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segunda-feira, 20 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO (CONTINUAÇÃO)

O QUE CHAMAMOS DE DESTINO NÃO PASSA DE FÍSICA DISFARÇADA

Como vimos, a ciência ainda não se sabe se o tempo existe, se é apenas uma convenção criada para impor alguma lógica ao caos, nem se é uma estrutura, uma substância ou uma metáfora. Ainda assim, é o tempo que define nossos horários, organiza nossos dias, dita compromissos, aniversários, prazos e calendários.


Em última análise, tudo gira em torno do tempo — ou girava, já que um experimento envolvendo um relógio atômico extremamente preciso suscitou a possibilidade de estarmos errados sobre o tempo desde o começo. Mas façamos como o velho marinheiro, que durante um nevoeiro leva o barco devagar.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O primogênito do golpista perdeu de lavada para o molusco eneadáctilo no quesito tarifaço, como se viu da pesquisa Quaest, na qual o filho do pai gabaritou negativamente o questionário feito sobre o assunto. No universo da política, a avaliação também foi ruim, a começar pelo candidato que já havia reconhecido o prejuízo no pedido de adiamento para não favorecer o adversário. Quem não criticou, calou, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. 

O xamã petista ganhou esse lance, mas passou do ponto ao mandar o governo se enrolar na bandeira brasileira e tomar a frente do batalhão chamando o presidente americano para travar com ele uma "guerra de narrativas".

A pergunta que se impõe é: por quanto tempo e qual o poder que um tema de comércio exterior tem sobre a decisão do voto do eleitorado premido por dificuldades do cotidiano?

Os dois principais oponentes de hoje trocam acusações que nada têm a ver com as preocupações prioritárias da população, como segurança, combate à corrupção e serviços públicos prestados de forma razoavelmente adequada. Espera-se de candidatos sérios que respondam a essas necessidades sem recorrer aos subterfúgios fornecidos pela disputa da posse do verde-louro da flâmula nacional. 

Por outro lado, como esperar políticos sérios disputando a Presidência, se a maioria do eleitorado é apedeuta, desinformada e polarizada, e se digladia para eleger seus bandidos de estimação?


Fomos condicionados a acreditar que o tempo existe, mas não sabemos o que ele é nem tampouco conseguimos defini-lo sem usar a palavra "tempo". Nós o associamos à passagem dos segundos, à duração das coisas ou à sequência dos acontecimentos, mas essas definições se baseiam de forma indireta no próprio conceito de tempo. Curiosamente, podemos "sentir" o tempo, medi-lo e organizar nossa vida em função dele, mas não conseguimos defini-lo sem cair numa espécie de círculo vicioso lógico. 


Como você explicaria o tempo para uma entidade que nunca o vivenciou? Diria que ele mede o intervalo entre dois eventos? Essa definição faz sentido, mas o que seria esse intervalo sem o tempo, se é o tempo que organiza os acontecimentos do passado em direção ao futuro? Como se vê, diferenciar passado e futuro sem o tempo é como tentar explicar o que é esquerda sem mencionar a direita ou qualquer outro ponto de referência espacial. 


Vemos o sol nascer e se pôr todos os dias, notamos a mudança das estações, usamos relógios cada vez mais precisos, capazes de medir intervalos absurdamente pequenos, mas isso prova que o tempo realmente existe ou é apenas a forma como o nosso cérebro interpreta as mudanças ao nosso redor, ou por outra, uma espécie de ilusão convincente? Ademais, o fato de percebermos o tempo não significa que ele é um componente fundamental da realidade. Para entender isso melhor, entremos em nossa máquina do tempo e voltemos ao início do século XX, quando a teoria da relatividade demonstrou que o tempo não é absoluto, pois depende do observador.


Nosso cérebro é uma máquina incrivelmente sofisticada, que armazena memórias do passado e projeta possibilidades para o futuro. No entanto, nossa percepção do tempo está longe de ser constante: quando estamos imersos numa atividade aprazível, ele parece voar, mas quando estamos prestes a borrar as calças e ouvimos de quem está no banheiro “só um minutinho!”, esse minuto pode parecer durar uma eternidade. 


Em vez de ler o tempo diretamente, o cérebro usa mecanismos internos para estimar a passagem do tempo. Esses mecanismos não são exatamente confiáveis: quando vivemos experiências novas, intensas ou fora da rotina, o registro de mais detalhes dá a sensação de que o tempo se alonga, ao passo que na repetição do dia a dia, quando nos damos conta, a semana já acabou. Além disso, nossas experiências se tornam mais previsíveis à medida que envelhecemos, dando-nos a sensação de que o tempo passa cada vez mais depressa, mesmo que os ponteiros do relógio avancem com a mesma velocidade com que avançavam na nossa infância. 


A despeito de os dias sucederem as noites (e vice-versa) a cada doze horas, o tempo não é o mesmo em todos os lugares. Dependendo da velocidade com que duas pessoas se movem e/ou da intensidade da gravidade a que estão submetidas, elas podem experimentar a passagem do tempo de maneiras diferentes. Numa velocidade próxima à da luz, a dilatação do tempo reduz milhares de anos terrestres a poucos segundos. Além disso, a dilatação gravitacional faz com que o tempo passe mais devagar ao nível do mar do que no topo do Monte Everest (fato comprovado por relógios atômicos posicionados com uma diferença de altitude de apenas alguns milímetros, mas suficiente para detectar que o tempo passa em ritmos distintos em cada um deles).


No livro Beyond Time, o pesquisador francês Michel Siffre relata que passou dois meses numa caverna escura, sem relógio nem qualquer outra maneira de saber o tempo, que tomava o próprio pulso e contava os segundos até 120 sempre que se comunicava por rádio com a equipe de apoio, e que o tempo real, cronometrado por seu staff, era de quase 5 minutos. Sem os indicadores naturais (como nascer e pôr-do-sol), seu ciclo circadiano  passou de 24 para 48 horas, e o tempo psicológico foi reduzido à metade do cronológico. O experimento se estendeu por dois meses — que pareceram para ele menos de um.


De acordo com um estudo publicado recentemente pela Nature Reviews Neuroscience, o hipotálamo dos "atrasados crônicos" os faz subestimar o tempo necessário para chegar ao local do compromisso, já que as estimativas são baseadas no tempo gasto para realizar a mesma tarefa no passado, e essas memórias nem sempre são precisas. Ademais, o estado emocional negativo nos dá a sensação de que o tempo está passando mais devagar, e o positivo, a sensação oposta. 


No auge da pandemia da Covid, muitas pessoas queriam "acelerar o tempo" para retomarem a "vida normal". Como emoção e motivação estão interligadas, o tempo pareceu passar ainda mais devagar — quanto maior a motivação, mais acentuada a mudança na percepção de tempo. Enquanto a sensação de aceleração tende a facilitar as conquistas, a desaceleração costuma evitar que demoremos muito em situações potencialmente prejudiciais. Quanto mais o tempo "demora a passar" numa situação de medo, por exemplo, mais rapidamente agimos para nos livrarmos do perigo.


Vale destacar que “ganhar tempo” ou “perder tempo” é um erro de perspectiva. O tempo não é uma moeda que podemos guardar ou desperdiçar, ele simplesmente passa, e tentar “economizá-lo” fazendo várias coisas simultaneamente (multitasking) nos leva a “perder” mais tempo do que se realizássemos uma atividade por vez. Dizem que as mulheres até conseguem, mas eu, particularmente, acho que isso não passa de folclore.


Pensamos no tempo como algo externo, mas ele é um conceito profundamente enraizado em nossa mente. Todos temos um "relógio interno" que regula o sono, a fome e a energia ao longo do dia, e é regulado pelo tempo. Alterá-lo trabalhando à noite ou dormindo em horários irregulares, por exemplo, afeta nossa saúde e compromete nosso bem-estar. Até a invenção da escrita, media-se o tempo com base em fenômenos naturais sazonais; mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias e os egípcios criaram um calendário lunar baseado na estrela Sirius. No final do século XVI, o calendário Juliano foi substituído pelo modelo Gregoriano, que atualmente é adotado pela maioria dos países.


Na maioria das línguas, o passado é descrito como algo que ficou para trás, e o futuro, como algo que está sempre mais adiante. Mas até o idioma e o sistema de escrita (da esquerda para a direita ou vice-versa) fazem diferença. No inglês, as distâncias percorridas são usadas para explicar a duração dos eventos; no grego, o fluxo temporal é percebido como um volume crescente, não como distância física.

Para a física moderna, no entanto, a ideia de que o passado deixou de existir e o futuro ainda não aconteceu pode ser apenas uma limitação dos nossos sentidos. É aqui que entra o conceito do Universo em Bloco: imagine que a realidade é como evento filmado em película: embora nós, os personagens, só consigamos ver um frame por vez (o presente), o rolo inteiro — com o início, o meio e o fim — já está lá, impresso e estático.

Nessa perspectiva, o tempo não flui; ele simplesmente é. O nascimento de uma estrela, sua primeira xícara de café e o último suspiro do universo coexistem em uma estrutura quadridimensional de espaço-tempo. Se isso for verdade, o "agora" não passa de uma coordenada, como o número de uma página em um livro que já foi escrito. O destino, portanto, deixaria de ser uma escolha ou uma maldição para se tornar uma propriedade geométrica da realidade

Em face do exposto, atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede — sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo. Brincadeiras à parte, talvez não seja o tempo que passa por nós — nós é que passamos por ele como grãos de areia entre as câmaras de uma ampulheta. Ou talvez a forma como o sentimos seja em grande parte uma construção da nossa mente.


Continua…

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

O TEMPO, A CAUSALIDADE E A CIGANA

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM, E O TEMPO RESPONDEU AO TEMPO QUE NÃO TEM TEMPO PRA DIZER AO TEMPO QUE O TEMPO DO TEMPO É O TEMPO QUE O TEMPO TEM.

 

O fruto mais cobiçado — e ainda inalcançado — da “árvore Relatividade” são as viagens no tempo, e um dos aspectos mais intrigantes do tempo é a diferença com que ele passa para observadores que se deslocam a velocidades distintas. Quando observarmos o relógio, vemos o ponteiro dos segundos avançar num ritmo constante, como um rio que corre para o mar, mas a velocidade desse "rio do tempo" é inversamente proporcional à nossa. 

 

Se não nos demos conta disso, é porque as velocidades que vivenciamos no dia a dia são ínfimas. Num carro a 180 km/h, a dilatação temporal é imperceptível, mas os relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra a 14 mil km/h adiantam 38 microssegundos por dia, tornando o efeito mensurável. Se fosse possível viajar a uma velocidade próxima à da luz, um segundo no referencial do viajante representaria anos no tempo terrestre (como bem ilustra o paradoxo dos gêmeos). 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Sujos e mal lavados se uniram para organizar uma fila de votações onde a sem-vergonhice, encabeçada pela PEC da blindagem, foi acomodada adiante do interesse público. O texto realiza os sonhos de parlamentares encrencados condicionando prisões em flagrante e abertura de ações penais no STF ao aval da Câmara e do Senado. Se forem presos em flagrante por algum crime inafiançável, poderão ser soltos pelo próprio Congresso em 24 horas, e seus benfeitores ficarão protegidos da opinião pública, já que a votação é secreta. 

No melhor estilo uma mão suja a outra, a facção bolsonarista do Legislativo concordou com a prioridade do Centrão mediante o compromisso de que, na sequência, seja votado um pedido de urgência para uma vergonhosa PEC da anistia que inclua o ex-presidente golpista. Para fechar o ciclo de desfaçatez, o PL indicou o lesa-pátria filho do pai como líder da minoria na Câmara. Homiziado na cueca de Trump desde fevereiro, Dudu Bananinha simularia o exercício da liderança à distância, livrando-se da cassação do mandato por excesso de faltas. 

De acinte em acinte, suas insolências transformam a política num outro ramo do crime organizado. Mas é importante lembrar que a culpa é de quem repete nas urnas a cada dois anos, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez por curiosidade. A quem tem ao menos dois neurônicos funcionais, fica a recomendação: Vote nas putas; votar nos filhos delas não funcionou.

 

Consideramos o tempo como o pano de fundo de uma sucessão de eventos que fluem numa direção preferencial. Segundo o princípio da causalidade (não confundir com “casualidade”), as causas sempre precedem as consequências. O que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o que acontece hoje influencia o que acontecerá amanhã. Ainda assim, nossa percepção da passagem do tempo depende de diversas variáveis. Para quem está a ponto de borrar as calças e ouve de quem está no banheiro o tradicional “só um minuto!”, esse minuto parecerá a antessala da eternidade.

 

À medida que envelhecemos, nossas experiências se tornam mais previsíveis. Isso nos dá a sensação de que o tempo está passado cada vez mais depressa, a despeito de os ponteiros do relógio avançarem com a mesma velocidade com que avançavam na nossa infância. No entanto, mesmo que os dias e as noites se sucedem a cada doze horas, o tempo não é o mesmo em todos os lugares.

 

Numa hipotética espaçonave a 99,9999999% da velocidade da luz, a dilatação temporal reduziria milhares de anos terrestres a poucos segundos. Já a dilatação gravitacional do tempo faz com que o tempo passe mais devagar ao nível do mar do que no topo do Everest (fato comprovado por relógios atômicos posicionados a alturas diferentes, mesmo quando diferença é de apenas alguns milímetros).

 

Para entender como os ciclos de sono, alimentação e produtividade são afetados pela referência das horas, o pesquisador francês Michel Siffre passou dois meses numa caverna escura, sem relógio nem qualquer outra maneira de saber o tempo. A única fonte de luz disponível era uma lâmpada de mineração, que ele usava para cozinhar, ler e escrever em um diário pessoal. 


No livro Beyond Time, lançado em 1964, ele relatou que tomava o próprio pulso e contava os segundos até 120 sempre que se comunicava por rádio com a equipe de apoio, mas o tempo real cronometrado por seu staff era de quase 5 minutos. Sem os indicadores naturais (como nascer e pôr-do-sol), seu ciclo circadiano  passou de 24 para 48 horas, e o tempo psicológico foi reduzido à metade do cronológico. O experimento se estendeu por dois meses, que para ele pareceram menos de um.

 

Estudos recentes apontam que até o idioma e o sistema de escrita (da esquerda para a direita ou vice-versa) fazem diferença. Na maioria das línguas, o passado é descrito como algo que ficou para trás, e o futuro, como algo que está sempre mais adiante, mas no idioma falado pelos índios Aimarás ocorre o contrário. No inglês, as distâncias percorridas são usadas para explicar a duração dos eventos; no grego, o fluxo temporal é percebido como um volume crescente, não como distância física. 
 

Uma vez que o idioma pode se infiltrar em nossas emoções e percepção visual, aprender uma nova língua nos "sintoniza" com dimensões sensoriais até então desconhecidas. De acordo com um estudo publicado pela Nature Reviews Neuroscience, o hipotálamo dos "atrasados crônicos" funciona de modo a fazê-los subestimar o tempo necessário para chegar ao local do compromisso, uma vez que as estimativas são baseadas no tempo gasto para realizar a mesma tarefa no passado, e essas memórias nem sempre são precisas. 


O estado emocional também contribui: o negativo nos dá a sensação de que o tempo está passando mais devagar, e o positivo, a sensação oposta. No auge da pandemia da Covid, muitas pessoas queriam "acelerar o tempo" para retomarem a "vida normal". Como emoção e motivação estão interligadas, o tempo pareceu passar ainda mais devagar. Quanto maior a motivação, mais acentuada a mudança na percepção de tempo, e tanto a percepção de aceleração quanto de desaceleração temporal atuam sobre a maneira como alcançamos determinados objetivos.

 

Enquanto a sensação de aceleração tende a facilitar as conquistas, a desaceleração costuma evitar que demoremos muito em situações potencialmente prejudiciais — quanto mais o tempo "demora a passar" numa situação de medo, por exemplo, mais rapidamente agimos para nos livrarmos do perigo. Mas vale destacar que “ganhar tempo” ou “perder tempo” é um erro de perspectiva: o tempo não é uma moeda que podemos guardar ou desperdiçar, ele simplesmente passa, e tentar “economizá-lo” fazendo várias coisas simultaneamente (multitasking) nos leva a “perder” mais tempo do que se realizarmos uma atividade por vez. 

 

Observação: Traçar um paralelo entre o cérebro humano e a CPU (sigla de Central Processing Unity, que designa o processador principal do computador, embora muita gente a utilize equivocadamente para se referir ao “case” — ou gabinete — dos desktops) faz sentido, mas os computadores são “multitarefa” e nós, não. Dizem que as mulheres até conseguem, mas eu acho que isso não passa de folclore.

 

Pensamos no tempo como algo externo, mas ele é um conceito profundamente enraizado em nossa mente. Todos temos um "relógio interno" que regula o sono, a fome e a energia ao longo do dia. Ou seja, nosso relógio biológico é regulado pelo tempo, e alterá-lo — trabalhando à noite ou dormindo em horários irregulares — afeta nossa saúde e compromete nosso bem-estar.

 

Até a invenção da escrita, o tempo era medido com base em fenômenos naturais sazonais. Mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias e os egípcios criaram um calendário lunar baseado na estrela Sirius. No final do século XVI, o calendário Juliano foi substituído pelo modelo Gregoriano, que atualmente é adotado pela maioria dos países. Mas não é o tempo que passa; nós é que passamos por ele como areia entre as câmaras de uma ampulheta. 

 

Atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede, e sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo. Por falar nisso, consta que Bolsonaro consultou uma cartomante para saber se sua tentativa de golpe daria certo, e foi instruído a cortar o baralho, dividir em cinco montes e virar uma carta de cada. O resultado foi uma sequência de reis: KKKKK (para entender melhor, observe a figurinha que ilustra esta postagem).  

quarta-feira, 7 de maio de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 25ª PARTE

TEM MUITA TESTA OLEOSA POR AÍ SE ACHANDO MENTE BRILHANTE.
 

Enquanto as religiões se apegam a dogmas milenares, a ciência parte do possível para explorar o impossível e, por meio de experimentos, converte dúvidas em descobertas.


À medida que a fronteira entre o imaginado e o comprovado se expande, incertezas viram convicções, e o que era verdade ontem pode deixar de sê-lo amanhã.


Einstein demonstrou que o impossível é apenas uma questão de tempo; Carl Sagan, que a ausência de evidências não é evidência de ausência; e Arthur C. Clarke, que desafiar limites é o único caminho para superá-los. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Sob uma ótica estritamente política, o país virou uma espécie de centro terapêutico para tratar as neuroses de Bolsonaro.

Bolsonaro teve alta hospitalar no domingo, mas continua na UTI da política. Em casa, ele evolui da dieta líquida para a alimentação pastosa; no Congresso e no Supremo, continua mastigando o pão que o diabo amassou. 

Segundo os médicos, o paciente logo voltará à "vida normal"; politicamente, até os aliados avaliam que ele será condenado à prisão antes do final do ano.

Numa entrevista de porta de hospital, o capetão atacou Alexandre de Moraes e convocou os devotos para mais uma manifestação pró-anistia, desta vez em Brasília. Mas o ataque se torna um esporte inútil para quem não dispõe de defesa. 

Já não há ato em favor da anistia capaz de deter no Congresso o avanço do projeto de lei que abre a cela da multidão do 8 de janeiro sem retirar o ex-presidente golpista e seus cúmplices do rumo da tranca.

Curiosamente, a saúde de Bolsonaro interessa aos aliados, que o querem como cabo eleitoral, e aos rivais, que o querem saudável para que seja preso. 

Viagens no tempo são um tema recorrente na ficção desde 1895, quando H.G. Wells publicou A Máquina do Tempo. Durante décadas, a ideia foi rejeitada pelos cientistas, mas bastaram 104 anos para a Apollo 11 transformar em realidade o que Júlio Verne teorizou (profetizou?) em 1865, no romance de ficção Da Terra à Lua. E a história está repleta de casos semelhantes.

Apesar de toda a evolução tecnológica havida nos últimos séculos, ainda não foi possível transformar uma espaçonave em máquina do tempo, já que isso exigiria alcançar a velocidade da luz — que, segundo a teoria da relatividade e a física moderna, é o limite máximo permitido no Universo. A possibilidade de viajar para o futuro é admitida há décadas pela maioria dos físicos teóricos, mas nem tudo que é matematicamente possível pode ser realizado na prática.

Antes da relatividade (especial e geral), o tempo era considerado absoluto e universal. Mas Einstein demonstrou que a duração entre dois eventos depende do movimento do observador — o que é ilustrado magistralmente pelo famoso paradoxo dos gêmeosNos voos comerciais, a dilatação do tempo é da ordem de nanossegundos, mas os relógios atômicos confirmam experimentalmente que o movimento tem, de fato, um impacto mensurável na passagem do tempo. 

Observação: Em grandes aceleradores de partículas, múons podem ser acelerados a velocidades próximas à da luz, e seus decaimentos ocorrem em "câmera lenta", ratificando as previsões de Einstein. Em outras palavras, viajar para o futuro — ainda que em frações ínfimas — é um fato comprovado.

Outra forma de alterar a passagem do tempo é por meio da gravidade: quanto mais intensa ela é, mais devagar o tempo flui. No nível do mar, a força gravitacional é maior do que no cume do Everest e, portanto, os relógios andam ligeiramente mais devagar. A diferença é mínima, mas já foi medida em experimentos nos quais pesquisadores posicionaram relógios atômicos extremamente precisos em diferentes altitudes. E o mesmo princípio se aplica ao sistema GPS, cujos satélites precisam corrigir constantemente os efeitos da dilatação temporal para manter a precisão.

Na superfície de uma estrela de nêutrons, a força gravitacional é extrema, e o tempo flui cerca de 30% mais lentamente em relação à Terra. Já em um buraco negro, o tempo praticamente congela em relação a um observador externo. Mas voltar ao passado é um desafio muito maior. 

Em 1948, o matemático e físico Kurt Gödel apresentou uma solução para as equações da relatividade geral que descrevia um universo em rotação, onde se poderia viajar ao passado — e, consequentemente, no tempo, já que espaço e tempo são indissociáveis — percorrendo um caminho fechado no espaço. Embora seja considerada apenas como uma curiosidade matemática, já que não há evidências de que nosso Universo esteja girando, essa ideia mostrou que a relatividade geral, por si só, não proíbe explicitamente a viagem ao passado, mas o problema está em encontrar um meio prático de fazer isso acontecer, a despeito dos efeitos relativísticos que impactam o tempo, o espaço e a massa — sem falar nos paradoxos temporais.

Os buracos de minhoca foram teorizada por Einstein, mas sua existência ainda não foi comprovada experimentalmente. Acredita-se que eles encurtem a distância entre dois pontos, neste ou em outro universo, no presente ou em outro momento da linha do tempo. O problema é que a rapidez com que eles aparecem e desaparecem os torna inatravessáveis. Alguns cientistas acreditam que seria possível estabilizá-los com uma infusão de energia negativa produzida por meios quânticos — como o chamado Efeito Casimir —, já que a energia negativa os impediria de atingir densidade infinita — ou quase infinita — e se transformarem em buracos negros.

Em 1974, o físico, matemático e cosmólogo Frank Tipler calculou que um cilindro maciço e infinitamente comprido, girando em torno de si mesmo a velocidades próximas à da luz, permitiria vislumbrar o passado — puxada em torno dele, a luz descreveria trajetórias fechadas no espaço-tempo.

Em meados dos anos 1980, um dos cenários mais plausíveis para a existência de uma máquina do tempo foi baseado no conceito dos buracos de minhoca e em conformidade com a teoria da relatividade geral, que estabelece que a gravidade distorce tanto o espaço quanto o tempo. Em teoria, esses atalhos no tecido do espaço-tempo poderiam conectar dois pontos distantes no espaço e no tempo. 

A proposta ganhou destaque com os trabalhos do físico Kip Thorne e colaboradores, que demonstraram a possibilidade de estabilizar um buraco de minhoca utilizando matéria exótica com energia negativa, tornando viável, em princípio, a criação de um percurso temporal fechado. Em 1991, o escritor e astrofísico Richard Gott sugeriu que cordas cósmicas — estruturas extremamente finas e densas que teriam se formado nos primeiros instantes após o Big Bang — também poderiam criar distorções significativas no espaço-tempo. 

Se essas cordas se movessem a velocidades próximas à da luz e passassem uma pela outra em ângulos específicos, elas poderiam gerar uma configuração que permitisse voltar no tempo. A hipótese é altamente especulativa, mas também se apoia na relatividade geral e contribui para o campo das possíveis soluções matemáticas para as chamadas curvas fechadas de tipo tempo — trajetórias que retornam ao próprio passado.

Um buraco de minhoca foi usado por Carl Sagan no romance Contato (1985) — o filme baseado no livro também é muito bom. Incentivados por Sagan, Thorne e seus colegas do Instituto de Tecnologia da Califórnia verificaram se esses atalhos cósmicos poderiam existir sem violar as leis da física e concluíram que eles poderiam se comportar como buracos negros — só que, em vez de aprisionar a matéria, permitiriam um trajeto entre diferentes regiões do espaço-tempo.

Continua...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 59ª PARTE

O CORAÇÃO TEM RAZÕES QUE A PRÓPRIA RAZÃO DESCONHECE. 

 

Até as equações relativísticas de Einstein demonstrarem que o espaço e o tempo formam uma estrutura inseparável (espaço-tempo) e que o tempo pode se dilatar e se contrair ao sabor da velocidade e da gravidade, achava-se que o fluxo temporal ocorria como um rio corre da nascente para a foz, não obstante a localização e a velocidade do presso. 


CONTO DEPOIS DA POLÍTICA


O primogênito de Bolsonaro abriu a porta do hospício. Sabendo-se inviável, Flávio se autoproclamou presidenciável predileto do pai na sexta-feira. No sábado, já tinha virado uma piada. No domingo tornou-se uma chantagem: "Eu tenho um preço."

No mercado da política, quem não tem valores sempre tem um preço. A questão é sabe se tem quem compre. O Datafolha sinaliza que a maioria do eleitorado acha que a anistia cobrada por Flávio Bolsonaro para desistir de sua pseudocandidatura presidencial é uma mercadoria cara demais.

Para 54% dos eleitores, a prisão de Bolsonaro é justa. Pode-se intuir que a maioria do eleitorado considera injusta uma anistia que abra a cela do chefe da organização criminosa do golpe. Metade dos brasileiros diz que jamais votaria em alguém indicado pelo condenado. E apenas 8% acham que Flávio é o melhor nome para ser apoiado pelo pai.

Ou seja: Bolsonaro deve continuar preso. Mas seu primogênito abriu a porta do hospício. Sabendo-se inviável, Flávio se autoproclamou presidenciável predileto do pai na sexta-feira. No sábado, já tinha virado uma piada. No domingo tornou-se uma chantagem: "Eu tenho um preço."

No mercado da política, quem não tem valores sempre tem um preço. A questão é sabe se tem quem compre. O Datafolha sinaliza que a maioria do eleitorado acha que a anistia cobrada por Flávio Bolsonaro para desistir de sua pseudocandidatura presidencial é uma mercadoria cara dera 54% dos eleitores, a prisão de Bolsonaro é justata.

 

Devido à dilatação do tempo — ilustrada magistralmente pelo Paradoxo dos Gêmeos e comprovada experimentalmente pelos relógios atômicos dos satélites — o tempo passa mais devagar conforme a velocidade do observador aumenta, mas esse efeito só é significativo em velocidades próximas à da luz. Se ele parece passar mais rápido quando estamos ocupados, é porque nossa percepção da realidade é influenciada pelo que estamos fazendo e por nossa concentração na tarefa. Se estivermos prestes a borrar as calças e ouvirmos de quem está no banheiro o inevitável "só um minutinho!", esse minuto nos parecerá uma eternidade. 

 

A ideia de que a seta do tempo é unidirecional surgiu no século XIX, com base nas leis da termodinâmica e no princípio da entropia. Em 1927, o astrofísico Arthur Eddington observou que a maioria dos processos físicos no nível macroscópico parecem ter uma direção preferencial, e concluiu que a seta do tempo aponta sempre para o futuro. À luz desse pressuposto, os eventos ocorrem de forma irreversível, mas o que define a passagem do tempo no Universo não é o aumento da entropia, e sim a expansão do tecido do cosmos em todas as direções.

 

A Teoria da Relatividade dá azo à possibilidade de deformar o espaço-tempo e viajar ao passado, mas Stephen Hawking pondera que essa deformação poderia causar um raio de radiação capaz de destruir a espaçonave e o próprio espaço-tempo. No livro Uma Breve História do Tempo (1988), ele anotou que a seta do tempo pode ser entendida de diferentes maneiras em diferentes áreas, e que as leis da física não proíbem sua inversão em determinados contextos — no nível quântico, alguns fenômenos subatômicos exibem simetria temporal, sugerindo que os processos podem ocorrer em ambas as direções temporais. Ademais — e isso sou eu quem está dizendo —, o tempo negativo já deixou de ser um conceito eminentemente teórico (clique aqui para mais detalhes).

 

Em 2009, Hawking deu uma festa na Universidade de Cambridge, pendurou um grande banner com os dizeres "bem-vindos, viajantes no tempo", enviou os convites no dia seguinte e ficou esperando os viajantes do futuro. No capítulo Viagem no tempo da série Into the Universe with Stephen Hawking, ele comentou: "Que lástima! Eu gosto de experiências simples e... champanhe. Então, combinei duas das minhas coisas favoritas para ver se a viagem do futuro para o passado é possível, mas ninguém apareceu". 

 

A possibilidade de viajantes do tempo terem estado entre nós levou dois físicos americanos a vasculhar a Web em busca de conteúdos que só poderiam ter sido publicados por quem tivesse conhecimento prévio de eventos ainda não ocorridos. Segundo os pesquisadores, referencias inequívocas não foram encontradas devido à amplitude limitada da busca, à impossibilidade de os viajantes deixarem rastros duradouros — inclusive digitais — ou de leis da física ainda desconhecidas impedirem qualquer forma de comunicação entre diferentes linhas temporais.

 

No romance Contato, o astrofísico e cosmólogo Carl Sagan ensinou que "ausência de evidência não é evidência de ausência" — referindo-se à possibilidade de existir vida alienígena. "Se formos só nós, um universo que se estende por todos os lados por 46,5 bilhões de anos-luz (cerca de 440 sextilhões de quilômetros) é um imenso desperdício de espaço", ponderou o astrofísico. A propósito, o filme baseado no livro também é excelente.

 

Lá pela virada do século, alguém com o nickname "TimeTravel_0" escreveu em um chat IRC (sistema de bate-papo baseado em texto) que viera de 2036 a 1975 para conseguir um IBM 5100 — necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o Efeito 2038, que causa falhas em sistemas que usam contagem de tempo em segundos a partir de 1970. Em outras postagens, ele detalhou seus deslocamentos temporais, postou desenhos esquemáticos do projeto e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades positivas girando no topo", além de revelar que o CERN descobriria como viajar no tempo em 2001, e que máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. 

 

A guerra civil que profetizou para 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial — que teria início em 2015 e dividiria EUA em cinco países —, mas a "doença da vaca louca" aporrinhou pecuaristas nos anos seguintes, e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. Ele desapareceu dos fóruns em março de 2001, deixando uma frase misteriosa ("traga uma lata de gasolina com você quando seu carro morrer na estrada"). O IBM 5100 foi lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, mas causa espécie o desaparecimento misterioso de uma unidade rara, dotada de uma interface que permitia acessar todos os códigos da empresa, que foi reconhecido pela própria Big Blue.

 

Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o tal viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de "John Titor Foundation", onde Larry era registrado como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida. Para os teóricos da conspiração, as previsões não falharam, apenas deram a abertura temporal para que o viajante conseguisse corrigi-las antes que ocorressem. 

 

O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, já que o "modelo Everett-Wheeler da física quântica" estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo — a original (vivida por ele) e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado (lembrando que, segundo a Interpretação de Muitos Mundos, cada vez que ocorre um evento quântico que pode ter múltiplos resultados, o universo se divide em tantos universos quantos forem os resultados possíveis. 

Observação: Talvez tudo isso não passe de uma fraude, mas, se for, quem a criou sabia muito bem do que estava falando. Além disso, ninguém jamais reivindicou a autoria da brincadeira, e muitas questões levantadas pelo suposto viajante permanecem sem resposta. A quem interessar possa, nos sites John Titor TimesJohn Titor’s Story e Anomalies é possível ler todas as postagens na íntegra.