sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM... (FINAL)

QUE OS MISTÉRIOS PERMANEÇAM INSONDÁVEIS PARA QUE A BUSCA NUNCA TERMINE. 

Como vimos no capítulo anterior, a parte observável do universo contém cerca de dois trilhões de galáxias — as menores com alguns milhões de estrelas e as maiores com centenas de bilhões.


Nem todos esses sextilhões de "sóis" são orbitados, mas presume-se que haja tantos planetas quanto estrelas em nossa galáxia, e que real extensão do cosmos além dessa região pode ser centenas, milhares ou até infinitas vezes maior do que a fração infinitesimal que conseguimos observar.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


“É a economia, estúpido!” A frase cunhada em 1992 por James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton, veste como uma luva nas eleições de outubro: segundo a última pesquisa Genial/Quaest, 82% das famílias estão endividadas e 69% dos entrevistados sentem seu poder de compra diminuído. Em que pesem escândalos e polarizações, muitos brasileiros vão votar com o bolso. Mas o que os principais candidatos a ocupar o Palácio do Planalto pretendem fazer com o nosso dinheiro?

Quarto candidato a ser sabatinado pela TV Globo, Lula questionou o uso de conversas telefônicas como evidência, mas adotou tom diferente ao falar do ex-chefe de gabinete — o Marcola —, investigado por sua relação financeira com a lobista Roberta Luchsinger. 

Nesse caso, o xamã petista afirmou que o ex-assessor agiu de forma “totalmente errada” ao receber valores da empresária e disse que, se ele cometeu irregularidades, terá de pagar por elas. No do filho, classificou como “ilações” as suspeitas envolvendo o menino de ouro e afirmou que ele terá de se defender das investigações. 

Na seara econômica, o molusco afirmou que a dívida pública, hoje acima de 80% do PIB, não o preocupa, e defendeu a condução fiscal de seu governo. Como se não bastasse, atribuiu parte do aumento da dívida aos juros elevados, afirmou ter herdado do governo Bolsonaro um déficit de 2,8% do PIB, e que espera encerrar este ano com superávit primário. Além disso, chamou a lobista Roberta Luchsinger de “pilantra” e negou qualquer relação com ela. Questionado sobre mensagens obtidas pela Polícia Federal, afirmou que as conversas não comprovam o uso de dinheiro público e colocou em dúvida seu valor como evidência. 

“O que uma pilantra pode fazer num telefone ou o que um cara qualquer pode fazer num telefone?”, disse. Para completar, declarou nunca ter visto ou conversado com Luchsinger e negou que ela tenha tido qualquer proximidade com ele. No entanto, apesar das negativas, a lobista tem em sua conta no Instagram pelo menos três fotos com ele, tiradas entre 2022 e 2023, as imagens causaram desconforto na equipe da campanha petista. 

O estadista de fancaria também saiu em defesa do senador petista Jaques Wagner ao comentar as suspeitas que envolvem o aliado no caso Banco Master, afirmando que não pode fazer política com base em “ilações” e disse confiar na honestidade do correligionário. Segundo ele, até agora não há comprovação de uma relação de Wagner com o Banco Master, mas que “Se ele cometeu um desvio, vai pagar o preço”, afirmou.

Dos 40 minutos de entrevista, 25 foram sobre corrupção, nos quais o macróbio eneadáctilo demonstrou não ter aprendido muito em relação ao passado. Garantiu que se algo ficar provado contra o filho e o ex-chefe de gabinete, eles terão que pagar. Mas as afirmações sensatas logo deram lugar à irritação, quando ele passou a comparar a situação do filho à Lava-Jato e a acusar a PF de vazar informações e a imprensa de divulgar mentiras. 

Acuado por denúncias que estouraram bem no início de sua campanha, precisou se amparar em seus governos anteriores e, de maneira menos focada, no futuro, para sobreviver aos questionamentos dos entrevistadores. 

A entrevista na Rede Globo mostrou que o ex-presidiário faz um mandato sem marcas e vive de uma era remota. Confira o que foi verdade, exagero ou simplesmente falso na sua sabatina.

A guerra mais sangrenta e decisiva para o resultado da eleição presidencial não se dará no horário eleitoral, nas redes sociais ou nos debates, mas no Supremo Tribunal Federal, onde tramitam os casos Dark Horse e Lulinha. O ritmo de cada um e as revelações produzidas daqui para a frente não definirão só quem tem mais chance de vitória numa eleição pautada pela rejeição, mas também com quem ficará o domínio do tribunal.


Quando as luzes da cidade e a poluição não atrapalham, conseguimos visualizar a olho nu cerca de 5 mil estrelas pertencentes a quatro galáxias — Via Láctea, Andrômeda e as duas Nuvens de Magalhães —, mas quando perscrutamos o céu com nossos telescópios espaciais mais poderosos, conseguimos ver cerca de 46,5 bilhões de anos-luz em todas as direções. Esse é o universo observável, ou seja, tudo que a luz teve tempo de alcançar desde sua criação, há 13,8 bilhões de anos.


Talvez 440 sextilhões de quilômetrosIsso pareça infinito, mesmo porque engloba bilhões de galáxias, cada qual com centenas de bilhões de estrelas, mas a teoria da inflação cósmica sugere que o universo pode ser incomensuravelmente maior — segundo os modelos científicos mais aceitos, o universo total pode ser pelo menos 10²³ vezes maior que nossa esfera observável. 


Tudo o que vemos, todas as galáxias distantes, todos os quasares, toda a imensidão que nos faz sentir insignificantes, é literalmente nada comparado ao que existe além — de estruturas cósmicas inimagináveis até regiões com leis físicas diferentes. No entanto, devido à velocidade finita da luz e à expansão acelerada do Universo, nenhum sinal dessas regiões jamais nos alcançará. Sendo assim, continuaremos dentro de uma bolha de informação limitada, presos a um horizonte de eventos informacionais e completamente cegos para a verdadeira escala da realidade.


A despeito de já termos saído do planeta Terra e estarmos cogitando fundar colônias na Lua e em Marte, talvez jamais cheguemos a conhecer a vastidão real do cosmos: além de superar todos os obstáculos de velocidade, tempo e distância, ainda seria preciso lidar com um assassino silencioso embuçado no espaço interestelar, que está repleto de raios cósmicos e partículas subatômicas ejetadas por supernovas, buracos negros e outros eventos, que viajam a velocidades próximas à da luz.


Observação: Até não muito tempo atrás, pensava-se não ser possível transpor a Linha de Kármán — limite imaginário que fica a 100 km de altitude, considerado como "início do espaço" por ser o ponto onde atmosfera se torna rarefeita demais para a sustentação aerodinâmica de aeronaves comuns. É fato que o atrito das moléculas de ar contra a fuselagem a velocidades hipersônicas causa um calor extremo, o que exige escudos térmicos, como também é fato que lutar contra a atração gravitacional requer foguetes extremamente potentes, capazes de alcançar a velocidade de escape (40.320 km/h ou 11,2 km/s).


Na Terra, estamos protegidos pelo campo magnético e pela atmosfera, que desviam e absorvem a maior parte dessa radiação mortal. Como uma nave viajando pelo espaço não conta com essa proteção, os astronautas seriam bombardeados constantemente por radiação ionizante. Durante uma viagem de décadas ou séculos até a estrela mais próxima, mesmo com blindagem significativa, a exposição cumulativa à radiação causaria danos catastróficos ao DNA humano, levando a cânceres agressivos, falência de órgãos e morte prematura, e gerações inteiras de tripulantes nasceriam com mutações genéticas severas. E construir uma blindagem suficientemente espessa para proteger dessa radiação tornaria a nave tão massiva que seria praticamente impossível de acelerar.


Como se vê, além de nos manter longe das estrelas através da distância, o Universo borrifa o caminho até elas com veneno invisível e inevitável. Pode-se tentar cruzar o abismo, mas a jornada em si mataria os cosmonautas muito antes que eles chegassem a seu destino. Isso sem falar que não existe combustível que baste para acelerar uma nave blindada contra a radiação e manter sistemas de suporte de vida para gerações. 


Vale destacar que acelerar uma nave do tamanho de um ônibus espacial até 10% da velocidade da luz usando propulsão de fusão nuclear exige combustível equivalente a centenas de vezes a massa da própria nave. E para acelerar até 50% da velocidade da luz, a quantidade de combustível superaria a massa de planetas inteiros. Além disso, também é preciso desacelerar a nave quando ela chegar ao destino, o que significa carregar ainda mais combustível para desaceleração. 


A equação do foguete de Tsiolkovsky demonstra matematicamente que quanto mais combustível é adicionado, mais a massa total aumenta e mais combustível é necessário para acelerar, criando um ciclo vicioso. Em última análise, a quantidade de combustível excede toda a matéria disponível no sistema solar — mesmo que convertêssemos planetas inteiros em combustível, a quantidade seria insuficiente para enviar uma única nave em uma viagem interestelar.


Em face do exposto, fica evidente que o Universo não nos deu recursos sequer para explorar nossa própria vizinhança cósmica. E não estamos trancados apenas pelas leis da física, mas também pela escassez brutal de energia, o que pode tornar a comunicação interestelar matematicamente impossível.


Mesmo que, contra todas as probabilidades, conseguíssemos enviar uma nave tripulada a Próxima Centauri, e que, depois de estabelecer uma colônia, os astronautas tentassem se comunicar com a Terra, cada mensagem levaria 4,24 anos para chegar — ou seja, uma conversa simples, com uma pergunta e uma resposta, demoraria 8,5 anos. Diante disso, qualquer emergência, qualquer pedido de ajuda ou de informação crítica se tornaria irrelevante em função do tempo. Ou seja: se algo desse errado na colônia, todos morreriam antes que qualquer auxílio pudesse ser organizado na Terra.


Numa colônia em uma estrela a 100 anos-luz de distância, cada troca de mensagens levaria duzentos anos, e considerando que nenhuma civilização, cultura ou espécie biológica consegue manter coesão através de atrasos de comunicação medidos em gerações humanas, essa colônia se tornaria uma entidade completamente separada, sem conexão significativa com seu mundo natal. 


O fato de a velocidade da luz ser o limite universal não só nos impede de viajar livremente pelo cosmos como assegura que qualquer tentativa de construir uma civilização interestelar resulta na fragmentação instantânea e permanente dessa civilização em ilhas isoladas, incapazes de compartilhar conhecimento, cultura ou até mesmo linguagem. Mesmo que um dia consigamos sair, jamais poderemos manter contato com quem ficou para trás. Em outras palavras, estamos condenados não apenas ao isolamento físico, mas também ao isolamento informacional absoluto.


Podemos sonhar com as estrelas, podemos construir telescópios maiores e escrever equações mais elegantes, mas nada disso muda o fato de que somos prisioneiros — e não até desenvolvermos uma tecnologia melhor, mas para sempre.

O universo é vasto, antigo e indiferente, e nós, criaturas frágeis de carne e osso presas em um ponto azul pálido, jamais sairemos dessa jaula cósmica. 

Em face de todo o exposto, se você tivesse a chance de embarcar em uma nave interestelar sabendo que jamais veria a Terra novamente, que todos os seus entes queridos estariam mortos quando você chegasse a seu destino e se tornasse um fantasma do passado navegando pelo futuro, a pergunta é:


Você iria? 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 114ª PARTE

QUEM PENSA DEMAIS NO FUTURO NÃO TEM TEMPO DE VIVER O PRESENTE.

Vimos que a ciência em geral e a tecnologia em especial evoluíram significativamente nos últimos 200 anos, e mesmo assim os cientistas ainda não conseguem explicar a natureza do tempo, afirmar com certeza se ele realmente existe e tampouco esclarecer o que são as experiências de quase-morte e o déjà-vu, entre outros "mistérios". 


Também como vimos, viajar para o futuro é apenas uma questão de tempo (sem trocadilho). Isso porque os efeitos da dilatação temporal só são expressivos em velocidades próximas à da luz (cerca de 1,08 bilhão de km/h), e a sonda mais veloz que a Nasa lançou até agora atingiu "apenas" 0,064% dessa velocidade. Assim, uma viagem de ida até Proxima Centauri, que fica a 4,2 anos-luz do nosso sistema solar (1 ano-luz = 9,5 trilhões de km), levaria cerca de 6,5 mil anos.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O circo do Supremo pegou fogo. André Mendonça riscou o fósforo ao expor detalhes das relações promíscuas de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes. Os vínculos estão estampados em relatório de 218 páginas da Polícia Federal. Num prenúncio do que está por vir, Moraes bateu boca com Mendonça a portas fechadas na segunda-feira. 

O Supremo vive uma crise inédita. Coisa jamais vista nos 135 anos de existência do tribunal. Por muito menos, Xandão já teria decretado a prisão cautelar de Alexandre de Moraes. Já fez isso com inúmeros investigados de menor influência, sob a alegação de que poderiam comprometer investigações. Junto com o mandado de prisão, expediria uma ordem de busca e apreensão do celular do contato supremo de Vorcaro.

Mendonça deseja que o plenário do Supremo decida, em sessão pública, se Moraes deve ser investigado. Se abafar o caso, como fez com a venda do resort de Toffoli para o Master, o tribunal pode ser carbonizado junto com Moraes num processo de impeachment no Senado em 2027.

Mendonça levantou o tapete. O PGR Paulo Gonet opinou pela anulação da imundície sob o pretexto de "dupla nulidade": a Polícia Federal e a Procuradoria não pediram a vassoura. E o plenário do Supremo não autorizou a faxina nas relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.

A coisa se encaminha para mais um acobertamento de rotina. Mas a turma do abafa precisará responder a uma pergunta singela: "E a sujeira?". O que fazer com as mensagens endereçadas a Moraes? Com o pedido de proteção? Com os apelos para que intercedesse junto aos chefes da PF, da PGR e do BC? Com a pergunta de Vorcaro a Moraes sobre se deveria sair do país pouco antes de ser preso?

Gonet aparece no relatório que Mendonça encomendou à PF como parte do detrito. Numa mensagem, manda um advogado amigo dizer a Vorcaro que está "com saudade". Confirma presença num evento patrocinado pelo banqueiro mafioso em Londres: "Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan". Pede a inclusão do filho, Pedro Gonet, no convescote.

Mendonça é evangélico, não santo. A 32 dias da eleição presidencial, maneja seletivamente os ventiladores do caso Master. A ventania não chega com a mesma intensidade à crina bolsonarista de Dark Horse. Mas o rigor processual de Gonet ignora outras flexibilidades do Supremo.

Aberto por Dias Toffoli sem o aval da PGR, o inquérito das fake news é conduzido por Moraes há quase oito anos. A liberalidade metodológica, quando é muita, acaba engolindo os donos. O tapete do Supremo ficou pequeno. O resort vendido por Toffoli ao cunhado de Vorcaro já vaza pelas bordas. Com Moraes, o excesso tende a tornar tudo insignificante, exceto a pergunta: "E a sujeira?"


Por outro lado, estudos matemáticos sugerem que um hipotético viajante do tempo que entrasse numa curva temporal fechada e retornasse ao passado poderia seguir caminhos diferentes sem alterar o resultado de suas ações. Isso porque quaisquer mudanças nos acontecimentos criariam linhas de tempo alternativas, paralelas à original, a partir do ponto de mudança. 


A existência de uma LTA para cada decisão tomada tornaria a viagem ao passado factível, pois eliminaria paradoxos temporais como o do Avô. Todavia, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e efeitos.  


Hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã. Quando dobramos à direita em vez de à esquerda numa encruzilhada do hoje, desencadeamos uma sucessão de consequências que se espalham no amanhã como as ondas produzidas por uma pedra na superfície de um lago. Isso sem falar que as viagens no tempo só fazem sentido se o tempo realmente existir e for como uma estrada pela qual podemos avançar numa velocidade constante, acelerar, desacelerar e até mesmo parar.


Voltando agora às incompatibilidades entre a física clássica e a mecânica quântica (mais detalhes no capítulo anterior), Einstein já sonhava encontrar uma forma de acomodar ambas numa mesma equação matemática capaz de explicar todas as partículas, todas as forças fundamentais e, quem sabe, o próprio espaço e o próprio tempo. Mas nem ele nem quem mais perseguiu essa solução tiveram sucesso até agora. 


Desde as mais priscas eras, a humanidade procura algum tipo de unidade fundamental — os filósofos gregos buscavam o elemento primordial, os alquimistas, a substância universal, e por aí vai. O tempo passou, o método mudou e as ferramentas evoluíram, mas os físicos modernos continuam perseguindo uma equação capaz de descrever a realidade inteira. E a pergunta continua surpreendentemente parecida: existe uma regra fundamental escondida por trás da diversidade do Universo, ou será que estamos diante de uma realidade complexa demais para caber em uma única explicação?


Foi nesse contexto que surgiu uma proposta tão ousada quanto controversa: e se elétrons, quarks e todas as demais partículas fundamentais não fossem pontos sem dimensão, e sim minúsculas cordas vibrando em diferentes frequências, como as cordas de um violão cósmico? A ideia soa bizarra, mas está longe de ser a parte mais estranha dessa história.


Durante uma palestra, o físico Carlo Rovelli — um dos “pais” da teoria da gravidade quântica em loop — esticou uma corda de uma ponta a outra do palco, pendurou uma caneta no meio e disse: “É aqui que estamos; à direita fica o futuro e à esquerda, o passado". Depois de uma breve pausa, ele acrescentou: “Só que isso é tão errado quanto afirmar que a Terra é plana.”


A gravidade quântica em loop busca compatibilizar a relatividade geral e a mecânica quântica. Nesse contexto, a ideia de que o espaço seja um recipiente vazio e contínuo dá lugar a uma visão bastante diferente. Segundo essa hipótese, o espaço seria formado por estruturas elementares extremamente pequenas, algo semelhante a "pacotinhos" de espaço, da mesma forma que a luz é formada por fótons. Isso significa que as coisas não existem dentro de um espaço preexistente, mas sim umas em relação às outras, e o espaço não seria um palco imóvel onde os acontecimentos ocorrem, mas algo que emerge das próprias relações entre os objetos físicos.


Se essa interpretação estiver correta, então o tempo também deixa de ser uma linha reta pela qual tudo flui do passado para o futuro. Em vez disso, passado, presente e futuro podem ser apenas maneiras humanas de organizar uma realidade muito mais complexa do que nossa experiência cotidiana sugere.


Para entender a teoria da gravidade quântica, devemos pôr de lado a ideia de que um gigantesco relógio cósmico marca o tempo do Universo. Um ano corresponde ao tempo que a Terra leva para dar uma volta completa em torno do Sol, e nosso conceito de “ano” só faz sentido em nosso planeta — em Saturno, por exemplo, um ano corresponde a 29,5 anos terrestres. 


Como se vê, nosso conceito de tempo pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Newton dizia não ser possível medir o “tempo verdadeiro”, mas que assumir sua existência ajudava a descrever vários fenômenos da natureza. Séculos depois, Einstein postulou que cada objeto do Universo tem seu próprio tempo, só que o tempo como o concebemos não funciona numa escala muito pequena — como a escala quântica. 


As coisas mudam apenas umas em relação às outras; no nível fundamental, o tempo não existe, e viajar para o passado só faz sentido se admitirmos sua existência. Mas talvez a causalidade não seja tão absoluta quanto imaginamos, e se ela for uma tapeçaria tecida com fios de múltiplas possibilidades, como fica o observador nesse bordado quântico?


Para não estender demais este capítulo, achei por bem abordar a Teoria das Cordas e que tais na próxima postagem. Até lá. 


Continua…

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM — (PENÚLTIMA PARTE)

O CONHECIMENTO É LIMITADO, MAS A IMAGINAÇÃO ENVOLVE O MUNDO. 

Vimos que a ciência está historicamente repleta de ideias tidas como impossíveis até que novos conhecimentos revelaram caminhos inesperados. Vimos também que a propulsão de dobra — ideia associada há décadas ao sonho de reduzir distâncias entre estrelas — não afronta as equações relativísticas quanto à velocidade da luz, pois consiste basicamente em mover a região ao redor da espaçonave, comprimindo o espaço à frente e expandindo-o para trás. 


Um estudo recente publicado na revista Classical and Quantum Gravity tem como principal mudança em relação ao modelo anterior a geometria da bolha de dobra — que, em vez de concentrar a energia exótica em um único anel circular ao redor da nave, organiza essa energia em três ou quatro segmentos tubulares posicionados ao redor da fuselagem, visando manter o interior da espaçonave calmo e plano enquanto a parte externa realiza o trabalho de distorcer o espaço-tempo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O cenário político-eleitoreiro está ainda mais vomitativo do que em 2022 e 2018. Haja Plasil! Venho pensando em deixar de incluir essas resenhas nas minhas postagens, pelo menos até passarem as eleições. Mas ainda não bati o martelo, de modo que vamos em frente.

Eleições têm dois tipos de candidatos: os que fazem poeira e os que comem poeira. O psiquiatra Augusto Cury continua engolindo a poeira levantada pelos favoritos Lula e Flávio Bolsonaro, mas já começa a enxergar no retrovisor após quebrar a barreira dos dois dígitos, enquanto Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos ^tem 4%, 3% e 2%, respectivamente.

As pesquisas empurram o filho do presidiário para uma encruzilhada: ele ainda é o anti-Lula mais competitivo, mas sua vitória está longe de ser assegurada. Aos poucos, Cury vai deixando de ser um mero soluço. As novas rodadas da Quaest e do Datafolha vão mostrar se o fenômeno Cury também aparece em pesquisas presenciais ou se está concentrado nas sondagens telefônicas e digitais.

Na pesquisa Real Time, Lula continua à frente no primeiro turno. Mas perdeu terreno no cenário de segundo turno. Em um mês, sumiram os três pontos de vantagem sobre Flávio. Os dois estão agora numericamente empatados em 44%. Quer dizer: a sucessão continua aberta ao imponderável.


Vimos também que pode ser mais fácil viajar no tempo para o futuro do que avançar além do nosso próprio quintal cósmico, pois é enorme a distância que separa uma viagem a velocidades próximas à da luz — que é representada pela letra"c" e equivale a aproximadamente 1,08 bilhão de km/h — à do objeto mais veloz lançado pela NASA até agora, que atingiu 0,064% de "c" em dezembro de 2024, quando a sonda se aproximou a apenas 6,1 milhões de km da superfície solar. A essa velocidade, uma viagem de ida a Proxima Centauri — o sistema estelar mais próximo do nosso — levaria cerca de 6.600 anos.  


A história ensina que ideias abstratas podem levar séculos ou até milênios para se tornarem ferramentas práticas. No estágio atual, "c" segue como uma fronteira muito mais teórica do que tecnológica para a exploração espacial, e a nova proposta melhora a forma de pensar a bolha de dobra, mas o salto entre matemática, energia negativa, controle seguro e viagem real continua imenso.


Voltando ao que dizíamos sobre a imensidão do cosmos, o que observamos no céu noturno é uma gravação atrasada do passado, que varia conforme a distância e o tempo que a luz leva para percorrê-la. Quando olhamos para a Lua, vemos como ela era 1,3 segundo antes; quando olhamos para o Sol, vemos como ele era cerca de 8 minutos atrás. 


Nosso sistema estelar vizinho mais próximo está a 4,37 anos-luz de nós, o que significa que a luz que vemos iniciou sua jornada há mais de 4 anos. Já quando olhamos para Betelgeuse — gigante vermelha na constelação de Órion, que fica a cerca de 550 anos-luz da Terra, o que vemos é a luz emitida quando os europeus ainda viviam na Idade Média, e a luz que nos chega desde Andrômeda — a maior galáxia espiral vizinha da Via Láctea, que fica a 2,5 milhões de anos-luz — partiu de lá quando os primeiros hominídeos começaram a caminhar eretos na África.


Olhar para o espaço profundo não é observar o universo, é assistir a um filme de fantasmas cósmicos, já que uma parcela significativa das estrelas que vemos brilhando no céu já explodiram, colapsaram em buracos negros ou se apagaram há séculos ou milênios, embora a notícia de sua morte ainda não tenha chegado até nós. Além disso, a expansão do universo a uma velocidade superluminal, graças a algo misterioso chamado "energia escura", está empurrando o tecido do espaço-tempo para fora em todas as direções, e quanto mais distante uma galáxia está de nós, mais rápido ela parece se afastar. 


Observação: Note que não são as galáxias que estão se afastando mais rápido que a luz — até porque isso violaria as leis da física — e sim o espaço entre elas que vem se expandindo cada vez mais depressa. Para entender melhor, pense no cosmos como uma bexiga de borracha e nas galáxias como a inscrição "Feliz Aniversário". À medida que a bexiga enche, a distância entre as letras aumenta, não por mudarem de lugar, mas por acompanharem a expansão causada pela pressão do ar no interior da bexiga.


Isso cria o que chamamos de horizonte de eventos cósmico, e qualquer coisa além dessa linha não pode ser alcançada, não importa o quanto nossa tecnologia avance. Centenas de bilhões de galáxias já foram perdidas, e mais galáxias cruzam essa fronteira e desaparecem da nossa realidade observável a cada segundo — ou seja, o território do universo disponível para nós está encolhendo ativamente, prendendo-nos numa ilha cósmica enquanto a maré sobe. 


E se isso não bastasse, algumas estimativas sugerem que a parte observável do universo contém cerca de dois trilhões de galáxias. O problema é que não sabemos qual é a extensão real do cosmos além dessa região iluminada pela luz que teve tempo de chegar até nós desde o Big Bang. O universo pode ser muito maior do que imaginamos, talvez centenas, milhares ou até infinitas vezes mais vasto que a fração infinitesimal que conseguimos observar.


Em outras palavras, tudo o que a humanidade já viu — cada estrela, planeta, nebulosa, galáxia e aglomerado galáctico catalogado até hoje — pode corresponder apenas a uma minúscula gota em um oceano cuja dimensão permanece desconhecida. E, como veremos mais adiante, algumas hipóteses vão ainda mais longe: sugerem que o nosso universo talvez seja apenas um entre inúmeros outros.


Continua…

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM... (3ª PARTE)

O CAOS É UMA ORDEM POR DECIFRAR.

De acordo com as equações relativísticas de Einstein, a massa de um objeto aumenta à medida que ele se aproxima da velocidade da luz — que é representada pela letra "c" e equivale a aproximadamente 1.08 bilhão de km/h. A 90% de "c", a massa é 2,3 vezes maior do que em repouso; a 99%, 7 vezes; e a 99,9%, 22 vezes.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Lula já tentou de tudo para deslanchar nas pesquisas, mas, por enquanto, tudo não quis nada com ele, que continua numericamente à frente, porém sentindo o bafo do filho do presidiário no cangote. 

O ex-presidiário ainda acredita que a fé na reeleição pode remover montanhas, mas decidiu empurrar enquanto reza. Há um certo desespero em sua pareceria com com os presidentes do Senado e da Câmara. Até outro dia, Alcolumbre e Motta eram chamados nas redes sociais petistas de "inimigos do povo"; na última quarta-feira, almoçaram com o macróbio no Alvorada e, ato contínuo, anunciaram o destravamento da pauta eleitoral do anfitrião no Congresso. 

Será aprovada na semana que vem a MP que extinguiu a taxa das blusinhas. E devem avançar a proposta que cria a escala de trabalho 5 X 2 e a PEC da Segurança Pública.

Noutros tempos, a parceria seria vista como sinal de força; hoje, é apenas um penúltimo esforço para abrir frestas para boas notícias num noticiário monopolizado pelas traficâncias de Lulinha. 

Depois de desembrulhar bondades eleitorais estimadas em cerca de R$ 200 bilhões, Lula recorre até a aliados da onça para lidar com a montanha que o separa do quarto mandato. Alcolumbre e Motta cobrarão o seu preço.


Na velocidade da luz, mesmo a massa ínfima de uma simples partícula se torna infinita e requer energia igualmente infinita para continuar a acelerar. E como não existe energia infinita em nosso Universo, temos uma barreira física codificada nas próprias leis da realidade, certo? Talvez não. Um grupo de cientistas propôs uma versão redesenhada da chamada "bolha de dobra", que poderia, em tese, transportar uma espaçonave por meio da distorção do espaço-tempo. O problema é que a quantidade de energia negativa necessária, os riscos de controle e os prazos estimados em até milhares de anos esbarram num obstáculo elementar: ainda não sabemos como produzir os ingredientes físicos exigidos pelo modelo, especialmente grandes quantidades dessa energia.


Embora nossa tecnologia tenha evoluído mais nos últimos 200 anos do que desde a invenção da roda à Revolução Industrial, e, por mais que avancemos nas próximas décadas — ou séculos —, dificilmente alcançaremos a velocidade da luz e, consequentemente, conseguiremos cruzar a fronteira que nos separa das estrelas. Mesmo que construíssemos uma nave capaz de alcançar 99% de "c", teríamos de lidar com um fenômeno relativístico conhecido como dilatação do tempo, segundo o qual o tempo desacelera para objetos em movimento em relação a observadores estacionários. Por outro lado, cruzar o Atlântico em pouco mais de 3 horas — como fazia o supersônico Concorde em 2003 — era inconcebível em 1500, quando Cabral levou 44 dias para vir de Portugal a Pindorama, e inimaginável no início do século XX, quando os irmãos Wright e Santos Dumont provaram que um artefato mais pesado que o ar era capaz de decolar, voar e pousar por meios próprios.   


Os hipotéticos tripulantes de uma nave viajando a 99% de "c" rumo a uma estrela a 50 anos-luz de distância demorariam 7 anos para chegar lá, mas 50 anos se passariam no mundo estático que eles haviam deixado para trás. E caso retornassem à Terra, seus contemporâneos estariam mortos e a civilização inteira teria evoluído além do reconhecimento. Mas volto a lembrar que as leis da física criam obstáculos para nos impedir de sair do Sistema Solar. É o caso da nuvem de Oort, que se estende de cerca de 2 mil UAs até 100 mil UAs. Como uma UA equivale a 150 milhões de quilômetros, a fronteira gravitacional do nosso sistema solar fica a quase 1,6 anos-luz do Sol. Viajando a cerca de 60 mil km/h, a sonda Voyager I percorreu em 47 anos apenas 0,002 ano-luz — uma fração minúscula da distância que nos separa dos confins do Sistema Solar. Nessa toada, ela deve levar mais 300 anos para alcançar a borda interna da nuvem de Oort e outros 30 mil anos para transpô-la. 


Diante disso, a pergunta que se impõe é: se não conseguimos sequer escapar do nosso próprio sistema solar, que dirá alcançar outras galáxias? E a resposta é "talvez". Afinal, não há nada como o tempo para passar (vide o que escrevi no terceiro parágrafo sobre Cabral, Santos Dumont e os irmãos Wright), e uma nova arquitetura para um motor de dobra — ideia associada há décadas ao sonho de reduzir distâncias entre estrelas — vem sendo desenvolvida. Ela não faz a nave ultrapassar localmente o limite imposto pela física moderna, mas move a região ao redor dela, comprimindo o espaço à frente e expandindo o espaço atrás. 


Esse estudo, assinado pelo engenheiro aeroespacial Harold “Sonny” White e pelos coautores Jerry Vera, Andre Sylvester e Leonard Dudzinski, ligados à Casimir, Inc., descreve “bolhas de dobra cilíndricas com interior plano para nacelas” e foi publicado na revista Classical and Quantum Gravity. A comparação com a ficção científica aparece de forma inevitável, especialmente pela semelhança com as nacelas gêmeas da USS Enterprise, mas o modelo refina a arquitetura da bolha, embora ainda dependa de condições que a ciência atual não consegue reproduzir em escala útil para uma espaçonave.


O ponto nevrálgico continua sendo transformar equações consistentes em algo fisicamente possível. Ainda que as leis da física impeçam que uma mísera partícula contendo massa alcance a velocidade da luz, nos conceitos de propulsão de dobra a nave não é empurrada como um foguete comum, mas carregada por uma bolha que altera a geometria do espaço ao seu redor. A lógica pode ser comparada a uma esteira rolante de aeroporto, na qual as pessoas que sobem chegam antes das demais não porque correm, mas porque a superfície sob seus pés também está em movimento. Na proposta de dobra espacial, essa “esteira” seria o próprio espaço-tempo e a região à frente da nave seria comprimida, enquanto a região atrás dela se expandiria, fazendo com que a bolha avançasse sem que a espaçonave dentro dela ultrapassasse localmente a velocidade da luz. 


Esse tipo de abordagem remonta à proposta de 1994, frequentemente citada como o documento métrico sobre propulsão de dobra. Desde então, o maior desafio tem sido conciliar a elegância matemática com limitações físicas extremamente rígidas, mas um dos pontos que mais chama a atenção no novo artigo é o foco na habitabilidade da bolha. No caso de uma missão tripulada, não bastaria mover uma espaçonave pelo espaço-tempo, seria preciso também garantir que a região interna não submetesse os astronautas a distorções gravitacionais perigosas, como as chamadas forças de maré, que podem criar efeitos muito mais severos do que as marés oceânicas observadas na Terra e tornar inviável a presença humana dentro da nave. 


Além disso, os autores defendem uma condição de “planicidade interior”, na qual a cabine permanece matematicamente plana em termos de espaço-tempo, ainda que a estrutura externa da bolha esteja altamente distorcida. Essa estabilidade é fundamental para navegação, relógios, suporte à vida e funcionamento normal das leis físicas dentro da espaçonave. Mesmo sendo uma proposta teórica, ela mira uma exigência que qualquer sistema real precisaria enfrentar. No entanto, o maior entrave para qualquer motor de dobra é a energia negativa.


Observação: Energia negativa e matéria exótica são coisas diferentes. A primeira é um efeito quântico específico, e a segunda engloba qualquer substância capaz de gerar repulsão gravitacional. A energia negativa pode ser um tipo de matéria exótica, mas nem toda matéria exótica se baseia exclusivamente em energia negativa.


A energia negativa aparece em quantidades mínimas em configurações quânticas muito específicas, e ampliá-la para o tamanho de uma espaçonave está muito além das capacidades atuais. E a crítica não é apenas tecnológica: uma análise de 1997 de Michael J. Pfenning e L. H. Ford aplicou limites quânticos às bolhas de dobra e concluiu que essa energia teria de ser comprimida em uma camada extremamente fina, com exigências totais de energia consideradas fisicamente inalcançáveis.


Também permanece em aberto a questão de saber se o universo fornece massa negativa ou energia negativa em uma forma utilizável. O astrofísico Avi Loeb, da Universidade de Harvard, argumentou que a energia do vácuo associada à expansão cósmica é tão diluída que nem mesmo um cubo com cerca de 19 quilômetros de lado seria suficiente para manter uma lâmpada de 100 watts acesa por um minuto inteiro. Ele também escreveu que nenhuma física conhecida pode dar origem a um objeto com massa negativa, e esse ponto amplia ainda mais a distância entre o conceito de velocidade máxima possível no Universo e uma nave real.


A história da ciência está repleta de ideias que pareciam impossíveis até que novos conhecimentos revelassem caminhos inesperados. A questão é saber se a propulsão de dobra pertence à categoria dos problemas difíceis ou à dos problemas impossíveis. E essa diferença pode levar muito tempo para ser descoberta. Em contrapartida, talvez seja mais fácil viajar no tempo do que para as estrelas. Afinal, a relatividade já permite "viajar para o futuro", embora ainda não tenhamos sido capazes de atravessar nosso próprio quintal cósmico.


Continua…