TER ESPERANÇA É BOM, MAS DEPENDER APENAS DELA É RUIM.
Quando meu avô trocou Abbasanta, na Sardenha, por Ubá, em Minas Gerais, os lavradores despertavam ao nascer do sol e se recolhiam quando ainda podiam encontrar a cama sem precisar de lamparinas ou candeeiros. Banho se tomava no riacho, e comida se fazia no fogão à lenha.
Durante os anos 1960 e o início da década seguinte, ouvi muitas vezes do meu avô que “saber não ocupa lugar”. Esse epigrama é uma meia-verdade, mas ele não sabia.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Um velho, um menino e um burro seguiam rumo à cidade. O menino ia montado no burro, e o velho, caminhando. Ao ouvirem algumas pessoas com quem cruzaram comentar que era um absurdo o velho caminhar enquanto o menino ia montado no burro, avô e neto trocaram de lugar. Mais adiante, ouviram de outros passantes que era inconcebível o velho obrigar a criança a caminhar enquanto ele ia confortavelmente aboletado no lombo do animal.
O velho decidiu que tanto ele quanto o neto caminhariam, mas outros passantes comentaram que eles eram dois idiotas por andarem quando dispunham de um burro para carregá-los. Diante disso, ambos montaram no burro, mas logo foram criticados por sobrecarregar o pobre animal.
O velho decidiu que ele e o neto carregariam o burro nos braços, mas perderam o equilíbrio ao atravessar a ponte e caíram no rio. Ambos se salvaram, mas o animal se afogou.
Atribui-se a JFK a seguinte pérola: “Não conheço a fórmula do sucesso, mas a do fracasso é tentar agradar a todos ao mesmo tempo”. No fim, o burro não morreu por excesso de peso, mas por excesso de opinião. Isso vale também para ambientes polarizados, nos quais tentar agradar a todos não produz consenso — e sim desastre.
Se cada neurônio carregasse uma única lembrança, teríamos um sério problema de espaço. Mas as mais de 1 trilhão de conexões que nossos mais de 1 bilhão de neurônios são capazes de criar correspondem a cerca de 2,5 petabytes. Como 1 PB equivale a 1.000.000 de GB, esse latifúndio poderia conter a programação transmitida ininterruptamente por um canal de TV durante 300 anos, ou seja, é mais que suficiente para nossa expectativa de vida.
A memória dos PCs (tanto a física quanto a de massa) pode ser expandida por um upgrade. A nossa é mais parecida com a dos celulares, que permanecem com a configuração definida pelo fabricante ao longo de toda a vida útil do aparelho. Mas isso não significa que não possamos gastar alguns neurônios com “cultura inútil” (lembrando que conceitos como “útil” e “inútil” variam ao sabor da conjuntura).
Programas capazes de se autorreplicar remontam aos anos 1950, mas só passaram a atender por “vírus” nos anos 1980, depois que um pesquisador chamado Fred Cohen embasou sua tese de doutorado nas semelhanças entre vírus biológicos e digitais (mais detalhes na sequência Antivírus — A História).
“Winchester” é o nome de uma empresa fundada em 1855 para fabricar rifles de repetição, mas passou a sinônimo de HDD (acrônimo de hard disk drive, ou “unidade de disco rígido”) depois que a IBM lançou um disco rígido capaz de armazenar 30 MB por unidade, numa referência ao popular rifle Winchester Modelo 30-30. Hardware (ferragem) tornou-se sinônimo do conjunto de componentes físicos que formam um PC (ou “micro”, como os primeiros computadores pessoais eram carinhosamente chamados pelos usuários).
Mais adiante, a popularização da Internet entre usuários domésticos levou aos dicionários termos como login, online, offline, boot, email, hacker, etc. Deletar (de delete) virou sinônimo de apagar; ícone, de representação gráfica de um programa ou arquivo; pendrive, de dispositivo portátil para armazenamento de dados; selfie, de fotografia tirada de si mesmo com o celular. E por aí segue a procissão.
As siglas são um capítulo à parte. Wi-Fi e USB “caíram na boca do povo”, mas outras continuam dando margem a dúvidas (sem falar que muitas pessoas ainda chamam o gabinete do computador de CPU — que na verdade é o processador principal — e confundem armazenamento com memória, talvez porque sejam expressos em múltiplos do byte).
Nove entre dez usuários de celulares sabem que SIM (Subscriber Identity Module) é o chip responsável por conectar o dispositivo à rede da operadora, e que GPS (Global Positioning System) é um sistema de localização via satélite. Mas poucos sabem que IMEI (International Mobile Equipment Identity) é o número exclusivo que identifica cada aparelho móvel no mundo; que NFC (Near Field Communication) é uma tecnologia de comunicação sem fio de curta distância, usada em pagamentos por aproximação; e que UFS (Universal Flash Storage) é um padrão de armazenamento mais rápido que o EMMC (embedded MultiMedia Card), que melhora significativamente o desempenho dos celulares.
Quase ninguém sabe que SoC (System on Chip) integra diversos componentes (como processador, GPU e memória) em um único chip, otimizando o consumo de energia e o desempenho, e que OTA (Over The Air) permite atualizações de software sem a necessidade de conexão física, facilitando a manutenção do sistema operacional.
Outras siglas que aparecem em manuais, configurações e especificações técnicas dos dispositivos móveis são PIN (Personal Identification Number), que é o código de segurança usado para desbloquear o chip SIM ou o próprio aparelho; e PUK (Personal Unblocking Key), que é código utilizado para desbloquear o SIM após erros consecutivos no PIN. OLED (Organic Light Emitting Diode) é uma tecnologia de tela que oferece cores mais vivas e maior eficiência energética; TFT (Thin Film Transistor) é um tipo de tela LCD (Liquid Cristal Display) comum em aparelhos de baixo custo; e UI (User Interface) é a interface gráfica do sistema operacional, responsável pela interação do usuário com o aparelho.
ROM (Read Only Memory) é a memória de massa (ou secundária) usada para armazenar de forma “persistente” o sistema operacional e os aplicativos; e RAM (Random Access Memory), a memória física (ou primária) onde os programas são carregados e as informações, processadas — desde o próprio sistema operacional até um simples documento de texto.
À medida que a tecnologia evolui, novas siglas surgem e passam a fazer parte do vocabulário dos usuários de dispositivos móveis. Compreender seu significado pode ser visto como “cultura inútil”, mas é fundamental para quem deseja acompanhar as inovações e utilizar os recursos disponíveis de maneira mais consciente e produtiva.




