O TEMPO É UMA ILUSÃO; ELE SÓ EXISTE PARA QUE TUDO NÃO ACONTEÇA MAIS DE UMA VEZ.
Interrompi o capítulo anterior lembrando que viajar no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade, que as leis da física não impedem as viagens para o futuro — se ainda não o fizemos, foi por não dispormos da tecnologia necessária — e que voltar ao passado é um pouco mais complicado.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
A convenção nacional do PL, realizada em São Paulo no último sábado, foi convertida numa antiapoteose que subverteu a lógica. O protagonista do evento não foi o então pré-candidato do partido à Presidência, mas o progenitor do stronzino, que roubou a cena no evento inaugural da campanha do filho na forma de um clone virtual.
O uso da inteligência artificial expôs a ignorância natural do marketing bolsonarista. O primogênito do preso inelegível foi formalizado na pajelança partidária não como candidato à Presidência da República, mas como um fantoche do pai.
"Nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que despertamos", disse a versão digital de Bolsonaro, exibida aos devotos num telão. "Nenhuma prisão vai calar os milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio."
O suposto candidato ecoou o pai em seu discurso: "Eu posso ser mais calmo, mais sorridente, mais tranquilo e moderado, mas aqui tem sangue de Bolsonaro", vociferou. "E sabe o que a gente vai fazer? O Brasil foi sequestrado e a gente vai libertar o nosso país desse cativeiro. Em janeiro de 2027, Jair Bolsonaro vai subir aquela rampa do Planalto junto com a gente".
Ao assumir o papel de refém dos interesses de Bibo Pai, Bobi Filho atirou contra os próprios pés de barro, expostos no Datafolha divulgado na noite da véspera. A pesquisa mostrou que os votos do eleitor de centro, vitais para o desfecho de uma sucessão polarizada, escorrem gradativamente para o cesto de Lula.
Além de suas contribuições fundamentais sobre buracos negros e a origem do universo, Stephen Hawking era conhecido por seu humor afiado e sua mente provocadora. Ao meio-dia de 28 de junho de 2009, visando testar a possibilidade da viagem ao passado, ele organizou uma festa na Universidade de Cambridge, com direito a decoração caprichada, champanhe, petiscos e uma grande faixa com os dizeres "Bem-vindos viajantes do tempo". No dia seguinte, publicou os convites em jornais e na internet. A lógica era simples e elegante: se em algum ponto do futuro a viagem ao passado se tornasse possível, então viajantes do tempo poderiam retornar àquela data específica e comparecer à festa. Mas ninguém apareceu.
Esse fracasso, como o próprio Hawking ironizou, levou-o a concluir que, ou não é possível retornar ao passado, ou eventuais viajantes do tempo egressos do futuro preferem não se revelar, seja para evitar paradoxos, seja para não interferir na linha do tempo. Uma terceira possibilidade é a impossibilidade de viajar para um passado anterior à criação da primeira máquina do tempo.
Para entender isso melhor, pense nessa hipótese como um videogame. Você pode carregar um save antigo, mas não pode voltar para um ponto anterior ao momento em que o primeiro arquivo foi criado. Seguindo essa lógica, se uma máquina do tempo for inventada em 2100, nenhuma viagem poderia ir além desse ponto — até porque simplesmente não haveria onde pousar.
Foi refletindo sobre esses dilemas que Hawking propôs a chamada conjectura da proteção cronológica. Segundo essa ideia, as próprias leis fundamentais da física impediriam a existência de loops temporais fechados. Sempre que uma situação propiciasse uma viagem ao passado, efeitos quânticos extremos surgiriam, tornando o espaço-tempo instável e impedindo que o processo se completasse.
Em outras palavras, o universo teria um mecanismo de segurança embutido — o que faz sentido quando lembramos que o princípio da causalidade — uma das pedras fundamentais da realidade — evita a formação de paradoxos temporais.
Ainda assim, alguns físicos se aventuraram a explorar brechas teóricas. Entre os mais conhecidos estão a dupla Kip Thorne e Michael Morris, que investigou a possibilidade de viajar no tempo através dos chamados buracos de minhoca. Sob condições específicas, esses túneis hipotéticos que ligam regiões distantes do espaço-tempo poderiam ser atravessados, permitindo uma viagem ao passado (já tratamos desse assunto em dezenas de postagens, como se pode conferir pesquisando o blog a partir dos respectivos termos-chave).
O problema é que a criação de buracos de minhoca exige formas exóticas de matéria e efeitos quânticos que, até onde sabemos, ou não existem ou são impossíveis de controlar — daí a maioria dos físicos concordar que esses cenários permanecem no campo da especulação, fascinantes em teoria, mas inalcançáveis na prática.
Seja como for, uma coisa é certa: o tempo está no coração da nossa existência, não obstante quão raramente paramos para refletir sobre sua verdadeira natureza.
Compreender o tempo talvez seja encarar um dos mistérios mais profundos do universo. Segundo a relatividade, o tempo não é uma dimensão rígida e congelada, mas dinâmica e flexível, moldada pela velocidade e pela gravidade. Cada um de nós percorre sua própria trajetória no espaço-tempo, numa linha única influenciada pelo movimento e pelo ambiente ao redor.
Note que essa ideia carrega um certo desconforto: se cada experiência do tempo é única, então passado, presente e futuro se organizam de forma diferente para cada observador. Em outras palavras, cada um de nós vive sozinho dentro de sua própria linha de universo.
Não custa reforçar que nossa tecnologia avançou mais nos últimos 150 anos do que desde a invenção da roda até a Revolução Industrial.
Que Pedro Álvares Cabral e sua trupe levaram 44 dias para cruzar o Atlântico no alvorecer do século XVI - e que, 500 anos depois, o supersônico Concorde fazia a mesma viagem por ar em pouco mais de 3 horas.
Que Leonardo da Vinci concebeu seu "parafuso aéreo" cinco séculos antes daquilo que hoje conhecemos como "helicóptero" fazer seu voo inaugural.
Que Júlio Verne profetizou a viagem tripulada à Lua um século antes da alunissagem da Apollo 11.
Que cientistas renomados foram tratados com desdém até suas ideias inovadoras serem comprovadas.
Em suma aquilo que ontem era visto como feitiçaria passou a ser ciência.
Doze astronautas norte-americanos pisaram na Lua entre 1969 e 1972, mas a primeira viagem tripulada a Marte ainda não saiu do papel. Em parte porque, com a tecnologia atualmente disponível, ir da Terra ao planeta vermelho leva de 6 a 9 meses, e para que a geometria orbital permitisse que a viagem de volta fosse feita nesse mesmo tempo, seria preciso permanecer em Marte de 14 a 20 meses. Mas não há nada como o tempo para passar…
Uma equipe de pesquisadores liderada pelo astrônomo e pesquisador de mecânica orbital Marcelo de Oliveira Souza descobriu uma forma de usar dados preliminares de asteroides próximos da Terra como modelos geométricos para projetar trajetórias interplanetárias de alta velocidade para Marte. Assim, de acordo com o estudo publicado na revista científica Acta Astronáutica, uma missão de ida e volta ao Planeta Vermelho pode ser concluída em apenas 153 dias.
A origem dessa descoberta está no asteroide 2001 CA21. Ao analisarem os cálculos orbitais iniciais desse corpo celeste, os pesquisadores detectaram que suas trajetórias preliminares traçaram uma espécie de portal secreto que se cruzaria com as zonas de influência orbital da Terra e de Marte durante a oposição de outubro de 2020.
Embora medições subsequentes tenham refinado a órbita do asteroide, o valor científico do estudo reside em demonstrar que essas trajetórias iniciais, frequentemente consideradas ruído na comunidade astronômica, funcionam como um mapa estrutural para identificar corredores de transferência rápida.
A pesquisa analisou três janelas de oposição marciana: 2027, 2029 e 2031. A partir dessa análise, 2031 emergiu como a oportunidade mais promissora para a realização desse tipo de missão. Nessa configuração geométrica, uma espaçonave poderia partir da Terra em 20 de abril de 2031, chegar a Marte em 23 de maio, permanecer na superfície por 30 dias e iniciar sua viagem de retorno em 20 de setembro.
Para validar essas rotas, utilizou-se um solucionador de problemas de Lambert — ferramenta clássica em mecânica orbital —, que restringiu a inclinação da espaçonave ao plano de referência do asteroide. No entanto, os autores do estudo são cautelosos em relação aos desafios tecnológicos atuais.
A rota ultrarrápida, que completaria a jornada em apenas 33 dias, exigiria velocidades de partida de 32,5 km/s e uma velocidade de chegada a Marte de 108.000 km/h. Esses números superam em muito as capacidades dos atuais sistemas de pouso e proteção térmica, colocando essa abordagem em um âmbito puramente teórico que exigiria propulsão nuclear térmica ou elétrica avançada.
A possibilidade de reutilizar informações de corpos menores como uma bússola interplanetária poderia acelerar os planos de exploração no longo prazo, desde que a tecnologia de propulsão consiga atingir os marcos energéticos que essas novas trajetórias exigem para garantir a segurança de uma tripulação humana.
Continua…