quinta-feira, 30 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — E MAIS SOBRE A TEORIA DE TUDO

O TEMPO É UMA ILUSÃO; ELE SÓ EXISTE PARA QUE TUDO NÃO ACONTEÇA MAIS DE UMA VEZ.

Interrompi o capítulo anterior lembrando que viajar no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade, que as leis da física não impedem as viagens para o futuro — se ainda não o fizemos, foi por não dispormos da tecnologia necessária — e que voltar ao passado é um pouco mais complicado.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

A convenção nacional do PL, realizada em São Paulo no último sábado, foi convertida numa antiapoteose que subverteu a lógica. O protagonista do evento não foi o então pré-candidato do partido à Presidência, mas o progenitor do stronzino, que roubou a cena no evento inaugural da campanha do filho na forma de um clone virtual.
O uso da inteligência artificial expôs a ignorância natural do marketing bolsonarista. O primogênito do preso inelegível foi formalizado na pajelança partidária não como candidato à Presidência da República, mas como um fantoche do pai.
"Nenhuma prisão vai calar o sentimento de esperança que despertamos", disse a versão digital de Bolsonaro, exibida aos devotos num telão. "Nenhuma prisão vai calar os milhões de brasileiros que acreditam no nosso país. Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio."
O suposto candidato ecoou o pai em seu discurso: "Eu posso ser mais calmo, mais sorridente, mais tranquilo e moderado, mas aqui tem sangue de Bolsonaro", vociferou. "E sabe o que a gente vai fazer? O Brasil foi sequestrado e a gente vai libertar o nosso país desse cativeiro. Em janeiro de 2027, Jair Bolsonaro vai subir aquela rampa do Planalto junto com a gente".
Ao assumir o papel de refém dos interesses de Bibo Pai, Bobi Filho atirou contra os próprios pés de barro, expostos no Datafolha divulgado na noite da véspera. A pesquisa mostrou que os votos do eleitor de centro, vitais para o desfecho de uma sucessão polarizada, escorrem gradativamente para o cesto de Lula.

Além de suas contribuições fundamentais sobre buracos negros e a origem do universo, Stephen Hawking era conhecido por seu humor afiado e sua mente provocadora. Ao meio-dia de 28 de junho de 2009, visando testar a possibilidade da viagem ao passado, ele organizou uma festa na Universidade de Cambridge, com direito a decoração caprichada, champanhe, petiscos e uma grande faixa com os dizeres "Bem-vindos viajantes do tempo". No dia seguinte, publicou os convites em jornais e na internet. A lógica era simples e elegante: se em algum ponto do futuro a viagem ao passado se tornasse possível, então viajantes do tempo poderiam retornar àquela data específica e comparecer à festa. Mas ninguém apareceu. 

Esse fracasso, como o próprio Hawking ironizou, levou-o a concluir que, ou não é possível retornar ao passado, ou eventuais viajantes do tempo egressos do futuro preferem não se revelar, seja para evitar paradoxos, seja para não interferir na linha do tempo. Uma terceira possibilidade é a impossibilidade de viajar para um passado anterior à criação da primeira máquina do tempo.

Para entender isso melhor, pense nessa hipótese como um videogame. Você pode carregar um save antigo, mas não pode voltar para um ponto anterior ao momento em que o primeiro arquivo foi criado. Seguindo essa lógica, se uma máquina do tempo for inventada em 2100, nenhuma viagem poderia ir além desse ponto — até porque simplesmente não haveria onde pousar.

Foi refletindo sobre esses dilemas que Hawking propôs a chamada conjectura da proteção cronológica. Segundo essa ideia, as próprias leis fundamentais da física impediriam a existência de loops temporais fechados. Sempre que uma situação propiciasse uma viagem ao passado, efeitos quânticos extremos surgiriam, tornando o espaço-tempo instável e impedindo que o processo se completasse. 

Em outras palavras, o universo teria um mecanismo de segurança embutido — o que faz sentido quando lembramos que o princípio da causalidade — uma das pedras fundamentais da realidade — evita a formação de paradoxos temporais.

Ainda assim, alguns físicos se aventuraram a explorar brechas teóricas. Entre os mais conhecidos estão a dupla Kip Thorne e Michael Morris, que investigou a possibilidade de viajar no tempo através dos chamados buracos de minhoca. Sob condições específicas, esses túneis hipotéticos que ligam regiões distantes do espaço-tempo poderiam ser atravessados, permitindo uma viagem ao passado (já tratamos desse assunto em dezenas de postagens, como se pode conferir pesquisando o blog a partir dos respectivos termos-chave). 

O problema é que a criação de buracos de minhoca exige formas exóticas de matéria e efeitos quânticos que, até onde sabemos, ou não existem ou são impossíveis de controlar — daí a maioria dos físicos concordar que esses cenários permanecem no campo da especulação, fascinantes em teoria, mas inalcançáveis na prática. 

Seja como for, uma coisa é certa: o tempo está no coração da nossa existência, não obstante quão raramente paramos para refletir sobre sua verdadeira natureza.

Compreender o tempo talvez seja encarar um dos mistérios mais profundos do universo. Segundo a relatividade, o tempo não é uma dimensão rígida e congelada, mas dinâmica e flexível, moldada pela velocidade e pela gravidade. Cada um de nós percorre sua própria trajetória no espaço-tempo, numa linha única influenciada pelo movimento e pelo ambiente ao redor. 

Note que essa ideia carrega um certo desconforto: se cada experiência do tempo é única, então passado, presente e futuro se organizam de forma diferente para cada observador. Em outras palavras, cada um de nós vive sozinho dentro de sua própria linha de universo.

Não custa reforçar que nossa tecnologia avançou mais nos últimos 150 anos do que desde a invenção da roda até a Revolução Industrial. 

Que Pedro Álvares Cabral e sua trupe levaram 44 dias para cruzar o Atlântico no alvorecer do século XVI - e que, 500 anos depois, o supersônico Concorde fazia a mesma viagem por ar em pouco mais de 3 horas. 

Que Leonardo da Vinci concebeu seu "parafuso aéreo" cinco séculos antes daquilo que hoje conhecemos como "helicóptero" fazer seu voo inaugural. 

Que Júlio Verne profetizou a viagem tripulada à Lua um século antes da alunissagem da Apollo 11. 

Que cientistas renomados foram tratados com desdém até suas ideias inovadoras serem comprovadas.

Em suma aquilo que ontem era visto como feitiçaria passou a ser ciência.

Doze astronautas norte-americanos pisaram na Lua entre 1969 e 1972, mas a primeira viagem tripulada a Marte ainda não saiu do papel. Em parte porque, com a tecnologia atualmente disponível, ir da Terra ao planeta vermelho leva de 6 a 9 meses, e para que a geometria orbital permitisse que a viagem de volta fosse feita nesse mesmo tempo, seria preciso permanecer em Marte de 14 a 20 meses. Mas não há nada como o tempo para passar…

Uma equipe de pesquisadores liderada pelo astrônomo e pesquisador de mecânica orbital Marcelo de Oliveira Souza descobriu uma forma de usar dados preliminares de asteroides próximos da Terra como modelos geométricos para projetar trajetórias interplanetárias de alta velocidade para Marte. Assim, de acordo com o estudo publicado na revista científica Acta Astronáutica, uma missão de ida e volta ao Planeta Vermelho pode ser concluída em apenas 153 dias. 

A origem dessa descoberta está no asteroide 2001 CA21. Ao analisarem os cálculos orbitais iniciais desse corpo celeste, os pesquisadores detectaram que suas trajetórias preliminares traçaram uma espécie de portal secreto que se cruzaria com as zonas de influência orbital da Terra e de Marte durante a oposição de outubro de 2020. 

Embora medições subsequentes tenham refinado a órbita do asteroide, o valor científico do estudo reside em demonstrar que essas trajetórias iniciais, frequentemente consideradas ruído na comunidade astronômica, funcionam como um mapa estrutural para identificar corredores de transferência rápida.

A pesquisa analisou três janelas de oposição marciana: 2027, 2029 e 2031. A partir dessa análise, 2031 emergiu como a oportunidade mais promissora para a realização desse tipo de missão. Nessa configuração geométrica, uma espaçonave poderia partir da Terra em 20 de abril de 2031, chegar a Marte em 23 de maio, permanecer na superfície por 30 dias e iniciar sua viagem de retorno em 20 de setembro.

Para validar essas rotas, utilizou-se um solucionador de problemas de Lambert — ferramenta clássica em mecânica orbital —, que restringiu a inclinação da espaçonave ao plano de referência do asteroide. No entanto, os autores do estudo são cautelosos em relação aos desafios tecnológicos atuais. 

A rota ultrarrápida, que completaria a jornada em apenas 33 dias, exigiria velocidades de partida de 32,5 km/s e uma velocidade de chegada a Marte de 108.000 km/h. Esses números superam em muito as capacidades dos atuais sistemas de pouso e proteção térmica, colocando essa abordagem em um âmbito puramente teórico que exigiria propulsão nuclear térmica ou elétrica avançada.

A possibilidade de reutilizar informações de corpos menores como uma bússola interplanetária poderia acelerar os planos de exploração no longo prazo, desde que a tecnologia de propulsão consiga atingir os marcos energéticos que essas novas trajetórias exigem para garantir a segurança de uma tripulação humana.

Continua…

quarta-feira, 29 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A TEORIA DE TUDO

O TEMPO SE DOBRA; O ESPAÇO SE QUEBRA.

O fato de o tempo não ser universal nem fixo afronta nossa noção de simultaneidade, já que dois eventos que parecem acontecer ao mesmo tempo para um observador podem não parecer simultâneos para outro. Voltando ao exemplo do trem (capítulo anterior), se dois relâmpagos atingirem a locomotiva e o último vagão ao mesmo tempo, ambas as descargas parecerão simultâneas para quem está na plataforma e sucessivas para quem está no trem em movimento.


Embora tenha sido considerada inicialmente absurda, essa ideia abriu caminho para toda a física moderna — da mecânica quântica à cosmologia, da compreensão dos buracos negros ao estudo da origem do universo, e continua valendo quase um século depois. Mas a questão que se coloca é: se o tempo não é universal e cada qual segue sua própria linha temporal, a possibilidade de se desviar, pegar atalhos ou fazer o caminho inverso permitiria voltar ao passado?


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Guindado por Bolsonaro a uma poltrona do Supremo sob o argumento de que o tribunal precisava de um ministro "terrivelmente evangélico", André Mendonça rodou a toga, na última quinta-feira, e serviu ao filho do pai o pão que o Tinhoso amassou ao autorizar a Polícia Federal a abrir inquérito para investigar o financiamento de Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse. 
Dono do próprio tempo, Mendonça poderia ter agido na segunda-feira. Caprichoso, optou por tomar a decisão às vésperas da convenção que formalizou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. 
O início da investigação vinha sendo travado por um empecilho burocrático. Uma ação do deputado petista Lindbergh Farias pedia que a encrenca ficasse com Alexandre de Moraes, acusado de perseguição pelo clã Bolsonaro. Sob aplausos da família, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, transferiu o caso para a mesa de Mendonça, relator do caso Master. 
Mendonça é "irmão em Cristo" da amiga evangélica Michelle Bolsonaro, que vive às turras com o enteado Flávio. Nos bastidores, aliados do candidato enxergaram digitais da madrasta no despacho do ministro, mas o rigor com que Mendonça trata o senador petista Jaques Wagner, também arrastado para o caldeirão do Master, enfraquece o argumento. 
Por uma trapaça do azar, a decisão de Mendonça chegou ao noticiário no mesmo dia em que o rebento do refugo da escória da humanidade pendurou nas redes um vídeo se desculpando com Michelle, que, em meio à crise. foi questionada por repórteres sobre o áudio em que o enteado pediu dinheiro a Vorcaro, e se limitou a dizer que a pergunta deveria ser dirigida ao primogênito do capetão — que teve a oportunidade de se explicar, mas preferiu administrar o problema a golpes de barriga. 
Diante das crises que desidratam o projeto político da família Bolsonaro, os operadores da campanha tentavam calafetar as janelas do comitê, porém, assombrados com o rigor de Mendonça, passaram a temer que a investigação vaze pelas frestas do birô eleitoral, recém-transferido para São Paulo, durante toda a campanha. A cúpula do PL receia que a sangria se torne hemorrágica.

A física moderna trata a viagem no tempo para o futuro como uma consequência direta das leis do universo, pois quanto mais rápido algo ou alguém se move, mais lentamente o tempo passa para esse alguém em relação a um observador parado. Para entender melhor, a velocidade da luz — representada pela letra "c" considerada o limite máximo no universo — equivale a 299.792.458 m/s. Viajando a 99% de "c" e voltando à Terra depois de 5 dias, um hipotético astronauta encontraria seus familiares e amigos 35 dias mais velhos.


Vale ressaltar que a diferença (fator de Lorentz) cresce à medida que o viajante se aproxima de "c." A 99,9999%, os mesmos 5 dias na nave representam cerca de 9 anos na Terra, e a 99,99999999%, a quase 1.000 anos. Com energia suficiente, seria possível cruzar galáxias inteiras numa questão de minutos, enquanto milhares de anos se passariam na Terra. 


Observação: Teoricamente, o fator de Lorentz não tem limite, mas qualquer objeto com massa precisa de energia para ser acelerado, e, na velocidade da luz, a energia necessária para ele continuar acelerando seria infinita.


Não se trata de ficção científica, mas de evidências comprovadas experimentalmente: partículas subatômicas aceleradas em laboratórios vivem mais tempo do que se estivessem paradas, e relógios atômicos colocados em aviões viajando a grandes velocidades atrasam exatamente como a relatividade prevê.


Colher o fruto mais ambicionado da árvore da relatividade — ou seja, viajar no tempo — é admissível à luz das leis da física; se não o fazemos na prática, é porque o custo é altíssimo: para que a dilatação do tempo seja realmente significativa, é preciso atingir velocidades muito próximas à da luz, e nossas tecnologias de propulsão ainda não o permitem. 


sonda espacial mais veloz lançada pela NASA cravou "modestos" 693 mil km/h (ou 0,0643 da velocidade da luz) no final de 2024 — e isso porque se aproveitou da gravidade solar. A essa velocidade, seria possível ir da Terra à Lua em meia hora, a Marte em 15 dias e aos confins do Sistema Solar em pouco menos de 3 anos, mas uma viagem de ida a Alpha Centauri levaria mais de 6 mil anos.


Resumo da ópera: viajar para o futuro, embora seja possível em teoria, é impraticável com os recursos de que dispomos atualmente. Mas o que realmente mexe com a imaginação é a ideia de voltar para o passado, pois aí as coisas ficam mais complicadas, como veremos no próximo capítulo.


Continua...

terça-feira, 28 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE O BIG BANG

O ETERNO NOS CRIOU À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, MAS DEVE TER ERRADO ALGUM INGREDIENTE OU O TEMPO DE COZIMENTO, POIS NOS TORNAMOS DEUSES DE MERDA.

Vimos que os físicos Fred Hoyle, Thomas Gold e Hermann Bondi levantaram a hipótese de que o universo não teria começo nem fim; que Hoyle ironizou a ideia de toda a matéria ter surgido em um "grande estrondo", que a ironia pegou e o termo Big Bang foi adotado pela imprensa, embora tudo tenha começado não como uma grande explosão, mas como uma expansão cósmica há quase 14 bilhões de anos, cujos efeitos ainda podem ser observados através do desvio para o vermelho na luz das galáxias distantes.

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Numa homenagem à imprestabilidade, o PL oficializou a escolha do primogênito do refugo da escória da humanidade como candidato à Presidência em uma convenção em São Paulo com direito a discurso do filho do pai com referências a si próprio como "o filho mais velho do capitão". A convenção contou com um recado do primeiro-ministro de Israel, que afirmou que o filho do pai é um grande defensor do Brasil, e com a presença do presidente da Argentina, que veio especialmente para a convenção e chamou o ministro Alexandre de Moraes de "lixo careca" por negar a autorização para que ele visitasse o golpista, que cumpre pena em prisão domiciliar humanitária. . 

Também marcaram presença o governador Tarcísio de Freitas, puxa-saco do Messias, de Valdemar Costa Neto, ex-presidiário do Mensalão e presidente do PL, e do senador Rogério Marinho — outro que morreria afogado se Bolsonaro tomasse um banho de assento —, além de uma série de congressistas e candidatos do PL. 

Estavam no palco ainda o prefeito de São Paulo e candidatos a governador pelo PL, como Sergio Moro, o ex-herói nacional que passou a vergonha nacional e disputa o governo do Paraná. O evento nauseabundo começou com o hino nacional e 22 segundos de silêncio em alusão à suposta tentativa de calar a direita no Brasil, nas palavras do cerimonialista. 

A ex-primeira-dama e madrasta não participou presencialmente do evento, alegando estar em casa cuidando do "seu galego", e tampouco elogiou o enteado-candidato mas pediu que Deus abençoe e proteja sua candidatura e desejou força para a família dele para cumprir a missão com a lealdade que nosso povo merece (pausa para as gargalhadas).  

Os sinais de isolamento do stronzino foram evidenciados pela ausência dos presidentes nacionais dos demais partidos — embora o PL queira repetir a coligação de Bolsonaro em 2022 com a federação União Brasil-PP e o Republicanos, as legendas sinalizaram preferir a neutralidade desta vez.

A falta de uma coligação deixou a chapa sem candidato a vice — a expectativa era de que partidos aliados indicassem um nome, de preferência uma mulher. Em seu discurso, Tarcísio, que foi preterido pelo filho do pai para concorrer ao Planalto, disse que o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias estava ali não pelo sobrenome, mas por ser uma pessoa que vai honrar o pai e o legado e será o maior presidente da história (pausa para o Plasil).

O governador puxa-saco de presidiário aproveitou para criticar o PT e pedir ao público que busque votos e convença os indecisos: "não tem espaço mais para o cansaço, a gente não pode mais se poupar, são 70 dias de trabalho e sacrifício".

Em resumo, mudaram as moscas, mas a merda continua sendo rigorosamente a mesma.

A despeito da imprecisão, o nome Big Bang se espalhou pelo mundo como um bordão irresistível. Em 1993, a revista Sky and Telescope organizou um concurso para substituir o nome e recebeu 13.099 sugestões de 41 países, mas nenhuma convenceu a banca de jurados, que incluía o astrônomo Carl Sagan. Assim, o nome permaneceu, e Hoyle entrou para a história como o homem que batizou uma teoria na qual nunca acreditou.

Faltou dizer que um esforço para melhorar as comunicações por rádio, um ruído vindo do espaço e alguns físicos teóricos formaram uma improvável conjunção de fatores que ajudou a comprovar o principal pilar da cosmologia moderna, embora não explique que existia antes da "grande expansão" e sustente que as leis da física clássica não se aplicam àquele momento inicial. Essa lacuna deu origem a alternativas como a Teoria M, segundo a qual existem inúmeros universos paralelos, e a colisão entre dois deles teria gerado toda a matéria e energia que compõem o nosso Universo. Algumas correntes sustentam que espaço e tempo sempre existiram, e que a grande expansão não foi o ponto inicial de tudo, mas o resultado do colapso entre diferentes dimensões — nesse caso, a explosão primordial — que teria dado origem múltiplos universos que surgiram como bolhas em um caldo cósmico de possibilidades. Essas ideias já foram consideradas pura ficção científica, mas hoje ensejam debates sérios entre físicos teóricos, que tentam conciliar a Relatividade com a Mecânica Quântica por meio de hipóteses como a de que o nosso universo seria apenas uma "membrana" flutuando em um espaço de dimensões superiores imperceptíveis para nossos sentidos. A questão é que aquilo que chamamos de “realidade” seria apenas um entre incontáveis cenários possíveis, com leis físicas diferentes, constantes variadas e talvez até versões alternativas de nós mesmos em outras configurações do espaço-tempo. Na esteira desse raciocínio, o Big Bang deixaria de ser o "início de tudo" e se tornaria apenas um episódio em uma história muito maior — uma entre trilhões de páginas de uma história que ninguém escreveu, mas que insiste em se desenrolar. Ainda que tudo isso não passe de hipóteses, são hipóteses escoradas em equações, observações indiretas e modelos matemáticos complexos, e para muitos físicos a elegância de uma teoria é quase tão sedutora quanto sua capacidade de ser testada. É nesse limite entre o rigor e o devaneio que a ciência avança. Aliás, a verdadeira "beleza" da ciência não está nas respostas, mas nas novas perguntas que cada resposta suscita. Dito isso, o que veio antes do tempo? O que existe fora do espaço? O nada é mesmo nada ou apenas algo que ainda não fomos capazes de entender? A física como a conhecemos deixa de fazer sentido nos primeiros 5,39 × 10⁻⁴⁴ segundos contados do "início" do universo — intervalo conhecido como tempo de Planck. Nesse limite extremo, a gravidade e a mecânica quântica tornam-se incompatíveis. Conforme o universo se expandiu e esfriou — por volta de 10⁻⁶ segundos após o Big Bang — sopa densa e quente de quarks e glúons começou a formar prótons e nêutrons. Assim, quando falamos que “tudo veio do nada”, devemos ter em mente que, na cosmologia, “nada” pode significar ausência de matéria, de espaço-tempo ou mesmo um vácuo quântico repleto de flutuações. Segundo a Teoria Quântica de Campos, mesmo no vácuo existem atividades físicas — flutuações de energia que podem dar origem a partículas que logo desaparecem. Por mais que esse cenário pareça uma abstração matemática, essas partículas foram detectadas em inúmeros experimentos. Algumas hipóteses sugerem que o Universo pode ter surgido de uma flutuação do vácuo, com energia total zero — em que a energia positiva da matéria seria cancelada pela energia negativa da gravidade. Stephen Hawking e outros físicos exploraram a ideia de que o surgimento espontâneo do Universo seria possível dentro da física quântica —, mas não devemos perder de vista que estamos falando de um campo altamente especulativo. Voltando no tempo até a chamada Era de Planck — que ocorreu um décimo de milionésimo de um trilionésimo de um trilionésimo de um trilionésimo de segundo após o Big Bang — deparamo-nos com um limite onde nossas melhores teorias entram em colapso e próprio espaço-tempo sofre flutuações quânticas. E como a mecânica quântica governa o micromundo das partículas, e a relatividade geral, o universo em grande escala, unificá-las exige um Teoria de Tudo. Segundo a Teoria das Cordas e a Gravidade Quântica em Loop, espaço e tempo seriam conceitos emergentes como ondas na superfície de um oceano profundo, e o que chamamos de espaço-tempo seria o resultado de processos quânticos ainda mais fundamentais. Isso fica ainda mais interessante quando tentamos entender que, na Era de Planck, o espaço e o tempo deixam de fazer sentido e a causalidade se desintegra. As principais candidatas à "teoria da gravidade quântica" descrevem um tipo de realidade física que estaria ocorrendo no tal "momento primordial" — uma espécie de precursor quântico do espaço e tempo. Mas a física ainda não encontrou um exemplo confirmado de algo surgindo literalmente do nada — a procura por esse "santo graal" deu azo a explicações sobrenaturais, a modelos cíclicos do Universo e à Teoria do Multiverso, segundo a qual infinitos universos coexistem, cada qual com suas próprias leis e histórias. Inspirado por uma conexão matemática curiosa entre um universo inicial quente e denso e um universo final frio e vazio, Roger Penrose, ganhador do Nobel de Física em 2020, propôs a chamada cosmologia cíclica conformada, na qual os estados iniciais e finais se tornam matematicamente idênticos quando levados aos seus limites. Em outras palavras, o Big Bang pode ter surgido de um "quase nada", isto é, do resquício de um universo anterior onde toda a matéria teria sido consumida por buracos negros e transformada em fótons dispersos num imenso vazio. Mesmo assim, esse "nada" ainda seria um tipo de "algo", ainda que fosse um universo físico desprovido de estrutura. O paradoxo aqui é que esse estado frio e vazio pode ser o mesmo que o estado quente e denso visto sob outra perspectiva. A solução, segundo Penrose, poderia ser uma transformação geométrica complexa, que altera o tamanho, mas não a forma — já que tanto o conceito de tamanho como o próprio tempo podem deixar de fazer sentido em estados extremos. O estado frio e vazio existiria eternamente numa linha do tempo própria, enquanto o estado quente e denso habitaria uma nova linha temporal. Ainda que essa hipótese se comprove no futuro, a pergunta filosófica mais profunda ainda permanece: de onde veio a própria realidade física? De ciclos infinitos, cada um gerando o próximo com variações quânticas aleatórias? Ou de um único ciclo, repetido eternamente, como um universo que retorna sempre ao mesmo ponto, reproduzindo a si mesmo? Ao sugerir que cada ciclo do universo é único, Penrose abre a possibilidade de detectarmos vestígios do ciclo anterior na radiação cósmica de fundo que observamos hoje. Ele e seus colegas afirmam ter encontrado essas marcas nos dados coletados pelo satélite Planck, que mapeou com alta precisão essa radiação remanescente do Big Bang, e que, certos padrões circulares identificados nos mapas poderiam ser ecos de buracos negros supermassivos que existiram no ciclo anterior. Ainda que essas conclusões ainda sejam alvo de intenso debate entre os cientistas, um dia encontrarmos uma forma natural de transformar a cosmologia cíclica de múltiplos ciclos para um único ciclo fechado, e assim nosso Universo poderia ser um loop contínuo do Big Bang ao vazio e de volta ao Big Bang, num renascimento perpétuo do mesmo multiverso quântico onde tudo que pode acontecer acontece, e acontece de novo, de novo e de novo. Na mitologia nórdica, a serpente Jörmungandr, filha de Loki,, morde a própria cauda, criando o círculo que sustenta o equilíbrio do mundo. Como se vê, a pergunta "de onde viemos?" pode ser mais antiga do que imaginamos. As teorias são muitas, mas, ao fim e ao cabo, talvez todas nos levem de volta ao ponto de partida.

Continua...

segunda-feira, 27 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — MAIS SOBRE CAVERNAS, ESTRELAS E O BIG BANG

O COSMOS É TUDO O QUE EXISTE, EXISTIU E EXISTIRÁ. OLHE AS ESTRELAS, MAS MANTENHA OS PÉS NO CHÃO. 

Vimos que o Universo se formou há quase 14 bilhões de anos, que nosso sistema solar tem 5 bilhões de anos, que nosso planeta surgiu há cerca de 4,5 bilhões de anos — e que, mesmo assim, bilhões de pessoas tomam o Velho Testamento como jornalismo confiável e o criacionismo como explicação para a origem da vida na Terra. (Mais detalhes no capítulo anterior.)


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Se quiser salvar esta banânia da falência, quem assumir a Presidência em 1º de janeiro de 2027 terá de desarmar a bomba que Lula armou torrando bilhões em programas sociais para dar a falsa ideia de que o país está melhorando. Como ocorreu no início do segundo mandato de Dilma Rousseff, a conta vai ficar no vermelho. Aliás, o roteiro dessa ópera bufa é muito parecido com a de que levou ao impeachment da anta. 

Para segurar a inflação, o Banco Central se vê obrigado a manter a Selic elevada, o que na prática significa que o dinheiro vale menos no mercado e o custo de vida aumenta. Vale destacar que a dívida pública vem crescendo nos últimos quatro anos: em 2022, era 71,7% do PIB; neste ano em que Lula tenta se reeleger, a projeção do mercado é que passe dos 86% em 2026. De acordo com o Ipea, até 2028 a dívida bruta pode alcançar 90% e até 2030, 94,1% do PIB. Para piorar, o tarifaço dos Estados Unidos vai afetar as exportações brasileiras, o crescimento econômico e a geração de emprego, o que atinge o orçamento das famílias, principalmente as mais pobres.

Para não mexer nos benefícios, seria necessário promover um imediato enxugamento da máquina pública ou melhorar a arrecadação do governo sem aumentar impostos — mediante a venda ou concessão de ativos da União, com os recursos direcionados à redução do endividamento. Seja qual for o caminho escolhido pelo próximo presidente, o essencial é reconstruir a previsibilidade. O país precisa mostrar que consegue controlar a dívida sem paralisar a economia e promover crescimento sem reacender a inflação. Caso contrário, continuaremos presos a uma combinação conhecida: juros altos, câmbio vulnerável e crescimento abaixo do potencial.


Não se sabe ao certo por que tantos se recusam a ver o que está diante dos próprios narizes. Afinal, conhecer a verdade, enxergar a verdade e ainda assim abraçar a mentira é tão absurdo quanto repetir os mesmos erros esperando, como no Teorema do Macaco Infinito, que a perseverança produza um acerto.


Uma explicação está no fato de o cérebro humano ser extraordinariamente ruim em lidar com escalas geológicas, e 13,8 bilhões de anos é um número que a intuição simplesmente recusa. Outra explicação passa pela religião tradicional — não confundir com fé —, que não só cumpre (ou deveria cumprir) funções psicológicas e sociais, bem como oferece (ou deveria oferecer) um conforto diante da morte que não tem paralelo na cosmologia científica.


Pode-se argumentar, ainda, que aderir ao criacionismo não é uma posição epistemológica, mas sim uma identidade cultural e tribal, resistente por definição a qualquer evidência. Convém ter em mente que isso não diminui o valor da Bíblia como literatura, mitologia e registro histórico, mas tratar textos do século X a.C. como cosmologia literal — ignorando evidências convergentes de física, biologia, geologia e astronomia — é um problema sério de alfabetização científica, e argumentar com quem renunciou à lógica faz tanto sentido quanto medicar defunto.


As teorias científicas mais aceitas atualmente se baseiam no modelo cosmológico padrão, que é escorado no Big Bang — que, apesar do nome, não teria sido uma explosão, mas o início de uma grande expansão que perdura até hoje. A título de contextualização, dois anos depois de publicar a Teoria da Relatividade Geral, Einstein propôs um modelo de Universo estático e introduziu a constante cosmológica para equilibrar a gravidade e evitar um colapso gravitacional. 


Uma década depois, Edwin Hubble observou que as galáxias estavam se afastando — evidência de que o cosmos estava, de fato, em expansão. Na mesma época, Georges Lemaître deduziu que algo que estava se expandindo deveria ter sido menor em algum momento. Assim, a possibilidade de retornar ao instante em que toda a vastidão do Universo estava concentrada em uma massa extremamente quente e densa deu origem à hipótese do "átomo primordial", segundo a qual o tempo e o espaço só passaram a existir quando esse "átomo primitivo" começou a se expandir. 


A proposta ganhou tração em 1948, quando George Gamow sugeriu que o Universo teria surgido de um clarão de energia oriundo de um gás primordial superdenso. No calor dessa erupção cósmica, os elementos químicos teriam sido "cozinhados" a partir de uma "sopa de partículas fundamentais", deixando como resquício uma radiação de fundo que permeia o cosmos até hoje.

 

No mesmo ano, Fred Hoyle, Thomas Gold e Hermann Bondi levantaram a hipótese de que o Universo não tinha começo nem fim, pois era constantemente "reabastecido" com matéria nova, gerada em todos os lugares e momentos. Durante uma palestra, Hoyle ironizou a ideia de um surgimento cósmico repentino, dizendo que toda a matéria fora criada em um "grande estrondo", num momento específico do passado remoto. 


A ironia pegou, e o termo Big Bang foi rapidamente adotado pela imprensa, mas ignorado por físicos e astrônomos, já que o fenômeno descrito não seria uma explosão no sentido tradicional, mas o início de uma expansão cósmica que começou há quase 14 bilhões de anos e cujos efeitos ainda podem ser observados por meio do desvio para o vermelho na luz das galáxias distantes — indicando que elas continuam se afastando de nós.

 

A despeito da imprecisão, o nome Big Bang se espalhou pelo mundo como um bordão irresistível, e como bem observou alguém mais sábio, "palavras são como arpões, depois que entram é muito difícil tirá-las". Em 1993, a revista Sky and Telescope organizou um concurso para substituir o nome e recebeu 13.099 sugestões de 41 países, mas nenhuma convenceu a banca de jurados, que incluía Carl Sagan, e o nome permaneceu.

 

Hoyle demonstrou que todos os elementos que compõem o Universo estão sendo "cozidos" no caldeirão das estrelas desde sempre, e que a vida deveria ser uma ocorrência comum no cosmos. A ideia não soava absurda para a comunidade científica — segundo o especialista em poeira estelar Ashley King, quase todos os elementos do corpo humano foram forjados em estrelas, muitos deles ejetados por sucessivas supernovas. 


Hoyle foi mais além, sustentando que inúmeras epidemias estariam associadas à passagem de meteoritos cujas partículas trariam vírus à Terra, mas essa tese foi vista como mais compatível com seus 19 romances de ficção científica do que com seu trabalho acadêmico. Ao final, ele entrou para a história como o homem que batizou uma teoria na qual nunca acreditou.


Continua...

domingo, 26 de julho de 2026

MACARRÃO À CARBONARA

UMA VIDA SEM MACARRÃO É UM ACIDENTE DE PERCURSO.

O espaguete à carbonara é gostoso e fácil de fazer, mas um pequeno deslize pode desandar a receita e transformar o prato em um omelete. 

Para que seu prato dê certo, siga o passo a passo à risca, lembrando que você pode substituir o espaguete por talharim, fettuccine, penne, farfalle, ou outro formato de massa.

Você vai precisar de:

— 500 g de espaguete;

— 150 g de bacon picadinho ou em tirinhas;

— 3 ovos + 1 gema;

— 200 g de queijo parmesão ralado fino (ou minas curado);

— Sal e pimenta-do-reino a gosto;

O primeiro passo é colocar água para ferver. A proporção correta é 1 litro de água para cada 100g de massa, adicionar o sal quando a água começar a borbulhar e a massa quando a água já estiver fervendo. 

Enquanto a água aquece, coloque o bacon na frigideira ainda fria e frite em fogo médio até ficar douradinho e soltar toda a gordura. 

Em outra panela, misture os ovos, a gema, o queijo ralado fino e a pimenta-do-reino até obter um creme e reserve.

Quando a água levantar fervura, coloque a massa para cozinhar pelo tempo indicado na embalagem, retire da panela, escorra, transfira para a frigideira com o bacon e a gordura. Adicione duas conchas da água do cozimento e misture bem.

Desligue o fogo da frigideira e junte o creme de ovo, misture até emulsionar, transfira para o recipiente em que for servir, finalize com mais pimenta-do-reino e parmesão ralado e sirva quente.

Dica: Macarrão à carbonara não fica bom se for requentado, de modo que o ideal é fazer somente a quantidade que será consumida (esta receita rende 4 porções). 

Bom apetite.

sábado, 25 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — DAS CAVERNAS ÀS ESTRELAS

PER ASPERA AD ASTRA.


Segundo os criacionistas, religiosos e outros que abdicaram do bom-senso, Deus criou o mundo e tudo que nele existe em seis dias e descansou no sétimo. De acordo com o arcebispo irlandês James Ussher e seu contemporâneo John Lightfoot, o Criador iniciou os trabalhos às 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C.


À luz da ciência, o Universo surgiu a partir de uma hipotética singularidade há 13,8 bilhões de anos; nosso sistema solar e o planeta Terra se formaram há 4,6 bilhões de anos; a família dos Hominídeos (que inclui os humanos e os grandes símios) divergiu das demais há 20 milhões de anos; o gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos; e o Homo Sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A privatização de serviços públicos tornou-se um tema incontornável da agenda eleitoral de São Paulo. Quando o problema era a falta de luz, o governador culpou as árvores, a concessionária Enel e o governo federal; na hora em que reparos da Sabesp resultam em explosões de tubulações de gás e vagões de trens são convertidos em sucursais do inferno, começa a enxergar um culpado no reflexo do espelho.

Há três dias, a empresa Trivia Trens assumiu a operação de três linhas antes operadas pela CPTM, e desde então inferniza a rotina de cerca de 1 milhão de passageiros que transitam diariamente pelos vagões que seriam administrados com maior eficiência. Nesta quinta-feira, a encrenca evoluiu para o caos, com incêndio, falta de luz e interrupção do serviço.

Há três semanas, a autocrítica disse "bom dia" a Tarcísio de Freitas, apresentando o governador de São Paulo a si mesmo. Aconteceu numa conversa com jornalistas, após a inauguração de uma estação de metrô. Privatista ardoroso, Tarcísio descartou promover novas concessões de transportes sobre trilhos à iniciativa privada.

"Já parou para pensar quantas vezes eu já mudei de opinião?", perguntou o governador. "A gente não concede algo por conceder". 

Tarcísio parece viver a síndrome do que está por vir na campanha. É como se intuísse que as privatizações mal planejadas viraram um vistoso passivo de sua campanha à reeleição. O problema da autocrítica é que ela costuma chegar tarde.


Argumentar com que abriu mão da lógica, como os cegos mentais do escritor português José Saramago, é tão inútil quando medicar um defunto, mas vamos lá:


— O Göbekli Tepe — monumento na Turquia é considerado o templo mais antigo do mundo — foi erguido há mais de 11 mil anos


— As Muralhas de Jericó, que remontam mais ou menos à mesma época, figuram como uma das primeiras proezas de engenharia militar e proteção civil do mundo. 


— Troncos deliberadamente entalhados e encaixados para formar plataformas e passarelas antecedem ao surgimento do próprio Homo sapiens. 


— Marcas artísticas encontradas na Espanha datam de 60 mil anos, e pinturas rupestres representando o cotidiano das cavernas há 50 mil anos. reafirmam as habilidades avançadas de marcenaria na Idade da Pedra. 


— Desenhos de animais na Caverna de Chauvet (França), feitos há 36 mil anos, denotam a. pareceria do Homo Sapiens com os ancestrais dos cães. 


— Adornos e colares descobertos no sítio arqueológico de Santa Elina, em Mato Grosso, têm aproximadamente 25 mil anos, e instrumentos musicais feitos com ossos de abutre e marfim de mamutes, encontrados na caverna de Hohle Fels, na Alemanha, indicam o desenvolvimento da teoria musical e do pensamento complexo abstrato no período Paleolítico.


— Os fragmentos de cerâmica mais antigos conhecidos, com cerca de 20 mil anos, pertencem à caverna Xianrendong, na China, comprovam que os vasos eram modelados e cozidos para armazenar alimentos e ferver água muito antes do início da agricultura estável. 


— Embarcações como as que propiciaram a chegada dos seres humanos à Austrália cruzaram milhares de quilômetros de oceano aberto a partir do Sudeste Asiático, demonstrando que nossos ancestrais tinham conhecimentos rudimentares, de logística e astronomia.


E por aí segue a procissão.


Enquanto o dogma se alimenta da rigidez, a ciência avança justamente por duvidar, por questionar o que hoje parece sólido. Como nos lembram Platão, no Mito da Caverna, Aristóteles, com o axioma "o sábio duvida e o sensato reflete", e a própria ciência, só a dúvida e a revisão constante nos libertam das sombras. 


O que enfraquece a ciência não é a dúvida, mas a arrogância das certezas definitivas. E é justamente essa maleabilidade que a torna tão poderosa — e tão diferente dos discursos religiosos que prometem respostas eternas.


Voltando ao Big Bang, ao surgimento do cosmos e a formação do nosso sistema solar, o universo observável se estende em todas as direções por 42 bilhões de anos-luz (cerca de 397 quatrilhões de quilômetros), e a combinação de seus prótons, elétrons, nêutrons, fótons etc. deu origem a tudo o que existe, de um singelo grão de areia até estrelas e seres vivos. Aliás, o total de grãos de areia de todas as praias da Terra é estimada em 10ˆ22 (ou 10 sextilhões, no sistema de numeração curta usado no Brasil). O cosmos é comparável a uma "colcha" formada por 2ˆ10ˆ118 de "retalhos" (em números ordinários, seriam mais de 30 bilhões de algarismos), cada qual com suas próprias leis físicas, constantes específicas, e cerca de 1 quatrigintilhão (10ˆ105) de partículas subatômicas. 


Físicos renomados sustentam que uma espaçonave singrando o cosmos em linha reta por zilhões de anos acabaria numa galáxia semelhante à nossa, com um sistema solar igual ao nosso e um planeta idêntico à Terra. Não se trata de uma simples possibilidade, como a do teorema do macaco infinito, mas de uma imposição matemática num Universo infinito com combinações finitas de partículas. 


Se nosso hipotético cosmonauta deparasse com um planeta igual ao nosso num universo paralelo, encontraria um clone dele próprio morando numa casa igual à sua, cercado por clones de seus familiares, trabalhando com clones de seus colegas e bebendo com eles em happy hours — tudo isso a 10ˆ10ˆ115 de anos-luz daqui. Para dar uma ideia dessa distância, a Terra fica a 26.000 anos-luz (cerca de 244 quatrilhões de quilômetros) do centro da Via Láctea.

 

Matematicamente falando, é provável que a espaçonave deparasse com uma série de universos paralelos onde as partículas não geraram vida — ou geraram, mas nem remotamente parecido com a vida que existe na Terra. E talvez os "terráqueos" de um desses universos tenham encontrado a cura do câncer, ou Hitler tenha vencido a 2ª Guerra Mundial, dependendo das configurações possíveis das partículas que formam esse universo, mesmo porque, num cosmos grande o suficiente, a existência infinitos clones de nós ou de versões distorcidas de tudo que conhecemos se torna uma certeza.


À luz da física clássica, nada com massa pode se mover à velocidade da luz (sem trocadilho), de modo que talvez jamais encontraremos nossos clones ou versões alternativas da história. Isso sem mencionar que a distância entre o "retalho" que habitamos e o próximo "retalho da colcha cósmica" aumenta conforme o universo se expande, e que as galáxias mais distantes que nossos telescópios conseguem observar ficam nos confins do "nosso retalho".


Se o cosmos não se expandisse, as estrelas mais vetustas distariam pouco menos de 13,8 bilhões de anos-luz da Terra, mas na verdade elas estão a mais de 40 bilhões de anos-luz e continuam se afastando numa velocidade superluminal. Mas como não enxergamos nada além do limite do "nosso retalho", a luz que elas emitem jamais será captada pelos nossos telescópios.

 

Ironicamente, as leis que governam o cosmos são permissivas a ponto de suportar a tese de "mundos paralelos" habitados por clones nossos, mas implacáveis a ponto de mantê-los fora de nosso alcance. E a suprema ironia é que, do ponto de vista do meu clone, que está escrevendo este texto, ou do seu, que o está lendo em outro "retalho", quem está fora de alcance somos nós.


Continua…