DEIXEMOS QUE OS SEGUNDOS SE CURVEM DIANTE DA NOSSA VONTADE DE CRIAR.
Até aqui, percorremos um caminho que nos levou das ideias de Einstein às dimensões ocultas da Teoria das Cordas, passando por buracos de minhoca, universos paralelos e atalhos pelo espaço-tempo.
Diante disso, a pergunta que naturalmente se impõe é: se a Física admite tantas possibilidades extraordinárias, por que ninguém voltou ao passado para alterar a História?
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Os vazamentos transformaram o inquérito sobre o escândalo do Master em um cano furado, colocando 50% do STF na fila do patíbulo.. Na última sexta-feira, o presidente de turno da corte divulgou um ofício enviado ao chefe da Polícia Federal no qual anotou que dará os "encaminhamentos devidos" assim que receber da corporação o relatório com todas as informações disponíveis "sem exceção de pessoa".
Há sete meses, embora a obviedade já saltasse aos olhos, o Supremo, fingindo-se de cego, enviou ao arquivo morto relatório em que a PF expôs, em 200 páginas, as relações comerciais de Dias Toffoli com o esquema de Daniel Vorcaro. Deu no que está dando.
No mês passado, o tribunal voltou a se defrontar com o óbvio ao tomar conhecimento das mensagens enviadas por Vorcaro a Alexandre de Moraes, e, em sessão que entrou para a história como um vexame, tropeçou no óbvio, piscou para o óbvio, voltou a fingir que o óbvio não é o óbvio e o empurrou com a barriga.
Sobreveio a quebra do sigilo do celular de Vorcaro, que trouxe à luz fotos e mensagens que expõem, direta ou indiretamente, Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux, além de deixar o PGR numa sinuca de bico — a autoridade de Paulo Gonet foi como que diluída no uísque e defumada na fumaça do charuto patrocinado pelo investigado. E nada.
Em seu ofício, Fachin disse estar convicto de que a PF e o Ministério Público "desempenharão suas atribuições com a independência, a responsabilidade e o rigor que delas se espera", e avaliou que "a preservação da confiança pública nas instituições exige que eventuais ilícitos sejam investigados com seriedade, transparência e respeito à ordem constitucional".
O palavrório recolocou o óbvio no trilho. Agora só falta transformá-lo num lote de ações práticas, mesmo porque confiança não orna com a dúvida, e a credibilidade de um tribunal é inversamente proporcional à suspeita que recai sobre seus integrantes.
À primeira vista, basta impedir o casamento dos próprios pais, eliminar o avô antes do nascimento do pai ou convencer Einstein a abandonar a Física e se dedicar ao violino para que toda a História seja reescrita. Afinal, uma única viagem ao passado colocaria em xeque um dos pilares da lógica: a relação entre causa e efeito.
Em outras palavras, o efeito passaria a determinar a própria causa, algo que desafia nossa intuição e coloca em xeque a lógica sobre a qual construímos nossa compreensão do mundo. E parece que a natureza não gosta desse tipo de brincadeira.
Imagine que alguém voltasse no tempo e impedisse o nascimento de um grande líder político, ou que Alexander Fleming descobrisse a penicilina. Se o passado fosse realmente alterado, o presente deixaria de existir exatamente como o conhecemos. E sendo assim, quem teria realizado a viagem?
Paradoxos como esse intrigam os cientistas há décadas, mas, curiosamente, em vez de concluir que as viagens ao passado são impossíveis, alguns dos maiores nomes da Física se perguntam se o próprio Universo não possuiria mecanismos capazes de impedir esse tipo de contradição — uma espécie de "sistema antifraude" destinado a garantir que a História permaneça coerente, por mais estranhas que sejam as leis da natureza. E é justamente essa intrigante possibilidade que iremos explorar a partir de agora.
Durante décadas, físicos encararam esses paradoxos como um sinal de que as viagens temporais simplesmente deveriam ser impossíveis. Era a solução mais simples: se voltar ao passado produz contradições lógicas, então a própria Física deve impedir que isso aconteça. Mas nem todos concordaram.
Alguns pesquisadores passaram a defender uma ideia surpreendente: talvez o Universo permita viagens ao passado, desde que nenhuma delas altere aquilo que já aconteceu. Em outras palavras, é possível visitar o ontem, desde que não se faça nada para mudá-lo. Mas a própria presença do viajante do tempo numa época que não é a sua já não seria uma mudança?
Segundo o Princípio da Autoconsistência, proposto pelo físico russo Igor Novikov, qualquer tentativa de produzir um paradoxo fracassaria, não por azar, coincidência ou intervenção divina, mas porque as leis da Física simplesmente não admitem acontecimentos contraditórios. Essa é uma proposta elegante, mas existe outra ainda mais radical.
De acordo com a Conjectura da Proteção Cronológica, proposta por Stephen Hawking, talvez o Universo sequer permita que alguém chegue ao ponto de criar um paradoxo. Antes que isso acontecesse, algum mecanismo físico destruiria a máquina do tempo, fecharia o buraco de minhoca ou tornaria a viagem impossível, como se o próprio cosmos possuísse um sistema antifraude.
Se Hawking estiver certo, o Universo age como um cartório extremamente rigoroso. Você pode preencher todos os formulários, apresentar toda a documentação e cumprir todas as exigências, mas, na hora de carimbar o passaporte para o passado, alguém atrás do balcão simplesmente diz: seu pedido foi indeferido.
Isso pode parecer um exagero, mas a Física moderna encontrou razões surpreendentemente sérias para considerar essa possibilidade, como veremos a seguir.
Continua…



