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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

DE VOLTA À VELOCIDADE DA LUZ

AFIRMAÇÕES EXTRAORDINÁRIAS REQUEREM EVIDÊNCIAS EXTRAORDINÁRIAS. 

Em 1676, o astrônomo Ole Rømer observou um atraso de 22 minutos nos eclipses das luas de Júpiter e estimou a velocidade da luz em 225.000.000 m/s. O valor exato (299.792.458 m/s) só foi determinado em 1926, mas, por uma inexplicável coincidência, a latitude da grande pirâmide de Gizé, erguida entre 2600 e 2500 a.C., é 299.792°N — lembrando que nas coordenadas geográficas a diferença resultante de qualquer sequência numérica à direita da quarta é desprezível, sobretudo quando se trata de um monumento cuja base tem 60.000m2.


Os egípcios da Quarta Dinastia tinham conhecimentos avançados de matemática e geometria, dominavam a escrita, dispunham de um sistema decimal e de um calendário baseado na estrela Sirius, mas dificilmente teriam descoberto a velocidade da luz quase 5 mil anos antes de Rømer. E ainda que assim não fosse, eles a teriam registrado em côvados por segundo, já que o sistema métrico só seria criado em 1791.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


No topo da hierarquia do sistema de poder no Brasil encontram-se grandes grupos econômicos ligados ao sistema financeiro e organizações criminosas que, em diferentes níveis, exercem influência sobre a economia formal e o ambiente político. Nesse contexto, a alta cúpula do Judiciário desempenha um papel determinante ao garantir estabilidade jurídica e previsibilidade, enquanto o Legislativo produz normas que, na prática, preservam interesses específicos e limitam rupturas estruturais. 

Protegido por mecanismos legais e corporativos, o corpo burocrático do Estado atua prioritariamente para preservar privilégios próprios, incluindo remunerações e benefícios que ultrapassam o teto estabelecido pela Constituição.

Essa burocracia se torna resistente a reformas, reforçando a rigidez do sistema, elevando custos para a sociedade, reduzindo a eficiência da máquina pública e reforçando divisões ideológicas e sociais, em detrimento da formação crítica e do compromisso com a realidade. 

Políticas recorrentes de expansão de gastos públicos ampliam a pressão inflacionária e criam o ambiente propício para a elevação da taxa básica de juros, encarecendo o crédito, engessando a atividade produtiva e favorecendo a transferência de renda para o sistema financeiro, principal beneficiário de ciclos prolongados de juros elevados.

Lula se jacta de ser o santo padroeiro dos miseráveis, mas os maiores patamares de juros reais registrados nesta banânia desde o Plano Real ocorreram justamente nos governos do PT.


A física clássica se aplica ao mundo macro, onde tudo — de maçãs hipotéticas caindo sob a ação da gravidade a gigantes gasosos no espaço — funciona em três dimensões. Ou funcionava, já que Einstein acrescentou uma quarta dimensão (o tempo), criou o conceito de espaço-tempo e definiu a velocidade da luz — ou simplesmente "c", que é de 299.792.458 m/s no vácuo — como limite universal. De acordo com suas equações, nada pode viajar mas rápido que a luz, exceto o próprio Universo, que se expande a uma velocidade superluminal.

Ainda que corresponda a impressionantes 1,08 bilhão de quilômetros por hora, "c" perde impacto diante das distâncias cósmicas, ja que o diâmetro do Universo observável é de 93 bilhões de anos-luz (um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano, e equivale a cerca de 9.46 trilhões de quilômetros). Se imaginarmos o Universo como uma bolha, o raio dessa bolha aumenta um ano-luz por ano. Quanto mais distante estiver o ponto de origem da luz que observamos, mais antiga será a estrela que a emitiu, daí as estrelas mais distantes aparentarem ser mais antigas que o próprio Universo.


A luz leva 8 minuto e 13 segundos para vir do Sol à Terra, cerca de 1 segundo para ir da Terra à Lua e aproximadamente 100 mil anos para cruzar a Via Láctea. Como esse limite não se aplica à física quântica e de partículas, as correlações entre partículas entrelaçadas surgem de forma instantânea.


Outra curiosidade que envolve a luz é o fato de os fótons (partículas de luz) se comportarem tanto como onda eletromagnética quanto como partícula sem massa. Isso explica por que o valor de "c" é o mesmo para qualquer observador parado ou em movimento, embora o tempo passe mais devagar para quem se move do que para quem está parado.


Até onde a física atual alcança, superar "c" funciona como o regulador máximo do universo, determinando desde reações químicas até a evolução das estrelas e galáxias. Superar essa velocidade afrontaria a causalidade e geraria paradoxos temporais, na medida em que ela redefine o próprio tecido da realidade.


Relógios dos satélites que orbitam a Terra sofrem dilatação relativística — ínfima, é verdade — por causa da velocidade e ganham tempo porque o campo gravitacional é mais fraco numa altitude que varia de 160 km a 36.000 km  — o saldo é corrigido via GPS. Processos físicos desaceleram e o envelhecimento ocorre mais lentamente, não por ilusão ou defeito de medição, mas porque o tempo de fato passa mais devagar para quem está em movimento extremo.


A dilatação do tempo foi confirmada experimentalmente com relógios atômicos e partículas instáveis em aceleradores. À medida que um corpo se aproxima de "c", os efeitos relativísticos passam a dominar o comportamento do espaço, do tempo e da matéria. Na direção do movimento, distâncias encurtam-se para o viajante relativístico — uma viagem que parece levar anos-luz para quem observa da Terra pode durar dias, horas, ou mesmo segundos para quem está a bordo, pois o espaço à frente se comprime conforme a velocidade aumenta.


Segundo a Relatividade Especial, energia e massa são intercambiáveis, mas, à medida que a velocidade cresce, a energia cinética faz com que a massa relativística aumente. Ao se aproximar da velocidade da luz, essa massa tende ao infinito, exigindo uma quantidade igualmente infinita de energia para continuar acelerando. É por isso que partículas com massa jamais alcançam a velocidade da luz — não por falta de engenharia, mas por proibição física.


Não há tempo absoluto, apenas tempos locais, moldados pelo movimento, e a velocidade da luz funciona como o compasso que sincroniza — ou dessincroniza — todos os relógios do Universo.O paradoxo aparente é que, enquanto o viajante envelhece mais lentamente, o observador externo vê sua própria linha temporal seguir normalmente. Ambos estão corretos dentro de seus referenciais.


Tecnicamente, viajar próximo à velocidade da luz não equivale a “voltar no tempo”, mas a avançar mais devagar no próprio futuro — um truque elegante, porém inútil para quem pretende chegar ao churrasco antes que a carne esfrie. Já ir mais além e atingir velocidades superluminais pode, pelo menos em teoria, inverter a direção da seta do tempo, fazendo com que os ponteiros do relógio passem a “andar para trás”. Mas isso é conversa para uma outra vez.


Continua...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 73ª PARTE

THE PAST IS ANOTHER COUNTRY; ALL ROADS LEAD TO TOMORROW.


Falar de maneira coerente sobre o que significa a existência do espaço-tempo sem reintroduzir o tempo por uma porta conceitual que a física não reconhece é o mesmo que tentar descrever uma música que existe de uma só vez — sem jamais ser tocada, ouvida ou desdobrada no tempo — ou questionar o que existe ao norte do Polo Norte.

 

Essa confusão molda a forma como imaginamos o tempo na ficção e na ciência popular. Na franquia O Exterminador do Futuro, todos os eventos são tratados como fixos — a viagem no tempo é possível, mas a linha do tempo não pode ser alterada, e tudo já existe em um estado fixo e atemporal. 


Já em Vingadores: Ultimato, os personagens alterem eventos passados e remodelem a linha do tempo, sugerindo um “Universo em bloco” que existe e muda. Mas essa mudança só pode ocorrer se uma linha do tempo quadridimensional existir da mesma forma que nosso mundo tridimensional existe. 


Independentemente de tal mudança ser ou não possível, ambos os cenários assumem que o passado e o futuro estão lá e prontos para serem visitados, mas nenhum deles aborda que tipo de existência isso implica, ou como o espaço-tempo difere de um mapa de eventos.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Todas as pesquisas de institutos relevantes indicam que Lula tem vaga assegurada no segundo turno. Evoluindo no vácuo produzido pela pulverização da direita, Flávio Bolsonaro consolidou-se como candidato mais bem-posto para obter a segunda vaga — segundo a Quaest, ele atraiu 77% dos votos do eleitorado bolsonarista.

O PSD esboçou a pretensão de oferecer ao eleitorado um anti-Lula sem toxinas antidemocráticas, mas bastou as pesquisas apontarem que os eleitores "independentes" e de "direita não bolsonarista" somam 53% da população para Gilberto Kassab sinalizar que o partido escolherá um presidenciável entre Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.

Num prenúncio do que está por vir, o camundongo que governa o Paraná se declarou favorável à concessão de um indulto para Bolsonaro. Sob o pretexto de "pacificar o Brasil", o chefe do executivo goiano espancou a tese da despolarização, sinalizando a intenção de costurar uma aliança com o primogênito do presidiário já no primeiro turno.

Entre os autoproclamados “independentes”, que representam ⅓ do eleitorado, Lula amealha 25% das intenções de voto,. Flávio soma 16% e Tarcísio de Freitas, 15%, mas o governador paulista abdicou do sonho presidencial após visitar seu amo e senhor na Resumo da ópera: antes de medir forças com Lula num hipotético segundo turno, o candidato a ser escolhido pelo PSD terá que prevalecer sobre o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias no primeiro escrutínio. Ratinho Júnior e Caiado, que carregam na mochila a participação em atos pró-anistia estrelados por Bolsonaro, agora se oferecem como alternativas democráticas sem se dar conta de que o óbvio é o óbvio. Eduardo Leite, o terceiro nome da seleção de Kassab, manifestou-se contra a anistia e coleciona declarações críticas tanto ao petismo quanto ao bolsonarismo. Seria, em tese, um candidato mais leve para a centro-direita, mas sempre carregou a lanterninha nas pesquisas em que seu nome foi testado e acabou sendo excluído das sondagens eleitorais.

Resta a percepção de que, diferentemente dos pré-candidatos do PSD, a maioria dos brasileiros parece cultivar a sensação de que a coisa mais importante não é de onde o país vem, mas para onde ele vai. Na sondagem da Quaest, o índice dos que têm medo da volta da famiglia Bolsonaro ao poder (46%) é maior do que o dos que temem a permanência de Lula no Planalto (40%). Nesse cenário, não basta reivindicar o volante; é preciso expor um itinerário que faça nexo.

 

Quando dizem que o espaço-tempo “existe”, os físicos se referem a uma estrutura obscura onde uma linha tênue separa existência de ocorrência. Um modelo metafísico que, na melhor das hipóteses, carece de precisão conceitual, e, na pior, obscurece a própria natureza da realidade. As equações de Einstein continuam valendo; o que muda é a forma como as interpretamos, especialmente quando tentamos reconciliar a relatividade geral com a mecânica quântica — um desafio explorado tanto na filosofia quanto em discussões de ciência popular. 

 

Definir o espaço-tempo é mais do que um debate técnico, pois envolve o tipo de mundo em que acreditamos viver. Um estudo recente trouxe novas perspectivas e possíveis respostas para esse dilema básico: combinando três grandes áreas da física — relatividade geral, mecânica quântica e termodinâmica — o pesquisador Lorenzo Gavassino, do Departamento de Matemática da Universidade de Vanderbilt, em Nashville, concluiu que a viagem no tempo poderia, ao menos teoricamente, acontecer sem criar paradoxos.

 

Para entender as viagens no tempo, primeiro é preciso entender como a ciência compreende essa grandeza física. No dia a dia, pensamos no tempo como algo que avança linearmente, do passado para o futuro, como um rio que corre em uma única direção. Essa ideia vem das formulações físicas de Newton, que Einstein questionou ao demonstrar que espaço e tempo estão conectados, formando o que chamamos de “espaço-tempo”. 


A possibilidade de o tempo ser “dobrado” da mesma forma que o espaço pode se curvar (como vemos em variações da gravidade) dá azo à existência de curvas no espaço-tempo que voltam ao ponto inicial, como um círculo. Assim, se alguém viajasse por uma dessas curvas, poderia, em tese, retornar ao passado.

 

Na relatividade geral, a gravidade não é gerada apenas a massa, como se pensava na física newtoniana. O fator determinante é o conteúdo completo de energia e momento de um sistema, descrito pelo chamado tensor energia-momento. Um exemplo famoso é o frame-dragging (efeito de arraste de referencial) previsto por soluções da relatividade como a métrica de Kerr, que descreve buracos negros rotativos. Nesse caso, o momento angular — ou seja, o giro — curva o espaço-tempo, fazendo com que ele “gire” junto com a massa e arraste o espaço-tempo com ela. 


O efeito pode ser insignificante em planetas e estrelas, mas, em um Universo onde toda a matéria gira, o espaço-tempo se tornaria tão distorcido que o tempo efetivamente se curvaria sobre si mesmo, formando um loop. E uma astronave que viajasse por esse loop poderia retornar ao ponto de partida, não apenas no espaço, mas também no tempo. Embora nada sugira que o Universo como um todo gire dessa forma, Gavassino sustenta que buracos negros supermassivos girando rapidamente “arrastam” o espaço-tempo a seu redor, criando curvas fechadas do tipo tempo que, em tese, poderiam levar ao passado. 


A questão é que viajar ao passado ensejaria paradoxos como o do avô — no qual alguém que voltasse no tempo e matasse seu avô antes que ele casasse e procriasse inviabilizaria sua própria existência —, bem como problemas relacionados às leis da física, especialmente à entropia — grandeza termodinâmica associada à irreversibilidade do grau de desordem em sistema físico, à luz da qual a seta do tempo aponta sempre para o futuro. Mas se o tempo se dobra sobre si mesmo, será que a entropia continua aumentando ou poderia, de alguma forma, diminuir?

 

Gavassino demonstrou que a entropia nos loops temporais poderia diminuir sem violar as leis da física quântica. Assim, uma pessoa poderia rejuvenescer, esquecer ou até reviver experiências, já que todas estão ligadas ao aumento da entropia. Segundo   princípio de autoconsistência, a reversão da entropia evitaria paradoxos, pois o próprio tecido do espaço-tempo "corrigiria" inconsistências temporais, garantindo que a realidade permaneça logicamente coesa.

 

De acordo com a maioria dos físicos e filósofos, se a viagem no tempo fosse possível, a natureza sempre encontraria uma maneira de evitar situações contraditórias. Em 1992, Stephen Hawking propôs a “conjectura de proteção cronológica”, segundo a qual as próprias leis da física impedem a formação de loops temporaisGavassino aplicou a estrutura padrão da mecânica quântica sem postulados adicionais ou suposições controversas e demonstrou que a autoconsistência da história decorre naturalmente das leis quânticas, mas suas conclusões ainda carecem de revisão pelo pares. 


Mesmo que a viagem no tempo (ainda) não seja possível, entender como a entropia e outros fenômenos funcionam em condições extremas ajuda a elucidar mistérios sobre o comportamento do universo em escalas subatômicas e força uma reflexão sobre conceitos básicos, mesmo porque a possibilidade de viajar no tempo pode produzir mudanças consideráveis na nossa compreensão das leis do universo.

 

Continua... 

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 68ª PARTE

A CIÊNCIA PODE EXPLICAR O UNIVERSO, MAS NÃO CONSEGUE EXPLICAR O TEMPO.

Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado, enfiava os filhos de volta no útero de Gaia — até que ela escondeu Cronos e, quando ele cresceu, pediu-lhe que castrasse o pai.

Cronos atendeu ao pedido da mãe e assumiu o poder — mas, a exemplo de Urano, passou a devorar a própria cria, levando Rehia a esconder Zeus e lhe pedir para obrigar o pai a regurgitar os irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou o pai numa guerra que durou dez anos, conquistou a imortalidade e se tornou o deus dos deuses.

Não sabemos se Urano e Cronos realmente existiram, nem se Saturno — o deus do tempo na mitologia romana — ceifou os dias com sua foice. A ciência sequer sabe se o tempo existe ou se é apenas uma convenção criada por nossos ancestrais para dar sentido a eventos como o amanhecer e o entardecer, as fases da lua e as estações do ano.

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Incomodado com as ranhuras que o escândalo do Banco Master escava na imagem do Supremo, o atual presidente da Corte, Édson Fachin, enxergou na ventania produzida por decisões esdrúxulas adotadas pelo colega Dias Toffoli a oportunidade de içar as velas da ética, e retornou a Brasília duas semanas antes do encerramento do recesso do Judiciário.

Toffoli ignora a suspeição que o assedia desde que pegou carona em jatinho ao lado do advogado de um dos investigados, dá de ombros para a sociedade de seus irmãos com um fundo de investimento do Master e virou um estorvo para a Polícia Federal.

A consciência é mais ou menos como a vesícula: só preocupa quando dói. E não há toga sem vesícula. 

O Brasil logo saberá quantos ministros do STF ainda dispõem de consciência para aceitar a submissão a um código de conduta.


Sabe-se que Rudolf Clausius definiu a entropia como medida da desordem, que Ludwig Boltzmann associou o conceito à probabilidade estatística de estados microscópicos de um sistema, que Josiah Willard Gibbs consolidou a base matemática da Termodinâmica, e que todos concordam que a entropia sempre aumenta. 

Um vaso sobre a mesa tem baixa entropia até cair e se espatifar no chão. Como os cacos não se reagrupam sozinhos, sua entropia não diminui. A partir dessa irreversibilidade, Arthur Eddington criou o conceito de seta do tempo e estabeleceu que ela é unilateral — aponta sempre do passado para o futuro. Reverter esse fluxo exigiria reduzir localmente a entropia, mas essa já é outra conversa.

Entre mito e matemática, uma certeza: o tempo não é apenas uma linha reta. É também um ciclo, uma arma, uma prisão e, por vezes, uma porta. Cronos encarna o tempo em sua forma mais cruel — aquele que consome, envelhece e destrói. Saturno carrega a foice não apenas como símbolo da colheita, mas como instrumento do corte inevitável entre o agora e o depois. Nenhum deles perdoa distrações: quem os ignora é engolido.

A imagem de Cronos devorando a prole é uma das metáforas mais viscerais da mitologia — o tempo não apenas mede, mas consome tudo o que cria. Inverter o sentido da seta do tempo parece impossível, mas nem todo tempo é linear. Aion, figura menos conhecida da mitologia grega, representa o tempo eterno e cíclico — aquele que retorna, gira e se renova. 

Ouroboros — serpente que engole a própria cauda — sugere que o tempo não é uma reta com fim, mas um círculo sem começo. Talvez seja nesses ciclos que se escondam os viajantes do tempo, entre retornos e desvios, entre o que já foi e o que ainda será.

Como ciclo, o tempo sugere renovação, a possibilidade de que algo se repita ou se reconecte. Como linha, denota a experiência vivida, na qual cada momento que passa é irrecuperável. A foice de Saturno corta não só o trigo maduro como também a continuidade, criando um antes e um depois que jamais se encontram.

Ficamos presos não apenas na sequência inevitável dos momentos, mas também na consciência dessa passagem — na ansiedade do futuro e no peso do passado. No entanto, mesmo que o tempo não negocie nem faça exceções, há momentos de transcendência onde ele se transforma de algoz em aliado, de prisão em porta de saída. 

Outras culturas lidaram com o tempo de formas distintas. Os egípcios o viam como parte de Ma'at, a ordem cósmica, e confiaram a Thoth — deus da Lua, do conhecimento e da sabedoria — a missão de registrar os ciclos lunares e os eventos eternos. Já os nórdicos, mais afeitos ao fim do mundo do que à eternidade, não tinham um deus do tempo, mas deram ao tempo um destino: o Ragnarök, o colapso final seguido do reinício inevitável. Curiosamente, nenhuma dessas mitologias fala em viagens no tempo como as concebemos hoje, mas todas tratam o tempo como algo maleável, perigoso, sagrado.

Se Cronos devorava os próprios filhos, talvez devore também quem ficar em seu caminho. Se Saturno ceifava o trigo, talvez ceife também quem tentar enganá-lo. E os giros de Aion talvez permitam que alguns escapem por entre os ciclos, como quem escapa por uma fenda na eternidade. Mas fica no ar a pergunta: se o tempo não é linear como nos relógios, mas um labirinto como sugerem os mitos, quem é seu Minotauro? E quem são os intrépidos viajantes que ousam enfrentá-lo?

Talvez o Minotauro seja a própria consciência da mortalidade, e os viajantes sejam todos nós, navegando entre memória e expectativa, presos no presente mas sempre tentando transcendê-lo. Ou talvez a resposta is blowing in the wind, escondida entre deuses e paradoxos. 

Continua...

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 65ª PARTE

QUEM QUER COLHER ROSAS DEVE SE PREPARAR PARA OS ESPINHOS. 

 

Vimos que o tempo não flui da mesma maneira para todos e que a possibilidade de não haver uma direção preferencial no mundo microscópico é real, embora nossa experiência cotidiana seja unidirecional. 


Ovos se quebram, mas não se reconstituem espontaneamente. Ainda que o conceito de tempo negativo seja uma realidade matemática e experimental no mundo quântico, há quem o veja como "desquebrar um ovo" — inverter a seta do tempo é fundamental quando se pretende saborear uma omelete de ovos de brontossauro com Fred Flintstone na pré-histórica Bedrock.


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O recente episódio envolvendo suposta interferência do ministro Alexandre de Moraes no caso do Banco Master, com direito a relatos de pressão sobre autoridades monetárias — incluindo o presidente do BC — e contrato com escritório de Advocacia ligado à esposa do magistrado, não pode ser tratado como mero ruído conjuntural do debate político-institucional nacional, sob pena de normalizarmos práticas que corroem silenciosamente o Estado Democrático de Direito.

Numa Democracia constitucional madura, o Direito não é instrumento de poder. Sua função primordial é limitar vontades, disciplinar competências e impedir que a autoridade pública, ainda que revestida das melhores intenções, ultrapasse os limites que a Constituição Federal impõe a todos nós.

Quando pressões institucionais ou atos judiciais passam a ser percebidos como extensões da vontade individual de um magistrado, o problema deixa de ser pessoal e passa a ser sistêmico. É neste contexto que se torna inadiável discutirmos a reforma do STF, mesmo porque o modelo atual dá poderes excessivos aos ministros relatores, sobretudo no controle da agenda e na prolação de decisões monocráticas com efeitos políticos, econômicos e sociais profundos. Soma-se a esta dinâmica o domínio estratégico da pauta de julgamentos, capaz de acelerar temas sensíveis ou, inversamente, mantê-los, indefinidamente, fora do debate do colegiado.

Uma Corte Constitucional não pode funcionar como a soma de vontades particulares dotadas de superpoderes. Sua legitimidade repousa na colegialidade real, no equilíbrio interno e na previsibilidade institucional. Quando um único ator passa a concentrar poder de pauta, de decisão e de projeção política, a balança dos Poderes da República se desequilibra — deflagrando, exatamente, o oposto que se espera do papel da Corte.

Há, ainda, um outro ponto sensível frequentemente ignorado: o STF não se submete aos controles administrativos do CNJ, o que torna indispensável a criação de um Código de Ética e de Disciplina, como bem sugerido pelo atual presidente da Corte, ministro Edson Fachin. 

Não se trata de fragilizar a independência judicial do País. Mas é indiscutível a necessidade de se implementar a lógica republicana do “controle dos controladores”. Na esteira popular, fica a pergunta: quem vigia o vigia?

Sem limites claros, transparentes e institucionalizados, o Judiciário brasileiro vai perdendo em escala vertiginosa seu principal ativo: o capital reputacional. E, sem confiança social, não há autoridade legítima - apenas decisões formalmente validadas, mas crescentemente contestadas e desacreditadas pela sociedade, pela Imprensa, nas ruas e nas redes.

Se deseja exercer seus amplos poderes com legitimidade plena, o STF precisa aceitar que também deve ser objeto de controle. Não se trata de uma ameaça à Democracia, mas, sim, uma condição para preservá-la.

 

Mais de 5.000 anos separam a invenção da roda da descoberta da eletricidade como a conhecemos, mas bastaram 500 anos para a viagem que Cabral fez por mar em 44 dias ser feita por ar em menos de três horas (pelo Concorde, que foi aposentado em 2003 por questões de segurança). 


Apesar de ter evoluído mais, nos últimos 150 anos, do que da descoberta do fogo até a revolução industrial, nossa tecnologia ainda não permitiu a construção de naves capazes de alcançar velocidades próximas à da luz, de modo que o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade continua inalcançável. Mas Albert Einstein não disse que o impossível é apenas uma questão de tempo; Carl Sagan, que a ausência de evidências não é evidência de ausência, e Arthur C. Clarke, que desafiar limites é a única maneira de superá-los?

 

Como também já foi mencionado, a ciência sabe muito, mas não sabe tudo. A teoria do Big Bang sustenta que o Universo surgiu há cerca de 13,8 bilhões de anos, a partir da expansão súbita e violenta de um ponto sem volume (singularidade), extremamente quente e denso, mas não esclarece o que existia anteriormente (a propósito, Stephen Hawking disse que especular sobre o que havia antes do Big Bang é como querer saber o que existe ao norte do Polo Norte).

 

Segundo as religiões abraâmicas, o mundo — e tudo que nele existe — foi criado em seis dias. No livro The Annals of the World, o arcebispo irlandês James Ussher anotou que o Criador iniciou os trabalhos às 9h00 do dia 23 de outubro de 4004 a.C. Já a ciência estima que a Terra tem 4,5 bilhões de anos, que os primatas surgiram entre 64 e 65 milhões de anos atrás, os primeiros hominídeos, há cerca de 20 milhões de anos e o Homo sapiens, há coisa de 300 mil anos.

 

Segundo a Bíblia, Moisés escreveu o Gênesis e os demais livros do Pentateuco enquanto guiava o povo hebreu rumo à terra que Jeová prometera a Abraão e seus descendentes. Embora dominasse os segredos das águas (seu cajado não só abriu o Mar Vermelho como tirou água de uma pedra), ele só chegou a Canaã após passar 40 anos caminhando pelo deserto do Sinai. A alturas tantas, em vez de falar com uma rocha para que brotasse água — como Deus o havia instruído a fazer —, Moisés bateu na rocha com seu cajado e atribuiu a si mesmo o milagre (Números 20 e Deuteronômio 32). Como castigo, o Deus rancoroso e vingativo do A.T. proibiu-o de entrar na "terra prometida", e ele morreu no monte Nebo, aos 120 anos.

 

Ainda não se sabe se o tempo realmente existe ou se é apenas uma convenção criada por nossos ancestrais para explicar padrões no ciclo do dia e da noite, nas fases da Lua e nas mudanças das estações. No livro Tempo: O sonho de matar Chronos, o físico italiano Guido Tonelli — um dos pais da descoberta do bóson de Higgs — explica como nos relacionamos com o tempo ao longo dos milênios e afirma que não se trata de um conceito abstrato, mas de uma substância material que ocupa todo o universo e se deforma, vibra, oscila. Para oferecer respostas a perguntas como "o tempo flui?", "como a gravidade o retarda?" e "como os buracos negros podem pará-lo?", ele usa não apenas a física, a astronomia e a matemática, mas também a literatura e a mitologia, numa viagem por mundos dominados por efeitos relativistas, onde há um futuro que chega antes do passado.

 

Observação: Julian Barbour — professor de física na Universidade de Oxford (UK) — propõe "um universo sem passado ou futuro, onde o tempo é uma ilusão e todos são imortais". Segundo ele, o tempo não flui; existem apenas diferentes configurações do universo (que ele chama de "agoras"). O físico italiano Carlo Rovelli — um dos fundadores da chamada gravidade quântica em loop — sustenta que o tempo é uma ilusão que emerge das interações quânticas fundamentais. O matemático britânico J.M.E. McTaggart usou um baralho e o pensamento lógico para provar que o tempo não passa de uma ilusão, e que nossa percepção de passado e futuro é apenas uma questão de perspectiva. Mas isso é outra conversa e fica para uma outra vez.

 

Controvérsias à parte, tudo leva a crer que os anos bíblicos fossem bem mais curtos do que os atuais. Matusalém morreu aos 969 anos, e Noé construiu sua famosa arca aos 600. Talvez a proximidade ou o contato direto com o Senhor das Esferas explique tamanha longevidade, mas é preciso ter em mente que a Bíblia é uma coletânea de lendas e tradições culturais transmitidas oralmente por várias gerações, e que a história narrada no Livro do Êxodo é apenas uma delas.

 

Tomando por verdadeira a narrativa bíblica, a saga de Moisés ocorreu entre 1500 e 1200 a.C. Naquela época, doenças, ferimentos e condições adversas — como a escassez de água — limitavam a expectativa de vida a algo entre 30 e 40 anos. Assim, seria virtualmente impossível que centenas de milhares de pessoas (como sugere a Bíblia) sobrevivessem a 40 anos de caminhada pelo deserto, e altamente improvável que seu líder vivesse 120 anos.

 

A expectativa de vida era de 25 a 35 anos no Antigo Egito, na Grécia Clássica e na Roma Antiga, de 30 a 40 na Europa Medieval (podendo ser menor em períodos de fome ou peste), de 35 a 45 no final do século XVIII, e de 40 a 50 no início do século XX. Graças aos avanços da medicina, as pessoas passaram a viver mais — entre 65 e 70 anos na década de 1950 e entre 75 e 80 na virada do século. Em 2025, aos 116 anos, brasileira Inah Canabarro Lucas foi reconhecida como a pessoa mais velha do mundo. Aliás, a expectativa de vida no Brasil saltou de 48 anos em 1960 para 76 em 2023.

 

E pensar que, mesmo depois de milênios de evolução, ainda há quem leve a Bíblia ao pé da letra. Se o tempo é mesmo uma ilusão, talvez Matusalém apenas viveu fora do fuso. Já Moisés... bem, esse merece um capítulo especial. Fato é que a ciência avança, a tecnologia evolui, a ainda assim tropeçamos em velhas crenças com novas roupas. Enfim, entre versões, visões e revisões, seguimos tentando decifrar o tempo — mesmo que ele não exista. 

 

Continua...