sexta-feira, 27 de março de 2026

MOMENTO BARATA-VOA EM BRASÍLIA — CONTINUAÇÃO

ELEITORES NÃO TÊM MEMÓRIA, TÊM AMNÉSIA.

Como vimos no capítulo de abertura, as baratas são extremamente resistentes, e as que habitam o submundo da República não constituem exceção à regra. Depois do bate-cabeça, elas tendem a se reagrupar — como fizeram quando a "Delação do Fim do Mundo" ameaçou varrer do mapa uma porção significativa do Congresso. E como bem observou Karl Marx, "a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa". 


No final de 2016, Cláudio Melo Filho, também chamado de "o homem da Odebrecht em Brasília", entregou à PGR um calhamaço de 82 páginas relacionando 40 políticos a R$ 68 milhões pagos pelo setor de "operações estruturadas" da empreiteira — também chamado de "departamento de propinas" —, que controlava a circulação do dinheiro destinado a financiar a compra de leis, medidas provisórias e decisões de interesse do Grupo. 


O delator baiano era apenas um dos 77 informantes da Delação do Fim do Mundo. Os cinco delatores mais importantes eram Emílio e Marcelo Odebrecht, Alexandrino Alencar, Pedro Novis e Benedicto Júnior, que repassaram propinas aos presidentes Lula Dilma e aos tesoureiros clandestinos do esquema, Antonio Palocci e Guido Mantega.  


A aproximação da Odebrecht com o PT se deu por obra do patriarca Emílio, que se tornou amigo de Lula quando este ainda era aspirante ao Planalto. Com a chegada da petralhada ao poder, a construtora foi irrigada com bilhões de reais do BNDES e se tornou sócia da Petrobras na petroquímica Braskem. A Lava-Jato descobriu mais adiante que esse modelo de corrupção se reproduziu praticamente em todas as estatais, e que só a Odebrecht distribuiu algo em torno de R$7 bilhões em propinas (valor equivalente a 1% de seu faturamento em uma década.


Com Marcelo Odebrecht no comando, o faturamento do grupo passou de R$ 30 bilhões para R$ 125 bilhões. A companhia chegou até a criar um banco num paraíso fiscal caribenho para administrar o pagamento de propinas no Brasil e no exterior. Movimentado através de contas secretas, o dinheiro ajudou a eleger presidentes da República, deputados, senadores, governadores e prefeitos, que eram convertidos em servidores da Odebrecht e recompensados com novas obras, que resultavam em novas propinas que elegiam e reelegiam políticos. Esse círculo vicioso só foi interrompido com a prisão de Marcelo, o "príncipe das empreiteiras".


A Operação Lava-Jato — que ironicamente foi criada durante o governo Lula e desmantelada no de Bolsonaro — ganhou esse nome em 2008. Mas a notoriedade veio somente em 2014, quando um grampo telefônico levou ao doleiro Alberto Youssef e ao dono do Posto da Torre, que vendia 50 mil litros de combustível por dia e contava com 85 funcionários distribuídos por lojas de conveniência e alimentação, borracharia, oficina mecânica, lavanderia e, claro, a famosa casa de câmbio ValorTur, pivô da investigação que, mais adiante, exporia as entranhas pútridas do Petrolão.


Ao longo de 79 fases, a Lava-Jato contabilizou 1.450 mandados de busca e apreensão, 211 conduções coercitivas, 132 mandados de prisão preventiva e 163 de temporária. Foram propostas 38 ações civis públicas e 735 pedidos de cooperação internacional, colhidos materiais e provas que embasaram 130 denúncias contra 533 acusados e geraram 278 condenações (sendo 174 nomes únicos), num total de 2.611 anos de pena, e mais de R$ 4,3 bilhões foram recuperados por meio de 209 acordos de colaboração e 17 de leniência.


Os ataques desfechados contra a força-tarefa pelos políticos investigados bombaram na mídia. Só para ficar num exemplo notório, o então senador Romero Jucá disse a Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, que era preciso uma mudança no governo federal e um "acordão com o Supremo, com tudo, para "estancar a sangria." 


Uma das condenações mais emblemáticas foi a de Lula, que mesmo sendo réu em dezenas de processos e tendo sido condenado nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia a penas que somavam mais de 20 anos de tranca, dizia que "não existia no Brasil uma alma viva mais honesta do que ele”.


Tudo ia bem até que os procuradores cometeram o "pecado" de mirar dois ministros do STF e o filho rachadista do presidente da República. A partir de então, o ministro Gilmar Mendes — a verdadeira herança maldita de FHC — passou de defensor a crítico ferrenho da operação e articulador do fim da prisão em segunda instância


A pá de cal foi gentilmente fornecida pelo site esquerdista The Intercept Brasil, mediante o vazamento seletivo de mensagens roubadas dos celulares de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros procuradores por uma quadrilha de hackers caipiras. Não obstante, mesmo que sugerisse uma colaboração explícita entre quem acusava e quem deveria julgar com imparcialidade, o material espúrio não foi periciado pela PF, até porque "provas" obtidas criminosamente carecem de valor legal. 


Apesar de a Lava-Jato ter exposto as entranhas pútridas dos governos petistas e mandado para a prisão bandidos travestidos de executivos das maiores empreiteiras do país e políticos ímprobos do mais alto escalão do governo federal, Sérgio Moro passou de herói nacional a "juiz parcial", e Lula, de presidiário a inquilino do Planalto (pela terceira vez). Durante os 580 dias de férias compulsórias na carceragem da PF em Curitiba, sempre que alguém lhe perguntava se estava bem, o pontifex maximus da seita petista respondia: "só vou ficar bem quando foder o Moro".


Mas não há nada como o tempo para passar. Horas depois que o Supremo proibiu a prisão em segunda instância (por 6 a 5, com o voto de Minerva proferido pelo inigualável Maquiavel de Marília), Lula deixou a cela VIP em Curitiba. Mais adiante, ele teve as condenações anuladas e os direitos políticos restabelecidos, mas jamais foi absolvido: suas condenações foram anuladas quando o ministro Fachin acolheu um recurso que questionava a competência territorial da 13ª Vara Federal de Curitiba para processar e julgar o ex-presidente — argumento que o próprio Fachin já havia rejeitado pelo menos dez vezes. Mal comparando, seria como um delegado soltar um criminoso preso em flagrante pela Guarda Civil Metropolitana a pretexto de que prisão deveria ter sido feita pela Polícia Militar.


Sérgio Moro colecionou muitos inimigos, mas ninguém investiu tanto contra sua reputação quanto ele próprio, sobretudo ao ajudar a incinerar as sentenças que lhe deram fama e a transformar as multas de corruptores confessos em cinzas no forno de pizza do STF. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.


Continua…

quinta-feira, 26 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 89ª PARTE — DE ARISTÓTELES A EINSTEIN

DEUS DÁ NOZES A QUEM NÃO TEM DENTES E DENTES A QUEM NÃO TEM NOZES.  

Nos tempos de antanho, cientistas e filósofos como Aristóteles e Johannes Kepler acreditavam que a velocidade da luz era infinita. Galileu foi um dos primeiros a questionar essa ideia e fazer novas medições, mas falhou devido às limitações impostas pela tecnologia disponível na época.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A campanha eleitoral de 2026 ganhou dois novos protagonistas: a língua de Daniel Vorcaro e a toga de André Mendonça. O delator colocará sobre a mesa do magistrado revelações que podem fulminar reputações e pretensões.

Mendonça diz em privado que não tomará decisões que tumultuem a conjuntura às vésperas das eleições, mas a dinâmica do inquérito desafia a discrição presumida do ministro, que, ao manusear a lista de políticos e autoridades que tiveram relações promíscuas com Vorcaro, será compelido a ordenar diligências capazes de influenciar os rumos da eleição.

Além do caso Master, o ministro "terrivelmente evangélico" indicado pelo refugo da escória da humanidade é relator do inquérito sobre o assalto contra os aposentados, o segundo escândalo mais rumoroso da República. Juntos, os dois casos enfiam a corrupção na agenda do eleitor, deixando 2026 mais parecido com 2018 do que com 2022.


No século XVII, após observar atrasos nos eclipses da lua jupiteriana de Io, o astrônomo dinamarquês Ole Rømer estimou em cerca de 22 minutos o tempo que a luz levava  para cruzar o diâmetro da órbita da Terra (o valor atual é de aproximadamente 17 minutos). A partir desses dados, o matemático, físico e astrônomo holandês Christiaan Huygens fez o primeiro cálculo numérico da velocidade da luz. 


Nos séculos XIX e XX, os físico francês Hippolyte Fizeau seu colega polonês Albert Michelson realizaram experimentos em laboratório com espelhos giratórios para obter medições cada vez mais precisas, e a velocidade exata — de 299.792.458 metros por segundo ou cerca de 1,08 bilhão de quilômetros por hora — foi estabelecida como uma constante universal em 1983.


A Teoria da Relatividade de Einstein descreveu a gravidade como a curvatura do espaço-tempo causada pela massa e energia, bem como revelou que o tempo passa mais devagar tanto em altas velocidades (dilatação do tempo) quanto em campos gravitacionais intensos (dilatação gravitacional). 


Parafraseando o físico John A. Wheeler, o espaço-tempo diz à matéria como se mover e a matéria diz ao espaço-tempo como se curvar. E uma vez que o espaço-tempo se distorce para que a velocidade da luz seja constante em todos os referenciais, o tempo pára — ou simplesmente não existe — no referencial dos fótons (partículas de luz) .


Na famosa equação E = mc², a quantidade de energia (E) que um objeto possui é igual à sua massa (m) multiplicada pela velocidade da luz elevada ao quadrado (c²). Como "c" equivale a aproximadamente 1,08 bilhão de km/h, uma quantidade ínfima de massa se tornaria infinita na velocidade da luz, exigindo uma quantidade igualmente infinita de energia para continuar a acelerar. 


A 99,999% da velocidade da luz, um corpo fica 224 vezes mais pesado; a 99,99999999%, o aumento é de 70 mil vezes. Na Terra, mesmo os aviões mais velozes não são rápidos o bastante para permitir que o ganho de massa seja aferido, mas os relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam nosso planeta a 14 mil km/h adiantam 38 milissegundos por dia, tornando esse efeito mensurável. 


A 99,999999999999999999981% de "c", um segundo no referencial do viajante equivale a 2,5 anos no tempo terrestre, ilustrando o efeito extremo da dilatação do tempo (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos). Em um cenário mais moderado, chegar a Alpha Centauri (que dista 4,367 anos-luz da Terra) viajando a 99,9999999% de "c" levaria mais de 4 anos terrestres, mas o trajeto seria completado em aproximadamente 1,7 horas no referencial dos astronautas.  


Observação: Para que os astronautas suportem a aceleração e desfrutem da gravidade artificial durante a jornada, seria preciso manter uma aceleração gradual e constante, sob pena de não resistirem ao aumento da força g.


A sonda espacial mais veloz lançada até agora alcançou 693 mil km/k (0,0643% da velocidade da luz) em dezembro de 2024. Essa velocidade permite ir da Terra à Lua em meia hora, a Marte em 15 dias e aos confins do nosso sistema solar em pouco menos de 3 anos, mas uma hipotética ida a Alpha Centauri levaria mais de 6 mil anos.


Considerando que a dilatação do tempo só é expressiva a velocidades próximas à da luz, e que a expectativa média de vida dos seres humanos é de 80 anos, missões tripuladas continuam restritas à nossa vizinhança imediata. Mas vale lembrar que a esquadra de Pedro Álvares Cabral levou 44 dias para cruzar o Atlântico em 1500, e que, em 2003, quando foi aposentado por motivos de segurança, o supersônico Concorde voava entre Londres e Nova York em cerca de três horas.


A tecnologia de que dispomos já permite criar colônias habitáveis na Lua ou em Marte. Isso não é suficiente para realocar toda a humanidade se a Terra sofrer um colapso ecológico, mas pode servir como laboratório para pesquisas sobre melhorias genéticas ou novas formas de vida. 


Viajar a velocidades próximas à da luz facilitaria o acesso a exoplanetas onde pode haver formas de vida desconhecidas, ainda que não necessariamente inteligentes. Um estudo recente feito pela NASA estimou que a Via Láctea pode conter mais de 2 bilhões exoplanetas com bactérias, variantes de plantas etc.


Entre outras características curiosas da luz — além da velocidade — está a propagação dual — como onda e partícula. Uma simulação feita pela NASA mostra que, vistas a partir de uma espaçonave a uma velocidade bem próxima à da luz, astronautas veriam o cosmos como um borrão colorido quase indefinido (clique aqui para assistir ao vídeo).


Continua...

quarta-feira, 25 de março de 2026

MOMENTO BARATA-VOA EM BRASÍLIA

SI HAY GOBIERNO, YO SOY CONTRA.

Eu tinha um conhecido que tinha um irmão que tinha uma loja que vendia guarda-chuvas. Sempre que chovia, o irmão do meu conhecido festejava: que dia lindo!!!


Por mais estranho que pareça, todo fato tem ao menos três versões (a sua, a minha e a verdadeira) e existem várias maneiras de ver as mesmas coisas. 


Se você aprecia frutas e legumes fresquinhos (ou gosta de comer pastel tomando caldo de cana), dia de feira é tudo de bom, mas se mora na rua em que os feirantes amam as barracas antes do nascer do sol, a feira é uma aporrinhação. 


A capacidade de compreender sentimentos, emoções e perspectivas dos outros colocando-se no lugar deles — ou "calçando seus sapatos" como dizem os gringos (to be em someone's shoes) — se chama empatia. Só que a maioria das pessoas vê as pingas que as outras tomam, mas não os tombos que elas levam. Enfim, cada um sabe onde lhe aperta o sapato, e quem tem calos sabe que não convém se meter em aglomerações.


Somos todos egoístas por definição. Aristóteles dizia que “o homem é um animal social porque precisa dos outros membros da espécie”. Se nossos antepassados passaram a viver em bandos para se sentirem mais seguros, mas viver em sociedade exige sobrepor os interesses coletivos aos individuais e limitar a liberdade de cada um para evitar interferências na liberdade da sociedade como um todo.


Mesmo quem aprecia a solidão não gosta de se sentir só. Mas somos incapazes de viver sós e, paradoxalmente, de viver em sociedade, pois o convívio social pressupõe a observância de regras limitadoras do nosso ser ou não-ser — como diria Drummond, é preciso instinto de formiga, dentes de leão e habilidade camaleônica.


A convivência em um meio comum implica a busca de interesses que atendam de forma equilibrada às necessidades coletivas, mas isso gera atritos entre os diversos interesses individuais presentes, que muitas vezes se revelam antagônicos e colidentes. Para pôr ordem nesse galinheiro, existem as leis — também chamadas de normas jurídicas.


Como a prostituição e os políticos, as leis são um mal necessário. Sem a imposição de limites, liberdade se confunde com libertinagem. Por outro lado, não cabe ao legislador — representante legitimado pelo voto para exercer a função de guardião da soberana vontade popular — permitir expressamente o que quer que seja, e sim proibir aquilo que conflita com os interesses da sociedade. 


Reza um velho ditado latino que "nullum crimen, nulla poena sine praevia lege" (não há crime nem pena se não houver uma lei anterior que os defina). Em outras palavras, alguém só pode ser punido se sua ação (ou omissão) constituir fato delituoso previamente tipificado pela legislação vigente.


Para entender melhor, vamos supor que Joãozinho costume peidar na igreja, e que um belo dia essa prática passa a ser tipificada — ou seja, ser vista como contravenção ou crime. A partir de então, Joãozinho estará transgredindo a lei sempre que peidar na igreja, mas não poderá ser punido pelos peidos pretéritos, já que a lei é posterior ao fato. 


A questão é que vivemos num país em que até o passado é incerto, e o eleitorado tende a repetir a cada dois anos, por ignorância e despreparo, o que Pandora fez, uma única vez, por curiosidade, ao abrir sua famosa caixa e libertar todos os males do mundo.


Os brasileiros são vocacionados a votar em candidatos que se elegem para roubar, roubam para se reeleger e, entre uma coisa e outra, cobrem com o manto parlamentar os andrajos de maus políticos e criam leis destinadas a favorecer a si próprios, a seus pares e a criminosos que podem bancar os honorários milionários de chicaneiros especializados em empurrar a decisão final dos processos ad kalendas græcas — ou até que a pretensão punitiva do Estado seja frustrada pela prescrição.


Costuma-se dizer que “se está na lei, deve ser cumprido”, mas isso não pode significar uma obediência cega, irracional e carente de qualquer senso crítico ao que está sendo imposto como forma de comportamento. É imperativo conhecer os limites de atuação do poder que obriga o cumprimento da lei e as formas de regulamentá-lo. 


Ao abrirmos mão de nossa plena e irrestrita liberdade em prol do convívio harmonioso em sociedade, aceitamos tacitamente determinadas limitações, mas desde que essas limitações atendam aos anseios dos conviventes/aderentes, satisfazendo, assim, suas pretensões. Não obstante, o que temos visto de um tempo a esta parte é: 1) um apego desenfreado à letra fria da lei; 2) o exercício da hermenêutica criativa para adequar o alcance do dispositivo legal a um caso específico, de acordo com a simpatia pessoal do julgador pelo réu ou por suas convicções político-ideológico-partidárias.


Em vez de submeter a sociedade a leis arcaicas e divorciadas da realidade, dever-se-ia revogar esses dispositivos ou, no mínimo, adequá-los aos anseios e necessidades dos cidadãos de bem. Se uma lei já não serve, muda-se a lei; se um político se elege calcado em promessas de campanha e acaba por não cumpri-las, ele deve ser prontamente substituído. A Constituição oferece remédios para mitigar esses males, mas é preciso aplicá-los em tempo hábil, sob pena de o paciente morrer antes do tratamento.


Se a delação de Daniel Vorcaro não poupar ninguém, e se não prosperarem os esforços do submundo brasiliense pára abafar as investigações, os porões do escândalo do Banco Master deve provocar um momento barata-voa na Praça dos Três Poderes e adjacências. Não será a primeira vez, e pode não ser a última.


Continua…