quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM…

… E O TEMPO RESPONDEU QUE NÃO TEM TEMPO PRA DIZER AO TEMPO QUE O TEMPO DO TEMPO É O TEMPO QUE O TEMPO TEM.


Não sabemos se o tempo existe realmente ou se não passa de uma criação humana destinada a explicar o dia e a noite, as fases da lua e outras sazonalidades. Ainda assim, consideramos o tempo o pano de fundo de uma sucessão de eventos em que o ontem determina o que acontece hoje e o hoje determina o que acontece amanhã.


Sabemos que o tempo não flui da mesma maneira para todas as pessoas em todos os lugares devido aos efeitos da dilatação do tempo e da dilatação gravitacional. Num carro a 180 km/h, esses efeitos são imperceptíveis, mas os relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra adiantam 38 microssegundos por dia, sendo — 7 microssegundos a menos devido à velocidade e 45 microssegundos a mais devido à gravidade. 


Pelo mesmo motivo, o tempo passa mais devagar ao nível do mar do que no topo do Everest — como foi comprovado experimentalmente por relógios atômicos posicionados a alturas diferentes. Já numa espaçonave a 99,9999999% da velocidade da luz, a dilatação do tempo reduz milhares de anos terrestres a poucos segundos, tornando viagens de centenas ou milhares de anos-luz praticamente instantâneas (no referencial dos astronautas).


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Uma eleição de fim e de começo. Fim de um ciclo para o lulismo — seja o xamã petista reeleito ou não, essa é sua última corrida eleitoral —, potencialmente para o bolsonarismo — caso Flávio Rachadinha perca, o que sobra para o empreendimento familiar? —, e do começo de uma transição para a política nativa digital, que pede candidatos com a cabeça naturalmente nessa era. Mas os candidatos mais visados, prediletos e, ao mesmo tempo, mais rejeitados nas pesquisas não compareceram, alegando razões estratégicas de proteção mútua. 
Por óbvio, as ausências foram exploradas livremente com variações entre críticas e grosserias, com a desvantagem de os alvos não estarem ali para exigir direito de resposta a ofensas pessoais que claramente feriam as regras do embate.
A resposta à clássica pergunta sobre quem ganhou o debate depende do ponto de vista. Sob o prisma da captura de atenção e produção de cortes para a internet, Renan Santos (Missão) se deu bem, já que há público para espetáculo de insultos. Mas no aspecto da apresentação de credenciais para o papel de estadista, nenhum dos três pareceu apto a despertar no eleitorado a motivação para ultrapassar a barreira das torcidas organizadas por afeições e aversões.
É possível que Renan ganhe pontos nas pesquisas pelo viés recreativo. Caiado e Cury não estiveram à altura da empreitada presidencial nem da tarefa de sacudir o cenário sedimentado. O molusco abjeto e o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias não quiseram se expor aos ataques dos adversários e ao risco de perder pontos no topo das preferências. Evitaram se enfrentar, sonegando ao eleitorado a chance da comparação sem o filtro da propaganda. Mas isso talvez não mexa na conta do custo-benefício: Collor, FHC e Lula eram favoritos quando escolheram não ir a debates iniciais e, ainda assim, ganharam eleições seguidas. Agora que há mais fanáticos que convictos, um abalo por causa de ausências e desempenho dos presentes soa improvável.
Aguardemos as pesquisas para ver qual foi a percepção do público. Mas fica a impressão de que, ao fugir do contraditório, os preferidos não confiam nos respectivos tacos, têm medo dos nanicos e menosprezam o discernimento do eleitor.

No livro Our Mathematical Universe, o cosmólogo Max Tegmark compara o cosmos a uma "colcha" formada por 10^118 (dez elevado a 118) retalhos, cada qual com suas próprias leis físicas, constantes específicas e um número colossal de partículas subatômicas (da ordem de 1 quatrigintilhão). Nosso universo é um desses "retalhos" e se estende em todas as direções por 42 bilhões de anos-luz (397.350.679.848.393.625.305.088 km). 


Para efeito de comparação, a soma dos grãos de areia de todas as praias da Terra é estimada em 10ˆ22 (ou 10 sextilhões, no sistema de numeração curta usado no Brasil), enquanto os 13,8 bilhões de anos transcorridos desde o Big Bang correspondem a cerca de 10ˆ17 segundos (ou 100 quatrilhões).


Falamos em milhões, bilhões e trilhões com a naturalidade de quem não tem a menor ideia do que essas grandezas significam. Contar em voz alta de zero a um milhão demoraria 23 dias, mas seriam necessários 230 anos para contar até 1 bilhão. Um bilhão de segundos corresponde a 31 anos e 8 meses, mas demora-se mais pronunciar os números conforme eles aumentam (levamos um segundo para dizer "2" e cinco para dizer "1.987.789"), sem falar que, como as pessoas precisam dormir, comer e satisfazer outras necessidades fisiológicas, a contagem ficaria limitada a 16 horas por dia.


Concluída essa (não tão breve) introdução, passamos ao cerne desta matéria, começando por lembrar que a imensidão do cosmos levou os astrônomos e astrofísicos a medirem as distâncias em unidades astronômicas (UA) — uma UA equivale à distância média entre a Terra e o Sol, que varia de 149,5 milhões de km no ponto mais próximo da estrela a 152,1 milhões no ponto mais distante —, ao passo que um ano-luz — distância que a luz percorre no vácuo ao longo de um ano — equivale a cerca de 9,5 trilhões de km.


Embora a luz se propague no vácuo com uma velocidade uniforme e constante de 299.792,5 km/s, ela demora 8 minutos e 13 segundos para percorrer a distância entre o Sol e a Terra e 4,24 anos para vir de Proxima Centauri, que fica a 40,2 trilhões de quilômetros do nosso sistema solarQuando ouvimos o termo ano-luz, nossa mente tende a subestimar completamente o que ele realmente significa. Parece apenas mais uma unidade de medida, como quilômetros ou milhas, que podemos visualizar e compreender. Mas não se trata de uma distância comum, como veremos no próximo capítulo.


Até lá.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 110ª PARTE

O TEMPO NÃO PARA NO PORTO, NÃO APITA NA CURVA, NÃO ESPERA NINGUÉM.

Vimos que viajar para o passado é matematicamente possível, mas esbarra em problemas como as limitações da nossa tecnologia, a possibilidade de deformações criadas no espaço-tempo — que poderiam causar um raio de radiação capaz de destruir a espaçonave e o próprio espaço-tempo — e os paradoxos temporais — como o famoso paradoxo do avô.


Isso sem falar no risco de apanhar doenças infecciosas potencialmente letais, nos perigos ambientais — como exposição ao chumbo e outros materiais que na época não eram considerados perigosos — e nas chances (nada desprezíveis) de ser escravizado, enforcado ou queimado vivo.


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A crise que assombra Lula se agrava com a devastadora revelação de que Lulinha foi “destinatário de pagamentos” oriundos do contrato milionário que uma empresa de tecnologia obteve no governo do seu pai graças à sua interferência direta. 

Diálogos recuperados pela PF da lobista Roberta Luchsinger apontam que os pagamentos eram de Cléber Ribas de Oliveira, da 3Structure, dona de contratos com Dataprev e Ministério do Desenvolvimento Social, além de mostrarem Roberta pedindo dinheiro para “despesas de Lulinha” e cobrando pagamentos citando o filho do macróbio que, pelo mal de nossos pecados, quer porque quer o quarto mandato (para piorar, seu adversário mais competitivo é Flávio Rachadinha, primogênito do refugo da escória da humanidade).

Tem mensagem de Lulinha também: “Emite a NF pro Cleber”, que pagou ao menos R$ 2,5 milhões à lobista, que, em troca, abriu as portas do governo. Lulinha reconheceu que ela “cuidava” de suas finanças e discutia viagens caras sem “dim dim nem origem”.

Indícios de sociedade oculta e tráfico de influência investigados pela PF fragilizam mortalmente o governo e reforçam a pressão pela CPI do Lulinha. A PGR argumenta que os três inquéritos envolvendo o menino prodígio deveriam baixar para a primeira instância, mas o ministro André Mendonça decidiu mantê-los no STF. Na avaliação de experientes magistrados de tribunais superiores, Mendonça, cuidadoso como é, não adotaria essa decisão se não houvesse indícios de envolvimento de autoridades com foro privilegiado — aliás, tem muita autoridade com fôro, mas poucas com "filho prodígio". 

Mandar o caso Lulinha para primeira instância já tinha virado campanha de parte da mídia ligada ao governo, que visa blindar Lula, mas a minuta do contrato de R$ 626 milhões entregue a Marcola reforçaria a suspeita de que o presidente sabia das negociações do canabidiol.


Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica a viagens para o futuro — que, para começo de conversa, não é necessariamente melhor do que o presente. Por um lado, o avanço tecnológico facilitou nossa vida como o concreto e a logística facilitaram a vida dos antigos romanos, mas por outro o século XX foi marcado por conflitos globais terríveis, e o Império Romano colapsou. Assim, quem viajasse para os séculos XXII ou XXIII provavelmente encontraria um mundo dividido, com vastas regiões em péssimas condições — devido ao aquecimento global —, ou mesmo um planeta vazio, destruído por algum colapso misterioso. Em tese, o futuro pode apresentar tantos perigos quanto o passado, sem falar que temos informações confiáveis sobre o passado, mas nada sabemos sobre o porvir. 


Mas a pergunta que se coloca é: o que exatamente acontece se alguém voltar no tempo e mudar a história? Será que o futuro realmente irá mudar, ou será que essas mudanças impedirão o viajante de retornar ao passado? Se mudar o passado cria outras linhas temporais, qual versão da história fica valendo? Será que o viajante ficará preso numa linha alternativa, sem poder retornar ao presente de onde saiu, ou não conseguirá mudar a história porque as mudanças que ele implementar já fazem parte da história? 


Isso sem falar nos problemas de identidade que podem acontecer no caso de duas ou mais linhas do tempo coexistirem simultaneamente. Será que haverá duas ou mais versões do viajante existindo ao mesmo tempo, como irmãos gêmeos dividindo os mesmos documentos? E se um deles comete um crime e deixa seu DNA na cena para o outro ser preso em seu lugar? São muitas as perguntas e poucas as respostas — a rigor, o que se tem são meras especulações baseadas em teorias pendentes de comprovação. 


Comecemos examinando o problema à luz da interpretação quântica segundo a qual, cada vez que uma decisão ocorre, o universo se divide em ramos, todos igualmente reais. Aplicada às viagens no tempo, essa premissa sugere que qualquer interferência no passado não alteraria a história, pois criaria uma nova ramificação. Tomando como exemplo o paradoxo do avô (vide capítulo anterior), o viajante que mata o próprio avô não apaga a si mesmo: simplesmente deriva para uma linha onde nunca nasceu, enquanto o ramo original continua intacto. A questão é que ele ficaria preso nesse ramo alternativo, sem acesso à linha de onde partiu.


À luz da teoria da proteção cronológica (vide capítulo anterior), as leis da física conspiram para impedir paradoxos, tornando as viagens ao passado impossíveis na prática. Nesse cenário, o multiverso nem entra em cena, e a questão se resolve antes. Já segundo o princípio da autoconsistência de Novikov (também abordado no capítulo anterior), o viajante pode voltar ao passado, mas só consegue fazer o que já estava previsto para acontecer. Nesse caso, a história é um bloco fechado, sem ramificações. Não há duas versões do viajante, apenas uma, encaixada num loop consistente.


De acordo com a teoria do multiverso cosmológico, os universos paralelos não são criados por decisões quânticas, mas existem independentemente, como bolhas num oceano inflacionário. Nesse cenário, viajar no tempo equivale a saltar entre essas bolhas — mas aí o "passado" visitado não seria o passado do viajante, e sim o passado de outro universo estruturalmente semelhante, e qualquer mudança ficaria confinada a essa bolha alheia.


Na interpretação dos muitos mundos, se o viajante e seu duplo coexistem no mesmo ramo por algum tempo, eles se tornam indivíduos distintos com histórias divergentes a partir do ponto de bifurcação — mas com DNA idêntico, impressões digitais idênticas, e provavelmente memórias coincidentes até certo ponto. O direito penal contemporâneo não tem categoria para isso, pois seria o caso mais extremo imaginável de gêmeos idênticos — em relação aos quais, a Justiça também tem dificuldades.


A questão é que essas teorias não foram comprovadas experimentalmente — e não se sabe quando o serão, já que operam em escalas ou condições inacessíveis à tecnologia atual. A interpretação dos muitos mundos, por exemplo, é matematicamente elegante, mas produz ramos do universo que, por definição, jamais interagem com o nosso — o que a torna, na prática, cientificamente escorregadia. O multiverso cosmológico enfrenta o mesmo problema: as bolhas vizinhas estão além de qualquer horizonte observável. Novikov é internamente consistente, mas depende de uma visão do tempo como um bloco rígido que contradiz nossa intuição de que o futuro está em aberto.


O que todas essas teorias têm em comum é a tentativa de salvar a lógica diante de um fenômeno que, se existisse, a fulminaria. São, de certo modo, grades instaladas antes de a janela ser aberta — precauções teóricas contra um problema prático que ainda não sabemos como enfrentar. Por enquanto, o viajante do tempo é um personagem de ficção científica, e talvez seja melhor que continue assim, mesmo porque a história já é complicada o suficiente sem que ninguém volte para editá-la.


Mas a pergunta persiste, incômoda e fascinante: se o tempo é, como sugere a relatividade geral, uma dimensão do espaço-tempo e não um rio que corre numa única direção, então a possibilidade de percorrê-lo em sentidos distintos existe, sendo inclusive o fruto mais cobiçado — mas ainda não alcançado — da árvore da relatividade. Não obstante, o que é inalcançável hoje pode ser trivial amanhã. Veja que a esquadra de Cabral levou 44 dias para cruzar o Atlântico em 1500, e 500 anos depois o Concorde já fazia a mesma viagem por ar em pouco mais de três horas.


A ciência ainda não sabe responder a essas e outras questões, mas a ficção científica respondeu à sua maneira, com resultados às vezes surpreendentemente rigorosos. Todavia, até que as coisas mudem, o viajante do tempo continuará fazendo o que sempre fez: existir apenas na imaginação — que, convenhamos, é o único lugar onde ele nunca encontra paradoxos —, e o tempo, fazendo o que sempre fez: correr em uma única direção, indiferente às nossas teorias, aos nossos paradoxos e aos nossos desejos de voltar atrás.


Continua...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

SERÁ QUE VIVEMOS NUMA SIMULAÇÃO?

SE CIVILIZAÇÕES AVANÇADAS CRIARAM MUITAS SIMULAÇÕES COM SERES CONSCIENTES, É MAIS PROVÁVEL QUE ESTEJAMOS VIVENDO DENTRO DE UMA DESSAS SIMULAÇÕES DO QUE NA REALIDADE BASE.

O mundo está cada vez mais estranho. Se fossemos Keanu Reeves vivendo em uma simulação de computador, diríamos que estamos constantemente passando por “falhas na Matrix”.


A franquia Matrix explora um futuro distópico onde a realidade que conhecemos é, na verdade, um sistema de inteligência artificial chamado "Matrix". Thomas Anderson, — conhecido pelo apelido Neo e atormentado por falhas na sua realidade — é contatado por Morpheus e Trinity para invadir a simulação, recrutar e treinar "despertados". Morpheus oferece a Neo a escolha entre duas pílulas: a azul (para continuar na ilusão) e a vermelha (para descobrir a verdade). Ao escolher a pílula vermelha, o programador acorda em um mundo devastado e descobre que as máquinas dominam o planeta, mantendo os corpos humanos em cápsulas para extrair energia (bioeletricidade).


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Os púlpitos vazios de Lula e Flávio Bolsonaro chamaram a atenção, mas a ausência dos favoritos já era esperada. Dos seis convidados, restaram apenas três. Romeu Zema se juntou aos fujões. Augusto Cury ameaçou desistir, mas foi convencido pelo jornalista Fernando Mitre a desistir da desistência, juntando-se no estúdio a Ronaldo Caiado e Renan Santos. Os três somam 11% das intenções de voto no Datafolha, contra 71% atribuídos ao molusco macróbio e ao rebento do refugo da escória da humanidade..

A cena mais marcante da palhaçada estava na plateia, não no palco. Vice de Ronaldo Caiado, Gilberto Kassab cochilou várias vezes — inclusive durante uma fala do seu companheiro de chapa. Com suas sonecas, foi o vice-campeão do "debate", perdendo apenas para o eleitorado que foi dormir antes dele.

Em última análise, foi "debate" entre aspas, sem embates. Lula apanhou mais que Bolsonarinho. Zema foi ignorado — ninguém quis chutar cachorro morto.

Com linguajar de sarjeta, Renan exibiu cortes para a internet, não ideias. Disse que Lula e Flávio fugiram como "duas cadelas". Escorregou entre a misoginia e a homofobia. Fez ataques gratuitos a Janja e Erika Hilton.

Com sorriso robótico, Caiado soou menos como presidenciável do que como guia turístico do seu estado. Prometeu transformar o Brasil numa espécie de Goiás hipertrofiado. Com ares professorais, o psiquiatra Cury forneceu receitas de autoajuda para um país "doente". 

A 41 dias do primeiro turno, dificilmente o "debate" influenciará significativamente os ponteiros das pesquisas. Lulistas e bolsonaristas aplaudem os fujões. O eleitor que atrasou o sono não se livrou do pesadelo da polarização.


Isso cheira a ficção, mas e se nosso Universo for mesmo um gigantesco holograma, como afirmam pesquisadores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, Universidade de Waterloo e Instituto Perimeter, no Canadá, Lecce e Universidade de Salento, na Itália, que publicaram um estudo sobre o assunto no periódico Physical Review Letters após constatarem que uma das explicações para a formação do Universo cabe direitinho em um modelo de duas dimensões (2D)? 


Essa é uma entre as mais de 10 mil pesquisas sérias relacionadas ao conceito do Universo Holográfico, criado pelo físico Leonard Susskind nos anos 1990. Só que, até onde se sabe, o cosmos é formado por três dimensões espaciais (altura, profundidade e largura) e uma quarta, de natureza temporal. Dito isso, como ele poderia funcionar com uma dimensão a menos (sendo que é só olhar para a frente para ver que tudo ao nosso redor é em 3D)?


Imagine que tudo o que você vê, sente e ouve em três dimensões (mais a sua percepção de tempo), na verdade, emana de um campo plano de duas dimensões. A ideia é semelhante à dos hologramas comuns, nos quais uma imagem em 3D está decodificada em uma superfície plana, como o holograma de um cartão de crédito. A diferença é que agora é o Universo inteiro que está decodificado. Mas isso não significa que estamos vivendo agora em um holograma, e sim que isso pode ter acontecido no surgimento do Universo, há quase 14 bilhões de anos. 


Como mencionado em dezenas de oportunidades, a ciência sabe muito, mas não sabe tudo, e ainda não foi capaz de conciliar o modelo da mecânica quântica (que regula o universo das coisas menores do que um átomo) com o modelo da relatividade geral (aquela mesma proposta por Einstein, que regula os corpos gigantescos como estrelas e planetas). Isso fica especialmente evidente ao se tentar descrever o surgimento do Universo, quando, segundo a teoria do Big Bang, toda a massa e energia existentes estavam contidas em um único ponto menor do que uma ervilha, mas com densidade infinita.


Em outras palavras, existem duas físicas que falam línguas diferentes, já que a mesma gravidade que explica tão bem o comportamento dos planetas, por exemplo, não funciona para explicar o comportamento de partículas subatômicas. No entanto, uma teoria que tenta fazer as duas físicas conversarem é conhecida como gravidade quântica.


De acordo com o físico italiano Carlo Rovelli, apesar de ainda não ter sido comprovada experimentalmente (como muita coisa na física teórica), essa teoria é a que melhor explica a realidade que nos cerca, pois para a gravidade quântica não existe o espaço-tempo. Segundo esta concepção de mundo, tudo seria formado por campos quânticos — compostos pelas partículas que, como os fótons, por exemplo, não precisam do espaço-tempo para lhes servir de suporte porque eles próprios são o espaço-tempo.

 

Além do tempo e do espaço, a teoria elimina também o universo infinitamente pequeno, menor do que as partículas subatômicas, onde a mecânica quântica atua. Assim, as relações espaciais que tecem o espaço curvo de Einstein são as mesmas interações que tecem as relações entre os sistemas elementares da mecânica quântica — que se tornam compatíveis quando se conclui que espaço e tempo são aspectos de um campo quântico que podem viver mesmo sem serem escorados num espaço externo.


Como se vê, o cosmos é um lugar fascinante e nada óbvio. E o mais interessante da gravidade quântica é que ela prevê que, se eliminarmos uma dimensão, podemos eliminar também a gravidade, tornando os cálculos muito mais fáceis. Com esta ideia em mente, os pesquisadores desenvolveram um modelo com duas dimensões (mais o tempo) para explicar como o princípio do holograma poderia explicar os acontecimentos do Big Bang e suas consequências.


Vale reforçar que eles estão longe de provar que o nosso Universo era um holograma no começo, mas o fato de as evidências observacionais do mundo real explicarem partes faltantes das leis da física em duas dimensões significa que não devemos descartar a ideia. Por outro lado, nenhum de nós é um desenho animado vivendo em um mundo sem profundidade. Segundo Niayesh Afshordi, da Universidade de Waterloo, talvez não vivamos em um holograma, mas podemos ter saído de um. Seja como for, até prova em contrário o Universo tem três dimensões.


Dada a quantidade de universos criados, a ideia encontra eco nos trabalhos tanto de filósofos contemporâneos como David Chalmers, da Universidade de Nova York, quanto de filósofos clássicos como Platão — com sua alegoria da caverna — e modernos como Descartes, para quem não podemos confiar cegamente em nossas percepções. Por exemplo, o resultado de uma final de copa do mundo pode ser o mesmo para os dois países, mas dificilmente quem perdeu vai ter a mesma percepção daquele que ganhou (pergunte a um torcedor alemão se ele ficou triste com o 7x1). Tem-se aí duas realidades alternativas baseadas em um único fato.

A Hipótese da Simulação ficou ainda mais conhecida em 2016, quando o magnata Elon Musk, CEO da SpaceX, disse que fazemos parte de um mundo simulado e que a nossa realidade poderia ser só uma entre muitas. Mas a tecnologia de hoje é muito mais avançada do que há dez anos, quando agíamos como neandertais e usávamos o Orkut, tínhamos que ir ao banco pagar boletos, ou passávamos madrugadas baixando músicas na internet. 


A questão que os filósofos propõem é exatamente esta: a humanidade poderia evoluir a ponto de criar uma inteligência que vivesse em um mundo simulado e que fosse capaz de ter consciência? Há quem diga que já chegamos a esse nível, e que fazemos parte desse imenso game que seria a realidade que nos cerca, manipulados por seres avançados de um universo “acima” do nosso.


Em um podcast do jornal The Guardian, Chalmers afirma que seria impossível conseguirmos qualquer prova desta teoria, por causa de um simples fator: qualquer evidência que a gente consiga pode ser ela própria uma simulação. Mas isso não nos impede de caçá-las. Como afirmou o cosmólogo do MIT Max Tegmark, quanto mais aprendemos sobre o nosso Universo, mais ele parece ser baseado nas leis da matemática, pois elas apenas refletem os códigos de computadores em que foram escritas


Mas nem todos concordam. A física teórica Lisa Randall, da Universidade Harvard, afirma que usar a Hipótese da Simulação como desculpa para eventos que dão errado, como a cerimônia do Oscar ou a eleição de Donald Trump, é uma forma de abdicar das responsabilidades. Segundo ela, seria mais frutífero focar no que podemos fazer para evitar os erros e melhorar o mundo do que atribuir resultados indesejáveis a forças externas incontroláveis.


Na física, não se consegue provar de fato uma teoria, apenas excluir teorias alternativas. Então, não se pode afirmar que nenhuma teoria da física é absolutamente correta (ou incorreta) porque não se tem acesso a todos os níveis de informação. O fato de vivermos em um jogo de videogame não significaria que a realidade não existe, apenas que ela seria feita de informação.


O problema é que, caso a hipótese se confirmasse e todos descobríssemos que somos feitos de bits, teríamos dilemas morais muito mais complexos para resolver. Por exemplo, a entidade que criou a nossa realidade poderia ser um deus ou apenas hackers em um Universo ‘acima’ do nosso. E não há razão para pensarmos nesta inteligência superior como superpoderosa só porque ela controla o que fazemos. 


Ou talvez não se trate de videogame, mas de algo mais autônomo, que não precisa necessariamente de um controlador. Em uma simulação, colocamos as leis da física e da natureza e criamos um Universo, mas não interferimos no que criamos, apenas colocamos os princípios fundamentais e observamos. 

 

Outra questão a ser respondida seria: uma inteligência artificial consciente é menos humana do que um ser humano de verdade — ou pelo menos o que consideramos humano? Como afirmou um dos robôs do parque de Westworld quando foi confrontado com a sua “falta de humanidade”: “A dor existe na mente; ela é sempre imaginada. Então qual é a diferença entre a minha dor e a sua, entre você e eu?”

domingo, 23 de agosto de 2026

PARA O MACARRÃO NÃO GRUDAR

A VIDA É MASSA; CABE A NÓS CAPRICHAR NO MOLHO.

Pior que arroz papado, só macarrão "unidos venceremos". Para evitar esse fiasco, nossas avós adicionavam um fio de azeite (ou um pouco de manteiga) na água do cozimento, principalmente quando cozinhavam massas de formato longo, como espaguete, talharim, fettuccine, linguine e o famigerado cabelo de anjo.

Esse truque até funcionava naqueles tempos, com massas frescas ou feitas em casa. Com o macarrão industrializado que usamos hoje em dia, o tiro sai pela culatra, ou seja, esse truque cria uma "capa de gordura" que prejudica a aderência do molho.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

O futuro das urnas de 2026 a Deus pertence, mas o passado capaz de influir no resultado da sucessão está nas mãos da Polícia Federal. Em privado, Lula revela-se irritado com o conta-gotas que diariamente pinga no noticiário novos achados dos investigadores sobre Lulinha, estrela de três inquéritos. Flávio Rachadinha e seus asseclas administram o entusiasmo com parcimônia: ora esfregam as mãos, ora permanecem de mãos postas, aterrorizados pela perspectiva de novas revelações do inquérito sobre o caso Dark Horse. 

A apenas 45 dias do primeiro turno, os comitês cuidam dos minutos, porque as horas passam. Lula trocou a posse do novo presidente do STJ, Luís Felipe Salomão, por uma reunião no Alvorada com Marco Aurélio de Carvalho, advogado de Lulinha. Discute-se a hipótese de Lulinha se apresentar para depor, antecipando-se a uma intimação vista como incontornável.

Na última quinta-feira, o Globo expôs a penúltima gota do caso Lulinha: o contrato que a lobista Roberta Luchsinger tentou cavar no Ministério da Saúde tinha valor expressivo: R$ 626 milhões em medicamentos à base de canabidiol. Isso supera em mais de quatro vezes e meia os R$ 131 milhões que o primogênito do presidiário pediu a Daniel Vorcaro.

A diferença é que o negócio costurado entre a lobista do Careca do INSS e o filho mais velho do macróbio de Garanhuns não vingou. Bolsonarinho mordeu R$ 61 milhões de Vorcaro, e disse em maio que divulgaria dali a um mês a prestação de contas do dinheiro. Decorridos três meses, não tocou mais no assunto. Parece aguardar que uma gota da PF lhe caia sobre a cabeça.


Para obter melhores resultados, cozinhe o macarrão em bastante água "salata come il mare", como dizem os italianos (1 litro para cada 100g de massa), e dê preferência ao sal grosso (10g para cada litro de água), que deve ser acrescentado somente quando a água começar a ferver.


O macarrão deve ser colocado inteiro na panela (ou seja, sem quebrar) quando a água estiver borbulhando (o calor fará com que a parte que não coube dentro da panela amoleça e mergulhe na água fervente). Aí é só mexer, mexer e mexer até ficar al dente", ou seja, bem cozida, mas ainda firme ao morder.


De acordo com Lorenzo Bonni, chef executivo da Barilla — líder mundial no mercado de massas de grano duro — por mais simples que as massas ao alho e óleo ou à bolonhesa possam ser, cozinheiros de primeira viagem tendem a enfrentar alguns contratempos, como o macarrão formar blocos e grudar na panela.


Como é melhor prevenir do que remediar, opte por massas de trigo duro de qualidade, o que reduz o amido liberado na água. Use bastante água no preparo do macarrão e mantenha-a fervente durante todo o cozimento. Além disso, mexa a massa nos primeiros minutos e não a deixe muito tempo no escorredor — quanto menor a demora entre a panela e o prato, melhores serão o resultado e a textura.


Bom apetite.

sábado, 22 de agosto de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 109ª PARTE

SE O TEMPO É UMA ESTRADA DE MÃO ÚNICA, O PENSAMENTO DIRIGE NA CONTRAMÃO.

Vimos que viajar no tempo é matematicamente plausível, mas que na prática a teoria é outra. Primeiro porque os efeitos da dilatação temporal só são sensíveis em velocidades próximas à da luz (representada pela letra "c" e que corresponde a aproximadamente 1,08 bilhão de km/h); segundo porque a sonda mais veloz que a NASA lançou até agora alcançou cerca de 0,064% de "c"; terceiro porque retornar ao passado criaria paradoxos temporais (dos quais o mais famoso é o do avô); e quarto porque, segundo o princípio da autoconsistência, eventos capazes de gerar paradoxos ou criar inconsistências no Universo têm probabilidade zero de ocorrer. 

Em face do exposto, uma viagem ao passado só seria factível se não alterasse o presente, mas a própria chegada do viajante já constitui uma alteração, uma vez que ele não deveria estar ali. Além disso, essa viagem no tempo envolve conceitos de física quântica e teorias como a das cordas, que admitem a possibilidade de retornar ao passado sem criar paradoxos temporais — nesse contexto, qualquer mudança resultaria na criação de um universo paralelo, coexistente com o presente do viajante do tempo, mas paralelo à linha temporal original a partir do ponto da mudança.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

O lançamento da candidatura de Sérgio Moro ao governo do Paraná converteu-se numa antiapoteose. Ao dividir o palanque com o filho do golpista, o ex-juiz da Lava-Jato e Deltan Dallagnol — antigo garoto prodígio da força tarefa de Curitiba — consolidaram a percepção de que na política nada se cria, nada se transforma, tudo se corrompe.

Bolsonarinho e o Marreco de Maringá trocaram afagos. O filho do pai vestia uma camiseta na qual se lia: "Curitiba prendeu. Brasília soltou", numa alusão à sentença de Moro que levou Lula à cadeia, posteriormente anulada pelo Supremo. Derramou-se em elogios ao ex-juiz: "É um símbolo de combate à corrupção, símbolo de seriedade, que vai ter a independência de montar um time forte, com uma Assembleia forte, para fazer o melhor pelo Paraná".

Em retribuição, Moro enalteceu a decisão do governo Trump de classificar PCC e CV como terroristas: "Foi extraordinário. Ele [Flávio] conseguiu convencer o governo norte-americano a dar esse passo importante." E aproveitou para elogiar a suposta atuação do "mito" preso no combate às facções criminosas à época em que desgovernou o país.

Moro esqueceu de lembrar — ou lembrou de esquecer — que deixou o governo Bolsonaro acusando o então chefe de aparelhar a Polícia Federal para blindar a família contra investigações. Em janeiro de 2022, numa entrevista ao Flow Podcast, o desafeto disse que Bolsonaro "tem lá investigação da família dele, rachadinha, ele tem medo também que a investigação chegue nele. e aí ele chegou a partir de determinado momento do mandato dele e começou: 'Olha, tem que enfraquecer o combate à corrupção'."

Na mesma entrevista, o ex-herói que se converteu em vergonha nacional se referiu diretamente ao primogênito do refugo da escória da humanidade: "Teve uma decisão do Supremo que beneficiou o filho do presidente. (...) O problema é que essa liminar parava todas as investigações de lavagem de dinheiro no país. Parava tudo. E o presidente não queria que a gente mexesse nisso. Ele me falou assim: 'Moro, se você não vai ajudar, não atrapalhe'."

Meses depois, o Marreco de Maringá daria um cavalo de pau, incorporando-se à malsucedida caravana de Bolsonaro na sucessão presidencial de 2022. Agora, associa-se ao rebento do rebotalho num instante em que a imagem do neoaliado já não está apenas rachadinha. Os vínculos financeiros obscuros do presidenciável do clã Bolsonaro transformaram a antiga fenda num rombo de dimensões insondáveis.

Deltan Dallagnol frequentou o palanque do ex-parceiro na Lava-Jato como coadjuvante do escárnio. Sua candidatura ao Senado é uma dúvida jurídica. Teve o mandato de deputado federal cassado pelo TSE em 2023. Os adversários sustentam que está inelegível.

Alheio à controvérsia, Dallagnol fustigou sua adversária petista: "Precisamos trabalhar intensamente para que Gleisi Hoffmann não vire senadora no Paraná. Precisamos derrotar o PT porque [é o partido] líder máximo dos maiores esquemas de corrupção que o país já viu." Disse isso ao lado de Flávio Bolsonaro. Sem corar.

Moro e Dallagnol atribuem ao Supremo o sepultamento da Lava-Jato, mas a morte é anterior a si mesma, começa bem antes do funeral. A República de Curitiba começou a morrer no final de 2018, quando Moro trocou o altar da 13ª Vara pelo serpentário de Brasília. Em março de 2021, numa entrevista ao UOL, o ex-procurador disse que, como ministro da Justiça, Moro "poderia ter maiores chances de influenciar a história". De fato, foi grande a influência do então subordinado de Bolsonaro. Moro virou a página da história. Para trás.

Com a Vaza-Jato e seus diálogos tóxicos, os ex-paladinos de Curitiba jogaram terra em cima de si mesmos. Forneceram material para a abertura da cela de Lula e a condenação de Moro como juiz suspeito. Hoje, irmanados à imoralidade que permeia a política, Moro e Dallagnol enfeitam com sua incoerência a lápide que ajudaram a acomodar sobre o esforço anticorrupção que diziam encarnar.  Essa dupla patética não só fica de quatro como também se vira do avesso por Flávio Bolsonaro.


Relembro que Stephen Hawking deu uma festa em Cambridge e publicou um convite com as coordenadas exatas de tempo e espaço. "Talvez um dia alguém do futuro encontre a informação e use uma máquina do tempo para vir à minha festa, provando que as viagens no tempo serão possíveis". Posteriormente, na série Into the Universe with Stephen Hawking, ele explicou: "Gosto de experiências simples e... champanhe. Então, combinei duas das minhas coisas favoritas para ver se a viagem no tempo do futuro para o passado é possível". Mas ninguém apareceu. 


Mais adiante, durante um simpósio no Festival da Ciência de Seattle (EUA), Hawking ponderou que a relatividade geral dá margem a deformações no espaço-tempo que, em tese, permitem viajar para o passado, mas alertou que tais deformações poderiam causar um raio de radiação capaz de destruir a espaçonave e o próprio espaço-tempo. Além disso, muitos momentos históricos não são exatamente agradáveis para quem os vivenciou. 


Um dos tipos de eventos catastróficos mais recorrentes da história são doenças infecciosas, que podem causar morte em escalas sem precedentes. Vimos isso durante a pandemia da Covid, que ceifou milhões de vidas mundo afora, seja pelo SARS-COV-2, seja por algum fator a ele associado. E isso apesar de a medicina moderna ter um bom entendimento de como doenças funcionam.


Se alguém viajasse para a Roma Antiga e pegasse uma infecção bacteriana, essa pessoa não teria acesso a antibióticos, a menos que os levasse na mala — e ainda assim as chances de cura seriam exíguas, pois os antibióticos não são eficazes contra os fungos e vírus, que também causam infecções potencialmente letais. E isso sem contar os possíveis perigos ambientais, como exposição ao chumbo e outros materiais que os habitantes da época não sabiam que eram perigosos.


Os romanos faziam canos de chumbo sem saber que estavam se intoxicando. E se você acha que eles eram ignorantes, no final do século XIX o farmacêutico John Stith Pemberton criou um "tônico medicinal digestivo" à base de cocaína, que era amplamente vista pela classe médica ocidental não como uma droga perigosa, mas como um fármaco milagroso. A receita original era baseada em vinho (French Wine Coca) misturado com folhas de coca e nozes de cola, servido nas farmácias americanas. 


Mais adiante, a Lei-Seca obrigou Pemberton a tirar o álcool e criar a versão doce com água carbonatada, batizada de Coca-Cola por seu contador e sócio Frank M. Robinson. No início do século XX, a pressão da opinião pública e de autoridades médicas resultou na retirada da cocaína da fórmula, e assim o poder e o apelo energizante da bebida passaram a vir quase exclusivamente da alta dose de cafeína e açúcar, pavimentando o caminho para se tornar o refrigerante mais consumido no planeta.


Mas os riscos de uma viagem ao passado não param nos hábitos dos antigos. Os vírus, por exemplo, foram uma das principais causas de morte no mundo até a invenção das vacinas.. O vírus da varíola foi um dos que causaram mais mortes ao longo da história. Só no século passado, ele matou mais de 300 milhões de pessoas. Atualmente, estamos protegidos da varíola e de uma série de outras doenças 'modernas' graças às vacinas, digam o que disserem os negativistas de carteirinha. 


Quem viajasse no tempo para Roma em meados do século 1 d.C., quando a cidade foi atingida por alguma doença viral — talvez varíola ou algo similar — não teria garantias de que as vacinas do século XXI oferecessem proteção contra versões vetustas das doenças. Assim, além da possibilidade nada desprezível de morrer de gripe, nosso hipotético viajante poderia colocar em risco o futuro da humanidade ao disseminar involuntariamente várias doenças até então desconhecidas. Foi o que aconteceu no século XVI, quando a chegada dos europeus às Américas disseminou doenças desconhecidas pelos nativos — que não tinham defesas imunológicas contra elas e, portanto, morreram feito moscas.


Ao problema das doenças somam-se outros, com o da comunicação. Da feita que a língua humana é viva e muda constantemente. Mesmo que saibamos a língua falada na época, detalhes como o sotaque, a entonação ou as palavras usadas em dialetos específicos poderiam dificultar sobremaneira a comunicação. No caso dos romanos, sabe-se que eles falavam latim, mas não pronunciavam as palavras. Ademais, o Império Romano durou milênios e a forma como as pessoas se expressavam, os dialetos locais e outros fatores sociais mudaram significativamente ao longo da história. Isso sem mencionar que há atualmente cerca de 11 mil dialetos na Itália.


Em face do exposto, viajar a épocas remotas exigiria "reaprender a falar", tanto para entender e se fazer entender quanto para não ser vítima de xenofobia — lembrando que várias culturas do passado escravizavam estrangeiros ou, na melhor das hipóteses, tratavam-nos como gente de classe inferior. Além disso, as ideias extemporâneas de alguém vindo do futuro seriam vistas como bruxaria ou heresia, como aconteceu durante a Idade Média e nos EUA do século XVII, quando milhares de pessoas foram taxadas como bruxas e executadas — na fogueira no Velho Mundo e na forca em Salem.


Guardadas as devidas proporções, o mesmo acontece em relação a viagens para o futuro. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.