O QUE ESTÁ EM NOSSO PODER PARA FAZER TAMBÉM ESTÁ EM NOSSO PODER PARA NÃO FAZER.
A viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade. Se ainda não foi colhido, é porque nossa tecnologia não permite a construção de espaçonaves capazes de atingir velocidades próximas à da luz (cerca de 300 mil km/s) e fruir dos efeitos da dilatação do tempo.
A 99,9999999% da velocidade luminal, milhares de anos terrestres equivalem a poucos segundos, o que permite percorrer centenas ou milhares de anos-luz quase instantaneamente (no referencial dos ocupantes da espaçonave). Contudo, se a possibilidade de viajar no tempo para o futuro é apenas questão de tempo (com o perdão do trocadilho), voltar ao passado é bem mais complicado.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Começa amanhã a abjeta campanha política por rádio e televisão (que os contribuintes bancam para que ela seja gratuita para os candidatos), quando então os candidatos começam, na prática, a vender seu peixe ao eleitorado. Donos das maiores vitrines eletrônicas, Lula e Flávio travarão um embate particular. Se os dois levarem ao ar toda a munição estocada nos paióis dos seus comitês, talvez seja necessário tirar as crianças da sala.
O filho do presidiário incluiu o molusco de nove dedos e a corrupção entre suas prioridades televisivas. Cavalgando as vulnerabilidades éticas do adversário, o ex-presidiário e seus operadores se equipam para um revide que vai muito além do caso Dark Horse — alguns petistas chamam a réplica de "desnudamento" do adversário.
A conjuntura sufoca o debate sobre os projetos para o país. A perspectiva de que os candidatos mais bem colocados nas pesquisas ataquem um ao outro no horário eleitoral dá à sucessão ares de uma disputa tétrica. Tão marcante quanto uma guerra. A diferença é que, em vez do derramamento de sangue, vai escorrer merda.
Uma hipotética volta no tempo esbarraria nas leis da natureza e da física, na conjectura de proteção cronológica — que impede as curvas fechadas do tipo tempo de levarem de volta ao ponto de partida — e no princípio de autoconsistência de Novikov — que bloqueia eventos capazes de criar inconsistências no Universo. Em outras palavras, viajar ao passado é possível em tese se não alterar o presente.
Como a simples presença do viajante já seria uma alteração, seria preciso que quaisquer mudanças no rumo dos acontecimentos criassem linhas de tempo alternativas a partir do ponto de mudança, de modo que nada que o viajante fizesse afetasse sua linha temporal original. Isso resolveria o problema dos paradoxos, mas essa teoria ainda não foi provada. Assim, sem múltiplos universos e linhas do tempo alternativas, um loop infinito de causas e efeitos seria como as ondas concêntricas criadas por uma pedra jogada em um lago.
Vale lembrar que a física clássica governa o macrocosmo, e a mecânica quântica, o microcosmo das partículas. Einstein demonstrou que o espaço e tempo estão conectados e que a força gravitacional de objetos supermassivos pode curvar o espaço-tempo, encurtando ou dilatando o tempo e criando loops temporais.
Uma das muitas esquisitices da mecânica quântica é a superposição — possibilidade de uma mesma partícula estar em dois lugares simultaneamente. Assim, se causa e efeito coexistem, o "evento A" pode ser tanto a causa quanto o efeito do "evento B". Como bem ilustra o experimento conhecido como Gato de Schrödinger, a realidade das partículas em nível quântico só "se define" quando é observada.
A expressão "arrow of time" (flecha do tempo, numa tradução direta) foi cunhada pelo astrofísico Arthur Eddington no final da década de 1920, mas a ideia de que o tempo é unidirecional remonta à Segunda Lei da Termodinâmica, proposta no século XIX, que trata da entropia (medida de desordem e
aleatoriedade). No entanto, se a natureza não está obrigada a obedecer aos postulados da teoria que tenta explicá-la, uma seta do tempo que aponta sempre do passado para o futuro não faz o menor sentido.
A despeito da evolução acumulada nos últimos séculos, os cientistas ainda não conseguem explicar satisfatoriamente a natureza do tempo nem sabem se somos prisioneiros do tempo que avança do passado para o presente e do presente para o futuro. Se tudo o que existe está imerso na passagem do tempo como peixes na água, a possibilidade de viajar no tempo rumo ao passado é admissível — mas admitir essa possibilidade significa que toda a ciência que construímos e a tecnologia que desenvolvemos a partir dela estão erradas.
Não sabemos se o tempo é contínuo ou quântico, se é divisível infinitas vezes e se flui invariavelmente do passado para o futuro, mas sabemos que um vaso que cai e se espatifa não volta intacto para cima da mesa, já que a entropia em um sistema fechado só aumenta. E embora possamos ir e voltar nas três dimensões espaciais, na do tempo a regra é a ida sem volta.
Para os físicos da "velha escola", o tempo é como o pano de fundo de um fluxo de eventos que se sucedem numa direção preferencial, ou seja, o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o hoje, ao se tornar o ontem de amanhã, impõe limites ao novo presente. Por outro lado, o cosmos nem sempre se sujeita às leis da física clássica.
Em determinadas situações, voltar no tempo é tecnicamente possível, embora o Universo possa se tornar inconsistente caso as linhas que conectam as causas (no passado) e os efeitos (no futuro) sejam alteradas. Mas e se voltássemos no tempo sem interferir nessas linhas?
O sequenciamento temporal em nível quântico não é exatamente claro ou intuitivo. No último século, os físicos exploraram todos os tipos de comportamentos incomuns no mundo quântico — entrelaçamento, superposição e incerteza, entre outros. Na década de 1990, pesquisadores dispararam fótons descritos como "um pacote de ondas" cujo pico pareceu emergir antes de ter entrado, evidenciando a existência do "tempo negativo".
O resultado desse experimento sugere que a luz pode viajar mais rápido do que ela mesma, o que contraria o senso comum e o princípio da causalidade (não confundir com casualidade). De acordo com alguns cientistas, não se trata de uma violação das leis da física, mas de uma reorganização dos pulsos de luz, e assim nenhuma partícula estaria experimentando tempo negativo nem viajando mais rápido do que a luz. Mistério resolvido? Não exatamente.
Experimentos mais recentes acrescentaram uma nova reviravolta que (ainda) não pode ser explicada: a duração negativa. Atraso e duração parecem ser a mesma coisa — afinal, se o seu voo sofrer um atraso, é a mesma coisa que a duração do tempo que você passa esperando, mas esse não parece ser o caso em escalas atômicas. Em outras palavras, há algo aqui que é indiscutivelmente paradoxal.
A medição negativa da duração adicionou uma nova camada de estranheza, já que o remanejamento de pacotes de ondas que explicou o atraso negativo não explica como um fóton passa menos do que zero tempo no túnel. E esse não é o único exemplo desconcertante de estranheza temporal em escalas muito pequenas. Algumas partículas podem mudar o passado a partir do futuro por meio de um efeito chamado "retrocausalidade".
Continua…



