terça-feira, 23 de junho de 2026

ONDE ALGUNS VEEM CORDAS, OUTROS VEEM UM ESPAÇO-TEMPO FEITO DE FRACTAIS.

QUANTO MAIS AMPLIAMOS O UNIVERSO, MENOS SÓLIDO ELE NOS PARECE.

Segundo a física Astrid Eichborn, quando reduzimos a escala de observação a níveis extremos, as leis da física clássica simplesmente deixam de funcionar. 

Se ampliarmos o celular que está exibindo esta postagem, a tela, aparentemente lisa, se dissolverá em uma rede de pixels e moléculas. Se ampliarmos ainda mais a imagem, veremos os átomos — estruturas em que nuvens de elétrons vibram ao redor de núcleos atômicos. Se o zoom continuar, mergulharemos no interior desses núcleos, onde prótons e nêutrons parecerão gigantescos, quase como sistemas solares compostos por quarks ligados por intensos campos de força.

A partir desse ponto, as próprias forças fundamentais começarão a mudar de comportamento. O eletromagnetismo e a força fraca tornar-se-ão mais intensos, ao passo que a força forte enfraquecerá. Durante algum tempo, essas mudanças seguirão padrões relativamente bem compreendidos, que os físicos conseguem descrever com bastante precisão. Até deixarem de conseguir.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Lula é um excelente compositor. Compõe com todo mundo. Mas poucos desfrutam de sua amizade. Numa galeria de amigos, o macróbio colocaria o retrato de Jaques Wagner sob a melhor luz, mas a Polícia Federal ofereceu ao senador uma rara oportunidade de demonstrar que o apreço do presidente é correspondido. Investigado no inquérito sobre o Master — que fincou estacas nos três poderes — deveria se desligar imediatamente da função de líder do governo no Senado.Juridicamente, Jaques Wagner tem direito ao benefício da dúvida, mas, politicamente, uma dúvida criminal não é a melhor conselheira para um presidente da República. Em condições normais, afastar o investigado da liderança do governo seria conveniente. Em meio a uma guerra eleitoral, o afastamento é um incontornável preço a pagar. Regateando, o petismo pagará mais caro. E barateará as críticas a Flávio Bolsonaro por pedir dinheiro a Daniel Vorcaro.

Quando ampliamos a realidade a escalas cada vez menores — ou, equivalentemente, energias cada vez maiores —, as leis estabelecidas da física tendem a perder seu poder explicativo. A gravidade, praticamente irrelevante na escala atômica, passa a se comportar de maneira errática, e aí entramos no reino de Planck, onde a física pede licença para sair da sala. Em outras palavras: ninguém sabe ao certo o que está acontecendo — mas as hipóteses são maravilhosamente sofisticadas.

A aparente falha da física de partículas nessa escala sugere que o universo pode ser composto não por partículas pontuais, mas por cordas e membranas vibrantes. Alguns cientistas sustentam que nessas escalas extremas o próprio espaço-tempo deixa de ser contínuo e passa a apresentar uma estrutura formada por laços. Mas alguns pesquisadores exploram uma possibilidade diferente.

Em 1976, Steven Weinberg propôs que, ao ampliar suficientemente a escala de observação, chegamos a um ponto em que as regras da física simplesmente pararam de mudar, a intensidade das forças se estabiliza e a gravidade volta a fazer sentido.

Eichborn tornou-se uma das principais pesquisadoras a investigar essa hipótese — conhecida como segurança assintóticaAo longo da última década, ela e seus colaboradores fizeram progressos significativos na tentativa de demonstrar que as leis quânticas deixam de evoluir na escala de Planck, exatamente como Weinberg suspeitava, como também conseguiram conectar a física desse regime extremo com fenômenos que podem ser estudados em escalas muito mais acessíveis.

A abordagem utilizada para descrever a maioria das forças da natureza é a teoria quântica de campos, que pressupõe que o universo está repleto de campos quânticos ondulantes que se manifestam como partículas pontuais. Essas partículas se movem através de um espaço-tempo contínuo e interagem por meio de forças. O problema é que, quando tentamos tratar a gravidade quântica exatamente da mesma maneira — como um campo quântico flutuante — a teoria deixa de funcionar.

Em linhas gerais, para uma força bem compreendida como o eletromagnetismo, é necessário considerar flutuações do campo em todas as escalas. Em vez de desaparecerem à medida que ampliamos o zoom, essas flutuações manifestam-se como partículas virtuais com energias cada vez maiores. Nesse caso, a intensidade da força muda, mas o arcabouço teórico continua funcionando até a gravidade entrar em cena. Aí a situação se complica. 

Como Albert Einstein demonstrou em suas equações relativísticas, a gravidade está ligada à própria estrutura do espaço-tempo; quando tentamos quantizá-la da mesma forma que fazemos com as outras forças, as flutuações se tornam problemáticas: em distâncias extremamente pequenas, partículas virtuais de alta energia passam a interagir de maneiras que a teoria não consegue descrever.

Algo novo parece acontecer nessas escalas, e há basicamente três grandes linhas de pensamento sobre o que esse “algo novo” poderia ser. Uma possibilidade é a teoria quântica de campos simplesmente deixar de funcionar — situação em que os objetos fundamentais deixariam de ser pontos e passariam a ser cordas microscópicas vibrantesOutra possibilidade é o espaço-tempo não ser contínuo — um copo d’água parece contínuo à primeira vista, mas sabemos que ele é composto por átomos discretos. E a ideia de que o mesmo ocorre com o espaço-tempo é explorada na chamada gravidade quântica em loop

Uma terceira hipótese é a essência da segurança assintótica. Segundo essa linha de raciocínio, campos, partículas e espaço-tempo continuam existindo, mas a estrutura do universo, quando observada em escalas extremamente pequenas, passa a apresentar uma espécie de autossimilaridade, lembrando um fractal. A intensidade das forças — inclusive a gravidade — deixa de variar indefinidamente e passa a seguir as mesmas regras de interação entre partículas.

Se esse regime autossimilar realmente existir, as flutuações do espaço-tempo e dos demais campos podem se tornar estáveis o suficiente para que a boa e velha teoria quântica de campos continue sendo utilizada para fazer previsões — mesmo em energias extremamente altas. E simetrias são extremamente comuns na natureza — o próprio espaço-tempo possui diversas simetrias fundamentais; não existem direções privilegiadas, lugares especiais ou momentos absolutos, apenas escalas privilegiadas.

O mundo se apresenta de formas diferentes para os seres humanos, para as bactérias e para os elétrons, mas, no nível mais fundamental da realidade, é possível que nem mesmo essas escalas sejam especiais — talvez o infinitamente pequeno seja apenas o infinitamente grande visto de muito perto.

Se a teoria quântica de campos nunca falhou em laboratório, uma maneira de torná-la preditiva em todas as escalas é justamente introduzir essa simetria de escala. Para verificar se isso é possível, os físicos utilizam algo semelhante a um microscópio matemático, que constrói representações matemáticas dos campos e de suas interações, calcula como essas interações mudam à medida que se aumenta o “zoom” energético e procura um ponto fixo, onde essa evolução simplesmente deixa de ocorrer.

Grande parte da comunidade científica tem investigado inicialmente o caso mais simples: um espaço-tempo vazio, contendo apenas gravidade pura. Alguns pesquisadores simplificam ainda mais o problema considerando apenas flutuações quânticas do espaço e ignorando temporariamente as flutuações do tempo. Esses cenários foram analisados em centenas de trabalhos teóricos, e muitos deles indicam de forma bastante robusta a existência de um ponto fixo onde as constantes físicas deixam de evoluir.

Em um de seus primeiros estudos, Eichborn incluiu todos os campos de matéria e força conhecidos e concluiu que o ponto fixo ainda aparecia — mesmo nesse cenário mais complexo. Posteriormente, análises mais completas mostraram que o ponto fixo permanece mesmo quando se consideram diversas formas adicionais de interação entre os campos conhecidos.

Outra maneira de testar a ideia consiste em inverter o raciocínio: em vez de procurar matematicamente um ponto fixo nos modelos, parte-se da hipótese de que ele existe e pergunta-se quais seriam suas consequências observáveis no mundo macroscópico. Curiosamente, essa hipótese parece forçar o universo a se parecer muito com o universo que realmente observamos.

Em 2009, Mikhail Shaposhnikov e Christof Wetterich mostraram que, ao se afastar de um ponto fixo desse tipo, a massa do bóson de Higgs tende a aumentar. Num universo sem esse ponto fixo, as massas das partículas poderiam assumir praticamente qualquer valor. Já na presença dele, surge uma interação muito específica entre a gravidade e a força eletrofraca, restringindo os valores possíveis de certas massas fundamentais.

Em outras palavras, um universo com simetria de escala fundamental poderia explicar por que as propriedades das partículas elementares são exatamente aquelas que observamos. Isso não significa, naturalmente, que a segurança assintótica resolva todos os mistérios da física. A massa do próton observada é compatível com a existência de um ponto fixo, mas também poderia ser dezenas de vezes maior sem violar a teoria. Até onde sabemos, nenhuma propriedade conhecida das partículas contradiz a segurança assintótica — o que significa que ela permanece uma possibilidade em aberto. Mas vários modelos populares de matéria escura parecem entrar em tensão com essa ideia. Algumas versões simples de partículas massivas de interação fraca, certos candidatos semelhantes a áxions e modelos de matéria escura ultraleve parecem menos compatíveis com um universo fundamentalmente autossimilar.

Os experimentalistas continuam avançando, e muitos dos experimentos atuais podem acabar funcionando, indiretamente, como testes da própria segurança assintótica. É perfeitamente possível, no entanto, que essa abordagem não seja incompatível com outras teorias de gravidade quântica. Na escala mais fundamental da realidade, talvez existam cordas, laços ou estruturas ainda mais exóticas. Mas, ao nos afastarmos dessas escalas extremas, entramos em um regime onde as leis da física mudam tão lentamente que o universo parece operar em torno de um ponto fixo. Se isso for verdade, diferentes teorias de gravidade quântica que consideramos rivais passam a ser maneiras distintas de olhar para a mesma física profunda.

Na pesquisa em gravidade quântica, afinal de contas, ser humilde é sempre uma boa ideia.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE LITERALISMO RELIGIOSO

A PERDA DE UM CRAVO CAUSA A PERDA DA FERRADURA; A PERDA DA FERRADURA CAUSA A PERDA DO CAVALO; A PERDA DO CAVALO CAUSA A PERDA DA MENSAGEM; A PERDA DA MENSAGEM CAUSA A PERDA DA GUERRA.

Vimos que o literalismo religioso leva à aceitação de dogmas e crenças arcaicas em detrimento de descobertas científicas exaustivamente comprovadas; que os livros mais estudados do mundo são justamente os menos compreendidos; e que quase ninguém mais lê Ptolomeu, Pitágoras ou Arquimedes, apesar de seu conhecimento ser impressionante, mesmo nos dias de hoje.


Observação: Há algo de profundamente revelador nessa inversão: os textos que moldam civilizações inteiras são lidos de forma apressada, fragmentária — ou devota demais para permitir qualquer questionamento sério.


Como também vimos, o Novo Testamento consolidou quatro evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — e ignorou dezenas de textos apócrifos na versão “oficial” que chegou aos dias atuais. Embora não tenha definido diretamente o cânon bíblico, o Concílio de Niceia (325 d.C.) representa com precisão o momento em que o cristianismo começa a se estruturar como poder organizado, sob a influência direta do imperador Constantino. A questão central é que “coerência doutrinária” quase sempre significa alinhamento com a visão dominante — e não, necessariamente, compromisso com a verdade histórica.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A Polícia Federal submete o senador Ciro Nogueira ao pior tipo de obscenidade: a nudez que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém. O oligarca do centrão foi despido lenta e constrangedoramente.

Ciro perdeu o paletó quando veio a público que ele viajava por destinos luxuosos do mundo às custas de Daniel Vorcaro e ficou sem a camisa após a revelação de que recebia do mensalão do Master — que começou com R$ 300 mil. Chegou a R$ 500 mil.

A notícia de que as mesadas somaram pelo menos R$ 6 milhões deixou o ex-quase-futuro-vice-ideal de Flávio Bolsonaro sem as calças. Relatórios do Coaf tiraram do senador as roupas de baixo. Seguindo o rastro do dinheiro, a PF concluiu que Ciro lavou recursos de má origem usando empresas, familiares, servidores públicos e até beneficiários de programas sociais.

As delinquências de Vorcaro proporcionam ao Brasil uma de suas épocas mais despidas. Mais despudorado do que o mandato obsceno de Ciro Nogueira é a naturalidade com que o Senado reage à cena. Um senador perambula pelos salões do Legislativo pelado e ninguém faz nada. Não se vê diante dos glúteos expostos nem uma cara de nojo, que dirá uma representação ao Conselho de Ética por falta de decoro.


O processo de formação do cânon bíblico não foi um evento único nem tampouco uma deliberação iluminada de sábios imparciais reunidos em torno de uma fogueira de pergaminhos, e sim um processo longo, disputado, muitas vezes violento — e invariavelmente político. No século II, o bispo Ireneu de Lyon — homem de fé inabalável e tolerância zero para dissidências — foi um dos primeiros a defender sistematicamente a manutenção de apenas quatro evangelhos — sob o pretexto de que, assim como existiam quatro ventos e quatro pontos cardeais, só poderia haver quatro evangelhos. 


A lógica era frágil, mas a autoridade, não. E em sua obra Adversus Haereses (“Contra as Heresias”), Ireneu não apenas defendeu os quatro evangelhos aceitos, como atacou com vigor todos os demais, classificando-os como invenções demoníacas. Assim, textos que circulavam livremente entre comunidades cristãs passaram, de uma geração para outra, a ser tratados como veneno intelectual e espiritual.


No século IV, o processo ganhou força institucional. Em 367 d.C., o bispo Atanásio de Alexandria — outro homem com pouca tolerância para ambiguidades — escreveu sua famosa Carta Festal, na qual listou pela primeira vez os 27 livros que compõem o Novo Testamento e determinou que outros textos fossem abandonados. Aliás, a palavra usada — apokryphos, “oculto”, “escondido” — com o tempo deixou de ser neutra e passou a carregar um peso pejorativo: o que era “reservado a iniciados” tornou-se sinônimo de “falso” e “perigoso”.


Mas foi com a aliança entre Igreja e poder imperial — consolidada sob Constantino e aprofundada sob Teodósio I, que em 380 d.C. declarou o cristianismo religião oficial do Império — que a supressão de textos alternativos deixou de ser apenas uma questão teológica e passou a ser também uma questão de Estado. Queimar um evangelho deixou de ser um ato de zelo religioso e tornou-se um gesto de manutenção da ordem. A heresia, enfim, virou crime.


Ao contrário do que se costuma imaginar, nem todos os textos rejeitados foram destruídos — alguns simplesmente caíram em desuso, como vozes que ninguém mais escuta, e outros foram perseguidos, combatidos e, não raramente, queimados junto com seus leitores. Mas houve quem, com notável coragem — ou talvez apenas com o instinto silencioso de preservar —, tenha decidido escondê-los.


O achado mais espetacular nesse sentido foi a descoberta da biblioteca de Nag Hammadi, no Egito, em 1945. Um camponês chamado Mohammed Ali al-Samman, ao cavar nas proximidades de um penhasco em busca de fertilizante, encontrou um jarro de barro selado. Dentro dele, 13 códices encadernados em couro, contendo mais de 50 textos em copta — traduções de originais gregos que remontavam, em sua maioria, aos séculos II e III. Lamentavelmente, alguém, em algum momento do século IV, preferiu enterrá-los em vez de destruí-los, e esse gesto anônimo de desobediência silenciosa preservou para a posteridade uma voz que a Igreja oficial havia tentado calar.


Entre os textos encontrados em Nag Hammadi, destacam-se obras associadas ao chamado gnosticismo — um conjunto diverso de correntes cristãs primitivas que compartilhavam a ideia de que a salvação vinha do conhecimento (gnosis), e não da fé cega ou da obediência institucional. Naturalmente, uma teologia assim era incompatível com uma Igreja que começava a estruturar seu poder justamente sobre esses dois pilares.


O Evangelho de Maria — provavelmente escrito no século II, embora baseado em tradições mais antigas — apresenta Maria Madalena não como figura periférica ou penitente, mas como a discípula que mais profundamente compreendeu os ensinamentos de Jesus. No texto, após a ressurreição, é ela quem consola os apóstolos e transmite revelações que o messias lhe teria confiado em particular. Pedro, incomodado (ou enciumado?), questiona: “Ele teria falado em segredo com uma mulher e não abertamente conosco?


A tensão não é apenas teológica. É política, simbólica e estrutural. No Evangelho de Filipe há passagens ainda mais desconfortáveis para a ortodoxia: Jesus é descrito como "mais próximo" de Maria Madalena do que aos outros discípulos, e há uma referência parcialmente danificada a um gesto de intimidade entre os dois — detalhe que alimentou séculos de especulação e, mais recentemente, best-sellers. Independentemente da interpretação correta, o ponto é claro: havia comunidades cristãs que atribuíam a Maria Madalena um papel de liderança espiritual que a Igreja oficial simplesmente não podia absorver.


A imagem de Madalena como prostituta arrependida não vem dos evangelhos canônicos. Em nenhum momento o texto bíblico a identifica como tal. Essa associação foi construída gradualmente e consolidada de forma decisiva pelo papa Gregório I, em um sermão de 591 d.C., no qual fundiu três personagens distintas — Maria de Betânia, a pecadora anônima e Maria Madalena — em uma única figura de mulher caída e redimida. Erro honesto ou estratégia deliberada? Difícil saber, mas mais difícil ainda é acreditar que tenha sido irrelevante.


Essa interpretação persistiu por mais de mil anos como doutrina oficial da Igreja Católica. Apenas em 1969 o Vaticano corrigiu formalmente a confusão, reconhecendo que se tratava de três mulheres distintas. A reabilitação levou quatorze séculos. O dano, naturalmente, não teve a mesma pressa para desaparecer.


A pergunta que se impõe é inevitável: e se Maria Madalena tivesse sido, de fato, a principal discípula de Jesus? E se o papel de liderança atribuído a Pedro — e que sustenta toda a estrutura hierárquica posterior, incluindo o papado — na versão “original” da história tivesse pertencido a ela? Não há como provar, mas também não há como descartar. E o modo como sua memória foi moldada ao longo dos séculos sugere que alguém, em algum momento, julgou necessário fazê-lo.


Há ainda uma hipótese mais incômoda e, por isso mesmo, frequentemente tratada com desdém ou sarcasmo: a de que Maria Madalena não teria sido apenas uma discípula próxima, mas companheira íntima de Jesus, possivelmente sua esposa. A ideia não é consensual e carece de evidências conclusivas, mas se apoia em leituras de textos apócrifos, em lacunas curiosas nos relatos canônicos e, sobretudo, no contexto cultural do judaísmo do século I, no qual um homem adulto, especialmente um mestre religioso, dificilmente permaneceria solteiro.


Nada disso prova coisa alguma, mas tampouco justifica o deboche com que a hipótese costuma ser descartada — até porque, se verdadeira, ou mesmo plausível, suas implicações seriam profundas demais para serem ignoradas. Um Jesus casado não apenas humaniza a figura central do cristianismo como desmonta, peça por peça, construções teológicas posteriores que associam santidade à negação do corpo, do desejo e da vida comum. E talvez seja exatamente por isso que a ideia causa tanto desconforto.


No fim das contas, não sabemos exatamente quem foi Maria Madalena. Mas sabemos com razoável segurança quem decidiu o que ela deveria ser — e por quê. Sabemos também que o cânon bíblico não desceu do céu em versão final e homologada por instâncias divinas. Foi negociado, disputado e imposto por homens inseridos em contextos políticos bastante concretos.


A maior heresia, talvez, não seja a existência de evangelhos esquecidos, mas a ilusão confortável de que apenas os sobreviventes contam a verdade. A história é sempre escrita por quem chega depois à cena do crime — e tem tempo suficiente para reorganizar os móveis.


Resumo da ópera: Algumas ideias não precisam ser refutadas. Basta que sejam ridicularizadas com eficiência. No fim das contas, um cravo se perdeu… e, com ele, muito mais do que uma ferradura.


Continua...

domingo, 21 de junho de 2026

FILÉ À MORAES E STEAK TARTARE

ENTRE UM GOLE E OUTRO, VAMOS BRINDANDO À VIDA.

Aprendi com meu pai a apreciar um bom filé tártaro (ou steak tartare, como preferem os puristas). Aliás, foi também com ele que degustei pela primeira vez o célebre Filé à Moraes, criado pelo português Salvador Domingos Vidal, dono de um boteco na região central da capital paulista. 


Como a casa funcionava 24/7 horas por dia, a limpeza era feita com os clientes sendo atendidos, e por isso o prato acabou batizado de "bife sujo" pelos frequentadores. Em 1929, Vidal entrou de sócio do Bar, Café e Confeitaria Moraes (na Praça Júlio Mesquita, também no centro de Sampa), e aproveitou a chapa aquecida à lenha para criar sua mais famosa receita, que consiste num medalhão de filé de ≈ 250 gramas, grelhado por 3 minutos de cada lado (de modo a ficar tostado por fora e rosado por dentro), ao alho e óleo e acompanhado de fritas e agrião. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Uma colônia de pulgas se instalou atrás das orelhas dos operadores políticos do filho do refugo da escória da humanidade, que ainda não sabem se Eduardo Bananinha quer desempenhar o papel de aliado ou de estorvo na campanha do irmão, mas sua penúltima jogada evidencia sua preferência pela segunda alternativa.

A cúpula da campanha procura uma mulher, mas num instante em que Bolsonarinho perde terreno para o macróbio eneadáctilo, Bananinha lançou para vice do irmão mais velho a deputada Júlia Zanatta — uma bolsonarista de mostruário do tipo que pula no abismo pelo "mito" preso — embora a preferência recaia sobre alguém com o perfil moderado, como a senadora Tereza Cristina.

Para compreender o movimento de zero dois é preciso atrasar o relógio para 2018 e 2022, quando o patriarca do clã escolheu dois generais — primeiro Hamilton Mourão e depois Braga Neto — como parceiros de chapa. À guisa de explicação, Dudu lembrou ter dito ao pai, na época em que ele escolheu o Mourão, que "era preciso botar um cara "faca na caveira" para ser vice, alguém que não compense correr atrás de um impeachment". Quer dizer: ao empinar o nome de Julia Zanatta, zero três deseja retirar do baralho a carta do impeachment, imaginando que uma deputada incendiária transformaria seu irmão, por contraste, num estadista instantâneo, o que desestimularia futuras tramas pela deposição. 

O problema é que Zanatta não atrai um mísero voto fora do cercadinho bolsonarista — daí a proliferação de pulgas atrás das orelhas do staff do PL. Antes de adquirir um seguro anti-impeachment, a família do golpista precisa obter os votos que lhe faltam para retornar ao Planalto.


Há quem diga que o nome do prato deveu-se ao chapeiro, a quem os fregueses (entre os quais o escritor Monteiro Lobato) diziam: "salta um filé, Moraes", e que o cantor, compositor e comediante Adoniran Barbosa compôs Trem das Onze enquanto tomava chope naquele botequim — que passou a se chamar "Restaurante Moraes - O Rei do Filé" nos anos 1960 e suspendeu suas atividades duas décadas depois, graças ao nefasto "plano cruzado". Mais adiante, a casa voltou a funcionar em dois endereços (na Praça Júlio Mesquita e na Alameda Santos), mas sob nova direção — mesmo porque os proprietários não eram parentes dos fundadores. 

 

Para preparar um filé capaz de empanturrar dois bons garfos, você vai precisar de dois medalhões de filé-mignon (de aproximadamente 250g cada um), 8 dentes de alho, óleo para fritar e sal e pimenta-do-reino branca para temperar. 


Amoleça os dentes de alho em água fervente por 1 ou 2 minutos, descasque, corte ao meio, doure em óleo bem quente, escorra e reserve. Feito isso, grelhe os bifes por 3 minutos de cada lado (se preferir a carne bem-passada — o que é um sacrilégio —, leve ao forno pré-aquecido a 180 ºC por cerca de 2 minutos).


Tempere com sal e pimenta, espalhe o alho e um pouco do óleo da fritura e sirva com salada de agrião (ou agrião refogado no alho e óleo) e batatas fritas.

 

O Steak Tartare é um acepipe russo feito com carne crua, que pode ser servido tanto como aperitivo quanto como entrada ou prato principal. Os ingredientes (por pessoa) são: 


— 150 g de filé-mignon (moído ou finamente picado);

 

— Uma colher (sobremesa) de cebola ralada;

 

— Uma colher (café) de alcaparras (se preferir, substitua por azeitonas verdes picadas); 


— Uma colher (chá) de salsinha picada; 


— Uma colher (chá) de cebolinha picada;


— Uma colher (chá) de molho inglês; 


— Uma colher (sopa) de mostarda; sumo de 1 limão; 


— Uma gema de ovo cru; 


— Azeite de oliva extravirgem para regar e sal, pimenta do reino, pimenta caiena e molho tabasco para temperar.

 

Remova a "capa espelhada" e passe o filé duas vezes pelo moedor — ou corte-o em tirinhas e pique com a ponta de uma faca bem afiada. 


Transfira a carne para uma tigela, junte a cebola ralada, a salsinha e a cebolinha picadas e misture gentilmente (usando as mãos ou uma colher de pau) enquanto rega com um fio de azeite e tempera com o sal, as pimentas, a mostarda, o sumo do limão e o molho inglês. 


Acrescente as alcaparras (ou as azeitonas picadas), faça uma “bola” com a carne, coloque num prato, achate com a mão até formar um "hamburgão" e pressione o centro com o polegar, para criar a concavidade que vai acomodar a gema do ovo (crua, segundo a receita original, mas você pode cozinhar o ovo e usar a clara para decorar). 


Leve à geladeira para resfriar e, na hora de servir, decore o prato com batatas chips e sirva com torradinhas, cerveja gelada, vinho, refrigerante ou o suco de frutas de sua preferência.

  

Observação: Minha releitura dessa receita inclui alface picado, ervilhas em conserva, rodelas de tomate e de palmito. Depois de acomodar a carne na parte central do prato e colocar a gema (cozida) na concavidade, eu distribuo esses ingredientes em volta, acrescento a clara picada e rego tudo com bastante azeite.


Bom apetite. 

sábado, 20 de junho de 2026

SOBRE VIDA ALIENÍGENA E SUTILEZAS DA LUZ

AS PESSOAS NÃO MORREM, FICAM ENCANTADAS; A GENTE MORRE É PARA PROVAR QUE VIVEU.

Novas simulações computacionais realizadas por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UCSC) sugerem a possibilidade de existir vida no satélite jupiteriano Europa e em outras luas do gigante gasoso.

Em última análise, estudos desse tipo contribuem para simplificar a forma como entendemos certos fenômenos da natureza, permitindo reconhecer conexões profundas entre leis físicas que, à primeira vista, parecem não ter qualquer relação entre si. Aliás, talvez Newton e Huygens estivessem ambos certos — e, ao mesmo tempo, ambos incompletos.

A luz não parece se importar muito com nossas categorias mentais: ora se comporta como onda, ora como partícula, dependendo da pergunta que decidimos fazer a ela. Séculos depois da velha disputa entre os dois gigantes da ciência, a física moderna parece ter chegado a uma conclusão curiosa: a natureza não é obrigada a escolher um lado. E, convenhamos, se até a própria luz se recusa a ser uma coisa só, talvez seja melhor desconfiar um pouco das explicações simples demais para um universo que claramente prefere ser… um pouco mais complicado. 

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

A guerra iniciada há mais de 100 dias por insistência de Israel, para derrubar o regime repulsivo dos aiatolás, acabar com a capacidade militar deles, impedir que o Irã chegasse a armas nucleares e redesenhasse o Oriente Médio inteiro em favor de Israel e dos Estados Unidos já custou quase US$ 100 bilhões e metade do arsenal moderno dos Estados Unidos. A despeito dessa dinheirama e de milhares de ataques, o brutal e sanguinário regime iraniano continua no mesmo lugar, podendo agora exportar petróleo em troca de reabrir o Estreito de Ormuz.

Deixando para depois o que vai acontecer com seus programas nucleares e a bagunça que se criou, Israel e Estados Unidos agora se desentendem sobre o que fazer, e os países da região perderam a confiança no guarda chuva protetor americano.

China e Rússia assistiram como a superpotência não conseguiu dobrar um país militarmente muito inferior, mas a reabertura do Estreito de Ormuz é uma boa notícia para o resto do mundo. O Irã perdeu bastante, e o mesmo se deu com Israel, no sentido dos objetivos não alcançados. Já o chefe da Casa Branca cometeu um dos maiores erros da história recente ao desrespeitar noções básicas de estratégia e geopolítica, mas esse é um preço que ele certamente não vai pagar sozinho.


Publicada em 24 de junho de 2024 na revista Journal of Geophysical Research: Planets, a pesquisa indica que determinadas aberturas de ventilação associadas a fontes hidrotermais em luas geladas — comparáveis, em volume de água, aos rios da Terra — poderiam tornar esses ambientes potencialmente habitáveis e amplia nossa compreensão sobre onde a vida poderia teoricamente existir fora da Terra, reforçando a ideia de que oceanos subterrâneos em mundos distantes, mesmo sob condições extremas, podem ser mais acolhedores do que se imaginava até pouco tempo atrás.

Em outra frente de pesquisa, cientistas vêm explorando novas maneiras de compreender um dos fenômenos mais intrigantes da física: a natureza da luz. Um estudo publicado na revista científica Physical Review Research utilizou um teorema mecânico formulado há cerca de 350 anos pelo matemático, físico e engenheiro holandês Christiaan Huygens. Originalmente desenvolvido para descrever o funcionamento de pêndulos e o movimento rotacional de corpos rígidos, o teorema relaciona a distribuição de massa de um objeto com a energia necessária para fazê-lo girar em torno de um determinado eixo.

Os pesquisadores adaptaram esse princípio para investigar propriedades da luz. Como os fótons — as partículas elementares que compõem a radiação luminosa — não possuem massa, os cientistas utilizaram a intensidade da luz como um parâmetro análogo à massa em seus modelos. Essa abordagem permitiu tratar certos sistemas ópticos como se fossem sistemas mecânicos equivalentes.

Em uma publicação no blog do Stevens Institute of Technology, os autores explicaram que o estudo demonstra, pela primeira vez, que o grau de emaranhamento clássico (não quântico) de uma onda de luz possui uma relação direta e complementar com seu grau de polarização. A partir dessa analogia mecânica, tornou-se possível representar propriedades ópticas complexas de forma geométrica, como se diferentes características da luz ocupassem posições específicas dentro de um sistema físico equivalente.

Com essas adaptações, a equipe conseguiu visualizar a luz como um sistema mecânico abstrato, o que ajudou a compreender melhor fenômenos como polarização e emaranhamento clássico. Essa abordagem permite, por exemplo, interpretar certas propriedades da luz como se existisse um “centro de massa” em um espaço matemático, possibilitando literalmente medir distâncias entre diferentes estados ópticos e revelar como essas propriedades se relacionam entre si.

A natureza da luz, aliás, intriga os cientistas há séculos. No século XVII, Christiaan Huygens defendia que a luz se propagava na forma de ondas, enquanto Newton sustentava a chamada teoria corpuscular, segundo a qual a luz seria composta por partículas. No início do século XIX, experimentos como o famoso teste da dupla fenda realizado por Thomas Young forneceram fortes evidências a favor da natureza ondulatória da luz.

A questão ganhou novos contornos no início do século XX, quando Einstein, ao explicar o efeito fotoelétrico em 1905, demonstrou que a luz também pode se comportar como pacotes discretos de energia, posteriormente chamados de fótons. Poucas décadas depois, o físico francês Louis de Broglie ampliaria essa ideia ao sugerir que não apenas a luz, mas toda a matéria pode apresentar comportamento ondulatório. 

Assim nasceu o conceito moderno de dualidade onda-partícula, um dos pilares da mecânica quântica. Hoje sabemos que a luz não é simplesmente uma onda nem apenas uma partícula. Na verdade, ela é descrita pela física quântica como um fenômeno que pode manifestar propriedades de ambos os comportamentos, dependendo do tipo de experimento realizado. 

Pesquisas como a descrita acima não resolvem essa dualidade — que já é bem compreendida no contexto da teoria quântica —, mas ajudam a revelar novas conexões matemáticas e físicas entre propriedades aparentemente distintas da luz.