NADA CONTRIBUI MAIS PARA A SERENIDADE DA ALMA DO QUE NÃO TER QUALQUER OPINIÃO. A Maçonaria não é religião nem sociedade secreta, mas uma 'sociedade com segredos', até porque não promete salvação, não possui teologia específica e não busca converter ninguém — conversas sobre religião são proibidas nas lojas maçônicas, embora acreditar em uma força superior seja um dos requisitos para alguém se tornar maçom.
Em vez de nomes teológicos definitivos, como Deus, Jesus, Allah, Jeová, Buda ou Krishna, os maçons usam Ser Supremo ou Arquiteto do Universo, o que permite a união de pessoas de diferentes crenças e sustenta uma fraternidade espiritual que não discrimina por raça ou cor. Ademais, embora a instituição seja tradicionalmente restrita a homens, ordens femininas e mistas — como a Estrela do Oriente (fundada em 1850 nos EUA) — reúnem milhões de membros.
Jair Bolsonaro não é alguém que se caracterize por ter boas ideias – a de enfrentar a pandemia a golpes de negacionismo custou-lhe a reeleição; a de montar uma rede de ilegalidades para ficar no poder levou-o à prisão; e a de fazer do primogênito candidato a presidente está em xeque na antessala da demolição.
O projeto de criar um partido morreu antes de nascer, o que fez a turma da extrema se abrigar no PL, que saiu de legenda mediana para o lugar de maior bancada na Câmara. A união vigorou como benção até agora, quando dá sinais de se transformar em maldição.
Pego em calças curtas pela intimidade de Bolsonarinho com o "mermão" Daniel Vorcaro, a agremiação de Valdemar Costa Neto se vê vendida nas versões desencontradas e na incerteza do que pode vir por aí — e na iminência de perder o bonde da Presidência.
As adversidades mais visíveis localizam-se nos três maiores colégios eleitorais do país. Em São Paulo, os estilhaços têm potencial para atingir Tarcísio de Freitas, cuja percepção do risco se materializa na solidariedade bem mais ou menos que o governador empresta ao enroscado Flávio. Em Minas, o partido rivaliza com o PT na dificuldade de formação de palanque, e no Rio de Janeiro, berçário político da famiglia Bolsonaro, fica ainda pior na fita.
Nos demais estados, essa direita se divide entre o compasso de espera e os preparativos para o abandono do navio.
As opiniões sobre os maçons modernos variam: há quem os classifique como senhores inofensivos que apreciam rituais bizarros e quem os veja como membros de um conluio secreto de poderosos visando controlar o mundo. A meu ver, a verdade deve estar em algum ponto entre esses dois extremos — como diziam os antigos romanos: in medio virtus.
Um iniciado poderia definir a Maçonaria como 'um sistema de moralidade envolto em alegoria e ilustrado por símbolos', mas quem não faz parte dessa seleta confraria costuma ver rituais com velas, caixões e crânios cheios de vinho como a quintessência da excentricidade. Não obstante, basta observar práticas religiosas tradicionais — como os rituais cristãos que simbolizam a carne e o sangue de Cristo — para concluir que a linha entre fé e loucura é tênue e muda conforme o ponto de vista do observador.
Em O Alienista, o escritor carioca Machado de Assis narra a história do psiquiatra Simão Bacamarte, que interna quase todos os habitantes de Itaguaí (RJ) ao considerar-se o único equilibrado. No entanto, a própria singularidade também pode ser uma anomalia, e ele acaba internando a si mesmo, morrendo sozinho em seu hospício. Moral da história: o excesso de racionalidade pode isolar o indivíduo da experiência humana — e o mesmo ocorre com o ceticismo radical: ao se blindar contra qualquer possibilidade, o “equilibrado” se afasta da busca genuína.
Durante séculos, saberes antigos foram considerados meras superstições, e gerações sucessivas desmentiram suas antecessoras. À medida que o saber científico avançava, crescia também a consciência da própria ignorância, mas isso vem mudando desde que mitos e magia começaram a ressurgir sob a roupagem da ciência noética, que investiga o potencial ainda inexplorado da psique humana.
O Instituto de Ciências Noéticas (IONS) estuda como as intenções podem afetar os eventos, ecoando conceitos da mecânica quântica, nos quais o observador influencia o resultado. Experimentos como o da dupla fenda sugerem que a observação altera o comportamento das partículas. Para os noéticos, usamos apenas uma fração mínima de nossa mente e espírito, e o cosmos quântico indicaria que pensamentos moldam realidades.
De um tempo para cá, um número crescente de físicos consideram a hipótese de que o universo possua uma organização fractal, na qual cada parte reflete o todo em diferentes escalas, numa repetição potencialmente infinita de auto semelhança. Aliás, os fractais exercem papel relevante em áreas como criptografia, topologia de redes e visualização de dados, entre outras.
Não deixa de ser curioso que, embora partam de premissas distintas, tradições simbólicas como a Maçonaria e correntes contemporâneas como a ciência noética pareçam convergir em um mesmo impulso: o de decifrar padrões ocultos que conectam mente, matéria e realidade. Sejam arquétipos, probabilidades quânticas ou estruturas fractais, tudo aponta para a persistente intuição de que o universo pode não ser um mecanismo caótico, e sim um sistema dotado de camadas de significado, ainda que nos faltem as ferramentas - ou a lucidez - para as interpretar plenamente.
A serenidade não brota da certeza, mas da abertura ao mistério. Entre símbolos, rituais e ciência, a humanidade perscruta incansavelmente — embora, não raro, muitos prefiram a confortável ilusão de já terem encontrado respostas para perguntas que mal conseguiram formular, sobretudo quando podem transformar o desconhecido em dogma e o mistério em convicção inabalável.
Continua…



