quarta-feira, 24 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A ENGENHARIA EXTRATERRESTRE

TALENTOS OCULTOS NÃO VALEM NADA.


Para o advogado do diabo, dizer que se tanta gente avistou discos voadores é porque há discos voadores é um argumento lógico tão fraco quanto sustentar que tanta gente acredita em Papai Noel porque Papai Noel existe.

Ignorar sistematicamente o que tanta gente — inclusive pilotos militares sob juramento — afirma ter visto também não é ciência, mas sim dogma com jaleco branco. Mas o fato é que a História está coalhada de indícios de visitas de seres extraterrestres, tanto em priscas eras quanto atualmente.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Amigo e líder de Lula no Senado, Jaques Wagner é apontado como "beneficiário central" de "vantagens econômicas" de integrantes do Master. Isso inclui um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, uso de aeronaves e até ingresso para o camarote de show internacional em Los Angeles. Coisa de R$ 63,3 mil. Por uma trapaça do azar, o petismo e seu xamã ficaram inibidos de sapatear sobre uma promessa descumprida por Flávio Bolsonaro.

No dia 19 de maio, após reunião com as bancadas federais do PL, o filho de Bolsonaro disse ter feito uma encomenda ao fundo americano que recebeu a verba pedida por ele a Daniel Vorcaro e à produtora brasileira do filme Dark Horse. Deveriam apresentar, em até 30 dias, uma prestação de contas com o detalhamento das despesas com o filme. O prazo que o rival de Lula se autoconcedeu venceu exatamente nesta quinta-feira, mesmo dia em que a PF sacudiu o coreto do líder petista.

Em vez de exibir a prometida escrituração dos R$ 61 milhões que mordeu de Vorcaro a pretexto de financiar a cinebiografia do pai, o filho sentiu-se à vontade para agir como um macaco que senta no próprio rabo para falar mal da cauda dos outros. Acomodado sobre seus vícios, o rival de Lula declarou: "O PT da Bahia acaba de ser implodido pela Polícia Federal com uma operação contra o líder do governo do PT no Senado Federal, Jaques Wagner. Isso é um alento de que a impunidade vai ser combatida..."

Ao recusarem duas ofertas de colaboração premiada de Daniel Vorcaro, a PF e a PGR instalaram em Brasília uma espécie de câmara de descompressão. Jaques Wagner estava entre os políticos que respiravam aliviados. Animou-se a contestar no Senado, na terça-feira, reportagem da Veja que atribuiu a Vorcaro revelações sobre os negócios do Master com o PT baiano.

Estufando o peito como uma segunda barriga, o líder petista discursou: "Já desafiei vários a me mostrarem qual foi a investigação da (Polícia) Federal que encontrou algo sobre o meu comportamento". Decorridas menos de 48 horas, o senador obteve uma amostra do que foi descoberto sobre ele. Para complicar, a novidade veio ornamentada pela imagem do dinheiro apreendido.

Em entrevista, Jaques Wagner disse ter recebido telefonema de solidariedade de Lula. Anunciou: "Eu continuo na liderança até que o presidente peça que eu me retire. Não acho que ele vai fazer isso." Toda crise tem um preço. Lula parece ignorar uma obviedade: quem regateia paga mais caro. A sorte foi traiçoeira com Lula. Ele percorrerá a campanha à reeleição mancando, com o espinho do Master enfiado no pé esquerdo.


A construção das pirâmides de Gizé e Stonehenge chamam a atenção por sua conexão com fenômenos astronômicos importantes e pelo desafio enfrentado por seus "construtores", que dispunham apenas cinzéis, marretas, rampas de madeira, cordas, polias e outras ferramentas rudimentares. Isso deu azo a teorias da conspiração sobre o uso de tecnologias inexistentes à época e, por conseguinte, a especulações acerca de uma suposta ajuda de alienígenas. 

O mesmo raciocínio se aplica às Linhas de Nazca, a Puma Punku,, aos Moais da Ilha de Páscoa, à fortaleza inca de Sacsayhuamán, a Teotihuacán, ao Templo de Júpiter, e por aí afora. Igualmente difícil é explicar são os tapetes voadores e as cavernas repletas de tesouros que se abriam por comando de voz — como o célebre Abre-te Sésamo — retratados nos Contos das Mil e Uma Noites, lembrando que aviões e edifícios com portas automáticas só surgiram dali a 4 mil anos. Ou a imaginação dos "escritores das Arábias" era mais prodigiosa do que a dos autores de ficção científica contemporâneos, ou essas "fantasias" retratavam coisas que eles já conheciam.

Os deuses das mitologias grega e nórdica habitavam lugares acima das nuvens — o Monte Olimpo e Asgard, respectivamente. Textos cuneiformes dos antigos assírios descrevem divindades vindas das estrelas que viajavam em barcos celestiais. Os sumérios desenvolveram o sistema sexagesimal que usamos até hoje em relógios e bússolas, e foram capazes de prever eclipses solares e lunares com precisão suficiente para orientar calendários agrícolas e cerimônias religiosas. Seus deuses eram associados a estrelas e planetas numa época em que sequer se cogitava a existência de sistemas solares, e eram retratados como seres com estrelas na cabeça ou cavalgando esferas aladas.

Carruagens com rodas cuspindo fogo foram descritas tanto nos apócrifos de Abraão quanto nos de Moisés, como aponta Erich von Däniken em Eram os deuses astronautas? — livro rotulado como "pseudociência" por acadêmicos, mas que vendeu mais de 80 milhões de cópias mundo afora — e a Teoria dos Antigos Astronautas, que inspirou a bem-sucedida série Alienígenas do Passado, produzida pelo History Channel.

Perto de Bagdá, foi descoberto em 1936 um artefato de dois mil anos que experimentos modernos demonstraram ser capaz de gerar mais de 1,4 volts de eletricidade — potência suficiente para eletrodeposição de metais. A arqueologia oficial hesita em confirmar seu uso como bateria, mas a hesitação, ela mesma, é sugestiva.

Textos do Mahabharata descrevem uma arma chamada Brahmastra, cujos efeitos — luz cegante equivalente a dez mil sóis, explosão devastadora, terra que se torna estéril por gerações, cabelos e unhas que caem nos sobreviventes — são suficientemente precisos para que Oppenheimer, ao assistir ao primeiro teste nuclear em 1945, tenha citado espontaneamente o Bhagavadgita. Coincidência literária ou memória de algo que de fato aconteceu?

Não se nega que muitas teorias da conspiração permeiam o assunto, mas algumas proposições de Von Däniken, mesmo que não comprovadas, contam com defensores ilustres, como o russo Zecharia Sitchin — que contribuiu para difundir o tema com sua interpretação de textos antigos do Oriente Médio — e o britânico Graham Hancock, que dá continuidade às teorias seguindo a linha de argumentação do pesquisador suíço, embora a considere incompleta.

Com base na obra de Homero, Heinrich Schliemann pavimentou a descoberta de Tróia. No apogeu da civilização maia (entre 250 e 900 d.C.), grandes cidades, pirâmides e praças majestosas foram erguidas em plena floresta tropical do México, da Guatemala e de Belize. Teóricos da conspiração atribuem esse prodígio ora a alienígenas, ora a habitantes do continente perdido de Atlântida.

Em Stonehenge Decoded, o astrônomo Gerald Hawkins estima que a estrutura foi erguida no período neolítico, quando as Ilhas Britânicas eram habitadas por povos considerados atrasados em relação a seus contemporâneos mediterrâneos.

Não se sabe o destino das bibliotecas de Jerusalém e de Pérgamo, nem quantos segredos se perderam com as destruições em massa dos livros históricos, astronômicos e filosóficos ordenadas pelo imperador chinês Shih-Huang, por Hitler e por Mao Tsé-Tung. Um alfarrábio contendo "toda a ciência da antiguidade" foi destruído pelo imperador inca Pachacuti, e milhões de volumes pertencentes a Ptolomeu I Sóter foram incinerados por ordem do califa Omar sob a alegação de que afrontavam o Alcorão.

O que se perdeu nessas fogueiras, não se sabe, mas sabe-se que a história do conhecimento humano não é uma linha reta ascendente — é um arquipélago de ilhas separadas por mares de silêncio.

Continua...

terça-feira, 23 de junho de 2026

ONDE ALGUNS VEEM CORDAS, OUTROS VEEM UM ESPAÇO-TEMPO FEITO DE FRACTAIS.

QUANTO MAIS AMPLIAMOS O UNIVERSO, MENOS SÓLIDO ELE NOS PARECE.

Segundo a física Astrid Eichborn, quando reduzimos a escala de observação a níveis extremos, as leis da física clássica simplesmente deixam de funcionar. 

Se ampliarmos o celular que está exibindo esta postagem, a tela, aparentemente lisa, se dissolverá em uma rede de pixels e moléculas. Se ampliarmos ainda mais a imagem, veremos os átomos — estruturas em que nuvens de elétrons vibram ao redor de núcleos atômicos. Se o zoom continuar, mergulharemos no interior desses núcleos, onde prótons e nêutrons parecerão gigantescos, quase como sistemas solares compostos por quarks ligados por intensos campos de força.

A partir desse ponto, as próprias forças fundamentais começarão a mudar de comportamento. O eletromagnetismo e a força fraca tornar-se-ão mais intensos, ao passo que a força forte enfraquecerá. Durante algum tempo, essas mudanças seguirão padrões relativamente bem compreendidos, que os físicos conseguem descrever com bastante precisão. Até deixarem de conseguir.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Lula é um excelente compositor. Compõe com todo mundo. Mas poucos desfrutam de sua amizade. Numa galeria de amigos, o macróbio colocaria o retrato de Jaques Wagner sob a melhor luz, mas a Polícia Federal ofereceu ao senador uma rara oportunidade de demonstrar que o apreço do presidente é correspondido. Investigado no inquérito sobre o Master — que fincou estacas nos três poderes — deveria se desligar imediatamente da função de líder do governo no Senado.Juridicamente, Jaques Wagner tem direito ao benefício da dúvida, mas, politicamente, uma dúvida criminal não é a melhor conselheira para um presidente da República. Em condições normais, afastar o investigado da liderança do governo seria conveniente. Em meio a uma guerra eleitoral, o afastamento é um incontornável preço a pagar. Regateando, o petismo pagará mais caro. E barateará as críticas a Flávio Bolsonaro por pedir dinheiro a Daniel Vorcaro.

Quando ampliamos a realidade a escalas cada vez menores — ou, equivalentemente, energias cada vez maiores —, as leis estabelecidas da física tendem a perder seu poder explicativo. A gravidade, praticamente irrelevante na escala atômica, passa a se comportar de maneira errática, e aí entramos no reino de Planck, onde a física pede licença para sair da sala. Em outras palavras: ninguém sabe ao certo o que está acontecendo — mas as hipóteses são maravilhosamente sofisticadas.

A aparente falha da física de partículas nessa escala sugere que o universo pode ser composto não por partículas pontuais, mas por cordas e membranas vibrantes. Alguns cientistas sustentam que nessas escalas extremas o próprio espaço-tempo deixa de ser contínuo e passa a apresentar uma estrutura formada por laços. Mas alguns pesquisadores exploram uma possibilidade diferente.

Em 1976, Steven Weinberg propôs que, ao ampliar suficientemente a escala de observação, chegamos a um ponto em que as regras da física simplesmente pararam de mudar, a intensidade das forças se estabiliza e a gravidade volta a fazer sentido.

Eichborn tornou-se uma das principais pesquisadoras a investigar essa hipótese — conhecida como segurança assintóticaAo longo da última década, ela e seus colaboradores fizeram progressos significativos na tentativa de demonstrar que as leis quânticas deixam de evoluir na escala de Planck, exatamente como Weinberg suspeitava, como também conseguiram conectar a física desse regime extremo com fenômenos que podem ser estudados em escalas muito mais acessíveis.

A abordagem utilizada para descrever a maioria das forças da natureza é a teoria quântica de campos, que pressupõe que o universo está repleto de campos quânticos ondulantes que se manifestam como partículas pontuais. Essas partículas se movem através de um espaço-tempo contínuo e interagem por meio de forças. O problema é que, quando tentamos tratar a gravidade quântica exatamente da mesma maneira — como um campo quântico flutuante — a teoria deixa de funcionar.

Em linhas gerais, para uma força bem compreendida como o eletromagnetismo, é necessário considerar flutuações do campo em todas as escalas. Em vez de desaparecerem à medida que ampliamos o zoom, essas flutuações manifestam-se como partículas virtuais com energias cada vez maiores. Nesse caso, a intensidade da força muda, mas o arcabouço teórico continua funcionando até a gravidade entrar em cena. Aí a situação se complica. 

Como Albert Einstein demonstrou em suas equações relativísticas, a gravidade está ligada à própria estrutura do espaço-tempo; quando tentamos quantizá-la da mesma forma que fazemos com as outras forças, as flutuações se tornam problemáticas: em distâncias extremamente pequenas, partículas virtuais de alta energia passam a interagir de maneiras que a teoria não consegue descrever.

Algo novo parece acontecer nessas escalas, e há basicamente três grandes linhas de pensamento sobre o que esse “algo novo” poderia ser. Uma possibilidade é a teoria quântica de campos simplesmente deixar de funcionar — situação em que os objetos fundamentais deixariam de ser pontos e passariam a ser cordas microscópicas vibrantesOutra possibilidade é o espaço-tempo não ser contínuo — um copo d’água parece contínuo à primeira vista, mas sabemos que ele é composto por átomos discretos. E a ideia de que o mesmo ocorre com o espaço-tempo é explorada na chamada gravidade quântica em loop

Uma terceira hipótese é a essência da segurança assintótica. Segundo essa linha de raciocínio, campos, partículas e espaço-tempo continuam existindo, mas a estrutura do universo, quando observada em escalas extremamente pequenas, passa a apresentar uma espécie de autossimilaridade, lembrando um fractal. A intensidade das forças — inclusive a gravidade — deixa de variar indefinidamente e passa a seguir as mesmas regras de interação entre partículas.

Se esse regime autossimilar realmente existir, as flutuações do espaço-tempo e dos demais campos podem se tornar estáveis o suficiente para que a boa e velha teoria quântica de campos continue sendo utilizada para fazer previsões — mesmo em energias extremamente altas. E simetrias são extremamente comuns na natureza — o próprio espaço-tempo possui diversas simetrias fundamentais; não existem direções privilegiadas, lugares especiais ou momentos absolutos, apenas escalas privilegiadas.

O mundo se apresenta de formas diferentes para os seres humanos, para as bactérias e para os elétrons, mas, no nível mais fundamental da realidade, é possível que nem mesmo essas escalas sejam especiais — talvez o infinitamente pequeno seja apenas o infinitamente grande visto de muito perto.

Se a teoria quântica de campos nunca falhou em laboratório, uma maneira de torná-la preditiva em todas as escalas é justamente introduzir essa simetria de escala. Para verificar se isso é possível, os físicos utilizam algo semelhante a um microscópio matemático, que constrói representações matemáticas dos campos e de suas interações, calcula como essas interações mudam à medida que se aumenta o “zoom” energético e procura um ponto fixo, onde essa evolução simplesmente deixa de ocorrer.

Grande parte da comunidade científica tem investigado inicialmente o caso mais simples: um espaço-tempo vazio, contendo apenas gravidade pura. Alguns pesquisadores simplificam ainda mais o problema considerando apenas flutuações quânticas do espaço e ignorando temporariamente as flutuações do tempo. Esses cenários foram analisados em centenas de trabalhos teóricos, e muitos deles indicam de forma bastante robusta a existência de um ponto fixo onde as constantes físicas deixam de evoluir.

Em um de seus primeiros estudos, Eichborn incluiu todos os campos de matéria e força conhecidos e concluiu que o ponto fixo ainda aparecia — mesmo nesse cenário mais complexo. Posteriormente, análises mais completas mostraram que o ponto fixo permanece mesmo quando se consideram diversas formas adicionais de interação entre os campos conhecidos.

Outra maneira de testar a ideia consiste em inverter o raciocínio: em vez de procurar matematicamente um ponto fixo nos modelos, parte-se da hipótese de que ele existe e pergunta-se quais seriam suas consequências observáveis no mundo macroscópico. Curiosamente, essa hipótese parece forçar o universo a se parecer muito com o universo que realmente observamos.

Em 2009, Mikhail Shaposhnikov e Christof Wetterich mostraram que, ao se afastar de um ponto fixo desse tipo, a massa do bóson de Higgs tende a aumentar. Num universo sem esse ponto fixo, as massas das partículas poderiam assumir praticamente qualquer valor. Já na presença dele, surge uma interação muito específica entre a gravidade e a força eletrofraca, restringindo os valores possíveis de certas massas fundamentais.

Em outras palavras, um universo com simetria de escala fundamental poderia explicar por que as propriedades das partículas elementares são exatamente aquelas que observamos. Isso não significa, naturalmente, que a segurança assintótica resolva todos os mistérios da física. A massa do próton observada é compatível com a existência de um ponto fixo, mas também poderia ser dezenas de vezes maior sem violar a teoria. Até onde sabemos, nenhuma propriedade conhecida das partículas contradiz a segurança assintótica — o que significa que ela permanece uma possibilidade em aberto. Mas vários modelos populares de matéria escura parecem entrar em tensão com essa ideia. Algumas versões simples de partículas massivas de interação fraca, certos candidatos semelhantes a áxions e modelos de matéria escura ultraleve parecem menos compatíveis com um universo fundamentalmente autossimilar.

Os experimentalistas continuam avançando, e muitos dos experimentos atuais podem acabar funcionando, indiretamente, como testes da própria segurança assintótica. É perfeitamente possível, no entanto, que essa abordagem não seja incompatível com outras teorias de gravidade quântica. Na escala mais fundamental da realidade, talvez existam cordas, laços ou estruturas ainda mais exóticas. Mas, ao nos afastarmos dessas escalas extremas, entramos em um regime onde as leis da física mudam tão lentamente que o universo parece operar em torno de um ponto fixo. Se isso for verdade, diferentes teorias de gravidade quântica que consideramos rivais passam a ser maneiras distintas de olhar para a mesma física profunda.

Na pesquisa em gravidade quântica, afinal de contas, ser humilde é sempre uma boa ideia.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE LITERALISMO RELIGIOSO

A PERDA DE UM CRAVO CAUSA A PERDA DA FERRADURA; A PERDA DA FERRADURA CAUSA A PERDA DO CAVALO; A PERDA DO CAVALO CAUSA A PERDA DA MENSAGEM; A PERDA DA MENSAGEM CAUSA A PERDA DA GUERRA.

Vimos que o literalismo religioso leva à aceitação de dogmas e crenças arcaicas em detrimento de descobertas científicas exaustivamente comprovadas; que os livros mais estudados do mundo são justamente os menos compreendidos; e que quase ninguém mais lê Ptolomeu, Pitágoras ou Arquimedes, apesar de seu conhecimento ser impressionante, mesmo nos dias de hoje.


Observação: Há algo de profundamente revelador nessa inversão: os textos que moldam civilizações inteiras são lidos de forma apressada, fragmentária — ou devota demais para permitir qualquer questionamento sério.


Como também vimos, o Novo Testamento consolidou quatro evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — e ignorou dezenas de textos apócrifos na versão “oficial” que chegou aos dias atuais. Embora não tenha definido diretamente o cânon bíblico, o Concílio de Niceia (325 d.C.) representa com precisão o momento em que o cristianismo começa a se estruturar como poder organizado, sob a influência direta do imperador Constantino. A questão central é que “coerência doutrinária” quase sempre significa alinhamento com a visão dominante — e não, necessariamente, compromisso com a verdade histórica.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A Polícia Federal submete o senador Ciro Nogueira ao pior tipo de obscenidade: a nudez que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém. O oligarca do centrão foi despido lenta e constrangedoramente.

Ciro perdeu o paletó quando veio a público que ele viajava por destinos luxuosos do mundo às custas de Daniel Vorcaro e ficou sem a camisa após a revelação de que recebia do mensalão do Master — que começou com R$ 300 mil. Chegou a R$ 500 mil.

A notícia de que as mesadas somaram pelo menos R$ 6 milhões deixou o ex-quase-futuro-vice-ideal de Flávio Bolsonaro sem as calças. Relatórios do Coaf tiraram do senador as roupas de baixo. Seguindo o rastro do dinheiro, a PF concluiu que Ciro lavou recursos de má origem usando empresas, familiares, servidores públicos e até beneficiários de programas sociais.

As delinquências de Vorcaro proporcionam ao Brasil uma de suas épocas mais despidas. Mais despudorado do que o mandato obsceno de Ciro Nogueira é a naturalidade com que o Senado reage à cena. Um senador perambula pelos salões do Legislativo pelado e ninguém faz nada. Não se vê diante dos glúteos expostos nem uma cara de nojo, que dirá uma representação ao Conselho de Ética por falta de decoro.


O processo de formação do cânon bíblico não foi um evento único nem tampouco uma deliberação iluminada de sábios imparciais reunidos em torno de uma fogueira de pergaminhos, e sim um processo longo, disputado, muitas vezes violento — e invariavelmente político. No século II, o bispo Ireneu de Lyon — homem de fé inabalável e tolerância zero para dissidências — foi um dos primeiros a defender sistematicamente a manutenção de apenas quatro evangelhos — sob o pretexto de que, assim como existiam quatro ventos e quatro pontos cardeais, só poderia haver quatro evangelhos. 


A lógica era frágil, mas a autoridade, não. E em sua obra Adversus Haereses (“Contra as Heresias”), Ireneu não apenas defendeu os quatro evangelhos aceitos, como atacou com vigor todos os demais, classificando-os como invenções demoníacas. Assim, textos que circulavam livremente entre comunidades cristãs passaram, de uma geração para outra, a ser tratados como veneno intelectual e espiritual.


No século IV, o processo ganhou força institucional. Em 367 d.C., o bispo Atanásio de Alexandria — outro homem com pouca tolerância para ambiguidades — escreveu sua famosa Carta Festal, na qual listou pela primeira vez os 27 livros que compõem o Novo Testamento e determinou que outros textos fossem abandonados. Aliás, a palavra usada — apokryphos, “oculto”, “escondido” — com o tempo deixou de ser neutra e passou a carregar um peso pejorativo: o que era “reservado a iniciados” tornou-se sinônimo de “falso” e “perigoso”.


Mas foi com a aliança entre Igreja e poder imperial — consolidada sob Constantino e aprofundada sob Teodósio I, que em 380 d.C. declarou o cristianismo religião oficial do Império — que a supressão de textos alternativos deixou de ser apenas uma questão teológica e passou a ser também uma questão de Estado. Queimar um evangelho deixou de ser um ato de zelo religioso e tornou-se um gesto de manutenção da ordem. A heresia, enfim, virou crime.


Ao contrário do que se costuma imaginar, nem todos os textos rejeitados foram destruídos — alguns simplesmente caíram em desuso, como vozes que ninguém mais escuta, e outros foram perseguidos, combatidos e, não raramente, queimados junto com seus leitores. Mas houve quem, com notável coragem — ou talvez apenas com o instinto silencioso de preservar —, tenha decidido escondê-los.


O achado mais espetacular nesse sentido foi a descoberta da biblioteca de Nag Hammadi, no Egito, em 1945. Um camponês chamado Mohammed Ali al-Samman, ao cavar nas proximidades de um penhasco em busca de fertilizante, encontrou um jarro de barro selado. Dentro dele, 13 códices encadernados em couro, contendo mais de 50 textos em copta — traduções de originais gregos que remontavam, em sua maioria, aos séculos II e III. Lamentavelmente, alguém, em algum momento do século IV, preferiu enterrá-los em vez de destruí-los, e esse gesto anônimo de desobediência silenciosa preservou para a posteridade uma voz que a Igreja oficial havia tentado calar.


Entre os textos encontrados em Nag Hammadi, destacam-se obras associadas ao chamado gnosticismo — um conjunto diverso de correntes cristãs primitivas que compartilhavam a ideia de que a salvação vinha do conhecimento (gnosis), e não da fé cega ou da obediência institucional. Naturalmente, uma teologia assim era incompatível com uma Igreja que começava a estruturar seu poder justamente sobre esses dois pilares.


O Evangelho de Maria — provavelmente escrito no século II, embora baseado em tradições mais antigas — apresenta Maria Madalena não como figura periférica ou penitente, mas como a discípula que mais profundamente compreendeu os ensinamentos de Jesus. No texto, após a ressurreição, é ela quem consola os apóstolos e transmite revelações que o messias lhe teria confiado em particular. Pedro, incomodado (ou enciumado?), questiona: “Ele teria falado em segredo com uma mulher e não abertamente conosco?


A tensão não é apenas teológica. É política, simbólica e estrutural. No Evangelho de Filipe há passagens ainda mais desconfortáveis para a ortodoxia: Jesus é descrito como "mais próximo" de Maria Madalena do que aos outros discípulos, e há uma referência parcialmente danificada a um gesto de intimidade entre os dois — detalhe que alimentou séculos de especulação e, mais recentemente, best-sellers. Independentemente da interpretação correta, o ponto é claro: havia comunidades cristãs que atribuíam a Maria Madalena um papel de liderança espiritual que a Igreja oficial simplesmente não podia absorver.


A imagem de Madalena como prostituta arrependida não vem dos evangelhos canônicos. Em nenhum momento o texto bíblico a identifica como tal. Essa associação foi construída gradualmente e consolidada de forma decisiva pelo papa Gregório I, em um sermão de 591 d.C., no qual fundiu três personagens distintas — Maria de Betânia, a pecadora anônima e Maria Madalena — em uma única figura de mulher caída e redimida. Erro honesto ou estratégia deliberada? Difícil saber, mas mais difícil ainda é acreditar que tenha sido irrelevante.


Essa interpretação persistiu por mais de mil anos como doutrina oficial da Igreja Católica. Apenas em 1969 o Vaticano corrigiu formalmente a confusão, reconhecendo que se tratava de três mulheres distintas. A reabilitação levou quatorze séculos. O dano, naturalmente, não teve a mesma pressa para desaparecer.


A pergunta que se impõe é inevitável: e se Maria Madalena tivesse sido, de fato, a principal discípula de Jesus? E se o papel de liderança atribuído a Pedro — e que sustenta toda a estrutura hierárquica posterior, incluindo o papado — na versão “original” da história tivesse pertencido a ela? Não há como provar, mas também não há como descartar. E o modo como sua memória foi moldada ao longo dos séculos sugere que alguém, em algum momento, julgou necessário fazê-lo.


Há ainda uma hipótese mais incômoda e, por isso mesmo, frequentemente tratada com desdém ou sarcasmo: a de que Maria Madalena não teria sido apenas uma discípula próxima, mas companheira íntima de Jesus, possivelmente sua esposa. A ideia não é consensual e carece de evidências conclusivas, mas se apoia em leituras de textos apócrifos, em lacunas curiosas nos relatos canônicos e, sobretudo, no contexto cultural do judaísmo do século I, no qual um homem adulto, especialmente um mestre religioso, dificilmente permaneceria solteiro.


Nada disso prova coisa alguma, mas tampouco justifica o deboche com que a hipótese costuma ser descartada — até porque, se verdadeira, ou mesmo plausível, suas implicações seriam profundas demais para serem ignoradas. Um Jesus casado não apenas humaniza a figura central do cristianismo como desmonta, peça por peça, construções teológicas posteriores que associam santidade à negação do corpo, do desejo e da vida comum. E talvez seja exatamente por isso que a ideia causa tanto desconforto.


No fim das contas, não sabemos exatamente quem foi Maria Madalena. Mas sabemos com razoável segurança quem decidiu o que ela deveria ser — e por quê. Sabemos também que o cânon bíblico não desceu do céu em versão final e homologada por instâncias divinas. Foi negociado, disputado e imposto por homens inseridos em contextos políticos bastante concretos.


A maior heresia, talvez, não seja a existência de evangelhos esquecidos, mas a ilusão confortável de que apenas os sobreviventes contam a verdade. A história é sempre escrita por quem chega depois à cena do crime — e tem tempo suficiente para reorganizar os móveis.


Resumo da ópera: Algumas ideias não precisam ser refutadas. Basta que sejam ridicularizadas com eficiência. No fim das contas, um cravo se perdeu… e, com ele, muito mais do que uma ferradura.


Continua...

domingo, 21 de junho de 2026

FILÉ À MORAES E STEAK TARTARE

ENTRE UM GOLE E OUTRO, VAMOS BRINDANDO À VIDA.

Aprendi com meu pai a apreciar um bom filé tártaro (ou steak tartare, como preferem os puristas). Aliás, foi também com ele que degustei pela primeira vez o célebre Filé à Moraes, criado pelo português Salvador Domingos Vidal, dono de um boteco na região central da capital paulista. 


Como a casa funcionava 24/7 horas por dia, a limpeza era feita com os clientes sendo atendidos, e por isso o prato acabou batizado de "bife sujo" pelos frequentadores. Em 1929, Vidal entrou de sócio do Bar, Café e Confeitaria Moraes (na Praça Júlio Mesquita, também no centro de Sampa), e aproveitou a chapa aquecida à lenha para criar sua mais famosa receita, que consiste num medalhão de filé de ≈ 250 gramas, grelhado por 3 minutos de cada lado (de modo a ficar tostado por fora e rosado por dentro), ao alho e óleo e acompanhado de fritas e agrião. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Uma colônia de pulgas se instalou atrás das orelhas dos operadores políticos do filho do refugo da escória da humanidade, que ainda não sabem se Eduardo Bananinha quer desempenhar o papel de aliado ou de estorvo na campanha do irmão, mas sua penúltima jogada evidencia sua preferência pela segunda alternativa.

A cúpula da campanha procura uma mulher, mas num instante em que Bolsonarinho perde terreno para o macróbio eneadáctilo, Bananinha lançou para vice do irmão mais velho a deputada Júlia Zanatta — uma bolsonarista de mostruário do tipo que pula no abismo pelo "mito" preso — embora a preferência recaia sobre alguém com o perfil moderado, como a senadora Tereza Cristina.

Para compreender o movimento de zero dois é preciso atrasar o relógio para 2018 e 2022, quando o patriarca do clã escolheu dois generais — primeiro Hamilton Mourão e depois Braga Neto — como parceiros de chapa. À guisa de explicação, Dudu lembrou ter dito ao pai, na época em que ele escolheu o Mourão, que "era preciso botar um cara "faca na caveira" para ser vice, alguém que não compense correr atrás de um impeachment". Quer dizer: ao empinar o nome de Julia Zanatta, zero três deseja retirar do baralho a carta do impeachment, imaginando que uma deputada incendiária transformaria seu irmão, por contraste, num estadista instantâneo, o que desestimularia futuras tramas pela deposição. 

O problema é que Zanatta não atrai um mísero voto fora do cercadinho bolsonarista — daí a proliferação de pulgas atrás das orelhas do staff do PL. Antes de adquirir um seguro anti-impeachment, a família do golpista precisa obter os votos que lhe faltam para retornar ao Planalto.


Há quem diga que o nome do prato deveu-se ao chapeiro, a quem os fregueses (entre os quais o escritor Monteiro Lobato) diziam: "salta um filé, Moraes", e que o cantor, compositor e comediante Adoniran Barbosa compôs Trem das Onze enquanto tomava chope naquele botequim — que passou a se chamar "Restaurante Moraes - O Rei do Filé" nos anos 1960 e suspendeu suas atividades duas décadas depois, graças ao nefasto "plano cruzado". Mais adiante, a casa voltou a funcionar em dois endereços (na Praça Júlio Mesquita e na Alameda Santos), mas sob nova direção — mesmo porque os proprietários não eram parentes dos fundadores. 

 

Para preparar um filé capaz de empanturrar dois bons garfos, você vai precisar de dois medalhões de filé-mignon (de aproximadamente 250g cada um), 8 dentes de alho, óleo para fritar e sal e pimenta-do-reino branca para temperar. 


Amoleça os dentes de alho em água fervente por 1 ou 2 minutos, descasque, corte ao meio, doure em óleo bem quente, escorra e reserve. Feito isso, grelhe os bifes por 3 minutos de cada lado (se preferir a carne bem-passada — o que é um sacrilégio —, leve ao forno pré-aquecido a 180 ºC por cerca de 2 minutos).


Tempere com sal e pimenta, espalhe o alho e um pouco do óleo da fritura e sirva com salada de agrião (ou agrião refogado no alho e óleo) e batatas fritas.

 

O Steak Tartare é um acepipe russo feito com carne crua, que pode ser servido tanto como aperitivo quanto como entrada ou prato principal. Os ingredientes (por pessoa) são: 


— 150 g de filé-mignon (moído ou finamente picado);

 

— Uma colher (sobremesa) de cebola ralada;

 

— Uma colher (café) de alcaparras (se preferir, substitua por azeitonas verdes picadas); 


— Uma colher (chá) de salsinha picada; 


— Uma colher (chá) de cebolinha picada;


— Uma colher (chá) de molho inglês; 


— Uma colher (sopa) de mostarda; sumo de 1 limão; 


— Uma gema de ovo cru; 


— Azeite de oliva extravirgem para regar e sal, pimenta do reino, pimenta caiena e molho tabasco para temperar.

 

Remova a "capa espelhada" e passe o filé duas vezes pelo moedor — ou corte-o em tirinhas e pique com a ponta de uma faca bem afiada. 


Transfira a carne para uma tigela, junte a cebola ralada, a salsinha e a cebolinha picadas e misture gentilmente (usando as mãos ou uma colher de pau) enquanto rega com um fio de azeite e tempera com o sal, as pimentas, a mostarda, o sumo do limão e o molho inglês. 


Acrescente as alcaparras (ou as azeitonas picadas), faça uma “bola” com a carne, coloque num prato, achate com a mão até formar um "hamburgão" e pressione o centro com o polegar, para criar a concavidade que vai acomodar a gema do ovo (crua, segundo a receita original, mas você pode cozinhar o ovo e usar a clara para decorar). 


Leve à geladeira para resfriar e, na hora de servir, decore o prato com batatas chips e sirva com torradinhas, cerveja gelada, vinho, refrigerante ou o suco de frutas de sua preferência.

  

Observação: Minha releitura dessa receita inclui alface picado, ervilhas em conserva, rodelas de tomate e de palmito. Depois de acomodar a carne na parte central do prato e colocar a gema (cozida) na concavidade, eu distribuo esses ingredientes em volta, acrescento a clara picada e rego tudo com bastante azeite.


Bom apetite.