terça-feira, 20 de janeiro de 2026

DE VOLTA AO CRAPWARE E OUTRAS ENCHEÇÕES DE SACO

COMO É CONSENSO ENTRE TODOS OS SÁBIOS DE TODOS OS TEMPOS, MERDAS ACONTECEM.

O que veremos a seguir não se limita aos smartphones da Motorola, já que Samsung, Xiaomi, Google (linha Pixel) e outros fabricantes também pré-instalam dúzias de aplicativos de manifesta inutilidade — daí o apelido crapware (crap = merda) ou bloatware (bloat = inchaço). 

Todo programa ocupa espaço no armazenamento interno, consome ciclos de processamento, memória RAM e outros recursos preciosos. Em teoria, tudo que não faz parte do Android pode ser descartado. Na prática, porém, é mais fácil falar do que fazer.

 

Para remover um app, acessamos Configurações > Apps > Mostrar todos os "x" apps (o "x" corresponde ao número de aplicativos instalados), selecionamos o item em questão e tocamos em Desinstalar. Caso essa opção não esteja disponível (como ocorre com a maioria dos apps pré-instalados), devemos tocar em Interromper > Desativar. Feito isso, o app será colocado em "animação suspensa", podendo ser "despertado" quando — e se — a gente quiser.

 

O Brilho Adaptável, presente em todos os celulares Android, é útil, mas ver a tela escurecer e clarear sozinha com base na iluminação ambiente pode ser incômodo. Para desligar essa função, basta acessar Configurações > Tela e mover o botão da opção Brilho adaptável para a esquerda.

 

Por alguma razão, o Modo escuro — que reduz o cansaço visual e melhora a experiência em ambientes com pouca luz — não vem ativado por padrão. Para ativá-lo, tocamos em Configurações > Tela e ligamos o botão ao lado de Tema escuroTambém é possível programar um horário para sua ativação e desativação automática — basta tocar em Tema escuro > Programação e definir o período desejado.


A maioria dos apps envia notificações de tempos em tempos, mas alguns abusam da nossa paciência. Para reduzir essa encheção de saco, tocamos em Configurações > Notificações > Notificações do aplicativo, selecionamos o app que queremos silenciar e movemos o botão correspondente para a esquerda. 

 

Vale lembrar que o modo Não Perturbe silencia chamadas, alertas e notificações durante o período que a gente definir. Para ativá-lo, basta tocar em Configurações > Notificações > Não Perturbe e personalizar as opções — lembrando que é possível criar exceções para contatos importantes em caso de emergência.

 

Observação: O caminho e a nomenclatura dos recursos podem variar conforme o fabricante do aparelho e a versão do Android.

 

A propaganda é a "alma do negócio" — para os anunciantes —, mas usar aplicativos freeware (gratuitos) e não ser bombardeado por anúncios é quase impossível sem a ajuda de ferramentas de terceiros (bloqueadores de anúncios).

 

Nos smartphones Motorola, podemos reduzir a exibição de anúncios acessando Configurações > Google > Todos os serviços > Privacidade e segurança > Anúncios > Excluir o ID de publicidade e confirmando a exclusão. Para bloquear anúncios em aplicativos específicos, tocamos em Configurações, pesquisamos por Acesso especial e, na lista de aplicativos, selecionamos os que desejamos restringir e fazemos o ajuste.

 

Entre as diversas opções de bloqueadores (tanto pagos como gratuitos), destaco o AdBlock, o AdAway, o AdClear, o AdLock e o AdGuard — lembrando que nem todos estão disponíveis na Google Play Store, e que não é recomendável baixar apps de outras fontes.

 

Outra forma de inibir anúncios é configurar um DNS privado. Para isso, tocamos em Configurações > Rede e Internet > DNS privado, digitamos dns.google como nome do host, tocamos em Salvar e reiniciamos o aparelho.

 

Por fim, também é possível bloquear anúncios diretamente no navegador. Basta tocar nos três pontinhos, acessar Configurações > Configurações do site, localizar as opções Pop-ups e redirecionamentos e Anúncios invasivos, acessá-las e mover os botões para a esquerda.

 

Nenhuma dessas dicas (nem a combinação delas) elimina todos os anúncios, mas reduz a encheção de saco a níveis suportáveis. Afinal, a gente já se estressa demais com trânsito, fila, boletos, política e outras mazelas do mundo real, e não precisamos de um celular cheio de penduricalhos e propagandas para piorar as coisas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

DITADOS POPULARES

A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS.

Ditados populares — ou provérbios — são tesouros da sabedoria coletiva que resumem em poucas palavras lições, advertências e observações sobre a vida, o comportamento humano e o mundo ao redor. Muitos deles sofrem alterações ao longo do tempo, seja por mudanças na língua, seja por interpretações equivocadas, o que às vezes nos leva a repeti-los sem conhecer sua origem ou sentido real. 

 

Qualquer pessoa minimamente esclarecida entende o que significa “quem espera sempre alcança”, “para bom entendedor, meia palavra basta” e “Deus ajuda quem cedo madruga”, por exemplo, mas nem todo mundo compreende o subtexto de “filho de peixe, peixinho é” ou de “o fruto não cai muito longe da árvore”, também por exemplo.

 

Quem não tem cão caça com gato” significa que, na falta dos recursos adequados, usa-se aquilo que se tem para alcançar o objetivo. No entanto, forma correta é “quem não tem cão caça como gato”, ou seja, na falta do recurso principal (o cão, que caça em grupo), recorre-se à esperteza (como o gato, que caça sozinho).

 

Outro ditado que mudou ao longo do tempo é “quem tem boca vai a Roma”. A versão atual sugere que quem pergunta chega aonde deseja (os romanos diziam que "todos os caminhos levam a Roma, que era o centro do mundo antigo). Mas a forma original — “quem tem boca vaia Roma” — refletia o espírito crítico dos romanos, que vaiavam (manifestavam-se) contra o poder instituído. A mudança de "vaia" para "vai a" parece ter surgido por associação ao ato de viajar ou chegar a um objetivo.

 

Um ditado particularmente curioso é “cuspido e escarrado”, que remete a algo ou alguém muito parecido com outra coisa ou pessoa. Embora soe estranho atualmente, escarrado tinha o sentido de marcado, estampado, reforçando a ideia de semelhança extrema. A ligação com “esculpido em Carrara” é fruto de uma tentativa culta (e equivocada) de "corrigir" o que se supunha um erro.

 

Cor de burro quando foge” parece aludir à cor de um animal em fuga, como se fosse uma tonalidade impossível de definir. Todavia, a expressão original — "corro de burro quando foge" — reforça o conselho de se afastar rapidamente de encrenca, como alguém que corre para escapar de um burro desgovernado, que se torna perigoso quando assustado.

 

O verso “batatinha quando nasce, esparrama pelo chão”, de um conhecido poema infantil, é na verdade “espalha a rama pelo chão”, descrevendo o crescimento da batata, que espalha suas folhas e raízes pelo solo. Outro versinho de roda que foi distorcido ao longo dos anos é “hoje é domingo, pé de cachimbo”. O correto é “pede cachimbo”, sugerindo que, em dia de descanso, fuma-se cachimbo como forma de lazer. Ainda que os cachimbos sejam feitos de madeira, não há registros de que eles “nasçam em árvores”, como a expressão “pé de cachimbo” leva a crer.

 

Ossos do ofício” remete às dificuldades com que as pessoas têm de lidar no exercício de suas profissões. A forma “ócios do ofício”, defendida por palpiteiros de plantão, não tem registro em dicionários nem em textos clássicos. “Quem pariu Mateus que o embale” é uma corruptela de “quem pariu que mantenha e embale”. Em ambos os casos o significado é o mesmo: quem cria uma situação deve arcar com as consequências.

 

Parece que tem bicho-carpinteiro” se diz de pessoas irrequietas. Embora os dicionários registrem “bicho-carpinteiro” como o nome popular de algumas espécies de besouros, tudo indica que a forma correta seja “parece que tem bicho no corpo inteiro”. Mas o resultado é o mesmo em uma forma ou na outra.

 

Enfiar o pé na jaca” também tem duas versões, e ambas são consideradas corretas, pois evocam o descontrole. A jaca, fruta grande e pegajosa, pode remeter à ideia de sujeira ou de embaraço em sentido figurado (como quem se afunda no exagero). Já o jacá, — nome de um cesto de palha — sugere a cena de quem, ao exagerar na bebida, esbarra no dito-cujo ao sair do bar. 

 

Cair no gosto do povo” indica que algo se tornou popular. A forma tradicional era “cair no goto” (sinônimo informal de glote ou garganta). A expressão original fazia alusão a algo que “descia bem”, caía no gosto literal, mas com o tempo o “goto” virou “gosto”, alinhando o sentido ao paladar e ao apreço. 

 

A expressão “faca de dois gumes” indica que algo pode produzir tanto resultados positivos quanto negativos. A troca por “dois legumes” — que criou uma versão irônica ou jocosa do ditado — pode ter surgido porque pouca gente sabe que “gume” designa a parte cortante da lâmina. 


Mas não dizem que “a voz do povo é a voz de Deus”?

domingo, 18 de janeiro de 2026

ARROZ SOLTINHO

TUDO FICA MAIS FÁCIL QUANDO SE CONHECE O CAMINHO DAS PEDRAS.


O arroz começou a ser cultivado na China e na Índia lá pelos anos 3000 a.C e se disseminou para o Oriente Médio, Mediterrâneo, Europa e Américas, impulsionado por rotas comerciais e migrações.


Antes da chegada dos portugueses, já existia no Brasil uma espécie de arroz selvagem, conhecido pelos indígenas Tupi como "abati-uaupé" (milho-d'água) e cultivado em áreas alagadas. Há registros de seu cultivo organizado e crescente no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia a partir do século XVIII, mas a cultura se fortaleceu e o consumo se tornou mais amplo no início do século XIX, e com a chegada da Corte Portuguesa esse cereal passou a fazer parte da dieta de seus servidores e se tornou a base da alimentação do brasileiro.


Hoje em dia, sozinho ou combinado com o feijão, o arroz acompanha todos os tipos de proteína (carne, frango, peixe, ovos), sendo um ingrediente essencial em diversas preparações regionais e nacionais, de risotos ao arroz de carreteiro, da galinhada ao baião de dois, do strogonoff ao filé à parmegiana, sem falar no arroz doce — sobremesa cremosa, muitas vezes aromatizada com canela.


Há quem goste do arroz “empapado” ou “em bloco” (como o famoso “unidos venceremos”) e quem prefira os grãos soltinhos e firmes, quase “al dente”, como é o caso deste que vos escreve. Eu já testei várias dicas, e todas funcionaram — uma mais, outra menos.


Uma delas consiste em iniciar o processo aquecendo um pouco de azeite numa panela em fogo alto, fritar quatro dentes de alho picado até o ponto “crocantinho moreninho”, adicionar o arroz cru e mexer bem, lembrando que a proporção ideal é usar o dobro de água em relação à quantidade de arroz — ou seja, duas xícaras de água para cada xícara de arroz.


O segredo é fritar o arroz até que ele comece a se soltar do fundo da panela. No início ele vai grudar, mas basta continuar mexendo para que ele deslize com facilidade. Além disso, contrariando o senso comum, deve-se cobrir o arroz frito com água fria, e não fervente, pois isso garante textura e sabor superiores.


Quando a água começar a ferver, mexa delicadamente para soltar possíveis grãos presos ao fundo da panela e prove a água para acertar o ponto do sal — o ideal é que ela esteja levemente salgada, como a água do mar, já que o arroz absorve parte do sal durante o cozimento e pode ficar insosso se você não salgar a água adequadamente.


Observação: se você exagerar no sal, descasque uma batata, corte ao meio ou em rodelas grossas e coloque dentro da panela enquanto o arroz está cozinhando (se ainda houver líquido) ou no arroz já pronto, juntamente com um pouco d’água. Como é rica em amido, a batata atua como uma esponja, absorvendo parte do líquido e, com ele, o excesso de sal. Deixe a batata cozinhar por cerca de 10 a 15 minutos e depois retire-a da panela antes de servir o arroz. 


Quando o arroz estiver “subindo” e a água atingir o mesmo nível dos grãos — ou seja, quase secando — desligue o fogo, tampe a panela e deixe descansar por cerca de 20 minutos. O arroz terminará de cozinhar no calor residual sem o risco de queimar ou grudar no fundo. Mas é importante não abrir a panela durante esse tempo.


Outro truque que produz bons resultados é colocar um pano de prato limpo entre a panela e a tampa. Quando o arroz estiver pronto, desligue o fogo, retire a tampa, recoloque o pano e feche a panela novamente, certificando-se de que o pano esteja esticado e não toque no alimento. Feito isso, espere 10 minutos para que o pano absorva a umidade e então destampe a panela e solte os grãos usando um garfo.


Eu já disse isso em outra postagem, mas não custa relembrar: no tempo das nossas avós, o arroz vendido à granel em empórios e armazéns trazia “marinheiros” — casca e grãos quebrados que flutuavam quando colocados na água —, pedriscos e resíduos de insetos mortos. Assim, era preciso “escolher” e lavar o arroz antes de colocá-lo para cozinhar.


Atualmente, o arroz vendido nos supermercados é escolhido e lavado antes de ser embalado; lavá-lo novamente reduzirá ainda mais a concentração de amido nos grãos. 


Se você optar por lavar esse cereal, tenha em mente que, se o excesso de amido afeta o cozimento, a falta faz com que ele fique mais seco, dificultando o preparo. Isso sem falar que você estará reduzindo também a concentração de sais minerais, vitaminas e outros nutrientes importantes.


Bom apetite.

sábado, 17 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 67ª PARTE

YO NO CREO EM BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY!

Os OOPArts — acrônimo de Out Of Place Artefacts — costumam ser apontados como indícios da existência de viajantes do tempo, e poucos causaram tanto alvoroço quanto uma combinação de anel e relógio encontrada por arqueólogos na China, em 2008, no interior de uma tumba da dinastia Ming que estava selada havia mais de 400 anos. 


No mostrador do artefato que não poderia estar ali, os ponteiros marcavam 10h06 e a caixa exibia a inscrição “Swiss”. A notícia logo se espalhou e dividiu opiniões: para os entusiastas do insólito, tratava-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo. Para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos sérios, publicações acadêmicas e imagens confiáveis — além de uma única foto desfocada que circulou pela internet — sugeriam fraude. O episódio permanece envolto em mistério, servindo como combustível para debates entre curiosos, cientistas e alimentando teorias da conspiração.

 

Pinturas e murais retratando sacerdotes maias com o punho à frente do rosto — como fazemos atualmente quando conferimos notificações em nossos smartwatches — levam água aos moinhos da conspiração — quando mais não seja, porque os primeiros smartwatches só foram lançados em 2015. Mas os céticos atribuem a postura dos sacerdotes a um gesto ritual, e argumentam que o cérebro humano é programado para reconhecer padrões mesmo onde eles não existem.

 

Observação: A tendência de atribuir formas familiares a estímulos ambíguos é conhecida como pareidolia. Quando confrontado com imagens vagas ou simbólicas, nosso cérebro preenche as lacunas com referências do presente, levando-nos a enxergar coelhos, dragões ou castelos nas nuvens, ver astronautas em pinturas rupestres e capacetes espaciais em máscaras cerimoniais. Como dizem os espanhóis, yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay. 

 

Um indivíduo de cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada se destaca da multidão numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), em 1941. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 e outra pessoa que é vista na foto duas filas adiante, segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna, são viajantes do tempo. Para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. A imagem — que faz parte da exposição “Their Past Lives Here” — teve sua autenticidade comprovada por especialistas, e os trajes, nitidamente anacrônicos, foram considerados compatíveis com os anos 1940. E eu sou o coelhinho da Páscoa.

 

Outro caso emblemático: no início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100 — necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o Efeito 2038. O modelo em questão foi lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação do suposto viajante do tempo fazia sentido. Além disso, a Big Blue reconheceu que uma unidade dotada de uma rara interface — que permitiria ao programador acessar todos os códigos da empresa — desapareceu misteriosamente de seus depósitos. 

 

Visando tornar sua narrativa menos inverossímil, Titor detalhou seus deslocamentos temporais e fez revelações sobre o futuro. Segundo ele, o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001, e as máquinas do tempo, criadas para transportar pequenos objetos, seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Chegou mesmo a postar desenhos esquemáticos do projeto e uma foto de sua máquina — que chamou de "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". 

 

A “guerra civil” profetizada para 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial — que, segundo Titor, teria início em 2015 e dividiria EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas nos anos seguintes, e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. Após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, o suposto viajante do tempo desapareceu dos fóruns em março de 2001, deixando uma frase misteriosa ("traga uma lata de gasolina com você quando seu carro morrer na estrada") e miríades de perguntas sem respostas. 

 

Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que Titor era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de "John Titor Foundation", onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida (EUA).

 

Para os teóricos da conspiração, as previsões não falharam, apenas deram a abertura temporal para que Titor conseguisse corrigi-las a tempo de não ocorrerem. Ele próprio avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o "modelo Everett-Wheeler da física quântica" estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo — a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. Vale lembrar que a “Interpretação de muitos mundos” postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um "universo paralelo" — de acordo com o "paradoxo do avô", se voltasse ao passado e matasse o próprio avô, o neto se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal que não a dele (já que não poderia existir na dele). 

 

Talvez tudo isso não passe de uma fraude, mas, se for, quem a criou sabia muito bem do que estava falando. Até hoje ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira, e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Demais disso, cada um pode acreditar no que bem entender, da autoproclamada “absolvição” de Lula à narrativa segundo a qual Bolsonaro é um ex-presidente de mostruário que vem sendo perseguido injustamente por Alexandre de Moraes e seus pares no STF. Felizmente, com exceção de Luiz Fux, os integrantes da Primeira Turma da Corte não se deixaram iludir pelo canto da sereia, como prova a condenação do “mito” dos descerebrados a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes contra o Estado Democrático de Direito. Mas isso é outra conversa.

 

Nada alimenta mais as especulações temporais do que obras faraônicas como as pirâmides de Gizé, erguidas a partir de milhões de blocos de até 80 toneladas, encaixados com precisão milimétrica e alinhados com os pontos cardeais e a Constelação de Orion por um povo que dispunha de simples cinzéis e prosaicos ábacos. Como não poderia deixar de ser, essa implausibilidade deu azo a teorias de ajuda extraterrestre, tecnologias perdidas, ou — por que não? — visitantes do futuro. E o mesmo raciocínio vale para Stonehenge, na Inglaterra, com seus megálitos gigantescos transportados por dezenas de quilômetros e alinhados ao solstício.

 

Em Machu Picchu, no Peru, e em sítios como Sacsayhuamán, blocos de pedra irregulares se encaixam com tamanha precisão que nem uma lâmina de barbear passa entre eles. Explicações existem: trabalho humano intensivo, técnicas engenhosas de escavação, polimento e transporte. Mas não convencem aqueles para quem é mais sedutor acreditar que alguém trouxe uma furadeira quântica do futuro para dar uma mãozinha.

 

A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Basta lembrar de Sherazade e os Contos das 1.001 Noites, com tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz, enfim, prodígios tecnológicos que somente seriam inventados dali a milhares de anos.

 

Segundo a Navalha de Ockham — ou princípio da parcimônia —, sempre que há múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si. Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias — Júlio Verne imaginou submarinos e viagens à Lua séculos antes de elas se tornarem realidade. No entanto, quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como “memória do futuro” fica ainda maior.

 

Todos esses exemplos sugerem que a maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. Talvez a maioria das “provas” não resista a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios trabalharem duro durante décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar pedras”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

NOMOFOBIA, SPAM, PHISHING E SPOOFING

AS MÍDIAS SOCIAIS DERAM O DIREITO DE FALA À LEGIÃO DE IMBECIS QUE ATÉ ENTÃO SÓ FALAVAM NOS BARES, DEPOIS DE UMA TAÇA DE VINHO, SEM CAUSAR DANOS À COLETIVIDADE. 

A telefonia móvel celular surgiu em meados do século passado, mas só começou a se tornar popular no final da década de 70. No Brasil, a privatização das Teles (em 1998, durante a segunda gestão do presidente Fernando Henrique) acelerou a expansão da tecnologia no país, rompendo com décadas de monopólio estatal e introduzindo a competição entre operadoras que democratizou o uso dos aparelhos. 

Curiosamente, a tecnologia que prometia liberdade de movimento e comunicação acabou criando uma nova forma de dependência. Depois que os telefones móveis evoluíram para “microcomputadores de bolso”, concentrando funções que antes estavam distribuídas em diversos dispositivos e espaços (como banco, câmera, biblioteca, escritório, entretenimento), muitos usuários passaram a sofrer de “nomofobia” — de no-mobile + fobos —, ou seja, a “ansiedade patológica” que acomete as pessoas que se veem privadas de seus dispositivos.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Condenado por invadir os sistemas do CNJ e plantar mandados falsos de prisão e de soltura, Walter Delgatti Neto, também conhecido como “o hacker de Araraquara”, passou para o regime semiaberto. Já sua comparsa, Carla Zambelli, continua detida na Itália, para onde fugiu em meados do ano passado.

Depois de dois adiamentos a pedido da defesa, a Corte de Apelação de Roma remarcou para o próximo dia 20 o julgamento do pedido de extradição da fujona. Vale lembrar que, diante do risco de fuga, seus pedidos de liberdade provisória e de prisão domiciliar foram negados.

O Ministério Público italiano deu parecer favorável à extradição, já que os crimes pelos quais Zambelli foi condenada são considerados comuns, e não políticos. Se perder na Corte de Apelação, ela ainda pode recorrer à Corte de Cassação ou mesmo ser beneficiada por uma decisão do governo italiano — hipótese remota, ao menos neste momento, pois nada indica que a primeira-ministra Giorgia Meloni esteja disposta a comprar essa briga para favorecer alguém que o próprio Bolsonaro acusou de ter contribuído para sua derrota em 2022.

Resumo da ópera: quem executou a fraude já vislumbra a porta de saída, enquanto a mentora intelectual aposta em recursos quase infinitos e na confusão institucional para adiar seu encontro com a prisão em regime fechado. Todavia, salvo intervenção política, o desfecho tende a ser menos cinematográfico do que a fuga e mais banal do que os discursos da caterva bolsonarista.

A conferir.

 

Outras consequências da evolução dos celulares foram a “inversão de hierarquia” (os smartphones, que eram complementares aos computadores convencionais, passaram a ser os dispositivos principais, relegando desktops e notebooks a funções específicas); o progressivo “desaparecimento” dos orelhões (símbolos urbanos que hoje são quase relíquias) e dos terminais fixos nas residências; e o desinteresse dos leitores do blog por artigos que focam o ambiente Windows — daí o número crescente de postagens sobre o sistema Android e aparelhos Samsung e Motorola, líderes de vendas no Brasil.

 

Concluído este (não tão) breve preâmbulo, passemos ao que interessa: golpistas, cibervigaristas e assemelhados vêm se valendo do “spoofing” para praticar toda sorte de fraudes, entre as quais se destacam: 


1) o golpe do falso banco, em que a ligação parece vir do número oficial da instituição, e o suposto atendente pede senhas ou dados confidenciais; 


2) os golpes da Receita Federal, dos Correios, da CNH e outros em que criminosos se passam por agentes públicos para exigir pagamentos indevidos; 


3) o falso suporte técnico, no qual alguém se apresenta como funcionário de empresas como Microsoft ou Apple, alegando que há um problema em seu computador e solicitando acesso remoto; 


4) phishing por SMS, no qual mensagens de texto que imitam notificações bancárias ou promoções e trazem links maliciosos que podem instalar malwares no celular.

 

Somente no primeiro semestre de 2024, os brasileiros receberam uma média de 26 chamadas não identificadas por mês, das quais 51% eram “spam” — mensagens em massa com conteúdo publicitário — e 13%, tentativas de fraude. Apesar de sofisticado, o “spoofing” — técnica de engenharia social que busca enganar uma rede ou pessoa fazendo-a acreditar que a fonte de uma informação espúria é confiável — pode ser combatido com a adoção de algumas medidas simples, entre as quais: 

 

1) Desconfie de ligações inesperadas do banco ou de um órgão público pedindo dados (desligue e retorne através dos canais oficiais da instituição); 


2) Jamais compartilhe senhas ou códigos por telefone; 


3) Use serviços de bloqueio de chamadas no telefone fixo (como o do Procon e o Não Me Perturbe); configure o app Telefone do celular para bloquear spam — ou utilize aplicativos como RoboKiller e Nomorobo


4) Jamais siga links recebidos por SMS, WhatsApp ou emails (se for necessário acessar o site, pesquise o endereço oficial e digite-o manualmente na caixa de endereços do navegador); 


5) Evite divulgar seu número de telefone em redes sociais ou cadastros desnecessários; 


6) Desconfie de mensagens que criam pressão temporal (como “sua conta será bloqueada hoje”); 


7) No caso de golpes envolvendo parentes, ligue diretamente para a pessoa antes de qualquer outra coisa.

Segundo o blog da McAfee, os estelionatários utilizam softwares e serviços de Voice over Internet Protocol (VoIP), que permitem configurar o número que aparece no identificador de chamada de modo a levar a vítima a acreditar que está recebendo uma ligação de seu banco, da Receita Federal ou até mesmo de um familiar.


Se suspeitar de que forneceu dados a um criminoso, mude imediatamente suas senhas, ative autenticação em duas etapas em contas sensíveis, avise a instituição falsificada para que possa alertar outros clientes e registre um boletim de ocorrência (BO) em uma delegacia, de preferência especializada em crimes cibernéticos.

 

Boa sorte.