quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A FÍSICA É TEÓRICA, MAS A DIVERSÃO É REAL.

Se a história da luz nos ensina alguma coisa, é que a ciência não avança necessariamente em linha reta. Algumas ideias desaparecem, outras sobrevivem, algumas são abandonadas e depois ressuscitam sob uma forma completamente diferente.


Talvez a Teoria das Cordas — que vem sendo considerada desde a década de 1970 uma das candidatas mais ambiciosas a uma Teoria de Tudo, capaz de descrever sob um mesmo arcabouço as partículas fundamentais e as forças da natureza, incluindo a gravidade — esteja vivendo justamente um desses momentos de espera. Até porque já se passaram mais de cinquenta anos, e o tão sonhado casamento entre a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica ainda não aconteceu.


A dificuldade não está apenas na matemática, mas na possibilidade de verificar experimentalmente aquilo que a matemática prevê. A Teoria das Cordas propõe que as partículas fundamentais não sejam objetos pontuais, mas minúsculas cordas vibrantes que, dependendo da maneira como vibram, se manifestam como partículas diferentes. E entre seus estados de vibração surge algo que se comporta como o gráviton — a hipotética partícula mediadora da gravidade quântica. Ou seja: a gravidade aparece naturalmente dentro da estrutura da teoria. Só que há um pequeno inconveniente.


As escalas envolvidas são tão diminutas e as energias necessárias tão elevadas que testar diretamente as previsões mais fundamentais da teoria está além das possibilidades experimentais atuais. E as dimensões extras constituem outro problema: nas formulações mais conhecidas, o Universo precisa de dez ou onze dimensões, mas as dimensões adicionais estariam compactificadas em escalas extraordinariamente pequenas. Consequentemente, não conseguimos enxergá-las, medir sua geometria ou passear por elas. Pelo menos por enquanto.


Ainda assim, seria injusto concluir que a Teoria das Cordas não produziu nada de importante simplesmente porque ainda não sabemos se ela descreve literalmente o nosso Universo. Uma das maiores contribuições de seu desenvolvimento foi justamente revelar conexões inesperadas entre áreas da matemática e da física que pareciam não ter relação alguma. O físico Edward Witten, um dos mais conceituados nomes da área, mostrou como a teoria poderia estabelecer pontes entre diferentes formulações matemáticas e físicas. Dessa evolução surgiu, entre outras coisas, a Teoria M, que reúne diferentes versões das supercordas sob uma estrutura mais abrangente.


E há ainda uma conexão particularmente fascinante: em 1997, o físico argentino Juan Maldacena propôs a chamada correspondência AdS/CFT — uma relação profunda entre uma teoria gravitacional definida em determinado espaço e uma teoria quântica sem gravidade formulada em uma dimensão menor. Em termos simplificados, uma descrição que contém gravidade pode ser equivalente a outra que não contém gravidade. Parece absurdo, mas é justamente por isso que é fascinante.


A correspondência AdS/CFT não transformou a Teoria das Cordas numa teoria experimentalmente comprovada, mas numa ferramenta extremamente poderosa para investigar problemas de gravidade quântica, buracos negros e teoria quântica de campos. Ou seja: mesmo uma teoria cuja relação com a realidade ainda não foi demonstrada pode produzir matemática e ferramentas capazes de iluminar problemas reais da física. E talvez seja essa a parte mais interessante da história.


A ciência não é apenas uma coleção de respostas confirmadas. Ela também é uma coleção de perguntas bem formuladas, hipóteses ousadas e caminhos que, às vezes, levam a lugares que ninguém imaginava encontrar. A Teoria das Cordas pode um dia receber a confirmação experimental que seus defensores esperam, mas também pode ser abandonada por uma teoria mais abrangente ou ainda se revelar parcialmente correta, como aconteceu tantas vezes na história da física: O fato é que não sabemos, e talvez seja justamente isso que torna a história tão interessante.


No fundo, a Teoria das Cordas não está apenas tentando descobrir do que o Universo é feito. Ela está tentando descobrir qual é a arquitetura da própria realidade. Se um dia conseguirmos testar suas previsões, talvez descubramos que o espaço possui dimensões que jamais percebemos, que a gravidade tem uma estrutura quântica e que aquilo que chamamos de partículas são apenas diferentes manifestações de uma mesma realidade fundamental. Se não conseguirmos… bem, a ciência terá aprendido alguma coisa igualmente valiosa: que a natureza não é obrigada a obedecer às nossas melhores ideias.


Como dizia uma antiga frase estampada numa camiseta: "A física é teórica, mas a diversão é real.” Talvez a Teoria das Cordas não seja a Teoria de Tudo, mas apenas uma ponte, e algumas das maiores descobertas da ciência começaram exatamente assim: alguém construiu uma ponte antes mesmo de saber aonde o outro lado levaria.


E nós, naturalmente, continuaremos atravessando.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 123ª PARTE

O TEMPO É A SUBSTÂNCIA DA QUAL SOMOS FEITOS: UM RIO QUE NOS ARREBATA… MAS NÓS SOMOS O RIO.

Viagens no tempo, universos paralelos e dimensões extras fazem parte do imaginário de quem tenta compreender os limites do espaço e do tempo. Para alguns físicos, não se trata apenas de temas de ficção científica, e sim de consequências possíveis de teorias matemáticas que tentam descrever a natureza em suas escalas mais fundamentais.


Um desses pesquisadores é o iraniano Cumrun Vafa, professor da Universidade Harvard e um dos nomes mais influentes da Teoria das Cordas. Seu trabalho está ligado a uma das maiores ambições da física contemporânea: encontrar uma estrutura capaz de conciliar a mecânica quântica — que descreve o mundo das partículas — com a Relatividade Geral de Einstein, extraordinariamente bem-sucedida na descrição da gravidade, das estrelas, dos planetas e da estrutura do cosmos.


O problema é que, para funcionar, a Teoria das Cordas exige uma realidade muito mais complexa do que aquela que nossos sentidos conseguem perceber. Dependendo da formulação, o Universo teria dez ou onze dimensões, embora as adicionais permaneçam compactificadas em escalas inimaginavelmente pequenas, inviabilizando sua medição com os recursos de que dispomos atualmente. Isso sem falar que não temos qualquer evidência experimental direta de sua existência.


E aqui surge uma questão que acompanha a ciência desde seus primórdios: até onde podemos confiar numa teoria que ainda não conseguimos testar? Segundo Vafa, compreender a física não significa necessariamente mergulhar em um oceano de equações. Muitas ideias aparentemente complicadas podem ser apresentadas por meio de exemplos simples, desde que consigamos enxergar o princípio escondido por trás deles.


Um dos episódios mais famosos da história da ciência envolve Galileu Galilei. Reza a lenda que ele teria deixado cair objetos de massas diferentes do alto da Torre de Pisa para demonstrar que, desprezando a resistência do ar, a velocidade de queda não depende da massa do corpo. A história provavelmente foi embelezada ao longo do tempo e não há evidência sólida de que o polímata italiano tenha realizado exatamente esse experimento na torre. Mas sabemos que ele estudou cuidadosamente a queda dos corpos e chegou a conclusões que contrariavam a física aristotélica. 


A ideia fundamental, entretanto, permanece extraordinária: um fenômeno aparentemente simples pode esconder uma verdade profundamente contraintuitiva. É mais ou menos isso que acontece quando tentamos falar sobre dimensões extras, universos paralelos ou uma possível teoria que una toda a física. Não precisamos necessariamente começar pelas equações. Podemos começar pela pergunta, e talvez a pergunta mais importante seja justamente esta: e se aquilo que chamamos de realidade for apenas uma parte muito pequena daquilo que existe?


A Teoria das Cordas parte de uma hipótese tão simples quanto ousada: as partículas fundamentais não seriam pontos sem dimensão, mas diminutas cordas que vibram de diferentes maneiras. Cada padrão de vibração corresponderia a uma partícula diferente — uma espécie de sinfonia cósmica na qual elétrons, quarks e outras partículas seriam notas produzidas por um mesmo instrumento fundamental.


A premissa é matematicamente elegante, mas a natureza não premia a elegância. Para que ela seja levada a sério como descrição física do Universo, é preciso encontrar alguma maneira de confrontá-la com a realidade. E é justamente aí que começa o problema. 


As dimensões adicionais previstas por suas formulações mais conhecidas seriam tão pequenas e compactas que não conseguimos observá-las diretamente. Ademais, a energia necessária para testar muitos de seus efeitos estariam além da capacidade dos aceleradores de partículas atuais.


A teoria também prevê naturalmente um candidato a mediador quântico da gravidade: o gráviton. Mas nenhuma experiência conseguiu detectar essa partícula, e estruturas associadas à supersimetria, embora fundamentais em muitas formulações das supercordas, também permanecem sem confirmação experimental.


Isso não significa que a Teoria das Cordas esteja errada, apenas que, até agora, a matemática chegou mais longe do que o laboratório. E a história da ciência mostra que isso nem sempre é motivo para abandonar uma ideia. A própria natureza da luz oferece um exemplo magnífico de como a ciência pode avançar aos tropeços, mudar de direção e, décadas depois, descobrir que ideias aparentemente incompatíveis continham pedaços da verdade.


Newton defendia uma concepção corpuscular da luz, enquanto Christian Huygens sustentava que ela tinha natureza ondulatória. As duas interpretações disputaram espaço até o início do século XIX, quando os experimentos de Thomas Young e os trabalhos de Augustin-Jean Fresnel forneceram evidências extraordinárias em favor da natureza ondulatória. 


Parecia que a questão estava resolvida, mas em 1915 Einstein explicou o efeito fotoelétrico, mostrando que a luz também podia ser descrita em termos de quanta de energia (mais tarde, esses quanta seriam chamados de fótons, mas a luz não precisou escolher entre ser onda ou partícula). Hoje sabemos que a luz apresenta aquilo que chamamos de dualidade onda-partícula. A antiga disputa entre duas explicações aparentemente incompatíveis acabou dando lugar a uma descrição quântica muito mais estranha — e muito mais profunda.


Uma das maiores lições da história da física ensina que uma teoria pode perder espaço, parecer ultrapassada e, ainda assim, preservar uma parte da verdade que será recuperada quando o conhecimento avançar. É por isso que a ausência de confirmação experimental da Teoria das Cordas não encerra necessariamente a história. Pode ser apenas o intervalo entre uma pergunta e o experimento capaz de respondê-la; afinal, a matemática pode apontar para lugares onde os instrumentos ainda não conseguem chegar.


E talvez seja justamente aí que comece a próxima etapa da nossa viagem.


Continua…

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

PRIMEIRA LUA ENCONTRADA FORA DE NOSSO SISTEMA SOLAR?

O UNIVERSO NÃO TEM OBRIGAÇÃO DE FAZER SENTIDO PARA NÓ

O Universo não nos deve respostas fáceis. Ele existe do jeito que existe, quer a gente entenda, quer não. Mas é justamente isso que torna a ciência e a exploração tão emocionantes. Às vezes, esperamos que tudo se encaixe naquilo que já conhecemos, mas não é assim que a banda toca. A ciência consiste justamente em fazer perguntas e descobrir coisas novas, mesmo quando as respostas parecem estranhas ou inesperadas.

Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, um grupo internacional de cientistas liderado por Kevin Hoy, da Universidade Diego Portales e do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile, apresentou evidências de um corpo celeste que pode ser o primeiro exosatélite já detectado fora do Sistema Solar. No entanto, ele não se parece nem um pouco com a nossa Lua, de modo que talvez nem seja correto chamá-lo de “lua”.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Renata Lo Prete tentou uma, duas, três vezes, mas não conseguiu arrancar de Flávio Bolsonaro uma resposta categórica sobre o papel que o pai teria num eventual governo do filho, de modo que o brasileiro ficou autorizado a suspeitar que o candidato foi mandado às urnas como segundo escalão da família Bolsonaro.

Num hipotético governo de Flávio, o verdadeiro chefe de Estado será Jair.

"Se vencer a eleição, seu pai terá cargo no governo?", indagou Lo Prete. A jornalista foi específica: "Qual?" Flávio passou a falar da condenação do pai. Chamou o julgamento de "farsa". E classificou como "golpe da Disney" a trama que levou à prisão de Bolsonaro.

A entrevistadora tentou novamente: "Se o senhor vencer a eleição, seu pai vai ter cargo no governo?". Flávio grudou os olhos na câmera: "Meu pai vai ser você, vai ser o povo brasileiro. É pra você que eu vou trabalhar". O candidato esticou o blá-blá-blá: "Tenho o privilégio de, a hora que eu precisar consultar um ex-presidente da República, tenho um dentro de casa, de confiança. Sou privilegiado por isso, mas nunca tratou de cargo comigo."Lo Prete não se deu por vencida: "Mas o senhor cogita nomear? Daria um cargo para o seu pai no governo?". Pela terceira vez, Flávio Bolsonaro desconversou: "Ele nunca tratou disso comigo. Não está no radar". Numa campanha eleitoral, nunca é uma palavra perigosa. Os candidatos deveriam sempre se lembrar de nunca usá-la.

O filho de Bolsonaro é candidato não a presidente, mas a marionete. Como ventríloquo, seu pai desfruta de privilégios eleitorais que seriam inacessíveis a um preso inelegível — com uma vantagem que nenhum candidato à reeleição jamais teve: a de participar da campanha como sujeito oculto. A presença em sabatinas e debates seria um rebaixamento para o capitão.

Uma eventual presidência de Flávio não proporcionaria ao Brasil a experiência de ser presidido por um Bolsonaro hipoteticamente moderado. Na prática, seria como se Jair Bolsonaro obtivesse um segundo mandato. Seria um rei sem trono. O mito viraria folclore. Nem precisaria de cargos para exercer seu poder presumido.


O que os cientistas encontraram, usando o Very Large Telescope (VLT), do ESO, foi um objeto com massa próxima à de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar. Esse objeto parece estar orbitando uma anã marrom, um corpo celeste cuja massa fica entre a de planetas gigantes e a das estrelas. A anã marrom, por sua vez, orbita uma estrela anã vermelha, de modo que temos uma espécie de sistema cósmico em três níveis: uma estrela, uma anã marrom orbitando essa estrela e um objeto de massa planetária orbitando a anã marrom.

Como uma anã marrom não é nem uma estrela propriamente dita nem um planeta, Hoy e seus colegas preferem o termo mais abrangente “exosatélite” — "exolua” seria uma designação mais específica, normalmente associada a um satélite que orbita um exoplaneta, e como o próprio artigo da Nature ressalta, ainda não existe uma definição formal e universalmente aceita para “exolua”.

Independentemente do nome que acabará prevalecendo, o estudo representa um passo importante: pela primeira vez, a técnica de velocidade radial produziu evidências convincentes de um satélite orbitando uma anã marrom. Isso é particularmente interessante porque, apesar de já termos descoberto mais de 6.000 exoplanetas, nenhuma lua orbitando um exoplaneta foi confirmada de maneira incontestável. Há candidatos, mas eles continuam controversos.

Para procurar o exosatélite, a equipe utilizou a mesma técnica de velocidade radial empregada na descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela semelhante ao Sol, em 1995. O método consiste em observar pequenas mudanças periódicas na velocidade com que o objeto se aproxima ou se afasta de nós, detectadas por meio dos deslocamentos das linhas espectrais de sua luz — o conhecido efeito Doppler.

Quando um corpo orbita outro, ambos giram em torno de um centro de massa comum. Se o corpo secundário tiver massa suficiente, ele provoca um pequeno “rebolado” no corpo principal. Esse movimento pode ser percebido nas alterações periódicas de sua velocidade radial. Foi justamente esse sutil rebolado que os pesquisadores procuraram — e encontraram — em CD-35 2722 B.

A anã marrom em questão é conhecida como CD-35 2722 B, nome derivado de sua identificação em catálogos astronômicos. O principal candidato a satélite ainda não recebeu uma designação própria. O modelo mais bem ajustado indica uma massa mínima de aproximadamente 0,9 vez a massa de Júpiter e um período orbital de cerca de 170 dias. Em outras palavras, estamos diante de algo com massa da ordem de 1,7 × 10²⁴ toneladas — praticamente um Júpiter em miniatura, embora não saibamos necessariamente seu tamanho físico.

O modelo que melhor explica os dados também aponta para um segundo candidato a satélite, mais próximo da anã marrom, com massa mínima estimada em cerca de 0,28 vez a massa de Júpiter e período orbital de aproximadamente 87 dias. Essa segunda detecção, entretanto, é bem menos segura que a primeira. Os dois períodos estão próximos de uma proporção de 2 para 1, o que pode indicar uma ressonância orbital, fenômeno que também ocorre entre algumas luas de Júpiter.

Esse sistema é difícil de definir usando termos que conhecemos do Sistema Solar. O objeto principal tem massa suficiente para ser comparado a um planeta gigante, mas não orbita diretamente uma estrela, e sim uma anã marrom que, por sua vez, orbita uma estrela. E a anã marrom não se encaixa nem na categoria de estrela nem na de planeta.

É por isso que os pesquisadores preferiram chamá-lo simplesmente de satélite, evitando por enquanto a palavra “lua”. Afinal, estamos diante de um objeto que exerce o papel gravitacional de uma lua, mas cuja massa é comparável à de um planeta gigante. Essa discussão também antecipa um problema que poderá surgir quando encontrarmos, de maneira inequívoca, uma lua orbitando um exoplaneta: quem poderá dizer que descobriu a primeira exolua?

Uma controvérsia parecida já aconteceu no passado. Em 1992, o astrônomo polonês Aleksander Wolszczan descobriu os primeiros planetas conhecidos fora do Sistema Solar, orbitando o pulsar PSR B1257+12 — o remanescente extremamente compacto de uma estrela que explodiu como supernova.

Três anos depois, em 1995, Michel Mayor e Didier Queloz descobriram 51 Pegasi b, o primeiro exoplaneta encontrado orbitando uma estrela semelhante ao Sol. Foi por essa descoberta que os dois receberam o Prêmio Nobel de Física de 2019. A distinção não ignorava a importância do trabalho de Wolszczan: o prêmio estava especificamente relacionado à descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela do tipo solar. Ainda assim, a história mostra como definições e critérios podem influenciar a maneira como atribuímos pioneirismos científicos.

No caso da descoberta de Hoy, a nomenclatura também poderá pesar nos reconhecimentos futuros. Afinal, se o objeto for oficialmente classificado como exosatélite, ele será o primeiro desse tipo a ser detectado; se a comunidade científica decidir que a categoria “exolua” pode incluir satélites de anãs marrons, a história será contada de outra maneira.

É comum em astronomia que novas descobertas deem azo a debates sobre classificação. Um dos exemplos mais famosos ocorreu em 2006, quando a União Astronômica Internacional (IAU) aprovou uma definição formal de planeta e criou a categoria dos planetas anões. Plutão, que até então era considerado o nono planeta do Sistema Solar, passou a integrar essa nova categoria.

A questão das exoluas tem potencial para provocar um rebuliço semelhante. Ainda não existe uma definição formal de “exolua” adotada pela IAU, e os astrônomos discutem quais critérios deveriam ser utilizados. Uma lua precisa necessariamente orbitar um planeta? Um satélite de uma anã marrom pode ser chamado de exolua? Existe um limite de massa para uma lua? E como classificar um objeto cuja massa se aproxima da de Júpiter, mas que orbita uma anã marrom?

Observação: O caso de CD-35 2722 B mostra que a natureza não está particularmente preocupada com a nossa necessidade de classificação. Ela simplesmente produz os objetos que suas leis físicas permitem — e deixa para nós a tarefa de inventar nomes para eles.

O estudo deve aquecer ainda mais a corrida entre astrônomos em busca da primeira exolua propriamente dita, isto é, um satélite orbitando um exoplaneta. Alguns cientistas tentam fazer isso por meio de técnicas diferentes da utilizada por Hoy. Uma delas é a detecção por trânsito, que procura pequenas reduções no brilho de uma estrela quando um planeta passa diante dela. Se esse planeta possuir uma lua, ela poderá produzir uma alteração adicional, extremamente sutil, na curva de luz.

O problema é que esses sinais são minúsculos e as órbitas dos candidatos podem ser demoradas. Em alguns casos, seriam necessárias várias passagens diante da estrela para que os astrônomos pudessem reunir evidências suficientes para confirmar a existência de uma lua. É uma caçada cósmica em que a paciência, mais uma vez, é uma virtude indispensável.

Uma esperança para acelerar essa busca está no Extremely Large Telescope (ELT), que o ESO está construindo no Chile. Com um espelho principal de 39 metros, ele será o maior telescópio óptico e infravermelho do mundo quando entrar em operação e terá capacidade muito superior à dos atuais grandes telescópios para estudar objetos extremamente tênues e distantes.

O cronograma atualmente divulgado pelo ESO prevê a chamada “primeira luz” do telescópio em março de 2029, seguida da instalação e comissionamento dos primeiros instrumentos. A chamada primeira luz científica está prevista para dezembro de 2030.

Quando o ELT estiver funcionando plenamente, poderemos finalmente começar a enxergar uma população de mundos que hoje mal conseguimos perceber. E talvez encontremos entre eles aquilo que os astrônomos procuram há décadas: uma verdadeira lua orbitando um planeta situado em outro sistema estelar.

Mas talvez a descoberta mais interessante proporcionada por CD-35 2722 B seja outra: ela nos lembra que o Universo não tem a menor obrigação de organizar seus objetos segundo as categorias que inventamos aqui na Terra. Nós gostamos de planetas, luas, estrelas e anãs marrons devidamente separados em compartimentos, ao passo que o Universo parece preferir a bagunça. E convenhamos: é justamente quando ele bagunça nossas gavetas que a astronomia fica mais interessante.

domingo, 18 de outubro de 2026

DICAS ÚTEIS NA COZINHA

O ÓTIMO É INIMIGO DO BOM

1 — Depois de escorrer a massa, polvilhe-a com queijo parmesão ralado enquanto ela ainda estiver quente. O queijo vai derreter e se misturar ao molho, deixando o prato muito mais saboroso.

2 — Quando estiver fritando alguma coisa, não encha demais a frigideira. Isso evita que a comida cozinhe no vapor, em vez de dourar.

3 — Quando o assunto é confeitaria, não há muitos atalhos. Siga sempre as medidas indicadas na receita, usando colheres e xícaras próprias para isso ou, melhor ainda, uma balança que meça em gramas. Um dos erros mais comuns é pular uma etapa ou não entender direito as instruções de preparo. Se uma receita pede, por exemplo, “1 xícara de nozes, moídas”, você deve encher a xícara com as nozes inteiras e só depois moê-las — e não moer as nozes primeiro e então preencher a xícara.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Desafiante e desafiado medem forças dentro da margem de erro das pesquisas. O filho do presidiário claudica, enquanto o macróbio candidato à reeleição procura brechas para virar o jogo. Os debates, desprezados por ambos no primeiro turno, tornaram-se vitais. Na última semana, Band e Globo exibirão o espetáculo do contraditório — primeiro neste domingo, depois na sexta-feira anterior à votação.

Espera-se que os candidatos compareçam munidos de meio quilo de projetos. Até aqui, há poucas ideias e muita confusão. O desarranjo é tamanho que Lula, após quase duas décadas de poder petista, se diz antissistema, ao passo que seu adversário decreta que "a era do PT chegou ao fim" e oferece a mudança prometendo conservar todas as logomarcas sociais do petismo.

Aquilo que parecia dispensável quando havia cinco candidatos virou obrigatório agora, quando restam dois. Eliminaram-se as desculpas. Não há adversários para fazer o serviço sujo nem aliados para servir de escudo. Lula terá de explicar por que merece mais quatro anos, e Flávio terá de esclarecer o que oferece além da anistia do pai.

Certos debates terminam quando as luzes do estúdio se apagam. A fricção de 2026 tende a se prolongar até a urna eletrônica. Uma tirada bem articulada pode ganhar as redes. Uma hesitação pode virar manchete. Um detalhe pode eleger o próximo presidente.

3.1 — Se não resistir à tentação de abrir o forno para conferir como o bolo está ficando, espere pelo menos até que a massa tenha crescido totalmente. O recomendável, porém, é verificar somente no final, para evitar que uma queda brusca de temperatura faça o bolo murchar.

3.2 — Quando levada ao freezer, a massa solidifica e fica mais fácil de manusear. Além disso, depois de cortar a massa dos biscoitos, coloque-a na geladeira por cerca de meia hora antes de levá-la ao forno. Isso ajuda a preservar o formato dos biscoitos durante o cozimento.

3.3 — Não pré-aquecer o forno poupa tempo, mas pode comprometer o resultado da receita. Portanto, espere até que o forno atinja a temperatura indicada e só então coloque a massa para assar.

3.4 — Teoricamente, basta reduzir pela metade ou dobrar os ingredientes para obter um bolo menor ou maior, conforme o caso. Na prática, isso costuma funcionar melhor ao cozinhar, mas, quando se trata de assar, o tempo de forno também varia — e não necessariamente de forma proporcional. Se você precisa dobrar a quantidade, pode ser melhor fazer duas porções e levá-las ao forno separadamente. Se quiser fazer uma porção menor, comece a verificar o forno mais cedo, para ter certeza de que o assado não está queimando.

3.5 — O excesso de manuseio pode fazer com que o glúten da massa se desenvolva em excesso, deixando-a dura. Ao amassar, use movimentos leves e pare assim que não houver mais farinha solta na tigela. Se estiver usando um liquidificador ou processador, utilize-o apenas para combinar os ingredientes e, em seguida, termine o trabalho à mão. E, se for usar uma assadeira, não se esqueça de untá-la antes de colocar a massa, seja ela doce ou salgada.

3.6 — É a gordura que ajuda a dar crocância a cookies e biscoitos, daí muitas receitas levarem manteiga, óleo ou gemas. Se você reduzir muito a gordura e usar apenas claras de ovo, seus biscoitos poderão ficar com uma textura mais próxima da de um bolo. E, se guardar os ovos na geladeira, separe as claras das gemas e deixe-as atingir a temperatura ambiente antes de batê-las.

3.7 — Colocar mais de duas ou três assadeiras no forno ao mesmo tempo pode prejudicar a circulação do ar e a distribuição do calor. Tenha em mente também que o tempo necessário para pré-aquecer o forno pode variar conforme a marca e o modelo. Além disso, pães e biscoitos continuam liberando vapor por alguns minutos depois que são retirados do forno. Portanto, retire-os da assadeira assim que puder manuseá-los sem queimar as mãos, evitando, assim, que o vapor acumulado amoleça sua parte inferior.

3.8 — Se você aquecer demais a manteiga, seus cookies poderão perder a forma e os bolos ficarão mais pesados. A menos que esteja preparando uma massa que peça manteiga fria, ou seguindo uma receita que indique o contrário, a manteiga deve estar em temperatura ambiente. Se estiver com pressa, coloque a manteiga em um saco plástico e use um rolo de macarrão para amaciá-la, ou corte-a em pedaços menores para que atinja a temperatura desejada mais rapidamente.

3.9 — Não peneirar a farinha pode resultar em uma massa mais densa ou irregular. Da mesma forma, substituir fermento químico em pó por bicarbonato de sódio — ou vice-versa — pode comprometer o crescimento da massa e ainda deixar um sabor desagradável.

3.10 — Se forem cortados antes de esfriar, bolos e tortas podem ficar quebradiços e os pedaços, desiguais. Colocá-los na geladeira apenas para ganhar tempo pode deixá-los pegajosos ou fazer com que afundem. E, se você cobrir o bolo enquanto ele ainda estiver quente, a cobertura poderá derreter, fazendo com que pedaços e migalhas da camada superior grudem na espátula.

4 — Mergulhe a ponta do cabo de uma colher de pau ou de um palito de espetinho no óleo que está aquecendo na frigideira. Quando se formarem bolhas ao redor da madeira, o óleo estará quente o suficiente para começar a fritura. E se precisar acrescentar mais óleo à frigideira, despeje-o pelas bordas — assim ele terá mais tempo para aquecer antes de chegar ao alimento que está sendo frito.

5 — Mergulhar previamente uma espátula de metal no óleo quente ajuda a evitar que os ovos grudem nela.

6 — Deixar o macarrão seco — isto é, que não seja massa fresca — de molho em água por cerca de 90 minutos pode reduzir bastante o tempo necessário para cozinhá-lo.

7 — Para acelerar o processo de caramelização das cebolas, uma pequena quantidade de bicarbonato de sódio pode ajudar. Mas não exagere: além de alterar a textura, o bicarbonato pode modificar o sabor.

8 — Se for preparar carne assada ou frita, deixá-la no congelador por algum tempo, até ficar parcialmente firme, facilita bastante o corte em fatias finas e uniformes.

Bom domingo!

sábado, 17 de outubro de 2026

OS DEUSES DO TEMPO — CONCLUSÃO

ALICE: "QUANTO TEMPO DURA O ETERNO?" COELHO: "AS VEZES, APENAS UM SEGUNDO."

Por volta do século 4 a.C., Lisipo, um dos três grandes escultores da Grécia clássica, criou uma estátua de Kairós que se tornou famosa. A obra em si se perdeu, mas permaneceu na memória graças a textos como os do poeta Posidipo de Pela (310-240 a.C.), que compôs um diálogo imaginário com a estátua.

Até onde sabemos, Kairós tinha asas nos pés e uma navalha na mão, que, segundo a interpretação mais difundida, representava sua natureza escorregadia, aquele instante crítico em que um segundo antes pode ser cedo demais e um segundo depois ser tarde demais. Seus cabelos longos e abundantes se concentravam na parte da frente, caindo sobre o rosto.

O poeta pergunta: "Por que seus cabelos caem para a frente?" "Para que quem me encontrar de frente possa me segurar", responde a estátua. "Por Zeus!", exclama o poeta, e então pergunta: "E por que a parte de trás da cabeça é calva?" "Para que ninguém possa me agarrar por trás depois que eu passar correndo com meus pés alados." Ou seja: o fato de Kairós ser calvo atrás não era um capricho estético, mas um aviso: é possível agarrar o momento oportuno quando ele vem em sua direção, quando ainda está de frente. Depois que passa, não há como segurá-lo.

Os filósofos e oradores gregos se interessaram por Kairós como ideia, convencidos de que ele não dependia da magia nem da sorte, mas de uma habilidade que podia ser cultivada. Para Isócrates, o célebre educador ateniense, a verdadeira cultura não consistia em acumular conhecimento abstrato, mas na capacidade de se orientar em um mundo onde nada se repete exatamente e não existem fórmulas infalíveis.


Embora não estivessem falando explicitamente sobre o Kairós, muitos estudiosos viram em suas palavras uma das expressões mais claras do pensamento kairológico: a ideia de que a sabedoria consiste, em grande medida, em saber interpretar as circunstâncias. Há momentos que duram segundos, mas mudam uma vida inteira: uma porta pela qual se passa, uma ligação que se atende, uma pergunta que se faz ou se deixa passar. Aristóteles, em sua Retórica, transformou Kairós no momento e no contexto em que um argumento é apresentado: ainda que você tenha toda a razão do mundo, ela será ignorada se for expressada no momento errado.


Na tradição sofística, kairós era ainda mais central. Górgias de Leontinos, um dos grandes mestres da retórica, compreendia a persuasão como uma arte que exige captar, nos momentos oportunos, aquilo que é apropriado e sugerir aquilo que é possível. Ele e vários outros pensadores ao longo da história compartilharam essa mesma intuição: a importância de estar atento à ocasião. Não por acaso, essa palavra tem uma história tão sugestiva: ela vem de Occasio — nome da deusa romana que personificava a mesma ideia representada por Kairós, cuja raiz remete a algo que se apresenta de repente. 


Uma vez que a ocasião não é uma abstração, mas uma conjuntura favorável que surge diante de alguém e pode desaparecer com a mesma rapidez, Occasio herdou a mesma iconografia de Kairós: a mecha de cabelo sobre a testa e a nuca descoberta. Se você a deixasse passar, já não haveria por onde segurá-la. Isso até gerou ditados em algumas línguas, como o italiano, que são falados até hoje: "L'occasione và presa per il ciuffo" ("é preciso agarrar a oportunidade pelo topete") ou "La fortuna è calva" ("a sorte é careca."). Em português, essas expressões têm um sentido parecido com "Cavalo encilhado não passa duas vezes".


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Visto que a vida continua depois da eleição qualquer um dos dois finalistas que vença o torneio terá necessariamente um encontro marcado com a revisão das próprias convicções, e são tantas as incoerências e tão improvisadas as mudanças de posição que o outro caminho do vencedor será o confronto com o estelionato eleitoral. Ademais, aquele que ficar no papel de líder da oposição tampouco escapará de precisar dar o dito pelo não dito.

Luiz e Flávio tornaram-se convertidos a uma fé invertida em relação ao que habitualmente praticavam e/ou pensavam. Na undécima hora, o molusco deu de abraçar causas que desprezou a vida toda e que no atual governo ignorou, não obstante tivesse poder para levá-las adiante. Para citar só algumas, aderiu à doutrina da prosperidade; descobriu o mal das apostas eletrônicas; percebeu-se de repente na era digital; deu-se conta de que lugar de criminoso é na prisão; tirou a família tradicional da lata de conservas e a incluiu na carta de adesão aos princípios dos evangélicos.
A fim de se adaptar aos reclames por moderação, o filho do golpista ora presidiário passou a oferecer defesa da democracia na mesma bandeja em que se dispõe a entregar anistia a golpistas e arremedos ditatoriais do salvadorenho Bukele. À teoria do "tesouraço", o fã do argentino Javier Milei acoplou a ampliação dos gastos com benefícios sociais, uma contradição em termos. Seguiu na toada da incongruência ao tirar a PEC do fim da jornada 6x1 do lugar de "hipocrisia oportunista" para a condição de proposta digna de apoio por representar "a vontade da maioria".

O populismo tem lá suas vantagens eleitorais, dada a existência de contingente expressivo de necessitados, crédulos e manipuladores travestidos de inocentes —mas cobra um preço. No caso, maior para Lula; se reeleito, terá de pagar a conta da demagogia. Para o filho do pai, sai mais barato: na oposição, assume o lugar de atacante; no governo, dá um calote na figura do candidato e faz fumaça das palavras de anteontem.


Mais de dois mil anos depois, continuamos enfrentando o mesmo desafio: reconhecer o momento certo antes que seja tarde demais. Vivemos na era de Cronos por excelência. Temos calendários sincronizados em vários dispositivos, notificações que nos avisam quando devemos sair de casa, aplicativos que transformam as horas em blocos de cores. Somos, em termos quantitativos, os seres mais conscientes do tempo que já existiram na história da humanidade. No entanto, às vezes somos tomados por uma estranha sensação de ter deixado passar coisas importantes.


Talvez o problema não seja tanto a falta de tempo cronológico, mas o fato de que, ao nos preocuparmos tanto em administrar o tempo quantitativo, às vezes nos tornamos menos sensíveis ao tempo qualitativo. Sem perceber, podemos estar tão atentos ao próximo item da lista que não notamos que o que está acontecendo neste exato momento é algo que não vai se repetir. Estamos tão ocupados olhando para o relógio que deixamos de interpretar a situação — e Kairós passa diante de nós. Ou por outra: estamos tão focados no amanhã que deixamos de viver o hoje em sua plenitude.


Kairós não é uma teoria sobre o tempo, mas algo que conhecemos empiricamente e que podemos aproveitar, algo fugaz trazido por um deus com cabelo na frente, mas não atrás. Kairós não exige que façamos menos coisas, mas pede que esteja presente quando as fazemos. Não se trata de ficar ansioso e tentar transformar cada segundo em uma oportunidade épica. Isso seria distorcer o conceito. Os gregos não pregavam uma urgência permanente: estavam descrevendo uma textura do tempo que inclui tanto os longos períodos do Cronos comum quanto os instantes de kairós que o pontuam.


Isócrates não dizia que seus alunos deveriam criar os momentos oportunos. Dizia que deveriam reconhecê-los quando surgissem. E reconhecê-los é, em parte, uma questão de atenção: uma escuta um pouco mais apurada, uma presença um pouco mais completa, que permite perceber quando algo está pronto para ser dito, feito, iniciado ou concluído.


Na última estrofe do poema de Posídipo de Pela, que encerra o diálogo com a estátua de Kairós, o interlocutor pergunta para quem ela foi criada. E a estátua responde: "Para você, viajante. Para você fui feito; aqui, no limiar, sou um ensinamento". Não no templo, não na praça pública, mas num lugar entre o dentro e o fora, entre o que está por vir e o que já passou.


É difícil imaginar um lugar mais adequado para Kairós.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

OS DEUSES DO TEMPO

O TEMPO NÃO PARA NO PORTO, NÃO APITA NA CURVA, NÃO ESPERA NINGUÉM;


Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado, devolvia os filhos ao útero de Gaia, até que, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que castrasse o pai.


Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas quem sai aos seus não degenera, e assim ele devorou a própria prole até que Réia escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o pai a regurgitar seus irmãos.


Zeus não só cumpriu a missão como derrotou Cronos numa guerra que durou dez anos e se tornou o rei dos deuses.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Flávio Bolsonaro parecia ter princípios sólidos para refutar a proposta de emenda constitucional que acaba com a escala de trabalho 6x1, que chamou de "inoportuna e eleitoreira". Além disso, acusou Lula de recorrer à "hipocrisia" para obter votos e disse que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso e sem redução salarial, produziria "desemprego em massa".

No entanto, após visitar o pai em seu domicílio prisional, o primogênito do refugo da escória da humanidade afirmou que "a maioria dos trabalhadores brasileiros quer o fim da escala 6x1" e antecipou a posição que acabou por adotar no Senado: "Vou votar a favor do fim da 6x1". Lula ironizou: "Parece que, depois da pressão da sociedade, o PL resolveu votar o fim da escala 6x1."

No primeiro turno, o filho do pai obteve 2,2 milhões de votos a mais que o macróbio petista. Segundo o Ministério do Trabalho, 14,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada atuam na escala 6x1. O molusco enxergou nessa legião de beneficiários da PEC uma oportunidade para tentar a virada eleitoral. Num esforço para manter o rival nas cordas, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias mostrou, enfim, que tem princípios. Mas pode ter outros se o trabalhador não gostar deles. Na disputa pelo poder, não hesita em aderir ao que chamava de hipocrisia.




Urano e Cronos são deuses mitológicos, assim como Saturno — a versão romana de Cronos, posteriormente associada ao tempo, que ceifava os dias com sua foice. Mas há uma distinção fundamental entre Cronos (χρόνος) e Kairós (καιρός): o primeiro representa o tempo cronológico, linear e mensurável, e o segundo é associado ao tempo da experiência, do acontecimento, do instante significativo. Alguns pensadores da Antiguidade falavam de Aión, que representa um tempo que não se mede nem se aproveita, mas que se habita e escapa ao relógio e às urgências do agora. 


Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos — aquele que o relógio mede e os calendários transformam segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. Essa lógica nos leva a tratá-lo como algo mensurável e manejável — um recurso a ser administrado, otimizado e explorado a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano.


Embora outras formas de compreender e viver o tempo persistam entre povos tradicionais, povos originários, povos indígenas, africanos e do sul global — nessas cosmovisões, o tempo não se comporta como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente, podendo ser cíclico, circular ou espiralar —, convencionou-se adotar o tempo cronológico como padrão universal por ele colonizar o presente — sequestrando nossa atenção —, capturar o passado — reduzindo a memória a registro — e comprometer o futuro — empobrecendo nossa capacidade de imaginá-lo. 


Na era dos algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração: tornou-se um sistema de controle íntimo, automático e permanente. No fim das contas, ele venceu não como mito, mas como método. Já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina no Olimpo, mas rege os calendários, metas, prazos e as notificações. Não precisa mais devorar os filhos; apenas convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que ele sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.


Poucas expressões resumem melhor uma experiência humana universal do que "agora ou nunca", pois remete à ideia de que existe um instante preciso para agir e que, se o deixarmos escapar, ele talvez não volte — e com efeito: às vezes nós só compreendemos a importância desses momentos depois que eles já passaram, e então vêm os lamentos: "se eu tivesse dito alguma coisa naquele momento!", ou então as comemorações: "ainda bem que tive coragem", ou ainda a satisfação de descobrir que uma decisão tomada no último minuto foi mesmo a correta.


Além de perceberem o valor desses sopros fugazes, os gregos antigos batizaram esse conceito com o nome do deus, kairós, que, diferentemente de Cronos — que rege o tempo do calendário e do relógio — representa algo mais fugidio, como a ocasião oportuna que se abre e se fecha, o instante em que algo, uma palavra, uma decisão, uma ação, pode acontecer com toda a sua força ou se perder para sempre. Dito com outras palavras, enquanto Cronos expressa a concepção quantitativa do tempo, a duração, a idade, a velocidade, Kairós remete ao momento que marca uma oportunidade que talvez não volte. 


Em essência, nem todo instante é igual: alguns têm peso, e esse peso não é medido em horas. Para os antigos gregos, esse peso era tão importante que merecia mais do que uma palavra, e por isso foi personificado em Kairós — uma divindade menor do panteão grego, filho de Zeus segundo algumas fontes, irmão do Destino segundo outras. E além de sua genealogia divina, vale a pena observar sua aparência — quando se tratava de imaginar seus deuses, os gregos deixavam pouco ao acaso: cada detalhe tinha um significado.


Continua...