QUE A REALIDADE SEJA APENAS O PONTO DE PARTIDA PARA A NOSSA FICÇÃO.
Como vimos nos capítulos anteriores, algumas das teorias mais ousadas da física contemporânea admitem a existência de dimensões adicionais do espaço e até mesmo de outros universos coexistindo ao lado do nosso. Também vimos que, caso essas dimensões realmente existam, é possível que aquilo que percebemos como enormes distâncias esconda atalhos invisíveis para quem está confinado às quatro dimensões do espaço-tempo.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Quando não há alternativa, a decisão está tomada. Até aqui, a coragem dos candidatos favoritos ao Planalto revelou-se uma realidade fugidia, que desapareceu tão logo foram convidados a se expor em debates. Espremidos num empate técnico nas pesquisas, Bolsonarinho e o macróbio eneadáctilo foram intimados pelas circunstâncias a abandonar o comportamento de avestruz.
No último domingo, o filho do presidiário confirmou que irá ao debate da Globo, na quinta-feira. Falou em timbre de desafio. "Estou chamando o Lula para o debate", disse, além de desdenhar de Ronaldo Caiado e Augusto Cury, que também estarão no debate: "Eu não tenho adversários concorrendo comigo, a não ser o Lula". Escalou o salto alto: "É ele que eu vou tirar da Presidência".
Seja qual for o desempenho, os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas tendem a conservar os votos de suas respectivas tribos. Mas o embate da Globo, a três dias da eleição, será a última oportunidade para ambos tentarem seduzir o eleitorado não alinhado, fiel da balança.
Ao confirmar presença no último debate do primeiro turno, Bolsonarinho torna incontornável a presença do postulante ao quarto mandato.. Ausentar-se agora premiaria o adversário com o monopólio do confronto, e a fuga poderia ser letal.
À primeira vista, essa ideia parece pertencer exclusivamente ao terreno da ficção científica. Afinal, como seria possível encurtar distâncias de bilhões de anos-luz sem violar o limite imposto pela velocidade da luz? Surpreendentemente, essa possibilidade surgiu não na literatura nem no cinema, mas da própria Relatividade Geral de Einstein.
Em 1935, Albert Einstein e Nathan Rosen perceberam que determinadas soluções das equações da Relatividade permitiam imaginar uma espécie de "ponte" ligando regiões muito distantes do espaço-tempo. Essas estruturas ficaram conhecidas como pontes de Einstein-Rosen e, mais tarde, ganharam um nome muito mais sugestivo: buracos de minhoca (ou buraco de verme, na tradução literal do inglês wormhole).
Os buracos de minhoca são soluções matemáticas das equações da Relatividade Geral que, em princípio, poderiam conectar dois pontos muito distantes do espaço — ou até dois instantes diferentes no tempo. Em vez de percorrer toda a distância entre dois lugares, uma espaçonave atravessaria um atalho criado pela própria geometria do espaço-tempo, reduzindo uma viagem que levaria milhões ou bilhões de anos a um intervalo muito menor.
Para visualizar essa ideia, imagine uma maçã aparentemente perfeita. Para quem caminha apenas sobre sua superfície, a menor distância entre dois pontos consiste em seguir ao longo da casca. Um "bicho de maçã", porém, pode escavar um túnel através do interior da fruta e chegar ao destino percorrendo um caminho muito menor. Segundo alguns modelos teóricos, algo semelhante poderia acontecer com o próprio Universo.
Mas nem tudo são flores nesse jardim. Segundo a Relatividade Geral, esses túneis seriam extremamente instáveis, tendendo a colapsar quase instantaneamente, antes que qualquer partícula conseguisse atravessá-los. Em outras palavras, mantê-los abertos representa um dos maiores desafios da física teórica.
É justamente aí que entra um dos conceitos mais curiosos dessa história: a chamada matéria exótica. Apesar do nome, ela não tem qualquer relação com alienígenas ou substâncias misteriosas produzidas por civilizações avançadas. Trata-se apenas da denominação dada a uma forma hipotética de matéria ou energia com propriedades muito diferentes das observadas na matéria comum, incluindo a possibilidade de apresentar densidade de energia negativa. Alguns fenômenos quânticos sugerem que efeitos desse tipo possam ocorrer em escalas microscópicas, mas ninguém sabe se seria possível reunir quantidade suficiente para estabilizar um buraco de minhoca.
É nesse ponto que a ciência se torna particularmente interessante. Em vez de afirmar categoricamente que essas estruturas existem ou não existem, ela reconhece os limites do conhecimento disponível. Os buracos de minhoca permanecem como soluções matemáticas perfeitamente legítimas, mas cuja existência física ainda aguarda confirmação experimental. A matemática permite sua existência; a natureza ainda não disse se concorda.
Suponhamos, porém, que um buraco de minhoca pudesse permanecer aberto. Se uma de suas extremidades fosse submetida a uma dilatação temporal diferente da outra — por exemplo, viajando a velocidades próximas à da luz ou permanecendo durante longo tempo sob intensa gravidade —, suas duas "bocas" deixariam de marcar o mesmo instante no tempo. Nesse caso, atravessar o túnel deixaria de ser apenas uma viagem pelo espaço para tornar-se também uma viagem no tempo.
Essa possibilidade foi estudada em detalhes pelo físico teórico Kip Thorne e seus colaboradores, do Caltech. Segundo seus cálculos, uma das extremidades do buraco de minhoca poderia ser transportada para as proximidades de uma estrela de nêutrons ou acelerada até velocidades relativísticas. Como o tempo transcorreria de forma diferente em cada extremidade, surgiria uma defasagem temporal entre elas. Se essa diferença fosse, por exemplo, de dez anos, alguém que atravessasse o túnel poderia emergir dez anos no futuro. E, fazendo o percurso inverso, retornaria ao passado — embora nunca pudesse chegar a um instante anterior à criação do próprio buraco de minhoca.
Naturalmente, tudo isso permanece no terreno das hipóteses. Até hoje, nenhum buraco de minhoca foi observado, e não sabemos sequer se o Universo permite que essas estruturas existam de forma estável. Ainda assim, elas representam uma consequência legítima das equações da Relatividade Geral e continuam sendo objeto de intensa investigação por parte dos físicos.
Atravessar um atalho espacial já seria um feito extraordinário, mas a física reserva uma surpresa ainda maior: dependendo da maneira como esses túneis se comportam, talvez eles não encurtem apenas as distâncias, mas também o próprio tempo.
É justamente nesse ponto que nossa história deixa de tratar apenas de geografia cósmica para entrar em um território onde passado, presente e futuro começam a perder seus significados habituais. Quando isso acontece, surgem alguns dos paradoxos mais intrigantes de toda a física — assunto do próximo capítulo.
Continua…





