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sábado, 29 de agosto de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 112ª PARTE

HOJE É O AMANHÃ DE ONTEM E O ONTEM DE AMANHÃ.

Como vimos, viajar no tempo rumo ao futuro pode ser apenas uma questão de... tempo. No entanto, ainda que seja matematicamente plausível e encontre guarida na física quântica, viajar no tempo de volta ao passado esbarra nas leis da natureza e da física clássica. Mesmo assim, não faltam teorias que buscam resolvem o problema dos paradoxos e outras "questiúnculas" que nos impedem de colher "o fruto mais ambicionado da árvore da relatividade".


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A agenda de Lula previa apenas um compromisso na quinta-feira. Passou o dia se preparando para a sabatina na TV Globo, mas não obteve o sucesso que esperava. 

Renata Vasconcellos e César Tralli não estavam devidamente ensaiados. O constrangimento do petista estava mais nas perguntas que foi obrigado a ouvir do que nas respostas que conseguiu dar. De 40 minutos, cerca de 25 foram dedicados à corrupção.

Na defensiva, o molusco chamou Roberta Luchsinger de "pilantra". Jurou nunca ter visto a lobista do Careca do INSS. Era lorota. Pipocaram nas redes fotos da amiga do filho Lulinha e do ex-chefe de gabinete Marcola fazendo o "L" ao lado de um Lula sorridente. Quem tiver culpa terá que pagar, repetiu. Pediu votos para Jaques Wagner porque não abandona os amigos e não há sentença no caso Master contra seu ex-líder no Senado. Acusou a PF de vazar dados sigilosos e a imprensa de divulgar "ilações". Atrasou o relógio para relembrar a Lava Jato: "Fui acusado de ter apartamento que eu não tinha, chácara que eu não tinha". Faltou imparcialidade a Sérgio Moro. A força-tarefa de Curitiba barbarizou. O Supremo anulou sentenças. Mas nada disso apaga o petrolão.

Na sucessão passada, o próprio Lula admitiu, na mesma TV Globo: "Você não pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram". Em meio às confissões estavam as obras que a OAS e a Odebrecht fizeram graciosamente no sítio de Atibaia e no tríplex do Guarujá. Decorridos quatro anos, Lula voltou à emissora com tudo bem ensaiado, exceto as perguntas dos sabatinadores.

O eleitor que já decidiu votar em Lula não deve ter mudado de ideia. Mas a entrevista dificilmente terá acrescentado muitos votos ao candidato entre o cobiçado eleitorado independente. Resta ao macróbio um consolo: na sabatina de Flávio Bolsonaro. Renata Vasconcellos e César Tralli terão que dedicar pelo menos 25 minutos à corrupção. 

Material não falta.


Experimentos recentes com tunelamento quântico sugerem que fótons podem atravessar uma barreira em tempo aparentemente nulo ou negativo — como um automóvel que sai do túnel antes de ter entrado —, e que esse não é o único exemplo desconcertante de estranheza temporal em escalas muito pequenas. Uma das muitas esquisitices da mecânica quântica é a "superposição" — possibilidade de uma mesma partícula estar em dois lugares simultaneamente —, o "entrelaçamento quântico" — que Einstein batizou de "ação fantasmagórica à distância" — e a "causalidade" — capacidade das partículas de mudar o passado a partir do futuro. 


Diferentemente dos carros em um túnel, os fótons não têm posição ou trajetória fixa no espaço. Dada a impossibilidade de etiquetá-los e rastreá-los, os pesquisadores mediram o tempo gasto na travessia analisando a excitação dos átomos dentro da barreira à medida que as partículas de luz passam por eles ou os atingem, e o resultado apontou a existência do assim chamado "tempo negativo".


Os cientistas entendem matematicamente por que isso acontece, mas não sabem qual o significado, já que não há uma correspondência clara com o mundo físico que vivenciamos. Assim, eles concluem simplesmente que a mecânica quântica "é diferente". E se isso parece estranho, a "retrocausalidade" é ainda mais surpreendente.


Observação: A retrocausalidade — do latim retro, no sentido de 'para trás', e causalidade, a 'relação entre causa e efeito' — é exatamente o que o nome sugere: a possibilidade de que um evento futuro influencie um evento passado. No mundo clássico, isso soa como heresia, já que a causa precede o efeito, o passado determina o futuro e a seta do tempo aponta numa única direção. Quebrar essa regra seria o equivalente a afirmar que os estilhaços de um vaso que caiu no chão podem se reunir espontaneamente — coisa que nossa intuição rejeita enfaticamente. Mas a física quântica não pede licença às nossas intuições. No experimento de dupla fenda, um fóton exibe comportamento de onda quando não é observado (produzindo um padrão de interferência) e comportamento de partícula quando é observado (produzindo dois pontos distintos). No experimento de Wheeler, o momento da observação é deliberadamente adiado — e ainda assim o fóton parece "saber", retroativamente, se seria ou não observado, ajustando seu comportamento no passado de acordo com uma decisão ainda não tomada no presente. Os adeptos da interpretação de Copenhagen preferem dizer simplesmente que a pergunta "qual caminho o fóton tomou" não tem resposta antes da medição — e que portanto não há propriamente um passado sendo alterado, mas sim um passado que só se define no momento da observação. Outros, porém, argumentam que a retrocausalidade oferece uma explicação mais elegante para certos fenômenos quânticos do que a noção de que partículas simplesmente "não têm propriedades" antes de serem medidas. O debate está longe de ser resolvido, mas o simples fato de ele existir nos lembra de que o tempo, nessa escala infinitesimal, pode não ser via de mão-única que a experiência cotidiana nos ensinou a encarar como óbvia.


Embora não tenha a evidência observacional dos experimentos de túnel quântico, a retrocausalidade ajuda a compreender a chamada "ação fantasmagórica à distância", que acontece quando duas partículas estão "entrelaçadas" em lados opostos do Universo, mas quando os cientistas medem o giro ou a polarização de uma delas a parceira entrelaçada responde instantaneamente da mesma maneira. O que torna isso ainda mais assustador é que essas partículas não apresentam tais propriedades até serem medidas, ou seja, elas existem em vários estados simultaneamente até o momento em que algum tipo de sinal instantâneo vai de uma para a outra dizendo qual medição foi realizada, o que é muito estranho.


Nesse cenário, as informações não passam instantaneamente entre as partículas pelo espaço, mas pelo tempo — ou seja, uma partícula medida passa informações para o momento em que foi entrelaçada com seu par e depois para o momento em que ocorre a medição. Esse conceito contraintuitivo substitui uma impossibilidade por outra — uma cura que parece ser pior que a doença —, além de abrir a porta para os paradoxos temporais, nos quais influenciar o passado altera o presente. Mas essa não é a primeira vez que a mecânica quântica desafia o senso comum.


Segundo os defensores da retrocausalidade, ela só parece improvável porque nós — na escala macroscópica — vivenciamos o tempo em uma direção, ao passo que, em escalas muito pequenas, as leis da física são simétricas em relação ao tempo (com algumas exceções). E quanto ao aparente problema da viagem no tempo, isso só se aplica se a partícula foi medida no passado, eles dizem. Enquanto isso não acontece, ela permanece em seu estado quântico indeterminado.


A comprovação dessas teorias implica que o Universo funciona de forma diferente da que imaginamos, num cenário em que duas ou mais linhas do tempo coexistem lado a lado. Mas achar que há uma evolução para frente e uma evolução para trás do Universo — com duas setas causais separadas e independentes — é um tipo de imagem 'dinâmica' da retrocausalidade em que se têm processos literais de avanço e retrocesso acontecendo em alguma combinação. Talvez não seja uma maneira muito elegante de pensar sobre a retrocausalidade, já que se pode deparar facilmente com inconsistências, contradições e paradoxos.


A retrocausalidade é mais plausível se vivermos no que é conhecido como "universo em bloco" — um modelo hipotético e filosoficamente controverso de existência, no qual todos os momentos no tempo (passado, presente e futuro) coexistem em um objeto quadridimensional. Se esse bloco está preenchido com todos os eventos que já aconteceram ou vão acontecer, então é mais fácil ver como alguma influência hipotética poderia passar entre as partículas dentro dele. E para explicar as ações fantasmagóricas à distância das partículas entrelaçadas, as informações não precisam viajar para o passado em alguma linha de tempo retrocausal alternativa, mesmo porque não há fluxo temporal. O tempo é apenas outra dimensão dentro do bloco, e não uma coisa material que se move.


Sendo esse o caso, chegamos ao que pode ser a implicação mais preocupante sobre a mecânica quântica e seu estranho comportamento temporal. Na interpretação mais fatalista do universo em bloco, somos apenas personagens de uma série de TV cósmica. Podemos experimentar a vida episodicamente, mas nosso futuro é tão determinado quanto nosso passado. Então, se estivermos no meio de nossa história, o próprio final — o momento em que a luz se apaga — pode já ter sido escrito.


Continua...

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 40ª PARTE

QUANDO VOCÊ COMEÇA A ENGOLIR SAPOS, OS SAPOS ACABAM VIRANDO SUA DIETA.

As viagens no tempo são o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade. Embora viajemos para o futuro, segundo a segundo, desde o momento em que nascemos, avançar ou retroceder como nos filmes de ficção científica exigiria uma máquina do tempo ou uma espaçonave capaz de alcançar velocidades próximas à da luz (devido à dilatação temporal). 

 

Outras maneiras seriam fruir da dilatação gravitacional do tempo proporcionada pelo horizonte de eventos de um buraco negro ou atravessar um buraco de minhoca. Em ambos os casos, alguns minutos no referencial do hipotético viajante corresponderiam a décadas, séculos ou milênios no referencial de um observador externo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Quem tem ao menos dois neurônios funcionando e ouviu o discurso que o ministro Alexandre de Moraes proferiu na reabertura dos trabalhos do STF não teve dificuldade em perceber que Eduardo Bolsonaro segue à risca os passos pai — passos que, ao que tudo indica, conduzem à cadeia. Sem citar o nome do deputado foragido, o magistrado referiu-se a ele como integrante de uma “organização criminosa” que atua nos EUA “de maneira covarde e traiçoeira”, promovendo “agressões espúrias e ilegais” com o objetivo de provocar uma “grave crise econômica no Brasil” — e de produzir provas contra si próprio. Disse que ele e o neto do ex-presidente Figueiredo acreditam estar lidando com milicianos, mas advertiu-os de que estão lidando com ministros da Suprema Corte brasileira e acusou-os de repetir o já conhecido “modus operandi golpista”.
Xandão deixou claro que vai “ignorar” as sanções que lhe foram impostas por Trump, que pressionar por pedidos de impeachment de ministros do STF e pela aprovação de uma anistia — inconstitucional, segundo ele — não adiará o julgamento do processo, previsto para o mês que vem. 
Ficou subentendido que Bobi Filho, atualmente investigado por coação no curso do processo penal, obstrução de investigação contra organização criminosa, tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito e atentado à soberania, já pode ser considerado uma condenação criminal esperando na fila para acontecer.

Se você quiser saber quem vencerá as próximas eleições presidenciais, escolha uma dessas opções e boa viagem. Mas marcar presença na posse de Deodoro da Fonseca é mais complicado. Ainda que a relatividade não descarte a possibilidade de revisitar o passado, nem tudo o que funciona nas equações se traduz bem na prática.

Uma das apostas teóricas são as chamadas curvas fechadas do tipo tempo (CTCs) — trajetórias no espaço-tempo que, segundo certas interpretações, poderiam surgir a partir da rotação do próprio Universo. Nessas curvas, passado e futuro se unem como largada e chegada num circuito oval — como o de Indianápolis. Em tese, seria possível refazer o mesmo trajeto temporal indefinidamente, mas isso nos coloca diante de um paradoxo: percorrer uma CTC não seria o mesmo que reviver os mesmos eventos repetidas vezes? Algo parecido com o que acontece com Doctor Who no episódio Heaven Sent, quando o 12º Doutor Who fica preso num looping temporal causado pelo uso contínuo de um teletransportador? Por mais que pareça uma forma de "voltar no tempo", repetir exatamente a mesma sequência de eventos ad aeternum talvez seja mais castigo do que conquista. 

A Teoria das Cordas sustenta que o Universo é composto por pequenas cordas muito finas, mas extremamente densas. Elas vibram de diferentes maneiras, dando origem a diferentes partículas e interações. Movendo-sem em direções opostas, a uma velocidade próxima à da luz, elas poderiam distorcer o espaço-tempo, criando um loop que permitiria retornar ao passado sem violar as leis da física. Mas vale destacar que ainda não existem evidências de que essas cordas cósmicas existam, nem de que as viagens no tempo por meio de loops no espaço-tempo sejam factíveis. 

 

Até aqui, falamos sobre viajar no tempo à luz da relatividade, que descreve o comportamento de grandes objetos, enquanto a mecânica quântica se aplica ao universo as partículas, como elétrons e fótons. Como as leis da física tradicional não se aplicam em escalas microscópicas, uma alteração no estado de uma partícula pode influenciar instantaneamente outra partícula "entrelaçada" em outro lugar (efeito que Einstein chamou de "ação fantasmagórica à distância"). Esse fenômeno — que já foi demonstrado várias vezes em pesquisas vencedoras do Prêmio Nobel — contraria nosso entendimento de que os eventos acontecem do passado para o presente e deste para o futuro, e nessas peculiares configurações quânticas as informações podem viajar para o futuro e retornar ao passado. 

 

O problema é que a relatividade e a mecânica quântica funcionam bem cada qual no seu quadrado, e uma teoria que as unifique em uma única estrutura matemática coerente ainda não foi desenvolvida, a despeito de décadas de esforços nesse sentido. Em nossa compreensão atual do Universo, podemos potencialmente viajar para o futuro, mas visitar o passado é outra conversa: eventos que influenciam a si mesmos geram paradoxos temporais, como o célebre paradoxo do avô, que afrontam a conjectura de proteção cronológica, e a hipótese da censura cósmica sugere que as próprias leis da física atuam para ajustar essas incongruências, preservando a causalidade no Universo. 

 

A única certeza que temos — além do fato de que o tempo se dilata, a massa dos corpos aumenta e espaço se contrai — é que não temos certeza de nada. Mas é justamente essa incerteza que instiga os cientistas a investigar incansavelmente o mundo que nos cerca. 

segunda-feira, 2 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 80ª PARTE

SE O PROBLEMA TEM SOLUÇÃO, NÃO HÁ RAZÃO PARA SE PREOCUPAR; SE O PROBLEMA NÃO TEM SOLUÇÃO, DE NADA ADIANTA SE PREOCUPAR.  

Trinta anos atrás, os físicos provaram que a comunicação entre duas partículas entrelaçadas é instantânea. A experiência original envolvia o uso de um imã para inverter a polaridade de uma das partículas, o que fazia a polaridade de sua partícula gêmea se inverter de imediato, quer ela estivesse localizada no mesmo recinto ou a quilômetros de distância.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Segundo um velho axioma da política tupiniquim, CPI a gente sabe como começa mas não sabe como acaba. Geralmente acaba em pizza, mas houve casos notórios em que essas comissões produziram resultados. Um bom exemplo é a CPI da Pandemia. Bolsonaro não foi punido porque Augusto Aras, antiprocurador-geral e esbirro do capetão, moveu mundos e fundos para blindar seu amo e senhor.  

A CPI do Crime Organizado começou de forma bombástica, convidando o presidente e o ex-presidente do BC, ex-ministros da Fazenda de diversos governos, um ministro palaciano atual e togas do STF. No entanto, ao contrário de convocações, Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e outros "convidados" não estão obrigados a depor — embora devessem esclarecer suas eventuais ligações com um banqueiro acusado de fraude.

Paralelamente, a CPI está tentando quebrar o sigilo de uma empresa controlada pelo Maquiavel de Marília, e aí o jogo se torna mais perigoso para todos os envolvidos.

Dado o amplo grau de compra de acesso exercido pelo dono do Banco Master em vários setores da política brasileira, o apetite no Parlamento por uma CPI voltada apenas para o tal banco é bastante reduzido.

Segundo matéria publicada no Economist, o STF está envolvido em um "enorme escândalo", mas o Senado barrou a quebra de sigilo do escritório da mulher de Moraes. Nos bastidores, o entendimento foi de que uma eventual quebra de sigilo poderia desencadear um confronto institucional com o STF.

Triste Brasil.


Levando o raciocínio mais além, cientistas chineses realizaram o mesmo experimento usando satélites e demonstraram que duas partículas entrelaçadas permaneciam “instantaneamente conectadas” a uma distância de 12 mil quilômetros. A revista Science Magazine publicou a matéria de capa "China quebra o recorde de ‘Ação Fantasmagórica à Distância’", referindo-se à expressão cunhada por Einstein em meados da década de 1930.

Observação: A chave para esse processo é o entrelaçamento quântico: quando duas partículas estão entrelaçadas (ou emaranhadas, como alguns preferem dizer), a alteração no estado de uma delas provoca uma mudança imediata na outra, independentemente da distância que as separa. Usando uma interface de rede fotônica, pesquisadores da Universidade de Oxford conectaram com sucesso dois processadores quânticos separados para formar um único computador quântico totalmente conectado. A informação foi transferida de um fóton para outro, com a velocidade da luz, sem que o fóton original se movesse fisicamente, mas o transporte de matéria exigiria transformar um objeto em informação e, em seguida, a informação captada em uma reprodução em outro lugar usando uma espécie de impressora 3D. Mas isso já é outra conversa e fica para uma outra vez.

Os cientistas demonstraram há décadas que o pensamento humano, quando focado, é literalmente capaz de alterar a química corporal do indivíduo, mas o conceito de cura remota continua sendo visto com ceticismo, considerado vudu e tratado com desdém por parte da medicina. Sei de pessoas com QI superior a 140 que dão por verdade a fábula da criação do mundo segundo Gênesis e que acreditam que os seres humanos provêm de Adão e Eva, a despeito dos indícios científicos acachapantes da evolução e de os arqueólogos terem encontrado fósseis com mais de três milhões de anos.

"Eu acredito que Deus espalhou esses indícios como um truque para testar minha fé", afirmam os fanáticos religiosos, e se você acha que eles têm um apego irracional pela própria visão do mundo, é porque não conhece alguns acadêmicos catedráticos que tendem a seguir agarrados a suas crenças, mesmo depois de seus modelos ficarem claramente obsoletos.

Voltando ao mapa dos atalhos cósmicos, talvez as chaves do tempo não estejam apenas nas equações de Einstein, mas também nas entrelinhas da curiosidade humana — esse motor que, desde H.G. Wells, insiste em girar no sentido contrário das impossibilidades.

Conforme eu mencionei no final do capítulo anterior, há quem diga que o primeiro a testar uma dessas teorias não foi um físico, mas um homem comum, cujo desaparecimento intriga tanto quanto as equações que ele dizia ter decifrado. Em última análise, impossível mesmo é voltar atrás depois de cruzar o horizonte de eventos da própria curiosidade.

Continua…

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

DE VOLTA À TEORIA DE TUDO

A PIOR FORMA DE DESIGUALDADE É TENTAR TORNAR AS COISAS DESIGUAIS IGUAIS.

Vimos que a Teoria das Cordas busca conciliar a relatividade geral com a mecânica quântica, e que os conceitos da primeira não se aplicam ao mundo subatômico nem os da segunda descrevem adequadamente os grandes corpos celestes.


De certo modo, é como se existissem duas linguagens diferentes para descrever o universo: uma explica o comportamento da gravidade e de objetos gigantescos, como estrelas, planetas e galáxias; a outra descreve as partículas fundamentais da matéria, como os quarks e os léptons. 


Einstein passou boa parte de sua vida buscando uma teoria capaz de unificar as forças conhecidas da natureza, mas morreu sem obter sucesso em seu intento. Desde então, inúmeros físicos vêm perseguindo o mesmo objetivo, mas ninguém encontrou (pelo menos até agora) uma formulação matemática que concilie plenamente a relatividade geral com a mecânica quântica.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Nem Lula nem Flávio. O protagonista do primeiro dia da campanha de 2026 foi Jair Bolsonaro. Trancado no calabouço domiciliar, banido das urnas e das redes sociais, ele não esteve em nenhum ato político neste domingo. Mas estreou na sucessão presidencial de 2026 assombrando, como um egun mal-despachado, o estádio de Vila Euclides e a orla de Copacabana

No estádio, em São Bernardo, o molusco indigesto discursou como se o adversário não fosse o filho do pai, mas o pai do filho. A certa altura, ecoou a pergunta que o eleitor faz a seus botões: "Por que Lula quer um novo mandato?" 

Segundo o macróbio, é para evitar a volta da extrema direita consubstanciada na gestão desastrosa da pandemia sob Bolsonaro. E empilhou indicadores para comparar seu governo ao do antecessor.

Em horário quase simultâneo, o primogênito do refugo da escória da humanidade discursou na orla de Copacabana como um boneco vestido pelo seu ventríloquo, trajando camiseta idêntica à que o genitor usava no dia em que foi esfaqueado, na vitoriosa campanha de 2018. Nela, lia-se: "Meu partido é o Brasil". Rodou áudios antigos do golpista (hoje em prisão domiciliar), e sapateando sobre a memória do rei do futebol, admitiu ser coadjuvante: "É difícil comparar o filho do Pelé com o Pelé."

Entre todos os estrategistas da eleição, Bolsonaro foi o mais bem-sucedido. Tornou a direita refém de um preso por tentativa de golpe. Transformou um herdeiro biológico num anti-Lula competitivo. Qualquer que seja o resultado, sairá ganhando. Se o filho derrotar o xamã petista, o capitão golpista ganha a anistia. Se seu clone for derrotado, manterá o título de principal líder da oposição. Em qualquer hipótese, esse maldito egum mal-despachado continuará assombrando o país.


Para o físico teórico Leonard Susskind, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, uma possível ligação pode estar nos célebres buracos de minhoca. A existência desses fenômenos ainda não foi comprovada, mas acredita-se que ele surjam nas imediações ou profundezas dos buracos negros e conectem dois pontos do espaço-tempo, não necessariamente no mesmo universo nem na mesma linha temporal.


A equação é simples: ER = EPR — o “E” e o “R” se referem a Albert Einstein e Nathan Rosen, que publicaram um estudo descrevendo os supostos atalhos em 1935 — daí esses fenômenos terem sido batizados de “ponte de Einstein-Rosen”. O outro lado da equação inclui o "P", que remete ao físico Boris Podolsky, com quem os outros dois cientistas escreveram um outro estudo que descreve o entrelaçamento quântico.


Observação: O entrelaçamento quântico descreve como duas partículas diferentes podem se comportar de maneira idêntica, independentemente da distância que as separa. Um estudo recente explorou um cenário hipotético no qual partículas entrelaçadas poderiam corresponder matematicamente a buracos negros conectados por um buraco de minhoca — o que embasaria a "teoria de tudo", com a qual Einstein sempre sonhou.


Em tese, uma nave ou qualquer outro objeto que atravessasse um buraco de minhoca levaria alguns segundos para percorrer uma distância que, em linha reta pelo cosmos, demoraria séculos ou milênios. No entanto, atravessar um desses atalhos cósmicos para encontrar o loop temporal implicaria cruzar o horizonte de eventos e escapar da intensa atração gravitacional do buraco negro — algo que exigiria uma velocidade superior à da luz (1.079.252.848,8 km/h), sem mencionar que a aproximação do horizonte de eventos causaria um efeito chamado “espaguetificação”, que esticaria progressivamente o corpo dos astronautas devido às diferenças extremas de gravidade entre uma região e outra.


A teoria da relatividade admite a existência de loops de tempo nos quais um evento pode estar tanto no passado quanto no futuro. Na opinião de vários físicos teóricos, a força gravitacional dos buracos negros pode criar curvas fechadas do tipo tempo, levando a conexões com diferentes momentos da história do universo. Por outro lado se o hipotético buraco negro surgiu após o período Jurássico, de nada adiantaria utilizá-lo para degustar um filé de brontossauro com Fred Flintstone.

 

Teoricamente, processos determinísticos (não-aleatórios) em um número arbitrário de regiões no continuum espaço-tempo demonstram como as curvas fechadas do tipo tempo podem se encaixar nas regras do livre-arbítrio e da física clássica. Ademais, a matemática confirma a possibilidade de viajar no tempo e sustenta que as ações dos viajantes não criariam paradoxos — segundo a Interpretação dos Muitos Mundos, o resultado ocorreria numa linha de tempo diferente, evitando que o “presente” dos viajantes fosse alterado. 


Estudos da mecânica quântica sugerem que multiversos paralelos podem existir no mesmo espaço-tempo, e à medida que se realiza um experimento quântico com diferentes resultados possíveis, cada resultado ocorre em um universo diferente. Outra teoria sobre o multiverso sustenta que o cosmos é uma bolha e a existência de inúmeros universos-bolha imersos num mar energizado e em eterna expansão. Mas nenhuma dessas teorias conseguiu determinar em que tipo de universo estamos inseridos.

 

As viagens no tempo são tratadas com ceticismo por boa parte da comunidade científica, mas a história está repleta de exemplos de pioneiros cujas ideias foram ridicularizadas até que o tempo provasse que elas estavam certas. Isso aconteceu com Nicolau Copérnico e o geocentrismo, com Joseph Lister e a desinfecção, com Alfred Wegener e a teoria da deriva continental. Parafraseando um epigrama atribuído a Einstein, "o impossível só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário". 


Resumo da ópera: Se ER = EPR estiver correto, o entrelaçamento quântico — a "ação fantasmagórica à distância" que tanto perturbava Einstein pode criar a "conectividade espacial" que "costura o espaço-tempo" — sem essas conexões, a estrutura sólida e confiável do espaço-tempo seria produto das propriedades espectrais do entrelaçamento. Para os pesquisadores, essa é a base da teoria segundo a qual a gravidade quântica é capaz de unificar as forças da natureza.


Os físicos ainda têm um longo caminho para provar a equivalência entre buracos de minhoca e entrelaçamento. O sonho de ficção de um buraco de minhoca atravessável não está nem perto da realidade, ou seja, não passa de um experimento mental. Por outro lado, uma das ideias mais férteis e elegantes da física do século XXI é a de que o espaço-tempo em si pode emergir do entrelaçamento quântico. 


Ironicamente, Einstein, que nunca aceitou o entrelaçamento quântico, e, como dito no início deste post, passou boa parte da vida tentando unir a relatividade e a mecânica quântica, mas não obteve sucesso — talvez porque a pista estivesse escondida em dois artigos que ele próprio ajudou a escrever, e que hoje formam os dois lados dessa possível equação unificadora.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 6ª PARTE

MESMO OS FATALISTAS — SEGUNDO OS QUAIS TUDO É DETERMINADO DE ANTEMÃO E NADA PODE SER FEITO PARA MUDAR COISA NENHUMA — OLHAM PARA OS LADOS ANTES DE ATRAVESSAR A RUA.

Há tempos que os físicos tentam acomodar a Relatividade e a Mecânica Quântica num único modelo matemático. A Teoria das Cordas, a Teoria de Tudo e a Teoria M são sérias candidatas a esse papel. Esta última, que unifica cinco versões anteriores da Teoria das Cordas, postula que o Universo se desenrola em dez dimensões espaciais e uma temporal, onde membranas quadrimensionais servem de pontos de fixação para minúsculas 'cordas', cujos modos vibracionais moldam a estrutura do cosmos. As sete dimensões adicionais podem estar compactificadas em escalas da ordem do comprimento de Planck, dificultando sua detecção, que exigiria uma quantidade de energia muito maior do que a do Grande Colisor de Hádrons.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Sob orientação do novo chefe da Secom, Lula fez um pronunciamento em rede nacional na última segunda-feira. A boa notícia é que a lengalenga durou cerca de dois minutos. A má notícia é que vai haver repeteco a cada 15 dias, como se a fissura na popularidade do macróbio pudesse ser colada com saliva.
Pronunciamentos presidenciais em rede nacional costumam acontecer em datas festivas ou quando alguma medida emergencial ou de grande impacto do governo os justifica. Lula 3 vai mal das pernas, e papagaiar conquistas falaciosas entremeadas de "olha que legal" ou "é tudo de graça" não basta para ressuscitar
 o voto-gratidão de seus eleitores desiludidos, sem falar que ele não foi eleito para passar 4 anos malhando seu imprestável predecessor. 
No mais, a "Farmácia Popular" foi lançada há duas décadas, sucateada por Bolsonaro e recriada há dois anos. A novidade é que o número de remédios gratuitos subiu de 39 para 41. Mas a ministra da Saúde (demitida nesta terça-feira para dar lugar a Alexandre Padilha) já havia batido esse bumbo três semanas atrás. Já o "Pé-de-Meia" surgiu há mais de um ano, a partir de um projeto da deputada Tábata Amaral, e foi relançado dezenas de vezes pelo ministro da Educação, em sua turnê pelos estados.

Einstein teria dito que o Universo e a estupidez humana são infinitos (quanto ao Universo, ele ainda não estava 100% certo) e Nelson Rodrigues, que os idiotas vão dominar mundo (não pela capacidade, mas pela quantidade). Talvez isso explique por que a Teoria das Cordas e a Teoria M ainda sejam vistas como "pseudociência" por alguns cientistas renomados, enquanto outros buscam obstinadamente o "santo graal" das viagens no tempo. No fim das contas, ainda há esperança de um dia colhermos o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade.


O matemático Kurt Gödel postulou que as curvas temporais fechadas do tipo tempo, resultantes do movimento rotacional do Universo, permitiriam que uma nave voltasse à Terra antes da partida sem contrariar a relatividade. Para entender isso melhor, imagine o espaço-tempo como um rio que corre para o mar ao mesmo tempo em que gira em grandes redemoinhos e a nave como um barco que, pego por um desses redemoinhos, dá uma volta completa e retorna ao ponto de partida. Stephen Hawking, por sua vez, disse que as leis da física conspirar para inviabilizar as tais curvas temporais.  

Após viver dois meses no fundo de uma caverna, sem ter como medir o tempo — sua única fonte de luz era a lâmpada de mineração usada para cozinhar, ler e escrever um diário pessoal —, o cientista francês Michel Siffre constatou que seus ciclos passaram a ser de 48 horas ao invés de 24. O experimento deveria durar 30 dias, mas o pesquisador só deixou a caverna depois de 2 meses — que lhe pareceram menos de um, pois seu tempo psicológico ficou reduzido à metade do tempo cronológico. Suas anotações deram origem ao livro Beyond Time, lançado em 1964.
  
Refém das limitações impostas pela ciência no alvorecer do século XX, Einstein introduziu a constante cosmológica em suas equações. Quando Hubble descobriu que o Universo estava em expansão, o pai da relatividade disse que havia cometido seu maior erro. Décadas depois, os cientistas resgataram a constante cosmológica e a associaram à energia escura (um dos grandes mistérios da física moderna) para explicar como a expansão do cosmos está acelerando, e o maior erro de Einstein se tornou um dos pilares do modelo cosmológico atual.
 
Einstein acreditava que a mecânica quântica era incompleta e que devia existir uma teoria subjacente com variáveis ocultas que explicasse os fenômenos de maneira determinística. Ele criticou a interpretação probabilística da mecânica quântica e chamou o entrelaçamento quântico de ação fantasmagórica à distância. Mas a verdadeira beleza da ciência não está nas respostas, e sim nas novas perguntas que cada resposta suscita. Ademais, não há nada como o tempo para passar: a viagem que Pedro Álvares Cabral levou 44 dias para fazer em1500 é feita atualmente em cerca de 10 dias por mar e em menos de 10 horas por ar.

Continua...

segunda-feira, 24 de março de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 11ª PARTE

É O INSTINTO DO ABUSO DO PODER QUE DESPERTA TANTA PAIXÃO PELO PODER.

Publicadas na obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica em 1667, as leis da dinâmica de Newton explicam por que as maçãs caem das árvores e a Terra gira em torno do Sol, e, por não distinguirem passado ou futuro, funcionam tão bem de trás para a frente quanto de frente para trás, sugerindo que, teoricamente, qualquer evento poderia ser revertido. No entanto, o cotidiano não reflete essa reversibilidade, como evidencia um vaso quebrado que não se reconstrói. 

A chave para entender por que o futuro é diferente do passado foi abordada por Ludwig Boltzmann no século XIX, quando a ciência ainda engatinhava e a teoria segundo a qual tudo é feito de minúsculas partículas (átomos) ainda estava sendo discutida. Segundo o físico austríaco, o conceito de entropia (detalhes nesta postagem) descreve a tendência do universo de se mover de um estado de baixa entropia (organizado) para alta entropia (desordenado), o que explicaria a irreversibilidade dos processos.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

A primeira turma do STF começa a decidir amanhã se promove Bolsonaro a réu. Para tentar se livrar da prisão, o ex-presidente promoveu uma manifestação na praia de Copacabana — que reuniu menos de 2% do público previsto — e seu filho Eduardo se licenciou da Câmara Federal para denunciar nos EUA os "abusos" cometidos pelo STF. Nos bastidores, porém, o que se fala não é se o capetão será condenado, mas a quantos anos e quando ele começará a cumprir a pena. 
A exemplo do que o PT fez em 2018, quando Lula foi preso pela Lava-Jato, o "mito" tenta emplacar a narrativa de que  será um preso político. O plano é semelhante ao ataque às urnas em 2022, com a diferença de que o objetivo atual é convencer o Brasil e o mundo que seu julgamento é um jogo de cartas marcadas. 
Enquanto o filho do pai busca apoio de congressistas trumpistas para "revelar ao mundo” o que considera um estado de exceção no Brasil, aliados do clã buscam organizar visitas de integrantes de organismos internacionais e acionar o Tribunal Penal Internacional contra os supostos abusos do STF. O efeito prático é nulo, pois a corte internacional não tem poder de reverter uma decisão do judiciário tupiniquim. 
Num ambiente altamente polarizado — 51% dos brasileiros declara ser contra anistiar os presos pelo vandalismo do 8 de janeiro — a estratégia deixa os ministros numa situação pouco confortável.  
Bolsonaro sabe que dificilmente escapará de uma condenação, independentemente do número de convertidos que trotarão até a Avenida Paulista no próximo dia 6, para ver seu mito, já então convertido em réu, criticar o STF por, entre outras coisas, manter o caso na 1ª Turma para acelerar os trâmites. 
No processo do mensalão — que envolveu 40 autoridades —, foram cerca de 5 anos entre o recebimento da denúncia e o julgamento que a corte usou praticamente todo o segundo semestre de 2012 para concluir. A defesa deve insistir que a decisão fique a cargo dos 11 ministros, mas o relator da encrenca e o atual presidente so tribunal são contra, e os ministros com mais tempo de casa ainda se recordam quão árduo foi julgar o mensalão em plenário.
 
Boltzmann sugeriu que o Universo experimentou inicialmente um estado de baixa entropia, mas não conseguiu explicar como isso teria sido possível. Segundo a teoria do Big Bang, tudo que existe hoje se formou a partir de uma partícula incrivelmente quente e densa, que se expandiu rapidamente. Esse conceito evoluiu, e teorias modernas, como a de Sean Carroll sobre "universos bebês" emergindo de um "universo-mãe", sugerem que a entropia é globalmente alta, mesmo que partes do Universo possam ter baixa entropia. De acordo com a teoria das cordas, existem múltiplos universos, cada qual regido por leis físicas próprias.
 
A premissa de que a seta do tempo que aponta do passado para o futuro não é uma certeza universal. Experimentos demonstraram que a reversibilidade do tempo pode ocorrer 
em escalas microscópicas, ainda que a interação entre partículas tenda a criar uma irreversibilidade em escalas mais complexas, nas quais a experiência do tempo irreversível se deve à tendência do Universo à desordem (aumento da entropia).
 
Inúmeras evidências sugerem que a reversibilidade do tempo é possível em sistemas quânticos. A reversão poderia ocorrer em condições extremas, como em universos paralelos, ou por manipulação de partículas subatômicas. Tanto a teoria das cordas quanto experimentos de partículas admitem viagens no tempo para o passado, desde que haja condições adequadas para reverter a entropia ou manipular as leis que regulam a passagem do tempo.
 
Entre os experimentos quânticos que exploram a reversibilidade, o entrelaçamento quântico é um dos mais fascinantes. Trata-se de 
um estado em que as partículas se tornam intrinsecamente conectadas, e o estado de uma não pode ser descrito independentemente do estado da outra, inobstante a distância que as separa. Descrito por Einstein como "ação fantasmagórica à distância", esse fenômeno parecia violar o princípio segundo o qual a velocidade da luz é o limite máximo universal.

Observação: Pesquisadores do Caltech demonstraram o entrelaçamento quântico entre dois diamantes macroscópicos distantes um quilômetro um do outro, conforme artigo publicado na prestigiada revista Physical Review Letters. A possibilidade de objetos macroscópicos exibirem comportamento quântico desafia nossa intuição sobre o mundo físico e atenua a linha divisória entre o mundo quântico e o clássico, mas ainda há desafios significativos a superar antes que estas aplicações se tornem realidade.
 
O Teorema de Bell (1964) foi fundamental para testar a validade da mecânica quântica. Nele, o físico irlandês desenvolveu desigualdades matemáticas que permitiram a experimentação de fenômenos que, de outra forma, seriam inacessíveis. Experimentos subsequentes, como os do físico francês Alain Aspect, demonstraram que o entrelaçamento quântico realmente ocorre, e que a informação poderia ser transmitida de maneira não-local e instantânea.
 
Em 1993, o físico americano Charles Bennett e outros cientistas propuseram uma forma de teletransporte quântico utilizando entrelaçamento. Não se trata do teletransporte que se vê nos filmes de ficção, e sim da transferência de informações de estado quântico entre partículas. Mas esse fenômeno tem implicações diretas na reversibilidade, já que a informação que "viaja" instantaneamente pode ser vista como um tipo de reversibilidade de estados quânticos.
 
Vale destacar que, em nível quântico, a reversibilidade não significa "voltar no tempo" como vemos na ficção, mas à capacidade de recuperar informações perdidas em um sistema fechado. A possibilidade de, sob determinadas condições, os sistemas quânticos poderem ser manipulados para retornar a um estado anterior levanta questões sobre como o universo funciona e até onde a reversibilidade é possível — uma linha de pesquisa que se conecta diretamente com teorias de viagens no tempo.
 
Continua...