quinta-feira, 19 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 86ª PARTE

AS RELIGIÕES SÃO O ÓPIO DO POVO.

Um dos mitos que circundam o mundo científico é o de que todo físico é ateu, mas na prática a coisa não é bem assim. Crer ou não crer jamais impediu cientistas notáveis de avançarem em suas descobertas.

Galileu (1564-1642) se viu forçado a renegar suas descobertas diante do tribunal da Inquisição, mas disse tempos depois que não concebia a ideia de que o mesmo Deus que nos deu inteligência, razão e bom senso nos proibisse de usá-los.

Newton (1643-1727), conhecido por sua castidade e religiosidade, dedicou-se a estudos teológicos e também à alquimia.

Quando perguntaram ao astrofísico Neil deGrasse Tyson se acreditava em Deus, ele respondeu com outra pergunta: Qual Deus, o Deus do Cristianismo, do Judaísmo, do Islã, os Deuses do Hinduísmo?


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Para Lula, a mais recente pesquisa Datafolha rima com o primeiro verso de Águas de Março: "É pau, é pedra, é o fim do caminho..." Entre os resultados obtidos no início de dezembro passado e os divulgados no último sábado, a vantagem do macróbio petista sobre o filho do golpista ora presidiário recuou de quinze pontos percentuais para apenas três. Graças a esse movimento — detectado também por outras pesquisas de institutos respeitáveis —, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias obteve no curto intervalo de três meses um relampejante empate técnico. Por outro lado, o Datafolha consolida a percepção segundo a qual o principal adversário do candidato ao quarto mandato é um fenômeno que os engenheiros chamam de fadiga do material.

Ao término do atual gestão, somando-se o tempo de Presidência de Lula e Dilma, o PT terá dado as cartas no Planalto por 17 anos e oito meses. Com um novo período de quatro anos, seriam mais de duas décadas no poder. Para desgáudio do molusco, um pedaço do eleitorado parece indagar aos seus botões: "Alguém ainda aguenta?"

Ironicamente, o xamã do partido dos trabalhadores que não trabalham idealizou uma disputa em que o "fato novo" da direita fosse o velho bolsonarismo ao preferir Flávio a Tarcísio — o apadrinhado do mito considerado mais duro de roer. Mas o desempregado que deu certo não imaginava que a transferência de votos do pai preso para o filho seria instantânea, nem que Zero Um seduzisse tão rapidamente um naco expressivo da direita não bolsonarista.

Ainda segundo o Datafolha, 46% dos eleitores declaram que jamais votariam em Lula, enquanto a aversão a Flávio soma 45%. Numa disputa que se prenuncia como apertada, os candidatos disputarão a tapa os votos dos "isentões" (ou "nem-nens"). Nesse contexto, a simultaneidade de três grandes escândalos — do Master, do assalto contra os aposentados e da farra das emendas orçamentárias — leva água para o monjolo da oposição, pois o eleitor tende a cultivar um sentimento vago e fluido contra "tudo o que está aí".

Num cenário onde as mazelas são suprapartidárias e o lodo se espalha pelo assoalho dos Três Poderes, a crítica às estruturas privilegia a ênfase na moralidade administrativa. A mochila de Flávio contém as mazelas golpistas do pai e a biografia rachadinha do filho, mas os tiros previsíveis do petismo serão respondidos com dois torpedos da oposição: a proximidade de Lula com um Supremo de supremacia alquebrada e a movimentação bancária milionária de Lulinha.

Se a campanha evoluir para um embate de paus e pedras, como parece previsível, o fator democrático que impulsionou o renascimento de Lula na vitória apertada de 2022 será diluído numa disputa do tipo sujos contra mal-lavados. Nessa hipótese, o Brasil estará mais distante dos versos que encerram a canção de Jobim: "São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração".


O alemão Max Planck (1858-1947), que formulou a Lei da Radiação do Corpo Negro — marco fundamental no início da física quântica moderna — e foi laureado com Nobel de Física em 1918, vinha de uma família luterana cristã, foi diácono da Igreja de 1920 até sua morte e achava que Deus desempenhava um papel importante tanto na religião quanto na ciência, embora isso não significasse a mesma coisa para ambas e sim uma reverência diante de um Poder sobrenatural ao qual a vida humana é subordinada.


Werner Heisenberg (1901-1976) — laureado com o Nobel de Física por ter estabelecido o Princípio da Incerteza na mecânica quântica em 1927 e reconhecido como um dos pioneiros da mecânica quântica moderna — cresceu em uma família cristã luterana e era cristão fervoroso. Segundo ele, o primeiro gole do copo da ciência nos torna ateus, mas no fundo do copo, Deus está esperando por nós.


Einstein disse em uma de suas mais conhecidas manifestações que Deus é sutil, mas não malicioso, e não joga dados com o Universo. Ele era avesso às religiões demasiado radicais e institucionalizadas, mas cultivava uma profunda religiosidade. Certa vez, numa conversa com o polímata Rabindranath Tagore, ele reconheceu que, embora fosse judeu étnico, era fascinado pela figura de Jesus Cristo.


O físico britânico James Clerk Maxwell (1831-1879) unificou fenômenos elétricos e magnéticos por meio de equações diferenciais fundamentais para várias áreas da física. Suas descobertas embasaram o desenvolvimento da mecânica quântica e da relatividade, além de contribuírem significativamente para a teoria cinética dos gases e a engenharia elétrica moderna. Mas uma carta a um amigo na Trinity College, em Cambridge, revelou que ele somente superou suas fraquezas depois que se entregou a Deus.


Stephen Hawking (​​1942-2018) era declaradamente ateu e via o Universo regido apenas por leis físicas, sem a necessidade de uma intervenção divina. Em uma de suas declarações notáveis, ele disse que não havia evidências da existência de um Deus e que a ideia de um ser sobrenatural criador não era necessária para explicar o Universo.


Fato é que a maioria dos cientistas é avessa ao obscurantismo, à autoridade das igrejas e seitas que tentam impor suas regras e interpretações através de dogmas, impedindo os fiéis de questionar suas premissas. Mesmo porque a ciência só reconhece ou refuta algo de maneira definitiva após observações absolutamente conclusivas. Qualquer radicalismo, seja do lado da crença em Deus, seja do ateísmo mais renhido, não tem nada a ver com fazer ciência.


Em última análise, a história da ciência mostra que curiosidade intelectual, rigor metodológico e busca pela verdade não são incompatíveis com sentimentos de transcendência ou reverência diante do cosmos. O que atrapalha não é a fé em si, mas a imposição dogmática de "verdades" inquestionáveis — algo que pode vir tanto de religiões quanto de ideologias seculares.


Continua…

quarta-feira, 18 de março de 2026

MAIS SEGURANÇA NO WHATSAPP

EM RIO QUE TEM PIRANHA, JACARÉ NADA DE COSTAS.

A Meta anunciou recentemente um novo recurso de cibersegurança voltado a perfis que demandam uma camada extra de proteção que adiciona um conjunto de configurações rigorosas de conta, voltado especialmente a usuários que podem se tornar alvos de “ataques cibernéticos raros e altamente sofisticados”.

O Android também deve receber em breve um mecanismo semelhante, capaz de indicar se o smartphone foi comprometido por técnicas avançadas de espionagem digital e, em resposta, elevar automaticamente o perfil do usuário ao nível máximo de restrição. Uma vez que essa blindagem pode impor limitações no uso do mensageiro e até reduzir a qualidade das chamadas, o recurso virá desativado por padrão e só entrará em ação mediante ativação manual.

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Dá-se de barato que Vorcaro está considerando a possibilidade de uma delação para se proteger e a familiares do avanço da investigação — lembrando que seu cunhado Fabiano Zettel está preso e que seu pai foi citado pela PF por ocultar R$ 2,2 bilhões de vítimas do Master em seu nome na gestora Reag.
O ministro André Mendonça autorizou que a conversa do ex-banqueiro com seu advogado não seja gravada, o que facilita as tratativas para uma eventual delação. Mas a PF afirma que não pretende celebrar um acordo para reduzir a pena do banqueiro se ele não tiver elementos novos para entregar.
No Congresso, argumenta-se que os crimes cometidos por Vorcaro foram cometidos antes de sua primeira prisão e, portanto, não justificam sua permanência em regime fechado, mas isso não passa de uma tentativa de autopreservação, já que a próxima fase da operação Compliance Zero tem como foco a compra de apoio de Vorcaro no Congresso Nacional, sobretudo de parlamentares do Centrão.
Mais de 50% dos brasileiros desconfiam de partidos políticos, e o índice dos que não confiam no STF chega a 43% — maior taxa desde o início da série. Para 79%, os ministros não poderiam julgar causas que envolvam clientes de parentes.
Edson Fachin e Cármen Lúcia são os únicos membros da Corte que defendem a criação de um Código de Ética. Tanto eles quanto Cristiano Zanin afirmam que não cobram cachê por participação em palestras e seminários, e são os únicos que costumam divulgar diariamente seus compromissos de agenda no site do STF.
O decano Gilmar Mendes — um dos maiores opositores à implantação da medida — alegou que “observa todas as normas éticas da magistratura e não recebe quaisquer benefícios ou vantagens que possam comprometer sua independência funcional”, mas se recusou a informar os valores dos cachês. André Mendonça limitou-se a dizer que “não há exigência legal para divulgação dos compromissos dos ministros do Supremo” e que não “existe regra interna prevista no regimento” nesse sentido. O gabinete de Toffoli respondeu que “os dados referentes a palestras estão disponíveis e podem ser consultados no site do STF” – mas o Maquiavel de Marília não cultiva o hábito de divulgar sua agenda de compromissos na página da Corte. Já os ministros Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e Flávio Dino não responderam.
A maior resistência ao Código de Ética é justamente a divulgação dos cachês recebidos pelos magistrados ao participar de palestras, seminários e fóruns jurídicos no Brasil e no exterior. Todos os anos, o IDP, instituto ligado a Gilmar, organiza o “Gilmarpalooza”, em Lisboa, reunindo empresários, políticos e ministros na capital portuguesa numa programação oficial marcada por painéis de discussão – e uma agenda paralela de eventos marcados por lobby e jantares em terraços de hotéis longe dos olhos da opinião pública. Na edição de 2024, Alexandre de Moraes chegou a dizer que “não há a mínima necessidade” de um Código de Ética, “porque os ministros do Supremo já se pautam pela conduta ética que a Constituição determina”.
A discussão ganhou novo fôlego em meio aos desdobramentos das investigações em torno do Banco Master, que abalou a imagem do STF e arrastou Toffoli para centro da polêmica, já que sua atuação como relator foi marcada por decisões esdrúxulas e embates com a PF que resultaram no seu afastamento do caso.

Entre outras medidas adotadas nesse modo de segurança reforçada, os anexos e mídias só poderão ser enviados por contatos salvos; somente contatos poderão adicionar alguém a um grupo ou realizar chamadas; os links virão previamente desabilitados; a verificação em duas etapas com PIN será obrigatória; e por aí segue a procissão.

Para ativar a segurança aprimorada do WhatsApp, acesse Configurações > Privacidade > Configurações avançadas > Configurações rigorosas da conta e habilite o recurso. Note que os mecanismos básicos de proteção do mensageiro — como a criptografia de ponta-a-ponta — continuarão válidos para todos os usuários, e  que o app  já vem empregando a linguagem de programação Rust, conhecida por reduzir falhas críticas de segurança, como forma adicional de proteger fotos, vídeos e mensagens contra spyware e outras ameaças digitais.

Em tempos de golpes cada vez mais criativos, a lógica é simples: conveniência é ótima — até o dia em que vira porta aberta. E, como ensina a sabedoria popular, em rio infestado de predadores, confiança excessiva costuma virar estatística.

Como diziam os antigos, seguro morreu de velho.

terça-feira, 17 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 85ª PARTE

O PRESENTE É APENAS UMA ILUSÃO.

Segundo a teoria da relatividade de Einstein, se pensarmos no espaço-tempo como uma estrutura única que se expande continuamente, então o Big Bang foi o início de tudo e o indicativo de como será o fim. Mas onde há um físico teórico existe uma possibilidade elegante que os físicos experimentais podem ou não comprovar, e alguns negam a existência do tempo escorando-se na incompatibilidade da relatividade com a mecânica quântica.

Ao contrário das outras três forças da natureza descritas pelo Modelo Padrão (forte, fraca e eletromagnética), a gravidade parece viver em um reino próprio. E se todo o universo pode ser explicado por meio das partículas fundamentais (bósons, quarks e fótons, por exemplo), por que a gravidade é uma exceção?

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Os investigadores do início do século 20 gastavam sola de sapato para entrevistar testemunhas e dispunham de poucas ferramentas científicas para auxiliá-los. Mais adiante, surgiram pequenas revoluções na forma de análise de DNA e outras técnicas forenses sofisticadas, mas nada supera o advento dos smartphones — que estão para as investigações como a confissão e as redes sociais para a Igreja Católica. 

Um caso emblemático é o da invasão à praça dos Três Poderes no fatídico 8 de Janeiro, é outro é o celular do Vorcaro, que já derrubou o Maquiavel de Marília da relatoria do caso Master, enlameou a imagem de Xandão e promete fazer mais estragos. Mas é preciso distinguir a ordem jurídica — que, em tese, lida com fatos objetivos e exige que a culpa dos suspeitos seja demonstrada para que eles sofram condenação — da ordem política — na qual os juízos são instantâneos. Nesta, pelo menos dois togados já foram tragados pelo caso Master, causando um prejuízo irreparável para a reputação do STF.

Nada clarifica mais a mente do que a ausência de alternativas. O pedaço da República que se vendeu ao Master já não se pergunta se, mas quando o preso vai virar delator e apontar para o alto, entregando os contatos que conseguiu seduzir num pedaço da engrenagem que André Mendonça chamou de "altos escalões da República". A recompensa não pode incluir nada que se pareça com um perdão: afora os trovões já extraídos das nuvens de um celular de Vorcaro, oito aparelhos continuam na fila da perícia..

Num cenário dos sonhos, todos os pesadelos da República do Master tornariam os contatos do preso em frequentadores de uma colônia de nudismo. Nessa hipótese, sua eventual delação e a consequente premiação seriam desnecessárias. Mas o Brasil está na bica de assistir a um espetáculo de nudismo que ninguém pediu, que ninguém quer ver, e que já não espanta mais ninguém.

Em junho do ano passado, 58% dos entrevistados pelo Datafolha disseram ter vergonha dos ministros do Supremo. Decorridos nove meses, Bolsonaro e os oficiais daquilo que ele chamava de "minhas Forças Armadas" foram parar na cadeia, mas uma nova pesquisa trouxe duas notícias sobre o Supremo.

A má notícia é que não há notícia boa, e a ruim é que a maioria dos entrevistados considera o Supremo a instituição mais enroscada no escândalo Master — é mais do que o índice de comprometimento atribuído ao governo federal (21%) e ao Congresso (17,9%). Para piorar, 44% dos entrevistados disseram estar propensos a enviar para o Senado candidatos comprometidos com o impeachment de magistrados. Quer dizer: a deposição de togas vai deixando de ser tabu à medida que o desgaste pessoal de Moraes e Toffoli corrói a imagem do STF. 

A situação da corte se ajusta à célebre metáfora de Hegel, sobre a Coruja de Minerva, que só voa quando o crepúsculo chega. Em outras palavras, as pessoas só compreendem o tempo em que vivem quando ele já se esgotou. E em certas situações incertas, quem mata o tempo comete suicídio.


Os cientistas tentam explicar esse fenômeno buscando na mecânica quântica uma partícula fundamental da qual a gravidade surge como a luz surge dos fótons, e um dos candidatos mais prováveis é o gráviton — que, se realmente existir, seria o responsável pela mediação da força gravitacional. 


Outras possibilidades são a Teoria das Cordas — segundo a qual a gravidade é resultante do espaço-tempo feito de pixels, como uma tela formada por um sem-número de minúsculos pontos — e a Gravidade Quântica em Loop (LQG) — segundo a qual o espaço-tempo seria composto por uma série de loops entrelaçados, cada um com cerca de um trilionésimo de trilionésimo de trilionésimo de metro.


A relatividade geral já foi comprovada incontáveis vezes — inclusive por uma sonda da NASA que observou a gravidade distorcer o espaço-tempo ao redor do nosso planeta —, ao passo que essas teorias seguem no campo da especulação. No entanto, se uma partícula fundamental da gravidade realmente existir, a maneira como a ciência tenta explicar o espaço-tempo precisará ser revista.


Newton descreveu a gravidade como uma força de atração entre dois corpos, e Einstein, como a deformação que objetos supermassivos causam no espaço-tempo. Se a hipótese dos grávitons ou dos loops gravitacionais for confirmada, a independência da gravidade em relação ao espaço-tempo será um problema, já nosso futuro é baseado no conceito de passagem do tempo expresso pelos relógios e calendários.


Se o tempo não é necessário para explicar a gravidade e, consequentemente, o espaço, então ele não passa de uma invenção humana criada para explicar eventos simples, como o amanhecer e o anoitecer, as fases da Lua e as quatro estações. E da feita que planejamos o futuro com base nas escolhas que fizemos no passado, o que chamamos de arbítrio seria uma aleatoriedade que flui no cosmos como as ondas de um mar, indiferente à passagem das horas, dias, meses, anos, etc.


Mesmo que isso se confirme, ainda restará o princípio da causalidade (não confundir com casualidade) — segundo o qual as causas sempre precedem as consequências. Porém, ao contrário do que sugere a relatividade, a história do cosmos passaria a ser uma questão de causa e efeito, reações em cadeia, partículas decaindo e formando átomos desde o início dos tempos — ou do espaço, o que dá no mesmo.

 

Nesse contexto, o arbítrio ainda seria um conceito real, pois poderíamos reconstruir um sistema com base em causas e consequências — embora não nos relógios e nos calendários, já que as horas e os dias seriam mera convenção. E essa percepção nos levaria à conclusão de que nossa existência está pré-determinada desde o Big Bang


Como disse Stephen Hawking, se tudo o que existe é um efeito em cascata de causas e consequências, então o plasma de quark-glúon dos primeiros instantes do Universo já estava destinado a evoluir para a matéria estruturada, dando origem às estrelas, aos planetas e a formas de vida como a nossa. Mas vale frisar que essa visão pré-determinista não coaduna com a mecânica quântica; alguns cientistas propõem inclusive que em vez de surgir de uma lógica de causa e efeito para se formar, o cosmos moldou as leis da natureza conforme evoluiu.


Embora pareça meramente filosófico, esse embate envolve a física moderna e está vinculado às próximas descobertas em aceleradores de partículas como o Grande Colisor de Hádrons (LHC). 


Enfim, quem viver verá.


Continua…

segunda-feira, 16 de março de 2026

SOBRE DIAS TOFFOLI E JAIR BOLSONARO

HÁ DIAS BONS, DIAS RUINS, DIAS PÉSSIMOS E DIAS TOFFOLI.

A canção Pra não dizer que não falei das flores, defendida por Geraldo Vandré no Festival Internacional da Canção de 1968, tornou-se o hino definitivo contra a ditadura. O verso mais célebre do estribilho — "quem sabe faz a hora, não espera acontecer" — parece ter sido escrito sob medida para Dias Toffoli — que, ironicamente, vem se consolidando como um retardatário contumaz.

A ascensão de Toffoli à suprema corte em 2009 foi uma recompensa pelos serviços prestados como advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, consultor da CUT e assessor do PT e de José Dirceu, além de advogado das campanhas presidenciais de Lula (1998, 2002 e 2006) e subchefe jurídico da Casa Civil, a despeito das duas reprovações em concursos para juiz que engrandeciam seu currículo.


Sem a rede protetora original, o recém-chegado buscou abrigo em Gilmar Mendes — a verdadeira herança maldita de FHC, que é quem melhor encarna o coronelismo institucional no STF — e passou a emular a arrogância e a falta de limites do novo padrinho. E mesmo tendo respondido diretamente a Dirceu em 2005, não se deu por impedido de julgar e absolver o ex-chefe no escândalo do Mensalão. 


Em 2015, o "Maquiavel de Marília" migrou para a Segunda Turma, que havia ficado responsável pelos processos da Lava-Jato no STF. Foi dele a tese de que casos sem conexão direta com a Petrobras deveriam sair das mãos de Sergio Moro — beneficiando, por tabela, Gleisi Hoffmann — e o pedido de vista que travou a limitação do foro privilegiado quando já se havia formado maioria a favor.


A Lava-Jato chegou a rondá-lo quando Léo Pinheiro declarou que a OAS fez reformas em sua mansão, mas o vazamento da informação levou o então procurador-geral Rodrigo Janot a anular o acordo de delação do empreiteiro. Afora isso, descobriu-se que um consórcio suspeito repassara R$ 300 mil ao escritório de Roberta Rangel, ex-esposa de Toffoli, de quem ele fora sócio e recebia uma mesada de 100 mil reais


Os indícios no "Caso Master" colocaram sua relatoria sob suspeita. Embora o ministro Fachin tenha evitado um incidente de suspeição formal para poupar o Tribunal, a permanência de Toffoli como relator tornou-se insustentável. Para minimizar o desgaste institucional do Tribunal, os demais ministros declararam que não havia motivo para suspeição e endossaram a "plena validade" de todos os atos praticados pelo colega. No entanto, apesar da nota oficial de apoio, sua permanência na relatoria era vista como "insustentável" pela maioria dos togados e por setores do governo Lula. Após novo sorteio, o ministro André Mendonça passou a relatar o caso.


Sem resolver sua crise ética, Toffoli parece ter cultivado uma "admiração psicótica" pelo problema: declarou-se suspeito por razões de foro íntimo, mas recusou-se teimosamente a largar o osso, mesmo após a revelação de que havia viajado em jato particular com um advogado do Master para ver a final da Libertadores, e de que o banco havia pago R$ 35 milhões por uma fatia do resort da família do ministro. Na última sexta-feira, 13, a Primeira Turma manteve Vorcaro na "Papudinha". Toffoli não votou, mas melhor faria se trocasse a suprema toga pela suprema sunga e fosse desfrutar das delícias do Tayayá Aqua Resort.


Falando na Papudinha, seu hóspede mais ilustre foi transferido para a UTI do DF Star na madrugada da última sexta-feira, devido a uma broncopneumonia. O filho Flávio alegou que "estão brincando com a saúde de seu pai ao mantê-lo preso em regime fechado", mas os registros da Dra. Ana Cristina Neves, que estava de plantão na ocasião, demonstram o contrário. Antes da crise, o detento estava "lúcido e eupneico" (termo para respiração normal), caminhou 5 km e preferiu ver futebol a tomar remédio para soluço.

Durante a madrugada, quando o quadro se agravou, a equipe agiu rápido. 


No sábado, o filho do pai tranquilizou os fiéis, mas esqueceu de mencionar — ou lembrou de esquecer — que o atendimento que foi dispensado a seu pai é uma utopia para os demais 755 mil detentos do sistema carcerário brasileiro — um estudo do CNJ aponta que 112 mil presos morreram no cárcere entre 2017 e 2022; 62% deles vítimas de doenças tratáveis, como pneumonia e tuberculose. 


Salta aos olhos que a intenção do presidiário e de seus familiares e apoiadores é obter a ansiada prisão domiciliar. Segundo o primogênito e pré-candidato (que Deus nos livre e guarde de mais essa desgraça), a defesa do pai deve apresentar uma nova solicitação escorada no agravamento recente do quadro de saúde e na necessidade de acompanhamento contínuo.


Ainda segundo o filho, o pai permanece debilitado, com aparência abatida, voz enfraquecida e persistência de soluços — sintomas que já haviam sido registrados anteriormente. De acordo com o DF Star, o paciente está clinicamente estável, mas não há previsão de alta da UTI. 


A pergunta que essa malta abjeta deveria se fazer é: "se estivesse em casa, o ex-presidente teria recebido a assistência que lhe foi prestada na cadeia?" Levando a reflexão a sério, talvez o filho do pai se animasse a dar um telefonema de agradecimento para a Dra. Ana Cristina.