sexta-feira, 8 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 103ª PARTE — A LÓGICA E A INEXISTÊNCIA DO TEMPO

A VIDA NÃO É ENTENDÍVEL, DE MODO QUE VIVER É MUITO PERIGOSO.

Três anos depois de Einstein publicar a Teoria da Relatividade Especial e sete anos antes de a Teoria da Relatividade Geral vir à luz, o matemático, filósofo e lógico J.M.E. McTaggart divulgou um raciocínio lógico com vistas a negar a existência do tempo.


Segundo ele, a proposição "nascerá amanhã" é verdadeira hoje. Após o nascimento, "nasceu ontem" é verdadeira. Consequentemente, classificar os acontecimentos como "antes", "depois" ou "agora" não altera suas posições temporais objetivas nem o valor de verdade das proposições que descrevem suas ocorrências efetivas. Dito com outras palavras, o tempo é apenas uma ilusãoMas há quem diga que isso não significa que nada mudou ontologicamente — mudou o status temporal do evento em relação ao presente, e o fato de o presente avançar é real, não ilusório.


A questão é que, se o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial, o que é futuro para um observador é passado para outro. Assim afirmar que o tempo flui do passado para o futuro conflita com a forma como o tempo é tratado em teorias físicas como a relatividade, nas quais não existe um “agora” universal.


Observação: A teoria do Universo em blocos tem implicações diretas na interpretação da relatividade restrita: se todos os momentos coexistem igualmente, o "presente" seria apenas uma fatia do bloco quadridimensional — o que reforça a tese de McTaggart por uma via completamente diferente: a física.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O anúncio de que Lula conversaria com Trump na quinta-feira (7) desparafusou os dois neurônios de Eduardo Bolsonaro. De repente, o mundo se tornou mais complexo do que o manual de instruções do bolsonarismo, e Dudu Bananinha não enxergasse no próprio umbigo o centro do universo. Lula, malandro que é, fez um discurso para a militância e outro para as elites. Embatucado, Eduardo refugiou-se no raciocínio binário: se a coisa não se encaixa, há uma conspiração em curso. 

Surge, então, a teoria de que há dois Lulas na praça: para o consumo dos militantes, enrolado na bandeira nacional, e outro subserviente, para as elites, subserviente e entreguista. Na melhor das hipóteses, o filho do refugo da escória da humanidade está sendo cínico para evitar que bolsonaristas ingênuos sejam intoxicados pela descoberta, quase subversiva, de que um presidente brasileiro deve escorar sua política externa na defesa do interesse nacional. Na pior, ele acredita mesmo que Trump tem uma missão especial na Terra, de inspiração divina, que inclui apoiar a candidatura do irmão para converter o Planalto em puxadinho da Casa Branca.

Lula, por sua vez, presta um serviço ao interesse nacional cada vez que consegue neutralizar o estrago feito pelo bolsonarismo ao envenenar Trump contra o Brasil. Depois que a polarização doméstica foi exportada como conflito internacional, qualquer gesto de normalização é um ganho. O problema começa quando o serviço necessário e até esperado de um chefe de Estado passa a ser tratado como façanha extraordinária  — ou, pior, como um ativo de campanha.

Embora muitos não percebam, há uma diferença enorme entre governar e fazer marketing político. Transformar uma visita à Casa Branca em troféu eleitoral revela mais ansiedade do que estratégia — como se o simples fato de sentar à mesa com Trump resolvesse, por si só, as contradições internas. É aí que a metáfora do náufrago se encaixa: confundir diplomacia com salvação política é tão arriscado quanto agarrar um jacaré achando que é um tronco.

A política externa não substitui gestão econômica e articulação no Congresso, nem tampouco arranca a popularidade de Lula do vermelho. Como instrumento de Estado, a diplomacia cumpre o seu papel. Quando vira palanque, perde a eficácia. Melhor fazer o básico, sem teatralização e torcer para que o eleitor minoritário de centro, que decidirá a sucessão em 2026, perceba que o Brasil precisa de relações internacionais estáveis, não de enredos politicamente inflados.


Com o intuito de provar que o tempo não passa de uma ilusão, McTaggart usou um baralho no qual cada carta representava um evento. Primeiramente, ele organizou as cartas em uma sequência: os acontecimentos pretéritos à esquerda, os presentes no meio e os futuros à direita, formando uma ordem baseada na relação anterior/posterior.


Vale lembrar que, num sistema fechado, a flecha do tempo se baseia no aumento da entropia, e que qualquer dispositivo destinado a medir o tempo — como um relógio, por exemplo — depende de alterações (ticks). Uma vez que não existe tempo sem mudança, o experimento não serviu para "capturar" a essência do tempo, levando McTaggart a reorganizar as cartas em três pilhas não estáticas e movê-las da pilha da direita (futuro) para a do meio (presente) e desta para a da esquerda (passado). 


De acordo com o polímata, nessa série circular os eventos futuros se tornam presentes assim que acontecem e pretéritos logo em seguida. Em vista disso, há claramente uma mudança, pois é preciso estar no tempo para realizar esse arranjo, e como o tempo é exatamente o que se pretende capturar, precisar de tempo para descrever o tempo cria uma circularidade que viola a lógica.


Uma vez que o primeiro arranjo não conseguiu descrever o tempo porque era imutável, e o segundo arranjo previa mudanças que ocorriam de maneira circular, nenhum dos dois experimentos funcionou, e assim McTaggart concluiu que o tempo não poderia ser real. 


Mais de cem anos depois, os filósofos continuam buscando uma solução. Alguns, chamados A-theorists, tentam definir o segundo experimento de uma forma que não seja circular, enquanto outros, chamados B-theorists, defendem que o primeiro experimento descreve a realidade e dizem que McTaggart estava errado ao exigir que a série mudasse. Há também C-theorists, para quem a linha de cartas sequer tem uma direção do antes para o depois.


Independentemente de quem tem razão, há maneiras diferentes de pensar sobre o tempo, e raciocinar em termos de passado, presente e futuro pode ser apenas uma convenção. Mal comparando, seria como numerar as tábuas de uma cerca: como ela não tem direção, a pessoa pode começar do lado que quiser. Mas o detalhe é que McTaggart defendeu sua tese valendo-se apenas da lógica e de um baralho de cartas. Um dos experimentos ilustra a incoerência interna do conceito de "presente" na estrutura lógica do tempo, enquanto o outro exige que momentos sejam simultaneamente passados, presentes e futuros, gerando uma contradição conceitual.


A teoria do Universo em bloco (via relatividade) sugere que o "presente" é fisicamente irrelevante, e a relatividade restrita dissolve a simultaneidade absoluta. Se o espaço-tempo não é quadridimensional, não há "fatiamento privilegiado" do presente, e o "agora" é apenas um acidente perspectivo do observador. No entanto, mesmo que relatividade nos ofereça um bloco eterno, a termodinâmica aponta para uma assimetria — a entropia crescente — que levanta uma questão incômoda: se o tempo não existe, por que ele parece fluir em uma direção?


McTaggart não precisava responder a isso — seu argumento é puramente lógico —, mas a física sugere que talvez haja mais estrutura no problema do que ambas as abordagens capturam.

Enfim, chegar a uma resposta pode ser apenas uma questão de… tempo.

Continua…

quinta-feira, 7 de maio de 2026

GANHANDO ESPAÇO NO CELULAR SEM DESINSTALAR APLICATIVOS

TUDO É FÁCIL PARA QUEM SABE.

A telefonia móvel começou a ser desenvolvida em meados do século passado, quando os Laboratórios Bell (EUA) criaram um sistema interligado por antenas (chamadas de “células”, daí o termo “celular”) e a sueca Ericsson apresentou o Mobile Telephony A, que pesava 40 kg e precisava ser acomodado no porta-malas dos carros. 


Em 1973, a americana Motorola lançou o DynaTAC 8000X, que media 25 cm x 7 cm e pesava cerca de 1 kg. Em 1979, a telefonia celular entrou em operação no Japão e na Suécia; em 1983, a americana AT&T implantou uma tecnologia na cidade de Chicago — que não prosperou devido ao gigantismo dos aparelhos e à baixa autonomia da bateria (que durava 30 minutos, mas levava mais de 10 horas para recarregar).


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Ser picado pela mosca azul e comprar a PEC da Reeleição não tornou Fernando Henrique menos parecido com um estadista (talvez o único da história desta republiqueta bananeira), mas seu mea culpa tardio não reverteu os efeitos nefastos do ato: da mesma forma que as flechas não voltam ao arco, as cagadas não voltam ao ânus do cagão, mesmo que, em alguns casos, devessem lhe ser enfiadas goela abaixo. Mas isso é outra conversa.

Durante a campanha de 2022, a exemplo do que fez Bolsonaro em 2018, Lula prometeu acabar com o instituto da reeleição. Bolsonaro entrou para a história como o primeiro presidente que não conseguiu se reeleger, e Lula, como o primeiro a conquistar o terceiro mandato.

Embora devesse pendurar as chuteiras chulezentas, Lula quer porque quer o quarto mandato (que Deus, o diabo ou ambos nos livrem dessa desgraça). Com a popularidade descendo pelo ladrão (sem trocadilho), o molusco de nove dedos tem feito o impossível para reconquistar o apoio da recua de muares que se contrapõe ao gado bolsonarista.

Rodeado por dois grupos desde que o Senado o humilhou, o demiurgo de Garanhuns é aconselhado pela turma do "vai pra cima" a retaliar Davi Alcolumbre — artífice da derrota histórica imposta ao xamã petista pela rejeição da indicação de Béssias para o STF — e pela turma do "deixa disso" a agir com calma e prudência para não botar fogo no pouco que resta de governabilidade palaciana.    

Lula segue a cartilha segundo a qual não há problema tão grande que não caiba no dia seguinte — dias depois da derrota inédita, sinalizou que não tardaria a tirar da cartola outro nome para o Supremo. Os operadores mais exaltados do governo querem que o pato-manco constranja Alcolumbre com a indicação de uma jurista negra, ao passo que os contemporizadores avaliam que ele deveria negociar o nome com o próprio Alcolumbre. 

Submetido à divisão interna, o pai dos pobres, mãe dos ricos e camelô de empreiteiros corre o risco de gastar mais tempo e energia falando do que enfrentando o problema. Ainda não se sabe qual será a solução, mas, como o capetão-golpista durante a pandemia de Covid, não existe nada tão ruim que não possa piorar.


O telefone celular desembarcou no Brasil em meados dos anos 1980, mas só se popularizou depois da privatização das TELES — até então, habilitar uma linha era trabalhoso, demorado e caro, faltavam células (antenas), sobravam “áreas de sombra”, o preço das ligações era proibitivo e o usuário era cobrado até pelas chamadas recebidas. Mas não há nada como o tempo para passar.


A livre concorrência propiciou a venda de aparelhos a preços subsidiados, a gratuidade nas ligações entre números da mesma operadora e as linhas “pré-pagas”. Com o lançamento do Apple iPhone, os fabricantes concorrentes tornaram seus produtos capazes de acessar a Internet e rodar aplicativos, e assim os telefoninhos inteligentes se tornaram verdadeiros microcomputadores de bolso.


A exemplo dos desktops e notebooks, os smartphones são controlados por um sistema operacional (Android ou iOS, embora haja outros menos expressivos) e precisam de fartura de memória RAM e espaço interno para funcionar adequadamente. 


A escolha da marca e modelo é uma questão de preferência pessoal, mas a configuração recomendada inclui um processador veloz de última ou penúltima geração, entre 8 GB e 12 GB de memória RAM e 256 GB a 512 GB de armazenamento interno (lembrando que o SO e os apps pré-instalados ocupam boa parte desse espaço) e bateria de 5 mil mAh ou superior.


Observação: Se você planeja ficar com o celular por 3 anos ou mais, escolha um modelo com 512 GB, já que as atualizações futuras do sistema e o cache dos aplicativos crescem exponencialmente ao longo do tempo. 


Quanto mais memória e espaço interno tiver o aparelho, mais caro ele será. Alguns modelos baseados no Android permitem ampliar a capacidade de armazenamento via cartão de memória, mas remendo é sempre remendo. Existem aplicativos que se propõem a recuperar espaço, mas a maioria deles simplesmente automatiza a limpeza do cache dos aplicativos (que o usuário pode fazer manualmente se souber o caminho das pedras).


No caso do Android, um recurso disponibilizado pela Play Store arquiva parte dos aplicativos pouco utilizados, reduzindo em até 60% o espaço que eles ocupam. Os ícones continuam sendo exibidos e, quando necessário, restauram os apps automaticamente em poucos segundos. 


Esse recurso é ideal quando se tem pouco espaço disponível, pois dispensa o usuário de remover os aplicativos ociosos e reinstalá-los manualmente quando e se precisar deles. Para ativá-lo, toque no ícone da Play Store, depois na sua foto de perfil, vá em Configurações, selecione Geral, habilite a opção Arquivar apps automaticamente e reinicie o celular.

quarta-feira, 6 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 102ª PARTE

TODOS NÓS VIAJAMOS NO TEMPO À VELOCIDADE DA LUZ, SÓ QUE QUASE NINGUÉM PERCEBE ISSO.

As Leis de Newton elucidaram diversas questões, mas também trouxeram consigo algumas estranhezas teóricas: pessoas que poderiam andar para trás, relógios que retrocederiam da tarde para a manhã e frutas que subiriam do chão de volta para os galhos das árvores. 

Curiosamente, as propostas do polímata britânico não diferenciam o passado do futuro, embora uma das características mais marcantes de nossa experiência cotidiana seja justamente a direcionalidade do tempo.

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Lula está careca de saber que ser político é engolir sapo sem ter indigestão, mas jamais lhe passou pela cabeça que o Senado rejeitaria seu indicado ao Supremo — coisa que não acontecia desde o governo de Floriano Peixoto, na Era Mesozóica desta republiqueta de bananas. 

Em outras palavras, por 42 votos a 34, os senadores atravessaram na traqueia de Lula não um sapo, mas um dinossauro, e o guindaram informalmente à condição de ex-presidente da República no exercício do cargo. 

Num instante em que o impeachment das togas sobe no palanque, os parlamentares enfiaram a deposição de togados supremos na agenda do Senado a ser empossado em 2027 e empurraram outro dinossauro goela abaixo do macróbio, ao derrubar seu veto ao projeto de lei da dosimetria. A dupla derrota se deveu a uma aliança estratégica de Alcolumbre com o Centrão.

Enrolado no escândalo do Master, o presidente do Congresso e os oligarcas dos partidos majoritários do Legislativo se juntaram ao bolsonarismo para enfraquecer Lula e o Supremo e barrar o avanço das investigações do falecido banco de Daniel Vorcaro.

A aliança, que envolveu um acordo para o sepultamento da CPI que investigaria o escândalo, foi urdida nas pegadas das pesquisas que expõem a impopularidade de Lula e o avanço da candidatura de seu principal adversário. Ficou entendido que a cúpula do centrão e Alcolumbre não só enxergam a derrota do petralha-mor na sucessão de 2026, mas também colocam um pé na canoa do filho do presidiário golpista.

Até pouco tempo atrás, eu tinha vergonha dos políticos (e, por que não dizer, do eleitorado) brasileiros. Hoje, tenho nojo!

Em A Ordem do Tempo, o físico Carlo Rovelli reflete sobre essa aparente indistinção entre passado e futuro. Segundo ele, a flecha do tempo aponta do passado para o futuro apenas quando nos afastamos do mundo microscópico em direção ao macroscópico. Isso não significa que o universo seja fundamentalmente orientado no espaço e no tempo, mas sim que percebemos os processos na direção em que a entropia aumenta — a única lei da física com forte direcionalidade temporal, característica que praticamente desaparece quando aplicada a sistemas muito pequenos.

Acreditamos que o passado se foi e que o futuro é incerto, ainda que possamos prever a posição dos astros em qualquer data futura, o dia e a hora do próximo eclipse lunar e a maioria dos efeitos de uma reação física ou química. Mas a concepção de tempo varia de uma cultura para outra: os Aymaras acreditam que o passado está à frente, por ser conhecido e visível, enquanto o futuro permanece às costas, por ser desconhecido e invisível. Já para povos como os Munduruku e os Pirahã, o tempo tende a ser percebido de maneira menos abstrata e linear, privilegiando um presente vivido de forma mais direta, com menor ênfase em projeções distantes no passado ou no futuro.

Não conseguimos prever o que acontecerá na semana que vem, mas não porque o futuro seja intrinsecamente incerto, e sim porque ele envolve uma quantidade de variáveis com as quais nem os computadores mais poderosos conseguem lidar. Já os videntes, cartomantes, quiromantes, astrólogos e horoscopistas contornam esse obstáculo fazendo previsões suficientemente ambíguas para jamais estarem completamente errados.

A maneira como percebemos o tempo e o espaço é, em grande parte, uma construção mental que nos ajuda a compreender o mundo ao nosso redor. Talvez o tempo não exista de forma estritamente linear, com começo, meio e fim, mas como uma dimensão adicional do universo — algo que o cinema tentou representar artisticamente no final do filme Interstellar. O fenômeno da dilatação temporal, segundo o qual o ritmo do tempo depende do referencial do observador, já foi comprovado experimentalmente com relógios atômicos instalados em aviões, satélites e sondas espaciais.

ObservaçãoUma maneira curiosa de visualizar esse fenômeno é imaginar que todos os objetos do universo se deslocam continuamente pelo espaço-tempo a uma velocidade total constante — equivalente à velocidade da luz. Quando estamos parados em relação a algo, praticamente toda essa “velocidade” ocorre na direção do tempo, razão pela qual envelhecemos normalmente. Mas, à medida que um objeto acelera no espaço, parte desse movimento deixa de ocorrer no tempo. Quanto mais rápido ele se desloca pelo espaço, mais lentamente avança no tempo. No limite da velocidade da luz, todo o movimento ocorreria no espaço e nenhum no tempo — o que ajuda a entender por que o tempo praticamente para para partículas que se aproximam dessa velocidade.

De acordo com a Teoria da Relatividade, o espaço e o tempo formam uma estrutura unificada — o chamado espaço-tempo — na qual o tempo desacelera à medida que a velocidade do observador aumenta. A 99,99999999999% da velocidade da luz, o fator de Lorentz faz com que os relógios da nave corram cerca de 707.000 vezes mais devagar que os da Terra. Não há contradição nisso: cada observador vê o relógio do outro como mais lento, uma consequência direta da simetria das equações relativísticas. Assim, os tripulantes de uma hipotética espaçonave viajando a velocidades próximas à da luz perceberiam o tempo passar muito mais lentamente do que aqueles que permaneceram na Terra — exatamente como ilustra o famoso Paradoxo dos Gêmeos.

Ainda segundo as equações de Einstein, nada que possua massa pode acelerar até a velocidade da luz (simbolizada por c), já que sua massa efetiva tenderia ao infinito, exigindo uma quantidade igualmente infinita de energia para continuar acelerando. A 99,99999999999% da velocidade da luz, nossa hipotética nave levaria cerca de 4,22 anos para chegar a Proxima Centauri na perspectiva de um observador na Terra, mas a viagem seria extremamente curta para os astronautas a bordo.

A NASA vem realizando experimentos a bordo da Estação Espacial Internacional para estudar os efeitos da microgravidade e da relatividade sobre o corpo humano e a percepção do tempo. Os astronautas orbitam a Terra a cerca de 28.000 km/h, a uma altitude aproximada de 400 km, completando uma volta ao redor do planeta a cada 90 minutos. Se permanecerem no espaço durante seis meses, retornam à Terra cerca de cinco milissegundos mais jovens do que estariam se tivessem permanecido no planeta.

Alguns estudos também indicam que a percepção humana de espaço e tempo pode sofrer alterações no ambiente orbital. Pesquisas publicadas em revistas científicas como Nature sugerem que astronautas podem apresentar mudanças na percepção de distância, profundidade e tamanho dos objetos enquanto estão em microgravidade, o que reforça a ideia de que nossa experiência do mundo depende fortemente das condições físicas e sensoriais em que vivemos.

Continua...

terça-feira, 5 de maio de 2026

A LIRA, A VERDADE E A MENTIRA…

EM TEMPOS DE ENGANO UNIVERSAL, FALAR A VERDADE É UM ATO REVOLUCIONÁRIO. 

A lira é um instrumento musical de cordas similar à harpa e à cítara. Dizem que Nero dedilhava a sua durante o Grande Incêndio de Roma, mas outras versões dessa história sugerem que o último imperador romano da dinastia júlio-claudiana cantava enquanto a cidade ardia ou que estava fora quando soube do ocorrido e mandou abrir os jardins de seu palácio para acolher os desabrigados.


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Sob críticas por seu baixo engajamento na campanha de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas acompanhou o dito-cujo numa visita à Agrishow, em Ribeirão Preto — o primeiro ato de campanha conjunto da dupla. Esmerando-se na adulação, o "bolsonarinho" declarou que o governador paulista bolsonarista chegará ao Planalto um dia, classificou-o como "uma pessoa que tem, sim, plena capacidade de ser presidente" e injetou a providência divina na prosa: "Se Deus quiser, ainda vai ser um dia, porque o Brasil merece uma pessoa como você comandando também este país."

Na política, excetuando-se a morte, que deve ser deixada sempre para depois, nenhuma oportunidade deveria caber no dia seguinte. Mas Tarcísio acorrentou-se às conveniências de Bolsonaro e adiou o sonho presidencial para 2030. Apega-se agora ao compromisso de Flávio de não disputar a reeleição caso chegue ao Planalto.

Nessa matéria, a saliva é uma secreção que se dissipa rapidamente. Bolsonaro e Lula se elegeram em 2018 e 2022 combatendo a reeleição. No trono, mudaram de ideia. Derrotado, Bolsonaro recorreu até à tentativa de golpe para tentar se manter no cargo. Deu em prisão.

Se acreditar piamente no desprendimento do rebento de seu criador, Tarcísio descobrirá que toda espécie de dependência é ruim, seja do crack, da morfina ou do bolsonarismo.

Até algum tempo atrás, eu tinha vergonha da política brasileira. Hoje, tenho nojo.


Não é de hoje que um fato pode ter pelo menos três versões (ou narrativas, como se passou a dizer de uns tempos a esta parte): a sua, a minha e a verdadeira. Mesmo porque não existe verdade absoluta: tanto é possível dizer a verdade mentindo quando mentir dizendo a verdade, já que tudo é uma questão de ponto de vista. 


Perguntado sobre a penúria cubana, que forçava universitárias a se prostituírem para sobreviver, Fidel Castro respondeu que a situação na "Pérola do Caribe" era tão boa que até as prostitutas eram universitárias. Isso me faz lembrar de um conto das 1001 Noites compilado por Malba Tahan, segundo o qual havia num determinado reino dois palácios, sendo o primeiro feito de mármore branco e conhecido como "Palácio da Verdade", e o segundo feito de granito escuro e conhecido como "Palácio da Mentira". 


Um belo dia, um mágico estranjeiro aceitou o desafio do sultão, que consistia em citar um caso que não pudesse ser verdade nem mentira. Se ele tivesse êxito, receberia seu peso em ouro e pedras preciosas, mas se proferisse verdade ou uma mentira, seria confinado no Palácio da Verdade ou da Mentira, conforme o caso. Sem pestanejar, o mágico afirmou: 


— Majestade, vou ficar preso no Palácio da Mentira! 


Para aplicar a pena, cabia ao monarca verificar se a afirmação era verdadeira ou falsa. Mas o detalhe — e o diabo mora nos detalhes — é que ela não era nem uma coisa nem outra. Se o mágico fosse detido no Palácio da Mentira, sua afirmação se tornaria verdadeira, e ele teria de ser levado ao Palácio da Verdade. Caso o fosse, sua afirmação deixaria de ser verdadeira, e ele teria de ser preso no Palácio da Mentira. Resumo da ópera: o espertalhão recebeu sua recompensa e seguiu livre para fazer o que bem entendesse com o ouro e as pedrarias.


Quando criou a mulher, Deus criou também a Fantasia. Certo dia, a Verdade cobriu sua formosura com um véu claro e transparente e resolveu visitar o palácio do Sultão. Ao ver aquela linda mulher quase nua, o chefe dos guardas perguntou:


— Quem és?


— Sou a Verdade – respondeu ela. — E quero falar com vosso amo e senhor.


O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir (cargo equivalente ao de primeiro-ministro).


— A Verdade quer penetrar neste palácio? Jamais! Se ela aqui entrasse, seria a perdição, a desgraça de todos nós. Dize-lhe que uma mulher seminua não pode entrar aqui — respondeu o vizir.


Bem mandado, o chefe dos guardas voltou e disse à Verdade:


—  Não podes entrar, minha filha. A tua nudez ofenderia nosso amado Califa.


A Verdade se afastou lentamente do grande palácio, mas... Quando criou a mulher, Deus criou também a Obstinação. Assim, a Verdade se cobriu com um couro como o usado pelos pastores e bateu novamente à porta do palácio. Ao ver aquela mulher grosseiramente vestida, o chefe dos guardas perguntou:


— Quem és?


— Sou a Acusação — respondeu ela. — E quero falar com vosso amo e senhor.


O chefe dos guardas voltou a consultar o grão-vizir, que lhe disse, aterrorizado:


— A Acusação quer entrar neste palácio? Não! Jamais! O que seria de mim, de todos nós se ela aqui entrasse? A perdição, a desgraça. Dize-lhe que uma mulher vestida como um zagal não pode falar com nosso amo e senhor.


Voltou o chefe dos guardas com a proibição e disse à Verdade:


— Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar com nosso amo e senhor.


Mas ao criar a mulher, Deus criou também o Capricho. Vestiu-se então a Verdade com riquíssimos trajes, cobriu-se com joias e adornos, envolveu o rosto com um manto diáfano de seda e voltou à porta do palácio. Ao ver aquela criatura encantadora, o chefe dos guardas perguntou:


— Quem és?


— Sou a Fábula — disse a Verdade em tom meigo e mavioso. — E quero falar com vosso amo e senhor.


Mais uma vez, o chefe dos guardas correu a falar com o grão-vizir:


— Senhor, uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita uma audiência com o Sultão.


— Como ela se chama? — perguntou o vizir.


— Chama-se Fábula — respondeu o chefe dos guardas.


— A Fábula! – exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. — A Fábula quer entrar neste palácio. Pois que entre. E que cem formosas escravas a recebam com flores e perfumes! Quero que ela tenha o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!


E assim, sob a forma de Fábula, a Verdade finalmente conseguiu sua audiência com o glorioso califa.