TIME IS THE FIRE IN WHICH WE BURN
A possibilidade de revisitar o passado continua a fascinar cientistas e leigos, tanto pelo apelo quase mítico da ideia, quanto pelos dilemas lógicos que ela impõe.
Os maiores óbices são os paradoxos — como o célebre paradoxo do avô, no qual uma ação no passado elimina as condições que tornaram possível a própria viagem no tempo. Ainda assim, o estudante de física Germain Tobar, da Universidade de Queensland, na Austrália, propôs uma maneira de “quadrar os números” e tornar a viagem ao passado logicamente viável sem recorrer a universos paralelos ou a remendos conceituais ad hoc.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
A economia brasileira cresceu acima dos 3% por três anos seguidos, até 2024. Em 2025, o crescimento foi menor — 2,3% — mas houve ganhos reais da renda do trabalho ao longo de todo o período, e a taxa de desemprego permaneceu em níveis historicamente baixos. Mesmo assim, a popularidade de Lula permanece no vermelho: segundo o Datafolha, dois em cada três brasileiros (67%) têm algum tipo de dívida financeira, como empréstimos, e a inadimplência atinge 21% da população. Esse cenário foi confirmado pela Quaest: 29% dos eleitores disseram ter muitas dívidas e 43% poucas dívidas. Juntos, os endividados somaram 72%. O endividamento corrói a sensação de bem-estar do eleitor e se reflete no cotidiano das famílias, mas o acúmulo de dívidas, impulsionado pela pandemia, compôs a herança da gestão Bolsonaro: seis meses depois do seu retorno ao Planalto, Lula lançou o programa Desenrola, que visa refinanciar dívidas de até R$ 5 mil. No entanto, aqueles que contornaram o problema contraíram novas dívidas. Tampouco a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil resultou em dividendos eleitorais para o macróbio, lançando dúvidas sobre o efeito político da escala 5X2 de trabalho, em discussão na Câmara. A mesma dúvida recai sobre o novo programa de renegociação de dívidas projetado pelo governo ou a previsão de saques extraordinários no FGTS. Candidato ao quarto mandato, o xamã do partido dos trabalhadores que não trabalham combina as medidas de socorro às famílias com disparos contra o próprio pé. A compulsão consumista foi confirmada pelo Datafolha: 68% dos eleitores ouvidos pelo instituto concordaram com a afirmação de que as ofertas de crédito pelo celular ou pela internet facilitam muito o endividamento por impulso. Mas culpar a população pelo problema é um desabafo que não resolve as aflições do candidato. Atônito, o molusco amarga nas projeções de segundo turno um empate técnico com o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, que sequer tem plano de governo. Considerando-se que a guerra no Oriente Médio eleva os preços dos alimentos, desafiando o controle da inflação da cesta básica, o melhor para o candidato à reeleição seria levar a língua no cabresto. Ou enfiá-la no… ouvido.
Segundo Tobar, conhecer o estado completo de um sistema em um determinado instante basta para determinar toda a sua história, passada e futura. Essa abordagem parte da ideia de que as leis da física, quando formuladas de maneira consistente, não permitem estados contraditórios do Universo — mesmo na presença de viagens temporais.
A relatividade geral de Einstein, por sua vez, prevê a existência das chamadas curvas fechadas do tipo tempo — trajetórias no espaço-tempo que permitem a um evento estar tanto no passado quanto no futuro de si mesmo. Em tese, essas estruturas viabilizam uma viagem de volta ao passado, mas a questão é que elas parecem abrir caminho para paradoxos insolúveis.
Imagine, por exemplo, um viajante retornando ao passado para impedir que uma doença se espalhe. Se a missão fosse bem-sucedida, ele não teria motivos para viajar ao passado, já que a doença não existiria — um impasse lógico clássico. O trabalho de Tobar sugere uma solução elegante: a doença inevitavelmente escaparia por outra rota, vetor ou circunstância ainda não considerada, eliminando o paradoxo.
Em outras palavras, por mais que o viajante tentasse alterar o passado, os eventos se organizariam de modo a preservar a consistência global do espaço-tempo. A doença não seria evitada; apenas mudaria a forma pela qual se manifesta, e o passado permaneceria “flexível” nos detalhes, porém rígido no resultado.
Embora não seja palatável para os não-matemáticos, esse modelo demonstra como processos determinísticos — sem qualquer elemento de aleatoriedade — podem influenciar um número arbitrário de regiões no continuum espaço-tempo. Assim, as curvas fechadas do tipo tempo conseguem coexistir tanto com a física clássica quanto com uma noção operacional de livre-arbítrio: o viajante faz escolhas, mas essas escolhas nunca levam a contradições.
“A matemática confirma, e os resultados parecem coisa de ficção científica”, afirma o físico Fábio Costa, que supervisionou a pesquisa. Segundo ele, as ações dos viajantes do tempo não resultariam em paradoxos, ainda que, por enquanto, dobrar o espaço-tempo só seja possível nas equações — construções abstratas que existem apenas como cálculos em uma página.
Ainda segundo Costa, por mais que se tente criar um paradoxo, os eventos sempre vão se ajustar, evitando qualquer inconsistência. A gama de processos matemáticos que descobrimos mostra que a viagem no tempo com livre-arbítrio é logicamente possível em nosso Universo, sem nenhum paradoxo.”
A proposta não garante que viajar ao passado seja tecnologicamente viável, mas sugere algo igualmente provocador: talvez o maior obstáculo às viagens no tempo não seja a física, e sim a nossa intuição — treinada para enxergar o tempo como uma estrada de mão única, quando ele pode ser, ao menos matematicamente, um labirinto que se rearranja para nunca se contradizer.
Continua…



