sábado, 16 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 105ª PARTE — SOBRE PARADOXOS


TOMORROW IS YESTERDAY'S DREAM


O "agora” é como o “aqui”, que não é um lugar específico no mapa, mas um conceito que descreve nossa posição em relação ao ambiente que nos circunda. Neste momento, meu "aqui" é Sampa, mas seria Cagliari se eu estivesse na capital do país dos meus antepassados. Da mesma forma, Quixeramobim é o "aqui" de um cearense da gema, mas seria Honolulu se ele estivesse na capital do Havaí. Entretanto, nenhum "presente" é mais especial do que o "presente" de qualquer outra pessoa.

Como consequência das equações de Einstein para o espaço‑tempo, o "aqui" varia de um observador para outro. Mas se todos os presentes são igualmente válidos, todos devem existir, de modo que os eventos futuros já "estarão lá”, independentemente do que façamos ou deixemos de fazer. Nesse quadro, se o livre-arbítrio nos permite, por exemplo, ficar na cama amanhã de manhã em vez de sair para correr, essa possibilidade não seria um leque em aberto, mas uma coordenada já fixada no tecido do espaço-tempo à qual ainda não chegamos.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA 

Na minha modesta opinião, nenhum dos pré-candidatos à presidência, sobretudo os dois principais antagonistas, valem dois tostões de mel coado (porque seria deselegante dizer que não valem a merda que cagam). Infelizmente, as pesquisas sugerem que mais de 70% do eleitorado dizem que vão votar em um ou no outro. 

Enquanto o macróbio indigesto distribui benefícios a rolo para tentar recuperar parte da popularidade que perdeu nos últimos meses, o filho do refuto da escória da humanidade foi pego com a boca na botija pedindo dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para concluir um filme sobre a atuação do capetão golpista durante sua nefasta gestão.

Numa leitura estatisticamente rígida, o ponteiro da Quaest indica estabilidade, mas o cenário ficou mais alvissareiro para o xamã petista do que para o filho do pai. Segundo o resultado da pesquisa, num cenário de segundo turno, nhô-ruim e nhô-pior continuam empatados, mas o dono da caneta e da máquina "despiorou" e voltou a aparecer numericamente à frente, enquanto o desafiante travou. 

A avaliação do governo continua no vermelho, mas a diferença entre a taxa de desaprovação e o índice de aprovação recuou de nove para três pontos percentuais, ficando agora dentro da margem de erro. Um dos fatores associados à essa "despiora" é o impacto do Desenrola 2 — programa de socorro aos endividados aprovado pela maioria dos entrevistados. Além disso, em que pese o esforço dos bolsonaristas, a reunião com Trump foi avaliada positivamente por 60% dos eleitores. Ironicamente, o ídolo máximo do bolsonarismo tornou-se momentaneamente um cabo eleitoral de Lula. 

O jogo continua aberto, mas o filho do imprestável já não pode jogar parado.


A ideia do "futuro aberto" implícita no presentismo é a de que algo que ainda não aconteceu não existe em lugar nenhum. Na visão dos presentistas, o futuro é genuinamente aberto. Já no growing block universe o passado e o presente existem, mas o futuro ainda não foi "acrescentado" ao bloco. Em ambos os casos, o que faremos a seguir não está fixado em lugar algum da realidade, ao passo que no eternismo o futuro já existe como coordenada, e a sensação de abertura é ilusória.

Se todos os momentos do tempo existem da mesma forma que todas as cidades do mapa, então os eventos futuros já estão "lá" — esperando, por assim dizer, que nossa consciência os alcance. Para os adeptos dessa teoria, o Universo não seria um palco onde os eventos acontecem, mas sim a totalidade de tudo que aconteceu, acontece e acontecerá, coexistindo numa estrutura quadridimensional imutável.

O tempo que "passa" seria uma ilusão gerada por sermos observadores internos a essa estrutura, experienciando-a de dentro para fora, fatia por fatia — assim como um viajante que atravessa o Brasil vê Quixeramobim, depois São Paulo, depois Porto Alegre, sem que isso signifique que as cidades aparecem e desaparecem conforme ele passa por elas.

Na visão míope dos fanáticos religiosos — e aqui não vai crítica nova, porque discutir lógica com quem já a abandonou é como dar remédio a defunto —, Deus é onisciente. Mas como ele poderia conhecer o futuro num universo de futuro genuinamente aberto e saber com antecedência, por exemplo, se alguém vai dormir até o meio-dia ou sair para correr na manhã seguinte?

O universo-bloco oferece a mesma resposta que o filósofo Boécio (não confundir com 'beócio') propôs no século VI: Deus não prevê o futuro, simplesmente contempla o bloco inteiro de uma só vez como alguém olhando um mapa do alto. O que parece profecia para nós seria, do ponto de vista divino, apenas visão direta de uma coordenada que já existe. Mas se Deus vê que vou ficar na cama amanhã, como poderia ser diferente? Em outras palavras, a onisciência divina e nosso livre-arbítrio passam a puxar em direções opostas, como num cabo de guerra.

Os teólogos discutem essa questão há séculos sem resolução consensual. A relatividade especial impõe restrições fortes a qualquer visão de futuro aberto, mas a mecânica quântica complica o quadro. Alguns físicos argumentam que o colapso da função de onda — o momento em que uma partícula "escolhe" um estado entre vários possíveis — introduz uma abertura genuína no tecido do real, incompatível com um bloco rigidamente determinado. Outros respondem que o colapso é apenas aparente, e que o universo‑bloco sobrevive intacto. A geometria, a relatividade descreve com precisão extraordinária, mas o que essa geometria é, ela não decide sozinha.

Uma leitura bastante natural da relatividade especial leva ao eternismo, no qual passado, presente e futuro existem igualmente, como as coordenadas de um mapa quadridimensional; o seu "agora" cortando esse bloco num ângulo diferente do meu é exatamente análogo ao "aqui" — uma indexação perspectival, não uma diferença ontológica. A consequência incômoda é que, numa leitura literal, a cena de você dormindo até o meio-dia amanhã — ou saindo para correr — já existe no bloco, assim como São Paulo, Cagliari, Quixeramobim e Honolulu já existem no mapa, mesmo que estejamos apenas em uma delas agora.

Quanto ao futuro ser realmente "aberto", as opiniões se dividem. Os eternistas (que levam o bloco a sério) dizem que o livre-arbítrio é compatível com o determinismo — a gente faz a escolha, mas essa escolha já é uma coordenada fixa no bloco. Não há contradição, só uma ilusão de abertura gerada pelo fato de experienciarmos o tempo de dentro pra fora. Para os presentistas, só o presente existe de verdade; a relatividade seria matematicamente correta, mas ontologicamente mal interpretada, e o bloco seria uma ficção útil, não a estrutura real do mundo. Os defensores do universo-bloco, por sua vez, fazem um meio-termo: passado e presente existem, mas o futuro ainda não. O Universo cresce como um livro sendo escrito. Só que é preciso explicar o que faz o presente ser especial — e aí volta o problema relativístico.

Essa tensão é antiga — como dito linhas acima, Boécio propôs que Deus não prevê o futuro, mas o vê por ser capaz de enxergar o bloco inteiro de uma vez, como alguém que olha um mapa de cima. Seu "conhecimento" do que as pessoas farão amanhã não seria profecia causal, mas uma visão direta de uma coordenada que, do ponto de vista divino, já está lá. É como se nós fôssemos viajantes percorrendo um vale que ele observa do topo de uma montanha. Enquanto vemos apenas os trechos do caminho à nossa frente, ele o vê em sua totalidade — da mesma forma que vê tudo o que faremos ao longo deste ano e nos anos seguintes.

O problema com essa solução é que ela resolve a onisciência mas esfacela o livre-arbítrio: se Deus vê que a gente vai dormir até o meio-dia, como poderíamos fazer diferente? A resposta teológica clássica (São Tomás de Aquino) é que o conhecimento divino não causa o ato. Mas muita gente acha essa distinção artificial.

relatividade especial descreve o espaço-tempo em situações sem gravidade e sem mecânica quântica. Alguns físicos, como Carlo Rovelli, argumentam que o tempo no nível fundamental pode não existir como variável — o que tornaria a pergunta sobre "futuro aberto" mal formulada desde o início. Outros, como os defensores de interpretações da mecânica quântica com colapso real da função de onda, acham que o universo-bloco é incompatível com certas leituras da física quântica.

A relatividade impõe restrições a qualquer visão de futuro aberto, mas não a elimina de forma conclusiva, pois a interpretação ontológica das equações de Einstein ainda é filosoficamente disputada. Se Deus sabe que algo vai acontecer, então deve acontecer. Se ele vê qual caminho o viajante tomará, isso significa que a jornada do viajante já está decidida? E se vê o futuro e todos os tempos já existem, qual o sentido de tentarmos mudá-lo ou estabelecer uma resolução?

Aqueles interessados ​​no pensamento medieval e os filósofos modernos que se debruçam sobre a relatividade de Einstein reconhecem que a linguagem é a principal culpada por esse problema. Por exemplo, acabamos de dizer que o futuro existe “já”. Mas temos que reconhecer que a palavra “já” é tão relativa quanto o “agora” ou o “aqui”. Na física, todos os tempos podem existir, mas o que acontece nesses tempos em relação ao nosso "presente" ainda depende de nós. 

Toda a cadeia de eventos no Universo pode existir, mas ainda somos agentes ativos nela, que não existe "de uma vez" ou "já"; simplesmente existe. E ainda depende de como nós agimos, já que o presente influencia o futuro, e cabe a nós decidir se vamos sair para correr ou ficar na cama até o meio-dia.

Para os teólogos medievais, Deus poderia nos ver levantando da cama e indo correr em 1º de janeiro, mas também nos vê programar o alarme em 31 de dezembro, depois de termos ido à loja de calçados comprar tênis de corrida. Independentemente de o futuro existir para Deus, o que acontece nele ainda depende de nós.

Resumo da ópera: Se o Universo é um bloco quadridimensional, a tentação é imaginar tudo congelado, como um romance já escrito, no qual só nos resta folhear páginas que, em algum sentido, “já existem”. Mas a própria linguagem nos trai quando falamos disso, pois: usamos palavras como “já”, “ainda”, “logo” — todas amarradas ao nosso pequeno “agora” psicológico, não à estrutura matemática do espaço-tempo.

Do ponto de vista da física, pode fazer sentido dizer que todos os eventos estão dispostos no bloco, sem privilégio ontológico do presente. Do ponto de vista de quem acorda com o despertador tocando às seis da manhã, porém, continua havendo uma diferença brutal entre levantar ou apertar o botão de soneca. E essa diferença é vivida, não deduzida das equações.

O que teólogos medievais, relativistas e filósofos da linguagem aprenderam a contragosto é que não escapamos do fato de sermos agentes: mesmo num universo‑bloco, nossas decisões são parte do bloco. Se Deus vê o mapa inteiro, também vê as encruzilhadas em que hesitamos, os dias em que corremos e os dias em que ficamos na cama — e é justamente porque essas escolhas existem que o mapa tem a forma que tem.

O Universo pode ser um livro já completo numa estante metafísica qualquer, mas, da perspectiva de quem lê, cada página ainda é descoberta em tempo real. E é nesse intervalo entre a teoria e a experiência, entre equações e despertadores, que a pergunta sobre o livre-arbítrio continua viva — e, por enquanto, sem um ponto final.

Continua...

sexta-feira, 15 de maio de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — DE VOLTA À CONSCIÊNCIA NÃO LOCAL

A MELHOR VACINA CONTRA UMA CRENÇA É O CETICISMO. 

A ciência evoluiu consideravelmente desde a invenção da roda e do uso do fogo, mas ainda não sabe se o tempo existe realmente ou se ele não passa de uma convenção criada por nossos antepassados para explicar fenômenos naturais sazonais (como as fases da lua e as estações do ano). E tampouco consegue explicar as experiências de quase-morte (EQMs) e o déjà-vu (a estranha sensação de já termos vivido uma situação pela qual nunca passamos).


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


É graças a Deus que todos os candidatos dizem ser contra a reeleição, mas é graças ao diabo que, uma vez eleitos, eles mudam de ideia. Na sucessão de 2022, a cinco dias de prevalecer sobre Bolsonaro no segundo turno, Lula subiu no caixote das redes sociais para proclamar: "Eu, se eleito, serei um presidente de um mandato só." Hoje, dispara bondades em série por um quarto mandato.

Sempre que critica o populismo eleitoral de Lula, o primogênito do chorume da escória da humanidade cobra virtude do rival sentado sobre os vícios do pai — mais ou menos como o macaco que senta em cima do próprio rabo para falar mal da cauda dos outros. Na sucessão de 2022, o capetão genocida criou benefícios para caminhoneiros e taxistas, reduziu tributos sobre combustíveis com o chapéu dos estados, expandiu transferências sociais como se jogasse dinheiro de helicóptero às vésperas da eleição. Fez de tudo. Mas tudo não quis nada com ele.

Ao fazer uma autocrítica por ter buscado a reeleição, Fernando Henrique Cardoso, primeiro a se beneficiar do instituto, disse: "Imaginar que os presidentes não farão o impossível para ganhar a eleição é ingenuidade." 

Em democracias presidenciais, fazer o diabo para renovar mandatos não é exatamente incomum. No limite, toda política pública tem uma dimensão política. O problema é que, no Brasil, perde-se a noção da efetividade dos programas e dos limites fiscais do Tesouro.


O cérebro humano é uma máquina de reconhecimento de padrões extremamente sofisticada, mas não se sabe se ele "produz" e "armazena" a "consciência" — assim chamada a nossa capacidade de ter conhecimento e percepção de nós mesmos, do mundo ao nosso redor e de nossos pensamentos e sentimentos. Se for esse o caso, como é possível que pessoas clinicamente mortas e posteriormente reanimadas relatem encontros com parentes já falecidos, túneis de luz, sensação de paz e até conversas que ocorreram enquanto os médicos tentavam trazê-las de volta à vida?


Os neurologistas passaram a associar a consciência ao córtex pré-frontal em 1848, depois que um pacato trabalhador ferroviário teve o crânio trespassado por uma barra de ferro, sofreu uma série de convulsões, "recobrou a consciência" e se tornou um cafajeste arrogante. Mais adiante, amparados pelos avanços da medicina, eles descobriram que a área afetada do cérebro do trabalhador em questão foi o córtex pré-frontal, que exerce um papel preponderante na capacidade de sentir emoções como o remorso, por exemplo.


Atualmente, acredita-se que a consciência seja um tipo de "filme" que reúne a história da vida de cada um de nós (nossas preferências, emoções, enfim, nossa identidade) e é "projetado" por uma série de atividades realizadas no cérebro. Vale destacar que essa capacidade de representar o mundo na mente é um traço evolutivo que se estende aos demais seres vivos. No entanto, enquanto uma anêmona-do-mar se expande ou se contrai na presença da luz solar, o Homo sapiens conta com uma série de instrumentos que representam o ambiente de forma bem mais sofisticada.


A pergunta que se coloca é: em que momento essas atividades formam aquilo que chamamos de consciência? A resposta é: ainda não se sabe. Sabe-se, no entanto, que a consciência não é um lampejo, mas um fluxo contínuo de conexões neurológicas que se inicia com o nascimento e termina com a morte, e que cada nova experiência leva o cérebro a criar uma imagem mental e armazená-la na memória.


Os avanços da tecnologia tornaram possível monitorar o funcionamento do cérebro por meio da tomografia por emissão de pósitrons (PET), e os resultados revelaram que diversas atividades responsáveis pela consciência demandam ações conjuntas de várias regiões do cérebro. Em outras palavras, o que cada um de nós faz é a soma de todas as representações feitas de nós mesmos, dos outros e do ambiente que nos circunda.


Adeptos da Teoria da Informação Integrada (IIT, de Giulio Tononi), da Teoria do Espaço de Trabalho Global (GWT, de Stanislas Dehaene) e do materialismo buscam explicar a origem daquilo que os religiosos tratam por alma ou espírito — e que, em tese, sobrevive à morte do corpo físico.


Observação: A IIT sugere que a consciência surge da integração complexa de informações neurais, com picos detectados até em cérebros de ratos morrendo (estudo de 2014 na Nature); a GWT vê a consciência como um "broadcast" neural amplo.


Mas há quem sustente a tese da "consciência não-local", cujas implicações são tão vastas quanto perturbadoras — ecoando o “problema difícil” da consciência, proposto por David Chalmers: por que processos físicos geram subjetividade?


Pesquisas recentes alimentam o debate. O estudo AWARE II (2023, de Sam Parnia) mediu ondas gama elevadas em pacientes durante paradas cardíacas, indicando lucidez persistente por minutos sem atividade cortical global. Outro, de Pim van Lommel (2001, The Lancet), registrou percepções verificáveis em 18% de 344 casos de EQMs, como detalhes de conversas médicas. Céticos como Susan Blackmore atribuem isso a hipóxia e expectativas culturais, mas casos como esses desafiam explicações puramente cerebrais.


Na iminência da morte, o aumento dos níveis de adrenalina, endorfina e até dimetiltriptamina (DMT, liberada na glândula pineal) alivia as dores e ajuda o corpo a suportar o estresse do processo. A consequência lógica seria os níveis do ácido gama-aminobutírico (GABA) aumentarem à medida que o cérebro vai se desligando, mas não é isso que acontece.


Para os defensores da consciência não-local, o cérebro é uma espécie de rádio que recebe sinais de uma quantidade incalculável de estações. O GABA reduz os disparos neuronais e desliga determinadas partes do cérebro para filtrar o excesso de estímulos — ou seja, ele funciona como o sintonizador, ajustando uma frequência e bloqueando as demais.


Continua…

quinta-feira, 14 de maio de 2026

QUEM FALA POUCO ACERTA MAIS

NÃO EXISTE ARAUTO DA ALEGRIA MAIS PERFEITO QUE O SILÊNCIO.

"Pessoas quietas e pacíficas têm as mentes mais fortes e expressivas." A frase, atribuída a Stephen Hawking, ganha força simbólica justamente por vir de quem ela vem: um homem que perdeu progressivamente a capacidade de falar e ainda assim reorganizou nossa compreensão do universo. 


Para Hawking, o pensamento científico dependia de paciência, imaginação e rigor — e grandes respostas, muitas vezes, nascem de longos períodos de silêncio intelectual. A frase contraria o senso comum de que expressividade e eloquência andam juntas. Quem fala pouco frequentemente está observando, organizando ideias e processando o mundo com intensidade. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Flávio Bolsonaro subiu no salto. De passagem por Santa Catarina, carbonizou a proposta de emenda constitucional em que ele mesmo previu o fim da reeleição, e declarou que, se chegar ao Planalto, seu mandato pode durar oito anos.

Discursando para uma plateia de empresários, o primogênito do chorume da escória da humanidade revelou que seu seu sonho — que ele vai realizar — é acabar o governo, seja daqui a quatro, daqui a cinco, daqui a oito anos, "onde a gente vai poder bater o peito e falar: 'Menos pessoas dependem de políticos para levar comida para dentro de casa e levar dignidade para as suas famílias". Questionado sobre esse peido verbal, Flávio tentou se corrigir, mas a emenda piorou o soneto, pois deixou evidente o desejo do candidato de esticar um mandato que ainda não obteve.

Originalmente, a emenda sobre o fim da reeleição foi apresentada pelo escarto do golpista para engambelar Tarcísio de Freitas. A ideia era sinalizar para o aliado que, trocando o sonho presidencial pela reeleição ao Governo de São Paulo, ele teria o apoio de Bolsonaro e seus devotos para concorrer ao Planalto em 2030. Ficou entendido que faz papel de bobo quem acredita no conto da carochinha segundo o qual a família do "mito" preso passe a cultivar, de repente, uma noção qualquer de desapego pelo poder. O salto alto do eterno rachadista é o menor dos problemas. Alguma coisa subiu à cabeça do candidato. E não é nada que se pareça com bom senso.

Na sexta-feira, em entrevista à CNN, Bobi Filho disse que, se quiser, Bibo pai será uma espécie de eminência parda de sua eventual Presidência. Além de pressupor a anistia de Bolsonaro, a declaração carrega a admissão de que ele pode voltar a dar as cartas no Planalto.


O silêncio cria espaço para a reflexão: sem pressa para responder, a mente consegue revisar certezas, perceber padrões e evitar o erro fácil da reação automática. Pessoas quietas costumam ser lidas como frias, tímidas ou desinteressadas — uma interpretação apressada. 


O silêncio pode nascer de concentração, prudência ou simples preferência por conversas mais profundas. Em ambientes barulhentos, quem fala menos tende a parecer invisível. É justamente essa pessoa, no entanto, que pode estar percebendo o que os outros deixam passar.


Vale uma ressalva importante: silêncio não é sinônimo de sabedoria, assim como falar muito não é sinônimo de superficialidade. A inteligência se manifesta de muitos modos, e transformar o silêncio em marca de superioridade seria trair o espírito da própria reflexão.


A força do pensamento não está no volume da voz. Está na clareza, na paciência e na capacidade de transformar observação em significado — e, quando chega a hora, em uma única frase bem colocada.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 104ª PARTE — O ENTRELAÇAMENTO QUÂNTICO E A SETA DO TEMPO

WE ARE ALL TIME TRIPPERS 

Nossos ancestrais começaram a medir a passagem do tempo quando notaram padrões no amanhecer e no anoitecer, nas fases da Lua e nas estações, por exemplo. Mas a física moderna sugere que o tempo pode ser uma ilusão.

O que convencionamos chamar de "dia" é o intervalo de uma meia-noite à seguinte; o que chamamos de "mês", uma sequência de 28 a 31 dias; e o que chamamos de "ano", um ciclo de aproximadamente 365 dias e 6 horas — arredondamento que explica a existência dos anos bissextos.

O que cada pessoa faz a cada dia é subjetivo: no mesmo dia que você volta de férias e desfaz as malas eu posso estar arrumando as malas para sair de férias — e vice-versa. Segundo a teoria da relatividade de Einstein, o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial. Consequentemente, o tempo não flui do passado para o futuro, mesmo porque o que é futuro para um observador pode ser passado para outro. As equações relativísticas de Einstein levaram ao que os filósofos chamam de "eternismo", cuja ideia central é a de que passado, presente e futuro existem com o mesmo status ontológico — ou seja, o que chamamos de "agora" é apenas uma fatia arbitrária desse bloco quadridimensional. 

Antes de Einstein, o “presente” era compartilhado por todos no universo: existia um “Grande Agora”. A gente podia olhar para o relógio, ver que marcava meio-dia, por exemplo, e dizer que muitas coisas estavam acontecendo “agora”, mesmo para pessoas muito distantes de nós. Com as equações do físico alemão, isso deixou de ser verdade.


Cada um só pode falar sobre o "presente" a partir de seu próprio referencial. O "Grande Agora", que se estendia por todo o Universo, deixou de existir. O que está acontecendo "agora" da sua perspectiva pode parecer muito diferente para um hipotético alienígena viajando numa nave espacial a uma velocidade incrivelmente alta. 


Observação: A 99,999999999999999999981% da velocidade da luz, que é de 1,08 bilhão de km/h, a dilatação do tempo faz com que um segundo no referencial do viajante equivalha a 2,5 anos no tempo terrestre (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos). Em um cenário mais moderado, chegar a Alpha Centauri (que dista 4,367 anos-luz da Terra) viajando a essa velocidade levaria mais de 4 anos terrestres, mas o trajeto seria completado em menos de duas horas no referencial dos astronautas.


O fato de a simultaneidade ser relativa ao observador conflita com a mecânica quântica, na qual o tempo funciona como um parâmetro externo e universal, não sujeito à incerteza quântica como posição e momento. Em outras palavras, a relatividade exige que o tempo seja local e relacional, enquanto a mecânica quântica o trata como um pano de fundo fixo e comum a todos os observadores.


No entanto, a ideia de que o tempo é uma construção mental não é nova (detalhes nesta postagem).. Em meados do século XVII, as Leis de Newton já eram simétricas no tempo — ou seja, suas equações funcionam igualmente bem se imaginarmos pessoas andando para trás, relógios retrocedendo da tarde para a manhã ou frutas subindo do chão para os galhos das árvores.


De acordo com um artigo publicado na revista Physical Review A, o tic-tac do relógio é apenas uma representação conveniente de uma série de eventos emaranhados, pois o tempo não é uma dimensão contínua e independente, mas uma sequência de acontecimentos correlacionados que emergem do entrelaçamento quântico.


Na visão dos autores, o tempo é uma ilusão, e conceitos como passado, presente e futuro são simples convenções que usamos para descrever nossa experiência subjetiva. Isso explica por que as equações da física quântica são simétricas no tempo — ou seja, funcionam tanto para frente quanto para trás. O próprio Einstein costumava dizer que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas "uma ilusão teimosamente persistente". Mas se é assim, de onde vem a flecha do tempo?


A flecha que avança do passado para o futuro surge somente quando nos afastamos do mundo microscópico em direção ao macroscópico. Isso tem a ver com o fato de olharmos para as coisas grandes e ignorarmos os detalhes. Isso não significa que o mundo seja fundamentalmente orientado no espaço e no tempo, mas, quando olhamos à nossa volta, vemos a direção na qual a entropia dos objetos do dia a dia aumenta — como a fruta madura que cai da árvore e apodrece no chão, sem nunca fazer o caminho inverso.


A Segunda Lei da Termodinâmica diz que a entropia de um sistema isolado sempre aumenta. Por estar indissociavelmente ligada à direção do tempo, ela é a única lei da física com direcionalidade temporal que perde essa característica quando se fecha o foco em coisas muito pequenas. A entropia de um cubo de gelo aumenta conforme ele é aquecido, já que suas moléculas se movimentam com mais liberdade quando o gelo derrete e se transforma em água líquida — e mais ainda quando a água ferve e se transforma em vapor. Mas isso levanta uma questão perturbadora: se as leis microscópicas são simétricas no tempo, então a assimetria que sentimos como "o tempo fluindo" pode ser apenas um fenômeno estatístico.


O físico Ludwig Boltzmann passou anos tentando explicar por que o Universo começou com entropia tão baixa. A resposta moderna aponta para o Big Bang como uma condição inicial de baixíssima entropia, mas isso apenas empurra o mistério para trás. Na tentativa de unificar a relatividade geral com mecânica quântica, a gravidade quântica em loop e outras abordagens chegam a uma conclusão chocante. A famosa equação de Wheeler-DeWitt — uma tentativa de equação quântica para o Universo inteiro — simplesmente não tem o tempo como variável. O universo, descrito matematicamente, é estático.


Para o físico Carlo Rovelli, o tempo não existe para uma única partícula, mas emerge de interações entre muitos sistemas, e seu "fluir" seria nossa percepção de um aumento de correlações com o ambiente — nossa velha conhecida entropia novamente. Por outro lado, a física ainda não sabe responder porque, se as leis são simétricas, temos memória do passado e não do futuro? O que exatamente colapsa a função de onda, e isso define um "agora"? Como reconciliar o tempo relativo de Einstein com o tempo como parâmetro externo da mecânica quântica?


Alguns físicos — como Roger Penrose — sugerem que a experiência subjetiva do tempo pode ter raízes quânticas no cérebro. Uma ideia controversa, mas é curioso que nossos ancestrais tinham acesso a algo genuinamente misterioso simplesmente observando o Sol e a Lua, e nós, com toda a física moderna, não sabemos sequer se o tempo existe.


Continua…

terça-feira, 12 de maio de 2026

MATERIAL QUÂNTICO EM QUE A ELETRICIDADE FLUI SEM GERAR CALOR

O IMPOSSÍVEL SÓ É IMPOSSÍVEL ATÉ ALGUÉM DUVIDAR E PROVAR O CONTRÁRIO.

Computadores, notebooks, smartphones, tablets e outros dispositivos elétricos ou eletro-eletrônicos geram calor, e seu desempenho sofre com esse calor — ou seja, com o efeito joule, que é a dificuldade que os elétrons encontram ao atravessar condutores como o cobre.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Ao suspender a aplicação da lei da dosimetria, redigida com a caligrafia de ministros do Supremo, entre eles o próprio Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, Moraes prorrogou um jogo jogado. 

O deputado Paulinho da Força alegou ter obtido o aval dos ministros, que receavam a aprovação de uma anistia que passaria uma borracha nas condenações. Numa escala de zero a dez, a chance de o Supremo deixar de aplicar a redução das penas dos golpistas, numa análise a ser feita caso a caso, é de menos onze. Bolsonaro, por exemplo, foi condenado a mais de 27 anos de cadeia. Passaria 6 anos e 8 meses em regime fechado. Na interpretação mais generosa da nova lei, esse intervalo seria reduzido para 2 anos e 4 meses.

Moraes alegou ter agido para preservar a "segurança jurídica", pois a constitucionalidade da lei da dosimetria foi questionada em ações movidas pela federação PSOL-Rede e pela Associação Brasileira de Imprensa. Assim, seria preciso julgar o mérito dessas ações antes de decidir sobre a atenuação das sentenças dos bagrinhos do 8 de janeiro e dos tubarões do Estado-Maior do golpismo.

Por um capricho dos algoritmos do Supremo, Moraes, que é o executor das penas, foi sorteado na sexta-feira como relator das ações anti-dosimetria, e sustentou que aguardará o julgamento do plenário da Corte sobre a constitucionalidade da lei.

O encadeamento faria mais nexo se viesse junto com um ofício do ministro Edson Fachin, presidente de turno do Tribunal, no qual Xandão solicitaria a inclusão do julgamento das ações relatadas por ele na pauta do plenário.

Ao retardar a reanálise das penas por tempo indeterminado, ele estimula novas aventuras antidemocráticas e adia um vexame — já que a participação de togas supremas na redação de uma lei feita sob medida para beneficiar agressores da democracia potencializa a vergonha.


A boa notícia é que um grupo de cientistas desenvolveu um material quântico no qual a eletricidade flui de forma organizada e protegida pelas leis da topologia, como os elétrons em uma rodovia expressa sem trânsito, o que elimina a resistência e, consequentemente, a geração de calor. O estudo, publicado na renomada revista Nature, detalha o uso de bicamadas torcidas de um composto específico para criar o que é chamado de "isolante de Chern fracionário" livre de dissipação.


Diferente de supercondutores tradicionais, que exigem campos magnéticos intensos, esse efeito foi observado em campo zero, representando um avanço promissor para futuras aplicações práticas. Além de revolucionar o consumo de energia em dispositivos móveis e computadores de alto desempenho, essa tecnologia é a base para computadores quânticos topológicos, muito mais estáveis e livres de erros do que os modelos atuais.


A má notícia é que essa descoberta está longe de "acabar com o calor" em CPUs/GPUs. Os próprios autores estimam escalas energéticas (gaps) da ordem de ~20 K (gap do FCI) e ~55 K (gap de spin), o que corresponde à faixa criogênica mencionada nas discussões do trabalho. Isso é melhor do que "colado no zero absoluto", mas continua sendo freezer de laboratório, não gabinete gamer.


O transporte "perfeito" acontece em modos de borda (edge states) de um sistema 2D extremamente limpo, ou seja, não se trata de substituir trilhas e vias metálicas de um chip moderno, que carregam correntes grandes e atravessam camadas 3D complexas. Ademais, a fabricação exige controle fino de ângulo, tensão, alinhamento e qualidade cristalina — o que é um ótimo sinal científico, mas permanece um gargalo de manufatura em escala.


A integração com CMOS é outro problema: mesmo que se faça o material repetível, ainda falta transformar isso em arquiteturas de circuito, contatos, encapsulamento, variabilidade, confiabilidade e rendimento (yield) compatíveis com linhas industriais. Em suma, estamos diante de um passo real em "eletrônica topológica" e em estados que interessam para computação quântica topológica, mas a ponte até a "CPU sem cooler" ainda precisa superar vários obstáculos fundamentais, sendo o maior deles operar em temperaturas mais próximas da ambiente sem perder o efeito.


Vale lembrar que os gigantescos mainframes dos anos 1950/60/70 ocupavam enormes salas refrigeradas — e tinham menos poder de processamento que um smartwatch atual. É um bom exemplo de que o impossível só é impossível até alguém duvidar e provar o contrário.