segunda-feira, 20 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE EQMs

OS HOMENS TEMEM A MORTE COMO AS CRIANÇAS TEMEM A ESCURIDÃO.

Evidências são indícios que apontam para a ocorrência de fatos; fatos são os acontecimentos propriamente ditos; e provas são os meios usados para demonstrar que os fatos efetivamente ocorreram. 


Na percepção distorcida e limitada dos que padecem de cegueira mental, as EQMs (detalhes no capítulo anterior) não são evidências de coisa alguma. Os céticos as veem como um fato, mas não como prova da existência da "alma imortal" ou de que a consciência sobrevive à morte clínica. Para quem tem a mente aberta e cultiva o saudável hábito de raciocinar, esse fenômeno dá o que pensar.


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Até um burro cego morde a cenoura de vez em quando. Lula falou muita bobagem durante suas três gestões (bem menos do que Dilma em uma gestão e meia, mas enfim), e, como ensina o teorema do macaco infinito, toda araruta tem seu dia de mingau. Interessa dizer que o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, seu provável adversário na disputa pela Presidência deste ano (que Deus nos livre da vitória de qualquer um desses dois dejetos) foi o sujeito oculto do macróbio eneadáctilo no Fórum em Defesa da Democracia, no sábado 19, em Barcelona. Sem citá-lo, o xamã petista o tratou como um risco à democracia no Brasil. Em timbre de palanque, Lula disse: "Temos um ex-presidente preso condenado a 27 anos de cadeia, temos quatro generais quatro-estrelas presos porque tentaram dar o golpe." Numa referência ao filho de Bolsonaro, disse que "o extremismo não acabou, ele continua vivo e vai disputar eleição outra vez." Quem sabe ouvir nas entrelinhas percebe na fala a intenção de Lula de reativar em 2026 o fator democrático que lhe rendeu a vitória, por pequena margem, na sucessão de 2022. Na campanha de 2022, Lula prometeu governar para todos. Assegurou que faria um governo "para além do PT". Eleito com uma diferença de 1,8 ponto percentual, preferiu intensificar a polarização. Perdeu ao longo de três anos e meio de mandato o apoio dos eleitores que votaram nele para mandar Bolsonaro mais cedo para casa. Na pesquisa Quaest do mês passado, 48% dos independentes diziam que o filho do pai não era mais moderado que sua família. Na sondagem divulgada nesta semana, esse percentual caiu para 45%. Em janeiro, o molusco estava 16 pontos à frente do rival nesse nicho do eleitorado. Agora, a diferença se inverteu por uma vantagem de sete pontos.


EQMs que acontecem quando não há atividade no córtex frontal (morte clínica) são documentadas a partir de relatos feitos pelos próprios pacientes após a reanimação. Se não há registros delas em casos de morte encefálica, é porque a irreversibilidade dessa condição exclui a possibilidade de reanimação — ou seja, se o paciente já atravessou a via de mão única que leva ao "lado de lá", não há como colher seu depoimento, a menos que ele compareça a uma sessão de mesa branca ou reencarne e preserve lembranças da vida anterior.

 

O "roteiro" da maioria das EQMs documentadas é quase sempre o mesmo: a pessoa "trazida de volta" relata que viu próprio corpo morto, foi "sugada" para um túnel de luz, viu a própria vida como num filme, reencontrou parentes já falecidos, mas sentiu que precisava retornar ao corpo. Alguns pacientes descrevem um profundo sentimento de paz e um estado ampliado de consciência, mas os relatos mais impressionantes são os que incluem detalhes do que aconteceu enquanto eles estavam clinicamente mortos, sobretudo porque esses detalhes são confirmados por médicos, parentes e outras pessoas que assistiram aos procedimentos de reanimação. 

 

Se a consciência é produzida pelo cérebro, como ela pode continuar existindo depois que o cérebro parou de funcionar? Não há uma resposta fácil, a não ser para quem se escora em dogmas meramente impositivos — se Deus quis assim, então é assim e ponto final. Mas à luz da ciência, o buraco é mais embaixo (a propósito, sugiro a leitura do livro Experiências de Quase Morte – Ciência, mente e cérebro, do neurocirurgião Edson Amâncio).


EQMs e vida após a morte são coisas diferentes, ainda que correlacionadas. Tudo se resume — se é que se pode "resumir" conceitos tão complexos — à incerteza sobre o que acontece "depois", ou mesmo se existe um "depois". Os religiosos acreditam na imortalidade da alma, mas o que é a religião senão a evolução do misticismo que levou nossos ancestrais a endeusar o Sol, a Lua, os raios, os trovões e tantos outros fenômenos que hoje sabemos que são naturais? 

 

Para os católicos, a alma é única e eterna e a morte carimba o passaporte que autoriza os "bons" a ingressarem no Reino dos Céus — depois de uma escala no Purgatório — e despacha os "maus" para as profundezas da Inferno, onde serão cozidos em óleo fervente ou assados em espetos por toda a eternidade.


Observação: Aqui caberia abrir um parêntese para discutir o conceito de eternidade, mas vou deixar essa discussão para outra ocasião. Quanto ao inferno, sugiro a leitura desta anedota sobre o "inferno brasileiro".

 

Os espíritas acreditam que a alma sobrevive à morte física e passa para um novo plano astral; que Deus nos criou simples e ignorantes — sem discernimento do mal e do bem —; que quem pratica o mal reencarna várias vezes até evoluir espiritualmente; e que quem pratica a caridade, o bem e o amor só reencarna se quiser. Para eles, os espíritos desencarnados possuem a capacidade de se ligar a outros espíritos — encarnados ou não, de acordo com a sintonia e a afinidade dessas almas —, o que explicaria a existência de lugares com diferentes níveis vibratórios..


O Judaísmo admite múltiplas interpretações. Algumas vertentes acreditam na sobrevivência da alma, mas não têm um roteiro definido sobre o que acontece depois da morte — ou mesmo se existe vida após a morte. Segundo a Cabala, a alma é imortal, e as provações que cada um enfrenta em vida levam a seu aperfeiçoamento. Existem, segundo eles, três tipos de almas, e o desligamento do corpo não é imediato (podendo levar de 30 dias a 1 ano). Enquanto a alma está ligada ao corpo, não há possibilidade de reencarnação, daí os familiares do finado cobrirem os espelhos da casa e rezarem o Kadish.

 

Os budistas acreditam que o espírito reencarna, podendo voltar como gente ou como animal, dependendo de sua conduta durante a vida, e que esse ciclo se repete até que o espírito se liberte de seu carma. No Japão, além de flores no caixão, uma tigela com arroz cozido, água, um vaso com flores, velas e incenso são colocados sobre uma mesa, para que nada falte ao morto. 


Para os islâmicos, a vida é uma preparação para outra existência. A morte dá início ao primeiro dia na eternidade, onde as almas dos muçulmanos ficam aguardando o juízo final. Quem seguiu as leis de Alá e as tradições dos profetas é enviado para o Paraíso; e quem foi desviado por Xeitã é despachado para o Inferno.


Segundo o Candomblé, as pessoas são formadas por elementos constitutivos perecíveis (corpo) e imperecíveis (ori), e a vida continua por meio da força vital (o ori retorna em outro corpo, mas dentro da mesma família. Não há punição eterna nem a ideia preconcebida de Céu e Inferno; a morte é considerada uma passagem para outra dimensão, onde os espíritos se reúnem aos guias e orixás. Já na visão dos umbandistas, o universo é formado por sete linhas, cada qual regida por um orixá, e a morte é uma etapa evolutiva (clique aqui para mais detalhes sobre as religiões afro-brasileiras).

 

No Hinduísmo, a pessoa é a alma, não o corpo físico. Após a morte, a alma se separa do corpo e parte rumo a outra dimensão. Almas evoluídas voltam em altas castas — como a dos brâmanes, composta por filósofos e sacerdotes. Guerreiros e políticos pertencem à casta dos xátrias, e os menos evoluídos reencarnam como comerciantes (casta dos vaishyas) ou trabalhadores (casta dos sudras). Quem consegue se desapegar do mundo material e atinge um patamar elevado não está obrigado a reencarnar.

 

Para os batistas, quem aceitar Jesus terá uma vida de paz e felicidade no Paraíso, e quem não aceitar, uma vida de dor, angústias e sofrimento no inferno. Já os adventistas acreditam que os mortos dormem até o momento da ressurreição, quando então os que cumpriram seu papel na Terra ganham a vida eterna, e os demais desaparecem. Para os sectários da Cientologia — como John Travolta e Tom Cruise — o thetan (espírito) sai em busca de um novo corpo no qual retornará à vida. Segundo seus sectários, 75 milhões de anos atrás havia dezenas de planetas governados como uma confederação por Xenu — um líder maligno que enviou bilhões de espíritos para a Terra. Assim, os terráqueos são reencarnações desses extraterrestres, que são imortais e, portanto, continuam reencarnando ad aeternum.

 

A exemplo dos católicos, os evangélicos acreditam no juízo final e na existência de Paraíso, Inferno e Purgatório. A diferença é que, segundo eles, as almas ficam adormecidas até Jesus voltar à Terra e decidir quem irá com ele para o Reino dos Céus e quem passará a eternidade num lago de enxofre e fogo. Já os protestantes descartam a reencarnação, mas não a existência de Céu e Inferno. Segundo eles, o julgamento ocorre não pelas ações da pessoa em vida, mas pela fé que ela teve na palavra de Deus e pelo amor ao Senhor.


De acordo com o fisicalismo — que é o cientificismo reducionista e materialista aplicado à neurociência — o cérebro produz a mente. Seus sectários desdenham das experiências de quase-morte, escarnecem de quem afirma lembrar de vidas passadas e negam a mediunidade — mas não oferecem uma explicação convincente para casos notórios, como os da norte-americana Leonora Piper e do brasileiro Chico Xavier.

 

Não há provas irrefutáveis de que a consciência (ou alma, ou espírito) sobreviva à morte física, mas sobram indícios que levam água a esse moinho. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e cosmólogo e romancista Carl Sagan, ausência de evidências não é evidência de ausência (na verdade, essa ideia foi desenvolvida por William Wright em 1887; Sagan apenas popularizou o aforismo num livro que escreveu sobre a existência de seres extraterrestres). 

 

Escorar-se na falta de evidências para negar a existência de seja lá o que for é afrontar a ciência, já que ela amplia os limites do conhecimento transitando entre o conhecido e o desconhecido. Os fenômenos que mencionei ao longo deste capítulo existem, mas explicá-los é outra história. Por outro lado, refutá-los de plano é o mesmo que retroceder pelo caminho que levou a humanidade do obscurantismo ao iluminismo. Em outras palavras, em não havendo fraude envolvida, negá-los é comprovar o que teria dito Einstein sobre a infinitude da estupidez humana.

 

Continua…

domingo, 19 de abril de 2026

CONTRAFILÉ — NA BRASA OU NA FRIGIDEIRA, SEMPRE UMA BOA OPÇÃO

EGOÍSTA É A PESSOA QUE PENSA MAIS EM SI MESMA DO QUE EM MIM.

Eu pretendia incluir no post do último domingo uma receita de rosbife (semelhante, mas não exatamente igual à que publiquei em julho do ano retrasado), mas resolvi deixar para hoje, para que o texto não se estendesse demais. Dito isso, vamos em frente.


Os melhores cortes para rosbife são o miolo do filé-mignon e o lagarto redondo, mas a alcatra e o contrafilé também dão bons resultados — lembrando que o “charme” do rosbife é ser tostado por fora e rosado por dentro.


Você vai precisar de um pedaço de contrafilé de aproximadamente 1,2 kg, 4 colheres (sopa) de óleo ou azeite, uma colher (sopa) de manteiga, 1 dente de alho picado, sal e pimenta-do-reino a gosto (se quiser, inclua na lista de temperos alho em pó, cebola em pó, páprica, ervas frescas ou secas, como tomilho, alecrim, salsa).


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Ao determinar a prisão de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, e do advogado Daniel Lopes Monteiro, o ministro André Mendonça disse haver uma “altíssima capacidade de reorganização” da organização criminosa, mesmo após a deflagração das operações policiais. Segundo a PF e a Procuradoria-Geral da República (PGR), o ex-presidente do BRB era peça essencial para viabilizar a aquisição das carteiras fraudulentas. Em contrapartida, ele teria acertado o recebimento como propina seis imóveis de alto padrão em São Paulo e Brasília, avaliados em R$ 146,6 milhões, dos quais R$ 74,6 milhões já teriam sido efetivamente pagos.

Já Daniel Lopes é apontado como operador jurídico-financeiro do esquema investigado, especialmente na formalização das operações entre Master, Tirreno e BRB e na ocultação do beneficiário real das aquisições imobiliárias. De acordo com as investigações, o advogado recebeu pelo menos R$ 86,2 milhões pelo esquema fraudulento. 

Costa e Daniel Monteiro foram presos nesta quinta-feira durante a 4ª Fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no Banco Master. De acordo com as investigações, para operacionalizar o pagamento e ocultar a titularidade real dos bens, teriam sido mobilizados fundos de investimento geridos pela Reag, bem como empresas de fachada, atribuídas formalmente a interpostas pessoas, entre elas o cunhado do advogado Daniel Monteiro.


1 — Enquanto aquece o forno a 180°C, limpe e tempere a carne com o sal e a pimenta, coloque o óleo (ou o azeite), a manteiga e o alho numa panela em fogo alto, refogue e sele a carne de todos os lados.


2— Transfira a carne para uma assadeira untada com manteiga, cubra com papel alumínio e leve ao forno por aproximadamente 1 hora ou até que ela atinja o ponto desejado (use um termômetro de cozinha para verificar a temperatura interna: 55°C para malpassado, 60°C para ao ponto, e assim por diante).


3 —Cinco minutos antes de tirar a carne do forno, acerte o ponto do sal e da pimenta, espalhando os temperos de maneira uniforme. Ao final, deixe descansar por cerca de 10 minutos antes de fatiar.


4— Se quiser, misture 8 fatias de pão de forma esfareladas com 1/4 de xícara (chá) de leite e 1 pacote de creme de cebola, misture, até formar uma pasta, aplique essa pasta sobre a carne, aperte com as mãos para firmar e coloque de volta no forno até dourar.


— Para o molho, use o caldo restante do cozimento da carne, devidamente reduzido em uma panelinha e servido à parte.


Observação: Se estiver usando um corte magro, como filé mignon, opte por um molho forte e saboroso, como o molho madeira — vinho madeira, caldo de carne, cogumelos e manteiga — ou o de pimenta verde pimenta verde, creme de leite, caldo de carne e manteiga. Se estiver usando um corte mais gorduroso, como contrafilé, prefira um molho mais leve, como o de rosbife — caldo resultante do preparo do rosbife, manteiga, farinha de trigo e creme de leite — ou o de ervas — manjericão, alecrim e tomilho, azeite, vinagre e alho.


Bom apetite.

sábado, 18 de abril de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 96ª PARTE — TERIA SIDO O BIG BANG UM BIG BOUNCE?

QUANDO A JUSTIÇA FALHA, OS HOMENS JUSTOS SE ERGUEM. 

Filosoficamente, uma realidade simulada ainda teria leis próprias e seria tão real para nós quanto qualquer outra. Mas se somos arranjos temporários de partículas em um universo indiferente destinado à morte térmica, qual é o significado objetivo da vida?


Os niilistas não acreditam num propósito cósmico; segundo eles, todo significado é uma construção humana temporária. Para os existencialistas, criamos significado por meio de escolhas e compromissos, ao passo que os seguidores do emergentismo defendem que significado, valor e propósito são propriedades emergentes reais de sistemas complexos, e embora inexistem no nível fundamental, são genuínas no nível apropriado de descrição.


Segundo a teoria do Estado Estacionário, o Universo não teve início nem terá fim — ou seja, sempre existiu e sempre existirá —, uma vez que a expansão é compensada pela criação contínua de matéria (um átomo por metro cúbico a cada bilhão de anos). Embora a descoberta da radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMB) aponte para um início quente, e não para um universo eterno e contínuo, versões modificadas dessa teoria ainda persistem.


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Ninguém viu ainda o código de ética prometido pelo ministro Fachin, mas já é possível identificar um movimento coordenado, com ações que limitam investigações, CPIs e delações. Juntas, compõem um manual de blindagem, e o pedido de Gilmar Mendes para Paulo Gonet investigar o senador Alessandro Vieira se insere nesse contexto em que o Supremo prioriza a autoproteção em vez da autocontenção. 

As togas se equipam para impor limites ao funcionamento de CPIs — farão isso ao julgar ação que discute a quebra do sigilo de Lulinha pela falecida CPI do INSS. Antes, Alexandre de Moraes reviu seus próprios conceitos para limitar o uso de relatórios de inteligência do Coaf, vitais no avanço das investigações sobre o Master. Há mais: às vésperas da delação de Daniel Vorcaro, Moraes pôs para andar ação antidelação movida pelo PT em 2021.

Antes disso, Fachin engavetou documento em que a PF apontava indícios de crime de Toffoli para permitir que o colega deixasse a relatoria do caso Master sem a pecha da suspeição. Depois, Gilmar desengavetou ação que arquivara três anos atrás para suspender a quebra dos sigilos da empresa de Toffoli na recém-encerrada CPI do Crime.

Tomadas em conjunto, as providências adotadas no Supremo constituem uma espécie de código informal de falta de ética.


Existe também a hipótese de que forças eletromagnéticas em plasmas cósmicos — e não a gravidade — dominam a estrutura do Universo em larga escala. Mas essa proposta não explica a expansão acelerada, a CMB, a abundância de elementos leves e a formação de estruturas cósmicas tão bem quanto o modelo ΛCDM


Outra possibilidade é que o fato de o universo ter passado por ciclos infinitos de expansão e contração evita a singularidade do Big Crunch. Inspirada na Teoria das Cordas e em cenários de D-branas colidindo, essa perspectiva sugere que o cosmos seria uma brana flutuando em um espaço de dimensões extras, e que colisões periódicas gerariam novos Big Bangs sem um início absoluto. Isso elimina a necessidade de um início singular, mas abre espaço para perguntas difíceis: como evitar o acúmulo de entropia ciclo após ciclo? E por que cada ciclo teria as propriedades que tem? 


Talvez o Big Bang não tenha sido uma singularidade, e sim um Big Bounce — uma contração prévia revertida em expansão ao atingir densidade crítica, porém finita. Na escala de Planck, a gravidade quântica pode gerar uma repulsão que impede o colapso total em singularidade e elimina o problema do início absoluto, permitindo que informação do universo anterior atravesse o bounce. Essa solução é matematicamente elegante, mas empiricamente desafiadora de testar. 


Outra possibilidade é a inflação cósmica continuar produzindo infinitos “universos-bolha” com propriedades distintas. A Teoria das Cordas prevê cerca de 10⁵⁰⁰ possíveis “vácuos”, cada um correspondendo a um conjunto particular de leis físicas e criando um multiverso em que todos os universos possíveis existem em algum lugar do espaço-tempo. Mas se qualquer observação pode ser explicada dizendo “isso acontece em algum universo do multiverso”, até que ponto preservamos o poder preditivo da ciência?


Usando tempo imaginário, James Hartle e Stephen Hawking propuseram um universo sem borda, uma condição de contorno em que o universo não começa em uma singularidade, mas emerge suavemente de um estado quântico. Essa proposta elimina a pergunta “quem (ou o que) causou o universo”, já que substitui a causa externa por uma flutuação quântica espontânea.


Segundo o Princípio Holográfico, toda a informação de um volume de espaço pode ser codificada em sua superfície, assim como um holograma 2D codifica uma imagem 3D. A entropia de um buraco negro é proporcional à área de seu horizonte de eventos, não ao volume, e em certos modelos uma teoria gravitacional em N dimensões equivale a uma teoria quântica sem gravidade em N–1 dimensões. 


Filosoficamente, a dimensionalidade do espaço pode ser uma ilusão conveniente — uma maneira eficiente de organizar relações informacionais profundas. Niels Bohr advertiu que quem não fica chocado ao conhecer a teoria quântica pela primeira vez provavelmente não a entendeu. No entanto, por mais estranhas que sejam, todas essas teorias emergem de evidências sólidas e matemática rigorosa.


Talvez a lição mais profunda seja a de que a realidade não tem obrigação de ser intuitiva. Se lidamos com objetos de tamanho médio que se movem em velocidades médias, não há motivo para o cosmos, em suas escalas extremas, se comportar de forma confortável para nosso cérebro. Em última análise, a questão não é se essas ideias são estranhas, mas se são verdadeiras, e somente experimentos e observações podem responder. 


A natureza já votou; agora cabe a nós tentar entender o veredicto. Como Einstein bem observou, o mais incompreensível sobre o universo é ele ser compreensível. Talvez essa compreensibilidade seja o maior mistério de todos.

Continua…