terça-feira, 10 de março de 2026

O LIVRO DO DESTINO

LEMBRE-SE DE CAVAR O POÇO MUITO ANTES DE SENTIR SEDE.

Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, ou simplesmente Malba Tahan, nasceu em 6 de maio de 1885, numa aldeia conhecida como Muzalit, na Pérsia Arábica. Ainda muito jovem, foi convidado pelo emir Abd el-Azziz ben Ibrahim a ocupar o cargo de queimaçã (prefeito) de El-Medina, município da Arábia, exercendo suas funções administrativas com inteligência e habilidade.

Depois de receber uma vultosa herança de seu pai, nosso herói viajou pelo mundo, passou algum tempo no Brasil e, finalmente, retornou à Arábia Central, onde faleceu em 1921. Mas o mais curioso dessa história é que esse personagem só existiu na imaginação do professor de matemática e escritor carioca Júlio César de Mello e Souza (1895–1974), que também encarnava Bruno Alencar Bianco, o “tradutor” das obras do fictício escriba árabe.

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O clérigo Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, morto durante um ataque aéreo de Israel, foi anunciado sucessor do pai como líder supremo do Irã. Israel, por sua vez, afirmou que perseguirá e atacará o novo líder e aqueles que o nomearam. Autoridades iranianas recomendaram aos moradores de Teerã que evitem atividades ao ar livre, já que a fumaça das explosões e dos incêndios em instalações de combustível deteriorou a qualidade do ar e liberou produtos químicos tóxicos que podem provocar chuva ácida. Os confrontos entre Irã e Israel se estenderam a outros países do Golfo Pérsico, e a Guarda Revolucionária do Irã afirma ter capacidade para manter cerca de seis meses de operações intensas.

A possibilidade de delação premiada de Daniel Vorcaro vem ganhando força, mas o assunto deve ser discutido somente depois que a PF extrair os dados de todos os celulares apreendidos. Caso a delação avance, parte da equipe jurídica do banqueiro deverá ser substituída. 

Segundo o jornalista Lauro Jardim, Alexandre de Moraes frequentou não só a mansão de Vorcaro em Brasília, mas também a casa de R$ 300 milhões que o banqueiro alugava em Trancoso (BA). Em nota, o gabinete do ministro respondeu que é “integralmente falsa a afirmação”, que o magistrado jamais realizou qualquer viagem privada com Vorcaro e que nunca esteve na propriedade citada. O colunista ainda que, menos de um mês antes de as ligações telefônicas com Vorcaro se tornarem públicas,, Moraes trocou o seu número de celular.

A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Xandão, negou ter recebido no dia da primeira prisão de Vorcaro mensagens do próprio sobre seu processo, em resposta à versão divulgada por Alexandre de Moraes. A PF recuperou sete prints enviados pelo banqueiro em 17 de novembro de 2025, escritos no bloco de notas e enviados como mensagens de visualização única, que estariam vinculados a pastas onde aparecem contatos como “Vivi Moraes”, o presidente do União Brasil Antônio Rueda e o senador Irajá Abreu. Todos negaram ter recebido as mensagens. Segundo os peritos, a organização de arquivos após extração de dados não permite concluir automaticamente o destinatário das imagens. A defesa de Viviane pediu apuração sobre possíveis vazamentos e contestou as associações.

O escândalo Master atingiu o coração da política e abalou o STF. Embora não tenha afetado diretamente a reputação dos bancos, a nota de Moraes sobre mensagens com Vorcaro “confunde mais do que esclarece e ajuda a empurrar o Supremo para o fundo do poço e a exacerbar a crise entre STF, PF e PGR, que não é só um embate entre siglas, mas entre instituições”.


O livro mais famoso de Malba Tahan é O homem que calculava — uma coletânea de problemas e curiosidades matemáticas apresentada sob a forma de narrativa das aventuras de um calculista persa, à maneira dos contos de As Mil e Uma Noites. Já a lenda que transcrevo a seguir, digna de ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta, integra a coletânea Maktub (termo que significa “estava escrito” e expressa o tradicional fatalismo dos muçulmanos).

Há muitos anos, quando voltava de Bagdá, encontrei, num caravançará (albergue) próximo a Damasco, um velho árabe do Hedjaz que muito me chamou a atenção. Ele falava agitadamente com mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; fumava uma mistura forte de tabaco e haxixe e, quando ouvia de algum companheiro uma censura qualquer, exclamava, apertando o turbante esfarrapado entre as mãos ossudas:

Mac Allah! (Por Deus!), ó muçulmanos! Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão!

É um pobre diabo — diziam. — Não bate bem. Que Allah o proteja!

Eu, porém, sentia irresistível atração pelo desconhecido e procurei aproximar-me dele discretamente, conquistando sua confiança — o que consegui ao cabo de poucos dias.

Os homens da caravana tomam-me por doido — disse-me ele certa noite, enquanto cavaqueávamos a sós. Não querem acreditar que já tive nas mãos o destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o destino do gênero humano!

Esbugalhei os olhos, assombrado. Aquela afirmação insistente, de que havia sido senhor do Destino, era característica de seu pobre estado de demência. Mas ele insistiu:

Segundo ensina o Alcorão, o livro de Allah, a vida de todos nós está escrita (maktub!) no grande Livro do Destino, onde cada homem tem uma página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na Terra, do cair de uma folha seca à morte de um califa, estão fatalmente escritos no Livro do Destino!

E, sem esperar que eu o interrogasse, narrou o seguinte:

Em uma viagem pelo deserto, salvei certa vez um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Em sinal de gratidão, ele deu-me um talismã raríssimo que possuía: uma pedra maravilhosa que permitia a entrada livre na famosa Gruta da Fatalidade, onde se acha o Livro do Destino.

Depois de sugar longamente a piteira de seu narguilé, o velho prosseguiu:

Viajei durante dois anos até chegar à gruta encantada. Um djinn (gênio benfazejo) que estava de sentinela à porta deixou-me entrar, advertindo, porém, que eu só poderia permanecer ali por poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu levava comigo: “Terá muito dinheiro!”. Lembrei-me, porém, de meus inimigos. Poderia, naquele momento, fazer um grande mal a todos eles. Movido pela ideia única do ódio e da vingança, abri a página de Ali Ben-Homed, o mercador. Li o que lhe ia acontecer e acrescentei embaixo, cheio de rancor: “Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!”. Na página de Zalfah-el-Abarj escrevi, impiedoso, alterando-lhe a vida inteira: “Perderá todos os haveres; ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!”. E assim, sem piedade, arrasei, feri e retalhei meus desafetos.

E na tua vida? — indaguei, curioso. — Que fizeste, ó muçulmano, na página em que estava escrita a tua própria existência?

Ah, meu amigo! — prosseguiu o ancião, cheio de mágoa. — Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer mal aos outros, esqueci-me de fazer o bem a mim mesmo. Agi como um miserável. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse, um efrite (gênio do mal que se contrapõe aos djins) agarrou-me fortemente e, depois de arrancar-me o talismã, expulsou-me da gruta. Caí entre as pedras e, com a violência do choque, perdi os sentidos. Quando recuperei a razão, achei-me ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a um pequeno oásis no deserto de Omã. Sem o talismã precioso, nunca mais pude descobrir o tortuoso caminho da Gruta do Destino.

E concluiu, entre suspiros, numa atitude de profundo e irremediável desalento:

Perdi a única oportunidade que tive de ser rico e feliz!

Seria verdadeira essa estranha aventura? Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe do Hedjaz encerrava um grande e precioso ensinamento: preocupados em levar o mal a seus semelhantes, quantos homens se esquecem do bem que poderiam fazer a si próprios...

segunda-feira, 9 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 82ª PARTE

O REAL NÃO ESTÁ NA SAÍDA NEM NA CHEGADA, MAS NO MEIO DA TRAVESSIA.

Compreender o tempo como ele realmente é pode ser tão letal quanto dobrá-lo, e talvez por isso não existam provas, vestígios e testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.

Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 dentro de uma tumba da Dinastia Ming que ficou selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis indicam fraude.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Lulinha ficou tão isolado que precisa parar de andar sozinho se quiser evitar as más companhias. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, confirmou a votação da CPI do INSS que quebrou o sigilo bancários do "Ronaldinho dos negócios", e a bancada governista desistiu de resistir: "A gente luta para vencer, mas aceita quando perde", disse Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso. 

Deve-se a resignação ao fato de o ministro André Mendonça ter autorizado em janeiro a PF a invadir as contas bancárias e o Imposto de Renda de Lulinha, dada a suspeita de que ele recebeu dinheiro do Careca do INSS, operador do assalto contra os aposentados.

O Planalto passaria atestado de burrice se continuasse erguendo barricadas numa CPMI que deve terminar em 28 de março. O filho do pai já havia recebido um chega-prá-lá: "Se tiver filho meu metido nisso, será investigado." Haddad também tomou distância: "Lulinha não participa do governo, não conheço a sua vida."

Sem apoio no Congresso e com a PF dentro das suas contas, enteado de Lula logo estará cantarolando versos do clássico de Cazuza "Maior Abandonado".


Numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork em British Columbia (Canadá), em 1941, um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos de turno, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros como aqueles eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo".


A guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta.


Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das Mil e Uma Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos.


Sherlock Holmes ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia, que “se houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. O grosso das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua...

domingo, 8 de março de 2026

O SEGREDO DO CHURRASCO ESTÁ NO DESCANSO

CORTAR A CARNE CEDO DEMAIS PODE ARRUINAR SEU CHURRASCO.

Para a maioria das pessoas, basta acender a churrasqueira, colocar a carne na grelha e temperar com sal grosso para fazer um churrasco memorável. Mas o resultado que todo mundo elogia depende menos do corte, do fogo ou do tempero do que de algo quase sempre ignorado: o tempo de descanso da carne.

Esse intervalo vai do instante em que a carne sai da grelha até o momento em que ela é fatiada — e define a suculência, a textura e até o sabor percebido em cada mordida. Durante o preparo, os sucos internos ficam em movimento intenso por causa do calor; se a carne é cortada imediatamente, esses líquidos “escapam”, deixando o interior mais seco.

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Não são apenas os erros que arruinam um magistrado, mas o modo como ele reage depois de cometê-los. No caso Master, Dias Toffoli, como se nada tivesse sido descoberto sobre ele, o ministro insiste em participar normalmente do julgamento em que a Segunda Turma avalizará ou não a prisão de Daniel Vorcaro e três integrantes do seu grupo criminoso.

Desde que admitiu ser sócio da empresa que vendeu por R$ 35 milhões parte de um resort para um fundo do grupo Master, o Maquiavel de Marília percorre os salões do Supremo como um inquérito esperando na fila da PF para acontecer. 

Armou-se na Corte um teatro e, que os ministros torpedearam a PF, enalteceram "a dignidade" de Toffoli e registraram em nota oficial uma hipotética "inexistência de suspeição ou de impedimento". Agora, o magistrado sinaliza aos colegas a intenção de exercitar sua dignidade no julgamento sobre a prisão de Vorcaro. Suspeita-se que ele usará o julgamento para lavar a própria suspeição, votando a favor da tranca, mas o teor do voto importa menos do que o respeito à lógica e às regras. 

Quem comete um erro e não o corrige está cometendo outro erro. Ou o Supremo amarra o guizo em algumas togas, ou fará da desmoralização de certos magistrados um processo de carbonização da supremacia do tribunal.


Descansar a carne é simples e não exige técnica complexa. Basta retirá-la da grelha e deixá-la parada por alguns minutos, sem furar, cortar ou pressionar. Nesse tempo, os sucos se redistribuem, as fibras relaxam e a temperatura se estabiliza, resultando em uma carne mais macia e uniforme.

O ideal é colocá-la sobre uma tábua ou prato, cobri-la levemente — sem abafar — e resistir à tentação do corte imediato. O tempo varia conforme o tamanho da peça: de 2 a 3 minutos para cortes pequenos, de 4 a 6 para cortes médios e de 8 a 10 para peças grandes. Poucos minutos já transformam completamente o resultado.

Quando o descanso é respeitado, o churrasco de respeito aparece nos detalhes: menos líquido no prato, carne mais brilhante, gordura melhor integrada e uma textura muito mais agradável.

Bom apetite.

sábado, 7 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 81ª PARTE

ÀS VEZES, BASTA UMA MUDANÇA DE PERSPECTIVA PARA REVELAR A VERDADE.

Ninguém sabe ao certo quem ele foi ou de onde veio. Há quem jure que se chamava Rudolph Fentz e que apareceu do nada em plena Times Square, trajando roupas do século XIX e segurando moedas antigas no bolso. Outros sustentam que se tratava de Andrew Carlssin, um investidor anônimo que multiplicou o capital em 126 operações seguidas na Bolsa por ter vindo do futuro (2256), e os mais céticos afirmam que ele nunca existiu, que sua "aparição" não passou de uma sucessão de coincidências, boatos e más interpretações.

O que poucos percebem é que as três versões contam a mesma história: Fentz, Carlssin, ou seja lá quem for, teria descoberto o segredo que há séculos atormenta físicos e filósofos: não é o tempo que nos atravessa, somos nós que o dobramos sem perceber — nas decisões que adiamos, nos caminhos que não tomamos, nas lembranças que nos visitam fora de hora.

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É enorme o empenho suprapartidário para acobertar o escândalo do Master, mas, a despeito das articulações anti-CPI, o avanço das investigações é proporcional à quantidade de dados estocados nos dispositivos eletrônicos de Daniel Vorcaro, e os abafadores vêm enfrentando dificuldades para conter a sujeira nos limites das bordas do tapetão.

A conjuntura está assentada sobre um paiol em que se misturam os favores de Vorcaro e as facilidades que os favorecidos — entre eles autoridades dos Três Poderes e políticos de todas as ideologias — ofereceram ao dono do Master para praticar crimes — as gentilezas incluíram desde contribuições de campanha a contratos milionários, além de convites para festas de arromba.

Se a apuração é incontornável, procrastinar a limpeza é conspirar pela conturbação do processo eleitoral, que pode transformar a sucessão presidencial num grande ventilador.

A ventania aumentou desde André Mendonça acumulou a relatoria do roubo das aposentadorias do INSS e o caso Master. Os dados obtidos por meio da quebra do sigilo telemático de Vorcaro já estão sendo processados pelos computadores da CPI, e o vazamento é tão certo quanto o nascer no leste.

Há em Brasília dois tipos de políticos: os que temem o enrosco e os que desejam desgastar os enroscados. Numa escala de zero a dez, a hipótese de uma combinação como essa terminar bem é de menos onze.


A história teria começado com um projeto confidencial de pesquisa em física experimental, conduzido fora dos grandes centros, sem patrocínio estatal e longe de olhares curiosos. O objetivo oficial era estudar os efeitos da ressonância quântica do vácuo — uma expressão bonita para designar o comportamento errático das partículas virtuais que simplesmente aparecem e desaparecem. Extraoficialmente, porém, havia quem falasse em curvatura artificial do espaço-tempo.


Segundo alguns conspirólogos, o homem misterioso — cujo verdadeiro nome ninguém soube ao certo — trabalhava num laboratório subterrâneo e, engolido acidentalmente pela própria criação, acabou saltando para um ponto qualquer entre o ontem e o amanhã. Mas talvez ele tenha conseguido o que todos sonham e ninguém admite: voltar ao instante em que tudo ainda podia ser diferente. Fala-se que ele acreditava que o tempo era um campo vibratório que, sob determinadas condições de frequência e energia, poderia provocar uma espécie de desalinhamento temporal — talvez não uma viagem física no sentido clássico, mas uma transposição de perspectiva em que a mente se projetaria para um outro ponto da linha temporal… e foi aí que o impossível aconteceu.


Os registros fragmentários e contraditórios falam de um experimento realizado às três da madrugada numa câmara blindada revestida de chumbo e grafeno. Há menção a uma sequência de pulsos eletromagnéticos sincronizados com a rotação da Terra, a um breve colapso de energia e a uma luminosidade azulada que “parecia vibrar como se tivesse vontade própria”. Depois disso, silêncio. Nenhum alarme, nenhuma explosão, nenhuma evidência de falha. Passados 30 segundos, o sistema religou sozinho. O ar estava ionizado, o relógio da câmara marcava um horário diferente dos demais relógios do laboratório — e o homem havia simplesmente desaparecido.


Há quem diga que o homem nunca saiu do lugar, que sua consciência apenas “saltou de trilho”, enxergando simultaneamente o passado, o presente e o futuro — e que isso o enlouqueceu. No entanto, um guarda noturno de Nova York em 1951 disse ter deparado com um sujeito desorientado, vestindo roupas antiquadas e incapaz de explicar onde estava. Uma semana depois, jornais sensacionalistas publicaram a história de um "viajante do tempo acidental". Coincidência? Talvez. Mas algumas coincidências soam mais como recados.


Talvez compreender o tempo como ele realmente é seja tão letal quanto dobrá-lo, e por isso não há provas, nem vestígios, nem testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.


Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 no interior de uma tumba da Dinastia Ming que permaneceu selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis sugeriam fraude.


Numa foto tirada em 1941, durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". Mas a guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Por outro lado, a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta. Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das 1.001 Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos. Sherlock Holmes nos ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia —, que “quando houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. A maioria das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…

sexta-feira, 6 de março de 2026

O ZERO, A AUSÊNCIA E A CONSCIÊNCIA

MELHOR 50% DE ALGO QUE 100% DE NADA.

Detectar rapidamente a presença de um leopardo faminto ou de frutos suculentos era uma questão de vida ou morte para nossos ancestrais na savana africana, e uma vez que nosso cérebro evoluiu para nos manter vivos pelo maior tempo possível, tornamo-nos especialistas em perceber a presença das coisas. Mas o cérebro também é capaz de perceber o vazio, a ausência.

A entrada de um objeto no campo visual ativa neurônios no córtex visual, mas sua ausência demanda outro tipo de operação mental, que pode ser compreendida pela maneira como o cérebro representa o número zero. Assim como temos mais dificuldade em compreender o zero do que os números positivos, a ausência é mais difícil de perceber do que a presença.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

As crises no Brasil são reprises de um mesmo parto. Quando ousamos imaginar que vem algo novo, a conjuntura sempre dá um jeito de parir outra aberração. No Supremo, Fachin fazia pose de pai do código de ética, mas deu à luz o acobertamento das perversões associadas a Toffoli e fez papel de coveiro de prova viva no teatro armado na Corte para converter o funeral da reputação do colega num exemplo de desprendimento. 

É fato que a investigação perdeu o objeto quando Toffoli abriu mão da relatoria do processo do Banco Master, mas Fachin enterrou a última réstia de esperanças de abertura de um inquérito criminal para investigar o magistrado quando mandou para o arquivo as 200 páginas escritas pela PF sobre a suspeição do dito-cujo.

A manobra não ressuscitou a biografia de Toffoli, mas, mesmo assim, o STF anotou no atestado de óbito que ele continua sendo um juiz insuspeito e que deixou de ser relator "a pedido". Como se não bastasse, num funeral secreto, as togas preferiram atacar a PF a avaliar as provas do conflito de interesses entre o cargo de ministro e os negócios do Maquiavel de Marília e seus irmãos com a organização criminosa de Daniel Vorcaro.

Há oito meses, o Datafolha revelou que 58% dos brasileiros têm vergonha dos ministros do Supremo. Há dez dias, a Quaest revelou que 82% concordam que o tribunal precisa de um código de ética para os seus membros.

Crianças familiarizadas com a letra F, por exemplo, demonstram surpresa quando ela é substituída pela letra E, mas essa reação desaparece se a troca ocorre no sentido inverso — ou seja, a ausência do traço horizontal inferior passa despercebida. Os adultos também têm mais dificuldade de notar a omissão de uma palavra do que de perceber uma inserção de uma palavra indevida. Além disso, fenômenos similares já foram observados no comportamento de animais.

Sabemos que nosso cérebro contém neurônios “especializados em zero”, que reagem exclusivamente — ou de modo preferencial — quando observamos conjuntos vazios ou a própria representação simbólica do número zero. De modo análogo, cérebros de macacos e até de algumas aves possuem neurônios ativados especificamente em situações de ausência. O papel exato desses neurônios ainda não foi totalmente esclarecido, mas sua existência sugere que a percepção da ausência não é simplesmente a falta da atividade neuronal associada à presença. Até porque ideias de “presença” e “ausência” parecem envolver mecanismos mentais distintos.

Perceber a ausência exige um tipo de raciocínio por contradição: “se o objeto estivesse lá, eu o veria; o fato de não vê-lo indica que ele está ausente”. Essa explicação pressupõe que o cérebro tem consciência de seus próprios processos sensoriais e é capaz de avaliar se eles estão funcionando normalmente. Então, se a ausência não decorre simplesmente de desatenção ou falha perceptiva — e há evidências nesse sentido — e se as representações neurais de “ausência” e de “zero” são essencialmente análogas, então o estudo de como compreendemos o zero pode ajudar a responder esclarecere o que é a consciência.

O zero foi “descoberto” ao menos duas vezes na história da humanidade: na Mesopotâmia, ao final do século IV a.C., e de forma independente na Mesoamérica, perto do início da nossa era. Em ambos os casos, ele servia apenas como marcador de posições vazias na notação numérica (como em 103, onde a posição das dezenas está vazia), mas passou a ser tratado como um número de pleno direito, na Índia, por volta do século VII. No Ocidente, porém, a ideia encontrou forte resistência: para o pensamento grego clássico — e em especial para Aristóteles (384–322 a.C.) — o nada simplesmente não existia, e um número que representasse o nada seria um contrassenso.

Quando olhamos para uma árvore e percebemos que não há pássaros em seus galhos, nosso cérebro conclui: “se houvesse pássaros, eu os veria; logo, eles estão ausentes”. Essa inferência parece simples, mas envolve algo sofisticado: a consciência dos próprios processos mentais. Mas será que apenas seres conscientes são capazes de compreender a ausência e, por extensão, o zero?

Pesquisadores monitoraram a atividade cerebral de macacos enquanto eles observavam conjuntos com diferentes números de pontos e descobriram neurônios especializados em zero. Foi a primeira evidência experimental de que o cérebro de primatas trata o zero de maneira distinta das demais quantidades. Alguns desses neurônios reagem exclusivamente a conjuntos vazios, permanecendo indiferentes a qualquer outro número, ao passo que outros respondem mais fortemente ao vazio, menos a conjuntos com um ponto e menos ainda a conjuntos com dois pontos, sugerindo que o cérebro entende o zero de forma relacional, como o menor dos números.

Estudos recentes envolvendo tanto conjuntos de pontos quanto a representação simbólica dos números (0, 1, 2…) reforçam essas conclusões. Um deles analisou a atividade de neurônios individuais e confirmou a existência de células especializadas em zero, ou seja, distintas daquelas que respondem a números positivos. Outro examinou a atividade coletiva de milhares de neurônios e encontrou indícios de que, em certos contextos, o cérebro trata o zero como o menor dos números. Esse mesmo estudo revelou que as respostas neurais a conjuntos vazios e ao símbolo “0” são notavelmente semelhantes, indicando que os neurônios especializados em zero podem estar ligados à nossa compreensão mental do nada, da ausência — e talvez tenham evoluído a partir dela.

No fim das contas, o zero pode não ser apenas um número; mas sim o nada fazendo força para existir dentro da nossa cabeça.