segunda-feira, 19 de outubro de 2026

PRIMEIRA LUA ENCONTRADA FORA DE NOSSO SISTEMA SOLAR?

O UNIVERSO NÃO TEM OBRIGAÇÃO DE FAZER SENTIDO PARA NÓ

O Universo não nos deve respostas fáceis. Ele existe do jeito que existe, quer a gente entenda, quer não. Mas é justamente isso que torna a ciência e a exploração tão emocionantes. Às vezes, esperamos que tudo se encaixe naquilo que já conhecemos, mas não é assim que a banda toca. A ciência consiste justamente em fazer perguntas e descobrir coisas novas, mesmo quando as respostas parecem estranhas ou inesperadas.

Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, um grupo internacional de cientistas liderado por Kevin Hoy, da Universidade Diego Portales e do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile, apresentou evidências de um corpo celeste que pode ser o primeiro exosatélite já detectado fora do Sistema Solar. No entanto, ele não se parece nem um pouco com a nossa Lua, de modo que talvez nem seja correto chamá-lo de “lua”.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Renata Lo Prete tentou uma, duas, três vezes, mas não conseguiu arrancar de Flávio Bolsonaro uma resposta categórica sobre o papel que o pai teria num eventual governo do filho, de modo que o brasileiro ficou autorizado a suspeitar que o candidato foi mandado às urnas como segundo escalão da família Bolsonaro.

Num hipotético governo de Flávio, o verdadeiro chefe de Estado será Jair.

"Se vencer a eleição, seu pai terá cargo no governo?", indagou Lo Prete. A jornalista foi específica: "Qual?" Flávio passou a falar da condenação do pai. Chamou o julgamento de "farsa". E classificou como "golpe da Disney" a trama que levou à prisão de Bolsonaro.

A entrevistadora tentou novamente: "Se o senhor vencer a eleição, seu pai vai ter cargo no governo?". Flávio grudou os olhos na câmera: "Meu pai vai ser você, vai ser o povo brasileiro. É pra você que eu vou trabalhar". O candidato esticou o blá-blá-blá: "Tenho o privilégio de, a hora que eu precisar consultar um ex-presidente da República, tenho um dentro de casa, de confiança. Sou privilegiado por isso, mas nunca tratou de cargo comigo."Lo Prete não se deu por vencida: "Mas o senhor cogita nomear? Daria um cargo para o seu pai no governo?". Pela terceira vez, Flávio Bolsonaro desconversou: "Ele nunca tratou disso comigo. Não está no radar". Numa campanha eleitoral, nunca é uma palavra perigosa. Os candidatos deveriam sempre se lembrar de nunca usá-la.

O filho de Bolsonaro é candidato não a presidente, mas a marionete. Como ventríloquo, seu pai desfruta de privilégios eleitorais que seriam inacessíveis a um preso inelegível — com uma vantagem que nenhum candidato à reeleição jamais teve: a de participar da campanha como sujeito oculto. A presença em sabatinas e debates seria um rebaixamento para o capitão.

Uma eventual presidência de Flávio não proporcionaria ao Brasil a experiência de ser presidido por um Bolsonaro hipoteticamente moderado. Na prática, seria como se Jair Bolsonaro obtivesse um segundo mandato. Seria um rei sem trono. O mito viraria folclore. Nem precisaria de cargos para exercer seu poder presumido.


O que os cientistas encontraram, usando o Very Large Telescope (VLT), do ESO, foi um objeto com massa próxima à de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar. Esse objeto parece estar orbitando uma anã marrom, um corpo celeste cuja massa fica entre a de planetas gigantes e a das estrelas. A anã marrom, por sua vez, orbita uma estrela anã vermelha, de modo que temos uma espécie de sistema cósmico em três níveis: uma estrela, uma anã marrom orbitando essa estrela e um objeto de massa planetária orbitando a anã marrom.

Como uma anã marrom não é nem uma estrela propriamente dita nem um planeta, Hoy e seus colegas preferem o termo mais abrangente “exosatélite” — "exolua” seria uma designação mais específica, normalmente associada a um satélite que orbita um exoplaneta, e como o próprio artigo da Nature ressalta, ainda não existe uma definição formal e universalmente aceita para “exolua”.

Independentemente do nome que acabará prevalecendo, o estudo representa um passo importante: pela primeira vez, a técnica de velocidade radial produziu evidências convincentes de um satélite orbitando uma anã marrom. Isso é particularmente interessante porque, apesar de já termos descoberto mais de 6.000 exoplanetas, nenhuma lua orbitando um exoplaneta foi confirmada de maneira incontestável. Há candidatos, mas eles continuam controversos.

Para procurar o exosatélite, a equipe utilizou a mesma técnica de velocidade radial empregada na descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela semelhante ao Sol, em 1995. O método consiste em observar pequenas mudanças periódicas na velocidade com que o objeto se aproxima ou se afasta de nós, detectadas por meio dos deslocamentos das linhas espectrais de sua luz — o conhecido efeito Doppler.

Quando um corpo orbita outro, ambos giram em torno de um centro de massa comum. Se o corpo secundário tiver massa suficiente, ele provoca um pequeno “rebolado” no corpo principal. Esse movimento pode ser percebido nas alterações periódicas de sua velocidade radial. Foi justamente esse sutil rebolado que os pesquisadores procuraram — e encontraram — em CD-35 2722 B.

A anã marrom em questão é conhecida como CD-35 2722 B, nome derivado de sua identificação em catálogos astronômicos. O principal candidato a satélite ainda não recebeu uma designação própria. O modelo mais bem ajustado indica uma massa mínima de aproximadamente 0,9 vez a massa de Júpiter e um período orbital de cerca de 170 dias. Em outras palavras, estamos diante de algo com massa da ordem de 1,7 × 10²⁴ toneladas — praticamente um Júpiter em miniatura, embora não saibamos necessariamente seu tamanho físico.

O modelo que melhor explica os dados também aponta para um segundo candidato a satélite, mais próximo da anã marrom, com massa mínima estimada em cerca de 0,28 vez a massa de Júpiter e período orbital de aproximadamente 87 dias. Essa segunda detecção, entretanto, é bem menos segura que a primeira. Os dois períodos estão próximos de uma proporção de 2 para 1, o que pode indicar uma ressonância orbital, fenômeno que também ocorre entre algumas luas de Júpiter.

Esse sistema é difícil de definir usando termos que conhecemos do Sistema Solar. O objeto principal tem massa suficiente para ser comparado a um planeta gigante, mas não orbita diretamente uma estrela, e sim uma anã marrom que, por sua vez, orbita uma estrela. E a anã marrom não se encaixa nem na categoria de estrela nem na de planeta.

É por isso que os pesquisadores preferiram chamá-lo simplesmente de satélite, evitando por enquanto a palavra “lua”. Afinal, estamos diante de um objeto que exerce o papel gravitacional de uma lua, mas cuja massa é comparável à de um planeta gigante. Essa discussão também antecipa um problema que poderá surgir quando encontrarmos, de maneira inequívoca, uma lua orbitando um exoplaneta: quem poderá dizer que descobriu a primeira exolua?

Uma controvérsia parecida já aconteceu no passado. Em 1992, o astrônomo polonês Aleksander Wolszczan descobriu os primeiros planetas conhecidos fora do Sistema Solar, orbitando o pulsar PSR B1257+12 — o remanescente extremamente compacto de uma estrela que explodiu como supernova.

Três anos depois, em 1995, Michel Mayor e Didier Queloz descobriram 51 Pegasi b, o primeiro exoplaneta encontrado orbitando uma estrela semelhante ao Sol. Foi por essa descoberta que os dois receberam o Prêmio Nobel de Física de 2019. A distinção não ignorava a importância do trabalho de Wolszczan: o prêmio estava especificamente relacionado à descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela do tipo solar. Ainda assim, a história mostra como definições e critérios podem influenciar a maneira como atribuímos pioneirismos científicos.

No caso da descoberta de Hoy, a nomenclatura também poderá pesar nos reconhecimentos futuros. Afinal, se o objeto for oficialmente classificado como exosatélite, ele será o primeiro desse tipo a ser detectado; se a comunidade científica decidir que a categoria “exolua” pode incluir satélites de anãs marrons, a história será contada de outra maneira.

É comum em astronomia que novas descobertas deem azo a debates sobre classificação. Um dos exemplos mais famosos ocorreu em 2006, quando a União Astronômica Internacional (IAU) aprovou uma definição formal de planeta e criou a categoria dos planetas anões. Plutão, que até então era considerado o nono planeta do Sistema Solar, passou a integrar essa nova categoria.

A questão das exoluas tem potencial para provocar um rebuliço semelhante. Ainda não existe uma definição formal de “exolua” adotada pela IAU, e os astrônomos discutem quais critérios deveriam ser utilizados. Uma lua precisa necessariamente orbitar um planeta? Um satélite de uma anã marrom pode ser chamado de exolua? Existe um limite de massa para uma lua? E como classificar um objeto cuja massa se aproxima da de Júpiter, mas que orbita uma anã marrom?

Observação: O caso de CD-35 2722 B mostra que a natureza não está particularmente preocupada com a nossa necessidade de classificação. Ela simplesmente produz os objetos que suas leis físicas permitem — e deixa para nós a tarefa de inventar nomes para eles.

O estudo deve aquecer ainda mais a corrida entre astrônomos em busca da primeira exolua propriamente dita, isto é, um satélite orbitando um exoplaneta. Alguns cientistas tentam fazer isso por meio de técnicas diferentes da utilizada por Hoy. Uma delas é a detecção por trânsito, que procura pequenas reduções no brilho de uma estrela quando um planeta passa diante dela. Se esse planeta possuir uma lua, ela poderá produzir uma alteração adicional, extremamente sutil, na curva de luz.

O problema é que esses sinais são minúsculos e as órbitas dos candidatos podem ser demoradas. Em alguns casos, seriam necessárias várias passagens diante da estrela para que os astrônomos pudessem reunir evidências suficientes para confirmar a existência de uma lua. É uma caçada cósmica em que a paciência, mais uma vez, é uma virtude indispensável.

Uma esperança para acelerar essa busca está no Extremely Large Telescope (ELT), que o ESO está construindo no Chile. Com um espelho principal de 39 metros, ele será o maior telescópio óptico e infravermelho do mundo quando entrar em operação e terá capacidade muito superior à dos atuais grandes telescópios para estudar objetos extremamente tênues e distantes.

O cronograma atualmente divulgado pelo ESO prevê a chamada “primeira luz” do telescópio em março de 2029, seguida da instalação e comissionamento dos primeiros instrumentos. A chamada primeira luz científica está prevista para dezembro de 2030.

Quando o ELT estiver funcionando plenamente, poderemos finalmente começar a enxergar uma população de mundos que hoje mal conseguimos perceber. E talvez encontremos entre eles aquilo que os astrônomos procuram há décadas: uma verdadeira lua orbitando um planeta situado em outro sistema estelar.

Mas talvez a descoberta mais interessante proporcionada por CD-35 2722 B seja outra: ela nos lembra que o Universo não tem a menor obrigação de organizar seus objetos segundo as categorias que inventamos aqui na Terra. Nós gostamos de planetas, luas, estrelas e anãs marrons devidamente separados em compartimentos, ao passo que o Universo parece preferir a bagunça. E convenhamos: é justamente quando ele bagunça nossas gavetas que a astronomia fica mais interessante.

domingo, 18 de outubro de 2026

DICAS ÚTEIS NA COZINHA

O ÓTIMO É INIMIGO DO BOM

1 — Depois de escorrer a massa, polvilhe-a com queijo parmesão ralado enquanto ela ainda estiver quente. O queijo vai derreter e se misturar ao molho, deixando o prato muito mais saboroso.

2 — Quando estiver fritando alguma coisa, não encha demais a frigideira. Isso evita que a comida cozinhe no vapor, em vez de dourar.

3 — Quando o assunto é confeitaria, não há muitos atalhos. Siga sempre as medidas indicadas na receita, usando colheres e xícaras próprias para isso ou, melhor ainda, uma balança que meça em gramas. Um dos erros mais comuns é pular uma etapa ou não entender direito as instruções de preparo. Se uma receita pede, por exemplo, “1 xícara de nozes, moídas”, você deve encher a xícara com as nozes inteiras e só depois moê-las — e não moer as nozes primeiro e então preencher a xícara.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Desafiante e desafiado medem forças dentro da margem de erro das pesquisas. O filho do presidiário claudica, enquanto o macróbio candidato à reeleição procura brechas para virar o jogo. Os debates, desprezados por ambos no primeiro turno, tornaram-se vitais. Na última semana, Band e Globo exibirão o espetáculo do contraditório — primeiro neste domingo, depois na sexta-feira anterior à votação.

Espera-se que os candidatos compareçam munidos de meio quilo de projetos. Até aqui, há poucas ideias e muita confusão. O desarranjo é tamanho que Lula, após quase duas décadas de poder petista, se diz antissistema, ao passo que seu adversário decreta que "a era do PT chegou ao fim" e oferece a mudança prometendo conservar todas as logomarcas sociais do petismo.

Aquilo que parecia dispensável quando havia cinco candidatos virou obrigatório agora, quando restam dois. Eliminaram-se as desculpas. Não há adversários para fazer o serviço sujo nem aliados para servir de escudo. Lula terá de explicar por que merece mais quatro anos, e Flávio terá de esclarecer o que oferece além da anistia do pai.

Certos debates terminam quando as luzes do estúdio se apagam. A fricção de 2026 tende a se prolongar até a urna eletrônica. Uma tirada bem articulada pode ganhar as redes. Uma hesitação pode virar manchete. Um detalhe pode eleger o próximo presidente.

3.1 — Se não resistir à tentação de abrir o forno para conferir como o bolo está ficando, espere pelo menos até que a massa tenha crescido totalmente. O recomendável, porém, é verificar somente no final, para evitar que uma queda brusca de temperatura faça o bolo murchar.

3.2 — Quando levada ao freezer, a massa solidifica e fica mais fácil de manusear. Além disso, depois de cortar a massa dos biscoitos, coloque-a na geladeira por cerca de meia hora antes de levá-la ao forno. Isso ajuda a preservar o formato dos biscoitos durante o cozimento.

3.3 — Não pré-aquecer o forno poupa tempo, mas pode comprometer o resultado da receita. Portanto, espere até que o forno atinja a temperatura indicada e só então coloque a massa para assar.

3.4 — Teoricamente, basta reduzir pela metade ou dobrar os ingredientes para obter um bolo menor ou maior, conforme o caso. Na prática, isso costuma funcionar melhor ao cozinhar, mas, quando se trata de assar, o tempo de forno também varia — e não necessariamente de forma proporcional. Se você precisa dobrar a quantidade, pode ser melhor fazer duas porções e levá-las ao forno separadamente. Se quiser fazer uma porção menor, comece a verificar o forno mais cedo, para ter certeza de que o assado não está queimando.

3.5 — O excesso de manuseio pode fazer com que o glúten da massa se desenvolva em excesso, deixando-a dura. Ao amassar, use movimentos leves e pare assim que não houver mais farinha solta na tigela. Se estiver usando um liquidificador ou processador, utilize-o apenas para combinar os ingredientes e, em seguida, termine o trabalho à mão. E, se for usar uma assadeira, não se esqueça de untá-la antes de colocar a massa, seja ela doce ou salgada.

3.6 — É a gordura que ajuda a dar crocância a cookies e biscoitos, daí muitas receitas levarem manteiga, óleo ou gemas. Se você reduzir muito a gordura e usar apenas claras de ovo, seus biscoitos poderão ficar com uma textura mais próxima da de um bolo. E, se guardar os ovos na geladeira, separe as claras das gemas e deixe-as atingir a temperatura ambiente antes de batê-las.

3.7 — Colocar mais de duas ou três assadeiras no forno ao mesmo tempo pode prejudicar a circulação do ar e a distribuição do calor. Tenha em mente também que o tempo necessário para pré-aquecer o forno pode variar conforme a marca e o modelo. Além disso, pães e biscoitos continuam liberando vapor por alguns minutos depois que são retirados do forno. Portanto, retire-os da assadeira assim que puder manuseá-los sem queimar as mãos, evitando, assim, que o vapor acumulado amoleça sua parte inferior.

3.8 — Se você aquecer demais a manteiga, seus cookies poderão perder a forma e os bolos ficarão mais pesados. A menos que esteja preparando uma massa que peça manteiga fria, ou seguindo uma receita que indique o contrário, a manteiga deve estar em temperatura ambiente. Se estiver com pressa, coloque a manteiga em um saco plástico e use um rolo de macarrão para amaciá-la, ou corte-a em pedaços menores para que atinja a temperatura desejada mais rapidamente.

3.9 — Não peneirar a farinha pode resultar em uma massa mais densa ou irregular. Da mesma forma, substituir fermento químico em pó por bicarbonato de sódio — ou vice-versa — pode comprometer o crescimento da massa e ainda deixar um sabor desagradável.

3.10 — Se forem cortados antes de esfriar, bolos e tortas podem ficar quebradiços e os pedaços, desiguais. Colocá-los na geladeira apenas para ganhar tempo pode deixá-los pegajosos ou fazer com que afundem. E, se você cobrir o bolo enquanto ele ainda estiver quente, a cobertura poderá derreter, fazendo com que pedaços e migalhas da camada superior grudem na espátula.

4 — Mergulhe a ponta do cabo de uma colher de pau ou de um palito de espetinho no óleo que está aquecendo na frigideira. Quando se formarem bolhas ao redor da madeira, o óleo estará quente o suficiente para começar a fritura. E se precisar acrescentar mais óleo à frigideira, despeje-o pelas bordas — assim ele terá mais tempo para aquecer antes de chegar ao alimento que está sendo frito.

5 — Mergulhar previamente uma espátula de metal no óleo quente ajuda a evitar que os ovos grudem nela.

6 — Deixar o macarrão seco — isto é, que não seja massa fresca — de molho em água por cerca de 90 minutos pode reduzir bastante o tempo necessário para cozinhá-lo.

7 — Para acelerar o processo de caramelização das cebolas, uma pequena quantidade de bicarbonato de sódio pode ajudar. Mas não exagere: além de alterar a textura, o bicarbonato pode modificar o sabor.

8 — Se for preparar carne assada ou frita, deixá-la no congelador por algum tempo, até ficar parcialmente firme, facilita bastante o corte em fatias finas e uniformes.

Bom domingo!

sábado, 17 de outubro de 2026

OS DEUSES DO TEMPO — CONCLUSÃO

ALICE: "QUANTO TEMPO DURA O ETERNO?" COELHO: "AS VEZES, APENAS UM SEGUNDO."

Por volta do século 4 a.C., Lisipo, um dos três grandes escultores da Grécia clássica, criou uma estátua de Kairós que se tornou famosa. A obra em si se perdeu, mas permaneceu na memória graças a textos como os do poeta Posidipo de Pela (310-240 a.C.), que compôs um diálogo imaginário com a estátua.

Até onde sabemos, Kairós tinha asas nos pés e uma navalha na mão, que, segundo a interpretação mais difundida, representava sua natureza escorregadia, aquele instante crítico em que um segundo antes pode ser cedo demais e um segundo depois ser tarde demais. Seus cabelos longos e abundantes se concentravam na parte da frente, caindo sobre o rosto.

O poeta pergunta: "Por que seus cabelos caem para a frente?" "Para que quem me encontrar de frente possa me segurar", responde a estátua. "Por Zeus!", exclama o poeta, e então pergunta: "E por que a parte de trás da cabeça é calva?" "Para que ninguém possa me agarrar por trás depois que eu passar correndo com meus pés alados." Ou seja: o fato de Kairós ser calvo atrás não era um capricho estético, mas um aviso: é possível agarrar o momento oportuno quando ele vem em sua direção, quando ainda está de frente. Depois que passa, não há como segurá-lo.

Os filósofos e oradores gregos se interessaram por Kairós como ideia, convencidos de que ele não dependia da magia nem da sorte, mas de uma habilidade que podia ser cultivada. Para Isócrates, o célebre educador ateniense, a verdadeira cultura não consistia em acumular conhecimento abstrato, mas na capacidade de se orientar em um mundo onde nada se repete exatamente e não existem fórmulas infalíveis.


Embora não estivessem falando explicitamente sobre o Kairós, muitos estudiosos viram em suas palavras uma das expressões mais claras do pensamento kairológico: a ideia de que a sabedoria consiste, em grande medida, em saber interpretar as circunstâncias. Há momentos que duram segundos, mas mudam uma vida inteira: uma porta pela qual se passa, uma ligação que se atende, uma pergunta que se faz ou se deixa passar. Aristóteles, em sua Retórica, transformou Kairós no momento e no contexto em que um argumento é apresentado: ainda que você tenha toda a razão do mundo, ela será ignorada se for expressada no momento errado.


Na tradição sofística, kairós era ainda mais central. Górgias de Leontinos, um dos grandes mestres da retórica, compreendia a persuasão como uma arte que exige captar, nos momentos oportunos, aquilo que é apropriado e sugerir aquilo que é possível. Ele e vários outros pensadores ao longo da história compartilharam essa mesma intuição: a importância de estar atento à ocasião. Não por acaso, essa palavra tem uma história tão sugestiva: ela vem de Occasio — nome da deusa romana que personificava a mesma ideia representada por Kairós, cuja raiz remete a algo que se apresenta de repente. 


Uma vez que a ocasião não é uma abstração, mas uma conjuntura favorável que surge diante de alguém e pode desaparecer com a mesma rapidez, Occasio herdou a mesma iconografia de Kairós: a mecha de cabelo sobre a testa e a nuca descoberta. Se você a deixasse passar, já não haveria por onde segurá-la. Isso até gerou ditados em algumas línguas, como o italiano, que são falados até hoje: "L'occasione và presa per il ciuffo" ("é preciso agarrar a oportunidade pelo topete") ou "La fortuna è calva" ("a sorte é careca."). Em português, essas expressões têm um sentido parecido com "Cavalo encilhado não passa duas vezes".


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Visto que a vida continua depois da eleição qualquer um dos dois finalistas que vença o torneio terá necessariamente um encontro marcado com a revisão das próprias convicções, e são tantas as incoerências e tão improvisadas as mudanças de posição que o outro caminho do vencedor será o confronto com o estelionato eleitoral. Ademais, aquele que ficar no papel de líder da oposição tampouco escapará de precisar dar o dito pelo não dito.

Luiz e Flávio tornaram-se convertidos a uma fé invertida em relação ao que habitualmente praticavam e/ou pensavam. Na undécima hora, o molusco deu de abraçar causas que desprezou a vida toda e que no atual governo ignorou, não obstante tivesse poder para levá-las adiante. Para citar só algumas, aderiu à doutrina da prosperidade; descobriu o mal das apostas eletrônicas; percebeu-se de repente na era digital; deu-se conta de que lugar de criminoso é na prisão; tirou a família tradicional da lata de conservas e a incluiu na carta de adesão aos princípios dos evangélicos.
A fim de se adaptar aos reclames por moderação, o filho do golpista ora presidiário passou a oferecer defesa da democracia na mesma bandeja em que se dispõe a entregar anistia a golpistas e arremedos ditatoriais do salvadorenho Bukele. À teoria do "tesouraço", o fã do argentino Javier Milei acoplou a ampliação dos gastos com benefícios sociais, uma contradição em termos. Seguiu na toada da incongruência ao tirar a PEC do fim da jornada 6x1 do lugar de "hipocrisia oportunista" para a condição de proposta digna de apoio por representar "a vontade da maioria".

O populismo tem lá suas vantagens eleitorais, dada a existência de contingente expressivo de necessitados, crédulos e manipuladores travestidos de inocentes —mas cobra um preço. No caso, maior para Lula; se reeleito, terá de pagar a conta da demagogia. Para o filho do pai, sai mais barato: na oposição, assume o lugar de atacante; no governo, dá um calote na figura do candidato e faz fumaça das palavras de anteontem.


Mais de dois mil anos depois, continuamos enfrentando o mesmo desafio: reconhecer o momento certo antes que seja tarde demais. Vivemos na era de Cronos por excelência. Temos calendários sincronizados em vários dispositivos, notificações que nos avisam quando devemos sair de casa, aplicativos que transformam as horas em blocos de cores. Somos, em termos quantitativos, os seres mais conscientes do tempo que já existiram na história da humanidade. No entanto, às vezes somos tomados por uma estranha sensação de ter deixado passar coisas importantes.


Talvez o problema não seja tanto a falta de tempo cronológico, mas o fato de que, ao nos preocuparmos tanto em administrar o tempo quantitativo, às vezes nos tornamos menos sensíveis ao tempo qualitativo. Sem perceber, podemos estar tão atentos ao próximo item da lista que não notamos que o que está acontecendo neste exato momento é algo que não vai se repetir. Estamos tão ocupados olhando para o relógio que deixamos de interpretar a situação — e Kairós passa diante de nós. Ou por outra: estamos tão focados no amanhã que deixamos de viver o hoje em sua plenitude.


Kairós não é uma teoria sobre o tempo, mas algo que conhecemos empiricamente e que podemos aproveitar, algo fugaz trazido por um deus com cabelo na frente, mas não atrás. Kairós não exige que façamos menos coisas, mas pede que esteja presente quando as fazemos. Não se trata de ficar ansioso e tentar transformar cada segundo em uma oportunidade épica. Isso seria distorcer o conceito. Os gregos não pregavam uma urgência permanente: estavam descrevendo uma textura do tempo que inclui tanto os longos períodos do Cronos comum quanto os instantes de kairós que o pontuam.


Isócrates não dizia que seus alunos deveriam criar os momentos oportunos. Dizia que deveriam reconhecê-los quando surgissem. E reconhecê-los é, em parte, uma questão de atenção: uma escuta um pouco mais apurada, uma presença um pouco mais completa, que permite perceber quando algo está pronto para ser dito, feito, iniciado ou concluído.


Na última estrofe do poema de Posídipo de Pela, que encerra o diálogo com a estátua de Kairós, o interlocutor pergunta para quem ela foi criada. E a estátua responde: "Para você, viajante. Para você fui feito; aqui, no limiar, sou um ensinamento". Não no templo, não na praça pública, mas num lugar entre o dentro e o fora, entre o que está por vir e o que já passou.


É difícil imaginar um lugar mais adequado para Kairós.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

OS DEUSES DO TEMPO

O TEMPO NÃO PARA NO PORTO, NÃO APITA NA CURVA, NÃO ESPERA NINGUÉM;


Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado, devolvia os filhos ao útero de Gaia, até que, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que castrasse o pai.


Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas quem sai aos seus não degenera, e assim ele devorou a própria prole até que Réia escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o pai a regurgitar seus irmãos.


Zeus não só cumpriu a missão como derrotou Cronos numa guerra que durou dez anos e se tornou o rei dos deuses.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Flávio Bolsonaro parecia ter princípios sólidos para refutar a proposta de emenda constitucional que acaba com a escala de trabalho 6x1, que chamou de "inoportuna e eleitoreira". Além disso, acusou Lula de recorrer à "hipocrisia" para obter votos e disse que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem redução salarial, produziria "desemprego em massa".

No entanto, após visitar o pai em seu domicílio prisional, o primogênito do refugo da escória da humanidade afirmou que "a maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da escala 6x1" e antecipou a posição que acabou por adotar no Senado: "Vou votar a favor do fim da 6x1". Lula ironizou: "Parece que, depois da pressão da sociedade, o PL resolveu votar o fim da escala 6x1."

No primeiro turno, o filho do pai obteve 2,2 milhões de votos a mais que o macróbio petista. Segundo o Ministério do Trabalho, 14,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada atuam na escala 6x1. O molusco enxergou nessa legião de beneficiários da PEC uma oportunidade para tentar a virada eleitoral. Num esforço para manter o rival nas cordas, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias mostrou, enfim, que tem princípios. Mas pode ter outros se o trabalhador não gostar deles. Na disputa pelo poder, não hesita em aderir ao que chamava de hipocrisia.




Urano e Cronos são deuses mitológicos, assim como Saturno — a versão romana de Cronos, posteriormente associada ao tempo, que ceifava os dias com sua foice. Mas há uma distinção fundamental entre Cronos (χρόνος) e Kairós (καιρός): o primeiro representa o tempo cronológico, linear e mensurável, e o segundo é associado ao tempo da experiência, do acontecimento, do instante significativo. Alguns pensadores da Antiguidade falavam de Aión, que representa um tempo que não se mede nem se aproveita, mas que se habita e escapa ao relógio e às urgências do agora. 


Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos — aquele que o relógio mede e os calendários transformam segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. Essa lógica nos leva a tratá-lo como algo mensurável e manejável — um recurso a ser administrado, otimizado e explorado a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano.


Embora outras formas de compreender e viver o tempo persistam entre povos tradicionais, povos originários, povos indígenas, africanos e do sul global — nessas cosmovisões, o tempo não se comporta como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente, podendo ser cíclico, circular ou espiralar —, convencionou-se adotar o tempo cronológico como padrão universal por ele colonizar o presente — sequestrando nossa atenção —, capturar o passado — reduzindo a memória a registro — e comprometer o futuro — empobrecendo nossa capacidade de imaginá-lo. 


Na era dos algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração: tornou-se um sistema de controle íntimo, automático e permanente. No fim das contas, ele venceu não como mito, mas como método. Já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina no Olimpo, mas rege os calendários, metas, prazos e as notificações. Não precisa mais devorar os filhos; apenas convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que ele sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.


Poucas expressões resumem melhor uma experiência humana universal do que "agora ou nunca", pois remete à ideia de que existe um instante preciso para agir e que, se o deixarmos escapar, ele talvez não volte — e com efeito: às vezes nós só compreendemos a importância desses momentos depois que eles já passaram, e então vêm os lamentos: "se eu tivesse dito alguma coisa naquele momento!", ou então as comemorações: "ainda bem que tive coragem", ou ainda a satisfação de descobrir que uma decisão tomada no último minuto foi mesmo a correta.


Além de perceberem o valor desses sopros fugazes, os gregos antigos batizaram esse conceito com o nome do deus, kairós, que, diferentemente de Cronos — que rege o tempo do calendário e do relógio — representa algo mais fugidio, como a ocasião oportuna que se abre e se fecha, o instante em que algo, uma palavra, uma decisão, uma ação, pode acontecer com toda a sua força ou se perder para sempre. Dito com outras palavras, enquanto Cronos expressa a concepção quantitativa do tempo, a duração, a idade, a velocidade, Kairós remete ao momento que marca uma oportunidade que talvez não volte. 


Em essência, nem todo instante é igual: alguns têm peso, e esse peso não é medido em horas. Para os antigos gregos, esse peso era tão importante que merecia mais do que uma palavra, e por isso foi personificado em Kairós — uma divindade menor do panteão grego, filho de Zeus segundo algumas fontes, irmão do Destino segundo outras. E além de sua genealogia divina, vale a pena observar sua aparência — quando se tratava de imaginar seus deuses, os gregos deixavam pouco ao acaso: cada detalhe tinha um significado.


Continua...

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

SISTEMA PLANETÁRIO ATÍPICO DESCOBERTO NA VIA LÁCTEA INTRIGA CIENTISTAS

A HUMANIDADE ESTÁ SEMPRE TRÊS UÍSQUES ATRASADA.

Cientistas estão documentando um sistema planetário na Via Láctea que inclui uma anã vermelha com cerca de 40% da massa do nosso Sol, orbitada por uma anã marrom — um corpo celeste na fronteira entre um planeta e uma estrela.


A anã marrom é orbitada por um mundo gasoso do tamanho de Júpiter, recém-descoberto com o auxílio do Very Large Telescope (VLT), do Observatório Europeu do Sul, localizado no Chile.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Daniel Vorcaro levou a diversificação dos negócios às fronteiras do paroxismo. A Polícia Federal descobriu que, no ramo afetivo, além de financiar os prazeres sexuais de políticos e autoridades, o ex-banqueiro Investiu pelo menos R$ 4,3 milhões numa rede internacional de prostituição, atuando, inclusive, no recrutamento de mulheres. No mercado financeiro, isso se chama gestão de ativos. No mercado da patifaria, chama-se cafetinagem. No caso de Vorcaro, a perversão teve como agravante a suspeita de tráfico internacional de mulheres vulneráveis.

Na prática, Vorcaro fez da República um bordel pós-ideológico. A diferença é que a prostituição foi exercida não pelas mulheres, mas pelos políticos e autoridades recrutados por Vorcaro. Prostituíram-se em troca de contratos advocatícios milionários, patrocínio de filme, custeio de exílio antipatriótico, voos em jatinhos patrocinados, hospedagem em hotéis de luxo, convescotes com uísque e charuto. Tudo isso e mais favores sexuais.


Usando nosso sistema solar como referência, um corpo que orbita outro corpo que orbita uma estrela deveria ser chamado de lua — ou exolua, por estar além do nosso sistema solar —, mas o objeto que orbita a anã marrom não se assemelha a nenhuma das muitas luas do nosso sistema solar, que são mundos relativamente pequenos, rochosos ou gelados, em termos de composição e tamanho. A maioria dos astrônomos concorda com o nome "exossatélite", pelo menos até que adotemos formalmente definições para objetos como esses.


O sistema em questão fica a cerca de 72 anos-luz da Terra — lembrando que um ano-luz é a distância que a luz percorre em um ano, ou seja, 9,5 trilhões de km. O exossatélite possui pelo menos 90% da massa de Júpiter — o maior planeta do nosso sistema solar — e completa uma órbita ao redor da anã marrom a cada 170 dias, a uma distância de cerca de um quinto daquela que separa a Terra do Sol.


A descoberta desses objetos incomuns, diferentes de tudo que conhecemos em nosso sistema solar, abriu uma caixa de Pandora para a comunidade científica, que agora busca entender, mediante modelos teóricos, como esses tipos de objetos se formam e se são comuns ou não. 


Embora mais de 6.300 exoplanetas — como são conhecidos os planetas fora do nosso sistema solar — tenham sido descobertos, encontrar exoluas tem se mostrado mais desafiador, com apenas alguns bons candidatos identificados. Os pesquisadores estão tentando descobrir as origens do exossatélite, que pode ter se formado a partir do disco de gás e poeira ao redor da anã marrom — assim como os planetas se formam ao redor das estrelas — ou ter sido capturado gravitacionalmente pela anã marrom.


Uma anã marrom não é estrela nem planeta, mas algo entre os dois. Elas podem ser consideradas estrelas em formação que, durante seus estágios iniciais, não alcançaram a massa necessária para iniciar a fusão nuclear em seu núcleo, como uma estrela. Mas são mais massivas do que os maiores planetas — a anã marrom desse sistema é cerca de 33 vezes mais massiva, 50% maior em tamanho e muito mais quente que Júpiter.


Desde a primeira detecção de exoplanetas, na década de 1990, os cientistas identificaram uma ampla variedade de sistemas planetários, alguns muito semelhantes ao nosso e outros bem diferentes. O sistema examinado na nova pesquisa é um caso atípico. Provavelmente, houve uma história dinâmica bastante caótica que o deixou em seu estado atual, mas é difícil dizer exatamente que tipo de caos ele passou.

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

SOBRE AS LUAS DE SATURNO — CONCLUSÃO

VULNERANT OMNES, ULTIMA NECAT.

Retomando o assunto da postagem anterior, as pequenas luas saturnianas são difíceis de detectar porque não aparecem como pontos brilhantes ao lado do planeta nas fotografias. Pelo contrário, são objetos tão tênues que precisam ser acompanhados durante meses para que seus movimentos possam ser distinguidos do fundo estrelado, e suas órbitas, determinadas com precisão suficiente para que o Minor Planet Center e a União Astronômica Internacional as reconheçam oficialmente como satélites naturais. Por isso, embora a confirmação tenha sido anunciada em março de 2025, o trabalho científico começou muito antes. 


A equipe observou sistematicamente os arredores de Saturno entre 2019 e 2021, acumulando milhares de imagens que, depois de combinadas, revelaram dezenas de pequenos corpos praticamente invisíveis em observações isoladas. Parte dessas descobertas foi confirmada em 2023; outras somente em 2025, evidenciando que a ciência costuma avançar muito antes de os resultados chegarem às manchetes.


Entre as principais luas destacam-se Titã, Encélado, Reia, Jápeto, Dione e Mimas. Algumas apresentam intensa atividade geológica; outras escondem oceanos de água líquida sob espessas camadas de gelo. Titã, por exemplo, é maior do que Mercúrio e possui uma atmosfera densa, enquanto Encélado se tornou um dos objetos mais fascinantes do Sistema Solar graças aos gigantescos gêiseres que lançam vapor d'água, cristais de gelo, sais minerais e compostos orgânicos ao espaço.


Em 2008, a sonda Cassini atravessou uma dessas plumas a aproximadamente 18 quilômetros por segundo, e seu Analisador de Poeira Cósmica detectou grãos de gelo extraordinariamente "frescos", fornecendo fortes evidências de que aquele material provinha diretamente do oceano subterrâneo de Encélado. Anos mais tarde, estudos publicados na revista Nature Astronomy reforçaram essa conclusão ao indicar que parte das moléculas orgânicas encontradas também se originava nesse oceano oculto, tornando essa pequena lua um dos ambientes potencialmente habitáveis mais promissores do Sistema Solar.


Isso, naturalmente, não significa que existam homenzinhos verdes caminhando sobre o gelo de Encélado. A descoberta apenas demonstra que alguns dos ingredientes considerados fundamentais para o surgimento da vida — como água líquida, compostos orgânicos e fontes de energia — parecem coexistir naquele ambiente. Se algum dia encontrarmos vida fora da Terra, ela provavelmente será microscópica e muito diferente da imagem popular criada pelo cinema e pelas histórias em quadrinhos.


Na astronomia, a região ao redor de uma estrela onde a água líquida pode permanecer estável na superfície de um planeta é conhecida como zona habitável, ou zona de Cachinhos Dourados (Goldilocks Zone). A expressão faz referência ao famoso conto infantil em que a protagonista rejeita o mingau frio demais e o quente demais, escolhendo justamente aquele que estava "na medida certa". Embora Encélado esteja muito além dessa região, seu oceano interno é aquecido pelas forças de maré exercidas por Saturno, mostrando que a habitabilidade pode surgir por caminhos bastante diferentes daqueles observados na Terra.


Até hoje não existe nenhuma evidência científica conclusiva de que civilizações extraterrestres tenham visitado a Terra. Entretanto, o simples fato de ainda não termos encontrado outra forma de vida inteligente não significa que ela inexista. O Universo observável estende-se por aproximadamente 46,5 bilhões de anos-luz em todas as direções, abriga cerca de dois trilhões de galáxias, centenas de sextilhões de estrelas e um número ainda maior de planetas. Diante dessa imensidão, continua difícil acreditar que a vida tenha florescido exclusivamente em um pequeno mundo azul perdido na periferia de uma galáxia espiral.


Como dizia Carl Sagan, se estivermos realmente sozinhos no Universo, "seria um terrível desperdício de espaço".


Voltando a Saturno, a maioria de suas "novas" luas pertencem ao grupo dos satélites irregulares — que percorrem órbitas distantes, inclinadas e frequentemente excêntricas —, sugerindo que muitas são fragmentos de corpos maiores capturados ou destruídos ao longo da história do planeta. Outras podem ter origens completamente distintas. Isso significa que o sistema de satélites de Saturno é menos uma família homogênea e mais uma complexa árvore genealógica escrita ao longo de bilhões de anos.


O anúncio de 2025 chamou a atenção do mundo por praticamente dobrar, de uma só vez, o número oficial de luas conhecidas de Saturno. Em março de 2026, novas confirmações elevaram novamente essa contagem, demonstrando que o inventário do Sistema Solar permanece em constante evolução. Cada novo objeto confirmado representa mais um pequeno fragmento de uma história iniciada há bilhões de anos e ainda longe de ser totalmente compreendida.


A liderança de Saturno em número de satélites é, ao mesmo tempo, uma consequência de sua história e do progresso tecnológico. O planeta realmente possui uma impressionante coleção de pequenas luas, mas o número que atribuímos a elas também depende da sensibilidade dos telescópios, da duração das campanhas de observação e do refinamento dos métodos empregados para distinguir uma lua de um simples fragmento ainda insuficientemente conhecido.


O mais fascinante em toda essa história talvez seja justamente isso. Mesmo depois de séculos observando o céu e décadas enviando sondas ao espaço, continuamos descobrindo novos mundos ao redor de um planeta que julgávamos conhecer muito bem. As 128 luas anunciadas em 2025 não surgiram naquele ano; elas sempre estiveram ali, silenciosamente orbitando Saturno, aguardando apenas que nossa tecnologia se tornasse capaz de percebê-las.


A ciência possui essa extraordinária capacidade de nos lembrar que o Universo não muda porque aprendemos mais sobre ele. Quem muda somos nós. A cada novo telescópio, a cada nova sonda e a cada nova descoberta, ampliamos um pouco mais o horizonte do conhecimento e percebemos que, mesmo em nosso próprio quintal cósmico, ainda existem incontáveis mundos esperando para serem encontrados