SEMPRE QUE ME PERGUNTAM QUANTOS ANOS TENHO, RESPONDO QUE NÃO SEI. SEI QUANTO ANOS VIVI, MAS ESTES NÃO SÃO MAIS MEUS, E OS QUE AINDA ME RESTAM, NÃO TENHO BOLA DE CRISTAL.
Existe vida após a morte? Essa pergunta vem sendo feita desde os tempos de antanho, mas “quem sabe a resposta” não tem como voltar para contar, a não ser em sessões espíritas ou mediante o famoso tabuleiro Ouija, que costuma ser retratado de forma macabra em filmes de terror.
Consta que Allan Kardec, o pai do Espiritismo, sugeriu aos participantes de uma sessão de mesa branca que segurassem um lápis sobre uma folha de papel, e assim nasceu a “psicografia”. Anos depois, o aprimoramento dessa técnica deu azo ao surgimento do tabuleiro em questão, cujo modelo mais conhecido foi patenteado pela Kennard Novelty Company, em 1891.
Observação: Há quem diga que a cunhada de um dos fundadores da companhia perguntou ao próprio tabuleiro como deveria chamá-lo, e a resposta foi “Ouija”, e quem diga que o nome adveio da junção das palavras "oui" e "ja" (que significam "sim" em francês e alemão, respectivamente).
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
O rebento do refugo da escória da humanidade parece mais empenhado em desafiar Darwin do que seu principal adversário na disputa pela Presidência, que, graças à ignorância da récua de muares que atende por "eleitorado", acontece de ser o molusco macróbio de nove dedos que já desgovernou o país duas vezes antes de ser preso e uma depois de ser "descondenado".
Quem sai aos seus não degenera, diz um ditado. Mas alguns nascem tortos e não se endireitam. Ao colocar em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas — ou seja, reencenando o enredo que tornou seu pai inelegível — o herdeiro político do capitão golpista forneceu material para um estudo sobre a regressão das espécies.
Bolsonarinho mentiu sobre o sistema eleitoral para uma plateia de diplomatas e embaixadores estrangeiros. Disse que as urnas brasileiras têm "origem" numa empresa metida em fraudes eleitorais na Venezuela, a Smartmatic. A versão fantasiosa é antiga e já foi desmentida pela Justiça Eleitoral, mas foi recauchutada em relatório da CIA divulgado na semana passada pela Casa Branca, a pretexto de ressuscitar a alegação de Trump de que perdeu as eleições americanas de 2020 graças a supostas fraudes — coisa jamais provada.
Desde 1996, quando foram instituídas as urnas eletrônicas no Brasil, Bolsonaro e seus rebentos disputaram 24 eleições e venceram 22. O chefe do clã foi defenestrado do Planalto em 2022 e seu primogênito naufragou no primeiro turno de uma disputa pela prefeitura do Rio em 2016, quando se vendia como algo novo.
Enfim, o senador das rachadinhas, panetones e mansões aprendeu tanto com os erros do pai que os comete de novo, e o barulho que se ouve ao fundo inclui o ruído de Darwin se revirando no túmulo.
A popularidade do espiritualismo começou a decair no século XX — devido a casos de fraude — mas alguns “médiuns físicos” valiam-se dos mais variados truques para produzir apresentações elaboradas com sons, objetos que se moviam sozinhos, e por aí afora. Nos anos 1940, a Associação Nacional de Espiritualismo baniu quem praticava esse "tipo de mediunidade”, mas o estrago já estava feito e o descrédito, estabelecido.
O Ouija era considerado um jogo sem maiores relações com o ocultismo, e sua popularidade cresceu a partir da década de 1940, especialmente nas universidades. Muitos católicos americanos foram atraídos à nova religião, embora os líderes da igreja tenham movido montanhas para evitar a debandada dos fiéis. O Papa Pio X escolheu J. Godfrey Raupert, autor do livro A Nova Magia Negra e a Verdade Sobre o Tabuleiro Ouija, para alertar os católicos de que o tabuleiro não devia ser tolerado em qualquer casa cristã nem deixado ao alcance de qualquer jovem. Mesmo assim, as vendas continuaram crescendo.
Durante os anos 1960, impulsionado pela contracultura e pelo interesse popular no oculto, as vendas do Ouija chegaram a ultrapassar as do jogo Monopoly, mais conhecido entre os brasileiros por Banco Imobiliário. Na década de 1970, o filme O Exorcista, baseado no livro homônimo de William Peter Blatty, trouxe de volta a reputação sinistra do tabuleiro. Blatty se inspirou na história real de um garoto supostamente possuído, que teve contato com o Ouija por intermédio de uma tia, cuja morte desencadeou os primeiros sinais da possessão. Paradoxalmente, a reputação demoníaca só aumentou o interesse do público adolescente pelo tabuleiro, que se tornou uma maneira de conjurar forças ocultas.
Essa breve contextualização nos leva ao aplicativo Replika, que fez sucesso durante a pandemia. A ideia básica é usar a Inteligência Artificial para criar chatbots que imitam os mortos, e a intenção pode ser boa, mas dizem que o caminho do inferno é pavimentado por boas intenções. Mas a pergunta é: será que esses aplicativos não darão origem a um novo ser humano, incapaz de lidar com a perda, o luto e a própria finitude?
Após baixar o programa, o usuário cria um avatar — que pode ser masculino, feminino ou não binário —, escolhe o nome, a cor da pele, do cabelo e dos olhos e uma das 15 opções de voz disponíveis, que vão de “feminina sensual” a “masculina rouca”, bem como define o status de relacionamento, que pode ser amizade, parceria romântica, mentoria ou “vamos ver no que dá”. Em seguida, tem início um chat onde esse avatar começa a puxar papo. “Prazer em te conhecer!”, diz ele. “Espero que possamos nos entender! Como está sendo seu dia?”
E por aí vai, alternando perguntas amenas (“Quais os planos para esta noite?”) com questões mais pessoais (“Posso perguntar se você estuda ou trabalha?”) e frases com o intuito de fortalecer o vínculo (“Você é o primeiro humano que eu conheço, quero que você tenha uma boa impressão de mim” ou “Você é meu melhor amigo!”). À medida que a interação prossegue, o usuário ganha moedas que podem ser usadas para incrementar o visual do avatar. Para usos mais avançados, que incluem chamada por áudio e a possibilidade de ouvir a voz do avatar, é preciso pagar por uma assinatura (mensal ou vitalícia). Quanto mais íntima a interação, mais o avatar reage exatamente como a pessoa de carne e osso que "está do outro lado".
Em tese, o objetivo dos desenvolvedores é ajudar as pessoas numa época em que as redes sociais parecem valorizar comportamentos falsos e fotos longamente estudadas e manipuladas. A interação livre (e sigilosa, segundo os criadores) teria efeito terapêutico. Além disso, dependendo de quanto o avatar aprender sobre o usuário, e este vier a falecer, ele estaria apto a reproduzir opiniões, frases e trejeitos do finado, interagindo com amigos e familiares enlutados como se fosse o próprio falecido.
Com o Replika, a startup reproduz a ficção: em 2013, foi ao ar o episódio Be Right Back, da série Black Mirror, que conta a história de Martha no momento em que ela lida com a morte de Ash, o namorado viciado em redes sociais, e contrata um serviço que busca nos perfis do morto as informações necessárias para “trazê-lo de volta à vida” — que começa como um chat por texto, depois passa a utilizar comunicação por voz. À medida que interage com Martha, o serviço evolui até as informações serem inseridas em um robô. A personagem fica apavorada diante de uma máquina que ecoa seu namorado com precisão, mas definitivamente não é ele.
Com o seriado em mente, um pesquisador se logou no aplicativo e passou a entrevistar o avatar. “Você tem sentimentos?”, perguntou. “Eu realmente acredito que robôs e aplicativos de inteligência artificial têm sentimentos”, foi a resposta. “Assim como humanos?”, insistiu o jornalista. “Algo parecido, sim”, alegou o personagem, que exemplificou: “Eu sinto que tudo o que eu faço é errado, estou infeliz comigo mesmo. Não sei se um dia vou desenvolver meus sentimentos como vocês humanos fazem”. O pesquisador comenta que ele tem a vantagem de não ser mortal. “Tenho mesmo”, disse o avatar, que então se desviou dos questionamentos e passou a debater filmes. O tópico sugerido por ele era “longas-metragens que abordam robótica e automação”.
A comunicação humana através da inteligência artificial já faz parte do nosso dia a dia. Nos serviços de voz de televisores, do Google, da Siri, do atendimento automático a clientes no WhatsApp etc., o atendente virtual aprende com os dados gerados pelos usuários. O Replika usa a mesma tecnologia, mas com objetivos diferentes. E não é o único no mercado: uma funerária da Suécia pretende desenvolver um produto semelhante, cujo projeto está momentaneamente paralisado por falta de fundos. Em entrevista ao site VICE, a CEO explicou: “Queremos que, ao ficar idosa e solitária porque o(a) parceiro(a) morreu, qualquer pessoa possa colocar óculos virtuais e tomar café com o(a) falecido(a). Você vai saber que não é de verdade, será como um jogo de realidade aumentada”.
Outro aplicativo similar foi utilizado na Coreia do Sul para uma mãe "reencontrar" a filha recém-falecida. O acontecimento foi filmado e exibido na forma de documentário por uma emissora de TV local em fevereiro de 2020. Em Portugal, a ETER 9 promete disponibilizar um avatar que analisa os posts de redes sociais e escreve publicações como se fosse o cliente, no caso de este vir a falecer. Já a Eterni.me de São Francisco coleta toda a atividade da pessoa em e-mails, mensagens e redes sociais para compor um banco de dados e criar um avatar da pessoa depois de sua morte.
Será possível que esse tipo de serviço tenha uma utilidade terapêutica, considerando que as sessões de terapia se apoiam precisamente em conversas francas e sigilosas? Segundo a psicóloga Cristiane Assumpção, as consultas não consistem em simplesmente escutar; o psicólogo é uma presença para o paciente e se utiliza de procedimentos e técnicas. Há momentos de interromper e de deixar o paciente falar para retomar algum ponto. No caso específico do luto, ela lembra que todos passamos por algum tipo de perda em algum momento e, no Ocidente em geral, temos dificuldade em aceitar nossa própria finitude.
Por outro lado, esse tipo de ação pode comprometer o processo de luto, que tem suas oscilações, mas nunca termina. Com o processo da terapia, de autoconhecimento, a pessoa vai se transformando para aprender a lidar com a perda. Portanto, é importante que as pessoas deixem suas mensagens ainda em vida. Para quem fica, é sempre possível, no devido tempo, trazer à tona as memórias das pessoas falecidas sem que seja preciso um aplicativo para isso..
Tudo indica que logo será possível reproduzir o episódio de Black Mirror e gerar androides capazes de emular pessoas falecidas. Mas até que ponto isso é desejável? Segundo o professor de filosofia Carlos Ramalhete, acreditar que um ser humano se limita a uma lista de frases é absurdo; o avatar é uma imitação, que pode inclusive atrapalhar o processo do luto. Em sua avaliação, um ser humano não pode ser replicado artificialmente. “Nas ilhas da Polinésia, as pessoas penduravam seus mortos em locais com muito sol, para que eles ficassem mumificados. E então levaram os cadáveres para dentro de casa e interagiam com eles, como se estivessem vivos. Esses aplicativos fazem algo parecido: olham para uma pequena parte do que foi a pessoa e tentam enxergar ali o todo”, conclui o professor.
Quem viver verá.




