sábado, 6 de junho de 2026

DE VOLTA À NATUREZA DO TEMPO CRONOLÓGICO

NÃO FORCE DEMAIS AS COISAS. O QUE FLUI, FLUI, O QUE TERMINA, TERMINA, E O QUE TIVER DE SER, SERÁ.

A ciência não sabe se o tempo existe realmente ou é somente uma convenção criada por nossos antepassados para explicar o dia e a noite, as fases da lua, as estações do ano e demais eventos sazonais. Ainda assim, consultamos o relógio acreditando que o tempo flui inexoravelmente do passado para o futuro como as águas de um rio correm da nascente para a foz, mas e se esse fluxo não passar de uma ilusão?

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Durou pouco o entusiasmo de Bolsonarinho com a Casa Branca. Quatro dias após batizar de terroristas o PCC e o CV, Trump acenou com a imposição de novo tarifaço contra produtos brasileiros (desta vez de 25%) e incluiu entre os motivos o Pix.

A ameaça de nova paulada chega como resultado da investigação por supostas práticas comerciais injustas do Brasil, aberta no ano passado junto com o tarifaço de 50% — uma das medidas adotadas pela calopsita alaranjada em resposta ao que chamou de "caça às bruxas" contra Bolsonaro, atribuída à influência do traidor da pátria autoexilado Dudu Bananinha.

Na semana passada, o filho do presidiário disse ter sinalizado a Trump que, se eleito presidente desta republiqueta de bananas, os EUA teriam "um presidente aliado", o que tornaria desnecessária a adoção de retaliações tarifárias. Dias antes, Lula, o macróbio, havia dito que, se conseguisse fazer Trump sorrir, conseguiria "outras coisas". Nos últimos dias, voltou a atribuir o rosnado do imperador laranja à traição dos Bolsonaro contra a pátria.

Se Deus o intimasse Trump a optar entre a conveniência da quadrilha Bolsonaro e seus próprios interesses, ele certamente diria algo como "fuck Bolsonaro and Lula", e os protagonistas da sucessão brasileira talvez percebessem que o único amigo do tresloucado mandatário americano é sua imagem refletida no espelho.

A decisão sobre as novas tarifas será tomada até 15 de julho. Se forem baixadas, será péssimo para o Brasil, mas pode impulsionar a reeleição de Lula. Para o clã Bolsonaro e seu presidenciável, um novo tarifaço editado a três meses e meio da eleição seria como um beijo da morte.


Desde tempos imemoriais, cientistas e filósofos buscam desvendar a verdadeira natureza do tempo, mas ainda não descobriram se ele é uma propriedade natural ou um componente da teoria que introduzimos manualmente. 


Para os físicos, o tempo é um problema que se apresenta em pelo menos três versões difíceis de conciliar. Em primeiro lugar, existe o que se chama de "tempo coordenado": em muitas das equações que descrevem fenômenos físicos o tempo aparece simplesmente como um parâmetro matemático, uma coordenada numérica que indica quando um evento ocorre. Nesse contexto, o tempo não aparece como algo que flui, mas como um parâmetro que nos permite ordenar mudanças.


Einstein revolucionou a física ao demonstrar que o tempo relativístico não é um relógio comum a todos — se dois observadores movendo-se a velocidades diferentes podem discordar sobre a ordem dos eventos, então o tempo deixa de ser um relógio e passa a fazer parte da estrutura do espaço-tempo, que é afetada pela gravidade e pelo movimento —, e complicou ainda mais o cenário ao demonstrar que o "agora" não é universal.


Já o tempo termodinâmico — talvez a única indicação clara de que o tempo parece se mover em apenas uma direção — surge da segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia, que descreve o grau de desordem em um sistema, tende a aumentar. É por isso que um ovo que se quebrou, os cacos de um copo que se espatifou e a fumaça que se dispersou no ar, por exemplo, não voltam espontaneamente ao status quo ante.


O problema é que nenhuma dessas versões se alinha completamente entre si nem com nossa experiência subjetiva do tempo, e muitas das equações mais fundamentais funcionam da mesma maneira, tanto para frente quanto para trás — não há nenhuma seta nos números que aponte para o futuro.


Para alguns pensadores, o que percebemos como o "fluxo do tempo" nada mais é do que uma história que contamos a nós mesmos. Ou seja: o cérebro constrói uma linha do tempo para dar coerência à experiência e, assim como acontece com as cores, nós confundimos essa construção com uma propriedade do mundo externo. 


A relatividade reforça essa suspeita: acontecimentos que parecem simultâneos para um observador podem ocorrer em momentos distintos para outro, pois o que existe não é um "agora" universal, e sim uma rede de eventos distribuídos pelo espaço-tempo, onde o passado, o presente e o futuro coexistem — nessa perspectiva, a distinção entre eles seria nada mais que uma ilusão, ainda que persistentemente convincente.


Mas a física vai ainda mais longe: no reino quântico, não há uma maneira direta de medir o tempo como há com outras propriedades físicas. Pode-se medir onde uma partícula está, mas nunca quando ela está, pois o tempo aparece menos como uma propriedade natural dos sistemas quânticos e mais como um parâmetro que introduzimos manualmente para descrevê-los. Esse paradoxo levou alguns físicos a formularem uma questão radical: e se o tempo não for fundamental, mas emergir de uma estrutura mais profunda que ainda não compreendemos?


Em 1983, os físicos Don Page e William Wootters propuseram que o universo seria uma gigantesca função de onda quântica atemporal, mas dividir essa estrutura em duas partes — uma descrevendo toda a matéria observável e a outra atuando como um "relógio interno" — faz com que o entrelaçamento quântico entre as duas enseje o surgimento da percepção do tempo. De acordo com essa ideia, ao consultarmos o relógio estamos selecionando (ou fixando) o estado correlacionado do restante do sistema naquele momento, ou seja, o tempo, surge como um efeito do entrelaçamento.


Para entender melhor essa ideia, imagine um manuscrito sobre uma mesa, onde o início, o meio e o fim já existem simultaneamente. Porém, para que a história faça sentido é preciso ler suas páginas em ordem, pois a numeração conecta cenas que, na realidade, permanecem fixas. Algo semelhante poderia acontecer com o universo: a mudança não estaria necessariamente na história em si, mas na maneira como a vivenciamos.


Durante décadas, essa ideia não passou de um elegante exercício teórico, mas em 2024 a física Paola Verrucchi, do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, conseguiu construir um modelo matemático funcional inspirado nesse mecanismo: um sistema que entrelaçava um relógio magnético com outro sistema quântico análogo a uma mola. Vista de fora, essa estrutura permanecia estática, mas, em relação ao relógio interno, a mola parecia esticar e contrair seguindo sequências temporais. 


O mais surpreendente é que esse comportamento persistiu mesmo quando o sistema foi ampliado, sugerindo que a ilusão do tempo pode não estar limitada apenas ao mundo quântico. O entrelaçamento quântico entre um relógio interno e a matéria observável permitiria o surgimento do tempo, de acordo com a teoria de Page-Wootters proposta em 1983. 


Outra descoberta surpreendente dessa linha de pesquisa é que a medição do tempo gera entropia. Em outras palavras, os relógios — mesmo os mais simples — não apenas registram a passagem do tempo, mas também produzem calor. Marcus Huber, da Universidade Técnica de Viena, e Natália Ares, da Universidade de Oxford, estão investigando o que acontece quando desmontamos um relógio até seu nível quântico mais básico, e seus resultados descrevem uma relação de compromisso: quanto mais preciso e frequente o tique-taque (quanto mais informação temporal for extraída), maior a tendência de geração de entropia. Mesmo um relógio quase perfeito torna-se instável quando se tenta extrair informações dele.


Tudo isso abre uma possibilidade intrigante: e se a sensação de que o tempo está passando não depender de sua existência como algo fundamental, mas sim de nossa interação com os sistemas que usamos para medi-lo? Alguns cientistas sustentam que o universo já possui relógios naturais, que são os buracos negros — corpos celestes extremamente massivos, de cuja atração gravitacional nem a própria luz consegue escapar. 


Stephen Hawking demonstrou que os buracos negros podem se emaranhar com o mundo exterior através da radiação que emitem, abrindo espaço para a hipótese de que eles possam funcionar como relógios cósmicos. Se assim for, seu tique-taque deveria deixar rastros na entropia da radiação Hawking. Mas poderiam os buracos negros desempenhar o papel de relógio quântico do universo através do entrelaçamento com essa radiação?


A chave desse mistério pode estar em algo ainda mais fundamental do que a entropia. Em 1935, Erwin Schrödinger demonstrou o paradoxo da superposição propondo que um gato em uma caixa lacrada, ligado a um evento radioativo aleatório, poderia ser considerado simultaneamente vivo e morto até que a caixa fosse aberta e o estado observado. Isso significa que uma partícula quântica pode existir em múltiplos estados até que a meçamos. Como esse colapso é irreversível — uma vez que o medimos, não há como voltar atrás —, a flecha do tempo pode ​​ser simplesmente um registro do que foi medido. Assim, nós não apenas participamos do tempo, mas o criamos sempre que perguntamos que horas são.


Essa perspectiva não nega o significado da nossa experiência temporal. Embora seja genuína, a interpretação metafísica que lhe atribuímos é opcional. Nossa vida continua sendo uma sequência de escolhas e memórias, mas essa sequência reside dentro de nós, não em um cosmos que flui independentemente. E se o fluxo do tempo é uma espécie de construção cognitiva, talvez isso altere a forma como vivenciamos a urgência dos prazos, lidamos com a perda ou sentimos que o tempo nos roubou algo. Talvez a flecha do tempo não nos atinja: somos nós que seguimos em frente, construindo memórias enquanto percorremos o mundo.


A física moderna dispõe de ferramentas capazes de explorar questões antes restritas à filosofia, mas suas grandes teorias — relatividade, mecânica quântica e termodinâmica — ainda entram em conflito quando tentam descrever o que o tempo realmente é. E talvez essa tensão seja o indício mais claro de que o tempo, como o imaginamos, não existe como uma entidade única. Talvez o tempo só seja real em diferentes sentidos: como experiência, como aumento da entropia, como ilusão cognitiva ou como efeito da forma como interpretamos o mundo.


Por ora, o tempo ainda está aí, pelo menos para nós, marcando cada segundo.


Continua...

sexta-feira, 5 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A MAÇONARIA

NADA CONTRIBUI MAIS PARA A SERENIDADE DA ALMA DO QUE NÃO TER QUALQUER OPINIÃO. 

A Maçonaria não é religião nem sociedade secreta, mas uma 'sociedade com segredos', até porque não promete salvação, não possui teologia específica e não busca converter ninguém — conversas sobre religião são proibidas nas lojas maçônicas, embora acreditar em uma força superior seja um dos requisitos para alguém se tornar maçom.

Em vez de nomes teológicos definitivos, como Deus, Jesus, Allah, Jeová, Buda ou Krishna, os maçons usam Ser Supremo ou Arquiteto do Universo, o que permite a união de pessoas de diferentes crenças e sustenta uma fraternidade espiritual que não discrimina por raça ou cor. Ademais, embora a instituição seja tradicionalmente restrita a homens, ordens femininas e mistas — como a Estrela do Oriente (fundada em 1850 nos EUA) — reúnem milhões de membros.

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Jair Bolsonaro não é alguém que se caracterize por ter boas ideias – a de enfrentar a pandemia a golpes de negacionismo custou-lhe a reeleição; a de montar uma rede de ilegalidades para ficar no poder levou-o à prisão; e a de fazer do primogênito candidato a presidente está em xeque na antessala da demolição.

O projeto de criar um partido morreu antes de nascer, o que fez a turma da extrema se abrigar no PL, que saiu de legenda mediana para o lugar de maior bancada na Câmara. A união vigorou como benção até agora, quando dá sinais de se transformar em maldição.

Pego em calças curtas pela intimidade de Bolsonarinho com o "mermão" Daniel Vorcaro, a agremiação de Valdemar Costa Neto se vê vendida nas versões desencontradas e na incerteza do que pode vir por aí — e na iminência de perder o bonde da Presidência. 

As adversidades mais visíveis localizam-se nos três maiores colégios eleitorais do país. Em São Paulo, os estilhaços têm potencial para atingir Tarcísio de Freitas, cuja percepção do risco se materializa na solidariedade bem mais ou menos que o governador empresta ao enroscado Flávio. Em Minas, o partido rivaliza com o PT na dificuldade de formação de palanque, e no Rio de Janeiro, berçário político da famiglia Bolsonaro, fica ainda pior na fita.

Nos demais estados, essa direita se divide entre o compasso de espera e os preparativos para o abandono do navio.


As opiniões sobre os maçons modernos variam: há quem os classifique como senhores inofensivos que apreciam rituais bizarros e quem os veja como membros de um conluio secreto de poderosos visando controlar o mundo. A meu ver,
 a verdade deve estar em algum ponto entre esses dois extremos — como diziam os antigos romanos: in medio virtus.

Um iniciado poderia definir a Maçonaria como 'um sistema de moralidade envolto em alegoria e ilustrado por símbolos', mas quem não faz parte dessa seleta confraria costuma ver rituais com velas, caixões e crânios cheios de vinho como a quintessência da excentricidade. Não obstante, basta observar práticas religiosas tradicionais — como os rituais cristãos que simbolizam a carne e o sangue de Cristo — para concluir que a linha entre fé e loucura é tênue e muda conforme o ponto de vista do observador.

Em O Alienista, o escritor carioca Machado de Assis narra a história do psiquiatra Simão Bacamarte, que interna quase todos os habitantes de Itaguaí (RJ) ao considerar-se o único equilibrado. No entanto, a própria singularidade também pode ser uma anomalia, e ele acaba internando a si mesmo, morrendo sozinho em seu hospício. Moral da história: o excesso de racionalidade pode isolar o indivíduo da experiência humana — e o mesmo ocorre com o ceticismo radical: ao se blindar contra qualquer possibilidade, o “equilibrado” se afasta da busca genuína.

Durante séculos, saberes antigos foram considerados meras superstições, e gerações sucessivas desmentiram suas antecessoras. À medida que o saber científico avançava, crescia também a consciência da própria ignorância, mas isso vem mudando desde que mitos e magia começaram a ressurgir sob a roupagem da ciência noética, que investiga o potencial ainda inexplorado da psique humana.

O Instituto de Ciências Noéticas (IONS) estuda como as intenções podem afetar os eventos, ecoando conceitos da mecânica quântica, nos quais o observador influencia o resultado. Experimentos como o da dupla fenda sugerem que a observação altera o comportamento das partículas. Para os noéticos, usamos apenas uma fração mínima de nossa mente e espírito, e o cosmos quântico indicaria que pensamentos moldam realidades.

De um tempo para cá, um número crescente de físicos consideram a hipótese de que o universo possua uma organização fractal, na qual cada parte reflete o todo em diferentes escalas, numa repetição potencialmente infinita de auto semelhança. Aliás, os fractais exercem papel relevante em áreas como criptografia, topologia de redes e visualização de dados, entre outras.

Não deixa de ser curioso que, embora partam de premissas distintas, tradições simbólicas como a Maçonaria e correntes contemporâneas como a ciência noética pareçam convergir em um mesmo impulso: o de decifrar padrões ocultos que conectam mente, matéria e realidade. Sejam arquétipos, probabilidades quânticas ou estruturas fractais, tudo aponta para a persistente intuição de que o universo pode não ser um mecanismo caótico, e sim um sistema dotado de camadas de significado, ainda que nos faltem as ferramentas - ou a lucidez - para as interpretar plenamente.

A serenidade não brota da certeza, mas da abertura ao mistério. Entre símbolos, rituais e ciência, a humanidade perscruta incansavelmente — embora, não raro, muitos prefiram a confortável ilusão de já terem encontrado respostas para perguntas que mal conseguiram formular, sobretudo quando podem transformar o desconhecido em dogma e o mistério em convicção inabalável.

Continua…

quinta-feira, 4 de junho de 2026

DESCOBERTOS 27 NOVOS EXOPLANETAS POTENCIALMENTE CIRCUMBINÁRIOS

QUEM PROCURA ACHA E QUEM INSISTE ACHA MAIS DEPRESSA.

De acordo com o Gênesis, Deus criou o mundo e o que mais nele existe em seis dias, viu que tudo era bom (!?) e descansou no sétimo — melhor faria o Senhor das Esferas se aproveitasse a folga para consultar um oftalmologista, mas isso é outra conversa.

Consta que o primeiro livro do Pentateuco foi escrito por Moisés, o líder dos judeus errantes, durante sua interminável (40 anos) peregrinação pelo deserto do Sinai em busca de Canaã, e que o arcebispo irlandês James Ussher, preciso como um cuco suíço, anotou em The Annals of the World que o Senhor das Esferas iniciou sua obra às 9h de 23 de outubro de 4004 a.C. 

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O lançamento da candidatura de Sérgio Moro ao governo do Paraná converteu-se numa antiapoteose. Ao dividir o palanque com o filho do golpista, o ex-juiz da Lava-Jato e Deltan Dallagnol, antigo garoto prodígio da força tarefa de Curitiba, consolidaram a percepção de que na política nada se cria, nada se transforma, tudo se corrompe.

Bolsonarinho e o Marreco de Maringá trocaram afagos. O filho do pai vestia uma camiseta na qual se lia: "Curitiba prendeu. Brasília soltou", numa alusão à sentença de Moro que levou Lula à cadeia, posteriormente anulada pelo Supremo. Derramou-se em elogios ao ex-juiz: "É um símbolo de combate à corrupção, símbolo de seriedade, que vai ter a independência de montar um time forte, com uma Assembleia forte, para fazer o melhor pelo Paraná".

Em retribuição, Moro enalteceu a decisão do governo Trump de classificar PCC e CV como terroristas: "Foi extraordinário. Ele [Flávio] conseguiu convencer o governo norte-americano a dar esse passo importante." E aproveitou para elogiar a suposta atuação do "mito" preso no combate às facções criminosas à época em que desgovernou o país.

Moro esqueceu de lembrar — ou lembrou de esquecer — que deixou o governo Bolsonaro acusando o então chefe de aparelhar a Polícia Federal para blindar a família contra investigações. Em janeiro de 2022, numa entrevista ao Flow Podcast, o desafeto disse que Bolsonaro "tem lá investigação da família dele, rachadinha, ele tem medo também que a investigação chegue nele. e aí ele chegou a partir de determinado momento do mandato dele e começou: 'Olha, tem que enfraquecer o combate à corrupção'."

Na mesma entrevista, o ex-herói que se converteu em vergonha nacional se referiu diretamente ao primogênito do refugo da escória da humanidade: "Teve uma decisão do Supremo que beneficiou o filho do presidente. (...) O problema é que essa liminar parava todas as investigações de lavagem de dinheiro no país. Parava tudo. E o presidente não queria que a gente mexesse nisso. Ele me falou assim: 'Moro, se você não vai ajudar, não atrapalhe'."

Meses depois, o Marreco de Maringá daria um cavalo de pau, incorporando-se à malsucedida caravana de Bolsonaro na sucessão presidencial de 2022. Agora, associa-se ao rebento do rebotalho num instante em que a imagem do neoaliado já não está apenas rachadinha. Os vínculos financeiros obscuros do presidenciável do clã Bolsonaro transformaram a antiga fenda num rombo de dimensões insondáveis.

Deltan Dallagnol frequentou o palanque do ex-parceiro na Lava-Jato como coadjuvante do escárnio. Sua candidatura ao Senado é uma dúvida jurídica. Teve o mandato de deputado federal cassado pelo TSE em 2023. Os adversários sustentam que está inelegível.

Alheio à controvérsia, Dallagnol fustigou sua adversária petista: "Precisamos trabalhar intensamente para que Gleisi Hoffmann não vire senadora no Paraná. Precisamos derrotar o PT porque [é o partido] líder máximo dos maiores esquemas de corrupção que o país já viu." Disse isso ao lado de Flávio Bolsonaro. Sem corar.

Moro e Dallagnol atribuem ao Supremo o sepultamento da Lava-Jato, mas a morte é anterior a si mesma, começa bem antes do funeral. A República de Curitiba começou a morrer no final de 2018, quando Moro trocou o altar da 13ª Vara pelo serpentário de Brasília. Em março de 2021, numa entrevista ao UOL, o ex-procurador disse que, como ministro da Justiça, Moro "poderia ter maiores chances de influenciar a história". De fato, foi grande a influência do então subordinado de Bolsonaro. Moro virou a página da história. Para trás.

Com a Vaza-Jato e seus diálogos tóxicos, os ex-paladinos de Curitiba jogaram terra em cima de si mesmos. Forneceram material para a abertura da cela de Lula e a condenação de Moro como juiz suspeito. Hoje, irmanados à imoralidade que permeia a política, Moro e Dallagnol enfeitam com sua incoerência a lápide que ajudaram a acomodar sobre o esforço anticorrupção que diziam encarnar.  Essa dupla patética não só fica de quatro como também se vira do avesso por Flávio Bolsonaro.

Embora seja redundante discorrer sobre o sem-número de eventos ocorridos há dezenas de milhares de anos, quando, segundo Ussher, os criacionistas e as religiões abraâmicas, o mundo ainda não havia sido criado, não custa lembrar que o esqueleto parcial de uma fêmea de Australopithecus Afarensis de 3,2 milhões de anos — batizada de Lucy em homenagem à música dos Beatles — foi encontrado em 1974 pelo paleontólogo Donald Johanson no deserto de Afar, na Etiópia. Ou seja: os bípedes já rondavam a Terra 530 vezes o tempo que o mundo existe nas contas de Ussher.

Outros exemplos dignos de nota são o desenho abstrato da Caverna Blombos, na África do Sul, cuja idade é estimada em 73 mil anos; as pinturas rupestres de Sulawesi (67,8 mil anos), na Indonésia; o templo Göbekli Tepe, na Turquia (11,5 mil anos); e o crânio de uma mulher, apelidada de Luzia (mais de 11 mil anos), encontrado no sítio arqueológico de Lapa Vermelha, na região de Lagoa Santa (MG), em 1975 — ou seja, havia gente acampada em Minas Gerais mais de 9 mil anos antes de Deus, na agenda de Ussher, ter criado qualquer coisa. 

Com base no modelo cosmológico baseado na Teoria do Big Bang, o Universo surgiu há quase 14 bilhões de anos, nosso sistema solar, há 4,6 bilhões anos. Embora consigamos avistar a olho (em condições ideais) algo entre 2,5 mil e 3 mil estrelas em cada metade visível da esfera celeste, estima-se que o Universo observável contenha mais de 100 bilhões de galáxias, as menores com alguns milhões de estrelas e as maiores com centenas de bilhões. Nem todos esses dez sextilhões de "sóis" são orbitados, mas presume-se que haja tantos planetas quanto estrelas na Via Láctea.

Depois que o primeiro exoplaneta foi descoberto, há cerca de 30 anos, milhares deles foram sendo observados orbitando não apenas “sóis” semelhantes ao nosso, mas também anãs vermelhas e estrelas de nêutrons ultradensas. Graças aos telescópios espaciais Kepler e Tess, a NASA Exoplanet Archive já confirmou a existência de 6.291 exoplanetas, e outros 7.900 candidatos aguardam confirmação (para explorar dados detalhados de cada um desses mundos, acesse o Painel de Descobertas da NASA).

Observação: Com lançamento previsto para 2027, o Telescópio Espacial Nancy Grace Roman fará novas descobertas de exoplanetas usando uma variedade de métodos. A Missão ARIEL, da Agência Espacial Europeia, cujo lançamento está previsto para 2029, observará atmosferas de exoplanetas se concentrando em suas nuvens e neblinas.

Astrônomos descobriram recentemente 27 novos potenciais planetas circumbinários — que orbitam duas estrelas, como o fictício planeta deserto Tatooine, do universo Star Wars. O anúncio foi feito em maio, no dia conhecido como o "Dia Star Wars" pelos fãs da saga.

Até então, apenas 18 planetas circumbinários haviam sido oficialmente identificados no Universo, e os recém-descobertos estão a distâncias que variam de 650 a 18 mil anos-luz da Terra, embora mais da metade das estrelas do Universo existem em um sistemas binários ou mesmo com um número ainda maior de estrelas. Potencialmente, estamos perdendo muitos sistemas, pois achar novos planetas é como tentar encontrar uma vela ao lado de um poste de luz.

No entanto, em vez de identificar planetas orbitando sistemas binários por meio da observação de seu trânsito, os pesquisadores se concentram na oscilação no brilho de estrelas que eclipsam umas às outras. Usando esse método, foram identificados 36 sistemas binários - num total de 1.590 cujo comportamento só poderia ser explicado pela presença de um terceiro corpo, entre os quais têm grandes chances de ser massas planetárias. 

Em tese, um planeta como Tatooine poderia existir no exato ponto entre as órbitas das duas estrelas — que não é nem muito quente, nem muito frio. Vale lembrar que, quando o primeiro filme da saga Star Wars foi lançado, não se tinha conhecimento da existência de exoplanetas.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — A IGREJA DA IDADE MÉDIA EM PLENO SÉCULO XXI

NA VISÃO DOS IGNORANTES, OS EVENTOS EXTRAORDINÁRIOS DA NATUREZA SÃO MILAGRES DIVINOS.

No tempo das cavernas, tempestades, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais. Esse misticismo deu origem às religiões, que não devem ser confundidas com fé ou espiritualidade: enquanto as religiões impõem normas e rituais rígidos, a espiritualidade pessoal se ajusta aos valores e necessidades de cada um sem se prender ao formalismo religioso e descartando explicações dogmáticas para tentar explicar o insondável.


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Instigado pelo filho do presidiário e seus acólitos, o governo americano — leia-se Donald Trump — decidiu classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. Isso cria um enorme constrangimento para o governo brasileiro, sobretudo às vésperas de uma eleição na qual a principal vulnerabilidade do candidato à reeleição é sua incapacidade chapada de combater o crime organizado.
Do ponto de vista dos efeitos práticos, não há consenso entre os especialistas sobre a classificação desses grupos como terroristas. Há dúvidas mesmo dentro das Forças Armadas Brasileiras, para as quais a cooperação com Forças Militares Americanas — de preferência sem politização — é de importância fundamental.
Em princípio o governo americano dispõe agora, em relação ao governo brasileiro, de um formidável arsenal legal para excluir do sistema do dólar instituições financeiras brasileiras que tenham vínculos com organizações declaradas como terroristas; sancionar empresas brasileiras ou multinacionais que operam no Brasil que paguem a intermediários ligados às facções; e barrar a entrada nos Estados Unidos de pessoas com qualquer tipo de ligação a esses grupos. Mas a questão central é política, e em duas esferas. 
A nova doutrina de segurança nacional americana exige dos países desta área alinhamento total  com o que os EUA considerem questões de seu interesse, especialmente na área do crime transnacional. O governo americano está empenhado em favorecer grupos políticos com os quais têm proximidade, como a corrente dirigida pela quadrilha Bolsonaro. Nesse sentido, é um instrumento do governo americano de coerção diplomática e, eventualmente, até militar, e de ajuda política a bolsonarinho antes das eleições.

Os dogmas permanecem estáticos por se alimentarem da rigidez, ao passo que a ciência avança por questionar o que hoje parece sólido. Mesmo as teorias científicas mais robustas e testadas são passíveis de refutação. O que enfraquece a ciência não é a dúvida, mas a arrogância das certezas definitivas.


É justamente essa maleabilidade que a torna tão poderosa e diferente dos ramerrões religiosos. Como nos lembram Platão no Mito da Caverna e máxima "o sábio duvida e o sensato reflete", atribuída a Aristóteles, somente a dúvida e a revisão constante nos libertam das sombras.


O número de vertentes religiosas é espantoso, e todas alegam ter linha direta com o Todo-Poderoso. Na verdade, a maioria foi erguida sobre sangue e ossos dos que se recusaram a aceitar a ideia de Deus que elas pregam.


Se considerarmos "religião" como um sistema de crenças com rituais, locais de culto específicos e uma mitologia compartilhada, o Sítio de Göbekli Tepe, construído há cerca de 12 mil anos, é provavelmente o local de culto mais antigo do mundo — sua descoberta revolucionou a teoria de que a religião organizada surgiu depois da agricultura e da vida em vilas. 


Se nos ativermos apenas às religiões que ainda são praticadas e possuem uma linhagem histórica clara, o Hinduísmo encabeça a lista — suas raízes remontam à religião védica (aprox. 1500 a.C.) e incorpora tradições ainda mais ancestrais. O Judaísmo vem em seguida entre as tradições religiosas contínuas, com origens que remontam à época do patriarca Abraão (por volta de 1800 a.C.). Já o Zoroastrismo, originário da antiga Pérsia, é tido como uma das religiões mais antigas de cunho profético, embora haja debate sobre a data exata de seu fundador (entre os séculos XVIII e VI a.C.).


Talvez seja impossível dizer como seria o mundo sem as religiões, mas o termo "impossível" foi cunhado por alguém que desistiu de tentar. Atribui-se a Einstein a máxima segundo a qual "o impossível só existe até que alguém duvide e prove o contrário". Por outro lado, crer ou não crer são opções personalíssimas, e tomar por verdade absoluta a criação do mundo segundo o Velho Testamento é como negar a esfericidade da Terra — lembrando que as narrativas que compõem o Gênesis não fornecem uma explicação científica ou histórica sobre o passado, e que literatura religiosa não é jornalismo nem registra os fatos em tempo real. 


Outra pérola de sabedoria atribuída a Einstein alude à infinitude do Universo e da estupidez humana. Isso explicaria o porquê de criacionistas e devotos das religiões abraâmicas acreditarem, em pleno século XXI, que o mundo e tudo que nele existe foi criado em seis dias contados a partir das 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C., como ensinou o bispo irlandês James Ussher em "The Annals of the World". É possível que isso fizesse sentido na Idade Média — por motivos que agora não vêm ao caso —, mas vale reforçar que, enquanto os dogmas religiosos pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las experimentalmente.


A interpretação literal da Bíblia desconsidera o conhecimento científico acumulado nos últimos séculos em áreas como física, astronomia e biologia. Há atualmente evidências incontestáveis de que a evolução das espécies e a formação de estrelas e planetas ocorreram ao longo de bilhões de anos. Embora as religiões e a ciência não sejam mutuamente excludentes quando suas respectivas esferas são respeitadas, compete aos padres, pastores, rabinos, imãs e assemelhados oferecer conforto espiritual e respostas a questões como o propósito e o sentido da vida. Mas não é isso que a gente vê na prática.


Não devemos subestimar a enorme influência cultural da Bíblia e do Gênesis, mas precisamos mantê-los dentro de seu contexto histórico e mitológico e evitar interpretá-los como revelações científicas sobre a criação do mundo. Parafraseando o pintor grego Apeles, não vá o sapateiro além da sandália.


Antes de concluir este capítulo — que rascunhei no domingo de Páscoa —, achei por bem mencionar que o Natal é muito popular e amplamente festejado, mas é a Páscoa que simboliza a vitória sobre o pecado e a morte. No Brasil, a comemoração começa na Sexta-Feira da Paixão, segue pelo Sábado de Aleluia e termina no Domingo de Páscoa. Até algum tempo atrás, a "oitava da Páscoa" era uma semana inteira celebrada como se fosse um único dia de festa, e se encerrava na Pasquela, mas isso é outra conversa. 


O Código de Direito Canônico e as tradições da Igreja Católica impõem aos fiéis penitência, jejum e abstinência durante a Semana Santa. Segundo o Cânon 1251, abster-se de comer carne bovina, suína, de aves e outros derivados de sangue quente na Sexta-feira da Paixão se aplica a todos os fiéis a partir dos 14 anos de idade. O jejum canônico (que consiste em fazer apenas uma refeição por dia) é obrigatório para fiéis entre 18 e 59 anos (até completarem 60). 


Celebrações mundanas como baladas, churrascos e festas devem dar lugar ao recolhimento, silêncio e oração — e o mesmo se aplica a atividades e trabalhos que dificultem o descanso e o culto devido a Deus. Ademais, faltar deliberadamente à Missa no Domingo da Ressurreição ou à Vigília Pascal (sábado à noite) é considerado pecado grave.


Continua…

terça-feira, 2 de junho de 2026

AINDA SOBRE O TEMPO CRONOLÓGICO

 O HOJE TECE O AMANHÃ COM A TEIA DO ONTEM.

Temendo ser destronado, Urano devolvia os filhos ao útero de Gaia. Um belo dia, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que castrasse o pai. 

Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas passou a devorar a própria cria. O ciclo só foi interrompido quando Réia escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o Cronos a regurgitar seus irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou o genitor numa guerra que durou dez anos e, ao final, tornou-se o deus dos deuses.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Bolsonarinho enxergou na Casa Branca o local ideal para fugir da realidade. Trump tirou momentaneamente o efeito Master do noticiário, mas enfiou seu pé-frio na campanha eleitoral do Brasil ao classificar o PCC e o CV como facções terroristas.

Trata-se apenas um fetiche para disfarçar a ausência de um projeto para a área da segurança pública, mas os criminosos respiram aliviados.

Do ponto de vista prático, além de ofender a soberania, a novidade afeta a reputação do Brasil, afugentando investidores. Já o efeito eleitoral é duvidoso: fugindo do contágio de Daniel Vorcaro, o filho do presidiário caiu na órbita radioativa da calopsita alaranjada, que molhou o paletó para interferir em eleições alheias e perdeu no Canadá, Austrália, Romênia e Hungria.

Se a vida ensina algo, é que a vida nada ensina ao bolsonarismo.


Não sabemos se Urano e Cronos realmente existiram, nem se Saturno — a versão romana de Cronos, posteriormente associada ao tempo — ceifava os dias com sua foice. Tampouco sabemos se o tempo existe de fato ou se não passa de uma convenção criada por nossos ancestrais para dar sentido a eventos recorrentes, como o amanhecer e o entardecer, as fases da lua e as estações do ano. Mas sabemos que há na mitologia grega uma distinção fundamental entre Cronos e Kairós: o primeiro representa o tempo cronológico, linear e mensurável; o segundo, o tempo da experiência, do acontecimento, do instante significativo.


Alguns pensadores da Antiguidade ainda falavam de Aión, um terceiro modo de tempo: não aquele que se mede nem aquele que se aproveita, mas o que se habita — o tempo da duração, da permanência, do que escapa ao relógio e às urgências do agora.

Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos, que o relógio mede, que os calendários registram, que transforma segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. Essa lógica nos leva a tratá-lo como algo mensurável e manejável, um recurso a ser administrado, otimizado e explorado, quase sempre a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano.

É esse mesmo tempo que sustenta a ideia de crononormatividade, trabalhada pela pesquisadora estadunidense Elizabeth Freeman. Trata-se do conjunto de convenções temporais que normalizam trajetórias consideradas “corretas”, como ser alfabetizado até certa idade, casar até os 30, ter filhos até os 35, alcançar o sucesso profissional — seja lá o que isso signifique — antes dos 40. Nesse contexto, o tempo deixa de ser apenas uma medida e passa a funcionar como critério moral.

Outras formas de compreender e viver o tempo persistem entre povos tradicionais, povos originários, povos indígenas, africanos e do sul global. Nessas cosmovisões, o tempo não se comporta como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente. Ele pode ser cíclico, circular ou espiralar. O passado não está morto, o futuro não é um alvo fixo, e o presente não é apenas um ponto de passagem.

Convencionou-se adotar o tempo cronológico como padrão universal por ser um tempo que coloniza o presente — sequestrando nossa atenção —, captura o passado — reduzindo a memória a registro — e compromete o futuro — empobrecendo nossa capacidade de imaginá-lo. Na era das métricas, notificações e algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração: tornou-se um sistema de controle íntimo, automático e permanente. 

Essa não é a única ideia de tempo que existe, mas as formas não cronológicas são desconsideradas justamente por não servirem à produtividade, ao consumo e às tecnologias que exigem pressa, desempenho e obediência ao relógio.

No fim das contas, Cronos venceu, não como mito, mas como método. Ele já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina do Olimpo, e sim dos calendários, das metas, dos prazos e das notificações. Não precisa mais devorar os filhos; basta convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.