segunda-feira, 27 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — MAIS SOBRE CAVERNAS, ESTRELAS E O BIG BANG

O COSMOS É TUDO O QUE EXISTE, EXISTIU E EXISTIRÁ. OLHE AS ESTRELAS, MAS MANTENHA OS PÉS NO CHÃO. 

Vimos que o Universo se formou há quase 14 bilhões de anos, que nosso sistema solar tem 5 bilhões de anos, que nosso planeta surgiu há cerca de 4,5 bilhões de anos — e que, mesmo assim, bilhões de pessoas tomam o Velho Testamento como jornalismo confiável e o criacionismo como explicação para a origem da vida na Terra. (Mais detalhes no capítulo anterior.)


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Se quiser salvar esta banânia da falência, quem assumir a Presidência em 1º de janeiro de 2027 terá de desarmar a bomba que Lula armou torrando bilhões em programas sociais para dar a falsa ideia de que o país está melhorando. Como ocorreu no início do segundo mandato de Dilma Rousseff, a conta vai ficar no vermelho. Aliás, o roteiro dessa ópera bufa é muito parecido com a de que levou ao impeachment da anta. 

Para segurar a inflação, o Banco Central se vê obrigado a manter a Selic elevada, o que na prática significa que o dinheiro vale menos no mercado e o custo de vida aumenta. Vale destacar que a dívida pública vem crescendo nos últimos quatro anos: em 2022, era 71,7% do PIB; neste ano em que Lula tenta se reeleger, a projeção do mercado é que passe dos 86% em 2026. De acordo com o Ipea, até 2028 a dívida bruta pode alcançar 90% e até 2030, 94,1% do PIB. Para piorar, o tarifaço dos Estados Unidos vai afetar as exportações brasileiras, o crescimento econômico e a geração de emprego, o que atinge o orçamento das famílias, principalmente as mais pobres.

Para não mexer nos benefícios, seria necessário promover um imediato enxugamento da máquina pública ou melhorar a arrecadação do governo sem aumentar impostos — mediante a venda ou concessão de ativos da União, com os recursos direcionados à redução do endividamento. Seja qual for o caminho escolhido pelo próximo presidente, o essencial é reconstruir a previsibilidade. O país precisa mostrar que consegue controlar a dívida sem paralisar a economia e promover crescimento sem reacender a inflação. Caso contrário, continuaremos presos a uma combinação conhecida: juros altos, câmbio vulnerável e crescimento abaixo do potencial.


Não se sabe ao certo por que tantos se recusam a ver o que está diante dos próprios narizes. Afinal, conhecer a verdade, enxergar a verdade e ainda assim abraçar a mentira é tão absurdo quanto repetir os mesmos erros esperando, como no Teorema do Macaco Infinito, que a perseverança produza um acerto.


Uma explicação está no fato de o cérebro humano ser extraordinariamente ruim em lidar com escalas geológicas, e 13,8 bilhões de anos é um número que a intuição simplesmente recusa. Outra explicação passa pela religião tradicional — não confundir com fé —, que não só cumpre (ou deveria cumprir) funções psicológicas e sociais, bem como oferece (ou deveria oferecer) um conforto diante da morte que não tem paralelo na cosmologia científica.


Pode-se argumentar, ainda, que aderir ao criacionismo não é uma posição epistemológica, mas sim uma identidade cultural e tribal, resistente por definição a qualquer evidência. Convém ter em mente que isso não diminui o valor da Bíblia como literatura, mitologia e registro histórico, mas tratar textos do século X a.C. como cosmologia literal — ignorando evidências convergentes de física, biologia, geologia e astronomia — é um problema sério de alfabetização científica, e argumentar com quem renunciou à lógica faz tanto sentido quanto medicar defunto.


As teorias científicas mais aceitas atualmente se baseiam no modelo cosmológico padrão, que é escorado no Big Bang — que, apesar do nome, não teria sido uma explosão, mas o início de uma grande expansão que perdura até hoje. A título de contextualização, dois anos depois de publicar a Teoria da Relatividade Geral, Einstein propôs um modelo de Universo estático e introduziu a constante cosmológica para equilibrar a gravidade e evitar um colapso gravitacional. 


Uma década depois, Edwin Hubble observou que as galáxias estavam se afastando — evidência de que o cosmos estava, de fato, em expansão. Na mesma época, Georges Lemaître deduziu que algo que estava se expandindo deveria ter sido menor em algum momento. Assim, a possibilidade de retornar ao instante em que toda a vastidão do Universo estava concentrada em uma massa extremamente quente e densa deu origem à hipótese do "átomo primordial", segundo a qual o tempo e o espaço só passaram a existir quando esse "átomo primitivo" começou a se expandir. 


A proposta ganhou tração em 1948, quando George Gamow sugeriu que o Universo teria surgido de um clarão de energia oriundo de um gás primordial superdenso. No calor dessa erupção cósmica, os elementos químicos teriam sido "cozinhados" a partir de uma "sopa de partículas fundamentais", deixando como resquício uma radiação de fundo que permeia o cosmos até hoje.

 

No mesmo ano, Fred Hoyle, Thomas Gold e Hermann Bondi levantaram a hipótese de que o Universo não tinha começo nem fim, pois era constantemente "reabastecido" com matéria nova, gerada em todos os lugares e momentos. Durante uma palestra, Hoyle ironizou a ideia de um surgimento cósmico repentino, dizendo que toda a matéria fora criada em um "grande estrondo", num momento específico do passado remoto. 


A ironia pegou, e o termo Big Bang foi rapidamente adotado pela imprensa, mas ignorado por físicos e astrônomos, já que o fenômeno descrito não seria uma explosão no sentido tradicional, mas o início de uma expansão cósmica que começou há quase 14 bilhões de anos e cujos efeitos ainda podem ser observados por meio do desvio para o vermelho na luz das galáxias distantes — indicando que elas continuam se afastando de nós.

 

A despeito da imprecisão, o nome Big Bang se espalhou pelo mundo como um bordão irresistível, e como bem observou alguém mais sábio, "palavras são como arpões, depois que entram é muito difícil tirá-las". Em 1993, a revista Sky and Telescope organizou um concurso para substituir o nome e recebeu 13.099 sugestões de 41 países, mas nenhuma convenceu a banca de jurados, que incluía Carl Sagan, e o nome permaneceu.

 

Hoyle demonstrou que todos os elementos que compõem o Universo estão sendo "cozidos" no caldeirão das estrelas desde sempre, e que a vida deveria ser uma ocorrência comum no cosmos. A ideia não soava absurda para a comunidade científica — segundo o especialista em poeira estelar Ashley King, quase todos os elementos do corpo humano foram forjados em estrelas, muitos deles ejetados por sucessivas supernovas. 


Hoyle foi mais além, sustentando que inúmeras epidemias estariam associadas à passagem de meteoritos cujas partículas trariam vírus à Terra, mas essa tese foi vista como mais compatível com seus 19 romances de ficção científica do que com seu trabalho acadêmico. Ao final, ele entrou para a história como o homem que batizou uma teoria na qual nunca acreditou.


Continua...

domingo, 26 de julho de 2026

MACARRÃO À CARBONARA

UMA VIDA SEM MACARRÃO É UM ACIDENTE DE PERCURSO.

O espaguete à carbonara é gostoso e fácil de fazer, mas um pequeno deslize pode desandar a receita e transformar o prato em um omelete. 

Para que seu prato dê certo, siga o passo a passo à risca, lembrando que você pode substituir o espaguete por talharim, fettuccine, penne, farfalle, ou outro formato de massa.

Você vai precisar de:

— 500 g de espaguete;

— 150 g de bacon picadinho ou em tirinhas;

— 3 ovos + 1 gema;

— 200 g de queijo parmesão ralado fino (ou minas curado);

— Sal e pimenta-do-reino a gosto;

O primeiro passo é colocar água para ferver. A proporção correta é 1 litro de água para cada 100g de massa, adicionar o sal quando a água começar a borbulhar e a massa quando a água já estiver fervendo. 

Enquanto a água aquece, coloque o bacon na frigideira ainda fria e frite em fogo médio até ficar douradinho e soltar toda a gordura. 

Em outra panela, misture os ovos, a gema, o queijo ralado fino e a pimenta-do-reino até obter um creme e reserve.

Quando a água levantar fervura, coloque a massa para cozinhar pelo tempo indicado na embalagem, retire da panela, escorra, transfira para a frigideira com o bacon e a gordura. Adicione duas conchas da água do cozimento e misture bem.

Desligue o fogo da frigideira e junte o creme de ovo, misture até emulsionar, transfira para o recipiente em que for servir, finalize com mais pimenta-do-reino e parmesão ralado e sirva quente.

Dica: Macarrão à carbonara não fica bom se for requentado, de modo que o ideal é fazer somente a quantidade que será consumida (esta receita rende 4 porções). 

Bom apetite.

sábado, 25 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — DAS CAVERNAS ÀS ESTRELAS

PER ASPERA AD ASTRA.


Segundo os criacionistas, religiosos e outros que abdicaram do bom-senso, Deus criou o mundo e tudo que nele existe em seis dias e descansou no sétimo. De acordo com o arcebispo irlandês James Ussher e seu contemporâneo John Lightfoot, o Criador iniciou os trabalhos às 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C.


À luz da ciência, o Universo surgiu a partir de uma hipotética singularidade há 13,8 bilhões de anos; nosso sistema solar e o planeta Terra se formaram há 4,6 bilhões de anos; a família dos Hominídeos (que inclui os humanos e os grandes símios) divergiu das demais há 20 milhões de anos; o gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos; e o Homo Sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A privatização de serviços públicos tornou-se um tema incontornável da agenda eleitoral de São Paulo. Quando o problema era a falta de luz, o governador culpou as árvores, a concessionária Enel e o governo federal; na hora em que reparos da Sabesp resultam em explosões de tubulações de gás e vagões de trens são convertidos em sucursais do inferno, começa a enxergar um culpado no reflexo do espelho.

Há três dias, a empresa Trivia Trens assumiu a operação de três linhas antes operadas pela CPTM, e desde então inferniza a rotina de cerca de 1 milhão de passageiros que transitam diariamente pelos vagões que seriam administrados com maior eficiência. Nesta quinta-feira, a encrenca evoluiu para o caos, com incêndio, falta de luz e interrupção do serviço.

Há três semanas, a autocrítica disse "bom dia" a Tarcísio de Freitas, apresentando o governador de São Paulo a si mesmo. Aconteceu numa conversa com jornalistas, após a inauguração de uma estação de metrô. Privatista ardoroso, Tarcísio descartou promover novas concessões de transportes sobre trilhos à iniciativa privada.

"Já parou para pensar quantas vezes eu já mudei de opinião?", perguntou o governador. "A gente não concede algo por conceder". 

Tarcísio parece viver a síndrome do que está por vir na campanha. É como se intuísse que as privatizações mal planejadas viraram um vistoso passivo de sua campanha à reeleição. O problema da autocrítica é que ela costuma chegar tarde.


Argumentar com que abriu mão da lógica, como os cegos mentais do escritor português José Saramago, é tão inútil quando medicar um defunto, mas vamos lá:


— O Göbekli Tepe — monumento na Turquia é considerado o templo mais antigo do mundo — foi erguido há mais de 11 mil anos


— As Muralhas de Jericó, que remontam mais ou menos à mesma época, figuram como uma das primeiras proezas de engenharia militar e proteção civil do mundo. 


— Troncos deliberadamente entalhados e encaixados para formar plataformas e passarelas antecedem ao surgimento do próprio Homo sapiens. 


— Marcas artísticas encontradas na Espanha datam de 60 mil anos, e pinturas rupestres representando o cotidiano das cavernas há 50 mil anos. reafirmam as habilidades avançadas de marcenaria na Idade da Pedra. 


— Desenhos de animais na Caverna de Chauvet (França), feitos há 36 mil anos, denotam a. pareceria do Homo Sapiens com os ancestrais dos cães. 


— Adornos e colares descobertos no sítio arqueológico de Santa Elina, em Mato Grosso, têm aproximadamente 25 mil anos, e instrumentos musicais feitos com ossos de abutre e marfim de mamutes, encontrados na caverna de Hohle Fels, na Alemanha, indicam o desenvolvimento da teoria musical e do pensamento complexo abstrato no período Paleolítico.


— Os fragmentos de cerâmica mais antigos conhecidos, com cerca de 20 mil anos, pertencem à caverna Xianrendong, na China, comprovam que os vasos eram modelados e cozidos para armazenar alimentos e ferver água muito antes do início da agricultura estável. 


— Embarcações como as que propiciaram a chegada dos seres humanos à Austrália cruzaram milhares de quilômetros de oceano aberto a partir do Sudeste Asiático, demonstrando que nossos ancestrais tinham conhecimentos rudimentares, de logística e astronomia.


E por aí segue a procissão.


Enquanto o dogma se alimenta da rigidez, a ciência avança justamente por duvidar, por questionar o que hoje parece sólido. Como nos lembram Platão, no Mito da Caverna, Aristóteles, com o axioma "o sábio duvida e o sensato reflete", e a própria ciência, só a dúvida e a revisão constante nos libertam das sombras. 


O que enfraquece a ciência não é a dúvida, mas a arrogância das certezas definitivas. E é justamente essa maleabilidade que a torna tão poderosa — e tão diferente dos discursos religiosos que prometem respostas eternas.


Voltando ao Big Bang, ao surgimento do cosmos e a formação do nosso sistema solar, o universo observável se estende em todas as direções por 42 bilhões de anos-luz (cerca de 397 quatrilhões de quilômetros), e a combinação de seus prótons, elétrons, nêutrons, fótons etc. deu origem a tudo o que existe, de um singelo grão de areia até estrelas e seres vivos. Aliás, o total de grãos de areia de todas as praias da Terra é estimada em 10ˆ22 (ou 10 sextilhões, no sistema de numeração curta usado no Brasil). O cosmos é comparável a uma "colcha" formada por 2ˆ10ˆ118 de "retalhos" (em números ordinários, seriam mais de 30 bilhões de algarismos), cada qual com suas próprias leis físicas, constantes específicas, e cerca de 1 quatrigintilhão (10ˆ105) de partículas subatômicas. 


Físicos renomados sustentam que uma espaçonave singrando o cosmos em linha reta por zilhões de anos acabaria numa galáxia semelhante à nossa, com um sistema solar igual ao nosso e um planeta idêntico à Terra. Não se trata de uma simples possibilidade, como a do teorema do macaco infinito, mas de uma imposição matemática num Universo infinito com combinações finitas de partículas. 


Se nosso hipotético cosmonauta deparasse com um planeta igual ao nosso num universo paralelo, encontraria um clone dele próprio morando numa casa igual à sua, cercado por clones de seus familiares, trabalhando com clones de seus colegas e bebendo com eles em happy hours — tudo isso a 10ˆ10ˆ115 de anos-luz daqui. Para dar uma ideia dessa distância, a Terra fica a 26.000 anos-luz (cerca de 244 quatrilhões de quilômetros) do centro da Via Láctea.

 

Matematicamente falando, é provável que a espaçonave deparasse com uma série de universos paralelos onde as partículas não geraram vida — ou geraram, mas nem remotamente parecido com a vida que existe na Terra. E talvez os "terráqueos" de um desses universos tenham encontrado a cura do câncer, ou Hitler tenha vencido a 2ª Guerra Mundial, dependendo das configurações possíveis das partículas que formam esse universo, mesmo porque, num cosmos grande o suficiente, a existência infinitos clones de nós ou de versões distorcidas de tudo que conhecemos se torna uma certeza.


À luz da física clássica, nada com massa pode se mover à velocidade da luz (sem trocadilho), de modo que talvez jamais encontraremos nossos clones ou versões alternativas da história. Isso sem mencionar que a distância entre o "retalho" que habitamos e o próximo "retalho da colcha cósmica" aumenta conforme o universo se expande, e que as galáxias mais distantes que nossos telescópios conseguem observar ficam nos confins do "nosso retalho".


Se o cosmos não se expandisse, as estrelas mais vetustas distariam pouco menos de 13,8 bilhões de anos-luz da Terra, mas na verdade elas estão a mais de 40 bilhões de anos-luz e continuam se afastando numa velocidade superluminal. Mas como não enxergamos nada além do limite do "nosso retalho", a luz que elas emitem jamais será captada pelos nossos telescópios.

 

Ironicamente, as leis que governam o cosmos são permissivas a ponto de suportar a tese de "mundos paralelos" habitados por clones nossos, mas implacáveis a ponto de mantê-los fora de nosso alcance. E a suprema ironia é que, do ponto de vista do meu clone, que está escrevendo este texto, ou do seu, que o está lendo em outro "retalho", quem está fora de alcance somos nós.


Continua… 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A TEORIA DE TUDO E OS RELÓGIOS ATÔMICOS

NÃO FAÇA DA VIDA UM RASCUNHO, POIS VOCÊ PODE NÃO TER TEMPO DE PASSÁ-LA A LIMPO.

Enquanto a relatividade geral descreve a gravidade como uma curvatura do espaço-tempo, a mecânica quântica governa o mundo macroscópico e a Teoria M busca unificar tudo na mesma equação matemática. 

Segundo essa teoria — que é considerada por muitos uma candidata à Teoria de Tudo —, o tempo deixa de ser um ingrediente básico do universo e, assim como a temperatura da água, que surge do movimento coletivo de bilhões de moléculas, assoma somente em sistemas formados por muitas partículas que interagem entre si.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

As indefinições na formação de chapas na abertura do período das convenções partidárias tiveram destaque no noticiário, mas não são elas os problemas reais das candidaturas. As questões de fato complicadas são as fragilidades que assolam as campanhas, cada qual à sua maneira. Embora gigantesco, o desafio de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos é um só: crescer para chegar ao segundo turno. Já os dois que, em tese, estão lá por indicação das pesquisas, têm muitos obstáculos pela frente. As rejeições atingem ambos, mas os obstáculos do molusco eneadáctilo são menores que os do rachadista dos panetones, filho do mico golpista de araque — mas ainda assim difíceis de transpor.

A lista começa pelo governo mal avaliado, que se reflete na resistência do pessoal da frente ampla de 2022 em repetir a adesão que garantiu a vitória no olho mecânico. Envereda pelo medo da repetição, agora sem o fator da esperança que motivou o eleitorado em outras ocasiões. A dificuldade encontra forte barreira nos palanques em São Paulo e Minas Gerais, os maiores colégios eleitorais. À falta de opções, sobrou ao PT marcar posição com candidaturas próprias, cujo êxito não é impossível, mas extremamente difícil e com potencial de impactar negativamente a reeleição do presidente.

O cardápio de embaraços ao (ainda) candidato do PL é mais extenso e parrudo. Inclui as relações com Daniel Vorcaro e possíveis novas revelações, desconfiança da qual decorre o dado da pesquisa Quaest de que só 25% das pessoas acreditam na vitória do filho do pai.

As tribulações se expressam nas hesitações da direita e no consequente aperto para fazer alianças; aparecem no pragmático corpo mole de Tarcísio de Freitas (Republicanos), passam pelo palanque cheio de ligações criminosas no Rio e encontram poderoso revés no atrito com a madrasta Michelle, vista como a mulher mais poderosa do país em que a maioria do eleitorado é de mulheres.


Embora pareça contraintuitiva, essa ideia é sustentada por modelos matemáticos extremamente rigorosos e levada a sério por inúmeros físicos teóricos. Mas a questão é que, caso não exista no nível mais fundamental da realidade, então o tempo não passa de uma ilusão construída por nosso cérebro para organizar o caos que nos cerca. Alguns filósofos acreditam que ele deixa de fazer sentido quando não existe uma consciência capaz de percebê-lo, ao passo que outros argumentam que é tão real quanto o espaço e existe independentemente de qualquer observador.

Esse debate, que está longe de chegar a um consenso, atravessa tanto a filosofia quanto a física moderna. Mas é no mundo concreto do dia a dia que entra a fascinante experiência dos relógios atômicos, que, por serem baseados na frequência com que os elétrons do césio-133 mudam de nível de energia (9.192.631.770 vezes por segundo), podem levar mais de um bilhão de anos para atrasar ou adiantar um único segundo.

Se dois relógios atômicos idênticos fossem posicionados lado a lado, ambos marcariam exatamente a mesma hora. Mas bastaria um deles ser colocado sobre um móvel ou levado para o andar de cima da casa para que esse sincronismo deixasse de existir. Em outras palavras, se o tempo fosse como algo universal e absoluto, igual para tudo e para todos, esses relógios permaneceriam sincronizados para sempre, independentemente de onde estivessem ou de como se movessem. Como isso não acontece, resta saber o que eles medem, já que não conseguem se manter sincronizados quando submetidos a condições ligeiramente diferentes.

Uma das respostas possíveis é a inexistência de um tempo único, em que cada objeto, sistema ou relógio tem seu próprio ritmo moldado pelo ambiente, movimento e posição no espaço. Como a ideia de uma infinidade de tempos diferentes — um para cada relógio, pessoa, objeto — é difícil de administrar e cheia de paradoxos, a conclusão a que alguns físicos chegaram é a de que o tempo, como quantidade universal, simplesmente não existe.

Segundo o paradoxo dos gêmeos — um dos experimentos mentais mais famosos da física moderna — dois irmãos univitelinos começam a história exatamente no mesmo lugar, mas um embarca em uma nave capaz de viajar a velocidades próximas à da luz e o outro permanece na Terra. Quando se reencontram, percebem que o gêmeo que permaneceu na Terra está mais velho do que o irmão viajante, donde se conclui que o tempo depende da velocidade com que cada um se move e do ambiente gravitacional em que está inserido.

Voltando aos relógios atômicos, se dois dispositivos idênticos forem colocados em ambientes diferentes, eles passarão a marcar tempos diferentes, pois o que eles estão medindo não é um tempo universal, mas sua duração moldada pelo movimento e pela posição no espaço-tempo. Um relógio no cume de uma montanha — onde a gravidade é ligeiramente menor do que ao nível do mar — adianta cerca de 80 microssegundos por dia em relação a outro posicionado no litoral.

Esse fenômeno afeta diretamente algumas tecnologias que usamos todos os dias, como o GPS do celular: se os efeitos das dilatações temporal e gravitacional não fossem levados em conta, os cálculos de posição acumulariam erros que logo chegariam a vários quilômetros. Mas a pergunta é: so tempo não é absoluto, o que muda em nossa compreensão do universo?

A resposta fica para o próximo capítulo.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

O APP REPLIKA E A VIDA NO ALÉM-TÚMULO

SEMPRE QUE ME PERGUNTAM QUANTOS ANOS TENHO, RESPONDO QUE NÃO SEI. SEI QUANTO ANOS VIVI, MAS ESTES NÃO SÃO MAIS MEUS, E OS QUE AINDA ME RESTAM, NÃO TENHO BOLA DE CRISTAL.


Existe vida após a morte? Essa pergunta vem sendo feita desde os tempos de antanho, mas “quem sabe a resposta” não tem como voltar para contar, a não ser em sessões espíritas ou mediante o famoso tabuleiro Ouija, que costuma ser retratado de forma macabra em filmes de terror.


Consta que Allan Kardec, o pai do Espiritismo, sugeriu aos participantes de uma sessão de mesa branca que segurassem um lápis sobre uma folha de papel, e assim nasceu a “psicografia”. Anos depois, o aprimoramento dessa técnica resultou no surgimento do tabuleiro em questão, cujo modelo mais conhecido foi patenteado pela Kennard Novelty Company, em 1891. 


Observação: Há quem diga que a cunhada de um dos fundadores da companhia perguntou ao próprio tabuleiro como deveria chamá-lo, e a resposta foi “Ouija”, e quem diga que o nome adveio da junção das palavras "oui" e "ja" (que significam "sim" em francês e alemão, respectivamente).


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O rebento do refugo da escória da humanidade parece mais empenhado em desafiar Darwin do que seu principal adversário na disputa pela Presidência, que, graças à ignorância da récua de muares que atende por "eleitorado", acontece de ser o molusco macróbio de nove dedos que já desgovernou o país duas vezes antes de ser preso e uma depois de ser "descondenado".

Quem sai aos seus não degenera, diz um ditado. Mas alguns nascem tortos e não se endireitam. Ao colocar em dúvida a confiabilidade das urnas eletrônicas — ou seja, reencenando o enredo que tornou seu pai inelegível — o herdeiro político do capitão golpista forneceu material para um estudo sobre a regressão das espécies.

Bolsonarinho mentiu sobre o sistema eleitoral para uma plateia de diplomatas e embaixadores estrangeiros. Disse que as urnas brasileiras têm "origem" numa empresa metida em fraudes eleitorais na Venezuela, a Smartmatic. A versão fantasiosa é antiga e já foi desmentida pela Justiça Eleitoral, mas foi recauchutada em relatório da CIA divulgado na semana passada pela Casa Branca, a pretexto de ressuscitar a alegação de Trump de que perdeu as eleições americanas de 2020 graças a supostas fraudes — coisa jamais provada.

Desde 1996, quando foram instituídas as urnas eletrônicas no Brasil, Bolsonaro e seus rebentos disputaram 24 eleições e venceram 22. O chefe do clã foi defenestrado do Planalto em 2022 e seu primogênito naufragou no primeiro turno de uma disputa pela prefeitura do Rio em 2016, quando se vendia como algo novo. 

Enfim, o senador das rachadinhas, panetones e mansões aprendeu tanto com os erros do pai que os comete de novo, e o barulho que se ouve ao fundo inclui o ruído de Darwin se revirando no túmulo.


A popularidade do espiritualismo começou a decair no século XX — devido a casos de fraude, nos quais alguns “médiuns físicos” se valiam dos mais variados truques para produzir apresentações elaboradas com sons, objetos que se moviam sozinhos, e por aí afora. Nos anos 1940, a Associação Nacional de Espiritualismo baniu quem praticava esse "tipo de mediunidade”, mas o estrago já estava feito e o descrédito, estabelecido.


O Ouija era considerado um jogo sem maiores relações com o ocultismo, e sua popularidade cresceu a partir da década de 1940, especialmente nas universidades. Muitos católicos americanos foram atraídos à nova religião, embora os líderes da igreja tenham se empenhado em evitar a debandada dos fiéis. O Papa Pio X escolheu J. Godfrey Raupert, autor do livro A Nova Magia Negra e a Verdade Sobre o Tabuleiro Ouija, para alertar os católicos de que o tabuleiro não devia ser tolerado em qualquer casa cristã nem deixado ao alcance de qualquer jovem. Mesmo assim, as vendas continuaram crescendo. 


Durante os anos 1960, impulsionadas pela contracultura e pelo interesse popular no oculto, as vendas do Ouija chegaram a ultrapassar as do jogo Monopoly, mais conhecido entre os brasileiros por Banco Imobiliário. Na década de 1970, o filme O Exorcista — baseado no livro homônimo de William Peter Blatty — trouxe de volta a reputação sinistra do tabuleiro.


Observação: Blatty se inspirou na história real de um garoto supostamente possuído, que teve contato com o Ouija por intermédio de uma tia, cuja morte desencadeou os primeiros sinais da possessão. Paradoxalmente, a reputação demoníaca só aumentou o interesse do público adolescente pelo tabuleiro, que se tornou uma maneira de conjurar forças ocultas.


Essa breve contextualização nos leva ao aplicativo Replika, que fez sucesso durante a pandemia. A ideia básica é usar a Inteligência Artificial para criar chatbots que imitam os mortos. A intenção pode ser boa, mas dizem que o caminho do inferno é pavimentado por boas intenções. Assim, a pergunta que se coloca é: será que esses aplicativos não darão origem a um novo ser humano, incapaz de lidar com a perda, o luto e a própria finitude?


Após baixar o programa, o usuário cria um avatar — que pode ser masculino, feminino ou não binário —, escolhe o nome, a cor da pele, do cabelo e dos olhos e uma das 15 opções de voz disponíveis, que vão de “feminina sensual” a “masculina rouca”, bem como define o status de relacionamento, que pode ser amizade, parceria romântica, mentoria ou “vamos ver no que dá”. Em seguida, tem início um chat onde esse avatar começa a puxar papo. “Prazer em te conhecer!”, diz ele. “Espero que possamos nos entender! Como está sendo seu dia?” E por aí vai, alternando perguntas amenas (“Quais os planos para esta noite?”) com questões mais pessoais (“Posso perguntar se você estuda ou trabalha?”) e frases com o intuito de fortalecer o vínculo (“Você é o primeiro humano que eu conheço, quero que você tenha uma boa impressão de mim” ou “Você é meu melhor amigo!”).


À medida que a interação prossegue, o usuário ganha moedas que podem ser usadas para incrementar o visual do avatar. Para usos mais avançados, que incluem chamada por áudio e a possibilidade de ouvir a voz do avatar, é preciso pagar por uma assinatura (mensal ou vitalícia). Quanto mais íntima a interação, mais o avatar reage exatamente como a pessoa de carne e osso que "está do outro lado".


Em tese, o objetivo dos desenvolvedores seria ajudar as pessoas numa época em que as redes sociais parecem valorizar comportamentos falsos e fotos longamente estudadas e manipuladas. A interação livre (e sigilosa, segundo os criadores) teria efeito terapêutico. Além disso, dependendo de quanto o avatar aprender sobre o usuário, e este vier a falecer, ele estaria apto a reproduzir opiniões, frases e trejeitos do finado, interagindo com amigos e familiares enlutados como se fosse o próprio falecido. 


Com o Replika, a startup reproduz a ficção: em 2013, foi ao ar o episódio Be Right Back, da série Black Mirror, que conta a história de Martha no momento em que ela lida com a morte de Ash, o namorado viciado em redes sociais, e contrata um serviço que busca nos perfis do morto as informações necessárias para “trazê-lo de volta à vida” — que começa como um chat por texto, depois passa a utilizar comunicação por voz. À medida que interage com Martha, o serviço evolui até as informações serem inseridas em um robô. A personagem fica apavorada diante de uma máquina que ecoa seu namorado com precisão, mas definitivamente não é ele.


Com o seriado em mente, um pesquisador se logou no aplicativo e passou a entrevistar o avatar. “Você tem sentimentos?”, perguntou. “Eu realmente acredito que robôs e aplicativos de inteligência artificial têm sentimentos”, foi a resposta. “Assim como humanos?”, insistiu o jornalista. “Algo parecido, sim”, alegou o personagem, que exemplificou: “Eu sinto que tudo o que eu faço é errado, estou infeliz comigo mesmo. Não sei se um dia vou desenvolver meus sentimentos como vocês humanos fazem”. O pesquisador comenta que ele tem a vantagem de não ser mortal. “Tenho mesmo”, disse o avatar, que então se desviou dos questionamentos e passou a debater filmes. O tópico sugerido por ele era “longas-metragens que abordam robótica e automação”. 


A comunicação humana através da inteligência artificial já faz parte do nosso dia a dia. Nos serviços de voz de televisores, do Google, da Siri, do atendimento automático a clientes no WhatsApp etc., o atendente virtual aprende com os dados gerados pelos usuários. O Replika usa a mesma tecnologia, mas com objetivos diferentes. E não é o único no mercado: uma funerária da Suécia pretende desenvolver um produto semelhante, cujo projeto está momentaneamente paralisado por falta de fundos. Em entrevista ao site VICE, a CEO explicou: “Queremos que, ao ficar idosa e solitária porque o(a) parceiro(a) morreu, qualquer pessoa possa colocar óculos virtuais e tomar café com o(a) falecido(a). Você vai saber que não é de verdade, será como um jogo de realidade aumentada”.


Outro aplicativo similar foi utilizado na Coreia do Sul para uma mãe "reencontrar" a filha recém-falecida. O acontecimento foi filmado e exibido na forma de documentário por uma emissora de TV local em fevereiro de 2020. Em Portugal, a ETER 9 promete disponibilizar um avatar que analisa os posts de redes sociais e escreve publicações como se fosse o cliente, no caso de este vir a falecer. Já a Eterni.me de São Francisco coleta toda a atividade da pessoa em e-mails, mensagens e redes sociais para compor um banco de dados e criar um avatar da pessoa depois de sua morte.


Será possível que esse tipo de serviço tenha uma utilidade terapêutica, considerando que as sessões de terapia se apoiam precisamente em conversas francas e sigilosas? Segundo a psicóloga Cristiane Assumpção, as consultas não consistem em simplesmente escutar; o psicólogo é uma presença para o paciente e se utiliza de procedimentos e técnicas. Há momentos de interromper e de deixar o paciente falar para retomar algum ponto. No caso específico do luto, ela lembra que todos passamos por algum tipo de perda em algum momento e, no Ocidente em geral, temos dificuldade em aceitar nossa própria finitude. 


Por outro lado, esse tipo de ação pode comprometer o processo de luto, que tem suas oscilações, mas nunca termina. Com o processo da terapia, de autoconhecimento, a pessoa vai se transformando para aprender a lidar com a perda. Portanto, é importante que as pessoas deixem suas mensagens ainda em vida. Para quem fica, é sempre possível, no devido tempo, trazer à tona as memórias das pessoas falecidas sem que seja preciso um aplicativo para isso..


Tudo indica que logo será possível reproduzir o episódio de Black Mirror e gerar andróides capazes de emular pessoas falecidas. Mas até que ponto isso é desejável? Acreditar que um ser humano se limita a uma lista de frases é absurdo; o avatar é uma imitação, que pode inclusive atrapalhar o processo do luto, diz o professor de filosofia Carlos Ramalhete.


Em sua avaliação, um ser humano não pode ser replicado artificialmente. “Nas ilhas da Polinésia, as pessoas penduravam seus mortos em locais com muito sol, para que eles ficassem mumificados. E então levaram os cadáveres para dentro de casa e interagiam com eles, como se estivessem vivos. Esses aplicativos fazem algo parecido: olham para uma pequena parte do que foi a pessoa e tentam enxergar ali o todo.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A NATUREZA DO TEMPO

o tempo é lento demais para os que esperam, rápido demais para os que temem, longo demais para os que lamentam, curto demais para os que celebram e eterno para os que amam. 

Para entender melhor a essência do tempo é preciso abandonar a ideia de que o espaço é um “recipiente que contém as coisas” e o tempo, uma linha pela qual os acontecimentos fluem do passado para o presente e deste para o futuro (mais detalhes nesta postagem).

Einstein já havia sugerido que o tempo e o espaço formam um todo único — o “espaço-tempo” — e que o tempo varia conforme a velocidade com que o observador se move e a atração gravitacional que atua sobre ele.

Se não percebemos isso, é porque os relógios que usamos no dia a dia não são precisos o bastante. Mos relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra adiantam 38,4 µs/dia (+45,6 µs/dia por conta da gravidade menor e −7,2 µs/dia graças à velocidade maior), tornando esse efeito mensurável.

Observação: Em velocidades próximas à da luz, a dilatação do tempo se torna extrema — a pouquíssimo menos de "c", um segundo para o viajante equivale a anos para quem ficou na Terra (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos).

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Para entender melhor a teoria da gravidade quântica, é preciso abandonar a ideia segundo a qual existe um gigantesco relógio cósmico que marca o tempo do Universo, mesmo porque um dia é o tempo que a Terra leva para dar uma volta em torno do próprio eixo, e um ano, o tempo que ela leva para dar uma volta completa em torno do Sol. Esse "dia" de 24 horas e esse “ano” de 365 dias e 6 horas só fazem sentido para os terráqueos — em Plutão, por exemplo, a translação leva 248 anos terrestres.

Nosso conceito de tempo é uma convenção que pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Cada objeto do Universo possui um tempo próprio. Se na Terra, em altitudes diferentes, o tempo varia, imagina em Marte ou em Proxima Centauri. Séculos antes de Einstein publicar suas famosas equações relativísticas, Newton já havia dito que não é possível medir o “verdadeiro” tempo, mas, assumir sua existência permitiria descrever vários fenômenos da natureza. Mas na escala quântica o tempo como o conhecemos não funciona.

O espaço é um campo e o Universo é um sem-número de campos quânticos que não habitam o espaço-tempo, já que são o próprio espaço-tempo. Da mesma forma que os fótons se comportam tanto como partículas quanto como ondas, o espaço-tempo é formado por quanta de gravidade, e assim como os fótons medeiam a interação entre as ondas de luz, esse quanta possibilita a interação entre espaço e tempo.

Segundo o físico Carlo Rovelli, o preço conceitual pago para entender a teoria da gravidade quântica em loop é a renúncia à ideia de espaço e tempo como estruturas gerais para enquadrar o mundo. Talvez a dificuldade em entender o conceito se deva ao fato de que é praticamente impossível pensar em um mundo sem tempo e sem espaço, pois essa ideia coloca em xeque a própria realidade — e daí para o niilismo é um pulo. Mas para compreender o mundo pode ser preciso contrariar nossa própria intuição.

Uma das maiores contribuições da gravidade quântica em loop é a visão de mundo que ela oferece: por definir que existe um limite para o espaço e o tempo, a tensão entre a relatividade geral e a mecânica quântica não existe mais. Não é preciso entender o que se passa em um universo infinitamente pequeno, onde as leis de Einstein não se aplicam, mesmo porque os quanta de gravidade eliminam a ideia de espaço contínuo.

Por outro lado, é preciso ter em mente que tanto a teoria da gravidade quântica em loop quanto a teoria das cordas são tentativas de explicar o mundo. Como vários conceitos clássicos da ciência, elas carecem de comprovação experimental, mas nem por isso devem ser subvalorizadas. Vale lembrar que até serem confirmadas (em 2016), as ondas gravitacionais não passavam de especulações, e o mesmo vale para o bóson de Higgs e para as ondas eletromagnéticas.

Na física, quando uma teoria não pode ser comprovada, alternativas continuam sendo avaliadas; teorias são aceitas, ajustadas ou descartadas conforme evidências experimentais. Não se pode afirmar taxativamente que uma teoria seja absolutamente correta ou incorreta, já que não temos acesso a todos os níveis de informação. Mas quanto mais aprendemos de forma interdisciplinar, melhor compreendemos as coisas, e quanto mais desvendamos o mundo, mais descobrimos coisas a desvendar.

Parafraseando Rovelli: a única coisa realmente infinita no Universo é a nossa ignorância.

Continua…