segunda-feira, 23 de março de 2026

SOBRE O AGENTE SECRETO

POUCO CRÉDITO MERECE QUEM MUITO ELOGIA A SI MESMO.  

O longa O Agente Secreto não ganhou o Oscar, mas virou munição num campo de batalha que já estava armado há tempos.


Essa reação diz mais sobre o Brasil atual do que sobre o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura transporta o público para o Recife de 1977, em plena ditadura militar, com uma narrativa que mistura suspense, política e melancolia.


Em um ambiente hiperpolarizado, qualquer produto cultural com a mínima leitura política vira símbolo, bandeira ou ameaça, e o conteúdo importa menos do que aquilo que cada lado acha que ele representa.


O longa foi indicado em quatro categorias, mas ficou aquém das expectativas e ganhou apenas experiência — ou, como diriam os mais maledicentes, “o que Luzia ganhou atrás da horta”. Ainda assim, foi uma das produções brasileiras com maior número de indicações, ao lado de O Beijo da Mulher-Aranha (1985) e Cidade de Deus. (2004). 


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A decisão do ministro Gilmar Mendes — a verdadeira herança maldita de FHC — de anular a quebra de sigilo do fundo que comprou cotas do resort Tayayá chega nas pegadas da pesquisa feita pela Quaest, segundo a qual 49% dos eleitores não confiam nos togados, 72%, acham que o tribunal tem poder demais e 66% dizem que pretendem eleger candidatos ao Senado favoráveis ao impeachment de ministros.

A tentativa do decano de proteger Dias Toffoli, insulta à inteligência dos brasileiros. A suposta rigidez moral do Maquiavel de Marília é um escárnio a uma cena que já era em si mesma vergonhosa. Mas não é só.

Com seus despachos, Gilmar converteu-se no principal cabo eleitoral de candidatos ao Senado que se apresentam aos eleitores como alavancas para impulsionar a aprovação de pedidos de deposição de ministros do Supremo na legislatura que será inaugurada em fevereiro de 2027.

Toffoli admitiu ser sócio de dois de seus irmãos numa empresa que vendeu cotas do resort Tayayá para o Reag — um fundo gerido por Fabiano Zettel,, cunhado de Daniel Vorcaro, que enfiou R$ 35 milhões no resort para adquirir a cota de Toffoli e foi preso pela PF quando tentava embarcar para o exterior.

Vorcaro foi transferido da Papudinha para a Superintendência da PF no DF depois que assinou um termo de confidencialidade — marco inicial para negociação de uma delação premiada onde não haverá espaço para "salvar" uns em detrimento de outros. Todos os órgãos envolvidos no processo — PF, PGR e STF — indicam que não haverá espaço para uma colaboração parcial, frustrando a intenção inicial do ex-banqueiro, que era delatar políticos e poupar ministros do STF.


No total, 16 produções brasileiras já foram indicadas ao Oscar. Orfeu Negro (1959), baseado na peça Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes, venceu como Melhor Filme Internacional — mas a estatueta ficou com a França. O Pagador de Promessas (1962) foi o primeiro filme 100% brasileiro a concorrer nessa categoria, mas voltou sem prêmio. E mesmo destino teve Raoni (1978) indicado à estatueta de Melhor Documentário.


O Beijo da Mulher-Aranha (1985) concorreu em quatro categorias, mas só ganhou a estatueta de melhor ator. O Quatrilho (1995), O que é isso, companheiro? (1997), Central do Brasil (1998), Uma história de futebol (1998) e Cidade de Deus (2002) só ganharam experiência. Diários de Motocicleta (2004) venceu na categoria de Melhor Canção Original no Oscar de 2005. Lixo Extraordinário (2010), O Sal da Terra (2014), O Menino e o Mundo (2014) e Democracia em Vertigem (2019) foram indicados, mas não foram premiados. Em contrapartida, Ainda Estou Aqui (2025) gerou uma mobilização imensa, especialmente pela atuação de Fernanda Torres, e conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional.  


Observação: O Academy Award of Merit passou a ser chamado de Oscar em 1939, depois que Margaret Herrick, bibliotecária da Academia, comentou que a estatueta "era a cara de seu tio Oscar". O Brasil possui um Oscar honorário (entregue a Carmen Miranda, que era portuguesa de nascimento) e participações técnicas vitoriosas em co-produções.


Em suma, o cinema brasileiro no Oscar é uma história de persistência. A despeito de algumas vitórias pontuais, acumulamos indicações e amargamos frustrações. O Beijo da Mulher-Aranha abriu o caminho vencendo em Melhor Ator. Depois, vivemos décadas de 'quase': A exceção solitária era Diários de Motocicleta, — com o prêmio de Melhor Canção Original em 2005 —, mas tudo mudou com Ainda Estou Aqui, que finalmente deu ao Brasil a inédita estatueta de Melhor Filme Internacional, consagrando nossa história nas telas do mundo. 


Eu assisti à maioria desses filmes, e acho que eles realmente não mereciam ganhar. Isso não tem nada a ver com patriotismo (ou com a falta dele), mas como reconhecer nossas limitações. Aliás, convém não confundir patriotismo com chauvinismo.. A seleção brasileiro mereceu perder de 7 a 1 para a Alemanha na Copa de 2014. Dar o braço a torcer não é falta de patriotismo, é enxergar as coisas como realmente são. 


Observação: José Saramago ensinou que o pior tipo de cegueira é a mental; Albert Einstein, que o Universo e a estupidez humana são infinitos; e Nelson Rodrigues, que os idiotas vão dominar o mundo — não pela capacidade, mas pela quantidade.


Lançado em 1972, baseado no best-seller de Mario Puzo e dirigido por Francis Ford Coppola — que escreveu o roteiro a quatro mãos com Puzo — o filme The Godfather (exibido no Brasil como O Poderoso Chefão) venceu nas categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, além de levar a estatueta de Melhor Ator pela atuação lendária de Marlon Brando


Enquanto o filho mais velho do capo mafioso Vito Corleone (Sonny, vivido por James Caan) esbanja impulsividade, contrastando com Tom Hagen (interpretado por Robert Duvall), o ponderado consiglieri, o caçula, Michael (encarnado por Al Pacino) tenta se manter à margem dos negócios da Famiglia, mas logo percebe que o destino não é uma escolha. 


Virgil Sollozzo (Al Lettieri) propõe uma parceria no lucrativo mercado de narcóticos a Don Corleone, que recusa a oferta, alegando que o tráfico de drogas comprometeria suas alianças de longa data. Isso dá início a uma guerra que empurra Michael para um caminho sem retorno: ao saber que o pai foi baleado e se encontra entre a vida e a morte, ele mata Sollozzo e o capitão de polícia corrupto interpretado por Sterling Hayden e se exila na Sicília, selando sua transição definitiva para o submundo.


A despeito do orçamento modesto para os padrões hollywoodianos (cerca de US$ 7 milhões), o filme se tornou um fenômeno global de público e de crítica, arrecadando impressionantes US$ 250 milhões nas bilheterias mundiais. A atmosfera sombria e inconfundível é mérito da cinematografia impecável de Gordon Willis, sempre embalada pela icônica trilha sonora do compositor Nino Rota


Vale a pena conferir a trilogia (disponível na Netflix), sem embargo de ela ficar muito aquém do livro que lhe deu origem.

domingo, 22 de março de 2026

PANELA DE PRESSÃO E RECEITA DE CARNE LOUCA

GAIVOTAS EM TERRA, TEMPESTADE NO MAR.

A panela de pressão — um dos utensílios mais práticos e revolucionários da cozinha moderna — foi idealizada em 1679 pelo físico e matemático francês Denis Papin, que buscava uma maneira de gastar menos lenha e acelerar o cozimento de carnes e outros alimentos duros.

A ideia era elevar o ponto de ebulição da água acima de 100 °C e aproveitar o vapor em alta pressão. O modelo de ferro fundido foi apresentado em 1681 à Royal Society de Londres, mas era pesado, caro e sujeito a explosões, de modo que o conceito só ressurgiu com força no início do século XX, quando versões de alumínio e válvulas de segurança mais confiáveis se popularizaram. 

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Não há organizações criminosas no país do futuro que nunca chega porque tem um imenso passado pela frente. O Brasil se tornou uma organização criminosa de dimensões continentais.
Como se disputassem quem presta mais desserviços aos contribuintes, o Legislativo e o Executivo andam às turras. Mas o motivo é o avanço das investigações sobre o Caso Master, que fazem lembrar a canção Reunião de Bacana, cujo estribilho é: "se gritar pega ladrão, não fica um…"
Vorcaro assinou um acordo de confidencialidade e foi transferido da Papudinha para a Superintendência da PF no DF. As informações que ele deve revelar em seu acordo de delação premiada vêm aumentando a tensão entre os parlamentares (com destaque para os expoentes do Centrão).
Para tentar baixar a fervura entre os senadores, Davi Alcolumbre não deve instalar uma CPI para investigar o Master — na verdade, ele chegou mesmo a pressionar as duas comissões já instaladas para tentar frear a ofensiva e atribuir a Lula responsabilidade pela investigação feita pela PF. 
Um dia antes de a PF deflagrar uma operação no Amapá — que é governado por Clécio Luís, aliado de Alcolumbre, e tem ex-tesoureiro da campanha do senador como diretor da Amprev e alvo da operação no mês passado — Lula falou da importância de investigar os investimentos feitos no Master por fundos de previdência do Amapá e do Rio de Janeiro. 
Candidatíssimo ao quarto mandato a despeito da queda de popularidade, o molusco move montanhas para evitar que o mau humor dos parlamentares contamine o restante da pauta, como a PEC da Segurança Pública e indicações para cargos-chave. Os vazamentos referentes ao caso Master são ruins e prejudicam sua relação com a classe política, mas ele não tem ingerência sobre a PF, que costuma atuar de maneira autônoma. 
Boatos sobre um armistício entre Lula e Alcolumbre vêm circulando desde o final do ano passado — para o senador, é mais interessante manter o petista por perto e tentar conter danos, já que o apoio do PT é imprescindível para sua reeleição. O problema é que, sem uma repactuação, o Congresso não votará nada de interesse do governo ou, pior, imporá derrotas à agenda do Executivo. 
Na expectativa do tsunami que está por vir, interessa mais aos políticos corporativistas, fisiologistas, clientelistas, venais e sujos como pau de galinheiro blindarem-se uns aos outros e seguir de mãos dadas nessa ciranda da corrupção.

Introduzida no Brasil pela empresa paulista Panex em 1948, a panela de pressão se tornou sinônimo de rapidez no preparo de alimentos como feijão, carnes e grãos mais duros. No entanto, o receio de vazamentos — e até explosões — sempre preocupou — ou mesmo afugentou — os usuários. Daí a popularização da versão elétrica, que oferece mais controle e, sobretudo, segurança, pois permite ajustar automaticamente a pressão e a temperatura do cozimento.

Atualmente, as panelas de pressão convencionais e as versões elétricas de última geração disputam espaço nas cozinhas, mas o princípio físico é essencialmente o mesmo de mais de 300 anos atrás: vapor confinado aumentando a temperatura e reduzindo o tempo de cozimento em até um terço. Quando bem utilizadas, ambas as versões transformam alimentos duros, que exigem cozimento prolongado — como carne de panela, rabada, frango caipira, acém e músculo — em pratos macios e suculentos.

As panelas elétricas custam mais caro, mas o investimento compensa: modelos multiuso permitem refogar, fritar, cozinhar no vapor e até manter os alimentos aquecidos na temperatura ideal para consumo, enquanto sensores inteligentes de pressão e temperatura monitoram o cozimento em tempo real e o interrompem em caso de falhas, eliminando o risco de explosões. Sem falar que elas permitem cozinhar com pouco ou nenhum óleo e oferecem a função de preparo a vapor, além de contarem com revestimento interno antiaderente, que facilita a limpeza. 

Com a panela convencional, o custo varia conforme o tempo de chama acesa e a eficiência do fogão, enquanto o impacto da panela elétrica na conta de energia depende do tempo de uso ao longo do mês. Em preparos longos, a versão elétrica é mais vantajosa, pois mantém a pressão estável sem fogo alto. Por outro lado, se combinada com um fogão potente, a versão convencional atinge pressão rapidamente e reduz o uso de gás, tornando-se mais vantajosa em regiões onde a energia elétrica é mais cara que o GLP.

Observação: Para priorizar a segurança, deixe a pressão sair naturalmente. Se necessário, apresse o processo erguendo cuidadosamente o pino da válvula principal com um garfo (no caso da panela convencional). Jamais coloque a panela diretamente sob água fria nem ultrapasse o tempo ideal de cozimento, sob pena de deixar a carne gelatinosa (isso vale para ambas as tecnologias).

Há quem ainda faça como as nossas bisavós, que temperava a carne, douravam-na num refogado à base de alho e cebola, acrescentavam extrato de tomate, louro e outros temperos, juntavam água quente suficiente para cobrir metade da carne, tampavam a panela (sem pressão) e cozinhavam em fogo baixo por horas a fio, adicionando mais água quente quando necessário, de modo a deixar a carne macia e suculenta, mas não seca e esturricada.

Para encerrar, segue uma receita de carne louca, que é típica das festas juninas, mas funciona bem como lanche no dia a dia. A escolha da carne fica a gosto do freguês, mas eu recomendo coxão duro ou lagarto, que são mais indicados por serem serem fibrosos. Você vai precisar de:

— 1 kg de coxão duro ou lagarto, limpo de nervos e gorduras, cortado em cubos de cerca de 3 cm; 

— 1/2 xícara (120 ml) de vinho branco; — 2 cebolas grandes cortadas em fatias finas; — 2 dentes de alho picadinhos; 

— 1/2 pimentão verde sem sementes, em tirinhas finas; 

— 1/2 pimentão amarelo sem sementes, em tirinhas finas; 

— 1/2 pimentão vermelho sem sementes, em tirinhas finas; 

— 4 tomates maduros sem sementes, em cubinhos; 

— 1/2 xícara de azeitonas verdes em lascas; 

— 1 maço de cheiro-verde (salsinha e cebolinha), folhas de louro, orégano fresco (ou tomilho), sal e pimenta-do-reino a gosto; 

— Óleo de girassol e azeite extravirgem.

Aqueça bem a panela de pressão, regue o fundo com um fio de azeite, doure a carne de todos os lados em fogo alto, tempere com sal e pimenta, transfira para uma travessa e reserve. Despeje o vinho na panela e mexa com uma colher de pau (ou de silicone) para soltar os grudadinhos do fundo. Deixe ferver por 1 minuto e despeje esse líquido sobre a carne reservada.

Acrescente mais um fio de azeite na panela e refogue a cebola, o alho e os pimentões. Acerte o ponto do sal  e deixe cozinhar por cerca de 5 minutos, até murchar. Junte o tomate,  misture bem e volte com a carne e todo o caldo para a panela. 

Faça um amarrado de ervas com o louro, a salsinha, a cebolinha e o orégano, coloque-o na panela, cubra com água até cobrir totalmente a carne, acrescente 2 colheres (chá) de sal e 1 de pimenta-do-reino e tampe. Quando a válvula começar a liberar vapor, baixe o fogo, cozinhe por aproximadamente 1 hora, desligue, espere a pressão sair completamente e abra a panela. Se a carne ainda não estiver se desfazendo, recoloque a tampa e leve a panela de volta ao fogo por mais 15 minutos, testando depois (e adicionando um pouco de água quente, se necessário).

Quando a carne estiver "no ponto", desligue o fogo, descarte o amarrado de ervas, deixe amornar por cerca de 5 minutos, desfie — eliminando eventuais pedaços de gordura ou peles mais grossas que não se desmancharam —, volte a panela ao fogo alto e deixe cozinhar por mais 10 minutos ou até o excesso de líquido evaporar e o molho encorpar.

Acerte o sal e a pimenta, junte o restante das ervas picadas e as azeitonas, desligue o fogo, deixe amornar por 30 minutos, transfira para uma travessa, cubra com filme plástico, leve à geladeira por aproximadamente 6 horas. Monte os sanduíches apenas na hora de servir.

ObservaçãoNa panela elétrica, sele a carne com o azeite, o alho e a cebola na função "Refogar", adicione molho de tomate e os demais ingredientes e temperos, acrescente um pouco de água, cozinhe na pressão por 40-60 minutos, desfie e misture o molho restante antes de servir no pão. 

Bom apetite.

sábado, 21 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 87ª PARTE

CRER OU NÃO CRER, EIS A QUESTÃO.

Crer ou não crer são opções personalíssimas, mas crer piamente na criação do mundo segundo o
Velho Testamento é o mesmo que negar a esfericidade da Terra.

A Bíblia é um conjunto de mitos, lendas, mitos e tradições culturais transmitido oralmente por várias gerações, até ser compilado (por volta de 1200 a.C.).


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Bolsonaro foi internado na UTI do Hospital DF Star no último dia 13 e, a despeito da boa evolução clínica, ainda não há previsão de alta. Como o diabo detesta concorrência, parece que não será desta vez que nos livraremos do golpista fracassado. O mais provável é que ele consiga a tão sonhada “prisão domiciliar por razões humanitárias”, em que pese seu comportamento nada humanitário no auge da pandemia, quando o então mandatário ridicularizou infectados com uma piada homofóbica e imitou, em pelo menos duas lives, um paciente com dificuldades respiratórias (sintoma comum da Covid-19).

Os sucessivos pedidos apresentados pela defesa do “mito” já se tornam cansativos. Na semana passada, Flávio Bolsonaro conversou com Alexandre de Moraes, e Michelle Bolsonaro solicitou uma nova reunião com o ministro.

Da mesma forma que os direitos humanos não deveriam beneficiar criminosos da pior espécie, a prisão domiciliar humanitária também não deveria contemplar sacripantas como o ex-presidente. Mas vale tudo nesta banânia, e alguns togados avaliam que essa medida evitaria que eventual agravamento do quadro de saúde do preso ampliasse ainda mais o desgaste da Corte perante a opinião pública.

Falando em sacripantas, a delação premiada de Daniel Vorcaro avança a passos largos. O ministro André Mendonça, relator do imbróglio, já autorizou a transferência do dito-cujo para a Superintendência da Polícia Federal, em Brasília — que é considerada como o primeiro passo para o acordo de delação.

O ex-banqueiro que antes jantava com a República agora ameaça “jantar” a própria República e já mandou dizer que não pretende livrar ninguém. Afinal, não basta jogar tudo no ventilador: revelação sem comprovação é mero mexerico.

Tudo indica que as revelações atingirão parlamentares de praticamente todos os partidos e pelo menos dois ministros do STF — Toffoli terá de explicar a compra do resort Tayayá; e Moraes, o contrato milionário celebrado entre o banco Master e o escritório de advocacia da família, comandado pela advogada Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro.

A esta altura, interessa saber quem Vorcaro pagou e o que recebeu em troca no caminho do que pode vir a ser a maior fraude financeira da história. De resto, é preciso assegurar que ele restitua o patrimônio bilionário que teria amealhado à margem da lei e que não saia da ação penal que está por vir sem punição adequada, já que delação não implica impunidade.

Paulo Gonet já deixou claro que a PGR não pretende avançar nessa questão. No entanto, como há uma disputa com a PF, caberá ao ministro André Mendonça, relator do imbróglio, definir os próximos passos.

As lambanças da Lava-Jato tisnaram o instituto da delação, mas a ferramenta foi reabilitada nas ações penais contra os mentores do complô do golpe e do assassinato de Marielle Franco. A diferença é que, no caso de Vorcaro, o potencial destrutivo é inédito.


O Gênesis começa com a palavra bereshit (no princípio, numa tradução livre do hebraico) e narra a origem da vida, do mundo e do povo que Moisés supostamente guiou até a terra que Jeová supostamente prometeu a Abraão e seus descendentes. A certa altura, o guia dos judeus errantes teria estendido seu cajado e o Mar Vermelho se abriu, permitindo que ele e seu povo o atravessassem, e fechou-se em seguida, afogando o exército egípcio que os perseguia.


Embora dominasse os segredos das águas, Moisés não fez bom uso do GPS fornecido por Jeová, pois só encontrou Canaã depois de errar pelo deserto do Sinai durante 40 anos. Sem falar que o conceito de terra prometida só fez sentido dali a quase 3 mil anos, com a criação do Estado de Israel


As narrativas que compõem o Gênesis não fornecem uma explicação científica ou histórica sobre o passado, mesmo porque literatura religiosa não é jornalismo nem registra os fatos em tempo real. Ainda assim, criacionistas e seguidores das religiões abraâmicas acreditam que o mundo e tudo que nele existe foi criado em seis dias. Aliás, o bispo irlandês James Ussher foi mais além: em "The Annals of the World", ele anotou que o Criador iniciou sua obra exatamente às 9h00 da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C


Enquanto os dogmas religiosos pedem fé inquestionável, a ciência busca evidências e procura comprová-las por meio de experimentos. Premissas científicas podem — e devem — ser questionadas e modificadas à luz de novas descobertas. Já a interpretação literal da Bíblia desconsidera o conhecimento científico acumulado nos últimos séculos em áreas como física, astronomia e biologia, segundo os quais a evolução das espécies e a formação de estrelas e planetas, por exemplo, ocorreram ao longo de bilhões de anos. 


Escorado na Teoria do Big Bang, o modelo cosmológico mais aceito atualmente sustenta que o Universo surgiu a partir de uma explosão de energia e matéria ocorrida há 13,8 bilhões de anos, que nosso sistema solar se formou há 4,6 bilhões de anos, e a Terra, cerca de 100 milhões de anos depois. A família dos Hominídeos divergiu das demais há 20 milhões de anos, o Gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos e o Homo sapiens evoluiu do Homo Erectus há 300 mil anos. Não se trata de conjecturas, mas de estimativas baseadas em descobertas arqueológicas e no estudo de ossos e crânios encontrados por paleontólogos.

 

Fé e ciência não são mutuamente excludentes quando a esfera de cada é respeitada. Às religiões compete oferecer conforto espiritual e respostas a questões como o propósito e o sentido da vida. Embora não devamos subestimar a importância da Bíblia nem negar a enorme influência cultural do Gênesis, devemos mantê-los dentro de seu contexto histórico e mitológico, e não interpretá-los como revelações científicas sobre a criação do mundo.


Tomar os textos bíblicos como evidências factuais é ignorar séculos de progresso científico que expandiram nossa compreensão sobre o mundo e tudo que existe nele. Como bem disse o pintor grego Apeles, não vá o sapateiro além das sandálias. O literalismo religioso alimenta a negação de descobertas científicas amplamente aceitas e mina o progresso em questões vitais ao futuro da humanidade.


No tempo das cavernas, tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais. Esse misticismo deu origem às religiões, que não devem ser confundidas com a fé. Ainda que ambas andem de mãos dadas, tanto é possível ter fé e não ser religioso como seguir uma religião simplesmente por tradição familiar ou convenção social. 


As religiões deveriam "religar" o homem a Deus, mas cada vertente — cristã, budista, hinduísta, xamânica, espiritualista, agnóstica, etc. — define deus à sua maneira. Ao longo da História, Cristo, Buda, Maomé, Krishna e outros ícones religiosos deixaram mensagens para determinados povos em determinadas épocas. Todavia, em vez de levarem à unidade, ao amor e ao bem de todos, essas mensagens foram deturpadas para servir a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam na manipulação de seus semelhantes. 


Os primeiros textos védicos remontam a 1.500 a.C., mas os conceitos que eles encerram foram transmitidos oralmente durante séculos. A frase “este é o meu corpo”, que Cristo teria dito na Última Ceia, continua sendo repetida até hoje durante a Eucaristia. Ao “lavar as mãos” Pilatos deixou clara a ligação entre a religião e a política.


Como velhos hábitos são difíceis de erradicar, toda sociedade tem uma religião, toda religião tem um propósito social e toda cerimônia religiosa tem um ritual. O Seder de Pessach e a comunhão são adaptações litúrgicas de uma prática observada nos chimpanzés. As religiões perderam muito da empatia que tinham nos tempos de antanho, mas fenômenos complexos se desenvolvem a partir de começos simples. E como tudo que fazemos é influenciado por nossa história biológica e cosmológica, as próprias religiões têm raízes em comportamentos evolutivos fundamentais, e a Igreja e o Estado foram as duas faces da mesma moeda até a Revolução Francesa.

 

Assim como os vaga-lumes, as religiões precisam da escuridão para brilhar, e são úteis para os poderosos, que lhes dão ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos. É imperativo questionar e erradicar crenças enraizadas, pois é a partir da reflexão que se alcança uma espiritualidade mais ampla e profunda.


A possibilidade de existir um ente superior é plausível, mas como acreditar em um deus criador que concede livre-arbítrio às criaturas se ele promete recompensar os bons com a vida eterna num paraíso celestial e punir os maus com o fogo eterno num inferno comandado por um anjo caído?

 

A rigidez das religiões tende a perpetuar tradições e práticas que raramente resistem ao questionamento crítico, mas a fé que resulta de experiências empíricas leva as pessoas a crer em algo sem que isso lhes seja enfiado goela abaixo por dogmas religiosos.


Essa flexibilidade faz com que a fé se adapte aos valores e interpretações de cada um, tornando sua relação com a religião ainda mais intrigante quando questionamos a natureza da divindade — aliás, dizem que Deus criou a fé e o amor, e o diabo, invejoso, as religiões e o casamento. 


Aristóteles ensinou que o sábio duvida e o sensato reflete. Toda religião é a verdade absoluta para quem a professa, mas não passa de mera fantasia para os devotos das outras seitas. No entanto, qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria refutar a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem ou assando lentamente num espeto. Mesmo assim, em pleno século XXI, algumas doutrinas claramente inverossímeis têm hostes de seguidores que pegam em lanças para defender seus rituais e liturgias. 

 

No Mito da Caverna, Platão ensina que a sabedoria e o conhecimento estão além das aparências superficiais, e que só a reflexão crítica leva à compreensão das nossas convicções e das narrativas que escolhemos abraçar. Infelizmente, argumentar com quem renunciou à lógica é o mesmo que dar remédio a um defunto.


Continua…