SE VIRES TRÊS, DESCONFIA DE UM; SE VIRES UM, DESCONFIA DE TRÊS.
O raio estimado do Universo observável (horizonte de partículas) é de aproximadamente 46,5 bilhões de anos-luz, e o da Esfera de Hubble (distância onde a recessão cósmica atinge a velocidade da luz), de apenas 14,4 bilhões de anos-luz.
O Multiverso de Nível 1 corresponde ao espaço que a luz ainda não alcançou desde o Big Bang, e obedece a todas as leis da física e constantes cosmológicas do nosso Universo. Teoricamente, poderíamos acessá-lo viajando numa nave capaz de avançar pelo cosmos por tempo suficiente para percorrer uma distância da ordem de 10^(10^29) metros, e provavelmente chegaríamos a um sistema planetário igual ao nosso, com um planeta idêntico à Terra, povoado por clones de cada um de nós.
A existência desses clones não é uma simples possibilidade, mas uma consequência matemática desse modelo cosmológico, uma vez que a "realidade" é apenas a forma como o cosmos organiza suas partículas em um dado momento. Com tempo e espaço suficientes, as partículas se rearranjariam de todas as maneiras possíveis, incluindo a que existe no corpo de cada um de nós. Mal comparando, é como o célebre teorema do macaco infinito: se teclassem ao acaso por tempo igualmente infinito, infinitos macacos quase certamente produziriam todos os textos possíveis, incluindo as obras completas de Shakespeare.
Observação: Em matemática, "quase certamente" significa que a probabilidade é igual a 1, mas ainda existe a possibilidade lógica (com probabilidade 0) de que os macacos digitem apenas a letra "A" para sempre. É um conceito de infinito: o infinito não garante todas as combinações, mas garante que a probabilidade de não sair Shakespeare é tão pequena que é zero.
Em um universo com combinações finitas de partículas, um número finito de possibilidades certamente irá gerar um "universo-espelho". E como o Multiverso de Nível 1 segue as mesmas leis físicas e constantes cosmológicas do nosso Universo, em tese é possível explorá-lo — desde que nossa tecnologia evolua o suficiente.
Para entender o Multiverso de Nível 2, é preciso compreender a Teoria da Inflação Cósmica, que é a hipótese mais bem aceita pelos cientistas para explicar a expansão extremamente rápida do Universo em seus primeiros instantes. Segundo essa ideia, um momento de inflação imensa e quase instantânea que se seguiu ao Big Bang, deu origem ao nosso Universo. Entretanto, diferentemente de uma bolha de sabão, ele não ocupa espaço do ambiente externo, existe dentro de um espaço finito e pode criar massa e espaço a partir de quase nada. Isso nos leva à seguinte pergunta: de onde vem tanta força pra vencer toda a pressão que existe “fora” desse universo-bebê?
Conforme Einstein previu matematicamente em suas equações relativísticas, pressão negativa gera gravidade repulsiva. Assim, uma substância em estado de inflação cósmica produz uma antigravidade que faz com que ela se expanda violentamente, e a energia resultante cria massa suficiente para que a substância cresça de tamanho e continue igualmente densa. Em outras palavras, um desdobramento dessa teoria pode criar todo um universo a partir de (quase) nada, e dado que algo pode se expandir infinitamente sem aumentar o espaço que ocupa quando visto "de fora", infinitos espaços podem existir dentro de um espaço finito.
A Teoria do Multiverso não é uma teoria isolada, mas uma consequência de abordagens como a Inflação Eterna e a mecânica quântica. A Inflação Eterna — um desdobramento da teoria da Inflação Cósmica — defende que nosso universo não é único ou especial, que existem outras Inflações Cósmicas acontecendo o tempo todo, dando origem a inúmeros novos universos. Isso significa que o Multiverso de Nível 2 compreende inúmeros universos em diferentes “bolhas inflacionárias”, cada qual com constantes cosmológicas e leis da física específicas, sendo a melhor hipótese apresentada até agora para resolver o problema do ajuste fino (ou fine-tuning) do Universo.
Nossas constantes fundamentais são compostas por números aparentemente aleatórios, mas, assim como existe um universo exatamente com esses valores, deve haver inúmeros outros universos ocultos, cada qual com valores específicos, e o Multiverso de Nível 2 seria um conjunto de universos eternamente incomunicáveis, já que cada um deles é infinito, embora ocupe um espaço finito quando visto "de fora".
O Multiverso de Nível 3 não só difere dos outros dois como também é o "queridinho" das obras de ficção científica, como o filme Coerência, por exemplo. De acordo com a Interpretação de Copenhague, proposta por Niels Bohr e Werner Heisenberg, antes de ser observada, cada partícula se comporta também como onda e permanece num estado de superposição quântica. Quando é observada, no entanto, ela colapsa e ‘escolhe’ um único local para se mostrar como partícula. Mas uma teoria alternativa que está ganhando cada vez mais atenção é a chamada Interpretação dos Muitos Mundos, proposta por Hugh Everett em 1957.
Segundo Everett, a onda nunca colapsa; todas as possibilidades de localização da partícula são igualmente verdadeiras, criando a cada instante uma infinidade de bifurcações quânticas, cada qual originando um universo paralelo onde tudo que pode acontecer acontece (em algum lugar). Ou seja, existem inúmeras versões de cada um de nós vivendo em um universo levemente ou completamente diferente, e a cada decisão que tomamos, nosso clone toma uma decisão oposta em algum universo paralelo. Essa infinidade de estados possíveis é descrita matematicamente pelo chamado Espaço de Hilbert, dentro do qual a Interpretação dos Muitos Mundos representa cada ramo como uma realidade distinta.
No famoso experimento de Schrödinger combinado com a Interpretação de Copenhague (detalhes no capítulo anterior), um gato permanece vivo e morto ao mesmo tempo até a caixa onde ele se encontra confinado ser aberta, fazendo com que o estado quântico resulte ou não na morte do gato. Na Interpretação de Everett, no entanto, o universo se separa em dois; num deles o gato está vivo, e no outro, ele está morto. Da mesma forma, nós nos dividimos em dois, e cada uma das nossas realidades fica para sempre conectada com um dos estados do átomo e só participa de um dos universos, que, uma vez separados, seguem cada qual seu próprio caminho e nunca mais interagem com os outros.
A ideia de milhões de universos paralelos existirem parece absurda e contraintuitiva, mas não é mais incoerente do que a ideia de uma partícula se comportar como onda, estar em vários locais ao mesmo tempo e mudar seu comportamento de forma totalmente randômica quando observada — como bem observou Richard Feynman, ninguém realmente compreende a mecânica quântica.
Os cientistas avessos à Interpretação dos Muitos Mundos se apoiam na Navalha de Occam, segundo a qual a solução mais simples tende a ser a verdadeira, até porque seria muito complexo ter que adicionar infinitos universos paralelos para justificar a existência do nosso. Mas o interessante é que a Interpretação dos Muitos Mundos é apenas uma maneira diferente de ver os mesmos dados e os mesmos resultados. A única diferença é que os cientistas que estudam a ideia dos Muitos Mundos acreditam que o observador fica entrelaçado com um dos estados da partícula assim que interage com ela, para nunca mais se separar.
Assim, no Multiverso de Nível 3 tudo o que pode acontecer de fato acontece, e a partícula quântica, em vez de entrar em colapso, ocupa todos os lugares, dando origem a infinitas realidades diferentes a cada segundo.
No Multiverso de Nível 4, Tegmark defende que todos os multiversos de níveis anteriores fazem parte de uma única estrutura matemática infinitamente e inconcebivelmente complexa, e que, além da estrutura geométrica de quatro dimensões — três espaciais e uma temporal — existem outros universos formados por outras geometrias.
É normal sermos avessos a ideias que contradizem nossa impressão mais imediata da realidade, mas talvez devamos evitar a impressão mais intuitiva. A maioria de nós acredita ser o centro absoluto do universo — ou seja, a pessoa mais real, vívida e importante que existe —, mas raramente falamos desse tipo de egocentrismo por ele ser socialmente repulsivo.
Ainda assim, trata-se de nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento, mesmo porque jamais tivemos uma experiência em que não fôssemos o centro absoluto. Aliás, talvez o fato de esses níveis de multiverso nos colocarem numa posição insignificante seja o que nos incomoda nessa teoria.


