HÁ DIAS BONS, DIAS RUINS, DIAS PÉSSIMOS E DIAS TOFFOLI.
A canção Pra não dizer que não falei das flores, defendida por Geraldo Vandré no Festival Internacional da Canção de 1968, tornou-se o hino definitivo contra a ditadura. O verso mais célebre do estribilho — "quem sabe faz a hora, não espera acontecer" — parece ter sido escrito sob medida para Dias Toffoli — que, ironicamente, vem se consolidando como um retardatário contumaz.
A ascensão de Toffoli à suprema corte em 2009 foi uma recompensa pelos serviços prestados como advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, consultor da CUT e assessor do PT e de José Dirceu, além de advogado das campanhas presidenciais de Lula (1998, 2002 e 2006) e subchefe jurídico da Casa Civil, a despeito das duas reprovações em concursos para juiz que engrandeciam seu currículo.
Sem a rede protetora original, o recém-chegado buscou abrigo em Gilmar Mendes — a verdadeira herança maldita de FHC, que é quem melhor encarna o coronelismo institucional no STF — e passou a emular a arrogância e a falta de limites do novo padrinho. E mesmo tendo respondido diretamente a Dirceu em 2005, não se deu por impedido de julgar e absolver o ex-chefe no escândalo do Mensalão.
Em 2015, o "Maquiavel de Marília" migrou para a Segunda Turma, que havia ficado responsável pelos processos da Lava-Jato no STF. Foi dele a tese de que casos sem conexão direta com a Petrobras deveriam sair das mãos de Sergio Moro — beneficiando, por tabela, Gleisi Hoffmann — e o pedido de vista que travou a limitação do foro privilegiado quando já se havia formado maioria a favor.
A Lava-Jato chegou a rondá-lo quando Léo Pinheiro declarou que a OAS fez reformas em sua mansão, mas o vazamento da informação levou o então procurador-geral Rodrigo Janot a anular o acordo de delação do empreiteiro. Afora isso, descobriu-se que um consórcio suspeito repassara R$ 300 mil ao escritório de Roberta Rangel, ex-esposa de Toffoli, de quem ele fora sócio e recebia uma mesada de 100 mil reais
Os indícios no "Caso Master" colocaram sua relatoria sob suspeita. Embora o ministro Fachin tenha evitado um incidente de suspeição formal para poupar o Tribunal, a permanência de Toffoli como relator tornou-se insustentável. Para minimizar o desgaste institucional do Tribunal, os demais ministros declararam que não havia motivo para suspeição e endossaram a "plena validade" de todos os atos praticados pelo colega. No entanto, apesar da nota oficial de apoio, sua permanência na relatoria era vista como "insustentável" pela maioria dos togados e por setores do governo Lula. Após novo sorteio, o ministro André Mendonça passou a relatar o caso.
Sem resolver sua crise ética, Toffoli parece ter cultivado uma "admiração psicótica" pelo problema: declarou-se suspeito por razões de foro íntimo, mas recusou-se teimosamente a largar o osso, mesmo após a revelação de que havia viajado em jato particular com um advogado do Master para ver a final da Libertadores, e de que o banco havia pago R$ 35 milhões por uma fatia do resort da família do ministro. Na última sexta-feira, 13, a Primeira Turma manteve Vorcaro na "Papudinha". Toffoli não votou, mas melhor faria se trocasse a suprema toga pela suprema sunga e fosse desfrutar das delícias do Tayayá Aqua Resort.
Falando na Papudinha, seu hóspede mais ilustre foi transferido para a UTI do DF Star na madrugada da última sexta-feira, devido a uma broncopneumonia. O filho Flávio alegou que "estão brincando com a saúde de seu pai ao mantê-lo preso em regime fechado", mas os registros da Dra. Ana Cristina Neves, que estava de plantão na ocasião, demonstram o contrário. Antes da crise, o detento estava "lúcido e eupneico" (termo para respiração normal), caminhou 5 km e preferiu ver futebol a tomar remédio para soluço.
Durante a madrugada, quando o quadro se agravou, a equipe agiu rápido.
No sábado, o filho do pai tranquilizou os fiéis, mas esqueceu de mencionar — ou lembrou de esquecer — que o atendimento que foi dispensado a seu pai é uma utopia para os demais 755 mil detentos do sistema carcerário brasileiro — um estudo do CNJ aponta que 112 mil presos morreram no cárcere entre 2017 e 2022; 62% deles vítimas de doenças tratáveis, como pneumonia e tuberculose.
Salta aos olhos que a intenção do presidiário e de seus familiares e apoiadores é obter a ansiada prisão domiciliar. Segundo o primogênito e pré-candidato (que Deus nos livre e guarde de mais essa desgraça), a defesa do pai deve apresentar uma nova solicitação escorada no agravamento recente do quadro de saúde e na necessidade de acompanhamento contínuo.
Ainda segundo o filho, o pai permanece debilitado, com aparência abatida, voz enfraquecida e persistência de soluços — sintomas que já haviam sido registrados anteriormente. De acordo com o DF Star, o paciente está clinicamente estável, mas não há previsão de alta da UTI.
