sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A ROLEX É MESMO TUDO ISSO?

EXISTEM FAKE NEWS QUE PARECEM FATOS E FATO QUE PARECEM FAKE NEWS.

Uma matéria publicada pelo portal O Antagonista sob o título “ROLEX É TUDO ISSO MESMO?” inspirou esta postagem. Primeiro, porque sempre fui apaixonado por relógios (a propósito, sugiro ler a sequência iniciada nesta postagem); segundo, porque minha humilde coleção inclui um Rolex Oyster Perpetual GMT-Master automático e um Omega Seamaster Diver 300M (Goldeneye 007) movido à quartzo.

No jargão da relojoaria, o mecanismo interno do relógio se chama calibre, e o anel que circunda o mostrador, bisel (ou catraca, se for rotativo). A proteção que recobre o mostrador atende por cristal, e as funções acessórias (como calendário, fases da lua etc.), por complicação. O botão lateral que serve para dar corda e acertar a hora e o calendário é conhecido como coroa, e o tempo durante o qual o mecanismo permanece funcionando sem precisar de corda, como reserva de marcha.


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Os alertas da ministra Cármen Lúcia soaram mais alto do que a bateria da Acadêmicos de Niterói. "A festa de Carnaval não pode ser fresta para ilícitos", avisou ela na semana passada.

Janja foi substituída na última hora por Fafá de Belém, e o carro alegórico em que a primeira-dama desfilaria foi precedido por uma ala de passistas adornada por um estandarte em que se lia: "Solte sua Janja".

A letra do samba-exaltação glorificou Lula e enalteceu sua agenda, mas não pediu voto. O verso sobre "13 noites e 13 dias" falou da migração da família Silva para São Paulo, mas não mencionou que o número identifica o PT na urna. O refrão com o slogan das campanhas foi tratado como manifestação cultural, não eleitoral, e Bolsonaro foi retratado na avenida como um palhaço vestido de presidiário, mas não houve menção a Flávio, primogênito e candidato do "mito" encarcerado.

Da Sapucaí, a guerra retórica transferiu-se para as redes sociais, onde o bolsonarismo prevaleceu sobre o petismo em visualizações e o tom foi predominantemente negativo para o pré-candidato à reeleição — daí o empenho do Planalto em reduzir os danos.

Lula e o PT não foram punidos pela Justiça Eleitoral, mas a Acadêmicos de Niterói terminou a apuração mais de dois pontos atrás da penúltima colocada e disputará a Série Ouro em 2027. Paralelamente, a mais recente pesquisa Quaest deu conta de que 57% do eleitorado acham que o petista não merece um quarto mandato.

Pelo visto, a homenagem que resultou no rebaixamento da Escola pode retirar votos do homenageado no minoritário bloco dos eleitores independentes, vistos como decisivos no tira-teima das urnas de 2026.


O movimento mecânico é considerado o estado da arte da alta relojoaria suíça e envolve centenas de peças minúsculas que trabalham em harmonia a despeito da gravidade, do magnetismo e das variações de temperatura. Já o mecanismo a quartzo — que revolucionou a relojoaria na década de 1960 — é composto basicamente de um circuito eletrônico e uma bateria.


O quartzo (dióxido de silício) é largamente utilizado em construções (na forma de areia) e na fabricação do vidro (de janelas, garrafas, etc.). Suas propriedades piezoelétricas fazem-no vibrar 32.768 vezes por segundo e captada por eletrodos e "interpretada" por um circuito integrado (CI). 


Nos modelos mecânicos, a chamada "mola principal" é enrolada quando "damos corda ao relógio" e libera energia conforme se distende. A quantidade de energia acumulada movimenta a "roda de balanço" e faz o mecanismo funcionar.


Os relógios automáticos não deixam de ser movidos à corda, pois seus marcadores de tempo são basicamente os mesmos dos modelos manuais. A diferença é que o movimento natural do pulso aciona uma roda de balanço, gera a energia que é acumulada pelo tambor e movimenta as engrenagens que acionam os ponteiros e mudam a data no calendário.


É possível dar corda na maioria dos mecanismos manuais girando a coroa no sentido horário — mas convém tomar cuidado para não forçar a mola além desse ponto, pois o conserto irá custar muito mais que uma simples troca da bateria nos modelos a quartzo.


A certificação COSC (Controle Oficial Suíço de Cronômetros) admite uma variação de -4/+6 s/dia para mecanismos à corda (manual ou automática), de modo que 3 minutos para mais ou para menos por mês estão dentro da "normalidade". Já a Rolex considera normal uma variação de -2/+2 segundos por dia — coisa que meu Omega leva leva cerca de um ano para acumular.


Tecnicamente, um segundo corresponde a 1/60 do minuto e tem 1.000 milissegundos ou 0,0166667 minutos, mas essa definição prática não leva em conta as complexidades envolvidas na definição científica do segundo, que são baseadas em transições atômicas e padrões de frequência.


Em 1967, a 13ª CGPM definiu o segundo como a duração de 9.192.631.770 períodos da radiação correspondente à transição entre os dois níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133. Em 1997, acrescentou-se que essa definição se refere a um átomo de césio em repouso, a uma temperatura de zero grau Kelvin, e em 2019 fixou-se o valor numérico da frequência de transição hiperfina do césio (ΔνCs) como sendo exatamente 9.192.631.770 Hz — base para todos os relógios atômicos modernos.


Com manutenção adequada, meu Rolex GMT-Master II pode funcionar perfeitamente por décadas a fio, ao passo que o Omega Seamaster à quartzo depende de componentes eletrônicos que se degradam e tendem a se tornar impossíveis de substituir com o tempo.


É por isso que relógios de grife mecânicos mantêm seu valor e os melhores modelos à quartzo depreciam como qualquer outro eletrônico. Ademais, as trocas de bateria tornam a caixa permeável a água e/ou poeira quando o relojoeiro não substitui o-ring (anel de vedação) por um novo antes de recolocar a tampa. 


A certificação Superlative Chronometer vem do tempo em que a precisão mecânica era crucial (navegação, aviação, mergulho profissional). Hoje, ela tem mais a ver com tradição e excelência em manufatura — ou seja, a fama não vem da precisão absoluta (superada pelo quartzo há 50 anos), mas da complexidade técnica, durabilidade secular, valor como objeto de arte mecânica e símbolo de status. 


No fim das contas, as obras de arte da Rolex e outras grifes renomadas podem até atrasar ou adiantar alguns segundos por dia, mas jamais perdem a pose. Já os Omega e outros modelos da alta relojoaria movidos a quartzo primam pela pontualidade, mas perdem a aura a nobreza que muita gente ainda insiste em confundir com precisão.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 76ª PARTE

QUANDO VOCÊ ESTÁ NUM POÇO E O DESTINO LHE DÁ UMA CORDA, CABE A VOCÊ USÁ-LA PARA SUBIR OU SE ENFORCAR.  

Em outubro de 2020, astrônomos flagraram ao vivo uma estrela sendo transformada em "alimento" para um buraco negro, em um raro espetáculo de espaguetificação.


Esse fenômeno ocorre quando um objeto se aproxima do horizonte de eventos do buraco negro, onde a força gravitacional é tamanha nem a luz consegue escapar. Assim, a parte mais próxima da estrela é puxada com maior intensidade e se alonga em filamentos finos e extremamente compridos.


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Três dias depois de dizer que as emendas parlamentares viraram um "sequestro", Lula mandou pagar um resgate de R$1,5 bilhão. Neste presidencialismo de cooptação, onde os parlamentares se apropriam de 22% da verba federal disponível para investimento, parte dessa dinheirama lubrifica campanhas e esquemas de corrupção, e a corrosão do orçamentária vira um sequestro das necessidades do povo pobre em nome da propensão dos oligarcas para usar o Erário como puxadinho privado.

No discurso em que fez pose de refém do sistema, Lula soou hipócrita quando instou sua claque a reagir. Isso porque a vala da farra do Orçamento submete o governo a um ritual pluripartidário, pós-ideológico e pré-falimentar.

Em 2022, o então candidato prometeu mudanças; eleito, nem tentou, e o Congresso enfiou no Orçamento de 2026 R$61 bilhões em emendas. 

Ainda não se viu nenhum parlamentar governista pegando em lanças para defender os cofres públicos.


Os buracos negros já foram fotografados e tiveram seus efeitos na passagem do tempo comprovados cientificamente, mas os buracos de minhoca — também chamados de Pontes Einstein-Rosen — continuam no reino das especulações. Supõe-se que estes funcionem como "atalhos" no espaço-tempo, conectando dois pontos distantes (neste ou em outro universo, no presente ou em outro ponto da linha do tempo).


Em tese, uma espaçonave que conseguisse atravessar um buraco de minhoca poderia percorrer milhares de anos-luz e chegar a galáxias remotas numa questão de segundos. No entanto, a distorção que essas "fendas" criam no espaço-tempo também poderiam centuplicar a duração de uma viagem da Terra a Marte, por exemplo, que a sonda Mars Insight fez em cerca de 6 meses. Mas os problemas não param por aí.


Esses "túneis" tendem a ser minúsculos e instáveis (ou seja, abrem e fecham numa fração segundo, o que os tornaria inatravessáveis). Ainda que assim não fosse, não sabe se eles atraem matéria por uma boca e a regurgitam pela outra ou se ambas as bocas engolem e nenhuma cospe — nesse caso, a matéria seria empurrada de uma extremidade para a outra num looping insano, até finalmente morrer no ponto central do "túnel".


A conexão dos buracos de minhoca com a física quântica foi proposta pela primeira vez em 2013, quando se especulou que eles seriam equivalentes ao emaranhamento. Essa ideia foi estendida anos depois aos hipotéticos buracos de minhoca — que a energia repulsiva negativa manteria abertos por tempo suficiente para torná-los atravessáveis. Tal processo foi chamado pelos pesqpuisadores de teletransporte quântico (para mais detalhes, clique aqui).


Nenhum buraco negro pode devorar uma galáxia inteira. Aliás, nem mesmo as estrelas mais próximas do centro galáctico são facilmente engolidas, o que é um alívio para nós, pois o Sistema Solar orbita a 26 mil anos-luz de Sagittarius A* — buraco negro supermassivo no coração da Via Láctea cujo alcance gravitacional é limitado demais para capturar toda a galáxia.


A atração gravitacional dos buracos negros advém do fato de eles terem a massa de uma estrela concentrada em um ponto minúsculo. Se o Sol se tornasse um buraco negro (o que é impossível por falta de massa), as órbitas planetárias, cometas e asteroides permaneceriam inalteradas — nada seria devorado.


Não se sabe ao certo o que aconteceria com quem cruzasse o horizonte de eventos de um buraco negro, mas sabe-se que a distorção do espaço-tempo causa a dilatação gravitacional do tempo, que altera radicalmente a percepção de espaço e tempo. Do exterior, um objeto caindo pareceria encolher ao se aproximar do horizonte de eventos, levando tempo infinito para cruzá-lo. Sua luz ficaria mais vermelha e escura — o desvio gravitacional para o vermelho —, e um relógio gigante desaceleraria, avermelharia e sumiria.


Para os ocupantes de uma nave indestrutível, nada disso seria notado — o relógio ticaria normalmente ao cruzar o horizonte —, mas, pela relatividade geral, o Princípio de Equivalência de Einstein os cegaria para sua localização exata, enquanto forças tidais os esticariam verticalmente e comprimiriam horizontalmente, como um espaguete.


Explosões estelares geram ondas de choque que formam novas estrelas, sistemas e buracos negros. Mesmo os supermassivos no centro galáctico já devoraram o que podiam e não crescem mais. Colisões galácticas podem criar buracos negros maiores, mas são raras: o universo expande, afastando galáxias. A Via Láctea e Andrômeda devem se fundir, mas seus buracos negros centrais dificilmente colidirão.


Os buracos negros ganham massa ao devorar matéria e encolhem lentamente devido à Radiação Hawking. Essa radiação se forma porque o espaço não é um vácuo, e sim um mar de partículas que surgem e desaparecem constantemente.


Se um par dessas partículas virtuais for criado arbitrariamente perto de um buraco negro, uma particula será puxada para dentro dele e a outra escapará para o espaço, roubando energia.


Como esse processo leva bilhões de anos para acontecer, buracos negros com dezenas ou centenas de vezes a massa do Sol continuarão existindo por muito, muito tempo. 


Continua…

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

GOOGLE CHROME — COMO REDUZIR O CONSUMO DE BATERIA

ARGUMENTAR COM IDIOTAS É A MESMA COISA QUE MANDAR O VENTO NÃO SOPRAR.  


Processos contínuos que o Chrome executa em segundo plano consomem energia e drenam rapidamente a bateria se você não proceder a alguns ajustes simples:


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Ao dizer que Gerado Alckmin e Fernando Haddad "têm um papel a cumprir" na disputa pelo governo de São Paulo, Lula converteu a permanência do ex-tucano na posição de candidato à vice-presidência num roliço ponto de interrogação.

Com a popularidade no vermelho, Lula precisa atrair para sua coligação partidos grandes o bastante para potencializar seu tempo de exposição na mídia e aumentar sua vitrine na propaganda eleitoral de rádio e TV. Há na praça dois emedebistas que gostariam de concorrer a vice na sua chapa: Renan Filho e Helder Barbalho.

O filho de Renan Calheiros se equipa para disputar o governo de Alagoas, e o filho de Jader Barbalho para concorrer a uma cadeira no Senado. Mas tanto um como o outro mudariam alegremente seus planos se a articulação do xamã petista prosperasse.

Lula incluiu Simone Tebet no caldeirão paulista, mas a política sul-matogrossense é tratada no Planalto como opção para a disputa de uma cadeira no Senado — hipótese em que ela trocaria o domicílio eleitoral para São Paulo e migraria do MDB para o PSB.

Em São Paulo, o MDB de Baleia Rossi está fechado com o projeto de reeleição de Tarcísio de Freitas, e um improvável acerto com Lula produziria o duplo efeito de vitaminar a propaganda eleitoral petista e debilitar a caravana de Tarcísio.

Ainda que seu candidato não vença, interessa a Lula empinar um nome que reduza seu infortúnio no maior colégio eleitoral do país. Haddad cumpriu esse papel em 2022, mas perdeu no segundo turno para Tarcísio por 54,34% a 44,66% dos votos válidos. Mesmo assim, o resultado foi vital para o macróbio petista prevalecer sobre o capetão-golpista pela margem mixuruca de 1,8 ponto porcentual.


1 — Comece selecionando Configurações > Aplicativos > Chrome > Dados Móveis e desabilitando a opção Permitir uso de dados em segundo plano.


2 — Em seguida, abra o Chrome, toque nos três pontinhos (no canto superior direito da tela) e, em Configurações > Privacidade e segurança > Páginas pré-carregadas, marque a opção Sem pré-carregamento.


3 — Ainda nas Configurações do Chrome, toque em Serviços do Google e desabilite Melhorar as sugestões de pesquisa. Feito isso, toque em Notificações > Configurar em Chrome e marque a opção Fechar todas as solicitações.


4 — Finalmente, na tela inicial das configurações do Chrome, toque em seu nome de usuário e, em Sincronização, desabilite todos os itens que você não quer sincronizar.


Tenham todos uma ótima quarta-feira de cinzas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ACABOU MAIS UM CARNAVAL

O SOL QUE DESPONTA TEM QUE ANOITECER.

Tecnicamente, o Carnaval termina hoje, mas, dependendo da cidade onde se está e de com quem se fala, a folia começou bem antes da última sexta-feira e — como algumas ressacas-mãe — vai até daqui a alguns dias.


Coisas do Brasil, onde o ano só começa de fato após o Rei Momo — personagem da mitologia grega que originalmente representava a ironia e o sarcasmo, mas que foi adaptado pelos foliões e transformado num dos principais símbolos do Carnaval — devolver a coroa e o cetro para o presidente de plantão.


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Nada de autocontenção ou de autocorreção. Para blindar Toffoli, o Supremo fez opção preferencial pela autocombustão. Os ministros rodaram as togas contra a PF e atribuíram a Toffoli (quem mais?) a perfídia do vazamento das conversas mantidas a portas fechadas.

Juiz lendário da Suprema Corte dos Estados Unidos, Louis Brandeis ensinou que a luz do Sol é o melhor detergente. E alguma coisa está muito errada quando ministros supremos se aborrecem mais com a claridade do que com o escuro.

Nunes Marques desqualificou o relatório em que a PF expôs as relações promíscuas entre Toffoli e Vorcaro. Gilmar afirmou que a corporação "quis revidar", pois ficou abespinhada com decisões tomadas por Toffoli como relator do caso Master. Atribuiu-se a Moraes, sem aspas, a avaliação segundo a qual os agentes tiveram um comportamento sujo ao investigar Toffoli. O próprio Toffoli considerou o relatório nulo, e foi seguido por Zanin. Fux e Mendonça levaram a mão ao fogo pelo colega. Em suma, ficou entendido que, para a maioria dos magistrados, a palavra da PF é um "nada", um "lixo", um "revide", "tudo nulo".

Fachin precisa submeter o relatório da PF ao teste da luz do Sol — senão por dever institucional, ao menos por piedade dos brasileiros. Quem financia a bilheteria pagando os salários dos magistrados tem o direito de conhecer o enredo ensaiado nos bastidores do picadeiro.

Antes da chegada do relatório às mãos do presidente da Corte, Toffoli perambulava pelo noticiário seminu. Ao assumir o controle, impôs sigilo absoluto às investigações e imiscuiu-se no trabalho dos procuradores. Depois que a PF entregou o documento, migrou dos fundões do seu gabinete para a vitrine, e ficou com os glúteos à mostra para quem passa defronte da fachada do STF.

A estátua de Themis — aquela senhora de pedra que guarda a entrada do prédio — não vê nem ouve, mas os ministros que frequentam o plenário dentro da Corte não deveriam fechar os olhos e os ouvidos para as emboscadas da sorte.

Os fatos não deixam de existir porque os ministros os ignoram. Constrangido pelas relações esmiuçadas pela PF, Toffoli foi compelido a admitir que é sócio da empresa Maridt e que vendeu uma participação no resort Tayayá para o fundo Arleen, cujo gestor é o pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro.

Toffoli alegou que as cotas de sua empresa no resort foram transferidas para a pirâmide do Master em 2021, mas não explicou por que a PF encontrou no celular de Vorcaro mensagens de maio de 2024 cobrando de Zettel pagamentos pendentes da transação do Tayayá. Numa delas, Vorcaro revela-se irritado com a demora nos pagamentos ao resort: "Cara, me deu um puta problema. Onde tá a grana?". E Zettel: "No fundo dono do Tayayá. Transfiro as cotas dele". Vorcaro pede esclarecimentos sobre o montante e Zettel expõe as cifras: "Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões."

Quer dizer: Toffoli tem 35 milhões de razões para fugir e uma investigação criminal esboçada no relatório da PF como incontornável, mas o STF lhe ofereceu blindagem na reunião secreta de quinta-feira. Entre uma pancada e outra na PF, fabricou-se nesse encontro uma saída, "a pedido", da relatoria. A pantomima foi ornamentada com um comunicado oficial muito parecido com um escudo, no qual suas excelências descartaram a suspeição e, numa demonstração de apoio ao colega, enalteceram os "altos interesses institucionais" e a "dignidade do eminente magistrado". Todo brasileiro ficou desobrigado de fazer sentido depois da divulgação desse informe.

Tomado pela coreografia, o STF finge que o óbvio não é óbvio e desconsidera a hipótese de autorizar a PF a investigar Toffoli. Os ministros parecem ignorar que, na época em que as palavras ainda tinham algum significado, a "dignidade" que atribuem a Toffoli era uma expressão comparável à virgindade. Perdeu está perdida. Não dá segunda safra.


Para os católicos, a Quarta-feira de Cinzas marca o início da Quaresma. O Carnaval ocorre exatamente 47 dias antes da Páscoa, que é uma data móvel — celebrada no primeiro domingo após a primeira lua cheia que ocorre depois do equinócio de primavera no Hemisfério Norte —, daí o Carnaval mudar de dia a cada ano, mas situando-se sempre entre 4 de fevereiro e 9 de março. 


A missa das cinzas — tradição que foi seguida religiosamente (sem trocadilho) até meados do século passado — ainda é prestigiada pelas indefectíveis beatas e uns poucos católicos tradicionalistas (ao menos nos grandes centros urbanos). No ritual em questão, as cinzas produzidas pela queima dos ramos de palmeiras ou oliveiras e abençoados no Domingo de Ramos do ano anterior são misturadas com água benta e usadas pelo padre ou celebrante para “desenhar” uma cruz na fronte dos fiéis, que são convidados a refletir sobre o dever da conversão e a fragilidade da vida humana. 


Interessa dizer que o Carnaval é a época em que as pessoas mais esquecem objetos em táxis e em veículos de transporte por aplicativo. Também nessa época os furtos e roubos de smartphones crescem assustadoramente devido às inevitáveis aglomerações e ao hábito dos sem-noção de fazer ou atender ligações e, principalmente, de tirar selfies com seus aparelhos sem adotar as devidas precauções.


Seguros para smartphones não são exatamente uma novidade, mas algumas empresas vêm oferecendo modalidades mais flexíveis, com cobertura por prazos curtos. Muitas não cobram multas por rescisão antecipada do contrato, não estipularem carência nem franquia para o reembolso e não criam empecilhos na hora de indenizar as vítimas de furtos simples (prejuízo que a maioria das seguradoras não costuma cobrir). Além disso, o reembolso costuma ser feito num prazo bem menor que o limite estabelecido pela SUSEP.


Observação: Da mesma forma que cada pessoa possui um número de CPF, cada celular é identificado individualmente pelo IMEI, que vem impresso na carcaça do aparelho (nos modelos em que a bateria é removível ele costuma ficar sob a dita-cuja) e na embalagem original. Esse número consta obrigatoriamente da nota fiscal de compra e pode ser visualizado no display do próprio aparelho — basta teclar o comando *#06#.


Levantamentos divulgados por secretarias de segurança pública mostram que, apenas durante os dias oficiais da festa, milhares de aparelhos mudam de dono sem cerimônia, sobretudo em blocos de rua, desfiles e grandes concentrações. Assim, se seu aparelho for furtado ou roubado, registre um boletim de ocorrência — o que pode ser feito também pelas delegacias eletrônicas — e bloqueie o aparelho junto à operadora usando o número de IMEI, de modo a impedir sua reutilização com outro chip. 


Vale também recorrer aos serviços de localização e bloqueio remoto — oferecidos pelos próprios sistemas operacionais —, que travam o telefone e apagam seus dados à distância. Igualmente importante é trocar imediatamente as senhas de aplicativos bancários, redes sociais e serviços de pagamento, já que, para muitos, o smartphone funciona como carteira, cofre e identidade digital. Algumas iniciativas oficiais, como plataformas governamentais de bloqueio integrado, também dificultam a revenda e o reaproveitamento desses aparelhos no mercado paralelo.


No fim das contas, a Quarta-feira de Cinzas chega para todos — inclusive para quem acorda sem o celular. Nesse momento, mais do que penitência, o que se exige é informação, rapidez e um pouco menos de confiança na boa-fé alheia. Depois que o confete é varrido e a serpentina vira lixo, o que sobra não é só a ressaca: sobra também a conta.


No Brasil, o Carnaval acaba na Quarta-feira de Cinzas, mas para quem perdeu o celular, a penitência costuma durar bem mais que quarenta dias.



Boa sorte.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

MAIS UM CARNAVAL

EM CERTAS ÉPOCAS DO ANO, O BOM SENSO ENTRA EM RECESSO COLETIVO, MAS A CONTA SEMPRE CHEGA.

Os feriados católicos têm por base a Páscoa, que é comemorada no primeiro domingo após a primeira lua cheia posterior a 21 de março. Assim, a terça-feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa, e o feriado de Corpus Christi, 60 dias depois.

"Carnaval" vem da expressão latina carnis levare — o jejum da carne e de outros prazeres mundanos que a Igreja Católica proíbe durante a Quaresma. No Brasil, milhares de blocos arrastam multidões e o povo esquece momentaneamente que a realidade existe. Em algum momento, porém, a música para e a ressaca entra sem pedir licença.

Dor de cabeça, tontura, fadiga, náuseas e outros desconfortos na manhã posterior ao pifão não são consequências do camarão da empadinha, mas de baldes de caipirinha e dúzias de latinhas de cerveja. A ressaca — tão inevitável quanto a morte e os impostos — costuma se manifestar de seis a oito horas após o porre, mas o tempo que leva para passar varia de pessoa para pessoa e da quantidade de álcool ingerida.

Atribui-se a ressaca ao aumento da concentração de substâncias inflamatórias, à alteração dos hormônios que regulam o sono, às oscilações da glicose no sangue e até aos “aditivos” embutidos nas bebidas alcoólicas. Ainda assim, não se sabe exatamente por que os sintomas surgem após a eliminação do álcool pelo organismo. Seja como for, o troço é um porre.

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Segundo a pesquisa Meio/Ideia, a maioria dos eleitores (51%) acha que Lula não deve continuar no Planalto. Para 47%, ele merece obter um quarto mandato. Os dados sinalizam três coisas:

1) A maioria do eleitorado chega a 2026 com desejo de mudança; 2) Numa eleição de caráter plebiscitário, a dificuldade em envernizar a própria imagem tornou-se a principal debilidade de Lula; 3) Não há um franco favorito na praça.

No pedaço que traz as intenções de voto, a pesquisa revela que a pulverização da direita favorece o candidato ao quarto mandato. Em todos os cenários, o petista aparece com um pé no segundo turno; numericamente à frente dos adversários, mas amarga um empate técnico com o Flávio Bolsonaro, o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, sua madrasta Micheque e o vassalo bolsonarista Tarcísio de Freitas.

Supondo que Lula vá mesmo ao segundo turno e que a submissão de Tarcísio ao líder preso seja definitiva, postulantes ao Planalto que se oferecem como opções de direita terão que brigar com o filho do pai pela segunda vaga. Em declarações recentes, Ratinho Jr. reiterou ser favorável ao indulto do golpista, e Ronaldo Caiado insinuou um pacto de não agressão a seu primogênito.

O eleitor conservador talvez prefira o herdeiro de sangue aos Bolsonaros genéricos. Nessa hipótese, o molusco enfrentaria 2026 com as armas de 2022, torcendo para que a minoria independente de centro lhe dê novamente a vitória, ainda que por uma margem mixuruca.

Vodca, gim e outras bebidas compostas basicamente por água e álcool castigam menos que uísque e vinho, mas é fundamental atentar para a qualidade: marcas como Popov e Príncipe Igor, nem na caipirinha. O álcool da cerveja é o mesmo do uísque, do vinho, da vodca, do gim, do conhaque e dos demais destilados; o que muda é apenas a concentração. Não misturar destilados e fermentados, não beber de estômago vazio nem comer como um porco na ceva antes de encher o caneco ajuda a amenizar o day after.

A não ser em casos de coma alcoólico — quando se deve procurar um pronto-socorro —, deixar o organismo processar o álcool naturalmente e evitar comidas ácidas, gordurosas ou de difícil digestão minimiza o desconforto. O famoso “tomar mais uma para rebater” pode até funcionar momentaneamente, mas o nível de álcool no organismo terá de baixar mais cedo ou mais tarde.

Observação: O Bloody Mary — que leva vodca, suco de tomate, pimenta-do-reino, tabasco, limão, gelo e uma pitada de sal — é infalível na cura da ressaca… ou pelo menos era o que juravam Frank Sinatra, Judy Garland, Humphrey Bogart, Sammy Davis Jr., Jerry Lewis, Dean Martin, Elizabeth Taylor e outros devotos dessa beberagem.

A única forma eficaz de evitar a ressaca é a abstinência, mas essa recomendação é solenemente ignorada pela maioria. Para piorar, não existe fórmula mágica para curá-la, embora uma boa noite de sono e muita água, água de coco, isotônicos, sucos, frutas, proteínas leves e carboidratos ajudem na recuperação. Caldos e sopas estão liberados, desde que com pouco sal. Dietas líquidas ajudam a hidratar, mas não fazem milagre. Jejuns prolongados, horas na sauna ou corridas sob um sol senegalês também não resolvem — ao contrário, só acentuam a desidratação.

Refrigerantes normais são preferível aos dietéticos — o açúcar (glicose) ajuda a metabolizar o excesso de álcool. Cerveja, vinho e outras bebidas alcoólicas até aplacam a sede, mas não hidratam o organismo. A cafeína bloqueia os receptores de adenosina, ajudando a atenuar os sintomas da ressaca. Analgésicos aliviam a dor de cabeça, mas não atuam na causa do problema. É importante evitar medicamentos à base de paracetamol, que, combinados com o álcool, castigam ainda mais o fígado, que já está combalido pelo excesso de bebida.

Torradas com mel ou geleia no café da manhã, sopa ou salada de legumes cozidos no almoço, muito líquido e uma boa dose de paciência podem tornar a Quarta-feira de Cinzas — dia de penitência e reflexão para os carolas e antessala do inferno para os foliões que abusaram da cangibrina — mais suportável, ainda que o meio-expediente transcorra ao som imaginário de uma bateria de escola de samba tocando a marcha fúnebre.

Por último, mas não menos importante: o grande fluxo de pessoas e a aglomeração em espaços públicos aumentam consideravelmente os casos de furtos e roubos de celulares. As inevitáveis aglomerações e o hábito de falar ao celular ou tirar selfies sem precaução favorecem furtos e roubos de aparelhos. Para reduzir os riscos, recorra a pochetes ou bolsas de uso corporal, evite manusear o telefone em áreas muito expostas e desative temporariamente a função de pagamentos por aproximação sem senha ou autenticação biométrica. 

Para se prevenir contra golpes como a clonagem do WhatsApp e acessos indevidos a contas bancárias — que se tornam mais frequentes nessa época —, ative a verificação em duas etapas nos aplicativos, use senhas fortes e mantenha os softwares atualizados. Se possível, leve para a folia um aparelho alternativo, sem acesso a apps bancários ou outros dados sensíveis.

 Dinheiro, relógios vistosos, pulseiras, correntes e até tênis de grife também atraem a atenção dos amigos do alheio. Expor-se ao sol escaldante sem protetor solar de fator adequado causa danos à pele, e não usar óculos escuros de marcas confiáveis — evite produtos dos melhores camelôs do ramo — pode “queimar” as córneas, acelerar o surgimento de cataratas e comprometer a visão.

Se você sobreviver a mais este Carnaval, tente lembrar do que leu aqui no próximo — ou no Réveillon, ou sempre que sentir aquela vontade irresistível de enfiar o pé na jaca. Porque a festa passa, o confete some, mas o fígado, a conta bancária e o bom senso cobram juros.