QUANDO O RELÓGIO BATE TREZE VEZES.
Ainda que o tempo seja uma invenção criada por nossos antepassados para facilitar a compreensão do mundo, o nascimento inaugura uma viagem rumo a um futuro que nunca chega (hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã). Envelhecer é inexorável e a morte é a única certeza que temos nesta vida, mas viver para sempre é um sonho antigo.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Se nunca houve reviravolta entre os dois turnos, nunca a distância do primeiro para o segundo lugar foi tão pequena. A dúvida é se o presidente terá força e discernimento suficientes para corrigir os erros a tempo de ganhar.
O desempenho da direita impressionou, mas não o suficiente para consolidar a impressão de que a eleição esteja resolvida, de que Jair Bolsonaro esteja indultado e de que os golpistas estejam anistiados.
É verdade que não há registro de virada do segundo sobre o primeiro colocado de um turno a outro, mas também é fato que nunca a distância foi tão estreita — menos de dois pontos percentuais —, dianteira que a oposição tem motivo para comemorar, mas que o governo tem condição de inverter nas próximas três semanas se souber disputar com competência os cerca de 8% dados aos demais candidatos.
Posta a bola no chão, fica a lição de que a subestimação do adversário é péssima conselheira. Isso valeu para Lula, que desde o início menosprezou a oponente, e vale agora para Flávio, que será imprudente se desdenhar da capacidade de reação de Lula, decorrente do susto.
O choque de realidade ficou evidente no semblante de decepção dos aliados e na aparente calma da manifestação do molusco logo após a confirmação do resultado do primeiro turno: ele mediu palavras e procurou se ater aos limites da normalidade, a fim de ganhar tempo e não se precipitar sobre o que fazer.
Na Grécia Arcaica (séculos VII e VI a.C), acreditava-se que a água de um rio que nascia no Monte Olimpo tornava os homens imortais. Em 1513, Ponce de León partiu de Porto Rico em busca da lendária Fonte da Juventude e descobriu a Flórida, mas morreu sem jamais ter encontrado a tal fonte. Em 1932, quando a expectativa de vida dos norte-americanos era de 59,7 anos, Walter B. Pitkin publicou seu livro de autoajuda Life begins at forty (A vida começa aos quarenta).
Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado pelos filhos, devolvia-os ao útero de Gaia. Até que um dia, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que, quando crescesse, castrasse o pai. Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas passou a devorar a própria cria. O ciclo só foi interrompido quando Réia, sua esposa, escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o pai a regurgitar seus irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou Cronos numa guerra que durou dez anos, tornando-se o deus dos deuses.
Urano, Cronos, Kairós e Saturno — a versão romana de Cronos — são tão reais quanto o céu, o purgatório e o inferno dos católicos, mas há na mitologia grega uma distinção fundamental: Enquanto Cronos representa o tempo cronológico, linear e mensurável, Kairós é associado ao tempo da experiência, do acontecimento e do instante significativo. Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos, que o relógio mede, que os calendários registram, que transforma segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos.
Essa lógica nos leva a tratar o tempo como algo mensurável e manejável — um recurso a ser administrado, otimizado e explorado, quase sempre a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano —, mas outras formas de compreender e viver o tempo persistem entre povos tradicionais, originários, indígenas, africanos e do sul global.
Nessas cosmovisões, em vez de se comportar como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente, o tempo pode ser cíclico, circular ou espiral, pois nem o passado está morto, nem o futuro é um alvo fixo, nem o presente é apenas um ponto de passagem. O tempo cronológico foi adotado como padrão universal por colonizar o presente, capturar o passado e comprometer o futuro. Na era das métricas, notificações e algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração para se tornar um sistema de controle íntimo, automático e permanente.
No fim das contas, Cronos venceu, não como mito, mas como método. Ele já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina no Olimpo, mas rege os calendários, as metas, os prazos e as notificações. Não precisa mais devorar os filhos; basta convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que ele sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.
Entre 1960 e 2014, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou de 48 para 74,6 anos. Aubrey de Grey — co-fundador da SENS — acredita ser possível viver por séculos sem sofrer os transtornos da velhice, mas poucas pessoas colhem mais de 100 margaridas dos jardins da existência e quase ninguém aceita o passar do tempo com serenidade. Aos 93 anos, chamado a escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o poeta Manoel de Barros — que dizia prezar insetos mais que aviões — escolheu "criança", talvez por ter envelhecido com brilho, beleza e arte.
A experiência que vem com a idade nos ensina a escolher entre o que vale ficar e o que pode partir. É na maturidade que o mundo deixa de ser promessa e passa a ser memória; que o coração, cansado de batalhas inúteis, começa a buscar apenas aquilo que o sustenta; que o corpo, companheiro fiel por décadas, começa a falhar em pequenos sinais — um joelho que reclama, uma visão que pede auxílio, uma dor que se instala sem convite.
A idade ensina a negociar com limites, respeitar fronteiras internas e aceitar que há ritmos que não voltam. A solidão visita com frequência os que envelhecem em silêncio: amigos partem, amores se transformam, lares se esvaziam e a memória vira companhia — às vezes, consolo; às vezes, ferida.
Diz-se que a delícia da velhice está num café sem pressa, num fim de tarde em silêncio, na alegria simples de estar, que há uma delícia profunda em olhar para trás e reconhecer a própria trajetória, os afetos preservados, os erros superados, os recomeços possíveis, e que envelhecer é aprender a dizer não sem culpa, a escolher com mais clareza, a valorizar a presença de quem ficou.
Mas nem todos aceitam a velhice filosoficamente, como frisou Ruy Castro na crônica Melhor idade é a puta que te pariu, que merece ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta.
Continua…



