quarta-feira, 8 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — CONTINUAÇÃO

A HISTÓRIA É UM RIO CUJO CURSO É PERMEADO POR ILHAS DO TEMPO PELAS QUAIS PASSAMOS, MAS PARA AS QUAIS NÃO PODEMOS VOLTAR.  

Desde priscas eras que buscamos respostas — principalmente através da lente da religião — para mistérios como a natureza da consciência e da alma. Porém, a despeito de todo o avanço da ciência, ainda não sabemos o que é a consciência, se ela é criada e hospedada pelo cérebro ou como arranjos específicos de neurônios podem gerar experiências subjetivas, como a sensação do vermelho, o gosto do café ou a dor de uma perda.

Sabemos quais mecanismos cerebrais descrevem sinais elétricos e químicos, mas não por que tais sinais “sentem” algo por dentro. Há quem considere a consciência como uma substância distinta da matéria física, quem dá mais importância à organização funcional do que ao substrato físico, e quem acha que se trata apenas de uma ilusão. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Além da demora em se envolver na pré-campanha do enteado Flávio, a madrasta passou a desmontar enredos construídos por Carlos e Eduardo para dramatizar o roteiro em que o pai preso faz o papel de vítima. Três dias depois de o pitbull do clã trombetear nas redes que seu pai "continua enfrentando crises de soluços intermináveis e ininterruptas", Micheque montou seu púlpito no Instagram e deu graças a Deus pela evolução do quadro médico do marido.

Cinco dias antes, ela havia desossado uma patranha de Dudu Bananinha, que gravou um vídeo na CPAC (a conferência conservadora do trumpismo) dizendo que as imagens seriam vistas pelo pai no seu domicílio prisional. Numa postagem, a madrasta esclareceu: ainda que tivesse chegado, a filmagem do enteado não seria exibida ao marido: "Ele está proibido, por força de determinação judicial, de ter acesso a aparelhos celulares", disse ela, num inequívoco aceno a Xandão.

Micheque molha o tailleur para parecer mais útil a Bolsonaro que os filhos dele. Costuma evocar a Bíblia para sustentar que mulheres devem manter uma "submissão saudável" no lar. Já disse que "fazer comidinha gostosa para o marido e cuidar da casa não diminui a mulher."

Numa dinastia patriarcal, deve doer na alma dos varões a percepção de que a madrasta virou uma unha encravada nos pés de barro dos enteados. Cuidadora de mostruário, ela protege Bolsonaro até dos filhos. O eleitor bolsonarista é como que convidado a premiar com uma cadeira no Senado a submissão bíblica da dita-cuja.


A Teoria da Informação Integrada (IIT) sugere que a consciência emerge quando um sistema integra informações de forma específica, e que até sistemas simples podem apresentar níveis minúsculos de consciência. A Redução Objetiva Orquestrada sustenta que a consciência surge de processos quânticos nos microtúbulos neuronais, e que a função de onda aleatórias pode ser “orquestrada” por estruturas cerebrais, resultando em momentos discretos de consciência. Já o Panpsiquismo sustenta que uma propriedade tão fundamental quanto a massa ou a carga elétrica, e que a combina partículas elementares, dando origem a consciências mais elaboradas.


Devido à falta de suporte empírico robusto, os defensores dessas ideias são acusados de flertar com a pseudociência, mesmo porque o cérebro opera em temperaturas e condições que vão na contramão da coerência quântica. Mas o tempo não se comporta na física quântica como Einstein previu na relatividade geral


Embora as equações fundamentais da física sejam simétricas no tempo, a flecha do tempo está associada ao aumento da entropia (medida de desordem de um sistema). Mas as equações não mostram fluxo algum, por que o Universo começou em um estado de baixa entropia? E por que nos lembramos do passado, mas não do futuro?


Na gravidade quântica em loop, não existe um “tempo absoluto” correndo uniformemente, e a relatividade reforça essa ideia ao demonstrar que eventos simultâneos para um observador imóvel não o são para outro em movimento. Mas se não há um agora universal, então o passado, o presente e o futuro são igualmente reais, e nossa percepção de tempo não passa de uma ilusão neurológica bem convincente.


No mais famoso dos paradoxos quânticos, um gato em uma caixa permanece vivo e morto ao mesmo tempo até alguém verificar o estado de um átomo radioativo. Segundo a interpretação de Copenhague, a observação colapsa a superposição, mas não define o que conta como observação nem onde fica a fronteira que separa o mundo quântico do clássico.


O princípio da Decoerência preenche essa lacuna afirmando que o ambiente “mede” o sistema o tempo todo e destrói superposições macroscópicas quase instantaneamente, e a teoria dos Muitos Mundos, que o Universo se divide em duas realidades — numa, o gato vive; na outra, ele morre. 


A questão que se coloca é: será que o próprio gato não é capaz de observar a si mesmo e colapsar sua própria função de onda?


Continua...

terça-feira, 7 de abril de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 92ª PARTE

MODELOS CIENTÍFICOS NUNCA SÃO PROVADOS NUM SENTIDO ABSOLUTO, APENAS CONQUISTAM ACEITAÇÃO À MEDIDA QUE EXPLICAM E PREVÊEM OBSERVAÇÕES MELHOR DO QUE OS MODELOS ALTERNATIVOS.

A ciência acumula um vasto conhecimento sobre o cérebro, mas ainda patina ao tentar explicar como arranjos específicos de neurônios geram experiências subjetivas — a sensação vibrante do vermelho, o aroma terroso do café ou a dor lancinante de uma perda, por exemplo. Sabemos que os mecanismos cerebrais envolvem sinais elétricos e químicos disparando em redes neurais complexas, mapeadas por técnicas como ressonância magnética funcional (fMRI) e eletroencefalografia. No entanto, a razão pela qual esses processos “sentem” algo por dentro, em primeira pessoa, permanece um mistério. Esse é o chamado “problema difícil da consciência”, proposto pelo filósofo David Chalmers em 1995, que distingue os mecanismos objetivos (o “fácil”) das vivências qualitativas (os qualia). A busca por uma “ponte” entre a física e a consciência humana divide cientistas e filósofos. Dualistas, como René Descartes em sua versão clássica, veem a mente como uma substância imaterial distinta da matéria, enquanto funcionalistas argumentam que o que importa é a organização de informações e computações, independentemente do substrato físico — um cérebro, silício ou até um enxame de neurônios artificiais. Já os eliminativistas radicais, como Daniel Dennett, tratam a consciência subjetiva como ilusão, um truque narrativo do cérebro para sobreviver. Outras abordagens emergentes, como a teoria da Informação Integrada (IIT), de Giulio Tononi, propõem que a consciência surge do grau de integração de informações em sistemas complexos, mensurável matematicamente. Ainda assim, nenhuma explica por que essa complexidade produz o “teatro interno” da experiência.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A percepção de fadiga moral no chamado sistema é sempre pior para quem está no governo, que é a representação do "tudo isso que está aí", Daí se depreende que o derretimento da reputação nas e das instituições tende a cair na conta de Lula — a bananeira que já deu cacho — e nos apoiados por ele nos estados. Quanto à improvável terceira via, o governador Tarcísio, afilhado político do presidiário mais famoso desta banânia, precisa agradar aos radicais, o que prejudica a imagem de moderação a ser vendida ao eleitorado. Em contra partida, o primogênito do mico, também conhecido como senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, fica livre para tecer sua pele de cordeiro.

Em meio a isso, Gilberto Kassab efetivou Ronaldo Caiado como candidato à Presidência pelo PSD, em detrimento de Eduardo Leite (Ratinho Jr. já havia desistido de moto próprio). O ungido ressalta os feitos de sua bem avaliada gestão em Goiás, mas peca por manter em cena a lógica do atrito em tese condenada pelo grupo.

Edição revista e piorada do pai, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias interessa a Lula até pouco tempo atrás como contraponto de palanque, mas seu crescimento nas pesquisas exige expertise estratégica mais elaborada do Palácio do Planalto. A julgar pelo primeiro lance de reação direta contra o filho do pai, falta pensamento estratégico nessa investida. Se acreditou mostrar-se superior ao não frequentar o mesmo evento que o adversário — falo da cerimônia de posse do presidente do Chile — errou na avaliação e criou uma situação de paridade que pode parecer desimportante, mas ganha relevância se examinado no contexto do plano para dar combate ao primogênito do aspirante a golpista.

Como não há nada tão ruim que não possa piorar, a crise de confiança que assola STF evidencia que saber jurídico não é suficiente para fazer frente a circunstâncias de natureza política. Em seu desnorteio na busca por uma porta de saída no labirinto em que se encontram, as togas divergem sobre as razões da erosão de imagem da Corte e dividem-se na escolha das maneiras de reagir.

A alguns parece melhor apostar no espírito de corpo, enquanto para outros prevalece a visão realista de que a solução reside na correção de condutas. Isso no ambiente interno do tribunal, porque fora dele há a percepção de que a situação exige atitude radical: o afastamento de Toffoli e Moraes.

Se não for por pedido voluntário de licença ou aposentadoria antecipada, acabará sendo por clamor popular pelo impeachment de ambos.


A IIT sugere que a consciência emerge quando um sistema integra informações de forma específica e irredutível, e que até sistemas simples podem apresentar níveis minúsculos de consciência. A redução objetiva orquestrada sustenta que a consciência surge de processos quânticos nos microtúbulos neuronais, e que a função de onda aleatórias pode ser “orquestrada” por estruturas cerebrais e resultar em momentos discretos de consciência. Já o Panpsiquismo postula que a consciência é uma propriedade tão fundamental quanto a massa ou a carga elétrica, e que a combinação de partículas elementares dão origem a consciências mais elaboradas.


Devido à falta de suporte empírico robusto, defensores de teorias quânticas da consciência — como as de Roger Penrose e Stuart Hameroff — são acusados de flertar com a pseudociência. Afinal, o cérebro opera em temperaturas quentes e ambientes úmidos, contrários à coerência quântica necessária para efeitos macroscópicos. No entanto, o tempo na física quântica desafia as previsões de Einstein na relatividade geral.


Embora as equações fundamentais da física sejam simétricas no tempo — permitindo que filmes rodem para trás —, a flecha do tempo surge do aumento da entropia, (medida da desordem em um sistema). Resta explicar por que o Universo começou em um estado de baixa entropia e por que nos lembramos do passado, mas não do futuro, se as leis não impõem direção alguma.


Segundo o físico Carlo Rovelli, o tempo não é fundamental. Na gravidade quântica em loop, não existe um "tempo absoluto" correndo uniformemente. A relatividade reforça isso: eventos simultâneos para um observador imóvel não o são para outro em movimento. Se não há um "agora" universal, passado e futuro são igualmente reais — nossa percepção linear pode ser mera ilusão neurológica.


No mais famoso dos paradoxos quânticos, o gato de Schrödinger vive e morre ao mesmo tempo em uma caixa, até uma observação colapsar o estado de um átomo radioativo em superposição (decaído/não decaído). A interpretação de Copenhague diz que a medição causa o colapso, mas não define o que conta como "observador" nem a fronteira quântico-clássico. O princípio da Decoerência explica que o ambiente "mede" o sistema continuamente, destruindo superposições macroscópicas quase instantaneamente. Já a teoria dos Muitos Mundos, de Hugh Everett, postula que o universo ramifica: em um, o gato vive; no outro, morre. Mas e se o próprio gato, consciente, colapsar sua função de onda?


Em 1935, Einstein, Podolsky e Rosen (EPR) propuseram um paradoxo para mostrar a mecânica quântica incompleta. Partículas emaranhadas, separadas por anos-luz, teriam estados instantaneamente correlacionados — a ação fantasmagórica à distância que Einstein detestava — apostando em variáveis ocultas locais. Ironicamente, o Teorema de Bell (1964) provou que nenhuma teoria local realista reproduz as previsões quânticas. Experimentos, como os premiados com Nobel em 2022, confirmaram o emaranhamento não local.


O experimento da dupla fenda revela elétrons interferindo como ondas, passando por ambas as fendas simultaneamente — até detectores os forçarem a um caminho único, destruindo o padrão. John Wheeler radicalizou: uma medição pós-fenda parece determinar retrospectivamente o trajeto, sugerindo que o futuro influencia o passado.


Partículas tunelam barreiras classicamente intransponíveis, emergindo do outro lado sem percorrê-las — dependendo da medição, parecem sair antes de entrar, questionando a causalidade temporal..


Resumo da opera: Não há realidade definida pré-medição. em sistemas quânticos. O futuro afeta o passado, o tempo pode não ser fundamenta e o pressuposto de causa não se aplica em todas as situações.. Enfim, a realidade, vista de perto é mais estranha que ficção.


Continua...

segunda-feira, 6 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE

TIMOR MORTIS EST PATER RELIGIONIS.

Como explicar o sincronismo comportamental que ocorre na natureza — de forma muitas vezes inconsciente —, como milhares de estorninhos voarem em perfeita coreografia, como se fossem um só, se a física clássica trata esse fenômeno como uma impossibilidade?


Há segredos que não devem ser revelados e mistérios que jamais serão explicados. No entanto, segundo a Navalha de Ockham — ou princípio da parcimônia, quando há várias explicações possíveis, a mais simples é a mais provável, mesmo que não seja necessariamente a correta, e de acordo com Sherlock Holmes — detetive criado pelo escritor e médico escocês Arthur Conan Doyle —, uma vez descartado o impossível, o que sobrar, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade


Talvez o "x" da questão seja o fato de nos vermos como indivíduos, quando na verdade fazemos parte de um organismo muito maior.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


No tempo da Lava-Jato, a delação premiada gerou intensas controvérsias. A lei que regulamenta o assunto passou a conter parâmetros mais claros de aplicação, e PF e PGR — a quem cabe assegurar equilíbrio, integridade e garantias fundamentais — têm se mostrado mais exigentes, com critérios rigorosos de corroboração de fatos narrados pelo colaborador.

Agora, o assunto volta ao centro do debate em meio a investigações de grande repercussão, como Master, INSS e Carbono Oculto. Até assinar o termo de confidencialidade, Vorcaro precisava decidir entre cooperar com as autoridades ou guardar o silêncio. Os desdobramentos indicam que ele escolheu a primeira alternativa. No entanto, como se viu desde a Lava-Jato, quem fala primeiro tende a fechar acordos melhores do que quem fica para depois, que pode acabar sem nada a oferecer.

Esse é o pano de fundo para todas as discussões da República — dos penduricalhos no Supremo Tribunal Federal à contenção do preço do diesel no governo Lula, passando, claro, pelas pesquisas eleitorais — e o responsável pelo clima de desconfiança que impera em Brasília.


Com bem disse Einstein, cada um de nós representa uma parte do todo chamado Universo, e o que pensamos e sentimos como algo separado é apenas uma ilusão criada por nossa consciência. Declarações semelhantes foram feitas por Leonardo da Vinci, Benjamin Franklin e outros pensadores de alto coturno, mas a maioria dos cientistas ainda acredita que sincronismo comportamental é balela, e que esses organismos reagem uns com os outros com tal rapidez que a diferença temporal se torna quase imperceptível.


É possível que os estorninhos e os peixes se movam em bando, como uma coisa só, porque formam um organismo completo, como as células que compõem o nosso corpo, e isso torna o sincronismo perfeitamente natural. Mas câmeras de vídeo de altíssima velocidade acopladas a relógios atômicos nos dois extremos de um cardume mostraram que essa reação pode ser mais rápida que a luz — outra impossibilidade, já que física clássica define “c” — 299.792.458 m/s — como limite universal.


E agora, José?


Continua...

domingo, 5 de abril de 2026

CARNE MACIA E SUCULENTA

NA COZINHA VOCÊ PODE GRITAR, SUAR E XINGAR E AINDA SER CHAMADO DE CHEF DE ALTA GASTRONOMIA. 

Comi os melhores bifes da minha vida nos anos 1960/70, no sítio da minha avó, que ficava numa bucólica cidadezinha próxima à divisa entre São Paulo e Minas Gerais. 

Muitos anos depois, perguntei à velha senhora qual era o segredo da suculência e do sabor daqueles bifes. Ela respondeu: Vá até o matadouro e traga um pedaço de patinho ou coxão mole fresquinho, e eu faço bifes iguais aqueles de que você tanto gostava

Em outras palavras, o “x” da questão era o frescor da carne — que vinha embrulhada em jornal, ainda pingando sangue.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Quando ainda era inquilino do Planalto, Bolsonaro comentou que não há nada tão ruim que não possa piorar. E estava coberto de razão.. No caso dele, a reeleição furou, o golpe falhou e a condenação chegou. No caso do cenário político tupiniquim, a pré-campanha presidencial deste ano está ainda mais repugnante e vomitativa do que as de 2018 e 2022.

Após ser chamado de 'Opala velho', Lula disse que não se ofendeu com a metáfora de Flávio Bolsonaro porque 'o Opala dele é o pai, que está no desmanche'. Apenas 48 horas depois do troco, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias se exibiu na feira de antiguidades da CPAC como um modelo seminovo do bolsonarismo que já vem com defeitos de fábrica — entre eles um GPS que sincroniza todos os movimentos com os interesses da Casa Branca.

Estatisticamente empatados nas pesquisas, os dois principais postulantes ao Planalto disputam os votos do eleitorado independente de centro, que definirão o tira-teima. Na bica de completar 81 anos (se chegar até lá), o petista se comparou a um "Opala turbinado". Mas chega a sua sétima disputa presidencial com a popularidade no vermelho, desafiado a combinar as cenas de vitalidade física que exibe em vídeos postados nas redes sociais com novidades capazes de lhe conceder o ambicionado quarto mandato.

Autoproclamado "bolsonarista moderado", o primogênito do refugo da escória da humanidade não consegue dissociar a jovialidade dos seus 44 anos de idade da fuligem retórica do genitor — que inclui desprezo pela liturgia democrática, negligência com a soberania nacional e idolatria por um trumpismo que está em declínio até nas pesquisas de institutos norte-americanos e nas ruas dos Estados Unidos. 

Começa mal a campanha presidencial. Convém aos favoritos qualificar a prosa. Hoje, o debate tem a profundidade de um pires. Pode ser atravessado por uma formiga com água na altura das canelas. A discussão produz muita fumaça, não sai do lugar e derrama óleo queimado no chão.

Num eventual segundo turno, antipetistas e antibolsonaristas perguntarão a seus botões se vale a pena comprar um carro usado na mão de Lula ou de Flávio. Numa disputa assim, vigora não a preferência pelos candidatos, mas a rejeição. Como em 2018 e 2022, o eleitor corre novamente o risco de barrar uma alternativa indesejada sem eleger um presidente capaz de unir a sociedade em torno de um projeto de país que faça nexo. 

Aqui em Sampa, comprar carne direto do matadouro está fora de questão. Os açougues de bairro estão em extinção, e carne "resfriada" vendida nos supermercados é mosca branca de olho azul. O que eles comercializam é carne descongelada, esbranquiçado, sem graça e praticamente intragável se a gente não carregar no temperos (sal, pimenta, cebola, alho, salsa, cebolinha, orégano e páprica, por exemplo). 

Observação: A cor da carne deve ser vermelho-brilhante, não escura ou roxa. A gordura deve ser branca ou levemente amarelada (gordura muito amarela significa que a carne é de vaca velha), a fibra, curta, e o toque, firme, sem qualquer sensação pegajosa.

Tem gente que transforma medalhões de filé em postas borrachudas e gente que monta "churrasquinhos de gato" de dar água na boca. De qualquer modo, você obtém melhores se tirando a carne da geladeira cerca de 30 minutos antes do preparo, de modo a evitar o choque térmico que tende a enrijecer as fibras e impedir o cozimento uniforme.

A alcatra é uma peça extraída da parte traseira do boi, e dá origem a vários cortes populares — sendo a maminha e a fraldinha os mais reconhecidos e apreciados. A maminha tem textura macia e sabor agradável; a fraldinha é mais fina e tem fibras espaçadas, mas não deixa a desejar em sabor e maciez quando bem preparada. Com o preço da picanha nas alturas, ambas são boas opções para churrasqueiros de fundo de quintal. 

Para quem não se importa de gastar um pouco mais, o contrafilé vai bem tanto em bifes fritos quanto assado na grelha. O segredo é cortar os bifes com pelo menos 2 dedos de altura e não remover toda a gordura ao limpar a peça (além de evitar o ressecamento da carne, essa gordura é muito saborosa).  

Usado corretamente, o sal realça o sabor e a preserva a suculência da carne. Bifes e grelhados rápidos devem ser temperados poucos minutos antes de irem ao fogo. Já pedaços maiores e cortes mais duros devem ser salgados com antecedência ou marinados durante algumas horas.

Observação: Para preparar uma marinada simples e eficiente, lave e seque bem um vidro com tampa (dos de palmito ou maionese resolvem). Coloque cachaça, azeite, alho esmagado, cheiro-verde picado, ervas frescas (alecrim ou tomilho), sal grosso, feche bem e agite por alguns segundos até homogeneizar. Em seguida, acomode a carne numa vasilha, despeje a marinada, massageie por alguns minutos, transfira para um saco próprio ou para uma vasilha plástica com tampa e deixe na geladeira de véspera, virando a carne de tempos em tempos. Se o tempo de marinada for menor, assegure-se de que a carne fique totalmente coberta pelo molho.

Evite furar a carne com o garfo ou apertá-la com uma espátula, pois isso faz com que o suco interno escape, deixando-a seca e dura, mesmo que o ponto esteja correto. Se não dispuser de uma pinça culinária, improvise com um pegador de salada, mas é importante virar a carne somente quando ela estiver bem selada — quanto menos você mexer, melhor será a textura final.

Depois de tirar a carne do fogo, deixe-a descansar para que os sucos internos se redistribuam. Bastam 2 ou 3 minutos para bifes e de 5 a 10 minutos para peças maiores — que devem ser mantidas perto do braseiro para não esfriar. Igualmente importante é cortar a carne no sentido contrário ao das fibras — cortar no sentido errado é garantia de esforço mandibular desnecessário.

No churrasco, cortes menores devem ficar a cerca de 20 cm da brasa; peças inteiras, a pelo menos 40 cm; e a costela, a uns respeitáveis 70 cm. Isso vale tanto para o espeto quanto para a grelha. Cupim, costela e outros cortes mais duros exigem tempo. Já picanha, maminha e fraldinha podem — e devem — ser servidas mal passadas. Frango e porco, evidentemente, precisam estar bem passados.

Observação: Vale lembrar que as peças de picanha têm entre 900 g e 1,3 kg (mais que isso significa que uma parte é coxão duro); as de fraldinha, entre 800g e 1,2 kg; as de maminha, entre 900 g e 1,5 kg; e as de contrafilé, entre 4 e 6 kg.

Tão importante quanto respeitar as características de cada corte e o gosto dos comensais é não deixar a carne passar do ponto. Além de perder maciez e suculência, o excesso de calor aumenta a concentração de HPA (Hidrocarbonetos Policíclicos Aromáticos) e APA (Aminas Policíclicas Aromáticas), que são saubstâncias associados ao surgimento de células cancerígenas. 

No fogão, use panelas ou frigideiras de ferro fundido e fundo grosso, bem aquecidas em fogo alto. Quando o utensílio começar a fumegar, regue com um fio de óleo e frite os bifes individualmente, virando uma única vez e temperando com alho, sal e pimenta durante a fritura. Para bifes mal passados, bastam 2 ou 3 minutos de cada lado; ao ponto, cerca de 5 minutos; bem passado, de 7 a 8 minutos. Mais do que isso fará com que o interior da carne perca a cor rosada e a suculência vire apenas uma vaga lembrança.

Resumo da ópera: Carne boa não pede firula, pede respeito ao corte, ao fogo e ao tempo — sobretudo ao tempo. O resto é performance: termômetro digital, sal do Himalaia, foto para rede social. E se ainda assim alguém insistir que carne boa é bem passada (tipo sola de sapato), sirva-lhe as brasas da churrasqueira com ketchup, batata frita e uma certidão de óbito do boi.

Desejo uma feliz Páscoa a todos.