QUEM GOSTA DE SOLA É SAPATEIRO.
Diz-se que gosto não se discute, mas mau gosto é outra história — como o de pessoas que só comem bife ou churrasco se a carne estiver esturricada.
A a escolha do ponto da carne vai além da simples preferência pessoal: uma pesquisa conduzida pelos cientistas da Escola de Medicina do Hospital Monte Sinai em Elmhurst (EUA) descobriu que, quanto mais bem passada a carne, maior o perigo de lesões cerebrais que podem levar à demência e ao Mal de Alzheimer.
Para selar bifes altos ou carne para rosbife, aqueça uma panela ou frigideira de fundo grosso até fumaçar, adicione uma mistura de azeite e manteiga suficiente apenas para untar o fundo, coloque a carne quando a gordura estiver bem quente e frite a carne por dois minutos de cada lado. Ao final, coloque os bifes numa travessa, cubra com papel laminado e deixe descansar por alguns minutos, para que os sucos que se concentraram na parte central da carne durante a cocção se redistribuam por igual, deixando-a mais macia e suculenta.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
O problema de esconder o lixo debaixo do tapete é que a turma do abafa continua transitando por cima, e o chorume se move, escorrendo pelas bordas. André Mendonça convive há sete meses com um relatório explosivo da PF sobre as relações monetárias de Dias Toffoli com Daniel Vorcaro. E nada!
O documento levanta a suspeita de que Toffoli seria o proprietário oculto do fundo de investimento Arleen. Esse fundo era sócio de uma empresa do ministro no resort Tayayá e recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro. Posteriormente, o dinheiro foi transferido para uma holding nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal caribenho.
Toffoli declara não ter nada a ver com coisa nenhuma. Sustenta que o relatório da PF foi arquivado com o aval dos colegas. Mendonça alega que o documento não lhe foi encaminhado formalmente, mas não esclarece por que se absteve de requisitá-lo, como fez no caso das mensagens enviadas por Vorcaro a Alexandre de Moraes.
A PF aponta a necessidade de aprofundar as investigações. Cita contatos e encontros com Vorcaro — alguns foram intermediados pelo ex-ministro de Bolsonaro Fábio Faria. O relatório também menciona mudança suspeita de voto de Toffoli em um julgamento caro ao Master. Seus pares na corte se fingem de mortos, sem se darem conta de que o tapete ficou curto.
Uma senhora de pedra, esculpida pelo gênio Alfredo Ceschiatti, fica na frente da sede do STF, representando Têmis, a Deusa da Justiça. Para sua sorte, ela não ouve nem vê. A venda que cobre seus olhos e lhe tapa as orelhas preserva-a do espetáculo constrangedor que se desenrola no interior do prédio. Às vésperas da sessão que tem na pauta os podres de Alexandre de Moraes, o STF virou arena de UFC.
Nesse Ultimate Fighting, não há mocinhos e vilões, apenas duas máquinas de brigar. André Mendonça pede a abertura de investigação sobre as mensagens que deram a Moraes uma aparência de consultor de Vorcaro, enquanto Moraes manobra para incluir na pauta a suspeita de irregularidades e de seletividade de Mendonça. Do contrário, ameaça jogar no ventilador as outras togas que tiveram contato direto ou indireto com o ex-banqueiro — o próprio Mendonça, Toffoli, Nunes Marques e Fux.
Fachin havia programado uma sessão aberta para a próxima terça-feira. Ao nivelar o plenário por baixo, a facção de Moraes espera que o constrangimento afaste do plenário os holofotes e as câmeras da TV Justiça. No escuro, tudo pode acontecer. Inclusive nada. No limite, um dos presentes pode pedir vista do procedimento contra Moraes. Nessa hipótese, o UFC supremo seria convertido num vale-tudo em que o brasileiro entra com a cara.
Para além das preferências pessoais, existe um consenso técnico: o ponto é uma combinação de temperatura interna, cor e textura, não apenas opinião. Guias internacionais de gastronomia e instituições ligadas à segurança alimentar organizam os pontos de cozimento em faixas de temperatura, aparência e textura.
Para quem gosta de ouvir o boi mugir enquanto degusta um naco de bife ou churrasco — como é o caso deste que vos escreve —, a temperatura interna da carne não deve passar de 46 °C. Para que os bifes criem uma crosta fina dourada, tire-os da geladeira com antecedência, espere a frigideira começar a fumegar antes de colocar a manteiga ou o azeite e limite o tempo de fritura a 3 minutos de cada lado.
É importante fritar os bifes individualmente e virá-los uma única vez — caso contrário, além de não formar a crosta dourada, eles verterão líquido, cozinharão em vez de fritar e perderão a suculência e a maciez.
JFK teria dito que desconhecia a fórmula do sucesso, mas a do fracasso era tentar agradar a todos ao mesmo tempo. Seja como for, um “meio-termo diplomático” é servir a carne com o centro rosado em vez de vermelho e garantir que ela ofereça alguma resistência ao corte, mas mantendo a umidade e preservando a maciez Nesse caso, a temperatura interna fica entre os pontos malpassado e bem-passado — de 57 °C a 63 °C.
No ponto para mais (ou “ao ponto para bem”), o miolo praticamente perde o rosado intenso (ficando levemente rosado ou bege-rosado) e a textura já é mais firme. Ainda pode haver suculência, principalmente em cortes com mais gordura entremeada, mas a sensação é de carne “mais mastigável”, ou seja, menos macia, com fibras mais contraídas em função da maior perda de umidade. Na prática, esse estágio ocupa a faixa alta das temperaturas — de 64 °C a 68 °C. É o “passinho a mais” que muitos restaurantes usam quando o cliente pede “bem passado, mas sem ressecar”: um interior cozido quase por completo, mas ainda distante da carne totalmente acinzentada.
A carne bem passada é marrom ou acinzentada por dentro, sem partes rosadas. A textura é firme, a quantidade de suco que escorre ao cortar é pequena e, se o fogo passa do ponto, aparecem áreas escurecidas ou quase pretas na superfície. Os quadros culinários posicionam essa faixa a partir de 70 °C de temperatura interna, com interior completamente cozido. Mas volto a frisar que tempo demais em temperaturas muito altas deixa a carne queimada e contribui para a formação de substâncias químicas com possibilidade de aumentar o risco de alguns tipos de câncer.
Na cozinha profissional, o termômetro de carne é o aliado mais confiável, pois permite medir a temperatura interna na parte mais grossa do corte. Em casa, pode-se recorrer ao teste do toque (ou da mão), no qual a firmeza da carne é comparada à região carnuda abaixo do polegar em diferentes posições. Outro recurso é o teste da faca: insira uma faca fina no centro da carne, deixe ali por alguns segundos, retire e encoste a lâmina com cuidado nos lábios. Se ela estiver fria, a carne tende a estar mal passada; se estiver morna, ao ponto; se estiver quente, bem passada.
No balanço geral, a discussão sobre o ponto da carne mistura ciência de alimentos, segurança sanitária e gosto pessoal. Termômetros, quadros de temperatura e testes de toque ajudam a sair do “achismo” e transformam a conversa em escolha consciente: entender o que cada ponto entrega, da selada à bem passada, é o que permite decidir como vai chegar o próximo bife à sua mesa.
Escolher métodos de cocção com calor úmido, como panela de pressão, não favorece a formação de compostos tóxicos. Além disso, usar temperos e condimentos ajuda a reduzir a formação de substâncias potencialmente nocivas durante o cozimento. Evitar queimar ou chamuscar a carne também é importante, pois temperaturas muito altas podem gerar compostos químicos associados a riscos de saúde.
Por outro lado, comer carne mal passada ou crua aumenta o risco de contaminação por microrganismos como salmonela, especialmente quando a procedência não é conhecida. Portanto, procure consumir apenas produtos de origem certificada.
Bom apetite.



