Candidato à re-re-re-reeleição, Lula chega ao dia do tira-teima de 2026 com apenas três pontos à frente de Flávio Bolsonaro — uma vantagem mais magra do que a registrada nas três eleições presidenciais que venceu.
Em 2002, quando prevaleceu sobre José Serra, o desempregado que deu certo saboreou no Datafolha da véspera 27 pontos de vantagem. Em 2006, mesmo carregando o mensalão na mochila, chegou no dia anterior à disputa com uma dianteira de 12 pontos sobre Geraldo Alckmin. Em 2022, estava 14 pontos à frente de Jair Bolsonaro, e na pesquisa do último sábado, manteve-se nos 45% que somava na quinta-feira, enquanto o filho do ex-presidente golpista — que ora cumpre pena por tentativa de golpe de Estado — cresceu de 40% para 42%. Quer dizer: o petista conseguiu segurar o empate técnico, mas sua vantagem caiu de cinco para três pontos, enquanto Bolsonarinho apresentou viés de alta.
Pesquisa de intenção de voto não é prognóstico da urna — em 2018, às vésperas do pleito, as pesquisas davam como certa a derrota de Bolsonaro no segundo turno (fosse quem fosse o adversário da vez) e a eleição de Dilma para o Senado por MG. Prova disso é que o então obscuro deputado do baixo clero que surfou na onda do antipetismo e promoveu o maior estelionato eleitoral da história deste país desde a redemocratização venceu o bonifrate do então presidiário de Curitiba por uma diferença de 10,7 milhões de votos, e Dilma, a mulher sapiena cuja vitória também eram favas contadas, ganhou o que a Luzia ganhou atrás da horta. Mas o perfil conservador dos candidatos estimula a suspeita de que o voto útil pode favorecer mais Flávio do que Lula.
Confirmado o segundo turno, o macróbio eneadáctilo que representa a continuidade numa disputa marcada pelo sentimento da mudança precisará virar sua campanha do avesso. Já seu adversário diz personificar uma virada de página para trás, como ele próprio demonstrou ao ventilar que sua prioridade é anistiar o pai. Mas o fator democrático, decisivo para a vitória de Lula há quatro anos, parece não sensibilizar o eleitor dito independente, fiel da balança em 2026.
Em São Paulo — maior colégio eleitoral do país —, o bolsonarista Tarcísio de Freitas, reeleito governador, consolidou um acordo no fim da campanha que "se mostrou muito eficaz" e ajudou a tirar Simone Tebet e a intragável Marina Silva da disputa ao Senado. Ele retirou Ricardo Salles, que estava pulverizando os votos da direita, e fortaleceu as candidaturas que estavam atreladas à sua própria campanha.
A nova composição no Senado tende a puxar debates sensíveis, como propostas de reforma do Judiciário e pedidos de impeachment de ministros do STF em meio ao avanço de uma bancada mais conservadora. Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado, teve uma votação expressiva — como era de esperar, na medida em que, além de ser muito prestigiada em Brasília, seu protagonismo vai muito além do Distrito Federal e sua vitória reforça um "projeto de poder" do bolsonarismo — que não se limita a um ciclo curto.
Mesmo em prisão domiciliar por atentar contra a democracia, Jair Bolsonaro emergiu das urnas como maior protagonista e principal beneficiário político do processo eleitoral de 2026. Seu primogênito chegou ao segundo turno à frente de Lula e seu espúrio partido beliscou 121 cadeiras de deputado federal, 24 a mais que em 2022, além de eleger 19 senadores, passando a controlar 28 cadeiras. Isso sem falar que, dos 20 governadores eleitos no primeiro turno, dez haviam declarado apoio a Flávio Rachadinha, e que o PL, sozinho, elegeu seis governadores.
Os resultados revelaram uma hegemonia eleitoral da extrema-direita, com forte viés bolsonarista. Bolsonaro ficou mais próximo de concluir o seu projeto de vingança, enquanto Lula precisaria de uma virada para permanecer no Planalto — coisa jamais vista num segundo turno.
Alexandre de Moraes tem um encontro marcado com um pedido de impeachment no Senado. Bolsonaro já enxerga o meio-fio. Pode ganhar não apenas as ruas, mas o papel de eminência parda de uma eventual Presidência do filho. Mesmo que o ex-deputado das rachadinhas, panetones e mansões milionárias seja derrotado, esse projeto presidencial do clã vai se prolongar pelos próximos anos, até porque a força do bolsonarismo apareceu tanto na sucessão presidencial quanto nas disputas estaduais. Nesse cenário, Micheque pode ganhar projeção nacional e entrar na fila de nomes do grupo para futuras eleições.
Que Deus se apiede de nós.



