segunda-feira, 22 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE LITERALISMO RELIGIOSO

A PERDA DE UM CRAVO CAUSA A PERDA DA FERRADURA; A PERDA DA FERRADURA CAUSA A PERDA DO CAVALO; A PERDA DO CAVALO CAUSA A PERDA DA MENSAGEM; A PERDA DA MENSAGEM CAUSA A PERDA DA GUERRA.

Vimos que o literalismo religioso leva à aceitação de dogmas e crenças arcaicas em detrimento de descobertas científicas exaustivamente comprovadas; que os livros mais estudados do mundo são justamente os menos compreendidos; e que quase ninguém mais lê Ptolomeu, Pitágoras ou Arquimedes, apesar de seu conhecimento ser impressionante, mesmo nos dias de hoje.


Observação: Há algo de profundamente revelador nessa inversão: os textos que moldam civilizações inteiras são lidos de forma apressada, fragmentária — ou devota demais para permitir qualquer questionamento sério.


Como também vimos, o Novo Testamento consolidou quatro evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — e ignorou dezenas de textos apócrifos na versão “oficial” que chegou aos dias atuais. Embora não tenha definido diretamente o cânon bíblico, o Concílio de Niceia (325 d.C.) representa com precisão o momento em que o cristianismo começa a se estruturar como poder organizado, sob a influência direta do imperador Constantino. A questão central é que “coerência doutrinária” quase sempre significa alinhamento com a visão dominante — e não, necessariamente, compromisso com a verdade histórica.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A Polícia Federal submete o senador Ciro Nogueira ao pior tipo de obscenidade: a nudez que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém. O oligarca do centrão foi despido lenta e constrangedoramente.

Ciro perdeu o paletó quando veio a público que ele viajava por destinos luxuosos do mundo às custas de Daniel Vorcaro e ficou sem a camisa após a revelação de que recebia do mensalão do Master — que começou com R$ 300 mil. Chegou a R$ 500 mil.

A notícia de que as mesadas somaram pelo menos R$ 6 milhões deixou o ex-quase-futuro-vice-ideal de Flávio Bolsonaro sem as calças. Relatórios do Coaf tiraram do senador as roupas de baixo. Seguindo o rastro do dinheiro, a PF concluiu que Ciro lavou recursos de má origem usando empresas, familiares, servidores públicos e até beneficiários de programas sociais.

As delinquências de Vorcaro proporcionam ao Brasil uma de suas épocas mais despidas. Mais despudorado do que o mandato obsceno de Ciro Nogueira é a naturalidade com que o Senado reage à cena. Um senador perambula pelos salões do Legislativo pelado e ninguém faz nada. Não se vê diante dos glúteos expostos nem uma cara de nojo, que dirá uma representação ao Conselho de Ética por falta de decoro.


O processo de formação do cânon bíblico não foi um evento único nem tampouco uma deliberação iluminada de sábios imparciais reunidos em torno de uma fogueira de pergaminhos, e sim um processo longo, disputado, muitas vezes violento — e invariavelmente político. No século II, o bispo Ireneu de Lyon — homem de fé inabalável e tolerância zero para dissidências — foi um dos primeiros a defender sistematicamente a manutenção de apenas quatro evangelhos — sob o pretexto de que, assim como existiam quatro ventos e quatro pontos cardeais, só poderia haver quatro evangelhos. 


A lógica era frágil, mas a autoridade, não. E em sua obra Adversus Haereses (“Contra as Heresias”), Ireneu não apenas defendeu os quatro evangelhos aceitos, como atacou com vigor todos os demais, classificando-os como invenções demoníacas. Assim, textos que circulavam livremente entre comunidades cristãs passaram, de uma geração para outra, a ser tratados como veneno intelectual e espiritual.


No século IV, o processo ganhou força institucional. Em 367 d.C., o bispo Atanásio de Alexandria — outro homem com pouca tolerância para ambiguidades — escreveu sua famosa Carta Festal, na qual listou pela primeira vez os 27 livros que compõem o Novo Testamento e determinou que outros textos fossem abandonados. Aliás, a palavra usada — apokryphos, “oculto”, “escondido” — com o tempo deixou de ser neutra e passou a carregar um peso pejorativo: o que era “reservado a iniciados” tornou-se sinônimo de “falso” e “perigoso”.


Mas foi com a aliança entre Igreja e poder imperial — consolidada sob Constantino e aprofundada sob Teodósio I, que em 380 d.C. declarou o cristianismo religião oficial do Império — que a supressão de textos alternativos deixou de ser apenas uma questão teológica e passou a ser também uma questão de Estado. Queimar um evangelho deixou de ser um ato de zelo religioso e tornou-se um gesto de manutenção da ordem. A heresia, enfim, virou crime.


Ao contrário do que se costuma imaginar, nem todos os textos rejeitados foram destruídos — alguns simplesmente caíram em desuso, como vozes que ninguém mais escuta, e outros foram perseguidos, combatidos e, não raramente, queimados junto com seus leitores. Mas houve quem, com notável coragem — ou talvez apenas com o instinto silencioso de preservar —, tenha decidido escondê-los.


O achado mais espetacular nesse sentido foi a descoberta da biblioteca de Nag Hammadi, no Egito, em 1945. Um camponês chamado Mohammed Ali al-Samman, ao cavar nas proximidades de um penhasco em busca de fertilizante, encontrou um jarro de barro selado. Dentro dele, 13 códices encadernados em couro, contendo mais de 50 textos em copta — traduções de originais gregos que remontavam, em sua maioria, aos séculos II e III. Lamentavelmente, alguém, em algum momento do século IV, preferiu enterrá-los em vez de destruí-los, e esse gesto anônimo de desobediência silenciosa preservou para a posteridade uma voz que a Igreja oficial havia tentado calar.


Entre os textos encontrados em Nag Hammadi, destacam-se obras associadas ao chamado gnosticismo — um conjunto diverso de correntes cristãs primitivas que compartilhavam a ideia de que a salvação vinha do conhecimento (gnosis), e não da fé cega ou da obediência institucional. Naturalmente, uma teologia assim era incompatível com uma Igreja que começava a estruturar seu poder justamente sobre esses dois pilares.


O Evangelho de Maria — provavelmente escrito no século II, embora baseado em tradições mais antigas — apresenta Maria Madalena não como figura periférica ou penitente, mas como a discípula que mais profundamente compreendeu os ensinamentos de Jesus. No texto, após a ressurreição, é ela quem consola os apóstolos e transmite revelações que o messias lhe teria confiado em particular. Pedro, incomodado (ou enciumado?), questiona: “Ele teria falado em segredo com uma mulher e não abertamente conosco?


A tensão não é apenas teológica. É política, simbólica e estrutural. No Evangelho de Filipe há passagens ainda mais desconfortáveis para a ortodoxia: Jesus é descrito como "mais próximo" de Maria Madalena do que aos outros discípulos, e há uma referência parcialmente danificada a um gesto de intimidade entre os dois — detalhe que alimentou séculos de especulação e, mais recentemente, best-sellers. Independentemente da interpretação correta, o ponto é claro: havia comunidades cristãs que atribuíam a Maria Madalena um papel de liderança espiritual que a Igreja oficial simplesmente não podia absorver.


A imagem de Madalena como prostituta arrependida não vem dos evangelhos canônicos. Em nenhum momento o texto bíblico a identifica como tal. Essa associação foi construída gradualmente e consolidada de forma decisiva pelo papa Gregório I, em um sermão de 591 d.C., no qual fundiu três personagens distintas — Maria de Betânia, a pecadora anônima e Maria Madalena — em uma única figura de mulher caída e redimida. Erro honesto ou estratégia deliberada? Difícil saber, mas mais difícil ainda é acreditar que tenha sido irrelevante.


Essa interpretação persistiu por mais de mil anos como doutrina oficial da Igreja Católica. Apenas em 1969 o Vaticano corrigiu formalmente a confusão, reconhecendo que se tratava de três mulheres distintas. A reabilitação levou quatorze séculos. O dano, naturalmente, não teve a mesma pressa para desaparecer.


A pergunta que se impõe é inevitável: e se Maria Madalena tivesse sido, de fato, a principal discípula de Jesus? E se o papel de liderança atribuído a Pedro — e que sustenta toda a estrutura hierárquica posterior, incluindo o papado — na versão “original” da história tivesse pertencido a ela? Não há como provar, mas também não há como descartar. E o modo como sua memória foi moldada ao longo dos séculos sugere que alguém, em algum momento, julgou necessário fazê-lo.


Há ainda uma hipótese mais incômoda e, por isso mesmo, frequentemente tratada com desdém ou sarcasmo: a de que Maria Madalena não teria sido apenas uma discípula próxima, mas companheira íntima de Jesus, possivelmente sua esposa. A ideia não é consensual e carece de evidências conclusivas, mas se apoia em leituras de textos apócrifos, em lacunas curiosas nos relatos canônicos e, sobretudo, no contexto cultural do judaísmo do século I, no qual um homem adulto, especialmente um mestre religioso, dificilmente permaneceria solteiro.


Nada disso prova coisa alguma, mas tampouco justifica o deboche com que a hipótese costuma ser descartada — até porque, se verdadeira, ou mesmo plausível, suas implicações seriam profundas demais para serem ignoradas. Um Jesus casado não apenas humaniza a figura central do cristianismo como desmonta, peça por peça, construções teológicas posteriores que associam santidade à negação do corpo, do desejo e da vida comum. E talvez seja exatamente por isso que a ideia causa tanto desconforto.


No fim das contas, não sabemos exatamente quem foi Maria Madalena. Mas sabemos com razoável segurança quem decidiu o que ela deveria ser — e por quê. Sabemos também que o cânon bíblico não desceu do céu em versão final e homologada por instâncias divinas. Foi negociado, disputado e imposto por homens inseridos em contextos políticos bastante concretos.


A maior heresia, talvez, não seja a existência de evangelhos esquecidos, mas a ilusão confortável de que apenas os sobreviventes contam a verdade. A história é sempre escrita por quem chega depois à cena do crime — e tem tempo suficiente para reorganizar os móveis.


Resumo da ópera: Algumas ideias não precisam ser refutadas. Basta que sejam ridicularizadas com eficiência. No fim das contas, um cravo se perdeu… e, com ele, muito mais do que uma ferradura.


Continua...

domingo, 21 de junho de 2026

FILÉ À MORAES E STEAK TARTARE

ENTRE UM GOLE E OUTRO, VAMOS BRINDANDO À VIDA.

Aprendi com meu pai a apreciar um bom filé tártaro (ou steak tartare, como preferem os puristas). Aliás, foi também com ele que degustei pela primeira vez o célebre Filé à Moraes, criado pelo português Salvador Domingos Vidal, dono de um boteco na região central da capital paulista. 


Como a casa funcionava 24/7 horas por dia, a limpeza era feita com os clientes sendo atendidos, e por isso o prato acabou batizado de "bife sujo" pelos frequentadores. Em 1929, Vidal entrou de sócio do Bar, Café e Confeitaria Moraes (na Praça Júlio Mesquita, também no centro de Sampa), e aproveitou a chapa aquecida à lenha para criar sua mais famosa receita, que consiste num medalhão de filé de ≈ 250 gramas, grelhado por 3 minutos de cada lado (de modo a ficar tostado por fora e rosado por dentro), ao alho e óleo e acompanhado de fritas e agrião. 


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Uma colônia de pulgas se instalou atrás das orelhas dos operadores políticos do filho do refugo da escória da humanidade, que ainda não sabem se Eduardo Bananinha quer desempenhar o papel de aliado ou de estorvo na campanha do irmão, mas sua penúltima jogada evidencia sua preferência pela segunda alternativa.

A cúpula da campanha procura uma mulher, mas num instante em que Bolsonarinho perde terreno para o macróbio eneadáctilo, Bananinha lançou para vice do irmão mais velho a deputada Júlia Zanatta — uma bolsonarista de mostruário do tipo que pula no abismo pelo "mito" preso — embora a preferência recaia sobre alguém com o perfil moderado, como a senadora Tereza Cristina.

Para compreender o movimento de zero dois é preciso atrasar o relógio para 2018 e 2022, quando o patriarca do clã escolheu dois generais — primeiro Hamilton Mourão e depois Braga Neto — como parceiros de chapa. À guisa de explicação, Dudu lembrou ter dito ao pai, na época em que ele escolheu o Mourão, que "era preciso botar um cara "faca na caveira" para ser vice, alguém que não compense correr atrás de um impeachment". Quer dizer: ao empinar o nome de Julia Zanatta, zero três deseja retirar do baralho a carta do impeachment, imaginando que uma deputada incendiária transformaria seu irmão, por contraste, num estadista instantâneo, o que desestimularia futuras tramas pela deposição. 

O problema é que Zanatta não atrai um mísero voto fora do cercadinho bolsonarista — daí a proliferação de pulgas atrás das orelhas do staff do PL. Antes de adquirir um seguro anti-impeachment, a família do golpista precisa obter os votos que lhe faltam para retornar ao Planalto.


Há quem diga que o nome do prato deveu-se ao chapeiro, a quem os fregueses (entre os quais o escritor Monteiro Lobato) diziam: "salta um filé, Moraes", e que o cantor, compositor e comediante Adoniran Barbosa compôs Trem das Onze enquanto tomava chope naquele botequim — que passou a se chamar "Restaurante Moraes - O Rei do Filé" nos anos 1960 e suspendeu suas atividades duas décadas depois, graças ao nefasto "plano cruzado". Mais adiante, a casa voltou a funcionar em dois endereços (na Praça Júlio Mesquita e na Alameda Santos), mas sob nova direção — mesmo porque os proprietários não eram parentes dos fundadores. 

 

Para preparar um filé capaz de empanturrar dois bons garfos, você vai precisar de dois medalhões de filé-mignon (de aproximadamente 250g cada um), 8 dentes de alho, óleo para fritar e sal e pimenta-do-reino branca para temperar. 


Amoleça os dentes de alho em água fervente por 1 ou 2 minutos, descasque, corte ao meio, doure em óleo bem quente, escorra e reserve. Feito isso, grelhe os bifes por 3 minutos de cada lado (se preferir a carne bem-passada — o que é um sacrilégio —, leve ao forno pré-aquecido a 180 ºC por cerca de 2 minutos).


Tempere com sal e pimenta, espalhe o alho e um pouco do óleo da fritura e sirva com salada de agrião (ou agrião refogado no alho e óleo) e batatas fritas.

 

O Steak Tartare é um acepipe russo feito com carne crua, que pode ser servido tanto como aperitivo quanto como entrada ou prato principal. Os ingredientes (por pessoa) são: 


— 150 g de filé-mignon (moído ou finamente picado);

 

— Uma colher (sobremesa) de cebola ralada;

 

— Uma colher (café) de alcaparras (se preferir, substitua por azeitonas verdes picadas); 


— Uma colher (chá) de salsinha picada; 


— Uma colher (chá) de cebolinha picada;


— Uma colher (chá) de molho inglês; 


— Uma colher (sopa) de mostarda; sumo de 1 limão; 


— Uma gema de ovo cru; 


— Azeite de oliva extravirgem para regar e sal, pimenta do reino, pimenta caiena e molho tabasco para temperar.

 

Remova a "capa espelhada" e passe o filé duas vezes pelo moedor — ou corte-o em tirinhas e pique com a ponta de uma faca bem afiada. 


Transfira a carne para uma tigela, junte a cebola ralada, a salsinha e a cebolinha picadas e misture gentilmente (usando as mãos ou uma colher de pau) enquanto rega com um fio de azeite e tempera com o sal, as pimentas, a mostarda, o sumo do limão e o molho inglês. 


Acrescente as alcaparras (ou as azeitonas picadas), faça uma “bola” com a carne, coloque num prato, achate com a mão até formar um "hamburgão" e pressione o centro com o polegar, para criar a concavidade que vai acomodar a gema do ovo (crua, segundo a receita original, mas você pode cozinhar o ovo e usar a clara para decorar). 


Leve à geladeira para resfriar e, na hora de servir, decore o prato com batatas chips e sirva com torradinhas, cerveja gelada, vinho, refrigerante ou o suco de frutas de sua preferência.

  

Observação: Minha releitura dessa receita inclui alface picado, ervilhas em conserva, rodelas de tomate e de palmito. Depois de acomodar a carne na parte central do prato e colocar a gema (cozida) na concavidade, eu distribuo esses ingredientes em volta, acrescento a clara picada e rego tudo com bastante azeite.


Bom apetite. 

sábado, 20 de junho de 2026

SOBRE VIDA ALIENÍGENA E SUTILEZAS DA LUZ

AS PESSOAS NÃO MORREM, FICAM ENCANTADAS; A GENTE MORRE É PARA PROVAR QUE VIVEU.

Novas simulações computacionais realizadas por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC) sugerem a possibilidade de existir vida no satélite jupiteriano Europa e em outras luas do gigante gasoso.

Em última análise, estudos desse tipo contribuem para simplificar a forma como entendemos certos fenômenos da natureza, permitindo reconhecer conexões profundas entre leis físicas que, à primeira vista, parecem não ter qualquer relação entre si. Aliás, talvez Newton e Huygens estivessem ambos certos — e, ao mesmo tempo, ambos incompletos.

A luz não parece se importar muito com nossas categorias mentais: ora se comporta como onda, ora como partícula, dependendo da pergunta que decidimos fazer a ela. Séculos depois da velha disputa entre os dois gigantes da ciência, a física moderna parece ter chegado a uma conclusão curiosa: a natureza não é obrigada a escolher um lado. E, convenhamos, se até a própria luz se recusa a ser uma coisa só, talvez seja melhor desconfiar um pouco das explicações simples demais para um universo que claramente prefere ser… um pouco mais complicado. 

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

A guerra iniciada há mais de 100 dias por insistência de Israel, para derrubar o regime repulsivo dos aiatolás, acabar com a capacidade militar deles, impedir que o Irã chegasse a armas nucleares e redesenhasse o Oriente Médio inteiro em favor de Israel e dos Estados Unidos já custou quase US$ 100 bilhões e metade do arsenal moderno dos Estados Unidos. A despeito dessa dinheirama e de milhares de ataques, o brutal e sanguinário regime iraniano continua no mesmo lugar, podendo agora exportar petróleo em troca de reabrir o Estreito de Ormuz.

Deixando para depois o que vai acontecer com seus programas nucleares e a bagunça que se criou, Israel e Estados Unidos agora se desentendem sobre o que fazer, e os países da região perderam a confiança no guarda chuva protetor americano.

China e Rússia assistiram como a superpotência não conseguiu dobrar um país militarmente muito inferior, mas a reabertura do Estreito de Ormuz é uma boa notícia para o resto do mundo. O Irã perdeu bastante, e o mesmo se deu com Israel, no sentido dos objetivos não alcançados. Já o chefe da Casa Branca cometeu um dos maiores erros da história recente ao desrespeitar noções básicas de estratégia e geopolítica, mas esse é um preço que ele certamente não vai pagar sozinho.


Publicada em 24 de junho de 2024 na revista Journal of Geophysical Research: Planets, a pesquisa indica que determinadas aberturas de ventilação associadas a fontes hidrotermais em luas geladas — comparáveis, em volume de água, aos rios da Terra — poderiam tornar esses ambientes potencialmente habitáveis e amplia nossa compreensão sobre onde a vida poderia teoricamente existir fora da Terra, reforçando a ideia de que oceanos subterrâneos em mundos distantes, mesmo sob condições extremas, podem ser mais acolhedores do que se imaginava até pouco tempo atrás.

Em outra frente de pesquisa, cientistas vêm explorando novas maneiras de compreender um dos fenômenos mais intrigantes da física: a natureza da luz. Um estudo publicado na revista científica Physical Review Research utilizou um teorema mecânico formulado há cerca de 350 anos pelo matemático, físico e engenheiro holandês Christiaan Huygens. Originalmente desenvolvido para descrever o funcionamento de pêndulos e o movimento rotacional de corpos rígidos, o teorema relaciona a distribuição de massa de um objeto com a energia necessária para fazê-lo girar em torno de um determinado eixo.

Os pesquisadores adaptaram esse princípio para investigar propriedades da luz. Como os fótons — as partículas elementares que compõem a radiação luminosa — não possuem massa, os cientistas utilizaram a intensidade da luz como um parâmetro análogo à massa em seus modelos. Essa abordagem permitiu tratar certos sistemas ópticos como se fossem sistemas mecânicos equivalentes.

Em uma publicação no blog do Stevens Institute of Technology, os autores explicaram que o estudo demonstra, pela primeira vez, que o grau de emaranhamento clássico (não quântico) de uma onda de luz possui uma relação direta e complementar com seu grau de polarização. A partir dessa analogia mecânica, tornou-se possível representar propriedades ópticas complexas de forma geométrica, como se diferentes características da luz ocupassem posições específicas dentro de um sistema físico equivalente.

Com essas adaptações, a equipe conseguiu visualizar a luz como um sistema mecânico abstrato, o que ajudou a compreender melhor fenômenos como polarização e emaranhamento clássico. Essa abordagem permite, por exemplo, interpretar certas propriedades da luz como se existisse um “centro de massa” em um espaço matemático, possibilitando literalmente medir distâncias entre diferentes estados ópticos e revelar como essas propriedades se relacionam entre si.

A natureza da luz, aliás, intriga os cientistas há séculos. No século XVII, Christiaan Huygens defendia que a luz se propagava na forma de ondas, enquanto Newton sustentava a chamada teoria corpuscular, segundo a qual a luz seria composta por partículas. No início do século XIX, experimentos como o famoso teste da dupla fenda realizado por Thomas Young forneceram fortes evidências a favor da natureza ondulatória da luz.

A questão ganhou novos contornos no início do século XX, quando Einstein, ao explicar o efeito fotoelétrico em 1905, demonstrou que a luz também pode se comportar como pacotes discretos de energia, posteriormente chamados de fótons. Poucas décadas depois, o físico francês Louis de Broglie ampliaria essa ideia ao sugerir que não apenas a luz, mas toda a matéria pode apresentar comportamento ondulatório. 

Assim nasceu o conceito moderno de dualidade onda-partícula, um dos pilares da mecânica quântica. Hoje sabemos que a luz não é simplesmente uma onda nem apenas uma partícula. Na verdade, ela é descrita pela física quântica como um fenômeno que pode manifestar propriedades de ambos os comportamentos, dependendo do tipo de experimento realizado. 

Pesquisas como a descrita acima não resolvem essa dualidade — que já é bem compreendida no contexto da teoria quântica —, mas ajudam a revelar novas conexões matemáticas e físicas entre propriedades aparentemente distintas da luz.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE OVNIs UAPs E AFINS

AUSÊNCIA DE EVIDÊNCIA NÃO É EVIDÊNCIA DE AUSÊNCIA. 

No entendimento de Newton, "o tempo absoluto, verdadeiro e matemático, sem relação a nada de exterior, escoa uniformemente e se chama duração". Kant, por seu turno, via o tempo como a estrutura pela qual percebemos nossos próprios estados mentais. Já segundo as equações relativísticas de Einstein, tempo e espaço formam uma única estrutura, e a dilatação do tempo decorre tanto da velocidade quanto da gravidade.

Sectários das religiões abraâmicas e criacionistas acreditam no Gênesis e no bispo irlandês James Ussher, segundo os quais Deus criou o mundo e tudo que nele existe em sete dias contados a partir das 9h da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C. 

Dar por verdadeiras essas bobagens em pleno século XXI é tão ridículo quanto acreditar que a Terra é plana — mas Saramago não disse que a pior cegueira é a mental, e Einstein, que o Universo e a estupidez humana são infinitos? 

De acordo com o modelo cosmológico padrão, que é a melhor explicação científica disponível para o surgimento do cosmos, tudo começou com o Big Bang há 13,8 bilhões de anos. A partir de então, o Universo vem se expandindo em todas as direções — pelas estimativas mais recentes, essa "bolha" tem 46.5 bilhões de anos-luz de raio (cerca de 440 sextilhões de quilômetros).

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Quando disse que os idiotas dominariam o mundo (não pela capacidade, mas pela quantidade), Nelson Rodrigues esqueceu que boa parte dele pertence ao imprestáveis. Falando nessa escumalha, Dudu "Bananinha" Bolsonaro virou réu por articular sanções dos Estados Unidos para intimidar ministros do Supremo e está na bica de ser condenado. 

O julgamento vai revirar um baú que inclui a revogação dos vistos de oito togas, as sanções da Lei Magnitsky e o tarifaço de 50% de Trump contra exportações do Brasil, revogado posteriormente, e a condenação vai doer na campanha do irmão mais velho, cuja visita à Casa Branca levou a calopsita alaranjada a ameaçar o Brasil com novo tarifaço. 

Nada é certo neste mundo, a não ser a mania do clã Bolsonaro de morder qualquer desejo sem antes se certificar de que não tem um anzol oculto. A família do mito digere tudo o que vem de Trump, das iscas aos anzóis, mesmo sabendo que não vão lhes fazer bem. 

Ainda sobre imprestáveis, a calopsita alaranjada enfrenta a crise dos 'Três Ps'. Faltam-lhe paz, prudência e popularidade. EUA e Irã anunciaram ter chegado a um acordo preliminar a ser assinado nesta sexta-feira, mas nem por isso o conflito desaparecerá no Oriente Médio, a sensatez brilhará em Washington e o alarme da impopularidade será desligado na Casa Branca.

A obscuridade é denunciada pela ausência de detalhes. Seria arriscado descartar imprevistos até o momento da assinatura, e ainda mais temerário desconsiderar o risco de novo curto-circuito nos 60 dias previstos para o arremate do acordo.

A precariedade do arranjo foi realçada por Israel ao realizar na segunda-feira novo ataque contra o Líbano. Netanyahu está preso aos compromissos de Trump por grilhões de barbante, e o acerto é incerto, de resto, porque o Irã não parece disposto a erradicar seu programa nuclear — principal pretexto para o início da guerra.

Seduzido por Netanyahu, o chefe da Casa Branca arrastou os Estados Unidos para a guerra imaginando que conquistaria o troféu de uma mudança de regime no Irã. Descobriu que há males que vêm para pior. O assassinato do aiatolá Ali Khamenei deflagrou uma transição da teocracia sanguinolenta para o poder militarizado, submetido às conveniências da temível Guarda Revolucionária.


Se comprimíssemos toda a história do Universo em um único ano — o famoso "calendário cósmico" de Carl Sagan —, toda a história humana registrada caberia nos últimos 10 segundos do dia 31 de dezembro. Considerando que a vida humana média é de 80 anos, isso representa uma proporção de aproximadamente 1 para 170 milhões em relação à idade do Universo — daí o tempo astronômico ser incomensuravelmente maior do que aquele que experimentamos no cotidiano.

Nosso sistema solar se formou há cerca de 5 bilhões de anos, e a Terra, aproximadamente 500 milhões de anos depois. Os dinossauros foram extintos há cerca de 66 milhões de anos, no limite entre os períodos Cretáceo e Paleogeno, provavelmente em consequência do impacto de um asteroide na região do atual México (cratera de Chicxulub).

Falamos em milhões, bilhões e trilhões com a naturalidade de quem não tem a menor ideia do que essas grandezas significam. A título de contextualização, 66 milhões de anos correspondem a aproximadamente 2 quatrilhões de segundos. Como contar em voz alta de zero a um milhão demoraria cerca de 23 dias, chegar a um bilhão levaria entre 153 e 230 anos — a estimativa varia porque, embora um bilhão de segundos corresponda a pouco mais de 31 anos, os números se tornam progressivamente mais longos de pronunciar, além do que as pessoas precisam dormir, comer e satisfazer outras necessidades fisiológicas, e isso limitaria a contagem a cerca de 16 horas por dia.

A Solar Parker Probe — sonda espacial mais veloz já lançada pela NASA — alcançou 692 mil km/h (cerca de 0,064% da velocidade da luz) no final de 2024, impulsionada pela gravidade solar. Vale destacar que a luz se propaga no vácuo a aproximadamente 300 mil km/s, e que essa é a velocidade limite no Universo — segundo Einstein, nada contendo massa pode atingir essa velocidade, pois, à medida que um objeto acelera, sua massa aumenta, tendendo ao infinito conforme se aproxima da velocidade da luz. 

Ainda assim, a velocidade da sonda retrocitada permitiria ir da Terra a Netuno em menos de 9 meses — uma façanha notável, considerando que a Voyager II demorou 12 anos e a New Horizons, 8,5 anos para percorrer distâncias comparáveis.

Concluída esta introdução, a pergunta que se impõe é: se os demais planetas do nosso sistema solar e suas respectivas luas são inabitados, como explicar os avistamentos de UAPs (Unidentified Aerial Phenomena) que não podem ser catalogados como balões meteorológicos, drones, ilusões de óptica ou projetos secretos desenvolvidos pelos EUA, Rússia ou China?

Continua…

quinta-feira, 18 de junho de 2026

NEWTON E A RELIGIÃO

A RELIGIÃO É O QUE FAZ A HUMANIDADE ACREDITAR QUE O SOFRIMENTO É UMA VIRTUDE.

Reza a lenda que o famoso episódio da maçã levou o matemático, físico, astrônomo, alquimista, teólogo e escritor Isaac Newton a concluir que uma força exercida pela Terra "puxa" os objetos em direção ao solo. 

Verdade ou não, as célebres leis de Newton descrevem um mundo que não diferencia o passado do futuro, embora uma das características mais evidentes seja a direcionalidade do tempo. Além disso, no livro Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, publicado em 1687, ele esclareceu uma série de questões, mas trouxe novos problemas que intrigam os cientistas até hoje.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Têm sido frequentes as notícias sobre a justificada preocupação do governo com o crescimento da oposição nas pesquisas de intenção de votos, mas no ambiente palaciano não se compreende as razões para tal e, de maneira contraditória, se busca emplacar a ideia de que a eleição pode ser resolvida no primeiro turno em favor do candidato à reeleição..
Ou esses autores querem enganar alguém, ou estão empenhados em enganar a si mesmos. 
Os governistas não entendem por que os benefícios sociais e a retórica do presidente não têm o mesmo efeito de antes, e tampouco se conformam com o fato de escândalos de corrupção caírem no colo do Planalto, sendo que gente do governo anterior teve participação até maior. Mas bastaria uma leitura desprovida de miopia deliberada para esclarecer as dúvidas. 
No primeiro caso, os leitores compreenderiam que o personagem Lula cansou. Não renovou o texto nem a cenografia de um repertório dos anos 1980 que passou por algumas adaptações, mas tenta vender a saga do desempregado que deu certo, mas com a plumagem do migrante vindo do Nordeste, que viu no sindicalismo uma oportunidade e venceu como presidente da República.
O macróbio fala a linguagem do povo simples, compreende suas dificuldades porque já sofreu com elas. Ignora, contudo, que essa conversa colava com os pais (quiçá, os avós), mas não emociona os filhos mais interessados em se afastar desse tipo de identificação. No capítulo dos escândalos, o descolamento só seria possível se não houvesse ninguém da atual gestão enroscado no Banco Master e nas fraudes do INSS, e caso os hoje oposicionistas já não tivessem sido aliados de governos do PT. Ajudaria também se o partido não tivesse estrelado o mensalão e o petrolão e, com isso, perdido o tal do lugar de fala da época em que pregava a ética da política.
Como se vê, não é um mistério difícil de se desvendar. Basta querer enxergar para compreender.

Newton costuma ser lembrado por ter descrito a gravidade e ajudado a consolidar a física moderna. Mas ele também se dedicou intensamente ao campo religioso, pois via a natureza como um caminho para compreender a ação de Deus na história. Além de professor e membro da Royal Society, o britânico foi um estudioso da Bíblia e de textos sagrados, cronologias e debates doutrinários. Registros indicam que ele investigou a Trindade, a natureza de Cristo e a história da Igreja — e por divergir das posições oficiais de sua época, manteve parte de seus escritos teológicos em sigilo, embora buscasse conciliar análise histórica, leitura rigorosa das Escrituras e raciocínio lógico.

Sua crença em um universo ordenado sustentava a ideia de que fenômenos físicos podiam ser descritos por leis gerais. Para ele, a regularidade dos movimentos planetários era evidência de uma organização racional do cosmos, compatível com um propósito divino. Em seus estudos teológicos, aplicou métodos semelhantes aos usados na ciência, comparando traduções, calculando períodos históricos e buscando coerência interna. Assim, o mesmo espírito analítico presente na mecânica, na óptica e na matemática aparecia em sua leitura das Escrituras e da história.

Ao tratar a teologia como um campo de investigação sistemática, Newton utilizou procedimentos próximos ao “método científico” para buscar padrões, relações temporais e estruturas lógicas nos textos sagrados, aproximando o estudo da Bíblia de uma pesquisa histórica e crítica. Nesse processo, algumas práticas se destacavam como centrais em sua abordagem religiosa e intelectual conjunta.

Entre os aspectos mais comentados de sua religiosidade está o interesse por profecias apocalípticas. Em manuscritos publicados séculos depois, o cientista sugere que trechos de Daniel e do Apocalipse apontariam para um marco em torno do ano de 2060. Essa previsão, formulada no contexto religioso dos séculos XVII e XVIII, não descreve o fim absoluto da existência, mas o encerramento de uma era histórica e o início de uma nova fase de paz — ele via a história como organizada em ciclos divinos, reconstruídos por meio de análise minuciosa das Escrituras.

A religião moldou o modo como Newton encarava a pesquisa científica, reforçando a expectativa de encontrar regularidade nas leis da natureza e sentido na história humana. Sua fé em um Deus racional sustentava a confiança em um cosmos inteligível. Hoje, embora sejam mais lembrados pelas contribuições à física clássica, seus manuscritos teológicos mostram que ele dedicou grande parte do tempo à interpretação bíblica, e por isso permanece como exemplo de um período em que ciência e fé caminharam entrelaçadas na busca de compreensão do mundo natural e espiritual

No fim das contas, Newton mostrou que o universo obedece a leis matemáticas rigorosas, mas, curiosamente, deixou para a humanidade a tarefa de decidir se deve obedecer às leis da física ou às interpretações humanas do divino.

A gravidade puxa todos os corpos para o chão, mas a fé puxa mentes para direções bem menos previsíveis.