O SOL QUE DESPONTA TEM QUE ANOITECER.
Tecnicamente, o Carnaval termina hoje, mas, dependendo da cidade onde se está e de com quem se fala, a folia começou bem antes da última sexta-feira e — como algumas ressacas-mãe — vai até daqui a alguns dias.
Coisas do Brasil, onde o ano só começa de fato após o Rei Momo — personagem da mitologia grega que originalmente representava a ironia e o sarcasmo, mas que foi adaptado pelos foliões e transformado num dos principais símbolos do Carnaval — devolver a coroa e o cetro para o presidente de plantão.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Nada de autocontenção ou de autocorreção. Para blindar Toffoli, o Supremo fez opção preferencial pela autocombustão. Os ministros rodaram as togas contra a PF e atribuíram a Toffoli (quem mais?) a perfídia do vazamento das conversas mantidas a portas fechadas.
Juiz lendário da Suprema Corte dos Estados Unidos, Louis Brandeis ensinou que a luz do Sol é o melhor detergente. E alguma coisa está muito errada quando ministros supremos se aborrecem mais com a claridade do que com o escuro.
Nunes Marques desqualificou o relatório em que a PF expôs as relações promíscuas entre Toffoli e Vorcaro. Gilmar afirmou que a corporação "quis revidar", pois ficou abespinhada com decisões tomadas por Toffoli como relator do caso Master. Atribuiu-se a Moraes, sem aspas, a avaliação segundo a qual os agentes tiveram um comportamento sujo ao investigar Toffoli. O próprio Toffoli considerou o relatório nulo, e foi seguido por Zanin. Fux e Mendonça levaram a mão ao fogo pelo colega. Em suma, ficou entendido que, para a maioria dos magistrados, a palavra da PF é um "nada", um "lixo", um "revide", "tudo nulo".
Fachin precisa submeter o relatório da PF ao teste da luz do Sol — senão por dever institucional, ao menos por piedade dos brasileiros. Quem financia a bilheteria pagando os salários dos magistrados tem o direito de conhecer o enredo ensaiado nos bastidores do picadeiro.
Antes da chegada do relatório às mãos do presidente da Corte, Toffoli perambulava pelo noticiário seminu. Ao assumir o controle, impôs sigilo absoluto às investigações e imiscuiu-se no trabalho dos procuradores. Depois que a PF entregou o documento, migrou dos fundões do seu gabinete para a vitrine, e ficou com os glúteos à mostra para quem passa defronte da fachada do STF.
A estátua de Themis — aquela senhora de pedra que guarda a entrada do prédio — não vê nem ouve, mas os ministros que frequentam o plenário dentro da Corte não deveriam fechar os olhos e os ouvidos para as emboscadas da sorte.
Os fatos não deixam de existir porque os ministros os ignoram. Constrangido pelas relações esmiuçadas pela PF, Toffoli foi compelido a admitir que é sócio da empresa Maridt e que vendeu uma participação no resort Tayayá para o fundo Arleen, cujo gestor é o pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro.
Toffoli alegou que as cotas de sua empresa no resort foram transferidas para a pirâmide do Master em 2021, mas não explicou por que a PF encontrou no celular de Vorcaro mensagens de maio de 2024 cobrando de Zettel pagamentos pendentes da transação do Tayayá. Numa delas, Vorcaro revela-se irritado com a demora nos pagamentos ao resort: "Cara, me deu um puta problema. Onde tá a grana?". E Zettel: "No fundo dono do Tayayá. Transfiro as cotas dele". Vorcaro pede esclarecimentos sobre o montante e Zettel expõe as cifras: "Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões."
Quer dizer: Toffoli tem 35 milhões de razões para fugir e uma investigação criminal esboçada no relatório da PF como incontornável, mas o STF lhe ofereceu blindagem na reunião secreta de quinta-feira. Entre uma pancada e outra na PF, fabricou-se nesse encontro uma saída, "a pedido", da relatoria. A pantomima foi ornamentada com um comunicado oficial muito parecido com um escudo, no qual suas excelências descartaram a suspeição e, numa demonstração de apoio ao colega, enalteceram os "altos interesses institucionais" e a "dignidade do eminente magistrado". Todo brasileiro ficou desobrigado de fazer sentido depois da divulgação desse informe.
Tomado pela coreografia, o STF finge que o óbvio não é óbvio e desconsidera a hipótese de autorizar a PF a investigar Toffoli. Os ministros parecem ignorar que, na época em que as palavras ainda tinham algum significado, a "dignidade" que atribuem a Toffoli era uma expressão comparável à virgindade. Perdeu está perdida. Não dá segunda safra.
Para os católicos, a Quarta-feira de Cinzas marca o início da Quaresma. O Carnaval ocorre exatamente 47 dias antes da Páscoa, que é uma data móvel — celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre depois do equinócio de primavera no Hemisfério Norte —, daí o Carnaval mudar de dia a cada ano, mas situando-se sempre entre 4 de fevereiro e 9 de março.
A missa das cinzas — tradição que foi seguida religiosamente (sem trocadilho) até meados do século passado — ainda é prestigiada pelas indefectíveis beatas e uns poucos católicos tradicionalistas (ao menos nos grandes centros urbanos). No ritual em questão, as cinzas produzidas pela queima dos ramos de palmeiras ou oliveiras e abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior são misturadas com água benta e usadas pelo padre ou celebrante para “desenhar” uma cruz na fronte dos fiéis, que são convidados a refletir sobre o dever da conversão e a fragilidade da vida humana.
Interessa dizer que o Carnaval é a época em que as pessoas mais esquecem objetos em táxis e em veículos de transporte por aplicativo. Também nessa época os furtos e roubos de smartphones crescem assustadoramente devido às inevitáveis aglomerações e ao hábito dos sem-noção de fazer ou atender ligações e, principalmente, de tirar selfies com seus aparelhos sem adotar as devidas precauções.
Seguros para smartphones não são exatamente uma novidade, mas algumas empresas vêm oferecendo modalidades mais flexíveis, com cobertura por prazos curtos. Muitas não cobram multas por rescisão antecipada do contrato, não estipularem carência nem franquia para o reembolso e não criam empecilhos na hora de indenizar as vítimas de furtos simples (prejuízo que a maioria das seguradoras não costuma cobrir). Além disso, o reembolso costuma ser feito num prazo bem menor que o limite estabelecido pela SUSEP.
Observação: Da mesma forma que cada pessoa possui um número de CPF, cada celular é identificado individualmente pelo IMEI, que vem impresso na carcaça do aparelho (nos modelos em que a bateria é removível ele costuma ficar sob a dita-cuja) e na embalagem original. Esse número consta obrigatoriamente da nota fiscal de compra e pode ser visualizado no display do próprio aparelho — basta teclar o comando *#06#.
Levantamentos divulgados por secretarias de segurança pública mostram que, apenas durante os dias oficiais da festa, milhares de aparelhos mudam de dono sem cerimônia, sobretudo em blocos de rua, desfiles e grandes concentrações. Assim, se seu aparelho for furtado ou roubado, registre um boletim de ocorrência — o que pode ser feito também pelas delegacias eletrônicas — e bloqueie o aparelho junto à operadora usando o número de IMEI, de modo a impedir sua reutilização com outro chip.
Vale também recorrer aos serviços de localização e bloqueio remoto — oferecidos pelos próprios sistemas operacionais —, que travam o telefone e apagam seus dados à distância. Igualmente importante é trocar imediatamente as senhas de aplicativos bancários, redes sociais e serviços de pagamento, já que, para muitos, o smartphone funciona como carteira, cofre e identidade digital. Algumas iniciativas oficiais, como plataformas governamentais de bloqueio integrado, também dificultam a revenda e o reaproveitamento desses aparelhos no mercado paralelo.
No fim das contas, a Quarta-feira de Cinzas chega para todos — inclusive para quem acorda sem o celular. Nesse momento, mais do que penitência, o que se exige é informação, rapidez e um pouco menos de confiança na boa-fé alheia. Depois que o confete é varrido e a serpentina vira lixo, o que sobra não é só a ressaca: sobra também a conta.
No Brasil, o Carnaval acaba na Quarta-feira de Cinzas, mas para quem perdeu o celular, a penitência costuma durar bem mais que quarenta dias.


