Se a história da luz nos ensina alguma coisa, é que a ciência não avança necessariamente em linha reta. Algumas ideias desaparecem, outras sobrevivem, algumas são abandonadas e depois ressuscitam sob uma forma completamente diferente.
Talvez a Teoria das Cordas — que vem sendo considerada desde a década de 1970 uma das candidatas mais ambiciosas a uma Teoria de Tudo, capaz de descrever sob um mesmo arcabouço as partículas fundamentais e as forças da natureza, incluindo a gravidade — esteja vivendo justamente um desses momentos de espera. Até porque já se passaram mais de cinquenta anos, e o tão sonhado casamento entre a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica ainda não aconteceu.
A dificuldade não está apenas na matemática, mas na possibilidade de verificar experimentalmente aquilo que a matemática prevê. A Teoria das Cordas propõe que as partículas fundamentais não sejam objetos pontuais, mas minúsculas cordas vibrantes que, dependendo da maneira como vibram, se manifestam como partículas diferentes. E entre seus estados de vibração surge algo que se comporta como o gráviton — a hipotética partícula mediadora da gravidade quântica. Ou seja: a gravidade aparece naturalmente dentro da estrutura da teoria. Só que há um pequeno inconveniente.
As escalas envolvidas são tão diminutas e as energias necessárias tão elevadas que testar diretamente as previsões mais fundamentais da teoria está além das possibilidades experimentais atuais. E as dimensões extras constituem outro problema: nas formulações mais conhecidas, o Universo precisa de dez ou onze dimensões, mas as dimensões adicionais estariam compactificadas em escalas extraordinariamente pequenas. Consequentemente, não conseguimos enxergá-las, medir sua geometria ou passear por elas. Pelo menos por enquanto.
Ainda assim, seria injusto concluir que a Teoria das Cordas não produziu nada de importante simplesmente porque ainda não sabemos se ela descreve literalmente o nosso Universo. Uma das maiores contribuições de seu desenvolvimento foi justamente revelar conexões inesperadas entre áreas da matemática e da física que pareciam não ter relação alguma. O físico Edward Witten, um dos mais conceituados nomes da área, mostrou como a teoria poderia estabelecer pontes entre diferentes formulações matemáticas e físicas. Dessa evolução surgiu, entre outras coisas, a Teoria M, que reúne diferentes versões das supercordas sob uma estrutura mais abrangente.
E há ainda uma conexão particularmente fascinante: em 1997, o físico argentino Juan Maldacena propôs a chamada correspondência AdS/CFT — uma relação profunda entre uma teoria gravitacional definida em determinado espaço e uma teoria quântica sem gravidade formulada em uma dimensão menor. Em termos simplificados, uma descrição que contém gravidade pode ser equivalente a outra que não contém gravidade. Parece absurdo, mas é justamente por isso que é fascinante.
A correspondência AdS/CFT não transformou a Teoria das Cordas numa teoria experimentalmente comprovada, mas numa ferramenta extremamente poderosa para investigar problemas de gravidade quântica, buracos negros e teoria quântica de campos. Ou seja: mesmo uma teoria cuja relação com a realidade ainda não foi demonstrada pode produzir matemática e ferramentas capazes de iluminar problemas reais da física. E talvez seja essa a parte mais interessante da história.
A ciência não é apenas uma coleção de respostas confirmadas. Ela também é uma coleção de perguntas bem formuladas, hipóteses ousadas e caminhos que, às vezes, levam a lugares que ninguém imaginava encontrar. A Teoria das Cordas pode um dia receber a confirmação experimental que seus defensores esperam, mas também pode ser abandonada por uma teoria mais abrangente ou ainda se revelar parcialmente correta, como aconteceu tantas vezes na história da física: O fato é que não sabemos, e talvez seja justamente isso que torna a história tão interessante.
No fundo, a Teoria das Cordas não está apenas tentando descobrir do que o Universo é feito. Ela está tentando descobrir qual é a arquitetura da própria realidade. Se um dia conseguirmos testar suas previsões, talvez descubramos que o espaço possui dimensões que jamais percebemos, que a gravidade tem uma estrutura quântica e que aquilo que chamamos de partículas são apenas diferentes manifestações de uma mesma realidade fundamental. Se não conseguirmos… bem, a ciência terá aprendido alguma coisa igualmente valiosa: que a natureza não é obrigada a obedecer às nossas melhores ideias.
Como dizia uma antiga frase estampada numa camiseta: "A física é teórica, mas a diversão é real.” Talvez a Teoria das Cordas não seja a Teoria de Tudo, mas apenas uma ponte, e algumas das maiores descobertas da ciência começaram exatamente assim: alguém construiu uma ponte antes mesmo de saber aonde o outro lado levaria.
E nós, naturalmente, continuaremos atravessando.




