A lira é um instrumento musical de cordas similar à harpa e à cítara. Dizem que Nero dedilhava a sua durante o Grande Incêndio de Roma, mas outras versões dessa história sugerem que o último imperador romano da dinastia júlio-claudiana cantava enquanto a cidade ardia ou que estava fora quando soube do ocorrido e mandou abrir os jardins de seu palácio para acolher os desabrigados.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Sob críticas por seu baixo engajamento na campanha de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas acompanhou o dito-cujo numa visita à Agrishow, em Ribeirão Preto — o primeiro ato de campanha conjunto da dupla. Esmerando-se na adulação, o "bolsonarinho" declarou que o governador paulista bolsonarista chegará ao Planalto um dia, classificou-o como "uma pessoa que tem, sim, plena capacidade de ser presidente" e injetou a providência divina na prosa: "Se Deus quiser, ainda vai ser um dia, porque o Brasil merece uma pessoa como você comandando também este país."
Na política, excetuando-se a morte, que deve ser deixada sempre para depois, nenhuma oportunidade deveria caber no dia seguinte. Mas Tarcísio acorrentou-se às conveniências de Bolsonaro e adiou o sonho presidencial para 2030. Apega-se agora ao compromisso de Flávio de não disputar a reeleição caso chegue ao Planalto.
Nessa matéria, a saliva é uma secreção que se dissipa rapidamente. Bolsonaro e Lula se elegeram em 2018 e 2022 combatendo a reeleição. No trono, mudaram de ideia. Derrotado, Bolsonaro recorreu até à tentativa de golpe para tentar se manter no cargo. Deu em prisão.
Se acreditar piamente no desprendimento do rebento de seu criador, Tarcísio descobrirá que toda espécie de dependência é ruim, seja do crack, da morfina ou do bolsonarismo.
Até algum tempo atrás, eu tinha vergonha da política brasileira. Hoje, tenho nojo.
Não é de hoje que um fato pode ter pelo menos três versões (ou narrativas, como se passou a dizer de uns tempos a esta parte): a sua, a minha e a verdadeira. Mesmo porque não existe verdade absoluta: tanto é possível dizer a verdade mentindo quando mentir dizendo a verdade, já que tudo é uma questão de ponto de vista.
Perguntado sobre a penúria cubana, que forçava universitárias a se prostituírem para sobreviver, Fidel Castro respondeu que a situação na "Pérola do Caribe" era tão boa que até as prostitutas eram universitárias. Isso me faz lembrar de um conto das 1001 Noites compilado por Malba Tahan, segundo o qual havia num determinado reino dois palácios, sendo o primeiro feito de mármore branco e conhecido como "Palácio da Verdade", e o segundo feito de granito escuro e conhecido como "Palácio da Mentira".
Um belo dia, um mágico estranjeiro aceitou o desafio do sultão, que consistia em citar um caso que não pudesse ser verdade nem mentira. Se ele tivesse êxito, receberia seu peso em ouro e pedras preciosas, mas se proferisse verdade ou uma mentira, seria confinado no Palácio da Verdade ou da Mentira, conforme o caso. Sem pestanejar, o mágico afirmou:
— Majestade, vou ficar preso no Palácio da Mentira!
Para aplicar a pena, cabia ao monarca verificar se a afirmação era verdadeira ou falsa. Mas o detalhe — e o diabo mora nos detalhes — é que ela não era nem uma coisa nem outra. Se o mágico fosse detido no Palácio da Mentira, sua afirmação se tornaria verdadeira, e ele teria de ser levado ao Palácio da Verdade. Caso o fosse, sua afirmação deixaria de ser verdadeira, e ele teria de ser preso no Palácio da Mentira. Resumo da ópera: o espertalhão recebeu sua recompensa e seguiu livre para fazer o que bem entendesse com o ouro e as pedrarias.
Quando criou a mulher, Deus criou também a Fantasia. Certo dia, a Verdade cobriu sua formosura com um véu claro e transparente e resolveu visitar o palácio do Sultão. Ao ver aquela linda mulher quase nua, o chefe dos guardas perguntou:
— Quem és?
— Sou a Verdade – respondeu ela. — E quero falar com vosso amo e senhor.
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir (cargo equivalente ao de primeiro-ministro).
— A Verdade quer penetrar neste palácio? Jamais! Se ela aqui entrasse, seria a perdição, a desgraça de todos nós. Dize-lhe que uma mulher seminua não pode entrar aqui — respondeu o vizir.
Bem mandado, o chefe dos guardas voltou e disse à Verdade:
— Não podes entrar, minha filha. A tua nudez ofenderia nosso amado Califa.
A Verdade se afastou lentamente do grande palácio, mas... Quando criou a mulher, Deus criou também a Obstinação. Assim, a Verdade se cobriu com um couro como o usado pelos pastores e bateu novamente à porta do palácio. Ao ver aquela mulher grosseiramente vestida, o chefe dos guardas perguntou:
— Quem és?
— Sou a Acusação — respondeu ela. — E quero falar com vosso amo e senhor.
O chefe dos guardas voltou a consultar o grão-vizir, que lhe disse, aterrorizado:
— A Acusação quer entrar neste palácio? Não! Jamais! O que seria de mim, de todos nós se ela aqui entrasse? A perdição, a desgraça. Dize-lhe que uma mulher vestida como um zagal não pode falar com nosso amo e senhor.
Voltou o chefe dos guardas com a proibição e disse à Verdade:
— Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar com nosso amo e senhor.
Mas ao criar a mulher, Deus criou também o Capricho. Vestiu-se então a Verdade com riquíssimos trajes, cobriu-se com joias e adornos, envolveu o rosto com um manto diáfano de seda e voltou à porta do palácio. Ao ver aquela criatura encantadora, o chefe dos guardas perguntou:
— Quem és?
— Sou a Fábula — disse a Verdade em tom meigo e mavioso. — E quero falar com vosso amo e senhor.
Mais uma vez, o chefe dos guardas correu a falar com o grão-vizir:
— Senhor, uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita uma audiência com o Sultão.
— Como ela se chama? — perguntou o vizir.
— Chama-se Fábula — respondeu o chefe dos guardas.
— A Fábula! – exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. — A Fábula quer entrar neste palácio. Pois que entre. E que cem formosas escravas a recebam com flores e perfumes! Quero que ela tenha o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!

