segunda-feira, 13 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — PARTE IV

O TEMPO É LENTO DEMAIS PARA QUEM O ESPERA, RÁPIDO DEMAIS PARA QUEM O TEME, LONGO DEMAIS PARA QUEM O LAMENTA E CURTO DEMAIS PARA QUEM O CELEBRA. 


Se, como vimos no capítulo anterior, Morgan Robertson descreveu um evento que ainda não havia ocorrido, então esbarramos em uma das questões mais perturbadoras da física: a natureza do tempo. E se a consciência não-local realmente existe, então ela teria de operar fora das restrições temporais lineares. Nesse contexto passado, presente e futuro coexistiriam não como uma linha onde nos movemos de um ponto a outro, mas como um mapa completo onde todos os momentos já existem.


Pode parecer mera especulação mística, mas a física quântica parece permitir que, em certas condições experimentais, o efeito preceda a causa, e o entrelaçamento quântico, que partículas separadas por distâncias astronômicas podem reagir instantaneamente uma à outra, como se a distância espacial não desempenhasse qualquer papel. Então, a pergunta é: se o espaço pode ser uma ilusão, por que o tempo também não poderia?


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Durante a sessão que tratou da eleição de um governador-tampão para o Rio de Janeiro, o ministro Luiz Fux, incomodado com as críticas generalizadas contra os políticos do Estado, vestiu uma toga justa em seus pares insinuando que, como macacos, eles se sentam em cima do próprio rabo e falam mal dos rabos alheios.

Fux, que se transferiu para a 2ª Turma do Supremo depois de proferir o único voto dissonante no julgamento que condenou Bolsonaro por tentativa de golpe, lembrou que alguns colegas não participaram dos julgamentos do mensalão e do petrolão e misturou perversões antigas às novas — INSS e Master — para realçar que os escândalos não são monopólio do Rio. Insinuou ainda o eminente magistrado que as conexões com Daniel Vorcaro proporcionarão o encontro de algumas togas com o diabo: "Se esses políticos tiverem que ir para o inferno, irão acompanhados de altas autoridades", disse.

O embate ocorreu após Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes debaterem a depravação moral do Rio. Dino lembrou que cinco governadores passaram pela cadeia, um sofreu impeachment e o último renunciou para não ser cassado. Gilmar disse que até 44 deputados estaduais estão no bolso do jogo do bicho. Moraes lembrou que as digitais autoridades digitais fluminenses se imprimiram no assassinato de Marielle Franco.

O escritório da mulher de Moraes recebeu R$ 80 milhões do banco; a empresa de Dias Toffoli foi sócia de fundos da rede de Vorcaro num resort; Gilmar viajou num jato do dono do falecido banco; e a consultoria que assessorava o Master subcontratou o escritório de advocacia de um filho de Nunes Marques.

Tantas conexões ajudam a explicar o silêncio que se instalou depois que Fux tratou o plenário do Supremo como antessala do inferno. Mas convenhamos: se o Brasil não fosse uma republiqueta de bananas e os brasileiros não fossem um povo de merda, nenhum dos atuais 10 ministros do STF, dos 513 deputados e dos 81 senadores escaparia da vassoura. E o mesmo se aplica ao chefe do Executivo e seus comparsas ministros de Estado.

Triste Brasil.


Talvez Robertson simplesmente sintonizou sua "antena cerebral" numa frequência onde o naufrágio do Titanic já existia como informação acessível — não por ser capaz de o futuro, mas porque, do ponto de vista da consciência não-local, existe apenas o “agora eterno”, que contém tudo o que foi, é e será. Mas se admitirmos que o futuro já existe na matriz informacional, será que ainda há espaço para mudá-lo? Ou será que todos executamos um roteiro já escrito achando que estamos improvisando?


O cérebro como antena levanta questões que transcendem a neurociência e invadem o território da filosofia, da ética e até da teologia. Se a consciência não é “local”, mas “universal”, então a morte é basicamente o desligamento de um receptor. Se isso não prova a imortalidade da alma, ao menos oferece uma estrutura conceitual na qual a hipótese faz sentido. 


Falando em sentido, seria o “sexto sentido” que atribuímos à percepção extrassensorial o efeito do cérebro sintonizando informações captadas de outras “estações”? Quando uma pessoa tem um “palpite”, é como se o rádio do carro captasse uma interferência de outra emissora. Na maioria das vezes, essa interferência não passa de estática, mas em alguns casos o cérebro “capta várias estações claramente”. 


É o que parece ocorrer com pessoas que afirmam ouvir vozes internas, como em certos quadros psiquiátricos — incluindo a esquizofrenia e alguns transtornos dissociativos. Nos casos de precognição, é possível que “transmissão de rádio” crie ecos e diferenças temporais que funcionam como um déjà vu. Evidências de retrocausalidade — influências retroativas anômalas na cognição e nas emoções — sugerem que, ao menos em algumas interpretações, o futuro pode influenciar o passado.


Conceitos como o entrelaçamento quântico e a decoerência quântica descortinam um Universo onde todas as coisas existem a todo momento em todo lugar, e oferecem explicações lógicas para “anomalias paranormais” como a percepção extrassensorial, a precognição, as experiências de quase morte (EQMs), as experiências extracorpóreas e a síndrome de Savant adquirida (que ocorre quando a pessoa desenvolve habilidades inusitadas após sofrer um trauma cerebral, e já foi documentada várias vezes pela medicina).


Se pensarmos no cérebro como um aparelho de rádio com um dial físico giratório, esbarrar acidentalmente nesse botão pode dessintonizar nossa emissora preferida e nos fazer ouvir chiados ou misturar com a música a voz de um locutor de outra estação, como nas linhas cruzadas do tempo em que as ligações telefônicas eram analógicas.


Seguindo a metáfora do rádio, para se tornar um atleta é preciso treinar, treinar e treinar. Ao treinar, a pessoa vai “configurando” o cérebro para receber informações da consciência universal de maneira mais clara e consistente, traduzindo-as em distensões e contrações musculares que lhe permitem executar melhor suas atividades esportivas. Em outras palavras, o treino “clareia o sinal” que o cérebro está recebendo.


Curiosamente, o cérebro de algumas pessoas parece predisposto a receber determinados sinais que as tornam atletas de elite, virtuoses e gênios. Algo semelhante ocorre com os portadores de Asperger ou Autismo, cujas “antenas” dão acesso a habilidades e entendimentos notáveis, embora dificultem a execução de tarefas rotineiras. Mal comparando, seria como usar binóculo: o que está distante fica nítido, mas o que está próximo fica desfocado.


Se a consciência não-local existir como uma matriz informacional acessível, os estorninhos poderiam estar todos "consultando o mesmo banco de dados" simultaneamente e reagindo à mesma informação no mesmo instante. Robertson teria acessado informações sobre um evento futuro presente nessa matriz atemporal, e os savants adquiridos, a porções da consciência universal normalmente bloqueadas, mas que um trauma cerebral lhes facultou o acesso. Isso nos leva a uma pergunta incômoda: o que acontece quando essa “antena” se quebra?


Continua...

domingo, 12 de abril de 2026

CONTRAFILÉ — NA BRASA OU NA FRIGIDEIRA, SEMPRE UMA BOA OPÇÃO

CHATO É AQUELE QUE FALA QUANDO A GENTE QUER QUE OUÇA.

A picanha começou a ser separada da alcatra no final dos anos 1950, quando os imigrantes alemães que trabalhavam na fábrica da Volkswagen, em São Bernardo do Campo (SP), utilizavam o corte para preparar o tafelspitz — receita austríaca que consiste em picanha acompanhada de maçã e raiz-forte, servida com batatas.


Considerada carne “de segunda” até meados da década de 1970, a hoje rainha das churrascarias ganhou status e se tornou sinônimo de churrasco no Brasil. Hoje, com o preço nas alturas a despeito da promessa de palanque de Lula, ela vem sendo preterida por cortes como alcatra, maminha e contrafilé, que são excelentes alternativas para quem busca carne saborosa, versátil, mais em conta e fácil de preparar.


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Com cerca de 733.759 habitantes (5,65 hab./km²), o Amapá é um dos estados brasileiros com menos habitantes e menor densidade demográfica. Já São Paulo, tido como a "locomotiva do Brasil", tem 46,08 milhões de habitantes (média de 180,86 hab./km²). A título de referência, a média nacional gira em torno de 24 hab./km², e cada unidade da Federação (26 Estados e o Distrito Federal) é representada por 3 senadores, sendo o amapaense Davi Alcolumbre o presidente de turno do Senado e do Congresso Nacional. 

Alcolumbre é um típico político brasileiro — grosso modo falando. Lança mão de todos os artifícios para atingir seus subterfúgios. Com dois movimentos, deu um nó no governo e na oposição. Sob holofotes, passou a impressão de atender aos dois lados. No escurinho, satisfez o seu desejo de enterrar o requerimento de uma CPI mista para investigar o escândalo do Master.

Num lance, o eminente senador acenou para o Planalto ao destravar a indicação de Jorge Messias para o Supremo. Noutro, agradou a oposição ao pautar a votação dos vetos de Lula ao projeto da dosimetria, que reduz penas de Bolsonaro e seus cúmplices.

Num acerto de bastidor, líderes partidários aceitaram que a sessão do Congresso de 30 de abril trate apenas dos vetos à lipoaspiração das penas dos golpistas. Adeptos da CPI vão chiar, mas Alcolumbre e o Centrão têm milhões de razões para ignorar a chiadeira. 

Entre mortos e feridos, quase todos se salvam — menos o interesse público.

Como dizia o falecido Marcelo Rezende, "vai vendo!"


Escolher um bom contrafilé começa pela aparência da peça, que deve apresentar coloração vermelho-viva, sem manchas escuras, sinais de oxidação ou aspecto acinzentado. A gordura lateral precisa ser clara e firme, nunca amarelada ou excessivamente mole. Os bifes ou pedaços devem ser espessos, e a capa de gordura deve ser mantida — sob pena de comprometer a suculência, a textura e o sabor da carne. Bifes muito finos cozinham rápido demais e tendem a ressecar, especialmente em preparos de fogo alto; o mesmo se aplica a peças excessivamente “limpas”.


Quando havia combos de padaria, farmácia e açougue espalhados pela cidade, bastava a gente dizer ao açougueiro o que se pretendia fazer, e ele cortava e limpava o contrafilé da maneira mais adequada. Nos supermercados, porém, as carnes quase sempre são cortadas sem critério, acondicionadas naquelas indefectíveis bandejas de isopor e recobertas por filme plástico. Compre somente se a carne estiver vermelhinha e se não houver excesso de líquido na embalagem. Fuja de bandejas gosmentas ou com cheiro desagradável.


Para grelha ou churrasco, corte a carne em pedaços de dois a três dedos de altura, o que garante cozimento mais uniforme e maior controle do ponto. Os bifes podem ser um pouco mais baixos, mas ainda assim longe de cortes muito finos, e sempre fatiados contra os veios da carne. Manter um pouco de gordura é igualmente importante, tanto para realçar o sabor quanto para evitar que os bifes ressequem.


Fatie o contrafilé contra os veios da carne em bifes com cerca de 2 cm de espessura e frite-os em fogo alto numa frigideira de ferro fundido ou de fundo grosso. Coloque um bife de cada vez, somente quando a frigideira estiver quente a ponto de fumegar. Sal e pimenta-do-reino são indispensáveis para realçar o sabor, mas devem ser aplicados apenas minutos antes ou durante o preparo.


No churrasco, corte o contrafilé em pedaços altos e grelhe em fogo médio-alto por quatro ou cinco minutos de cada lado, virando apenas uma vez. Se a ideia for assá-lo como nas churrascarias, mantenha o espeto a uma distância de 30 a 40 cm do braseiro, vire-o de tempos em tempos e vá retirando lascas, como no churrasco grego.


Dica: Para preservar a suculência, embrulhe as sobras do churrasco em papel-alumínio e guarde na geladeira. Se a carne ainda quente for colocada no forno, continuará cozinhando no calor residual; se for armazenada em um recipiente hermético, perderá suculência por causa do vapor acumulado. O papel-alumínio evita a perda de umidade, e o frio da geladeira estabiliza a temperatura interna da carne. Na hora de servir, basta reaquecer e fatiar.


O filé-mignon tem maciez e sabor inconfundíveis; o coxão-mole é versátil e apresenta ótimo custo-benefício; o coxão-duro e o lagarto rendem excelentes assados, ótimos bifes à rolê e carne de panela. Filé, contrafilé e miolo de alcatra podem ser cortados em bifes grossos, sempre no sentido contrário ao das fibras, mas o coxão-mole e o patinho devem ser fatiados finos


Independentemente do corte e da espessura, os bifes devem ser fritos individualmente e virados apenas uma vez. O ponto varia conforme o gosto do comensal, a altura do bife, o material da frigideira e a potência do fogão. Para bifes médios (cerca de 2,5 cm de altura) malpassados, aqueça bem a gordura e frite por dois ou três minutos de cada lado. Para bifes ao ponto ou bem-passados, o tempo sobe para quatro ou cinco minutos, ou de seis a oito minutos por lado, respectivamente. Ao final, coloque-os numa travessa, cubra com papel-alumínio e deixe descansar por alguns minutos, permitindo que os sucos se redistribuam de maneira uniforme.


Bifes à milanesa devem ser finos e fritos por imersão em gordura bem quente (180 °C). Use frigideiras ou panelas largas, de borda alta, e frite um bife de cada vez, para não baixar a temperatura do óleo. A casca ficará mais crocante e não se soltará durante a fritura se os bifes forem passados na farinha de trigo, no ovo batido e na farinha panko, nessa ordem. Ao final, disponha-os sobre uma travessa forrada com papel-toalha, que absorverá o excesso de gordura e deixará os bifes mais sequinhos.


A carne moída refogada aparece como recheio de pastéis, esfihas, almôndegas e empadões, no molho à bolonhesa e até como “mistura” para acompanhar o popular arroz com feijão. Crua, é a base de hambúrgueres e do sofisticado steak tartare. Como é difícil saber a procedência da carne moída vendida nos supermercados — não é incomum que a gordura e o sebo remanescentes da limpeza das peças seja incluída na moagem —, o ideal é escolher o corte desejado e moer em casa — isso permite, inclusive, misturar cerca de 20% de gordura de picanha à paleta ou ao patinho, já que hambúrguer sem gordura não dá liga nem tem sabor.


Para quibe cru e steak tartare, o filé é o corte mais indicado. As butiques de carne o vendem em escalopes, medalhões, tornedós e chateaubriand, mas sai mais barato comprar a peça inteira, limpar e cortar em casa. Comece removendo a fáscia — aquela membrana prateada que endurece os bifes — com uma faca de ponta fina e bem afiada, mantendo-a quase paralela à peça para minimizar a perda de carne. Em seguida, divida o filé em cabeça, lateral, miolo e ponta


Observação: A cabeça é a extremidade mais larga; a lateral, a parte quase solta que corre ao lado; o miolo, o corpo cilíndrico; e a ponta, onde a carne afina. Corte então em chateaubriands (cerca de 4 cm de altura e 300 a 400 g), tornedós (3 cm e 250 g), medalhões (2 cm e 180 g) ou escalopes (cubos de aproximadamente 1 cm). O restante pode virar bifes — e as sobras rendem strogonoff ou escondidinho de filé, por exemplo.


Eu pretendia incluir uma receita de rosbife semelhante à que publiquei em julho do ano retrasado, mas achei melhor deixá-la para o próximo domingo, sob penda de esta postagem ficar longa demais.

sábado, 11 de abril de 2026

LULA E O PÊNDULO DE FOUCAULT

REELEGER LULA OU ELEGER FLÁVIO BOLSONARO É COMO ESCOLHER ENTRE X-BOSTA E BAURU DE MERDA EM VEZ DE IR COMER EM OUTRO BOTEQUIM.

Com a aproximação das eleições, surge uma pergunta que, para ser respondida sem medo de errar, só mesmo aguardando o apito final e a decisão do VAR. Mas pode-se emular um exercício de futurologia dando uma resposta disfarçada de palpite triplo: ganha fulano por causa disso, mas sicrano pode ganhar por causa daquilo, sem falar que a terceira (!?) pode romper a polarização. Previsão mais precisa que essa, só mesmo consultando a cigana do parquinho ou o horóscopo da revista de fofocas.


Fazer prognósticos calcados em pesquisas de intenção de voto é arriscado, sobretudo quando as abordagens são feitas com seis meses de antecedência. Aliás, Magalhães Pinto dizia que "política é como nuvem" (você olha e elas estão de um jeito; olha de novo e elas já mudaram), e Ciro Gomes, que "eleição é filme e pesquisa é frame". Na melhor das hipóteses, os institutos de pesquisa oferecem um "instantâneo" do humor do eleitorado num determinado momento — isso se admitirmos que 2 mil gatos pingados refletem o pensamento de 150 milhões de eleitores. Na pior, considerando que cada pesquisa chega a custar milhão de reais, é comum os resultados ornarem com a preferência dos contratantes. 


Em 2018, todas as pesquisas davam de barato que Dilma seria a senadora mais votada — e ela ficou em 4º lugar —; que Bolsonaro perderia de qualquer adversário no segundo turno — e ele venceu o bonifrate de Lula por uma diferença de quase 12 milhões de votos —; e que Eduardo Suplicy seria reeleito — e ele foi defenestrado após 27 anos de Senado. Na disputa pelo Planalto, Geraldo Alckmin obteve menos de 5% dos votos, e Marina Silva, 1%. No Nordeste — tido como o solo sagrado onde o demiurgo de Garanhuns realizaria o milagre da ressurreição —, o PT teve 10 milhões de votos a menos que em 2014, e perdeu em cinco das sete capitais da região.


De certeza, mesmo, só a vocação inata que o eleitor brasileiro tem de repetir a cada pleito, por ignorância, o que Pandora fez um única vez, por curiosidade. Mas é consenso entre analistas políticos que a esquerda dividem ⅔ do eleitorado, e que os cerca de 50 milhões de "isentões" funcionam como fiel da balança em pleitos polarizados, quando é preciso escolher o candidato "menos pior" 


Em Il Pêndulo di Foucault, do italiano Umberto Eco, três intelectuais inventam uma teoria da conspiração que, de tão perfeita, começa como brincadeira e termina como crença — primeiro para eles, depois para os outros. A versão brasileira entrou em cartaz quando a aberração que postula a reeleição emitiu um garrancho verbal traduzido pelos filólogos de plantão como "ainda não decidi se serei candidato".


A dúvida virou tese ao cabo de poucas horas, e dias depois a tese já se tornara narrativa. Agora, já temos enredo, elenco de apoio e um roteiro que segue um padrão quase didático: alguém lembra a idade, outro puxa os arroubos da primeira-dama, um terceiro esgrime os dados de um instituto de pesquisa chinfrim, e um quarto invoca o humor do mercado.


Com os pontos criados, basta ligá-los para dar à luz um "Plano B" — uma criatura fascinante que ninguém confirma, que tem nome, cronograma e lógica interna que todo mundo descreve em detalhes, mas que não tem comprovação fora das conversas de botequim que a sustentam. Não obstante, como bem observou Eco, nem toda especulação é delírio. Política é risco, cálculo e contingência. A hipótese hoje improvável de Lula não disputar existe como possibilidade porque existe como variável real. No fim das contas, o problema não é a hipótese, mas a velocidade com que ela vira certeza.


Ainda segundo Eco, quando o padrão parece convincente, a prova vira detalhe e a ausência de confirmação passa a ser interpretada como parte do segredo. Se ninguém admite, é porque é sigiloso. Se ninguém confirma, é porque está sendo preparado. A teoria se fecha e, uma vez fechada, conforta.


A questão é que Lula, mais que candidato, é um eixo organizador do sistema político. Sua saída bagunçaria alianças, embaralharia estratégias e reduziria a previsibilidade da eleição, mas não produziria a vitória automática do filho rachadista do pai golpista — pelo contrário: sem o molusco no páreo, o sobrenome Bolsonaro pode perder tração, e como a política brasileira adora um vácuo, não é difícil imaginar o surgimento de um novo "salvador".


Na tão desejável quanto quimérica hipótese de a terceira via prosperar e o segundo turno ser disputado pelo ex-presidiário mais famoso do Brasil ou pelo primogênito do atual presidiário mais famoso desta banânia contra um "outsider", talvez um novo Cacareco — falo do rinoceronte que foi eleito vereador em Sampa no pleito de 1959 — ou um novo Macaco Tião — como o que obteve 400 mil votos na eleição para prefeito do Rio de Janeiro em 1988 —, ou mesmo minha finada cachorrinha teriam chances reais de vitória. 


Voltando à vomitativa realidade, se Lula pendurasse as chuteiras, as alternativas naturais do PT e seus satélites seriam Haddad ou Camilo Santana — este sempre lembrado como alternativa discreta. Ao fim e ao cabo, pode não haver plano algum — apenas um político macróbio, populista, com a data de validade vencida que governa olhando pelo retrovisor, mas, mesmo farto dos rituais palacianos, não abre mão dos salamaleques do poder. 


Por outro lado, como ensinou Eco, a realidade costuma ser simples demais para competir com uma boa teoria. Então, e se Lula desistir?


Triste Brasil

sexta-feira, 10 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — PARTE III

QUEM NUNCA MUDA DE DIREÇÃO ACABA EXATAMENTE ONDE PARTIU. 

Coincidências literárias não constituem evidências de premonição, mas causa espécie o fato de o livro Futility, or the Wreck of the Titan ter sido publicado anos antes da tragédia do Titanic e as “similitudes” jamais terem sido satisfatoriamente explicadas. 


Baseado num pesadelo vívido sobre um transatlântico insubmersível chamado Titan, que colidiu com um iceberg e naufragou ao cruzar o Atlântico, o escritor americano Morgan Robertson descreveu minuciosamente a construção do navio, a rota, o acidente e outras semelhanças impressionantes, como o tamanho do casco, o número de botes salva-vidas, a velocidade e o mês do acidente.


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As campanhas eleitorais para o Planalto estão prests a começar, e tudo indica que a parcela minimamente esclarecida do eleitorado precisará ingerir doses cavalares de Dramin para suportar o cheiro sem vomitar. 

O busílis da questão não é a má qualidade dos candidatos, mas a péssima qualidade dos eleitores — ignorantes que repetem a cada pleito o que Pandora fez uma única vez. 

Polarização política sempre existiu, mas jamais foi tão exacerbada quanto nas duas últimas campanhas presidenciais. Quando PT e PSDB eram a bola da vez, 'mortadelas' e 'coxinhas' se comportavam como adversários. Hoje, bolsonaristas e petistas agem como inimigos figadais. Para piorar, mesmo com o cardápio do segundo turno restrito a X-bosta ou frapê de merda, os eleitores/comensais, cegos como toupeiras, recusam-se a mudar de boteco. 

No último final de semana, o campo bolsonarista ganhou novos contornos com embates internos envolvendo Flávio, Eduardo e Nikolas Ferreira. Por alguma razão incerta e não sabida, a choldra bolsonarista gasta mais tempo e energia falando mal de si mesma do que Lula trombeteando o 'sucesso' de sua terceira gestão. 

Em vídeo postado nas redes, o pré-candidato das rachadinhas, panetones e mansões milionárias pediu "racionalidade" depois que o irmão 'Bananinha' voltou a bater em Nikolas Ferreira abaixo da linha do intelecto e a madrasta tomou o partido do adversário do enteado.

Além de advertir que "todo mundo sai perdendo" nesse tipo de arranca-rabo doméstico e realçar que o "inimigo" está do outro lado, o postulante da biografia rachadinha teve o desplante de receitar um versículo bíblico: "Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou". Num instante em que ele cresce nas pesquisas posando de moderado, os céus parecem avisar aos eleitores que o pior pecado que se pode cometer diante do bolsonarismo boçal é o excesso de moderação.


Leonardo da Vinci concebeu seu "parafuso aéreo" 500 anos antes da construção do primeiro helicóptero, eJúlio Verne escreveu Vinte Mil Léguas Submarinas quase um século antes de o primeiro submarino nuclear ser construído. Isso nos leva a pensar se não assiste razão ao escritor canadense Robin Sharma quando diz que tudo é criado duas vezes — primeiro na mente e depois na realidade —, ou se Pablo Picasso não estava certo quando afirmou que tudo que se consegue imaginar é real. 


A experiência humana atual é bastante limitada quando comparada com o que de fato poderia ser. Às vezes, basta uma mudança de perspectiva para revelar a verdade. Muitas descobertas científicas — como a heliocentricidade, a esfericidade da Terra, a radioatividade, o Universo em expansão e a epigenética — foram consideradas absurdas até serem comprovadas, mas o simples fato de não conseguirmos imaginar como uma coisa poderia ser verdade não significa que não observamos essa coisa sendo verdade. 


Os gregos antigos descobriram que a Terra era redonda milhares de anos antes de Isaac Newton explicar como a gravidade faz com que os oceanos permaneçam no lugar. A Noética ainda está engatinhando no aprendizado de como a consciência não-local funciona, mas suas teorias oferecem respostas para uma série de fenômenos incompreensíveis à luz do entendimento convencional. 


Pode parecer impossível colocar todo o conhecimento do mundo dentro de um recipiente do tamanho de um baralho de cartas, mas essa informação está contida “dentro” de um smartphone. Dizer que o aparelho simplesmente acessa as informações a partir de bancos de dados espalhados mundo afora vai ao encontro do que afirmam os noéticos sobre a consciência não-local. 


Nosso cérebro representa cerca de 2% de nosso peso, embora contenha cerca de 86 bilhões de neurônios que geram trilhões de sinapses. Embora ele consiga armazenar milhões de gigabytes de dados, sua capacidade de acumular informações é tão limitada quanto a de um celular armazenar todas as músicas do mundo. Diante dessa impossibilidade física, talvez o cérebro funcione como uma antena espantosamente avançada, que “escolhe” quais sinais específicos quer receber da nuvem de consciência global que já existe.


Isso parece ficção científica, mas vale lembrar que diversas tradições espirituais — como o Campo Akáshico, a Mente Universal, a Consciência Cósmica e o Reino de Deus, entre outras — defendem a existência de uma consciência universal. A Noética harmoniza com algumas das crenças religiosas mais antigas, mas é sustentada por descobertas em áreas como a física de plasmas, a matemática não-linear e a antropologia da consciência. 


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quinta-feira, 9 de abril de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 93ª PARTE

O DESEJO SINGULARMENTE HUMANO DE SER FAMOSO É NA VERDADE OUTRO TRAÇO SINGULARMENTE HUMANO: O MEDO DA MORTE. SER FAMOSO SIGNIFICA SER LEMBRADO DEPOIS DE MORRER, E A FAMA É UMA ESPÉCIE DE VIDA ETERNA.

Talvez a consciência seja apenas uma ilusão, porém explicar a experiência consciente em si é como tentar ver o próprio olho sem um espelho. A ciência descreve realidades objetivas, só que não garante fidelidade à "realidade lá fora".


Teorias como a da informação Integrada de Tononi propõem medidas matemáticas para correlacionar estruturas cerebrais complexas com níveis de consciência. só que mapear como o cérebro processa visão é uma coisa, e direcionar atenção e elucidar o que é ser consciente é outra.


Dito isso, a questão que se coloca é: como decisões conscientes e intencionais podem surgir de um substrato físico, seja ele determinista ou aleatório?


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Depois que Ratinho Jr desistiu de ser cabeça de chapa do PSD na disputa pela Presidência da República, pouca gente duvidava que Kassab escolheria Ronaldo Caiado em detrimento de Eduardo Leite. Dias atrás, o anúncio oficial encerrou, nas palavras do cacique do PSD, "uma etapa relevante de articulação interna, após a avaliação de diferentes nomes com desempenho consolidado em seus estados”.

Em vídeo publicado nas redes sociais, o governador gaúcho reclamou que a escolha “mantém um ambiente de polarização radicalizada que tanto limita o Brasil”, e que a definição do partido o decepcionou, embora tenha evitado confrontar diretamente a escolha. 

Herdeiro de uma tradicional oligarquia pecuarista do Centro-Oeste, Caiado é médico de formação, concorreu a presidente em 1989 por outra encarnação do PSD e está em seu segundo mandato à frente do governo de Goiás. Logo após ser anunciado, tratou de apresentar as diretrizes de sua campanha, centradas em anistia “ampla, geral e irrestrita” a Bolsonaro e aos demais golpistas de 8 de janeiro, além de dizer que seu objetivo é governar para que o PT “não seja mais opção no país”. 

O golpismo da direita permanece no centro da disputa eleitoral. Flávio Bolsonaro deu novas demonstrações de fazer o mesmo caminho que o pai presidiário — a quem Caiado defendeu em palanque e prometeu anistia.

Caiado é o candidato, mas sem o apoio total da legenda, e pode ser tudo, menos de ‘centro’. O anúncio de sua candidatura confirma o quanto as várias frentes de direita vêm ocupando espaços de poder, enquanto a esquerda vai se fechando numa bolha que não aponta para o futuro. Talvez seu maior ativo seja a experiência de gestão e os resultados positivos de seus sete anos como governador de Goiás.

Kassab liberou os diretórios, especialmente no Nordeste, para aderirem à reeleição de Lula, mas disse ter feito consultas às bases e concluído que Caiado tinha mais chance de unificar o partido, pois Leite enfrentaria mais resistência na direita, principalmente por sua posição mais crítica em relação ao bolsonarismo. 

No PT, as reações foram mistas. A ministra Gleisi Hoffmann disse que a eleição presidencial deve se manter polarizada, que Caiado tende a ocupar um espaço periférico na disputa, e que o atual cenário político dificulta o avanço de candidaturas fora dos polos consolidados.

A conferir. 


Para ser compatível com o determinismo, o livre-arbítrio precisa ser redefinido como a capacidade de agir segundo nossas próprias razões e desejos, mesmo que esses motivos e desejos sejam determinados..


O universo newtoniano é determinista: conhecendo posições e velocidades de todas as partículas, o futuro é previsível. A mecânica quântica injeta aleatoriedade intrínseca, mas trocá-la por caos não gera liberdade — decisões randômicas são caóticas, não livres. Ela funciona sem ontologia de superposições; pode ser mera descrição operacional eficaz, como as equações de Maxwell capturam relações eletromagnéticas sem "entidades" reais..


Defensores do multiverso postulam infinitos universos com constantes variadas; nós, em um "ajustado", notamos o fine-tuning por viés antrópico. Alternativas sugerem que princípios matemáticos profundos fixam essas constantes, tornando só um universo lógico.


Se o universo requer observadores para "realizar-se" (como na interpretação participativa de Wheeler), e civilizações avançadas simulam realidades indistinguíveis — possivelmente bilhões —, estatisticamente vivemos em simulação, não na base. Mais radical: a consciência co-emerge com o cosmos num bootstrap quântico, onde observadores atualizam a realidade.


Continua...