LEMBRE-SE DE CAVAR O POÇO MUITO ANTES DE SENTIR SEDE.
Ali Iezid Izz-Edim ibn Salim Hank Malba Tahan, ou simplesmente Malba Tahan, nasceu em 6 de maio de 1885, numa aldeia conhecida como Muzalit, na Pérsia Arábica. Ainda muito jovem, foi convidado pelo emir Abd el-Azziz ben Ibrahim a ocupar o cargo de queimaçã (prefeito) de El-Medina, município da Arábia, exercendo suas funções administrativas com inteligência e habilidade.
Depois de receber uma vultosa herança de seu pai, nosso herói viajou pelo mundo, passou algum tempo no Brasil e, finalmente, retornou à Arábia Central, onde faleceu em 1921. Mas o mais curioso dessa história é que esse personagem só existiu na imaginação do professor de matemática e escritor carioca Júlio César de Mello e Souza (1895–1974), que também encarnava Bruno Alencar Bianco, o “tradutor” das obras do fictício escriba árabe.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
O clérigo Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei, morto durante um ataque aéreo de Israel, foi anunciado sucessor do pai como líder supremo do Irã. Israel, por sua vez, afirmou que perseguirá e atacará o novo líder e aqueles que o nomearam. Autoridades iranianas recomendaram aos moradores de Teerã que evitem atividades ao ar livre, já que a fumaça das explosões e dos incêndios em instalações de combustível deteriorou a qualidade do ar e liberou produtos químicos tóxicos que podem provocar chuva ácida. Os confrontos entre Irã e Israel se estenderam a outros países do Golfo Pérsico, e a Guarda Revolucionária do Irã afirma ter capacidade para manter cerca de seis meses de operações intensas.
A possibilidade de delação premiada de Daniel Vorcaro vem ganhando força, mas o assunto deve ser discutido somente depois que a PF extrair os dados de todos os celulares apreendidos. Caso a delação avance, parte da equipe jurídica do banqueiro deverá ser substituída.
Segundo o jornalista Lauro Jardim, Alexandre de Moraes frequentou não só a mansão de Vorcaro em Brasília, mas também a casa de R$ 300 milhões que o banqueiro alugava em Trancoso (BA). Em nota, o gabinete do ministro respondeu que é “integralmente falsa a afirmação”, que o magistrado jamais realizou qualquer viagem privada com Vorcaro e que nunca esteve na propriedade citada. O colunista ainda que, menos de um mês antes de as ligações telefônicas com Vorcaro se tornarem públicas,, Moraes trocou o seu número de celular.
A advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Xandão, negou ter recebido no dia da primeira prisão de Vorcaro mensagens do próprio sobre seu processo, em resposta à versão divulgada por Alexandre de Moraes. A PF recuperou sete prints enviados pelo banqueiro em 17 de novembro de 2025, escritos no bloco de notas e enviados como mensagens de visualização única, que estariam vinculados a pastas onde aparecem contatos como “Vivi Moraes”, o presidente do União Brasil Antônio Rueda e o senador Irajá Abreu. Todos negaram ter recebido as mensagens. Segundo os peritos, a organização de arquivos após extração de dados não permite concluir automaticamente o destinatário das imagens. A defesa de Viviane pediu apuração sobre possíveis vazamentos e contestou as associações.
O escândalo Master atingiu o coração da política e abalou o STF. Embora não tenha afetado diretamente a reputação dos bancos, a nota de Moraes sobre mensagens com Vorcaro “confunde mais do que esclarece e ajuda a empurrar o Supremo para o fundo do poço e a exacerbar a crise entre STF, PF e PGR, que não é só um embate entre siglas, mas entre instituições”.
O livro mais famoso de Malba Tahan é O homem que calculava — uma coletânea de problemas e curiosidades matemáticas apresentada sob a forma de narrativa das aventuras de um calculista persa, à maneira dos contos de As Mil e Uma Noites. Já a lenda que transcrevo a seguir, digna de ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta, integra a coletânea Maktub (termo que significa “estava escrito” e expressa o tradicional fatalismo dos muçulmanos).
Há muitos anos, quando voltava de Bagdá, encontrei, num caravançará (albergue) próximo a Damasco, um velho árabe do Hedjaz que muito me chamou a atenção. Ele falava agitadamente com mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; fumava uma mistura forte de tabaco e haxixe e, quando ouvia de algum companheiro uma censura qualquer, exclamava, apertando o turbante esfarrapado entre as mãos ossudas:
— Mac Allah! (Por Deus!), ó muçulmanos! Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão!
— É um pobre diabo — diziam. — Não bate bem. Que Allah o proteja!
Eu, porém, sentia irresistível atração pelo desconhecido e procurei aproximar-me dele discretamente, conquistando sua confiança — o que consegui ao cabo de poucos dias.
— Os homens da caravana tomam-me por doido — disse-me ele certa noite, enquanto cavaqueávamos a sós. — Não querem acreditar que já tive nas mãos o destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o destino do gênero humano!
Esbugalhei os olhos, assombrado. Aquela afirmação insistente, de que havia sido senhor do Destino, era característica de seu pobre estado de demência. Mas ele insistiu:
— Segundo ensina o Alcorão, o livro de Allah, a vida de todos nós está escrita (maktub!) no grande Livro do Destino, onde cada homem tem uma página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na Terra, do cair de uma folha seca à morte de um califa, estão fatalmente escritos no Livro do Destino!
E, sem esperar que eu o interrogasse, narrou o seguinte:
— Em uma viagem pelo deserto, salvei certa vez um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Em sinal de gratidão, ele deu-me um talismã raríssimo que possuía: uma pedra maravilhosa que permitia a entrada livre na famosa Gruta da Fatalidade, onde se acha o Livro do Destino.
Depois de sugar longamente a piteira de seu narguilé, o velho prosseguiu:
— Viajei durante dois anos até chegar à gruta encantada. Um djinn (gênio benfazejo) que estava de sentinela à porta deixou-me entrar, advertindo, porém, que eu só poderia permanecer ali por poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu levava comigo: “Terá muito dinheiro!”. Lembrei-me, porém, de meus inimigos. Poderia, naquele momento, fazer um grande mal a todos eles. Movido pela ideia única do ódio e da vingança, abri a página de Ali Ben-Homed, o mercador. Li o que lhe ia acontecer e acrescentei embaixo, cheio de rancor: “Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!”. Na página de Zalfah-el-Abarj escrevi, impiedoso, alterando-lhe a vida inteira: “Perderá todos os haveres; ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!”. E assim, sem piedade, arrasei, feri e retalhei meus desafetos.
— E na tua vida? — indaguei, curioso. — Que fizeste, ó muçulmano, na página em que estava escrita a tua própria existência?
— Ah, meu amigo! — prosseguiu o ancião, cheio de mágoa. — Nada fiz em meu favor. Preocupado em fazer mal aos outros, esqueci-me de fazer o bem a mim mesmo. Agi como um miserável. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse, um efrite (gênio do mal que se contrapõe aos djins) agarrou-me fortemente e, depois de arrancar-me o talismã, expulsou-me da gruta. Caí entre as pedras e, com a violência do choque, perdi os sentidos. Quando recuperei a razão, achei-me ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a um pequeno oásis no deserto de Omã. Sem o talismã precioso, nunca mais pude descobrir o tortuoso caminho da Gruta do Destino.
E concluiu, entre suspiros, numa atitude de profundo e irremediável desalento:
— Perdi a única oportunidade que tive de ser rico e feliz!
Seria verdadeira essa estranha aventura? Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe do Hedjaz encerrava um grande e precioso ensinamento: preocupados em levar o mal a seus semelhantes, quantos homens se esquecem do bem que poderiam fazer a si próprios...




