sábado, 17 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 67ª PARTE

YO NO CREO EM BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY!

Os OOPArts — acrônimo de Out Of Place Artefacts — costumam ser apontados como indícios da existência de viajantes do tempo, e poucos causaram tanto alvoroço quanto uma combinação de anel e relógio encontrada por arqueólogos na China, em 2008, no interior de uma tumba da dinastia Ming que estava selada havia mais de 400 anos. 


No mostrador do artefato que não poderia estar ali, os ponteiros marcavam 10h06 e a caixa exibia a inscrição “Swiss”. A notícia logo se espalhou e dividiu opiniões: para os entusiastas do insólito, tratava-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo. Para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos sérios, publicações acadêmicas e imagens confiáveis — além de uma única foto desfocada que circulou pela internet — sugeriam fraude. O episódio permanece envolto em mistério, servindo como combustível para debates entre curiosos, cientistas e alimentando teorias da conspiração.

 

Pinturas e murais retratando sacerdotes maias com o punho à frente do rosto — como fazemos atualmente quando conferimos notificações em nossos smartwatches — levam água aos moinhos da conspiração — quando mais não seja, porque os primeiros smartwatches só foram lançados em 2015. Mas os céticos atribuem a postura dos sacerdotes a um gesto ritual, e argumentam que o cérebro humano é programado para reconhecer padrões mesmo onde eles não existem.

 

Observação: A tendência de atribuir formas familiares a estímulos ambíguos é conhecida como pareidolia. Quando confrontado com imagens vagas ou simbólicas, nosso cérebro preenche as lacunas com referências do presente, levando-nos a enxergar coelhos, dragões ou castelos nas nuvens, ver astronautas em pinturas rupestres e capacetes espaciais em máscaras cerimoniais. Como dizem os espanhóis, yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay. 

 

Um indivíduo de cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada se destaca da multidão numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), em 1941. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 e outra pessoa que é vista na foto duas filas adiante, segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna, são viajantes do tempo. Para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. A imagem — que faz parte da exposição “Their Past Lives Here” — teve sua autenticidade comprovada por especialistas, e os trajes, nitidamente anacrônicos, foram considerados compatíveis com os anos 1940. E eu sou o coelhinho da Páscoa.

 

Outro caso emblemático: no início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100 — necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o Efeito 2038. O modelo em questão foi lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação do suposto viajante do tempo fazia sentido. Além disso, a Big Blue reconheceu que uma unidade dotada de uma rara interface — que permitiria ao programador acessar todos os códigos da empresa — desapareceu misteriosamente de seus depósitos. 

 

Visando tornar sua narrativa menos inverossímil, Titor detalhou seus deslocamentos temporais e fez revelações sobre o futuro. Segundo ele, o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001, e as máquinas do tempo, criadas para transportar pequenos objetos, seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Chegou mesmo a postar desenhos esquemáticos do projeto e uma foto de sua máquina — que chamou de "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". 

 

A “guerra civil” profetizada para 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial — que, segundo Titor, teria início em 2015 e dividiria EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas nos anos seguintes, e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. Após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, o suposto viajante do tempo desapareceu dos fóruns em março de 2001, deixando uma frase misteriosa ("traga uma lata de gasolina com você quando seu carro morrer na estrada") e miríades de perguntas sem respostas. 

 

Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que Titor era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de "John Titor Foundation", onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida (EUA).

 

Para os teóricos da conspiração, as previsões não falharam, apenas deram a abertura temporal para que Titor conseguisse corrigi-las a tempo de não ocorrerem. Ele próprio avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o "modelo Everett-Wheeler da física quântica" estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo — a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. Vale lembrar que a “Interpretação de muitos mundos” postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um "universo paralelo" — de acordo com o "paradoxo do avô", se voltasse ao passado e matasse o próprio avô, o neto se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal que não a dele (já que não poderia existir na dele). 

 

Talvez tudo isso não passe de uma fraude, mas, se for, quem a criou sabia muito bem do que estava falando. Até hoje ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira, e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Demais disso, cada um pode acreditar no que bem entender, da autoproclamada “absolvição” de Lula à narrativa segundo a qual Bolsonaro é um ex-presidente de mostruário que vem sendo perseguido injustamente por Alexandre de Moraes e seus pares no STF. Felizmente, com exceção de Luiz Fux, os integrantes da Primeira Turma da Corte não se deixaram iludir pelo canto da sereia, como prova a condenação do “mito” dos descerebrados a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes contra o Estado Democrático de Direito. Mas isso é outra conversa.

 

Nada alimenta mais as especulações temporais do que obras faraônicas como as pirâmides de Gizé, erguidas a partir de milhões de blocos de até 80 toneladas, encaixados com precisão milimétrica e alinhados com os pontos cardeais e a Constelação de Orion por um povo que dispunha de simples cinzéis e prosaicos ábacos. Como não poderia deixar de ser, essa implausibilidade deu azo a teorias de ajuda extraterrestre, tecnologias perdidas, ou — por que não? — visitantes do futuro. E o mesmo raciocínio vale para Stonehenge, na Inglaterra, com seus megálitos gigantescos transportados por dezenas de quilômetros e alinhados ao solstício.

 

Em Machu Picchu, no Peru, e em sítios como Sacsayhuamán, blocos de pedra irregulares se encaixam com tamanha precisão que nem uma lâmina de barbear passa entre eles. Explicações existem: trabalho humano intensivo, técnicas engenhosas de escavação, polimento e transporte. Mas não convencem aqueles para quem é mais sedutor acreditar que alguém trouxe uma furadeira quântica do futuro para dar uma mãozinha.

 

A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Basta lembrar de Sherazade e os Contos das 1.001 Noites, com tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz, enfim, prodígios tecnológicos que somente seriam inventados dali a milhares de anos.

 

Segundo a Navalha de Ockham — ou princípio da parcimônia —, sempre que há múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si. Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias — Júlio Verne imaginou submarinos e viagens à Lua séculos antes de elas se tornarem realidade. No entanto, quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como “memória do futuro” fica ainda maior.

 

Todos esses exemplos sugerem que a maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. Talvez a maioria das “provas” não resista a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios trabalharem duro durante décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar pedras”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…