sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O TEMPO E O SUICÍDIO QUÂNTICO — CONCLUSÃO

QUE O TEMPO PARE DE CORRER PARA QUE A VIDA POSSA NOS ALCANÇAR.

Viver para sempre é uma obsessão quase tão antiga quanto a própria humanidade. Dos alquimistas em busca do elixir da vida às modernas pesquisas sobre longevidade, a ideia de escapar da morte nunca deixou de nos fascinar. Mas e se a física sugerisse — ainda que apenas em teoria — uma maneira curiosa de colocar essa possibilidade à prova?

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Referindo-se ao ex-presidiário Lula e ao filho do golpista ora presidiário, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado disse que "tanto faz roubar com a mão esquerda ou com a direita: é ladrão do mesmo jeito". Apurados os votos para presidente, terminou o primeiro turno em quinto lugar. Ato contínuo, declarou seu apio incondicional à candidatura de Flávio Bolsonaro, como se trocasse a patrulha ideológica pela picaretagem ideológica.

O vaivém do ex-governador de Goiás mostra que sua primeira grande contribuição ao Brasil em 2026 foi não passar para o segundo turno. A adesão a quem "rouba com a mão direita" é sua segunda contribuição, pois acabou dando razão aos eleitores que preferiram não votar nele. Gilberto Kassab, vice na chapa de Caiado e presidente do PSD, tomou distância. Empurrou o partido para a "neutralidade". Os filiados estão livres para se compor com a mão direita ou com a esquerda.

O favoritismo de Flávio Bolsonaro ainda não acendeu uma luz no fim do túnel, mas já se vê o pus. O filho do pai celebrou o novo Congresso, "muito mais à direita". estimou que, eleito, terá maioria para eleger os presidentes da Câmara e do Senado e disse duas coisas definitivas: quer "mudar a Constituição" para "redemocratizar esse país". Mas não definiu muito bem as coisas.

Exposta de forma genérica e superficial, a reforma constitucional se parece com um trem fantasma: a locomotiva solta fumaça no programa de governo protocolado pela campanha na Justiça Eleitoral, e "redemocratizar", no texto, vira um eufemismo para esvaziar os poderes do Supremo.

O filho do refugo da escória da humanidade deseja restringir as decisões monocráticas de ministros do Supremo, deslocar o julgamento criminal de parlamentares e autoridades do STF para instâncias inferiores, deixando a mais alta corte do país encarregada simplesmente de questões constitucionais — e olhe lá! O plano sugere restringir o acesso de determinados atores políticos — partidos de oposição, por exemplo — às ações que permitam contestar no Supremo a constitucionalidade de leis e atos governamentais.

O candidato parece buscar na crise institucional do Supremo um pretexto para a revanche do bolsonarismo. Não quer reformar, mas deformar a democracia. Juntos, Executivo e Legislativo seriam um peso sem contrapeso.

O clã Bolsonaro ainda não conquistou um segundo mandato, mas o primogênito do capitão já colocou o trem fantasma da crise institucional nos trilhos.

Inspirado na Interpretação dos Muitos Mundos, o chamado Suicídio Quântico é um experimento mental que imagina um dispositivo capaz de acionar uma arma sempre que um determinado evento quântico ocorrer. Como esses eventos são genuinamente probabilísticos, existe uma probabilidade de sobrevivência e outra de morte. Pela interpretação tradicional da mecânica quântica, cedo ou tarde o experimento chega ao fim. Na proposta de Hugh Everett III, porém, ambos os resultados continuam existindo, cada um em um ramo diferente da realidade.

Essa ideia nasceu em 1957, quando Everett propôs uma interpretação radical da mecânica quântica. Em vez de admitir que a função de onda "colapsa" no instante da medição, ele sugeriu que todas as possibilidades previstas pelas equações permanecem existindo simultaneamente, cada uma em seu próprio universo. Se essa interpretação estiver correta, uma decisão aparentemente banal — aceitar ou recusar um emprego, atravessar a rua agora ou alguns segundos depois — faria surgir universos paralelos nos quais cada uma dessas escolhas continua seu próprio caminho, sem jamais voltar a se encontrar.

Aplicada ao experimento, essa hipótese produz uma consequência desconcertante. Sempre que o dispositivo é acionado, o Universo se divide em dois ramos: em um deles a arma dispara; no outro, permanece inerte. Para um observador externo, ambas as histórias continuam existindo. Daí nasce a provocativa hipótese da chamada imortalidade quântica: haveria sempre algum ramo da realidade em que o observador permanece vivo.

É justamente aí que começam os problemas filosóficos. Sobreviver em um universo paralelo significa realmente continuar existindo? Trata-se da mesma consciência ou apenas de outra versão de nós mesmos, inacessível para sempre? Se infinitas cópias seguem caminhos diferentes, qual delas pode reivindicar ser o "eu" verdadeiro?

Perceba que o interesse desse experimento nunca esteve em encontrar uma receita para vencer a morte. Seu objetivo é muito mais modesto — e, ao mesmo tempo, muito mais profundo: explorar as consequências lógicas de uma interpretação da mecânica quântica e nos obrigar a repensar conceitos como identidade, consciência, realidade e existência.

Experimentos mentais acompanham a ciência há séculos. Einstein imaginou cavalgar sobre um raio de luz antes de formular a Relatividade Especial. Schrödinger concebeu seu célebre gato para evidenciar os paradoxos da mecânica quântica. O Suicídio Quântico pertence exatamente à mesma tradição: não procura demonstrar fatos, mas revelar até onde uma teoria pode nos levar quando seguimos sua lógica até as últimas consequências.

Alguns divulgadores científicos recorrem a metáforas para tornar essa ideia mais intuitiva. O canal Wendover Productions, por exemplo, imagina uma sala equipada com uma arma nuclear controlada por um evento quântico. Neil deGrasse Tyson costuma explicar a Interpretação dos Muitos Mundos dizendo que cada decisão cotidiana abre novos caminhos da realidade — o emprego que aceitamos, o ônibus que perdemos ou a pessoa que decidimos conhecer. Em algum lugar, segundo essa hipótese, todas essas histórias continuam acontecendo.

O paralelo com a roleta russa é inevitável. Se um determinado evento quântico ocorrer, a arma dispara; caso contrário, ela permanece silenciosa. Daí o nome Suicídio Quântico. Mas, como observa o portal ScienceAlert, isso implica também que "em algum universo paralelo estamos morrendo de forma dolorosa muitas e muitas vezes". É justamente por isso que a ideia deve permanecer onde nasceu: no terreno da especulação filosófica e da imaginação científica.

A física talvez jamais descubra um caminho para a imortalidade. Em compensação, ela continua demonstrando com admirável frequência que nossas maiores certezas costumam ser apenas aproximações provisórias da realidade.

Então, por mais que você tenha facilidade para encontrar urânio enriquecido — ou uma arma nuclear esquecida na garagem —, resista à tentação de colocar essa hipótese à prova. Algumas ideias nasceram para ampliar nossa imaginação, não para reduzir nossa expectativa de vida. 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O TEMPO E O SUICÍDIO QUÂNTICO

QUANDO O RELÓGIO BATE TREZE VEZES.

Ainda que o tempo seja uma invenção criada por nossos antepassados para facilitar a compreensão do mundo, o nascimento inaugura uma viagem rumo a um futuro que nunca chega — hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã —envelhecer é inexorável e a morte é a única certeza que temos nesta vida. Ainda assim, viver para sempre é um sonho antigo.


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Se nunca houve reviravolta entre os dois turnos, nunca a distância do primeiro para o segundo lugar foi tão pequena. A dúvida é se o presidente terá força e discernimento suficientes para corrigir os erros a tempo de ganhar.

O desempenho da direita impressionou, mas não o suficiente para consolidar a impressão de que a eleição esteja resolvida, de que Jair Bolsonaro esteja indultado e de que os golpistas estejam anistiados.

É verdade que não há registro de virada do segundo sobre o primeiro colocado de um turno a outro, mas também é fato que nunca a distância foi tão estreita — menos de dois pontos percentuais —, dianteira que a oposição tem motivo para comemorar, mas que o governo tem condição de inverter nas próximas três semanas se souber disputar com competência os cerca de 8% dados aos demais candidatos.

Posta a bola no chão, fica a lição de que a subestimação do adversário é péssima conselheira. Isso valeu para Lula, que desde o início menosprezou a oponente, e vale agora para Flávio, que será imprudente se desdenhar da capacidade de reação de Lula, decorrente do susto.

O choque de realidade ficou evidente no semblante de decepção dos aliados e na aparente calma da manifestação do molusco logo após a confirmação do resultado do primeiro turno: ele mediu palavras e procurou se ater aos limites da normalidade, a fim de ganhar tempo e não se precipitar sobre o que fazer.


Na Grécia Arcaica (séculos VII e VI a.C), acreditava-se que a água de um rio que nascia no Monte Olimpo tornava os homens imortais. Em 1513, Ponce de León partiu de Porto Rico em busca da lendária Fonte da Juventude e descobriu a Flórida, mas morreu sem jamais ter encontrado a tal fonte. Em 1932, quando a expectativa de vida dos norte-americanos era de 59,7 anos, Walter B. Pitkin publicou seu livro de autoajuda Life begins at forty (A vida começa aos quarenta).


Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado pelos filhos, devolvia-os ao útero de Gaia. Até que um dia, cansada de gerar para perder, a deusa escondeu Cronos e lhe pediu que, quando crescesse, castrasse o pai. Cronos atendeu ao pedido da mãe, mas passou a devorar a própria cria. O ciclo só foi interrompido quando Réia, sua esposa, escondeu Zeus e lhe pediu que obrigasse o pai a regurgitar seus irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou Cronos numa guerra que durou dez anos, tornando-se o deus dos deuses.


Urano, Cronos, Kairós e Saturno — a versão romana de Cronos — são tão reais quanto o céu, o purgatório e o inferno dos católicos, mas há na mitologia grega uma distinção fundamental: Enquanto Cronos representa o tempo cronológico, linear e mensurável, Kairós é associado ao tempo da experiência, do acontecimento e do instante significativo. Por convenção, o tempo que rege nossas vidas é o de Cronos, que o relógio mede, que os calendários registram, que transforma segundos em minutos, minutos em horas, horas em dias, meses e anos. 


Essa lógica nos leva a tratar o tempo como algo mensurável e manejável — um recurso a ser administrado, otimizado e explorado, quase sempre a serviço do trabalho, do consumo e da vida acelerada que naturalizamos no cotidiano —, mas outras formas de compreender e viver o tempo persistem entre povos tradicionais, originários, indígenas, africanos e do sul global. 


Nessas cosmovisões, em vez de se comportar como uma flecha que avança inexoravelmente para a frente, o tempo pode ser cíclico, circular ou espiral, pois nem o passado está morto, nem o futuro é um alvo fixo, nem o presente é apenas um ponto de passagem. O tempo cronológico foi adotado como padrão universal por colonizar o presente, capturar o passado e comprometer o futuro. Na era das métricas, notificações e algoritmos, Cronos deixou de ser apenas uma abstração para se tornar um sistema de controle íntimo, automático e permanente. 


No fim das contas, Cronos venceu, não como mito, mas como método. Ele já não empunha uma foice, mas um relógio digital. Não reina no Olimpo, mas rege os calendários, as metas, os prazos e as notificações. Não precisa mais devorar os filhos; basta convencê-los de que estão sempre atrasados. E nós, acreditando dominá-lo, seguimos oferecendo aquilo que ele sempre exigiu: nossa própria vida, em parcelas mensais.


Entre 1960 e 2014, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou de 48 para 74,6 anos. Aubrey de Grey — co-fundador da SENS — acredita ser possível viver por séculos sem sofrer os transtornos da velhice, mas poucas pessoas colhem mais de 100 margaridas dos jardins da existência e quase ninguém aceita o passar do tempo com serenidade. Aos 93 anos, chamado a escolher a palavra mais bonita da língua portuguesa, o poeta Manoel de Barros — que dizia prezar insetos mais que aviões — escolheu "criança", talvez por ter envelhecido com brilho, beleza e arte. 


A experiência que vem com a idade nos ensina a escolher entre o que vale ficar e o que pode partir. É na maturidade que o mundo deixa de ser promessa e passa a ser memória; que o coração, cansado de batalhas inúteis, começa a buscar apenas aquilo que o sustenta; que o corpo, companheiro fiel por décadas, começa a falhar em pequenos sinais — um joelho que reclama, uma visão que pede auxílio, uma dor que se instala sem convite.


A idade ensina a negociar com limites, respeitar fronteiras internas e aceitar que há ritmos que não voltam. A solidão visita com frequência os que envelhecem em silêncio: amigos partem, amores se transformam, lares se esvaziam e a memória vira companhia — às vezes, consolo; às vezes, ferida. 


Diz-se que a delícia da velhice está num café sem pressa, num fim de tarde em silêncio, na alegria simples de estar, que há uma delícia profunda em olhar para trás e reconhecer a própria trajetória, os afetos preservados, os erros superados, os recomeços possíveis, e que envelhecer é aprender a dizer não sem culpa, a escolher com mais clareza, a valorizar a presença de quem ficou.


Mas nem todos aceitam a velhice filosoficamente, como frisou Ruy Castro na crônica Melhor idade é a puta que te pariu, que merece ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta.


Continua…

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 122ª PARTE

DEIXEMOS QUE OS SEGUNDOS SE CURVEM DIANTE DA NOSSA VONTADE DE CRIAR.


Até aqui, percorremos um caminho que nos levou das ideias de Einstein às dimensões ocultas da Teoria das Cordas, passando por buracos de minhoca, universos paralelos e atalhos pelo espaço-tempo.


Diante disso, a pergunta que naturalmente se impõe é: se a Física admite tantas possibilidades extraordinárias, por que ninguém voltou ao passado para alterar a História?


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Os vazamentos transformaram o inquérito sobre o escândalo do Master em um cano furado, colocando 50% do STF na fila do patíbulo.. Na última sexta-feira, o presidente de turno da corte divulgou um ofício enviado ao chefe da Polícia Federal no qual anotou que dará os "encaminhamentos devidos" assim que receber da corporação o relatório com todas as informações disponíveis "sem exceção de pessoa".

Há sete meses, embora a obviedade já saltasse aos olhos, o Supremo, fingindo-se de cego, enviou ao arquivo morto relatório em que a PF expôs, em 200 páginas, as relações comerciais de Dias Toffoli com o esquema de Daniel Vorcaro. Deu no que está dando. 

No mês passado, o tribunal voltou a se defrontar com o óbvio ao tomar conhecimento das mensagens enviadas por Vorcaro a Alexandre de Moraes, e, em sessão que entrou para a história como um vexame, tropeçou no óbvio, piscou para o óbvio, voltou a fingir que o óbvio não é o óbvio e o empurrou com a barriga.

Sobreveio a quebra do sigilo do celular de Vorcaro, que trouxe à luz fotos e mensagens que expõem, direta ou indiretamente, Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux, além de deixar o PGR numa sinuca de bico — a autoridade de Paulo Gonet foi como que diluída no uísque e defumada na fumaça do charuto patrocinado pelo investigado. E nada.

Em seu ofício, Fachin disse estar convicto de que a PF e o Ministério Público "desempenharão suas atribuições com a independência, a responsabilidade e o rigor que delas se espera", e avaliou que "a preservação da confiança pública nas instituições exige que eventuais ilícitos sejam investigados com seriedade, transparência e respeito à ordem constitucional". 

O palavrório recolocou o óbvio no trilho. Agora só falta transformá-lo num lote de ações práticas, mesmo porque confiança não orna com a dúvida, e a credibilidade de um tribunal é inversamente proporcional à suspeita que recai sobre seus integrantes.


À primeira vista, basta impedir o casamento dos próprios pais, eliminar o avô antes do nascimento do pai ou convencer Einstein a abandonar a Física e se dedicar ao violino para que toda a História seja reescrita. Afinal, uma única viagem ao passado colocaria em xeque um dos pilares da lógica: a relação entre causa e efeito.


Em outras palavras, o efeito passaria a determinar a própria causa, algo que desafia nossa intuição e coloca em xeque a lógica sobre a qual construímos nossa compreensão do mundo. E parece que a natureza não gosta desse tipo de brincadeira.


Imagine que alguém voltasse no tempo e impedisse o nascimento de um grande líder político, ou que Alexander Fleming descobrisse a penicilina. Se o passado fosse realmente alterado, o presente deixaria de existir exatamente como o conhecemos. E sendo assim, quem teria realizado a viagem?


Paradoxos como esse intrigam os cientistas há décadas, mas, curiosamente, em vez de concluir que as viagens ao passado são impossíveis, alguns dos maiores nomes da Física se perguntam se o próprio Universo não possuiria mecanismos capazes de impedir esse tipo de contradição — uma espécie de "sistema antifraude" destinado a garantir que a História permaneça coerente, por mais estranhas que sejam as leis da natureza. E é justamente essa intrigante possibilidade que iremos explorar a partir de agora.


Durante décadas, físicos encararam esses paradoxos como um sinal de que as viagens temporais simplesmente deveriam ser impossíveis. Era a solução mais simples: se voltar ao passado produz contradições lógicas, então a própria Física deve impedir que isso aconteça. Mas nem todos concordaram.


Alguns pesquisadores passaram a defender uma ideia surpreendente: talvez o Universo permita viagens ao passado, desde que nenhuma delas altere aquilo que já aconteceu. Em outras palavras, é possível visitar o ontem, desde que não se faça nada para mudá-lo. Mas a própria presença do viajante do tempo numa época que não é a sua já não seria uma mudança? 


Segundo o Princípio da Autoconsistência, proposto pelo físico russo Igor Novikov, qualquer tentativa de produzir um paradoxo fracassaria, não por azar, coincidência ou intervenção divina, mas porque as leis da Física simplesmente não admitem acontecimentos contraditórios. Essa é uma proposta elegante, mas existe outra ainda mais radical. 


De acordo com a Conjectura da Proteção Cronológica, proposta por Stephen Hawking, talvez o Universo sequer permita que alguém chegue ao ponto de criar um paradoxo. Antes que isso acontecesse, algum mecanismo físico destruiria a máquina do tempo, fecharia o buraco de minhoca ou tornaria a viagem impossível, como se o próprio cosmos possuísse um sistema antifraude.


Se Hawking estiver certo, o Universo age como um cartório extremamente rigoroso. Você pode preencher todos os formulários, apresentar toda a documentação e cumprir todas as exigências, mas, na hora de carimbar o passaporte para o passado, alguém atrás do balcão simplesmente diz: seu pedido foi indeferido. 


Isso pode parecer um exagero, mas a Física moderna encontrou razões surpreendentemente sérias para considerar essa possibilidade, como veremos a seguir.


Continua… 

terça-feira, 6 de outubro de 2026

QUE DEUS SE APIEDE DE NÓS

APÓS CONQUISTAR QUATRO MANDATOS DE DEPUTADO FEDERAL POR SÃO PAULO, O PALHAÇO TIRIRICA VOLTOU PARA O CEARÁ E FICOU DE FORA. E DEPOIS DIZEM QUE NORDESTINO NÃO SABE VOTAR…

Candidato à re-re-re-reeleição, Lula chega ao dia do tira-teima de 2026 com apenas três pontos à frente de Flávio Bolsonaro — uma vantagem mais magra do que a registrada nas três eleições presidenciais que venceu.


Ocorre que pesquisa de intenção de voto não é prognóstico da urna — em 2018, às vésperas do pleito, todos os institutos davam como certa a derrota de Bolsonaro no segundo turno (fosse quem fosse o adversário da vez) e a vitória de Dilma para o Senado por MG.


Acabou que o então obscuro deputado do baixo clero que surfou na onda do antipetismo e promoveu o maior estelionato eleitoral da história deste país desde a redemocratização venceu o bonifrate do então presidiário de Curitiba por uma diferença de 10,7 milhões de votos, e Dilma, a mulher sapiens, cuja vitória também eram favas contadas, ganhou o que a Luzia ganhou atrás da horta. Mas o perfil conservador dos candidatos estimula a suspeita de que o voto útil pode favorecer mais Flávio do que Lula.


Observação: Em 2002, quando prevaleceu sobre José Serra, o desempregado que deu certo saboreou no Datafolha da véspera 27 pontos de vantagem. Em 2006, mesmo carregando o mensalão na mochila, chegou no dia anterior à disputa com uma dianteira de 12 pontos sobre Geraldo Alckmin. Em 2022, estava 14 pontos à frente de Jair Bolsonaro, e na pesquisa do último sábado, manteve-se nos 45% que somava na quinta-feira, enquanto o filho do ex-presidente golpista — que ora cumpre pena por tentativa de golpe de Estado — cresceu de 40% para 42%. Quer dizer: o petista conseguiu segurar o empate técnico, mas sua vantagem caiu de cinco para três pontos, enquanto Bolsonarinho apresentou viés de alta.


Vale destacar, por oportuno, que uma parcela significativa dos brasileiros é formada por analfabetos funcionais e outros "luminares" que repetem, a cada eleição, por ignorância, o que Pandora fez, uma única vez, por curiosidade. No entanto, a perspectiva da volta do clã Bolsonaro, ora representado pelo primogênito do capetão golpista, é ainda mais aterradora que a de o macróbio eneadáctilo conquistar o quarto mandato.


Pela lógica, diante de um cardápio que se resume a suco de merda e sanduíche de bosta, quem tem um mínimo de bom senso muda de boteco. Mas não a récua de muares travestidos de eleitores, que parecer acreditar que insistir no mesmo erro acabará produzindo um acerto, da mesma forma que infinitos macacos digitando aleatoriamente por um tempo igualmente infinito acabarão reproduzindo as obras completas de Shakespeare. E isso não é de hoje.


Confirmado o segundo turno, o xamã petista, que representa a continuidade numa disputa marcada pelo sentimento da mudança, precisará virar sua campanha do avesso. Já seu adversário diz personificar uma virada de página para trás, como ele próprio demonstrou ao ventilar que sua prioridade é anistiar o pai. Mas o fator democrático, decisivo para a vitória de Lula há quatro anos, parece não sensibilizar o eleitor dito independente, fiel da balança em 2026.


Em São Paulo — maior colégio eleitoral do país —, o bolsonarista Tarcísio de Freitas, reeleito governador, consolidou um acordo no fim da campanha que "se mostrou muito eficaz" e ajudou a tirar Simone Tebet e a intragável Marina Silva da disputa ao Senado. Ele retirou Ricardo Salles, que estava pulverizando os votos da direita, e fortaleceu as candidaturas que estavam atreladas à sua própria campanha. 


A nova composição no Senado tende a puxar debates sensíveis, como propostas de reforma do Judiciário e pedidos de impeachment de ministros do STF em meio ao avanço de uma bancada mais conservadora. Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado, teve uma votação expressiva — como era de esperar, na medida em que, além de ser muito prestigiada em Brasília, seu protagonismo vai muito além do Distrito Federal e sua vitória reforça um "projeto de poder" do bolsonarismo — que não se limita a um ciclo curto.


Mesmo em prisão domiciliar por atentar contra a democracia, Jair Bolsonaro emergiu das urnas como maior protagonista e principal beneficiário político do processo eleitoral de 2026. Seu primogênito chegou ao segundo turno à frente de Lula e seu espúrio partido beliscou 121 cadeiras de deputado federal, 24 a mais que em 2022, além de eleger 19 senadores, passando a controlar 28 cadeiras. Isso sem falar que, dos 20 governadores eleitos no primeiro turno, dez haviam declarado apoio a Flávio Rachadinha, e que o PL, sozinho, elegeu seis governadores.


Os resultados revelaram uma hegemonia eleitoral da extrema-direita, com forte viés bolsonarista. Bolsonaro ficou mais próximo de concluir o seu projeto de vingança, enquanto Lula precisaria de uma virada para permanecer no Planalto — coisa jamais vista num segundo turno.


Alexandre de Moraes tem um encontro marcado com um pedido de impeachment no Senado. Bolsonaro já enxerga o meio-fio. Pode ganhar não apenas as ruas, mas o papel de eminência parda de uma eventual Presidência do filho. Mesmo que o ex-deputado das rachadinhas, panetones e mansões milionárias seja derrotado, esse projeto presidencial do clã vai se prolongar pelos próximos anos, até porque a força do bolsonarismo apareceu tanto na sucessão presidencial quanto nas disputas estaduais. Nesse cenário, Micheque pode ganhar projeção nacional e entrar na fila de nomes do grupo para futuras eleições.


Que Deus se apiede de nós.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

DE VOLTA AOS UNIVERSOS PARALELOS — CONCLUSÃO

SE VIRES TRÊS, DESCONFIA DE UM; SE VIRES UM, DESCONFIA DE TRÊS. 


O raio estimado do Universo observável (horizonte de partículas) é de aproximadamente 46,5 bilhões de anos-luz, e o da Esfera de Hubble (distância onde a recessão cósmica atinge a velocidade da luz), de apenas 14,4 bilhões de anos-luz. 


O Multiverso de Nível 1 corresponde ao espaço que a luz ainda não alcançou desde o Big Bang, e obedece a todas as leis da física e constantes cosmológicas do nosso Universo. Teoricamente, poderíamos acessá-lo viajando numa nave capaz de avançar pelo cosmos por tempo suficiente para percorrer uma distância da ordem de 10^(10^29) metros, e provavelmente chegaríamos a um sistema planetário igual ao nosso, com um planeta idêntico à Terra, povoado por clones de cada um de nós. 


A existência desses clones não é uma simples possibilidade, mas uma consequência matemática desse modelo cosmológico, uma vez que a "realidade" é apenas a forma como o cosmos organiza suas partículas em um dado momento. Com tempo e espaço suficientes, as partículas se rearranjariam de todas as maneiras possíveis, incluindo a que existe no corpo de cada um de nós. Mal comparando, é como o célebre teorema do macaco infinito: se teclassem ao acaso por tempo igualmente infinito, infinitos macacos quase certamente produziriam todos os textos possíveis, incluindo as obras completas de Shakespeare. 


Observação: Em matemática, "quase certamente" significa que a probabilidade é igual a 1, mas ainda existe a possibilidade lógica (com probabilidade 0) de que os macacos digitem apenas a letra "A" para sempre. É um conceito de infinito: o infinito não garante todas as combinações, mas garante que a probabilidade de não sair Shakespeare é tão pequena que é zero.


Em um universo com combinações finitas de partículas, um número finito de possibilidades certamente irá gerar um "universo-espelho". E como o Multiverso de Nível 1 segue as mesmas leis físicas e constantes cosmológicas do nosso Universo, em tese é possível explorá-lo — desde que nossa tecnologia evolua o suficiente. 


Para entender o Multiverso de Nível 2, é preciso compreender a Teoria da Inflação Cósmica, que é a hipótese mais bem aceita pelos cientistas para explicar a expansão extremamente rápida do Universo em seus primeiros instantes. Segundo essa ideia, um momento de inflação imensa e quase instantânea que se seguiu ao Big Bang, deu origem ao nosso Universo. Entretanto, diferentemente de uma bolha de sabão, ele não ocupa espaço do ambiente externo, existe dentro de um espaço finito e pode criar massa e espaço a partir de quase nada. Isso nos leva à seguinte pergunta: de onde vem tanta força pra vencer toda a pressão que existe “fora” desse universo-bebê?


Conforme Einstein previu matematicamente em suas equações relativísticas, pressão negativa gera gravidade repulsiva. Assim, uma substância em estado de inflação cósmica produz uma antigravidade que faz com que ela se expanda violentamente, e a energia resultante cria massa suficiente para que a substância cresça de tamanho e continue igualmente densa. Em outras palavras, um desdobramento dessa teoria pode criar todo um universo a partir de (quase) nada, e dado que algo pode se expandir infinitamente sem aumentar o espaço que ocupa quando visto "de fora", infinitos espaços podem existir dentro de um espaço finito.


A Teoria do Multiverso não é uma teoria isolada, mas uma consequência de abordagens como a Inflação Eterna e a mecânica quântica. A Inflação Eterna — um desdobramento da teoria da Inflação Cósmica — defende que nosso universo não é único ou especial, que existem outras Inflações Cósmicas acontecendo o tempo todo, dando origem a inúmeros novos universos. Isso significa que o Multiverso de Nível 2 compreende inúmeros universos em diferentes “bolhas inflacionárias”, cada qual com constantes cosmológicas e leis da física específicas, sendo a melhor hipótese apresentada até agora para resolver o problema do ajuste fino (ou fine-tuning) do Universo. 


Nossas constantes fundamentais são compostas por números aparentemente aleatórios, mas, assim como existe um universo exatamente com esses valores, deve haver inúmeros outros universos ocultos, cada qual com valores específicos, e o Multiverso de Nível 2 seria um conjunto de universos eternamente incomunicáveis, já que cada um deles é infinito, embora ocupe um espaço finito quando visto "de fora". 


O Multiverso de Nível 3 não só difere dos outros dois como também é o "queridinho" das obras de ficção científica, como o filme Coerência, por exemplo. De acordo com a Interpretação de Copenhague, proposta por Niels Bohr e Werner Heisenberg, antes de ser observada, cada partícula se comporta também como onda e permanece num estado de superposição quântica. Quando é observada, no entanto, ela colapsa e ‘escolhe’ um único local para se mostrar como partícula. Mas uma teoria alternativa que está ganhando cada vez mais atenção é a chamada Interpretação dos Muitos Mundos, proposta por Hugh Everett em 1957.


Segundo Everett, a onda nunca colapsa; todas as possibilidades de localização da partícula são igualmente verdadeiras, criando a cada instante uma infinidade de bifurcações quânticas, cada qual originando um universo paralelo onde tudo que pode acontecer acontece (em algum lugar). Ou seja, existem inúmeras versões de cada um de nós vivendo em um universo levemente ou completamente diferente, e a cada decisão que tomamos, nosso clone toma uma decisão oposta em algum universo paralelo. Essa infinidade de estados possíveis é descrita matematicamente pelo chamado Espaço de Hilbert, dentro do qual a Interpretação dos Muitos Mundos representa cada ramo como uma realidade distinta.


No famoso experimento de Schrödinger combinado com a Interpretação de Copenhague (detalhes no capítulo anterior), um gato permanece vivo e morto ao mesmo tempo até a caixa onde ele se encontra confinado ser aberta, fazendo com que o estado quântico resulte ou não na morte do gato. Na Interpretação de Everett, no entanto, o universo se separa em dois; num deles o gato está vivo, e no outro, ele está morto. Da mesma forma, nós nos dividimos em dois, e cada uma das nossas realidades fica para sempre conectada com um dos estados do átomo e só participa de um dos universos, que, uma vez separados, seguem cada qual seu próprio caminho e nunca mais interagem com os outros.


A ideia de milhões de universos paralelos existirem parece absurda e contraintuitiva, mas não é mais incoerente do que a ideia de uma partícula se comportar como onda, estar em vários locais ao mesmo tempo e mudar seu comportamento de forma totalmente randômica quando observada — como bem observou Richard Feynman, ninguém realmente compreende a mecânica quântica.


Os cientistas avessos à Interpretação dos Muitos Mundos se apoiam na Navalha de Occam, segundo a qual a solução mais simples tende a ser a verdadeira, até porque seria muito complexo ter que adicionar infinitos universos paralelos para justificar a existência do nosso. Mas o interessante é que a Interpretação dos Muitos Mundos é apenas uma maneira diferente de ver os mesmos dados e os mesmos resultados. A única diferença é que os cientistas que estudam a ideia dos Muitos Mundos acreditam que o observador fica entrelaçado com um dos estados da partícula assim que interage com ela, para nunca mais se separar.


Assim, no Multiverso de Nível 3 tudo o que pode acontecer de fato acontece, e a partícula quântica, em vez de entrar em colapso, ocupa todos os lugares, dando origem a infinitas realidades diferentes a cada segundo. 


No Multiverso de Nível 4, Tegmark defende que todos os multiversos de níveis anteriores fazem parte de uma única estrutura matemática infinitamente e inconcebivelmente complexa, e que, além da estrutura geométrica de quatro dimensões — três espaciais e uma temporal — existem outros universos formados por outras geometrias.


É normal sermos avessos a ideias que contradizem nossa impressão mais imediata da realidade, mas talvez devamos evitar a impressão mais intuitiva. A maioria de nós acredita ser o centro absoluto do universo — ou seja, a pessoa mais real, vívida e importante que existe —, mas raramente falamos desse tipo de egocentrismo por ele ser socialmente repulsivo.


Ainda assim, trata-se de nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento, mesmo porque jamais tivemos uma experiência em que não fôssemos o centro absoluto. Aliás, talvez o fato de esses níveis de multiverso nos colocarem numa posição insignificante seja o que nos incomoda nessa teoria.