quarta-feira, 25 de março de 2026

MOMENTO BARATA-VOA EM BRASÍLIA

SI HAY GOBIERNO, YO SOY CONTRA.

Eu tinha um conhecido que tinha um irmão que tinha uma loja que vendia guarda-chuvas. Sempre que chovia, o irmão do meu conhecido festejava: que dia lindo!!!


Por mais estranho que pareça, todo fato tem ao menos três versões (a sua, a minha e a verdadeira) e existem várias maneiras de ver as mesmas coisas. 


Se você aprecia frutas e legumes fresquinhos (ou gosta de comer pastel tomando caldo de cana), dia de feira é tudo de bom, mas se mora na rua em que os feirantes amam as barracas antes do nascer do sol, a feira é uma aporrinhação. 


A capacidade de compreender sentimentos, emoções e perspectivas dos outros colocando-se no lugar deles — ou "calçando seus sapatos" como dizem os gringos (to be em someone's shoes) — se chama empatia. Só que a maioria das pessoas vê as pingas que as outras tomam, mas não os tombos que elas levam. Enfim, cada um sabe onde lhe aperta o sapato, e quem tem calos sabe que não convém se meter em aglomerações.


Somos todos egoístas por definição. Aristóteles dizia que “o homem é um animal social porque precisa dos outros membros da espécie”. Se nossos antepassados passaram a viver em bandos para se sentirem mais seguros, mas viver em sociedade exige sobrepor os interesses coletivos aos individuais e limitar a liberdade de cada um para evitar interferências na liberdade da sociedade como um todo.


Mesmo quem aprecia a solidão não gosta de se sentir só. Mas somos incapazes de viver sós e, paradoxalmente, de viver em sociedade, pois o convívio social pressupõe a observância de regras limitadoras do nosso ser ou não-ser — como diria Drummond, é preciso instinto de formiga, dentes de leão e habilidade camaleônica.


A convivência em um meio comum implica a busca de interesses que atendam de forma equilibrada às necessidades coletivas, mas isso gera atritos entre os diversos interesses individuais presentes, que muitas vezes se revelam antagônicos e colidentes. Para pôr ordem nesse galinheiro, existem as leis — também chamadas de normas jurídicas.


Como a prostituição e os políticos, as leis são um mal necessário. Sem a imposição de limites, liberdade se confunde com libertinagem. Por outro lado, não cabe ao legislador — representante legitimado pelo voto para exercer a função de guardião da soberana vontade popular — permitir expressamente o que quer que seja, e sim proibir aquilo que conflita com os interesses da sociedade. 


Reza um velho ditado latino que "nullum crimen, nulla poena sine praevia lege" (não há crime nem pena se não houver uma lei anterior que os defina). Em outras palavras, alguém só pode ser punido se sua ação (ou omissão) constituir fato delituoso previamente tipificado pela legislação vigente.


Para entender melhor, vamos supor que Joãozinho costume peidar na igreja, e que um belo dia essa prática passa a ser tipificada — ou seja, ser vista como contravenção ou crime. A partir de então, Joãozinho estará transgredindo a lei sempre que peidar na igreja, mas não poderá ser punido pelos peidos pretéritos, já que a lei é posterior ao fato. 


A questão é que vivemos num país em que até o passado é incerto, e o eleitorado tende a repetir a cada dois anos, por ignorância e despreparo, o que Pandora fez, uma única vez, por curiosidade, ao abrir sua famosa caixa e libertar todos os males do mundo.


Os brasileiros são vocacionados a votar em candidatos que se elegem para roubar, roubam para se reeleger e, entre uma coisa e outra, cobrem com o manto parlamentar os andrajos de maus políticos e criam leis destinadas a favorecer a si próprios, a seus pares e a criminosos que podem bancar os honorários milionários de chicaneiros especializados em empurrar a decisão final dos processos ad kalendas græcas — ou até que a pretensão punitiva do Estado seja frustrada pela prescrição.


Costuma-se dizer que “se está na lei, deve ser cumprido”, mas isso não pode significar uma obediência cega, irracional e carente de qualquer senso crítico ao que está sendo imposto como forma de comportamento. É imperativo conhecer os limites de atuação do poder que obriga o cumprimento da lei e as formas de regulamentá-lo. 


Ao abrirmos mão de nossa plena e irrestrita liberdade em prol do convívio harmonioso em sociedade, aceitamos tacitamente determinadas limitações, mas desde que essas limitações atendam aos anseios dos conviventes/aderentes, satisfazendo, assim, suas pretensões. Não obstante, o que temos visto de um tempo a esta parte é: 1) um apego desenfreado à letra fria da lei; 2) o exercício da hermenêutica criativa para adequar o alcance do dispositivo legal a um caso específico, de acordo com a simpatia pessoal do julgador pelo réu ou por suas convicções político-ideológico-partidárias.


Em vez de submeter a sociedade a leis arcaicas e divorciadas da realidade, dever-se-ia revogar esses dispositivos ou, no mínimo, adequá-los aos anseios e necessidades dos cidadãos de bem. Se uma lei já não serve, muda-se a lei; se um político se elege calcado em promessas de campanha e acaba por não cumpri-las, ele deve ser prontamente substituído. A Constituição oferece remédios para mitigar esses males, mas é preciso aplicá-los em tempo hábil, sob pena de o paciente morrer antes do tratamento.


Se a delação de Daniel Vorcaro não poupar ninguém, e se não prosperarem os esforços do submundo brasiliense pára abafar as investigações, os porões do escândalo do Banco Master deve provocar um momento barata-voa na Praça dos Três Poderes e adjacências. Não será a primeira vez, e pode não ser a última.


Continua…

terça-feira, 24 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 88ª PARTE — CIÊNCIA X RELIGIÃO

A CIÊNCIA PODE EXPLICAR O UNIVERSO SEM A NECESSIDADE DE UM CRIADOR.

Depois de perder a esposa e o filho pequeno num acidente causado por um motorista embriagado, um pastor subiu ao púlpito e proferiu o sermão que lhe custou o emprego. Segue uma versão resumida da fala do religioso:


Em junho do ano passado, três pequenos tornados atingiram a cidade de May, no Oklahoma. Os danos materiais foram consideráveis, mas ninguém morreu. Quando os moradores se reuniram na igreja batista local para orar e cantar, um quarto tornado varreu a cidade, destruiu o templo, matou 41 pessoas e mutilou dezenas de outras, incluindo crianças. 


Em agosto, um homem saiu de barco com seus dois filhos e o cachorro da família pelo lago Winnipesaukee. Quando o animal caiu na água, os meninos pularam para salvá-lo e foram arrastados pela correnteza. O pai pulou atrás deles, mas acabou virando o barco. Todos se afogaram — exceto o cachorro, que conseguiu nadar até a margem. Em outubro, um furacão devastou Wilmington, na Carolina do Norte. Dez pessoas morreram, incluindo seis crianças que estavam na creche de uma igreja. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Indicado ao STF para ser "o ministro terrivelmente evangélico" que Bolsonaro havia prometido para a porção "religiosa" do seu eleitorado — uma escumalha que o fanatismo, a polarização e a cegueira mental impedem de ver as coisas como elas realmente são —, o pastor André Mendonça vestiu a suprema toga como patinho feio, mas ganhou nova plumagem ao ser agraciado pelo algoritmo da Corte com a relatoria simultânea dos dois inquéritos mais rumorosos desta banânia: o que investiga o assalto aos aposentados e o que apura as fraudes do falecido Banco Master.

Vale destacar que tanto o bolsonarismo quanto o lulopetismo são nefastos, funestos e prejudiciais para o país, e que o "mito" dos apedeutas descerebrados e o demiurgo de Garanhuns são pinga da mesma pipa, dois lados da mesma moeda… ou seja: a merda é a mesma; só mudam as moscas.

A iminente delação do ex-banqueiro que jantava com a República e ora se equipa para JANTAR A REPÚBLICA consolida uma mudança do eixo de poder no STF: as decisões mais explosivas passarão do gabinete de Moraes para o de Mendonça. E a transição tende a ser brusca, já que a merda que o caso Master jogou no ventilador acertou em cheio dois ministros da Corte (dou um doce a quem adivinhar seus nomes).

Levando a condição de cisne a sério, Mendonça terá de instar os investigadores a descobrir o que Vorcaro queria comprar quando firmou contrato de R$ 129 milhões com a banca advocatícia da família Moraes e quando pagou R$ 35 milhões à empresa de Toffoli pelas cotas de um resort.

Nesta sexta-feira, Mendonça declarou que "bom juiz não é estrela" e que não pretende ser "salvador de nada". Sete meses atrás, ele afirmou que "o bom juiz tem que ser reconhecido pelo respeito, não pelo medo". Dando-se por achado na época, Xandão rebateu: "Impunidade, omissão e covardia nunca deram certo na história para nenhum país do mundo".

Se o respeito e a coragem prevalecerem sobre o corporativismo, os magistrados terão a oportunidade de lavar a toga suja em casa. Pelo bem do Supremo e gáudio dos brasileiros de bem.


Anos antes, no Zaire, uma família de missionários que levava alimentos, remédios e o evangelho foi brutalmente assassinada — ou devorada por canibais, como sugeria a reportagem nas entrelinhas. Cristo, dizem, ascendeu aos céus em corpo e espírito. Nós, pobres mortais, ficamos aqui com pedaços de carne mutilada e uma única pergunta: Por quê? 


Leio a Bíblia desde sempre — primeiro no colo de minha mãe, depois na Juventude Metodista e na faculdade de teologia —, e afirmo que a resposta não está nas Escrituras. O que mais se aproxima dela é uma advertência de São Paulo: Não perguntem, irmãos, porque vocês não entenderão. E quando Jó questionou o próprio Deus, recebeu uma resposta ainda mais dura: Onde estavas tu quando eu fundava a Terra? 


Deus é nossa vara e nosso cajado, proclama o grande salmo, e nos guiará no Vale da Sombra da Morte. Outro salmo O descreve como refúgio e fortaleza. A religião deveria ser nosso conforto nas horas mais sombrias, mas o que diriam as pessoas que morreram na igreja de Oklahoma? E aquela família que se afogou tentando salvar seu cachorro? A Bíblia nos exorta a aceitar tudo com fé, como se a vida fosse uma piada cósmica, e o Céu, o lugar onde a moral da história será finalmente revelada.


Quando pesquisei sobre as várias vertentes religiosas, fiquei perplexo com a quantidade. Católicos, metodistas, episcopalianos, mórmons, anglicanos, luteranos, presbiterianos, adventistas do sétimo dia, ortodoxos gregos, quacres, muçulmanos, budistas, judeus, hindus, e por aí vai.


Todas alegam ter linha direta com o Todo-Poderoso, mas muitas delas foram construídas sobre sangue e ossos dos que se recusaram a aceitar a ideia de Deus que elas pregam. Romanos atiraram cristãos aos leões; cristãos mutilaram e queimaram hereges; Hitler sacrificou milhões de judeus ao falso deus da pureza racial; outros milhões de seres humanos foram eletrocutados, enforcados, esquartejados e envenenados... tudo em nome de um deus.


O que ganhamos com nossa fé? A promessa de que o Céu nos espera, e que lá, finalmente, tudo fará sentido? Desde a infância, nos ensinam sobre o Céu como recompensa e o Inferno como castigo. Céu, Céu, Céu!, repetem. Prometem o reencontro com nossos pais, o abraço de nossas mães falecidas. Mas o Paraíso é a cenoura, e o Inferno, a vara. Ameaçamos nossas crianças com o fogo eterno por roubarem uma bala ou mentirem, mas não existe prova alguma disso, apenas uma certeza cega de que tudo tem um propósito.


A religião é como um golpe de seguro: pagamos o prêmio e não temos como reclamar quando descobrimos que a empresa que levou nosso dinheiro não existe. Viemos do mistério e ao mistério retornaremos; se existe algo além, dificilmente será o deus das igrejas."


A morte é a única certeza que temos na vida, mas o que acontece depois — caso realmente exista um "depois" — intriga a humanidade desde os tempos mais antigos. Os católicos não acreditam em reencarnação; os bons vão para o Céu e os pecadores, para o Inferno (não deixe de ler esta anedota). Na visão dos espíritas, os maus reencarnam para evoluir espiritualmente. Quanto aos judeus, cada grupo tem sua versão do que seria a vida após a morte, e o desfile de crenças é tão variado quanto o desfile das escolas de samba na Marquês de Sapucaí.


A perspectiva da vida eterna vem sendo explorada desde sempre por proselitistas que alegam falar em nome de um deus cuja existência conseguem provar, embora soem convincentes — afinal, o sucesso do engodo depende da habilidade do enganador em manipular a fé alheia, como bem ilustra a origem do termo conto do vigário


Política e religião não são mutuamente excludentes, mas a influência da religião na política é nefasta. Alegando uma suposta interlocução divina, padres, pastores e outros "religiosos" (dentro ou fora dos parlamentos) exercem forte influência sobre a população, que, fragilizada pelo temor do fogo do inferno, se deixa manipular pelo proselitismo. O truque é velho como o diabo, mas funciona, pois oferece conforto diante das incertezas do porvir.


A fé individual não depende de rituais, hierarquias ou dogmas; ela surge espontaneamente, movida por experiências profundas e pessoais — como um momento inesperado de conexão com a existência — e se desenvolve sem a necessidade de intermediários ou tradições rígidas. Porém, em tempos de desconfiança nas instituições, muitas pessoas encontram na espiritualidade uma forma de se conectarem com uma força maior, enquanto outras veem a fé como uma confiança silenciosa em algo transcendente, uma aceitação do mistério que dispensa "explicações definitivas".

 

A ciência não invalida a fé — ela a expande. Mas a complexidade do Universo pode ser contemplada e apreciada sem uma explicação esotérica. Ao afirmar que somos poeira das estrelas, o astrofísico Carl Sagan descortinou um vasto Universo sem uma figura divina. Ainda assim, a fé (não confundir com religião) pode ser definida como uma admiração pelo Universo, uma disposição para o questionamento, uma abertura ao desconhecido, uma busca por novas respostas, um modo de honrar o mistério da existência. 


Einstein, Spinoza e outros grandes pensadores viam no Universo uma ordem tão majestosa que, mesmo sem acreditar em um deus pessoal, sentiam-se conectados a uma força criadora e consideravam a busca pelo conhecimento um ato quase espiritual. Einstein chegou a dizer que o mistério é a fonte de toda verdadeira arte e ciência.

 

A busca pelo autoconhecimento mostra que a espiritualidade desvinculada das religiões pode ser uma maneira de nos conectarmos com o mundo sem a necessidade de um conjunto de crenças formais. A fé, nesse contexto, se torna uma prática interior, uma jornada de descoberta pessoal que aceita as incertezas da existência.

 

Enquanto as religiões tradicionais impõem normas e rituais rígidos, a espiritualidade pessoal se ajusta aos valores e necessidades de cada um. Meditação, contemplação da natureza ou mesmo o simples exercício de gratidão são maneiras de alinhar a vida com uma ordem maior. Uma fé íntima e universal, que respeita o mistério sem se prender às religiões formais nem enjeitar as tradições, aceita respostas parciais, valoriza o caminho, celebra o mistério e dá um sentido mais original à espiritualidade.


Em outras palavras, uma confiança de que, mesmo sem respostas absolutas, nossa existência tem um propósito, mesmo que seja simplesmente tentar entender o insondável, se torna uma ligação com o que nos transcende que dispensa explicações dogmáticas. 


Continua…

segunda-feira, 23 de março de 2026

SOBRE O AGENTE SECRETO

POUCO CRÉDITO MERECE QUEM MUITO ELOGIA A SI MESMO.  

O longa O Agente Secreto não ganhou o Oscar, mas virou munição num campo de batalha que já estava armado há tempos.


Essa reação diz mais sobre o Brasil atual do que sobre o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura transporta o público para o Recife de 1977, em plena ditadura militar, com uma narrativa que mistura suspense, política e melancolia.


Em um ambiente hiperpolarizado, qualquer produto cultural com a mínima leitura política vira símbolo, bandeira ou ameaça, e o conteúdo importa menos do que aquilo que cada lado acha que ele representa.


O longa foi indicado em quatro categorias, mas ficou aquém das expectativas e ganhou apenas experiência — ou, como diriam os mais maledicentes, “o que Luzia ganhou atrás da horta”. Ainda assim, foi uma das produções brasileiras com maior número de indicações, ao lado de O Beijo da Mulher-Aranha (1985) e Cidade de Deus. (2004). 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A decisão do ministro Gilmar Mendes — a verdadeira herança maldita de FHC — de anular a quebra de sigilo do fundo que comprou cotas do resort Tayayá chega nas pegadas da pesquisa feita pela Quaest, segundo a qual 49% dos eleitores não confiam nos togados, 72%, acham que o tribunal tem poder demais e 66% dizem que pretendem eleger candidatos ao Senado favoráveis ao impeachment de ministros.

A tentativa do decano de proteger Dias Toffoli, insulta à inteligência dos brasileiros. A suposta rigidez moral do Maquiavel de Marília é um escárnio a uma cena que já era em si mesma vergonhosa. Mas não é só.

Com seus despachos, Gilmar converteu-se no principal cabo eleitoral de candidatos ao Senado que se apresentam aos eleitores como alavancas para impulsionar a aprovação de pedidos de deposição de ministros do Supremo na legislatura que será inaugurada em fevereiro de 2027.

Toffoli admitiu ser sócio de dois de seus irmãos numa empresa que vendeu cotas do resort Tayayá para o Reag — um fundo gerido por Fabiano Zettel,, cunhado de Daniel Vorcaro, que enfiou R$ 35 milhões no resort para adquirir a cota de Toffoli e foi preso pela PF quando tentava embarcar para o exterior.

Vorcaro foi transferido da Papudinha para a Superintendência da PF no DF depois que assinou um termo de confidencialidade — marco inicial para negociação de uma delação premiada onde não haverá espaço para "salvar" uns em detrimento de outros. Todos os órgãos envolvidos no processo — PF, PGR e STF — indicam que não haverá espaço para uma colaboração parcial, frustrando a intenção inicial do ex-banqueiro, que era delatar políticos e poupar ministros do STF.


No total, 16 produções brasileiras já foram indicadas ao Oscar. Orfeu Negro (1959), baseado na peça Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes, venceu como Melhor Filme Internacional — mas a estatueta ficou com a França. O Pagador de Promessas (1962) foi o primeiro filme 100% brasileiro a concorrer nessa categoria, mas voltou sem prêmio. E mesmo destino teve Raoni (1978) indicado à estatueta de Melhor Documentário.


O Beijo da Mulher-Aranha (1985) concorreu em quatro categorias, mas só ganhou a estatueta de melhor ator. O Quatrilho (1995), O que é isso, companheiro? (1997), Central do Brasil (1998), Uma história de futebol (1998) e Cidade de Deus (2002) só ganharam experiência. Diários de Motocicleta (2004) venceu na categoria de Melhor Canção Original no Oscar de 2005. Lixo Extraordinário (2010), O Sal da Terra (2014), O Menino e o Mundo (2014) e Democracia em Vertigem (2019) foram indicados, mas não foram premiados. Em contrapartida, Ainda Estou Aqui (2025) gerou uma mobilização imensa, especialmente pela atuação de Fernanda Torres, e conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional.  


Observação: O Academy Award of Merit passou a ser chamado de Oscar em 1939, depois que Margaret Herrick, bibliotecária da Academia, comentou que a estatueta "era a cara de seu tio Oscar". O Brasil possui um Oscar honorário (entregue a Carmen Miranda, que era portuguesa de nascimento) e participações técnicas vitoriosas em co-produções.


Em suma, o cinema brasileiro no Oscar é uma história de persistência. A despeito de algumas vitórias pontuais, acumulamos indicações e amargamos frustrações. O Beijo da Mulher-Aranha abriu o caminho vencendo em Melhor Ator. Depois, vivemos décadas de 'quase': A exceção solitária era Diários de Motocicleta, — com o prêmio de Melhor Canção Original em 2005 —, mas tudo mudou com Ainda Estou Aqui, que finalmente deu ao Brasil a inédita estatueta de Melhor Filme Internacional, consagrando nossa história nas telas do mundo. 


Eu assisti à maioria desses filmes, e acho que eles realmente não mereciam ganhar. Isso não tem nada a ver com patriotismo (ou com a falta dele), mas como reconhecer nossas limitações. Aliás, convém não confundir patriotismo com chauvinismo.. A seleção brasileiro mereceu perder de 7 a 1 para a Alemanha na Copa de 2014. Dar o braço a torcer não é falta de patriotismo, é enxergar as coisas como realmente são. 


Observação: José Saramago ensinou que o pior tipo de cegueira é a mental; Albert Einstein, que o Universo e a estupidez humana são infinitos; e Nelson Rodrigues, que os idiotas vão dominar o mundo — não pela capacidade, mas pela quantidade.


Lançado em 1972, baseado no best-seller de Mario Puzo e dirigido por Francis Ford Coppola — que escreveu o roteiro a quatro mãos com Puzo — o filme The Godfather (exibido no Brasil como O Poderoso Chefão) venceu nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, além de levar a estatueta de Melhor Ator pela atuação lendária de Marlon Brando


Enquanto o filho mais velho do capo mafioso Vito Corleone (Sonny, vivido por James Caan) esbanja impulsividade, contrastando com Tom Hagen (interpretado por Robert Duvall), o ponderado consiglieri, o caçula, Michael (encarnado por Al Pacino) tenta se manter à margem dos negócios da Famiglia, mas logo percebe que o destino não é uma escolha. 


Virgil Sollozzo (Al Lettieri) propõe uma parceria no lucrativo mercado de narcóticos a Don Corleone, que recusa a oferta, alegando que o tráfico de drogas comprometeria suas alianças de longa data. Isso dá início a uma guerra que empurra Michael para um caminho sem retorno: ao saber que o pai foi baleado e se encontra entre a vida e a morte, ele mata Sollozzo e o capitão de polícia corrupto interpretado por Sterling Hayden e se exila na Sicília, selando sua transição definitiva para o submundo.


A despeito do orçamento modesto para os padrões hollywoodianos (cerca de US$ 7 milhões), o filme se tornou um fenômeno global de público e de crítica, arrecadando impressionantes US$ 250 milhões nas bilheterias mundiais. A atmosfera sombria e inconfundível é mérito da cinematografia impecável de Gordon Willis, sempre embalada pela icônica trilha sonora do compositor Nino Rota


Vale a pena conferir a trilogia (disponível na Netflix), sem embargo de ela ficar muito aquém do livro que lhe deu origem.