QUANTO MAIS EXTRAORDINÁRIA FOR UMA ALEGAÇÃO, MAIS SÓLIDA DEVERÁ SER A EVIDÊNCIA QUE A SUSTENTA.
Toda cultura no mundo tem seu livro sagrado — a Bíblia para os cristãos, a Torá para os judeus, o Alcorão para os muçulmanos, e assim por diante.
Cada um é diferente do outro, mas todos são uma mistura de mitos, lendas e tradições orais acumuladas ao longo dos séculos, e nenhum deles oferece uma explicação científica ou histórica do passado. E nem poderia, pois literatura religiosa não é jornalismo e tampouco leva em conta o conhecimento acumulado nos últimos séculos em áreas como física, astronomia e biologia.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Lulinha e Marcola viraram duas goteiras tóxicas. Investigados pela Polícia Federal como traficantes de influência, o filho e o homem de confiança de Lula acumularam extravagâncias. Descobertas pelos investigadores, as estripulias vão corroendo o comitê da campanha à reeleição.
Ex-chefe de gabinete de Lula, Marcola recebeu uma joia com diamantes de Roberta Luchsinger, a lobista do Careca do INSS. A peça foi comprada para o Dia das Mães. Custou R$ 9.000. A defesa diz que o valor é parte dos R$ 249 mil que Marcola pediu emprestado. Obviamente, Marcola não ouviu quando sua mãe rogou: "Cuidado com as companhias, meu filho".
Estrela de três inquéritos, Lulinha travou com a lobista Roberta diálogos sugestivos. Num deles, a amiga festejou a parceria: "Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça". Os investigadores detectaram encontros dos dois com Marcola e outro assessor do gabinete de Lula: Swedenberger Barbosa, o Berg.
O consolo dos operadores políticos de Lula é que a PF investiga também a mordida de Flávio Bolsonaro no bolso de Daniel Vorcaro. Pediu R$ 134 milhões. Levou R$ 61 milhões. A questão é saber de onde virá a última gota, aquela que fará o copo transbordar.
As religiões surgiram a partir do misticismo dos nossos antepassados mais remotos, que atribuíam tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais a forças sobrenaturais. Mas não se deve confundir religião com fé, pois tanto é possível ter fé e não ser religioso quanto seguir uma religião sem ter fé.
O propósito das religiões é "religar" o homem a Deus, mas cada vertente — cristã, budista, hinduísta, xamânica, espiritualista, gnóstica, etc. — define "Deus" à sua maneira, e em vez de levar à unidade, ao amor e ao bem de todos, atende a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam para manipular os menos esclarecidos.
Toda sociedade tem uma religião, toda religião tem um propósito social e toda cerimônia religiosa tem um ritual. As religiões perderam muito da empatia que tinham nos tempos de antanho depois que tornaram uma cabine de pedágio para o céu. Todas elas são a verdade sagrada para quem as professa, mas não passam de fantasia para os fiéis das outras vertentes. Não há crença, por mais absurda que seja, que não tenha seguidores fanáticos, dispostos a pegar em lanças para defendê-las.
Um sábio disse certa vez que a diferença entre o homem e Deus é que o homem esqueceu que é divino. Quando a Bíblia diz que devemos "construir nosso templo" e fazer isso "sem ferramentas e sem ruído", o sentido oculto expresso nas entrelinhas é de que se trata do nosso corpo: "Vós sois o tempo de Deus" (Coríntios 3:16). No entanto, grande parte do mundo religioso parece estar esperando um templo de tijolos — como prega a Profecia Messiânica — em vez do templo de nossas mentes.
As religiões sempre concitaram seus sectários a abraçar os conceitos de fé e crença que a ciência considera mera superstição. Mas vale lembrar que, a despeito de toda a evolução ocorrida nos últimos séculos, os cientistas ainda não sabem ao certo se o tempo existe ou se não passa de uma construção humana para colocar ordem no caos. E assim como o tempo, os "milagres" continuam sendo um mistério que desafia tanto a fé quanto a razão.
Entre outros fenômenos que os religiosos chamam de "milagres" e os cientistas não são capazes de explicar, cito a remissão espontânea de certos tipos de câncer, os relatos de pacientes que ficaram mais de 40 minutos sem sinais vitais e retomaram funções vitais sem intervenção médica direta, e o relicário com sangue de São Januário que se liquefaz todos os anos em Nápoles diante de milhares de fiéis.
Santa Teresa de Ávila e Santa Bernadete de Lourdes, mortas em 1582 e 1879, respectivamente, tiveram seus corpos exumados décadas ou séculos depois, e eles foram encontrados em estado de conservação surpreendente, sem sinais de decomposição ou odor, a despeito de não terem sido embalsamados. Em 1917, cerca de 70 mil pessoas relataram ter visto o sol girar em espiral e emitir luzes coloridas após uma aparição mariana — o fenômeno foi reconhecido pelo Vaticano, mas nunca explicado pela ciência.
Historicamente, todos os grandes avanços científicos começaram com uma ideia simples que ameaçou o status quo, e mentes medíocres sempre atacam o que não entendem. A esfericidade da Terra foi tachada de impossível e o heliocentrismo, de heresia, até que um dia o mundo se tornou redondo e o Sol passou a ser o centro do sistema solar.
A ideia da existência de um ser superior é plausível, mas acreditar na versão rancorosa e vingativa do Velho Testamento é ridículo. Qualquer pessoa minimamente esclarecida rejeita a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem com os anjos ou assando lentamente em um espeto na churrasqueira de um anjo caído.
O mesmo se aplica às narrativas sobre Moisés, que teria aberto o mar vermelho, tirado água de uma pedra a golpes de cajado e morrido sem poder entrar na terra prometida por Jeová a Abraão e seus descendentes, como castigo por não ter atribuído os "milagres" ao vaidoso Criador.
Observação: Moisés supostamente escreveu os cinco livros do Pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) durante sua longa caminhada pelo Deserto do Sinai. Curiosamente, o Deuteronômio narra sua morte, o que seria impossível se ele mesmo o tivesse escrito. Há também referências a reis de Israel em passagens do Gênesis, numa época em que a monarquia ainda não existia. Sem falar que o trajeto entre o Egito e Canaã, estimado em cerca de 450 quilômetros, poderia ser feito a pé em poucas semanas, o que torna implausíveis os 40 anos de peregrinação.
Sobre a Torre de Babel, a ideia de Deus ter feito uma espécie de "reset" nos indivíduos para que eles passassem a falar línguas diferentes é outro dos inúmeros absurdos que recheiam o Velho Testamento. A antropologia indica que idiomas são construções culturais desenvolvidas por seres humanos, e não criações instantâneas de entidades sobrenaturais. As narrativas bíblicas surgiram inicialmente de forma oral e só foram registradas muito tempo depois. Se a escrita hebraica ainda não estava consolidada, qual teria sido o sistema de escrita utilizado nas tábuas dos Dez Mandamentos?
Observação: Segundo uma anedota clássica do humor judaico, Moisés desceu do Monte Sinai carregando três tábuas e anunciou solenemente: "O Senhor, Deus de Israel, deu-vos estes quinze..." — e aí uma das tábuas escorrega e se despedaça no chão — "...dez mandamentos!"
Voltando à fantasiosa narrativa do Êxodo, se a chegada à Canaã ocorreu por volta de 1210 a.C., após quarenta anos no deserto, a saída do Egito teria acontecido aproximadamente em 1250 a.C., durante o reinado de Ramsés II. Isso significa que Moisés teria cerca de 80 anos ao deixar o Egito e 120 ao morrer na região de Moabe.
Já Abraão, segundo a cronologia bíblica tradicional, teria nascido por volta de 1812 a.C. e partido de Harã rumo a Canaã aos 75 anos de idade. A distância aproximada entre Harã e Canaã é de cerca de 680 quilômetros, apenas 230 quilômetros a mais do que a distância atribuída ao Êxodo, e a diferença de 230 km exigiria aproximadamente 5,1 dias a mais de caminhada.
Observação: Abraão teria vivido 175 anos, morrendo por volta de 1637 a.C. Entretanto, ao comparar essa cronologia com a data tradicional da chegada dos israelitas a Canaã, por volta de 1200 a.C., surge um inexplicável intervalo de mais de cinco séculos.
A reflexão que fica é que crenças antigas devem ser examinadas com o mesmo rigor aplicado a qualquer outro relato histórico. Linguística, arqueologia, antropologia e história oferecem ferramentas para investigar essas tradições.
Questionar não é negar automaticamente; é submeter afirmações à análise crítica e às evidências disponíveis. Entretanto, a força de uma crítica costuma aumentar quando ela se concentra nos argumentos e nas evidências, e não na capacidade intelectual de quem discorda.
No fim das contas, a questão não é escolher entre fé e razão como se fossem adversárias irreconciliáveis. É possível reverenciar o mistério sem abdicar do pensamento crítico — e questionar narrativas antigas sem desrespeitar quem nelas encontra conforto e sentido. O que não se pode é exigir que o mundo inteiro aceite como verdade literal aquilo que, à luz da linguística, da arqueologia e da história, se revela como metáfora, mito ou simplesmente ficção bem-intencionada.
A fé que não sobrevive a perguntas não é tão sólida quanto parece.


