Poucas ideias na ciência moderna remodelaram nossa compreensão da realidade de forma mais profunda do que o espaço-tempo — prevista na Teoria da Relatividade de Albert Einstein.
Algumas descrições tratam essa estrutura da realidade como um mapa completo de todos os eventos — passados, presentes e futuros —, enquanto outras a descrevem como um campo que se curva e se dobra em resposta à gravidade. Mas o que realmente significa dizer que o espaço-tempo existe? Que tipo de coisa é? Uma estrutura, uma substância ou uma metáfora?
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
O assunto já deu no saco — não tanto quanto os queixumes de Bolsonaro et caterva, vale destacar — mas vamos lá. No caso Master, o certo e o errado foram substituídos pelo que serve e o que não serve, o que convém ou não aos interesses individuais de autoridades do mais alto escalão. O ministro Fachin, presidente de turno do STF, aderiu ao certo ao esclarecer que vai rodar a toga doa a quem doer, mas acha errado fazer qualquer juízo sobre Toffoli, achando melhor dizer que a "tendência" é o imbróglio ser devolvido à primeira instância.
Lula, o ex-condenado que pleiteia o quarto mandato presidencial, viu serventia eleitoreira em esculachar do palanque o banqueiro Daniel Vorcaro e seu desfalque, mas acha que uma CPI daria palco para a oposição e, portanto, não serviria a seu projeto de reeleição (devido às visitas de Vorcaro ao Planalto, o contrato dele com a família Lewandowski e suas conexões com o PT da Bahia).
Flávio Bolsonaro, por sua vez, vibrou nas redes sociais com a marcha de Nikolas sobre Brasília, mas evitou aderir à pressão do "menino de ouro do bolsonarismo" para que Alcolumbre destrave a CPI, pois seria o mesmo que bater bumbo sob o telhado de vidro da banda Master do Centrão, cutucando potenciais aliados como Ciro Nogueira e Antonio Rueda.
Desde que explodiu no noticiário como escândalo financeiro, o caso Master prenunciava uma tempestade política, e a migração das trovoadas das planilhas de investimento para os aplicativos de mensagens de suspeitos e cúmplices segue um padrão meteorológico, criando as nuvens carregadas que levam à instabilidade atmosférica e à precipitação dos grandes temporais.
A corrupção no Brasil também sofre períodos de condensação. Aconteceu na fase do Collorgate, anões do orçamento, compra de votos da reeleição, mensalão, petrolão, orçamento secreto... A conjuntura roça agora mais um desses períodos de bandalheira concentrada: tomado pela agenda de contatos, Vorcaro construiu conexões que vão do petismo ao bolsonarismo e travessou seus interesses nos três poderes. Perdeu-se o recato. Estavam todos tão certos de que nada os atingiria que esqueceram de maneirar. A PF cuida agora de separar lobby de crime.
Num cenário ideal, o inquérito sobre as fraudes financeiras do Master escorregaria da mesa de Dias Toffoli para a primeira instância. E o Supremo, também submetido aos raios e trovoadas do Master, passaria a cuidar dos enrolados que dispõem de foro especial. Frequentam o palco eleitoral de 2026 como indiciamentos esperando na fila para acontecer.
Essas questões não são apenas filosóficas. Elas estão no âmago da física moderna e moldam tudo, desde como entendemos a relatividade geral até como imaginamos as viagens no tempo, os multiversos e as nossas origens. Mas a linguagem que usamos para descrevê-las é frequentemente vaga, metafórica e profundamente inconsistente.
O filósofo austro-britânico Ludwig Wittgenstein alertou certa vez que os problemas filosóficos surgem quando a linguagem sai de férias. A física pode ser um excelente exemplo disso: ao longo do último século, palavras familiares como tempo, existir e atemporal foram reaproveitadas em contextos técnicos sem examinar o significado que carregam na linguagem cotidiana. Isso levou a uma confusão generalizada sobre o que esses termos realmente significam.
Na filosofia da física, particularmente em uma visão conhecida como eternalismo, a palavra atemporal é usada literalmente, pois dá a ideia de que o tempo não flui nem passa, que todos os eventos ao longo do tempo são igualmente reais dentro de uma estrutura quadridimensional conhecida como Universo em bloco. De acordo com essa visão, toda a história do Universo já foi traçada, atemporalmente, na estrutura do espaço-tempo — nesse contexto, atemporal significa que o próprio Universo não perdura nem se desenvolve em nenhum sentido real; não há devir, não há mudança, há apenas um bloco dentro do qual toda a eternidade existe atemporalmente. Mas se tudo o que acontece ao longo da eternidade é igualmente real e todos os eventos já estão lá, o que realmente significa dizer que o espaço-tempo existe?
Para entender essa questão, é preciso examinar uma diferença conceitual fundamental: a distinção estrutural entre existência e ocorrência. Existência é um modo de ser, e ocorrência, de acontecer. Imagine que há um elefante ao seu lado. Você provavelmente diria “este elefante existe”, e poderia descrevê-lo como um objeto tridimensional que existe. Em contrapartida, imagine um elefante puramente tridimensional que aparece na sala por um instante e desaparece como um fantasma. Esse elefante não existe realmente no sentido comum, ele simplesmente acontece.
Um elefante existente perdura ao longo do tempo, e o espaço-tempo cataloga cada momento de sua existência como uma linha de universo quadridimensional — o caminho de um objeto através do espaço e do tempo ao longo de sua vida. Já o elefante imaginário que acontece é apenas uma fatia espacial desse tubo; um momento tridimensional. Agora, aplique essa distinção ao próprio espaço-tempo. O que significa, nesse contexto, existir no mesmo sentido em que o elefante existe? O espaço-tempo perdura? Tem seu próprio conjunto de momentos “agora”? Ou é apenas a variedade de todos os eventos que acontecem ao longo da eternidade — algo que ocorre, uma estrutura descritiva para relacionar esses eventos?
O eternalismo trata todo o espaço-tempo como uma estrutura existente e considera a passagem do tempo uma ilusão. Mas essa ilusão é impossível se todo o espaço-tempo ocorre num único instante. Para recuperar a ilusão de que o tempo passa dentro dessa estrutura, o espaço-tempo quadridimensional teria de existir da mesma forma que o elefante tridimensional — cuja existência é descrita pelo próprio espaço-tempo.
Se imaginarmos que todos os eventos ao longo da história do Universo “existem” dentro do Universo em bloco, então poderíamos perguntar: quando o próprio bloco existe? Se não se desenrola nem muda, ele existe atemporalmente? Se sim, então estamos sobrepondo outra dimensão do tempo a algo que deveria ser atemporal no sentido literal.
Para entender isso melhor, imagine uma estrutura de cinco dimensões, sendo três espaciais e duas temporais. O segundo eixo temporal permite dizer que o espaço-tempo quadridimensional existe exatamente da mesma forma que normalmente pensamos que um elefante na sala existe dentro das três dimensões do espaço que nos rodeiam — que catalogamos como espaço-tempo quadridimensional.
Nesse ponto, estamos saindo da física estabelecida, que descreve o espaço-tempo apenas através de quatro dimensões. Mas isso nos leva a outro problema: não temos uma maneira coerente de falar sobre o que significa a existência do espaço-tempo sem reintroduzir o tempo por uma porta conceitual que a física não reconhece. É como tentar descrever uma música que existe de uma só vez — sem jamais ser tocada, ouvida ou desdobrada no tempo — ou querer saber o que existe ao norte do Polo Norte.
Continua...

