quarta-feira, 9 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 117ª PARTE

A INCERTEZA QUE ESVOAÇA DESGRAÇA MAIS DO QUE A PRÓPRIA DESGRAÇA.

Vimos que a possibilidade de viajar no tempo é admissível à luz da física, mas não à luz da lógica: segundo a conjectura de proteção cronológica, o próprio universo impede ações que criem paradoxos ou alterem o futuro. 


Pode-se argumentar que isso não passa de teoria, mas a existência dos buracos negros, proposta no século XIX, permaneceu no campo das loterias até 2019, quando foi confirmada com a publicação das imagens do M87* que o Event Horizon Telescope havia capturado dois anos antes.


Observação: Einstein não foi o primeiro a propor a existência dos buracos negros, mas foi sua Teoria da Relatividade Geral que tornou o tema tão popular.


Vimos também que a ciência ainda não conseguiu explicar satisfatoriamente a queda das maçãs, o brilho das estrelas, o funcionamento dos átomos e o espaço-tempo, e que as duas teorias mais bem-sucedidas da história da física descrevem o universo de maneiras muito diferentes. De um lado está a relatividade geral, formulada por Einstein em 1915, que explica com precisão o macrocosmo, e do outro a mecânica quântica, que rege o comportamento das partículas elementares, dos átomos e das forças que atuam no microcosmo. A questão é que elas descrevem o universo de maneiras muito diferentes. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O ato de 7 de Setembro em Brasília virou um "palanque de constrangimentos" em meio à crise institucional no STF, visto que a comemoração do Dia da Independência reuniu os presidentes dos Três Poderes e expôs tensões entre autoridades. 

Todos os ministros da Corte foram convidados. No ano passado, eles não compareceram devido ao julgamento de Bolsonaro; neste, apenas Edson Fachin, presidente do Supremo, deu o ar de sua graça. 

Além de Lula e de Fachin, marcaram presença os presidentes da Câmara e do Senado. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, está às turras com o advogado-geral da União, Jorge Messias, mas ambos subiram, embora não se tenham cumprimentado.

Alcolumbre também está em pé de guerra com o chefe da PF, após seu nome ter sido suscitado em um relatório apócrifo da inteligência que serviu de base para o pedido de investigação do ministro André Mendonça pelo colega Alexandre de Moraes, que vivem uma guerra aberta devido ao caso Master.

O cenário reforçou o caráter excepcional do evento, ocorrido num momento em que o Supremo vive "uma crise institucional inédita", com contornos políticos em meio à disputa eleitoral na qual o molusco eneadáctilo tenta a reeleição. Aliás, houve uma assessoria jurídica para que não houvesse nenhuma extrapolação que pudesse ser depois motivo de ação na justiça eleitoral contra a campanha do xamã petista.


Na relatividade geral, a gravidade não é uma força convencional, mas uma deformação da própria geometria do espaço-tempo; na mecânica quântica, todas as interações são descritas em termos de partículas e campos quânticos sujeitos a probabilidades e flutuações aleatórias. O problema surge quando se tenta aplicar simultaneamente as duas teorias em ambientes extremos — como o interior de um buraco negro ou os instantes iniciais do Big Bang. Nesse contexto, as equações entram em conflito, como se dois mapas perfeitamente corretos da mesma cidade deixassem de coincidir quando colocados um sobre o outro.


Considerando que o universo é um só, seria de supor que uma única descrição fundamental explicasse todos os seus fenômenos. Como a natureza parece obedecer a duas coleções diferentes de regras dependendo da escala observada, os cientistas buscam desenvolver uma "Teoria de Tudo", que seja capaz de unificar todas as forças da natureza e explicar simultaneamente o mundo do infinitamente grande e do infinitamente pequeno.


A Teoria de Tudo seria o equivalente científico do Santo Graal, da Pedra Filosofal e do mapa do tesouro na mesma escavação arqueológica. Todavia, a despeito dos bilhões de dólares investidos e de algumas das mentes mais brilhantes da história envolvidas na busca, essa teoria ainda não foi encontrada. Mas isso não impediu os físicos de produzirem hipóteses extraordinárias em escala industrial, como veremos no próximo capítulo.


Antes de encerrar, relembro que as viagens no tempo são o fruto mais cobiçado (e ainda não alcançado) da árvore da relatividade, e que não faltam teorias sobre voltar no tempo como nos filmes de ficção científica. No entanto, faltam respostas para muitas perguntas sobre a verdadeira natureza do tempo: será que ele existe realmente ou é apenas um artifício criado quando nossos antepassados perceberam padrões no amanhecer e no anoitecer, nas fases da Lua e nas mudanças sazonais. Mal comparando, seria como aprender a dirigir automóveis quando existiam somente carroças de tração animal. 


Como bem observou o filósofo austro-britânico Ludwig Wittgenstein, os problemas filosóficos surgem quando a linguagem sai de férias. A física pode ser um excelente exemplo disso: ao longo do último século, palavras familiares como tempo, existir e atemporal foram reaproveitadas em contextos técnicos sem que se examinasse o significado que elas carregam na linguagem cotidiana, levando a uma confusão generalizada sobre o que esses termos realmente significam.

 

Na filosofia da física, particularmente em uma visão conhecida como eternalismo, a palavra "atemporal" dá a ideia de que o tempo não flui nem passa, que todos os eventos são igualmente reais dentro de uma estrutura quadridimensional conhecida como Universo em bloco. Mas se tudo o que acontece ao longo da eternidade é igualmente real e todos os eventos já estão lá, o que realmente significa dizer que o espaço-tempo existe? 


Para entender essa questão, é preciso ter em mente que "existência" é um modo de ser e "ocorrência", de acontecer. Imagine que há um elefante ao seu lado. Você provavelmente diria “o elefante existe”, e poderia descrevê-lo como um objeto tridimensional. Agora imagine um elefante puramente tridimensional que aparece na sala por um instante e desaparece como um fantasma. Esse elefante não existe realmente no sentido comum, mas simplesmente acontece.


Um elefante existente perdura ao longo do tempo, e o espaço-tempo cataloga cada momento de sua existência como uma linha de universo quadridimensional. Já o elefante imaginário que acontece é apenas uma fatia espacial desse tubo; um momento tridimensional. Mas e o espaço-tempo? Será que ele perdura, tem seu próprio conjunto de momentos “agora”, ou é apenas a variedade de todos os eventos que acontecem ao longo da eternidade?


Se imaginarmos que todos os eventos ao longo da história “existem” dentro do Universo em bloco, então poderíamos perguntar: quando o próprio bloco existe? Se não se desenrola nem muda, ele existe atemporalmente? Se sim, então estamos sobrepondo outra dimensão do tempo a algo que deveria ser atemporal no sentido literal. 

 

Para entender isso melhor, imagine uma estrutura de cinco dimensões, sendo três espaciais e duas temporais. Em tese, o segundo eixo temporal permite dizer que o espaço-tempo quadridimensional existe exatamente da mesma forma que normalmente pensamos que um elefante na sala existe dentro das três dimensões do espaço que nos rodeiam — que catalogamos como espaço-tempo quadridimensional. 


Nesse ponto, saímos da física estabelecida, que descreve o espaço-tempo apenas através de quatro dimensões e somos levados a outro problema: falar sobre o que significa a existência do espaço-tempo sem reintroduzir o tempo por uma porta conceitual que a física não reconhece é como tentar descrever uma música que existe de uma só vez — sem jamais ser tocada, ouvida ou desdobrada no tempo —, ou querer saber o que existe ao norte do Polo Norte.


OBSERVAÇÃO: Nosso blog — criado em 9 de setembro de 2006 para embasar a criação
do livro
BLOGS&WEBSITES da minha saudosa COLEÇÃO GUIA FÁCIL INFORMÁTICA
—, sopra hoje sua vigésima velinha. Todavia, tendo vista a conjuntura geral e as eleições de outubro em particular, não vejo motivo para grandes comemorações.


Continua...

terça-feira, 8 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 116ª PARTE

ALGUMAS COISAS SÃO DIFÍCEIS DE ENTENDER, MAS NEM POR ISSO DEIXAM DE SER VERDADEIRAS.  

Como a audiência do blog é rotativa, cabe aqui uma breve contextualização, começando por relembrar que, apesar de toda a evolução da havida nos últimos séculos, a ciência ainda não consegue explicar a natureza do tempo nem acomodar a teoria da relatividade e a mecânica quântica numa mesma equação matemática. 


As equações relativísticas de Einstein dão azo à possibilidade de viajar rumo ao futuro, bastando para isso construir naves capazes de alcançar a velocidade da luz, aproximar-se do horizonte de eventos de um buraco negro (onde o tempo desacelera significativamente) ou entrar num buraco de minhoca e sair em outra galáxia, no presente ou em outro ponto da linha do tempo. No entanto, retornar ao passado esbarra nas leis da física clássica, sem falar que o simples desembarque do viajante do tempo numa época pretérita altera o futuro — como ilustram magistralmente o efeito borboleta e o paradoxo do avô


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria. Mesmo porque o enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte, mas um preceito básico, pré-requisito essencial ao regime democrático — aquele em nome de cuja retomada inscreveram-se as normas que passariam a valer depois de 21 anos de submissão do Legislativo e do Judiciário ao mando do Executivo hipertrofiado — a ditadura.

De lá para cá, o país sofreu e venceu solavancos que testaram a firmeza do desenho institucional de 1988. Mas não está conseguindo resistir à inaptidão da geração subsequente em seguir os passos dos arquitetos da redemocratização.  Em meio a autoritarismos, voluntarismos, populismos, usurpação de funções e agressão a ritos e regras, assistimos a uma deterioração de condutas cuja solução passa longe da culpa do aludido sistema ao qual se pedem reformas, na tentativa de fugir da responsabilidade que é de seus condutores e operadores.

Visando contornar dificuldades num Legislativo interesseiro e arisco, o chefe do Executivo achou por bem se escorar em magistrados permeáveis a alianças no Judiciário, que, alheios às consequências, entraram numa espiral descendente de desmoralização compartilhada. 

A eleição presidencial se dá em ambiente de rejeição e desencanto; o Supremo Tribunal Federal vive um impasse de gravidade inédita e o Congresso não dispõe de lideranças com estatura institucional à altura do desafio. O túnel é escuro e o poço sem fundo. A resposta em outros tempos esteve na política, que perdeu tônus e protagonismo quando decidiu se dedicar primordialmente aos negócios e terceirizar suas funções a juízes com pendores políticos e vocação para santos guerreiros. Queira o bom senso que a saída não esteja em acertos para estancar a sangria com Supremo e com tudo.


Embora nossa compreensão do tempo se baseie na física newtoniana, a teoria da relatividade desafia o pressuposto intuitivo de que os acontecimentos progridem linearmente do passado para o futuro, sugerindo que o espaço-tempo pode se comportar de formas bizarras. Para o físico Lorenzo Gavassino, combinar a teoria da relatividade geral, a mecânica quântica e a termodinâmica permitiria voltar ao passado sem criar contradições.


Conforme foi dito em outros capítulos desta sequência, uma curva temporal fechada criaria linhas do tempo alternativa a cada decisão tomada pelo viajante, que assim seguiria caminhos diferentes sem alterar o futuro. No entanto, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e consequências.


Albert Einstein, Stephen Hawking e vários outros físicos renomados tentaram, sem sucesso, conciliar a física clássica com a mecânica quântica. Ainda assim, não faltam teorias que buscam esse resultado, entre as quais a Teoria de Tudo é uma das mais promissoras. Todavia, antes de detalhar essa e outras teorias afins, lembro que a viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade, embora possa ter implicações estranhas e perigosas para os viajantes — e até para seus familiares. 


O conceito vem sendo explorado em livros, filmes e seriados de ficção científica desde a publicação do romance A Máquina do Tempo por H.G. Wells, em 1895. Mas a pergunta que não quer calar é: será mesmo possível voltar no tempo, e, se for, será mesmo possível alterar o passado? 


Uma das formas mais tradicionais de explorar as consequências da viagem no tempo é através do Paradoxo do Avô, no qual o viajante volta no tempo e mata o próprio avô antes de ele conhecer sua avó, o que impediria o nascimento de um de seus pais e, consequentemente, do próprio viajante, que assim não poderia ter viajado para o passado e matado o avô. Antes de explicar as possíveis soluções do paradoxo e as suas implicações, vale destacar que o viajante precisa matar o avô antes de ele conhecer a avó — se esse encontro não ocorrer, o viajante jamais nascerá.


Como se vê, essas duas premissas são mutuamente excludentes: o avô não pode estar vivo no dia em que conheceu a avó — pois o viajante o matou antes disso —, mas também tem que estar vivo e ter conhecido a avó para o neto ter nascido, voltado ao passado e matado o avô. Mas o avô não pode estar vivo e morto ao mesmo tempo, como o Gato de Schrödinger


Para resolver o paradoxo do avô, a solução mais óbvia é afirmar que viagem no tempo é impossível — segundo a conjectura de proteção cronológica, viajar no tempo contraria as leis da natureza, só que ninguém descobriu até hoje qual lei exatamente proíbe todas as formas de viagem no tempo. O argumento mais utilizado é que qualquer máquina do tempo se transforma inevitavelmente em um buraco negro.


Imagine que um pouco de energia entre numa máquina sob a forma de radiação, saia da máquina no passado (em relação a quando ela entrou na máquina), entre uma segunda vez, e assim sucessivamente. Nesse contexto, uma única partícula de luz seria suficiente para produzir energia infinita e colapsar a máquina em um buraco negro. Não obstante, alguns físicos argumentam que é possível contornar esse problema adicionando um custo de energia para atravessar a máquina, ou seja, uma forma de pagar pedágio para que a viagem no tempo aconteça. Nas condições certas, isso bastaria para evitar que a máquina colapsasse.


Em última análise, a verdade é que os cientistas não conseguem decidir se viajar no tempo é impossível ou não baseando-se unicamente nas leis da física. Então, o jeito é recorrer a outro campo do conhecimento — no caso, a filosofia. Vamos analisar o Paradoxo do Avô como uma contradição filosófica, sem nos importarmos com o que as leis da natureza têm a dizer. 


Como vimos, o Paradoxo do Avô aponta para uma contradição lógica verdadeira, ou seja, um cenário que realmente é impossível. Assim, se a viagem no tempo cria uma contradição lógica, então viajar no tempo é impossível. Da mesma forma, se alguma teoria matemática provar que 1 = 2, fica evidente que a teoria está errada, pois 1 e 2 são comprovadamente números diferentes. Dito isso, se algo permite uma situação logicamente impossível, então esse algo é impossível, e concluir que viajar no tempo é impossível é uma interpretação correta do Paradoxo do Avô. Só que essa não é a única conclusão possível.


A criação do paradoxo depende de outros fatores do cenário, e para que ele se forme, devemos assumir que viajar no tempo é matar o avô no passado são ações possíveis à luz da teoria das linhas do tempo alternativas — segundo a qual o viajante volta ao passado — não para o próprio passado, mas para um passado de um universo até então idêntico ao dele até ele estragar tudo voltando no tempo e chegando até lá. 


Mas talvez a viagem no tempo separe o universo em duas linhas, numa das quais o avô do viajante conheceu a avó e outra na qual o viajante executou seu plano assassino. Assim, existe o avô original, que sempre esteve vivo, conheceu a avó e constituiu família, e o avô do universo alternativo que o viajante matou. Em outras palavras, esses dois avôs, tecnicamente diferentes, estariam um morto e o outro vivo ao mesmo tempo.


Uma consequência dessa solução para o paradoxo é que o viajante nunca muda o próprio passado, mas somente um passado alternativo, evitando qualquer paradoxo por conta disso. Claro que essa solução também precisa de algum tipo de universo paralelo para fazer sentido, mas talvez exista outra solução possível.


Em suma, existem basicamente três premissas no paradoxo do avô: a primeira é que viajar no tempo é possível; a segunda é que o viajante pode alcançar as condições certas (8:06) para matar o avô; e a terceira é que o avô que ele matou é o mesmo que se casou com a sua avó, e não uma versão alternativa em outra linha do tempo. A única premissa que ainda não negamos é a de que o passado está determinado e é impossível modificar o que já aconteceu. Assim, ainda que seja possível voltar no tempo, não é possível matar o próprio avô. 


Num primeiro momento, essa parece uma boa solução, mas apenas se partirmos do pressuposto de que o livre-arbítrio não existe. Uma vez que a viagem no tempo exista, o que exatamente é o passado e o que exatamente é o futuro são coisas relativas. Hoje, meu futuro é o amanhã, o mês que vem, o ano que vem. Se eu voltasse até maio passado, meu futuro seria o mês de junho, e assim por diante. Assim, se a viagem no tempo for realmente possível, sempre será possível mudar o passado e alterar o futuro. 


Isso nos leva de volta ao Paradoxo do Avô, mas a solução aqui é simples: talvez não seja possível mudar nem mesmo o futuro, pois tanto o passado quanto o futuro já têm os seus fatos determinados. Existem verdades que não podem ser mudadas — nem no passado, nem no futuro —, da mesma forma que não é possível alguém voltar no tempo para impedir que o avô conheça a avó. Isso sempre esteve determinado, independente de viagens no tempo. Nesse cenário, toda a história é como um filme; todas as informações do que acontece já estão determinadas, não importa qual parte do filme se esteja assistindo. 


Nem todo mundo concorda com a ideia desse universo determinístico, mas existem outros argumentos que embasam a impossibilidade de mudar sem afrontar o livre-arbítrio. A ideia mais popular é o princípio da autoconsistência de Novikov — também conhecido como lei da conservação da história —, segundo o qual a possibilidade de qualquer capaz de causar um paradoxo temporal acontecer é zero.


Dito isso, e considerando que matar o avô no passado cria um paradoxo, então a probabilidade de o viajante ter sucesso nesse intento é zero — talvez a máquina do tempo falhe nessa viagem, ou talvez o viajante chegue ao passado, mas seja atropelado ou sofra outro acidente qualquer que o impeça de evitar que o avô conheça a avó. Ou talvez ele saque a arma, mire o avô e o tiro falhe misteriosamente. 


Ao transformar a possibilidade de criar um paradoxo em zero, essa probabilidade tem que ir para outros eventos menos prováveis. Se a chance de a arma falhar atirando normalmente é de menos de 1%, quando o viajante tenta matar o avô, criando um paradoxo, a chance de o tiro falhar misteriosamente aumenta para 100%. Ainda que a arma funcione perfeitamente em qualquer outro cenário, ela sempre irá falhar quando o viajante tentar matar seu avô.


Viajar no tempo talvez seja 100% possível segundo as leis da física, mas impossível à luz da lógica. Talvez o universo crie situações absurdas dignas de um desenho animado para impedir que viajantes do tempo tenham sucesso em mudar o passado. Aliás, o conceito dos paradoxos temporais pode ser usado de forma ainda mais radical, já que a possibilidade de voltar ao passado implica uma infinidade de ações que podem causar inconsistências e contradições, e esses eventos têm todos probabilidades zero de acontecer.


Em face do exposto, é mais provável que toda tentativa de viajar para o passado falhe, mesmo que a viagem no tempo seja fisicamente possíveis. E mais: supondo que seu hipotético neto invente uma máquina do tempo no futuro, as chances de você morrer ou ficar infértil antes de ter filhos aumentam consideravelmente, impedindo, consequentemente, que seu descendente viaje no tempo e crie os indefectíveis paradoxos. 


Continua…

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SERÁ POSSÍVEL ENVIAR SINAIS PARA O PASSADO?

O UNIVERSO PODE SER INFINITO, MAS A MENTE HUMANA DESENHA SEUS LIMITES.

Ao revisitar as equações relativísticas publicadas por Albert Einstein no início do século XX, pesquisadores chegaram a uma conclusão que parece saída de ficção científica: em certos universos, seria possível enviar mensagens para o passado.


A ideia abre espaço para imaginar conversas em tempo real com outras formas de vida sencientes — caso existam —, independentemente da distância. Em outras palavras, as equações do físico alemão revelam atalhos secretos pelos quais sinais podem atravessar o cosmo.


Curiosamente, isso não depende da mecânica quântica nem do famoso “emaranhamento fantasmagórico” entre partículas, mas nasce da física clássica, na versão relativística apresentada em 1905. Einstein, aliás, sempre foi cético em relação a certos aspectos da mecânica quântica. É fascinante perceber que suas próprias ideias sobre a relatividade restrita podem produzir fenômenos semelhantes à “ação à distância” que tanto o intrigava. Por outro lado, convém esclarecer: enviar sinais para o passado não significa inverter a seta do tempo. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Alexandre de Moraes ligou o botão do foda-se. Incapaz de refutar as suspeitas, passou a operar no modo desespero e a se mostrar capaz de tudo para matar as provas que o ligam a Daniel Vorcaro. Sem despir a toga, comporta-se como qualquer investigado em apuros: cola em André Mendonça a pecha de juiz parcial.

Suprema ironia: Moraes enfiou Mendonça no inquérito das fake news — aquele que Dias Toffoli abriu há quase oito anos, a pretexto de investigar os inimigos da suprema corte. Acusa-o de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. Sustenta que o colega atua como investigador, direciona investigações e se mete até na negociação de delações.

O objetivo primordial de Moraes está mal disfarçado atrás de uma expressão técnica. Ele insinua que houve "quebra da cadeia de custódia das provas". Usa em causa própria o bordão preferido de investigados indefensáveis. Serve para semear tumulto em inquéritos, para colher futuras nulidades processuais.

Com sua vingança, Moraes realiza o pesadelo da perda de autoridade. Realiza também o sonho de autoridades e políticos comprados por Vorcaro. 

A história mostra que a implosão de inquéritos conduz a acordos que restauram a imoralidade. A diferença é que agora as provas não são as únicas vítimas. O produto final é o cadáver do próprio Supremo.


A física descreve futuro e passado de forma simétrica, embora nossa experiência humana os diferencie. Assim, o fenômeno não altera nossa vivência temporal, mas pode permitir, por exemplo, que um sinal enviado da Terra ao meio-dia chegue a Proxima Centauri antes mesmo desse horário.


Quem assistiu à trilogia “De Volta para o Futuro” pode pensar em paradoxos, mas os cientistas garantem: não se trata de universos paralelos nem da interpretação de muitos mundos da mecânica quântica. É pura relatividade. Ainda assim, o debate sobre múltiplos universos permanece vivo, especialmente quando se discute a energia escura — esse valor incrivelmente pequeno que desafia explicações em um universo único.


Alguns físicos acreditam que apenas a hipótese de muitos mundos pode dar conta desse mistério. Outros a consideram absurda. Mas descartar de plano seria precipitado: se um fenômeno não puder ser explicado em um único universo, talvez seja preciso recorrer a essa teoria. Mas é importante não confundir ciência com espiritualidade: a física pode dialogar com a filosofia, mas não deve ser usada como base para crenças místicas. O livre-arbítrio, por exemplo, continua em debate entre filósofos e físicos, e a balança parece pender para a ideia de que não existe.


Einstein dizia que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão persistente. Essa afirmação é tão filosófica quanto científica. E mostra como física e filosofia podem se encontrar — ainda que muitos físicos resistam a esse diálogo. Outras ideias especulativas sugerem regiões do cosmos onde o tempo corre na direção oposta. Já as mais convencionais imaginam o Big Bang como um início altamente ordenado, seguido pelo aumento da entropia. Mas por que o começo foi tão ordenado?


Essa pergunta desafia a física há décadas. A teoria das cordas, que busca unir a mecânica quântica à gravidade, pode fornecer a resposta, mas ainda carece de comprovação experimental. E o mesmo vale para qualquer teoria que tente conciliar os dois pilares da física moderna: a quântica, precisa no micromundo das partículas, e a relatividade geral, precisa no macromundo das estrelas e galáxias. Já o Modelo Padrão continua a explicar com precisão os dados dos aceleradores de partículas, mas ainda há mistérios: não sabemos o que é a matéria escura, responsável pela maior parte da gravidade do universo, nem a energia escura, que acelera sua expansão.


Esses enigmas mostram que a física está longe de ser um edifício completo. E talvez isso seja sua maior beleza: sempre haverá perguntas em aberto, sempre haverá vertigens de perspectiva. Como disse Niels Bohr, quem não fica chocado ao aprender mecânica quântica pela primeira vez é porque não a entendeu.

A física nos arranca o chão e nos mostra que, sob a superfície, existe um mundo radicalmente diferente daquele que experimentamos no cotidiano. É nesse abismo de possibilidades que mora a verdadeira aventura intelectual: compreender que o tempo, o espaço e até o passado podem ser muito mais maleáveis do que ousamos imaginar.

domingo, 6 de setembro de 2026

NÃO É BOMBRIL, MAS TEM 1001 UTILIDADES

O BRASIL É O PAÍS DO FUTURO QUE TEM UM GRANDE PASSADO PELA FRENTE. 

Papel-alumínio é o tipo de "coringa" que uma cozinha simplesmente não pode ficar sem. Além de assar ou cobrir alimentos, esse utensílio serve para dissolver os grumos do açúcar mascavo — cujo uso vem se tornando comum —, bastando para isso embrulhá-los em papel-alumínio e colocar no forno a 150 graus por cerca de 5 minutos. Mas não é só.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Numa crise institucional, só há duas posições possíveis para um presidente da República: ser parte da solução ou ser parte do problema. Flávio Bolsonaro se aproveita do silêncio do Planalto para arrastar Lula para o mesmo pântano em que se encontra Alexandre de Moraes. Antes de reagir, o petista decidiu flertar com a imprudência testando a profundidade do lodo do Supremo com os dois pés.

Estalando de pureza moral, o filho do golpista presidiário sonega explicações sobre o Dark Horse, mas cavalga o mote "Fora Lula - Fora Moraes" para turbinar nas redes o ato bolsonarista de 7 de Setembro na Avenida Paulista. Simultaneamente, Lula se encontrou com três togas em dois dias — na terça-feira, Gilmar Mendes e Edson Fachin; na quarta, Flávio Dino.

Gilmar foi o mais explícito. Disse ao molusco que o governo é culpado pela crise que engolfa o Supremo. Nessa versão, o Planalto teria ignorado alertas do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, sobre intromissões de André Mendonça nas investigações do caso Master e do INSS. Lula optou pela tentativa de pacificação sugerida pelo advogado-geral Jorge Messias, "irmão em Cristo" de Mendonça.

Há um mês, o macróbio tomou um lado e assumiu um risco ao fazer as pazes com Davi Alcolumbre, num jantar na casa de Alexandre de Moraes. Agora, demora a notar que o silêncio deixou de ser uma opção. O caso das relações promíscuas de Moraes com Daniel Vorcaro deixou de ser problema de um magistrado. É uma crise institucional do Supremo, com respingos na PGR e na PF. 

Conviria a Lula informar rapidamente de que lado escolheu ficar. Ainda que isso não resolva a crise, ao menos ajuda a expor o cinismo do 7 de Setembro bolsonarista.


— Quando for assar uma torta no forno, envolva em papel-alumínio as bordas da massa — isso evita que elas queimem antes que o recheio termine de assar.


— Cubra a base do forno com papel-alumínio para protegê-lo de manchas difíceis de remover (convém colocar mais de uma folha para evitar que o líquido vaze pelos lados). Outra dica é cobrir o fundo de uma barra de sabão com papel-alumínio para que ela não derreta.

— Para eliminar manchas em seus talheres, coloque um pedaço de papel-alumínio em uma panela rasa, despeje água quente, adicione um pouco de sal e bicarbonato de sódio e então mergulhe os talheres nessa solução. Feito isso, deixe o molho agir por algumas horas e então lave os talheres em água fria e seque com um pano limpo.

— Para deixar uma panela de alumínio brilhando como nova, faça uma bola de papel-alumínio e use para esfregar a panela — e outros utensílios de cozinha que precisam ser "areados".

— Colocar um pouco de papel-alumínio sob os "pés" do móvel que você quer mover faz com que ele deslize mais facilmente ao longo do caminho.

— Afie suas tesouras dobrando um pedaço de papel-alumínio em 8 camadas e cortando-o várias vezes — quanto mais você cortar, mais afiada ela ficará. E caso você resida em uma região fria e use roupas de lã ou de outros materiais que acumulam eletricidade estática, pegue uma folha de papel alumínio, faça uma bola e coloque dentro da secadora.

— Encurte o processo de passar as roupas colocando uma folha de papel-alumínio sobre o que você deseja engomar — juntamente com o calor do ferro, o alumínio vai deixar ambos os lados prontos ao mesmo tempo.

— Para limpar a parte inferior do ferro de qualquer sujeira que tenha agarrado a ele, coloque um pedaço da folha de papel-alumínio na tábua de passar, polvilhe um pouco de sal, aqueça o ferro e simplesmente a "passe" a folha até o fundo do ferro ficar limpo.

— Dispositivos alimentados por pilhas, como controles remotos, deixam de funcionar quando a mola do compartimento da bateria perde sua elasticidade e torna-se plana. Caso não possa substituir o dispositivo, dobre um pedaço de papel-alumínio algumas vezes e insira-o entre a bateria e a mola que pressiona o polo negativo (chato) das pilhas.

— Aquecedores portáteis colocados muito perto da parede desperdiçam parte do calor gerado. Para evitar, cubra uma placa de isopor ou uma tábua fina de madeira com papel-alumínio e coloque-a atrás do aquecedor Assim ela vai "espelhar" o calor e aquecer o ambiente de modo mais eficiente.

Note que os dois lados do papel-alumínio são feitos do mesmo material; o brilho vem só do processo de fabricação. Na culinária, tanto faz usar o lado brilhante ou o fosco, mas vale lembrar que, por ser mais liso, a face brilhante reduz um pouco a aderência de alimentos e molhos. A diferença pode ter algum efeito (pequeno): na reflexão de radiação térmica — o lado brilhante tende a refletir mais calor, enquanto o fosco absorve um pouco mais.

Para manter algo frio por mais tempo (ex.: bolo na geladeira): lado opaco para dentro e brilhante para fora, refletindo o calor externo, e para manter algo quente ou concentrar calor num assado, use o lado brilhante voltado para o interior do embrulho. Mas vale lembrar que essa diferença é mínima no dia a dia — embrulhar um sanduíche ou tampar uma travessa não muda nada perceptível —, embora ganhe alguma relevância em situações específicas de forno ou congelamento prolongado.


Até a próxima.

sábado, 5 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 115ª PARTE

SPACE BENDS, TIME BREAKS (O ESPAÇO SE CURVA, O TEMPO PARA). 


Vimos que nem toda a evolução havida desde a invenção da roda até os tempos atuais permitiu que a ciência explicasse a natureza do tempo, que acomodasse numa única equação matemática a teoria da relatividade e a mecânica quântica, e que viajar para o futuro depende somente de conseguirmos construir espaçonaves capazes de singrar o cosmos em velocidades próximas à da luz, levar os astronautas até as proximidades do horizonte de eventos de um buraco negro, ou então atravessar um buraco de minhoca.


Voltar ao passado, todavia, é mais complicado, pois esbarra numa série de obstáculos impostos pelas leis da física clássica — sem falar que o simples desembarque do viajante numa época pretérita bastaria para alterar os acontecimentos e criar um "novo futuro", como explica o célebre paradoxo do avô


A boa notícia é que segundo o físico Lorenzo Gavassino, uma combinação da teoria da relatividade geral com a mecânica quântica e a termodinâmica sugere que é possível viajar para o passado sem criar contradições. Para não estender demais este texto, vou deixar para detalhar o Paradoxo do Avô e a Teoria das Cordas numa próxima postagem, até porque, quando escrevemos sobre esses assuntos, cada pena puxada traz uma galinha inteira.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

André Mendonça levantou o tapete. Mandou ouvir a PGR sobre o mau cheiro. O procurador-geral Paulo Gonet opinou pela anulação da imundície. Apontou "dupla nulidade", sob o pretexto de que a Polícia Federal e a Procuradoria não pediram a vassoura. E o plenário do Supremo não autorizou a faxina nas relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.
A coisa se encaminha para mais um acobertamento de rotina. Mas a turma do abafa precisará responder a uma pergunta singela: "E a sujeira?". O que fazer com as mensagens endereçadas a Moraes? Com o pedido de proteção? Com os apelos para que intercedesse junto aos chefes da PF, da PGR e do BC? Com a pergunta de Vorcaro a Moraes sobre se deveria sair do país pouco antes de ser preso?
Gonet aparece no relatório que Mendonça encomendou à PF como parte do detrito. Numa mensagem, manda um advogado amigo dizer a Vorcaro que está "com saudade". Confirma presença num evento patrocinado pelo banqueiro mafioso em Londres: "Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan". Pede a inclusão do filho, Pedro Gonet, no convescote.
A liberalidade metodológica, quando é muita, acaba engolindo os donos. O tapete do Supremo ficou pequeno. O resort vendido por Toffoli ao cunhado de Vorcaro já vaza pelas bordas. Com Moraes, o excesso tende a tornar tudo insignificante, exceto a pergunta: "E a sujeira?"

Embora nossa compreensão do tempo se baseie na física newtoniana, a teoria da relatividade desafia o pressuposto intuitivo de que os acontecimentos progridem linearmente do passado para o futuro, sugerindo que o espaço-tempo pode se comportar de formas bizarras, como demonstram os buracos negros (cuja existência já foi comprovada).

Como dito no post anterior, uma curva temporal fechada permitiria a um viajante do tempo seguir caminhos diferentes sem alterar o futuro, já que a criação de uma linha do tempo alternativa a cada decisão tomada tornaria a volta ao passado factível. Por outro lado, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e consequências.

Einstein bem que tentou, mas não conseguiu desenvolver uma equação capaz de descrever a realidade inteira. Outros físicos seguiram seus passos — entre os quais Stephen Hawking —, mas nenhum deles teve melhor sorte, e a busca por uma regra fundamental escondida por trás da diversidade do universo continua. E não faltam teorias que visam elucidar essa questão, sendo a Teoria de Tudo uma das mais promissoras.

Por muito tempo, falar sobre universos paralelos foi tabu entre a comunidade científica, mas não há nada como o tempo para passar, e teorias que se baseiam na hipotética existência de multiversos têm seus defensores e seus detratores. Mas os universos paralelos não são teorias em si, e sim previsões de determinadas teorias que sustentam a existência de fenômenos impossíveis de ser observados — como os buracos de minhoca, que continuam no campo das conjecturas embora "façam parte do pacote" da relatividade geral de Einstein, e o mesmo acontece com os universos paralelos em teorias como a inflação infinita, e talvez até na mecânica quântica.

A existência de universos paralelos foi defendida por cientistas do quilate de Stephen Hawking e Neil deGrasse Tyson, mas o problema é que o tema suscita muita confusão, sobretudo porque não se sabe de qual tipo de universo paralelo se está falando. Para facilitar, o livro Our Mathematical Universe, do cosmólogo Max Tegmark, dividiu os universos paralelos em quatro níveis diferentes. Vamos a eles:

O Multiverso de Nível 1, também conhecido como Quilted, é todo o cosmos que está tão longe que sua luz ainda não teve tempo de chegar até nós, embora o Big Bang tenha ocorrido há cerca de 13,8 bilhões de anos. A propósito, o universo "observável" é uma esfera com raio de 49 bilhões de anos-luz, conhecida como Esfera Hubble, e tudo que fica fora dela pode ser considerado outro universo.

Esse nível fica mais interessante quando paramos para pensar que existem apenas finitas maneiras de rearranjar as partículas do universo observável. Significa dizer que se pudéssemos singrar o cosmos por tempo suficiente, acabaríamos nos deparando com um clone da Terra com cópias idênticas dos terráqueos, da mesma forma que um macaco digitando aleatoriamente em um teclado por um período de tempo infinito acabará escrevendo a obra completa de Shakespeare. Vale destacar que esse nível do universo obedece às leis da física clássica e às constantes cosmológicas conhecidas, de modo que, pelo menos, em teoria, poderemos alcançá-lo quando e se desenvolvermos tecnologia avançada o suficiente para isso.

Para entender o Multiverso de Nível 2 é preciso compreender a Teoria da Inflação Cósmica, segundo a qual existiu um momento de inflação imensa e quase instantânea logo depois do Big Bang. Todavia, diferentemente de uma bolha de sabão, que ocupa espaço em um ambiente externo, o Universo não precisa de um exterior para se expandir. Uma teoria elegante, proposta por Stephen Hawking, é a da fronteira sem fronteira — um modelo de tempo imaginário no qual o cosmos seria como a superfície da Terra: finito, mas sem uma borda nem uma singularidade inicial.

Conforme Einstein estabeleceu em sua teoria da relatividade geral, pressão negativa gera gravidade repulsiva. Assim, uma substância em estado de inflação cósmica produz uma antigravidade que a explode, e a energia que essa antigravidade usa para expandir cria massa suficiente para que ela duplique de tamanho e continue a duplicar de novo e de novo. Ou seja, cria-se um universo inteiro sem tomar lugar de qualquer outra coisa, e assim diversos espaços infinitos poderiam existir dentro de um espaço finito.

Observação: Não se sabe porque as constantes cósmicas do universo têm os valores que têm, mas sabe-se que isso é fundamental para que tudo exista como conhecemos. O físico Alan Lightman explica no livro The Accidental Universe que se a quantidade de energia escura do nosso universo fosse um pouquinho diferente, a vida nunca poderia ter surgido.

Em suma, o Multiverso de Nível 2 é um conjunto de universos tecnicamente incomunicáveis, já que cada um deles é infinito, apesar de ocupar um espaço finito se visto de fora. Mas a aceitação desse nível de multiverso depende da aceitação geral da própria Teoria da Inflação Eterna, que sugere boas soluções para vários outros problemas misteriosos. Aliás, trata-se da melhor hipótese que temos para resolver um dos problemas mais misteriosos do nosso próprio Universo: o da “afinação” (ou fine-tuning). 

Diferente dos outros dois, o Multiverso de Nível 3 é o "queridinho" das obras de ficção científica e do imaginário popular. Segundo a interpretação de Copenhague, proposta por Niels Bohr e Werner Heisenberg, antes de ser observada, cada partícula se comporta também como onda e está em um estado de superposição quântica — ou seja, em dois ou mais locais ao mesmo tempo. Mas quando observamos essa partícula/onda, ela "escolhe" um local único para se mostrar como partícula. Mas uma teoria alternativa que está ganhando cada vez mais atenção é a chamada Interpretação dos Muitos Mundos, proposta por Hugh Everett em 1957.

Segundo essa teoria, a onda jamais entra em colapso, de modo que todas as possibilidades de localização seriam igualmente verdadeiras, criando uma infinidade de bifurcações quânticas, cada uma dando origem a um universo paralelo, onde tudo que pode acontecer acontece em algum lugar. Ou seja – existem milhões de versões de cada um de nós vivendo em universos ligeiramente ou totalmente diferentes, e cada vez que tomamos uma decisão, um clone de nós toma a decisão oposta em algum universo paralelo.

No famoso experimento do gato de Schrödinger, o gato está em um estado de superposição quântica — vivo e morto ao mesmo tempo —, e seu futuro só é decidido no momento em que a caixa é aberta (obrigando a partícula a decidir se decai ou não). Na Interpretação de Everett, no entanto, o universo se separa em dois, e o gato está vivo num deles e morto no outro, sem jamais interagirem um com o outro.

A ideia de que milhões de universos paralelos existem parece absurda, mas não é mais incoerente do que a possibilidade de uma partícula se comportar como onda, estar em vários locais ao mesmo tempo e mudar de estado de modo totalmente randômico quando é observada (como disse Richard Feynman, "ninguém realmente compreende a mecânica quântica").

Os cientistas avessos à Interpretação dos Muitos Mundos se escoram na Navalha de Occam — a explicação mais simples tende a ser a verdadeira — já que seria complicado adicionar infinitos universos paralelos para justificar a existência do nosso. Mas trata-se apenas de uma maneira diferente de olhar para os mesmos dados e os mesmos resultados, já que as equações que admitem a existência desses universos já existem.

Por último, mas não menos importante, resta dizer que o Multiverso de Nível 4 engloba todos os multiversos dos níveis 1, 2 e 3 numa única estrutura matemática infinitamente complexa, e que aceitar essas hipóteses sobre a maneira como a realidade se comporta vai de encontro (e não ao encontro) a nosso instinto fundamental de acreditar que somos o centro do universo.

Esse tipo de egocentrismo natural pode até ser socialmente repulsivo, mas é a nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento. Mesmo porque nunca tivemos uma experiência da qual não fomos o centro absoluto. Mas talvez o multiverso incomode porque reduz a existência de cada um à sua insignificância, e o ser humano tem dificuldade em aceitar a ideia de que ele não é essencialmente especial.

Continua…