capaz de enfrentar o Android e o iOS. Embora tivesse experiência no segmento móvel muito antes do iPhone, sua estratégia não acompanhou a velocidade da transformação provocada pelos smartphones de tela sensível ao toque, e seu sistema móvel, lançado em novembro de 2015, foi a derradeira tentativa de estabelecer uma plataforma móvel competitiva.


Em um mea-culpa pela falta de visão, Bill Gates disse em 2020 que “ALGUMA FALHA DA MINHA PARTE QUE FEZ A MICROSOFT NÃO SER O QUE O ANDROID É HOJE”.


O Windows Mobile não era um sistema ruim, mas tampouco era bom o bastante para fazer frente aos concorrentes. E havia um problema particularmente cruel: devido ao número reduzido de usuários, poucos desenvolvedores se interessavam em criar aplicativos para o sistema; e sem aplicativos ficava difícil conquistar novos usuários. É o velho círculo vicioso das plataformas.


Em setembro de 2013, Microsoft e Nokia anunciaram o acordo pelo qual a primeira compraria praticamente toda a divisão de dispositivos e serviços da segunda. A operação foi concluída em abril de 2014, quando o Windows Phone ainda ocupava uma posição relevante entre os sistemas móveis, mas não era o segundo colocado mundial — os dados citados pela própria Microsoft o colocavam em terceiro lugar, atrás de Android e iOS. Mas esse “casamento” não produziu os frutos esperados. 


A Microsoft chegou a lançar uma variedade considerável de aparelhos Lumia, e fabricantes como HP, Acer e Lenovo apostaram na plataforma, mas o ecossistema nunca alcançou a escala necessária para enfrentar os dois gigantes já estabelecidos. Em outubro de 2017, Joe Belfiore, então executivo da Microsoft, confirmou que novos recursos e hardware para o Windows 10 Mobile deixariam de ser prioridade, citando justamente a baixa participação de mercado e a consequente falta de aplicativos de terceiros.


Assim, o sistema móvel da Microsoft acabou entrando para a história da informática como uma daquelas boas ideias que chegaram tarde demais à festa. A última versão, 1709, foi lançada em outubro de 2017, e o suporte oficial terminou em dezembro de 2019. Mas diz um velho ditado que não se pode ganhar todas, e que o bom general escolhe suas batalhas e reconhece a hora de recuar, para estar vivo no próximo embate.


Passando ao mote desta postagem, o Windows continua liderando com folga o mercado mundial de sistemas operacionais para computadores pessoais, bem à frente do macOS da Apple, que,, ocupa o segundo lugar, e anos-luz adiante de sistemas como o Linux e o ChromeOS, que dividem o restante do mercado.


Por outro lado, causa espécie o fato de um sem-número de usuários — notadamente os mais jovens — digitar com desenvoltura nos acanhados teclados virtuais dos celulares e se atrapalhar com o teclado físico de um notebook ou desktop. 


Um estudo publicado em 2019 por pesquisadores da ETH Zürich, da Universidade de Cambridge e da Universidade de Aalto analisou mais de 37 mil usuários e descobriu que os jovens de 10 a 19 anos digitavam no celular cerca de 10 palavras por minuto mais rápido que a geração dos pais. Usando os dois polegares, a média chegou a aproximadamente 38 palavras por minuto — apenas cerca de 25% abaixo da velocidade observada em teclados físicos.


Um estudo de 2022 também chamou atenção para a forma como as novas gerações desenvolvem sua proficiência em digitação. Atualmente, boa parte dessa habilidade não vem mais de cursos formais de datilografia, mas da prática espontânea e prolongada. E há uma ironia deliciosa nisso: a geração chamada de “nativos digitais” pode ser extremamente competente em determinadas tecnologias digitais, mas completamente inepta em outras que nós, veteranos da informática, consideramos elementares. 


Digitar rápido não significa dominar o computador. A molecada pode ter desenvolvido enorme competência em entrada de texto por touchscreen, mas carece das habilidades associadas ao ambiente de trabalho do computador tradicional: combinações de teclas, atalhos, navegação pelo texto com o teclado, uso de Shift, Ctrl, Alt etc., gerenciamento de arquivos e outras operações que não possuem equivalente intuitivo no celular. Alguns não sabem sequer copiar e colar utilizando os atalhos mais famosos da história da informática: Ctrl+C e Ctrl+V.


Concluída essa (não tão) breve introdução, relaciono a seguir sete atalhos para as edições 10 e 11 do Windows que podem mudar seu dia a dia sem exigir a instalação de programas de terceiros:


— Win+H ativa a digitação por voz do Windows. Em um campo de texto compatível, basta pressionar as duas teclas para abrir a ferramenta de ditado e começar a falar. É especialmente útil para e-mails, mensagens e rascunhos rápidos.


— Win+PrtScn captura a tela inteira e salva automaticamente a imagem na pasta Imagens > Capturas de Tela, em vez de simplesmente colocá-la na área de transferência. Assim, não é preciso pressionar PrtScn, abrir o Paint, colar a captura e só então salvá-la.


— Win+Shift+S abre a ferramenta de captura do Windows. A tela escurece e você pode selecionar a área desejada, inclusive em formato retangular, livre ou de janela, conforme a versão do sistema. O resultado é copiado automaticamente para a área de transferência.


— Win+ponto (.) abre o painel de emojis, GIFs e símbolos. É daqueles atalhos que parecem bobagem até o dia em que você precisa de um símbolo que não está à mão — e descobre que ele estava escondido atrás de duas teclas.


— Win+Ctrl+D cria uma nova área de trabalho virtual. Você pode alternar entre elas com Win+Ctrl+seta para a esquerda/direita e fechar a área de trabalho atual com Win+Ctrl+F4. É uma maneira bastante prática de separar, por exemplo, trabalho, navegação e vida pessoal sem ficar empilhando janelas umas sobre as outras.


— Win+Ctrl+Q abre a Assistência Rápida, recurso nativo do Windows que permite ajudar outra pessoa — ou receber ajuda — por meio de uma conexão remota. Naturalmente, isso não significa que você deva entregar o controle do computador ao primeiro desconhecido que aparece afirmando ser técnico da Microsoft: use o recurso apenas com pessoas em quem você confia.


— Win+D mostra imediatamente a área de trabalho, minimizando as janelas abertas. Pressione novamente e elas reaparecem exatamente como estavam. É provavelmente um dos atalhos mais simples e úteis do sistema da Microsoft. 


Há ainda um daqueles atalhos que fazem você se perguntar como conseguiu viver sem ele: Win+seta para a esquerda/direita encaixa a janela ativa em uma das metades da tela e o próprio sistema sugere outras janelas para ocupar o espaço restante. É particularmente útil quando se precisa consultar um documento enquanto se trabalha em outro, por exemplo.


A moral da história é simples: quem conhece meia dúzia de atalhos não precisa necessariamente ser um expert do teclado. Basta saber onde apertar. Até porque, no mundo dos computadores, às vezes duas teclas bem escolhidas fazem um caminho muito mais curto do que uma dúzia de cliques.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A FÍSICA É TEÓRICA, MAS A DIVERSÃO É REAL.

Se a história da luz nos ensina alguma coisa, é que a ciência não avança necessariamente em linha reta. Algumas ideias desaparecem, outras sobrevivem, algumas são abandonadas e depois ressuscitam sob uma forma completamente diferente.


Talvez a Teoria das Cordas — que vem sendo considerada desde a década de 1970 uma das candidatas mais ambiciosas a uma Teoria de Tudo, capaz de descrever sob um mesmo arcabouço as partículas fundamentais e as forças da natureza, incluindo a gravidade — esteja vivendo justamente um desses momentos de espera. Até porque já se passaram mais de cinquenta anos, e o tão sonhado casamento entre a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica ainda não aconteceu.


A dificuldade não está apenas na matemática, mas na possibilidade de verificar experimentalmente aquilo que a matemática prevê. A Teoria das Cordas propõe que as partículas fundamentais não sejam objetos pontuais, mas minúsculas cordas vibrantes que, dependendo da maneira como vibram, se manifestam como partículas diferentes. E entre seus estados de vibração surge algo que se comporta como o gráviton — a hipotética partícula mediadora da gravidade quântica. Ou seja: a gravidade aparece naturalmente dentro da estrutura da teoria. Só que há um pequeno inconveniente.


As escalas envolvidas são tão diminutas e as energias necessárias tão elevadas que testar diretamente as previsões mais fundamentais da teoria está além das possibilidades experimentais atuais. E as dimensões extras constituem outro problema: nas formulações mais conhecidas, o Universo precisa de dez ou onze dimensões, mas as dimensões adicionais estariam compactificadas em escalas extraordinariamente pequenas. Consequentemente, não conseguimos enxergá-las, medir sua geometria ou passear por elas. Pelo menos por enquanto.


Ainda assim, seria injusto concluir que a Teoria das Cordas não produziu nada de importante simplesmente porque ainda não sabemos se ela descreve literalmente o nosso Universo. Uma das maiores contribuições de seu desenvolvimento foi justamente revelar conexões inesperadas entre áreas da matemática e da física que pareciam não ter relação alguma. O físico Edward Witten, um dos mais conceituados nomes da área, mostrou como a teoria poderia estabelecer pontes entre diferentes formulações matemáticas e físicas. Dessa evolução surgiu, entre outras coisas, a Teoria M, que reúne diferentes versões das supercordas sob uma estrutura mais abrangente.


E há ainda uma conexão particularmente fascinante: em 1997, o físico argentino Juan Maldacena propôs a chamada correspondência AdS/CFT — uma relação profunda entre uma teoria gravitacional definida em determinado espaço e uma teoria quântica sem gravidade formulada em uma dimensão menor. Em termos simplificados, uma descrição que contém gravidade pode ser equivalente a outra que não contém gravidade. Parece absurdo, mas é justamente por isso que é fascinante.


A correspondência AdS/CFT não transformou a Teoria das Cordas numa teoria experimentalmente comprovada, mas numa ferramenta extremamente poderosa para investigar problemas de gravidade quântica, buracos negros e teoria quântica de campos. Ou seja: mesmo uma teoria cuja relação com a realidade ainda não foi demonstrada pode produzir matemática e ferramentas capazes de iluminar problemas reais da física. E talvez seja essa a parte mais interessante da história.


A ciência não é apenas uma coleção de respostas confirmadas. Ela também é uma coleção de perguntas bem formuladas, hipóteses ousadas e caminhos que, às vezes, levam a lugares que ninguém imaginava encontrar. A Teoria das Cordas pode um dia receber a confirmação experimental que seus defensores esperam, mas também pode ser abandonada por uma teoria mais abrangente ou ainda se revelar parcialmente correta, como aconteceu tantas vezes na história da física: O fato é que não sabemos, e talvez seja justamente isso que torna a história tão interessante.


No fundo, a Teoria das Cordas não está apenas tentando descobrir do que o Universo é feito. Ela está tentando descobrir qual é a arquitetura da própria realidade. Se um dia conseguirmos testar suas previsões, talvez descubramos que o espaço possui dimensões que jamais percebemos, que a gravidade tem uma estrutura quântica e que aquilo que chamamos de partículas são apenas diferentes manifestações de uma mesma realidade fundamental. Se não conseguirmos… bem, a ciência terá aprendido alguma coisa igualmente valiosa: que a natureza não é obrigada a obedecer às nossas melhores ideias.


Como dizia uma antiga frase estampada numa camiseta: "A física é teórica, mas a diversão é real.” Talvez a Teoria das Cordas não seja a Teoria de Tudo, mas apenas uma ponte, e algumas das maiores descobertas da ciência começaram exatamente assim: alguém construiu uma ponte antes mesmo de saber aonde o outro lado levaria.


E nós, naturalmente, continuaremos atravessando.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 123ª PARTE

O TEMPO É A SUBSTÂNCIA DA QUAL SOMOS FEITOS: UM RIO QUE NOS ARREBATA… MAS NÓS SOMOS O RIO.

Viagens no tempo, universos paralelos e dimensões extras fazem parte do imaginário de quem tenta compreender os limites do espaço e do tempo. Para alguns físicos, não se trata apenas de temas de ficção científica, e sim de consequências possíveis de teorias matemáticas que tentam descrever a natureza em suas escalas mais fundamentais.


Um desses pesquisadores é o iraniano Cumrun Vafa, professor da Universidade Harvard e um dos nomes mais influentes da Teoria das Cordas. Seu trabalho está ligado a uma das maiores ambições da física contemporânea: encontrar uma estrutura capaz de conciliar a mecânica quântica — que descreve o mundo das partículas — com a Relatividade Geral de Einstein, extraordinariamente bem-sucedida na descrição da gravidade, das estrelas, dos planetas e da estrutura do cosmos.


O problema é que, para funcionar, a Teoria das Cordas exige uma realidade muito mais complexa do que aquela que nossos sentidos conseguem perceber. Dependendo da formulação, o Universo teria dez ou onze dimensões, embora as adicionais permaneçam compactificadas em escalas inimaginavelmente pequenas, inviabilizando sua medição com os recursos de que dispomos atualmente. Isso sem falar que não temos qualquer evidência experimental direta de sua existência.


E aqui surge uma questão que acompanha a ciência desde seus primórdios: até onde podemos confiar numa teoria que ainda não conseguimos testar? Segundo Vafa, compreender a física não significa necessariamente mergulhar em um oceano de equações. Muitas ideias aparentemente complicadas podem ser apresentadas por meio de exemplos simples, desde que consigamos enxergar o princípio escondido por trás deles.


Um dos episódios mais famosos da história da ciência envolve Galileu Galilei. Reza a lenda que ele teria deixado cair objetos de massas diferentes do alto da Torre de Pisa para demonstrar que, desprezando a resistência do ar, a velocidade de queda não depende da massa do corpo. A história provavelmente foi embelezada ao longo do tempo e não há evidência sólida de que o polímata italiano tenha realizado exatamente esse experimento na torre. Mas sabemos que ele estudou cuidadosamente a queda dos corpos e chegou a conclusões que contrariavam a física aristotélica. 


A ideia fundamental, entretanto, permanece extraordinária: um fenômeno aparentemente simples pode esconder uma verdade profundamente contraintuitiva. É mais ou menos isso que acontece quando tentamos falar sobre dimensões extras, universos paralelos ou uma possível teoria que una toda a física. Não precisamos necessariamente começar pelas equações. Podemos começar pela pergunta, e talvez a pergunta mais importante seja justamente esta: e se aquilo que chamamos de realidade for apenas uma parte muito pequena daquilo que existe?


A Teoria das Cordas parte de uma hipótese tão simples quanto ousada: as partículas fundamentais não seriam pontos sem dimensão, mas diminutas cordas que vibram de diferentes maneiras. Cada padrão de vibração corresponderia a uma partícula diferente — uma espécie de sinfonia cósmica na qual elétrons, quarks e outras partículas seriam notas produzidas por um mesmo instrumento fundamental.


A premissa é matematicamente elegante, mas a natureza não premia a elegância. Para que ela seja levada a sério como descrição física do Universo, é preciso encontrar alguma maneira de confrontá-la com a realidade. E é justamente aí que começa o problema. 


As dimensões adicionais previstas por suas formulações mais conhecidas seriam tão pequenas e compactas que não conseguimos observá-las diretamente. Ademais, a energia necessária para testar muitos de seus efeitos estariam além da capacidade dos aceleradores de partículas atuais.


A teoria também prevê naturalmente um candidato a mediador quântico da gravidade: o gráviton. Mas nenhuma experiência conseguiu detectar essa partícula, e estruturas associadas à supersimetria, embora fundamentais em muitas formulações das supercordas, também permanecem sem confirmação experimental.


Isso não significa que a Teoria das Cordas esteja errada, apenas que, até agora, a matemática chegou mais longe do que o laboratório. E a história da ciência mostra que isso nem sempre é motivo para abandonar uma ideia. A própria natureza da luz oferece um exemplo magnífico de como a ciência pode avançar aos tropeços, mudar de direção e, décadas depois, descobrir que ideias aparentemente incompatíveis continham pedaços da verdade.


Newton defendia uma concepção corpuscular da luz, enquanto Christian Huygens sustentava que ela tinha natureza ondulatória. As duas interpretações disputaram espaço até o início do século XIX, quando os experimentos de Thomas Young e os trabalhos de Augustin-Jean Fresnel forneceram evidências extraordinárias em favor da natureza ondulatória. 


Parecia que a questão estava resolvida, mas em 1915 Einstein explicou o efeito fotoelétrico, mostrando que a luz também podia ser descrita em termos de quanta de energia (mais tarde, esses quanta seriam chamados de fótons, mas a luz não precisou escolher entre ser onda ou partícula). Hoje sabemos que a luz apresenta aquilo que chamamos de dualidade onda-partícula. A antiga disputa entre duas explicações aparentemente incompatíveis acabou dando lugar a uma descrição quântica muito mais estranha — e muito mais profunda.


Uma das maiores lições da história da física ensina que uma teoria pode perder espaço, parecer ultrapassada e, ainda assim, preservar uma parte da verdade que será recuperada quando o conhecimento avançar. É por isso que a ausência de confirmação experimental da Teoria das Cordas não encerra necessariamente a história. Pode ser apenas o intervalo entre uma pergunta e o experimento capaz de respondê-la; afinal, a matemática pode apontar para lugares onde os instrumentos ainda não conseguem chegar.


E talvez seja justamente aí que comece a próxima etapa da nossa viagem.


Continua…

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

PRIMEIRA LUA ENCONTRADA FORA DE NOSSO SISTEMA SOLAR?

O UNIVERSO NÃO TEM OBRIGAÇÃO DE FAZER SENTIDO PARA NÓ

O Universo não nos deve respostas fáceis. Ele existe do jeito que existe, quer a gente entenda, quer não. Mas é justamente isso que torna a ciência e a exploração tão emocionantes. Às vezes, esperamos que tudo se encaixe naquilo que já conhecemos, mas não é assim que a banda toca. A ciência consiste justamente em fazer perguntas e descobrir coisas novas, mesmo quando as respostas parecem estranhas ou inesperadas.

Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, um grupo internacional de cientistas liderado por Kevin Hoy, da Universidade Diego Portales e do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile, apresentou evidências de um corpo celeste que pode ser o primeiro exosatélite já detectado fora do Sistema Solar. No entanto, ele não se parece nem um pouco com a nossa Lua, de modo que talvez nem seja correto chamá-lo de “lua”.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Renata Lo Prete tentou uma, duas, três vezes, mas não conseguiu arrancar de Flávio Bolsonaro uma resposta categórica sobre o papel que o pai teria num eventual governo do filho, de modo que o brasileiro ficou autorizado a suspeitar que o candidato foi mandado às urnas como segundo escalão da família Bolsonaro.

Num hipotético governo de Flávio, o verdadeiro chefe de Estado será Jair.

"Se vencer a eleição, seu pai terá cargo no governo?", indagou Lo Prete. A jornalista foi específica: "Qual?" Flávio passou a falar da condenação do pai. Chamou o julgamento de "farsa". E classificou como "golpe da Disney" a trama que levou à prisão de Bolsonaro.

A entrevistadora tentou novamente: "Se o senhor vencer a eleição, seu pai vai ter cargo no governo?". Flávio grudou os olhos na câmera: "Meu pai vai ser você, vai ser o povo brasileiro. É pra você que eu vou trabalhar". O candidato esticou o blá-blá-blá: "Tenho o privilégio de, a hora que eu precisar consultar um ex-presidente da República, tenho um dentro de casa, de confiança. Sou privilegiado por isso, mas nunca tratou de cargo comigo."Lo Prete não se deu por vencida: "Mas o senhor cogita nomear? Daria um cargo para o seu pai no governo?". Pela terceira vez, Flávio Bolsonaro desconversou: "Ele nunca tratou disso comigo. Não está no radar". Numa campanha eleitoral, nunca é uma palavra perigosa. Os candidatos deveriam sempre se lembrar de nunca usá-la.

O filho de Bolsonaro é candidato não a presidente, mas a marionete. Como ventríloquo, seu pai desfruta de privilégios eleitorais que seriam inacessíveis a um preso inelegível — com uma vantagem que nenhum candidato à reeleição jamais teve: a de participar da campanha como sujeito oculto. A presença em sabatinas e debates seria um rebaixamento para o capitão.

Uma eventual presidência de Flávio não proporcionaria ao Brasil a experiência de ser presidido por um Bolsonaro hipoteticamente moderado. Na prática, seria como se Jair Bolsonaro obtivesse um segundo mandato. Seria um rei sem trono. O mito viraria folclore. Nem precisaria de cargos para exercer seu poder presumido.


O que os cientistas encontraram, usando o Very Large Telescope (VLT), do ESO, foi um objeto com massa próxima à de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar. Esse objeto parece estar orbitando uma anã marrom, um corpo celeste cuja massa fica entre a de planetas gigantes e a das estrelas. A anã marrom, por sua vez, orbita uma estrela anã vermelha, de modo que temos uma espécie de sistema cósmico em três níveis: uma estrela, uma anã marrom orbitando essa estrela e um objeto de massa planetária orbitando a anã marrom.

Como uma anã marrom não é nem uma estrela propriamente dita nem um planeta, Hoy e seus colegas preferem o termo mais abrangente “exosatélite” — "exolua” seria uma designação mais específica, normalmente associada a um satélite que orbita um exoplaneta, e como o próprio artigo da Nature ressalta, ainda não existe uma definição formal e universalmente aceita para “exolua”.

Independentemente do nome que acabará prevalecendo, o estudo representa um passo importante: pela primeira vez, a técnica de velocidade radial produziu evidências convincentes de um satélite orbitando uma anã marrom. Isso é particularmente interessante porque, apesar de já termos descoberto mais de 6.000 exoplanetas, nenhuma lua orbitando um exoplaneta foi confirmada de maneira incontestável. Há candidatos, mas eles continuam controversos.

Para procurar o exosatélite, a equipe utilizou a mesma técnica de velocidade radial empregada na descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela semelhante ao Sol, em 1995. O método consiste em observar pequenas mudanças periódicas na velocidade com que o objeto se aproxima ou se afasta de nós, detectadas por meio dos deslocamentos das linhas espectrais de sua luz — o conhecido efeito Doppler.

Quando um corpo orbita outro, ambos giram em torno de um centro de massa comum. Se o corpo secundário tiver massa suficiente, ele provoca um pequeno “rebolado” no corpo principal. Esse movimento pode ser percebido nas alterações periódicas de sua velocidade radial. Foi justamente esse sutil rebolado que os pesquisadores procuraram — e encontraram — em CD-35 2722 B.

A anã marrom em questão é conhecida como CD-35 2722 B, nome derivado de sua identificação em catálogos astronômicos. O principal candidato a satélite ainda não recebeu uma designação própria. O modelo mais bem ajustado indica uma massa mínima de aproximadamente 0,9 vez a massa de Júpiter e um período orbital de cerca de 170 dias. Em outras palavras, estamos diante de algo com massa da ordem de 1,7 × 10²⁴ toneladas — praticamente um Júpiter em miniatura, embora não saibamos necessariamente seu tamanho físico.

O modelo que melhor explica os dados também aponta para um segundo candidato a satélite, mais próximo da anã marrom, com massa mínima estimada em cerca de 0,28 vez a massa de Júpiter e período orbital de aproximadamente 87 dias. Essa segunda detecção, entretanto, é bem menos segura que a primeira. Os dois períodos estão próximos de uma proporção de 2 para 1, o que pode indicar uma ressonância orbital, fenômeno que também ocorre entre algumas luas de Júpiter.

Esse sistema é difícil de definir usando termos que conhecemos do Sistema Solar. O objeto principal tem massa suficiente para ser comparado a um planeta gigante, mas não orbita diretamente uma estrela, e sim uma anã marrom que, por sua vez, orbita uma estrela. E a anã marrom não se encaixa nem na categoria de estrela nem na de planeta.

É por isso que os pesquisadores preferiram chamá-lo simplesmente de satélite, evitando por enquanto a palavra “lua”. Afinal, estamos diante de um objeto que exerce o papel gravitacional de uma lua, mas cuja massa é comparável à de um planeta gigante. Essa discussão também antecipa um problema que poderá surgir quando encontrarmos, de maneira inequívoca, uma lua orbitando um exoplaneta: quem poderá dizer que descobriu a primeira exolua?

Uma controvérsia parecida já aconteceu no passado. Em 1992, o astrônomo polonês Aleksander Wolszczan descobriu os primeiros planetas conhecidos fora do Sistema Solar, orbitando o pulsar PSR B1257+12 — o remanescente extremamente compacto de uma estrela que explodiu como supernova.

Três anos depois, em 1995, Michel Mayor e Didier Queloz descobriram 51 Pegasi b, o primeiro exoplaneta encontrado orbitando uma estrela semelhante ao Sol. Foi por essa descoberta que os dois receberam o Prêmio Nobel de Física de 2019. A distinção não ignorava a importância do trabalho de Wolszczan: o prêmio estava especificamente relacionado à descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela do tipo solar. Ainda assim, a história mostra como definições e critérios podem influenciar a maneira como atribuímos pioneirismos científicos.

No caso da descoberta de Hoy, a nomenclatura também poderá pesar nos reconhecimentos futuros. Afinal, se o objeto for oficialmente classificado como exosatélite, ele será o primeiro desse tipo a ser detectado; se a comunidade científica decidir que a categoria “exolua” pode incluir satélites de anãs marrons, a história será contada de outra maneira.

É comum em astronomia que novas descobertas deem azo a debates sobre classificação. Um dos exemplos mais famosos ocorreu em 2006, quando a União Astronômica Internacional (IAU) aprovou uma definição formal de planeta e criou a categoria dos planetas anões. Plutão, que até então era considerado o nono planeta do Sistema Solar, passou a integrar essa nova categoria.

A questão das exoluas tem potencial para provocar um rebuliço semelhante. Ainda não existe uma definição formal de “exolua” adotada pela IAU, e os astrônomos discutem quais critérios deveriam ser utilizados. Uma lua precisa necessariamente orbitar um planeta? Um satélite de uma anã marrom pode ser chamado de exolua? Existe um limite de massa para uma lua? E como classificar um objeto cuja massa se aproxima da de Júpiter, mas que orbita uma anã marrom?

Observação: O caso de CD-35 2722 B mostra que a natureza não está particularmente preocupada com a nossa necessidade de classificação. Ela simplesmente produz os objetos que suas leis físicas permitem — e deixa para nós a tarefa de inventar nomes para eles.

O estudo deve aquecer ainda mais a corrida entre astrônomos em busca da primeira exolua propriamente dita, isto é, um satélite orbitando um exoplaneta. Alguns cientistas tentam fazer isso por meio de técnicas diferentes da utilizada por Hoy. Uma delas é a detecção por trânsito, que procura pequenas reduções no brilho de uma estrela quando um planeta passa diante dela. Se esse planeta possuir uma lua, ela poderá produzir uma alteração adicional, extremamente sutil, na curva de luz.

O problema é que esses sinais são minúsculos e as órbitas dos candidatos podem ser demoradas. Em alguns casos, seriam necessárias várias passagens diante da estrela para que os astrônomos pudessem reunir evidências suficientes para confirmar a existência de uma lua. É uma caçada cósmica em que a paciência, mais uma vez, é uma virtude indispensável.

Uma esperança para acelerar essa busca está no Extremely Large Telescope (ELT), que o ESO está construindo no Chile. Com um espelho principal de 39 metros, ele será o maior telescópio óptico e infravermelho do mundo quando entrar em operação e terá capacidade muito superior à dos atuais grandes telescópios para estudar objetos extremamente tênues e distantes.

O cronograma atualmente divulgado pelo ESO prevê a chamada “primeira luz” do telescópio em março de 2029, seguida da instalação e comissionamento dos primeiros instrumentos. A chamada primeira luz científica está prevista para dezembro de 2030.

Quando o ELT estiver funcionando plenamente, poderemos finalmente começar a enxergar uma população de mundos que hoje mal conseguimos perceber. E talvez encontremos entre eles aquilo que os astrônomos procuram há décadas: uma verdadeira lua orbitando um planeta situado em outro sistema estelar.

Mas talvez a descoberta mais interessante proporcionada por CD-35 2722 B seja outra: ela nos lembra que o Universo não tem a menor obrigação de organizar seus objetos segundo as categorias que inventamos aqui na Terra. Nós gostamos de planetas, luas, estrelas e anãs marrons devidamente separados em compartimentos, ao passo que o Universo parece preferir a bagunça. E convenhamos: é justamente quando ele bagunça nossas gavetas que a astronomia fica mais interessante.