domingo, 30 de agosto de 2026

MANTEIGA NÃO É BOMBRIL, MAS TEM 1001 UTILIDADES

DO PRATO À BOCA PERDE-SE A SOPA.  


O azeite (óleo de oliva) surgiu há cerca de 6.000 anos e era usado pelos egípcios, gregos e romanos muito antes de Adão e Eva serem acomodados no Jardim do Éden. Até o surgimento das prensas mecânicas, usavam-se vigas de madeira ligadas a um contrapeso para extrair o óleo das azeitonas. Para ser considerado "extravirgem", a acidez do azeite deve ser inferior a 0,8%. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A autorização para que a Polícia Federal tenha acesso aos dados colhidos pela Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora do filme "Dark Horse" provocou tremores de regozijo entre militantes indignados com notícias que transpiram das investigações sobre tráfico de influência envolvendo um filho, uma amiga lobista e o ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio da Silva (PT).

Estaria aí pavimentado o terreno para uma paridade de vazamentos com potencial mútuo de constrangimentos. No caso do filme, a suposição é a de que, a partir da PF, comecem a ser conhecidas as informações que Flávio Bolsonaro (PL) prometeu, mas não forneceu, sobre as andanças dos milhões de Daniel Vorcaro de um fundo no Texas (EUA) até o caixa da Go Up Entertainment —e dali sabe-se lá para onde.

A dona da produtora, Karina Ferreira da Gama, aparece como destinatária, por intermédio de duas agremiações, de recursos em emendas parlamentares de autoria de cinco deputados federais do campo da direita. Da investigação compartilhada com a PF consta a suspeita de fraude em licitação da Prefeitura de São Paulo, no valor de R$ 108 milhões, vencida pelo Instituto Conhecer Brasil, também de Karina.

Material para o embate, portanto, não falta. A questão em aberto é a motivação para a guerra entre duas campanhas à Presidência da República. O problema não são os vazamentos, mas o fato de um lado servir de vidraça e o outro ficar livre para atirar as pedras.

Quando ficam os dois na berlinda, há respiros de alívio pelo equilíbrio restabelecido, como se não houvesse mal algum estarem na corda bamba esticada sobre um pântano, arriscados a enfiarem suas almas na lama.

Os candidatos fogem de cobranças e fazem de conta que não é com eles. Lula dá entrevistas mandando o filho se explicar —que, no entanto, não se explica, só reclama por intermédio da defesa. Flávio Bolsonaro diz que não lhe cabe prestar contas de uma "página virada". É como estamos: sem a menor noção de onde iremos parar.


Itália, Espanha, França e Grécia são responsáveis por 90% da produção mundial de azeite, ao passo que o Brasil é o terceiro maior importador (atrás apenas dos EUA e da Grécia), embora produza azeites premium de excelente qualidade (que são caros e difíceis de encontrar nas gôndolas dos supermercados).


Observação: Para os criacionistas, Deus criou o mundo em 3761 a.C. Para o arcebispo irlandês James Ussher, o Senhor das Esferas deu início aos trabalhos pontualmente às 9h de 23 de outubro de 4004 a.C. Segundo a ciência e o modelo cosmológico baseado no Big Bang, o Universo tem 13,8 bilhões de anos, a Terra, 4,54 bilhões de anos, e o Homo Sapiens surgiu há cerca de 300 mil anos, a partir da evolução de outros primatas.

 

A manteiga, por sua vez, surgiu por volta de 4.000 a.C., na esteira do desenvolvimento da pecuária leiteira na Europa Central e Atlântica, quando alguém descobriu que bater a nata que se formava na superfície do leite resultava numa pasta cremosa que, em algumas culturas, chegou a ser vista como símbolo de status social e riqueza. 


O processo manual seguiu até meados do século XIX, a partir de quando o advento das centrífugas que separam o creme do leite ensejou a industrialização. Já a textura, o sabor e o teor de gordura do produto variam conforme o país de origem — as europeias, com destaque para as francesas, têm sabor mais acentuado e textura mais leve do que as produzidas no Brasil e nos EUA. 


O azeite é mais usado para regar saladas verdes e massas, no preparo de refogados e em frituras em fogo baixo, enquanto a manteiga, além de ser consumida in natura, é utilizada no preparo de bolos, biscoitos, recheios e assemelhados, bem como para untar, fritar e dar sabor aos pratos.


Só de pensar em um pão quentinho com manteiga à beça — como escreveu o saudoso Noel Rosa em Conversa de Botequim — a gente fica com água na boca, mas, como diz o título desta postagem, "manteiga não é Bombril, mas tem 1001 utilidades". Afora a aplicação revelada no filme Último Tango em Paris, de cujos detalhes sórdidos eu vou poupar o leitor, não faltam usos para aquele restinho de manteiga que sobrou na geladeira. Entre outros:


— Passe um pouco de manteiga nas dobradiças daquela porta guinchadora e dê adeus à trilha sonora de filme de terror.


— Esfregue uma quantia generosa de manteiga sobre manchas de tinta em objetos de plástico e deixe agir por 20 a 40 minutos antes de lavar. 


— Quem usa correntes ou cordões, sobretudo os mais finos, sabe que quanto mais se tenta desatar os nós, maior o risco de danificar as joias. Mas basta besuntar esses nós com manteiga e usar um garfo para desfazê-los facilmente.


— Marcas de água em móveis de madeira — como as que surgem quando alguém coloca um copo com bebida gelada sobre a mesinha de centro, por exemplo — podem ser removidas facilmente se esfregarmos um pouco de manteiga, deixarmos agir por uma noite e limparmos logo pela manhã.  


— Sabe quando você corta um bolo de chocolate e a faca sai toda suja com o recheio? Da próxima vez, passe um pouco de manteiga na faca e ela deslizará suavemente.


— Para prevenir que o queijo fresco e outros alimentos embolorem, sobretudo no verão, passe manteiga nas áreas expostas (onde você o cortou), e a gordura criará uma espécie de selagem, evitando que o alimento estrague. 


— Se usar metade de uma cebola, passe um pouco de manteiga na outra metade restante e cubra com filme plástico ou papel-alumínio.


— Passe um pouco de manteiga em pílulas ou cápsulas de remédio antes de ingerir e tome-as com um gole d'água. Dessa forma, elas passarão mais suavemente pela garganta, evitando desconfortos e engasgos.


— Para manter a saúde das unhas, passe um pouco de manteiga nas cutículas antes de dormir e calce um par de luvas de algodão. As proteínas e gorduras da manteiga atuam como um hidratante natural, que você pode inclusive usar para não ficar com as mãos ressecadas em períodos mais frios — basta passar um pouco de manteiga nas mãos e esfregar bem, como você faria com um creme comum.  


— Por último, mas não menos importante: se você tem cabelos secos e não se dá bem com os condicionadores convencionais, hidratar os fios com manteiga os deixará macios e brilhantes.


Use com moderação, ou vai faltar manteiga para o pãozinho...

sábado, 29 de agosto de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 112ª PARTE

HOJE É O AMANHÃ DE ONTEM E O ONTEM DE AMANHÃ.

Como vimos, viajar no tempo rumo ao futuro pode ser apenas uma questão de... tempo. No entanto, ainda que seja matematicamente plausível e encontre guarida na física quântica, viajar no tempo de volta ao passado esbarra nas leis da natureza e da física clássica. Mesmo assim, não faltam teorias que buscam resolvem o problema dos paradoxos e outras "questiúnculas" que nos impedem de colher "o fruto mais ambicionado da árvore da relatividade".


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A agenda de Lula previa apenas um compromisso na quinta-feira. Passou o dia se preparando para a sabatina na TV Globo, mas não obteve o sucesso que esperava. 

Renata Vasconcellos e César Tralli não estavam devidamente ensaiados. O constrangimento do petista estava mais nas perguntas que foi obrigado a ouvir do que nas respostas que conseguiu dar. De 40 minutos, cerca de 25 foram dedicados à corrupção.

Na defensiva, o molusco chamou Roberta Luchsinger de "pilantra". Jurou nunca ter visto a lobista do Careca do INSS. Era lorota. Pipocaram nas redes fotos da amiga do filho Lulinha e do ex-chefe de gabinete Marcola fazendo o "L" ao lado de um Lula sorridente. Quem tiver culpa terá que pagar, repetiu. Pediu votos para Jaques Wagner porque não abandona os amigos e não há sentença no caso Master contra seu ex-líder no Senado. Acusou a PF de vazar dados sigilosos e a imprensa de divulgar "ilações". Atrasou o relógio para relembrar a Lava Jato: "Fui acusado de ter apartamento que eu não tinha, chácara que eu não tinha". Faltou imparcialidade a Sérgio Moro. A força-tarefa de Curitiba barbarizou. O Supremo anulou sentenças. Mas nada disso apaga o petrolão.

Na sucessão passada, o próprio Lula admitiu, na mesma TV Globo: "Você não pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram". Em meio às confissões estavam as obras que a OAS e a Odebrecht fizeram graciosamente no sítio de Atibaia e no tríplex do Guarujá. Decorridos quatro anos, Lula voltou à emissora com tudo bem ensaiado, exceto as perguntas dos sabatinadores.

O eleitor que já decidiu votar em Lula não deve ter mudado de ideia. Mas a entrevista dificilmente terá acrescentado muitos votos ao candidato entre o cobiçado eleitorado independente. Resta ao macróbio um consolo: na sabatina de Flávio Bolsonaro. Renata Vasconcellos e César Tralli terão que dedicar pelo menos 25 minutos à corrupção. 

Material não falta.


Experimentos recentes com tunelamento quântico sugerem que fótons podem atravessar uma barreira em tempo aparentemente nulo ou negativo — como um automóvel que sai do túnel antes de ter entrado —, e que esse não é o único exemplo desconcertante de estranheza temporal em escalas muito pequenas. Uma das muitas esquisitices da mecânica quântica é a "superposição" — possibilidade de uma mesma partícula estar em dois lugares simultaneamente —, o "entrelaçamento quântico" — que Einstein batizou de "ação fantasmagórica à distância" — e a "causalidade" — capacidade das partículas de mudar o passado a partir do futuro. 


Diferentemente dos carros em um túnel, os fótons não têm posição ou trajetória fixa no espaço. Dada a impossibilidade de etiquetá-los e rastreá-los, os pesquisadores mediram o tempo gasto na travessia analisando a excitação dos átomos dentro da barreira à medida que as partículas de luz passam por eles ou os atingem, e o resultado apontou a existência do assim chamado "tempo negativo".


Os cientistas entendem matematicamente por que isso acontece, mas não sabem qual o significado, já que não há uma correspondência clara com o mundo físico que vivenciamos. Assim, eles concluem simplesmente que a mecânica quântica "é diferente". E se isso parece estranho, a "retrocausalidade" é ainda mais surpreendente.


Observação: A retrocausalidade — do latim retro, no sentido de 'para trás', e causalidade, a 'relação entre causa e efeito' — é exatamente o que o nome sugere: a possibilidade de que um evento futuro influencie um evento passado. No mundo clássico, isso soa como heresia, já que a causa precede o efeito, o passado determina o futuro e a seta do tempo aponta numa única direção. Quebrar essa regra seria o equivalente a afirmar que os estilhaços de um vaso que caiu no chão podem se reunir espontaneamente — coisa que nossa intuição rejeita enfaticamente. Mas a física quântica não pede licença às nossas intuições. No experimento de dupla fenda, um fóton exibe comportamento de onda quando não é observado (produzindo um padrão de interferência) e comportamento de partícula quando é observado (produzindo dois pontos distintos). No experimento de Wheeler, o momento da observação é deliberadamente adiado — e ainda assim o fóton parece "saber", retroativamente, se seria ou não observado, ajustando seu comportamento no passado de acordo com uma decisão ainda não tomada no presente. Os adeptos da interpretação de Copenhagen preferem dizer simplesmente que a pergunta "qual caminho o fóton tomou" não tem resposta antes da medição — e que portanto não há propriamente um passado sendo alterado, mas sim um passado que só se define no momento da observação. Outros, porém, argumentam que a retrocausalidade oferece uma explicação mais elegante para certos fenômenos quânticos do que a noção de que partículas simplesmente "não têm propriedades" antes de serem medidas. O debate está longe de ser resolvido, mas o simples fato de ele existir nos lembra de que o tempo, nessa escala infinitesimal, pode não ser via de mão-única que a experiência cotidiana nos ensinou a encarar como óbvia.


Embora não tenha a evidência observacional dos experimentos de túnel quântico, a retrocausalidade ajuda a compreender a chamada "ação fantasmagórica à distância", que acontece quando duas partículas estão "entrelaçadas" em lados opostos do Universo, mas quando os cientistas medem o giro ou a polarização de uma delas a parceira entrelaçada responde instantaneamente da mesma maneira. O que torna isso ainda mais assustador é que essas partículas não apresentam tais propriedades até serem medidas, ou seja, elas existem em vários estados simultaneamente até o momento em que algum tipo de sinal instantâneo vai de uma para a outra dizendo qual medição foi realizada, o que é muito estranho.


Nesse cenário, as informações não passam instantaneamente entre as partículas pelo espaço, mas pelo tempo — ou seja, uma partícula medida passa informações para o momento em que foi entrelaçada com seu par e depois para o momento em que ocorre a medição. Esse conceito contraintuitivo substitui uma impossibilidade por outra — uma cura que parece ser pior que a doença —, além de abrir a porta para os paradoxos temporais, nos quais influenciar o passado altera o presente. Mas essa não é a primeira vez que a mecânica quântica desafia o senso comum.


Segundo os defensores da retrocausalidade, ela só parece improvável porque nós — na escala macroscópica — vivenciamos o tempo em uma direção, ao passo que, em escalas muito pequenas, as leis da física são simétricas em relação ao tempo (com algumas exceções). E quanto ao aparente problema da viagem no tempo, isso só se aplica se a partícula foi medida no passado, eles dizem. Enquanto isso não acontece, ela permanece em seu estado quântico indeterminado.


A comprovação dessas teorias implica que o Universo funciona de forma diferente da que imaginamos, num cenário em que duas ou mais linhas do tempo coexistem lado a lado. Mas achar que há uma evolução para frente e uma evolução para trás do Universo — com duas setas causais separadas e independentes — é um tipo de imagem 'dinâmica' da retrocausalidade em que se têm processos literais de avanço e retrocesso acontecendo em alguma combinação. Talvez não seja uma maneira muito elegante de pensar sobre a retrocausalidade, já que se pode deparar facilmente com inconsistências, contradições e paradoxos.


A retrocausalidade é mais plausível se vivermos no que é conhecido como "universo em bloco" — um modelo hipotético e filosoficamente controverso de existência, no qual todos os momentos no tempo (passado, presente e futuro) coexistem em um objeto quadridimensional. Se esse bloco está preenchido com todos os eventos que já aconteceram ou vão acontecer, então é mais fácil ver como alguma influência hipotética poderia passar entre as partículas dentro dele. E para explicar as ações fantasmagóricas à distância das partículas entrelaçadas, as informações não precisam viajar para o passado em alguma linha de tempo retrocausal alternativa, mesmo porque não há fluxo temporal. O tempo é apenas outra dimensão dentro do bloco, e não uma coisa material que se move.


Sendo esse o caso, chegamos ao que pode ser a implicação mais preocupante sobre a mecânica quântica e seu estranho comportamento temporal. Na interpretação mais fatalista do universo em bloco, somos apenas personagens de uma série de TV cósmica. Podemos experimentar a vida episodicamente, mas nosso futuro é tão determinado quanto nosso passado. Então, se estivermos no meio de nossa história, o próprio final — o momento em que a luz se apaga — pode já ter sido escrito.


Continua...

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM… (CONTINUAÇÃO)

QUANDO O RELÓGIO BATE 13 VEZES…

Devido à imensidão do cosmos, os cientistas medem as distâncias em unidades astronômicas (UA) e anos-luz. Uma UA equivale à distância média entre a Terra e o Sol — que varia de 149,5 milhões de km no ponto mais próximo da estrela a 152,1 milhões no ponto mais distante — e um ano-luz corresponde à distância que os fótons percorrem no vácuo em um ano — que é de aproximadamente 9,5 trilhões de km.


Para ter uma ideia do que isso significa, se pudéssemos dirigir um carro a 100 km/h sem parar, demoraríamos mais de 10 milhões de anos para percorrer um único ano-luz. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Flávio Rachadinha pede dinheiro a Daniel Vorcaro, nega tudo ao ser descoberto, confirma o que negara após a explosão do áudio, promete prestar contas em 30 dias e se desobriga de prestar esclarecimentos quando os repórteres o questionam 90 dias depois: "Vocês vão parar no tempo?" Enquanto o filho do presidiário despistava — "É o Lula que tem que prestar contas" — o ministro do Supremo Flávio Dino abria à Polícia Federal as pistas recolhidas pela Polícia Civil paulista na produtora do filme Dark Horse.

O filho do refugo da escória da humanidade diz que Karina Gama, que produziu a cinebiografia do aspirante a golpista, já prestou contas — referindo-se a uma perícia anexada ao inquérito que corre em São Paulo. Contratados pela própria produtora, os peritos sustentam que o filme custou R$ 75 milhões — mais do que os R$ 61 milhões mordidos de Vorcaro. O diabo é que não foram exibidos recibos nem notas fiscais.

A apenas 40 dias do primeiro turno, candidato que mata o tempo comete suicídio. O filho do pai demora a perceber, mas político que se enrola nos detalhes normalmente se perde no essencial: perto da urna, todo fato consumado vira fato consumido. 

A demora no fornecimento de explicações empurra o Dark Horse para bem pertinho das urnas.


Segundo Einstein e o modelo cosmológico baseado na Teoria do Big Bang, a velocidade da luz (expressa pela letra "c") é limite máximo universal — ou seja, ela não pode ser alcançada por nenhum objeto que contenha massa, pois acelerar uma ínfima partícula de massa até a velocidade da luz exigiria uma quantidade infinita de energia. 


A 99,999% da velocidade da luz, um corpo aumenta de peso 224 vezes; a 99,99999999%, o aumento é de 70 mil vezes. A 99,999999999999999999981% de "c", um segundo equivale a 2,5 anos no tempo terrestre — ilustrando o efeito extremo da dilatação do tempo, como ilustra o paradoxo dos gêmeos. Em um cenário mais moderado, a 99,9999999% de "c", uma viagem de ida até Proxima Centauri, que fica a 4,2465 anos-luz de nós, levaria 4 anos terrestres, mas não duraria mais de duas horas no referencial dos astronautas.


A luz se propaga pelo cosmos a 299.792 km/s — ou 1,08 bilhão de km/h — e leva cerca de 8 minutos para vir do Sol à Terra. Já a luz de Proxima Centauri, que é nossa vizinha cósmica mais próxima, leva mais de 4 anos para chegar até nós. Por outro lado, a sonda mais veloz lançada pela NASA até agora alcançou respeitáveis 692 mil km/h (0,0643% da velocidade da luz). Com essa velocidade pode-se ir à Lua em meia hora, a Marte em 15 dias e aos confins do Sistema Solar em pouco menos de 3 anos, mas uma viagem à Proxima Centauri levaria cerca de 6,6 mil anos.


Uma vez que a dilatação do tempo só é expressiva em velocidades próximas à da luz e a expectativa média de vida dos seres humanos é de 80 anos, missões tripuladas continuam restritas à nossa vizinhança imediata. Mas não há nada como o tempo para passar, e o impossível só é impossível enquanto alguém não duvidar e provar o contrário. Basta lembrar que a esquadra de Cabral demorou 44 dias para vir de Lisboa até a costa sul do que viria ser o Estado da Bahia e que, 500 anos depois, o supersônico Concorde atravessava o Atlântico em pouco mais de três horas. 


A história da tecnologia mostra que aquilo que uma geração considera impossível não raro se torna banal para as gerações seguintes. Em 1865, Júlio Verne descreveu uma viagem tripulada à Lua (errando por apenas 20 milhas o local exato do lançamento do Saturno V, que levou a Apollo 11 ao nosso satélite em 20 de julho de 1969). Com a tecnologia atual, as naves mais rápidas são capazes de ir à Lua em cerca de três dias e a Marte entre seis e nove meses, mas uma viagem até Proxima Centauri demoraria 70 mil anos com a sonda Voyager 1 — que já rompeu a barreira do Sistema Solar — e cerca de 6,6 mil anos com a Parker Solar Probe. Nesse entretempo, civilizações inteiras nasceriam, floresceriam e desapareceriam. 


Pode-se dizer que a velocidade da luz é uma prisão perpétua escrita nas leis fundamentais do universo. Os fótons se movem com a velocidade da luz porque são partículas de luz. Já a energia necessária para acelerar um objeto massivo se torna infinita à medida que sua velocidade se aproxima da velocidade da luz, e como não existe energia infinita disponível no universo observável, é impossível alcançar exatamente esse limite.


Os neutrinos são "partículas-fantasmas" teorizadas nos anos 1930 pelo físico austríaco Wolfgang Pauli e, logo após e com mais precisão, pelo italiano Enrico Fermi, que podem se deslocar a velocidades muito próximas de "c". Como eles raramente interagem com a matéria, sua detecção é baseada no choque de uma quantidade ínfima com os átomos, que pode ser registrado por detectores ultrassensíveis. Estima-se que existam 10 bilhões de neutrinos para cada elétron existente no universo, mas, assim como os elétrons e outras partículas elementares, eles são tratados pelos modelos atuais como entidades puntiformes, sem tamanho interno detectável.


Os táquions, por sua vez, seriam partículas superluminais — ou seja, que já nascem além da barreira da velocidade da luz e não podem desacelerar até "c". Sua existência segue no campo das teorias, mas a relatividade especial não exclui completamente sua possibilidade matemática, embora nenhuma evidência experimental de sua existência tenha sido encontrada.


Talvez a verdadeira beleza da ciência não esteja nas respostas, mas nas novas perguntas que essas respostas suscitam. Os físicos ainda não conseguiram conciliar a física clássica e a mecânica quântica, mas a metáfora proposta pela física teórica Sabine Hossenfelder reformula a visão tradicional da velocidade da luz como limite absoluto e a coloca entre dois regimes distintos de movimento: num deles, as partículas superluminais habitam um domínio próprio da física, e no outro, elas habitam o nosso. 


A simetria entre esses regimes indica que a relatividade especial não proíbe explicitamente a existência de objetos superluminais, embora uma eventual transição entre os dois domínios viole o princípio da causalidade. Já o conceito do cone de luz atua como um "organizador da causalidade": enquanto os objetos subluminais estariam restritos a interações dentro do futuro e do passado causalmente conectados, os superluminais ficariam numa região "desconectada" do espaço-tempo convencional, resultando em interações exóticas ou paradoxos temporais, dependendo da interpretação.


Continua…

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 111ª PARTE

O QUE ESTÁ EM NOSSO PODER PARA FAZER TAMBÉM ESTÁ EM NOSSO PODER PARA NÃO FAZER.

A viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade. Se ainda não foi colhido, é porque nossa tecnologia não permite a construção de espaçonaves capazes de atingir velocidades próximas à da luz (representada pela letra "c" e equivalente a cerca de 300 mil km/s) e fruir os efeitos da dilatação do tempo

A 99,9999999% de "c", milhares de anos terrestres equivalem a poucos segundos, o que permite percorrer centenas ou milhares de anos-luz quase instantaneamente (no referencial dos ocupantes da espaçonave). Contudo, se a possibilidade de viajar no tempo para o futuro é apenas questão de tempo (com o perdão do trocadilho), voltar ao passado é bem mais complicado.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Começa amanhã a abjeta campanha política por rádio e televisão (que os contribuintes bancam para que ela seja gratuita para os candidatos), quando então os candidatos começam, na prática, a vender seu peixe ao eleitorado. Donos das maiores vitrines eletrônicas, Lula e Flávio travarão um embate particular. Se os dois levarem ao ar toda a munição estocada nos paióis dos seus comitês, talvez seja necessário tirar as crianças da sala.

O filho do presidiário incluiu o molusco de nove dedos e a corrupção entre suas prioridades televisivas. Cavalgando as vulnerabilidades éticas do adversário, o ex-presidiário e seus operadores se equipam para um revide que vai muito além do caso Dark Horse — alguns petistas chamam a réplica de "desnudamento" do adversário.

A conjuntura sufoca o debate sobre os projetos para o país. A perspectiva de que os candidatos mais bem colocados nas pesquisas ataquem um ao outro no horário eleitoral dá à sucessão ares de uma disputa tétrica. Tão marcante quanto uma guerra. A diferença é que, em vez do derramamento de sangue, vai escorrer merda.


Uma hipotética volta no tempo esbarraria nas leis da natureza e da física, na conjectura de proteção cronológica — que impede as curvas fechadas do tipo tempo de levarem de volta ao ponto de partida — e no princípio de autoconsistência de Novikov — que bloqueia eventos capazes de criar inconsistências no Universo. Em outras palavras, viajar ao passado é possível em tese se não alterar o presente. 


Como a simples presença do viajante já seria uma alteração, seria preciso que quaisquer mudanças no rumo dos acontecimentos criassem linhas de tempo alternativas a partir do ponto de mudança, de modo que nada que o viajante fizesse afetasse sua linha temporal original. Isso resolveria o problema dos paradoxos, mas essa teoria ainda não foi provada. Assim, sem múltiplos universos e linhas do tempo alternativas, um loop infinito de causas e efeitos seria como as ondas concêntricas criadas por uma pedra jogada em um lago. 


Vale lembrar que a física clássica governa o macrocosmo, e a mecânica quântica, o microcosmo das partículas. Einstein demonstrou que o espaço e tempo estão conectados e que a força gravitacional de objetos supermassivos pode curvar o espaço-tempo, encurtando ou dilatando o tempo e criando loops temporais. 


Uma das muitas esquisitices da mecânica quântica é a superposição — possibilidade de uma mesma partícula estar em dois lugares simultaneamente. Assim, se causa e efeito coexistem, o "evento A" pode ser tanto a causa quanto o efeito do "evento B". Como bem ilustra o experimento conhecido como Gato de Schrödinger, a realidade das partículas em nível quântico só "se define" quando é observada. 


A expressão "arrow of time" (flecha do tempo, numa tradução direta) foi cunhada pelo astrofísico Arthur Eddington no final da década de 1920, mas a ideia de que o tempo é unidirecional remonta à Segunda Lei da Termodinâmica, proposta no século XIX, que trata da entropia (medida de desordem e 

aleatoriedade). No entanto, se a natureza não está obrigada a obedecer aos postulados da teoria que tenta explicá-la, uma seta do tempo que aponta sempre do passado para o futuro não faz o menor sentido. 


A despeito da evolução acumulada nos últimos séculos, os cientistas ainda não conseguem explicar satisfatoriamente a natureza do tempo nem sabem se somos prisioneiros do tempo que avança do passado para o presente e do presente para o futuro. Se tudo o que existe está imerso na passagem do tempo como peixes na água, a possibilidade de viajar no tempo rumo ao passado é admissível — mas admitir essa possibilidade significa que toda a ciência que construímos e a tecnologia que desenvolvemos a partir dela estão erradas.


Não sabemos se o tempo é contínuo ou quântico, se é divisível infinitas vezes e se flui invariavelmente do passado para o futuro, mas sabemos que um vaso que cai e se espatifa não volta intacto para cima da mesa, já que a entropia em um sistema fechado só aumenta. E embora possamos ir e voltar nas três dimensões espaciais, na do tempo a regra é a ida sem volta. 


Para os físicos da "velha escola", o tempo é como o pano de fundo de um fluxo de eventos que se sucedem numa direção preferencial, ou seja, o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o hoje, ao se tornar o ontem de amanhã, impõe limites ao novo presente. Por outro lado, o cosmos nem sempre se sujeita às leis da física clássica. 


Em determinadas situações, voltar no tempo é tecnicamente possível, embora o Universo possa se tornar inconsistente caso as linhas que conectam as causas (no passado) e os efeitos (no futuro) sejam alteradas. Mas e se voltássemos no tempo sem interferir nessas linhas?


O sequenciamento temporal em nível quântico não é exatamente claro ou intuitivo. No último século, os físicos exploraram todos os tipos de comportamentos incomuns no mundo quântico — entrelaçamento, superposição e incerteza, entre outros. Na década de 1990, pesquisadores dispararam fótons descritos como "um pacote de ondas" cujo pico pareceu emergir antes de ter entrado, evidenciando a existência do "tempo negativo". 


O resultado desse experimento sugere que a luz pode viajar mais rápido do que ela mesma, o que contraria o senso comum e o princípio da causalidade (não confundir com casualidade). De acordo com alguns cientistas, não se trata de uma violação das leis da física, mas de uma reorganização dos pulsos de luz, e assim nenhuma partícula estaria experimentando tempo negativo nem viajando mais rápido do que a luz. Mistério resolvido? Não exatamente.


Experimentos mais recentes acrescentaram uma nova reviravolta que (ainda) não pode ser explicada: a duração negativa. Atraso e duração parecem ser a mesma coisa — afinal, se o seu voo sofrer um atraso, é a mesma coisa que a duração do tempo que você passa esperando, mas esse não parece ser o caso em escalas atômicas. Em outras palavras, há algo aqui que é indiscutivelmente paradoxal.


A medição negativa da duração adicionou uma nova camada de estranheza, já que o remanejamento de pacotes de ondas que explicou o atraso negativo não explica como um fóton passa menos do que zero tempo no túnel.  E esse não é o único exemplo desconcertante de estranheza temporal em escalas muito pequenas. Algumas partículas podem mudar o passado a partir do futuro por meio de um efeito chamado "retrocausalidade".


Continua…