terça-feira, 27 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 69ª PARTE

NÃO HÁ DEFEITO MAIS IRRITANTE QUE O DE CRITICAR DEFEITOS ALHEIOS.

A ânsia de acreditar que já fomos visitados por seres do futuro nos leva a enxergar “provas” em fotos borradas e lendas extravagantes, mas convenhamos: um viajante do tempo que deixa cair um relógio suíço numa tumba chinesa não merece sequer a passagem de volta. Além disso, todo fato tem ao menos três versões: a sua, a minha e a verdadeira. Quando as versões se sobrepõem aos fatos nascem os mitos, os boatos e as teorias da conspiração


Mitos são narrativas ancestrais que buscam explicar a origem do mundo ou transmitir crenças sobre o desconhecido; boatos surgem de informações distorcidas que são espalhadas de boca em boca, por mensagens instantâneas e nas redes sociais. Já as teorias da conspiração se baseiam em interpretações subjetivas de evidências circunstanciais e atribuem eventos políticos ou sociais a esquemas secretos arquitetados por grupos poderosos 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Há líderes políticos cuja obra só será entendida daqui a um século. No caso de Trump — cuja credibilidade como parceiro continua sub-zero —, a história é um dossiê criminal com a documentação de culpas que só poderiam ser perfeitamente entendidas se o relógio da Europa fosse atrasado para a década de 1930. Sob Trump, os Estados Unidos estão do lado errado.

No Brasil, entre várias esquisitices, o caso Master expôs as vísceras do nepotismo processual. Toffoli não se constrange com a revelação dos negócios de dois de seus irmãos com um dos alvos da investigação, nem Moraes se incomoda com a descoberta de que o banco falido pagava R$3,6 milhões mensais à advogada Viviane Barci, sua mulher.

A penúltima tentativa de golpe mostrou que a democracia precisa de um Judiciário forte, mas Fachin defende o STF valendo-se da tática de confundir o joio com o trigo — ou seja, os ministros com a instituição. Na nota divulgada na semana passada, a expressão “Código de Conduta” não aparece uma única vez nas 582 palavras que compõem as três páginas que formam o documento.


As teorias conspiratórias são particularmente sedutoras para aqueles que a cegueira mental impede de enxergar o óbvio. Elas são tão antigas quanto a própria humanidade, mas continuam entre nós, como aponta um estudo que analisou mais de 100 mil cartas enviadas por leitores ao The New York Times e ao Chicago Tribune entre 1890 e 2010. A diferença, segundo Umberto Eco, é que a Internet promoveu os idiotas da aldeia a portadores da verdade. Antes, eles falavam apenas no bar, sem causar maiores danos, e agora têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel.

 

Bastou a Apollo 11 alunissar e Neil Armstrong e Buzz Aldrin darem seus primeiros passos na superfície lunar para que os teóricos da conspiração começassem a acusar a NASA de encenar uma farsa — supostamente filmada na Área 51. Segundo eles, a "tremulação" da bandeira fincada no solo lunar seria impossível sem a presença de vento, mas o movimento observado foi causado pelo manuseio da haste metálica costurada na borda superior da bandeira, projetada justamente para mantê-la estendida em um ambiente sem atmosfera. 

 

A ausência de estrelas se deveu ao fato de as câmeras terem sido configuradas para captar a superfície lunar intensamente iluminada pelo Sol, o que impossibilitou a captura de objetos menos brilhantes no fundo nas fotos, mas também foi alvo de suspeitas. As chamadas "sombras inexplicáveis" resultaram da combinação entre o relevo irregular da Lua e os ângulos das imagens, e os supostos "objetos estranhos" nos visores dos capacetes, do reflexo equipamento que os astronautas carregavam.


As missões Apollo foram acompanhadas por observadores independentes que verificaram as transmissões ao vivo e os sinais de rádio vindos da Lua. Além disso, 382 kg de amostras de rochas lunares foram analisadas por cientistas de todo o mundo, e imagens de alta resolução feitas por sondas e telescópios modernos mostram claramente os locais de pouso, incluindo as marcas dos módulos lunares e equipamentos deixados para trás na superfície do satélite. O físico David Grimes, da Universidade de Oxford (UK), concebeu uma equação levando em conta o número de conspiradores envolvidos (411 mil funcionários da NASA) e o tempo transcorrido desde o evento e concluiu que alguém fatalmente teria dado com a língua nos dentes depois de 3,7 anos.
 

No fim das contas, todas essas narrativas dizem mais sobre nós do que sobre o passado. Revelam nossa dificuldade em aceitar que povos antigos podiam ser inteligentes sem precisar de ajuda externa, e nossa vontade de acreditar que o futuro já esteve aqui, dando pistas em baixo-relevo, fotos borradas e lendas fantásticas. 


Convenhamos: se um viajante do tempo realmente tivesse deixado cair um relógio suíço dentro de uma tumba chinesa, talvez não merecesse nem a passagem de volta.


Continua...