A CIÊNCIA NÃO É APENAS COMPATÍVEL COM A ESPIRITUALIDADE; É UMA FONTE PROFUNDA DE ESPIRITUALIDADE.
Se você integra a legião de cegos mentais que tomam o Velho Testamento por jornalismo confiável e o criacionismo por hipótese plausível para a origem da vida na Terra, você não está sozinho: por algum defeito de fabricação, inúmeras pessoas preferem acreditar em mentiras a enxergar a verdade que desfila diante de seus olhos.
Talvez isso ocorra porque o cérebro humano é extraordinariamente ruim em escala geológica, e 13,8 bilhões de anos é um número cognitivamente inapreensível, ou porque as religiões, mesmo tendo se tornado um pool de máquinas caça-níqueis, oferecem um pseudoconforto espiritual que a cosmologia científica não promete por não ser esse seu papel.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Lula, o autoproclamado Sun-Tzu de Garanhuns, agiu corretamente quando mandou o embaixador Júlio Bitelli de volta à Argentina, sinalizando que o governo brasileiro deseja o retorno da normalidade. Por outro lado, sempre que pede a palavra, sua insolência quase nunca a devolve em boas condições.
Na semana passada, ao falar sobre o maior conflito armado da história da América do Sul, o vocalista do grupo de pagode Fala Merda reescreveu a história numa comentário infeliz, errôneo e desnecessária, no qual afirmou que o Paraguai "invadiu" o Brasil, o Uruguai e a Argentina.
A fala foi Infeliz porque remexeu numa ferida aberta — para os paraguaios, o Brasil cometeu genocídio na guerra; numa conta conservadora, a historiografia estima as perdas paraguaias entre 150 mil e 300 mil mortos. Foi errônea porque o Paraguai jamais invadiu o Uruguai: no episódio que antecedeu a guerra, foi o Império do Brasil que invadiu o Uruguai para evitar que o beligerante ditador paraguaio, Solano López, tutelasse aquele país. E foi desnecessária porque produziu uma tensão que serviu apenas para criar uma encrenca diplomática com o Paraguai num instante em que o Itamaraty já administra a intromissão do presidente argentino na eleição brasileira.
A despeito dos três mandatos nas costas, o macróbio eneadáctilo ainda não aprendeu que pior do que uma crise são duas crises.
Pode-se argumentar que abraçar o criacionismo (ou outra religião qualquer) não é uma posição epistemológica, e sim uma identidade cultural e tribal. E muito embora o valor da Bíblia como literatura, mitologia e registro cultural seja indiscutível, tratar textos do século 10 a.C. como cosmologia literal, ignorando evidências convergentes de física, biologia, geologia e astronomia, é sinônimo de analfabetismo científico com consequências práticas — mas, de novo, argumentar com que renunciou à lógica é o mesmo que medicar defunto.
Prova disso é que, a despeito de o modelo cosmológico mais aceito estimar a idade do Universo em 13,8 bilhões de anos, não faltam apedeutas negacionistas que compram a versão do arcebispo irlandês James Ussher, segundo a qual Deus iniciou à criação do mundo e tudo que nele existe às 9h00 de 23 de outubro de 4004 a.C., viu que "tudo era bom" e deu os trabalhos por encerrados no sétimo dia, quando então descansou (!?)
Em tese, vivemos num país livre, onde cada um pode acreditar no que bem entender, da absolvição de Lula — que não passou da anulação dos processos devida a uma tecnicidade territorial — à inocência de Bolsonaro — tanto do pai golpista quanto dos filhos "cineastas" — e mais um sem-número de falácias sem pé nem cabeça. Por outro lado, negar evidências não muda os fatos. As coisas são como são — e não como gostaríamos que fossem — e mentiras não deixam de ser mentiras porque as pessoas acreditam nelas.
Passando ao que interessa, nosso sistema solar é um fascinante conjunto de objetos celestes (planetas, satélites, asteróides, meteoros etc.) interligados pela força da gravidade, tendo o Sol como seu centro. (0:10). Ele se formou há 5 bilhões de anos, e a Terra, cerca de 500 milhões de anos depois. Dito isso, quando o deus do arcebispo Ussher supostamente criou o mundo… enfim, fé e ciência não são mutuamente excludentes quando a esfera de cada uma é respeitada.
Embora não devamos subestimar a importância da Bíblia nem negar a enorme influência cultural do Gênesis, devemos mantê-los dentro de seu contexto histórico e mitológico, e não interpretá-los como revelações científicas sobre a criação do mundo. Assim, tomar os textos bíblicos por evidências factuais é ignorar séculos de progresso científico — como bem disse o pintor grego Apeles, não vá o sapateiro além das sandálias.
O literalismo religioso alimenta a negação de descobertas amplamente aceitas e mina o avanço em questões vitais ao futuro da humanidade. No tempo das cavernas, tempestades, terremotos, eclipses e outros fenômenos naturais eram atribuídos a forças sobrenaturais, e esse misticismo deu origem às religiões. Todavia, embora a fé e religião andem de mãos dadas, tanto é possível ter fé e não ser religioso como seguir uma religião simplesmente por tradição familiar ou convenção social.
Compete às religiões oferecer conforto espiritual, respostas a questões como o propósito e o sentido da vida e "religar" o homem a Deus. No entanto, em vez de levarem à unidade, ao amor e ao bem de todos, elas foram deturpadas para servir a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam na manipulação de seus semelhantes. A possibilidade de existir um ente superior é plausível, mas como acreditar em um deus criador que concede livre-arbítrio às criaturas se ele promete recompensar os bons com a vida eterna num paraíso celestial e punir os maus com o fogo eterno num inferno comandado por um anjo caído?
As religiões perderam muito da empatia que tinham nos tempos de antanho e deitaram suas raízes nos comportamentos evolutivos fundamentais. Assim como os vaga-lumes, elas precisam da escuridão para brilhar, e são úteis para os poderosos, que lhes dão ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos. Enquanto sua rigidez tende a perpetuar tradições e práticas que raramente resistem ao questionamento crítico, a fé que resulta de experiências empíricas leva as pessoas a crer em algo sem que isso lhes seja enfiado goela abaixo por dogmas. Essa flexibilidade faz com que a fé se adapte aos valores e interpretações de cada um, tornando sua relação com a religião ainda mais intrigante quando a natureza da divindade é questionada — aliás, dizem que Deus criou a fé e o amor, e o diabo, invejoso, as religiões e o casamento.
Aristóteles ensinou que o sábio duvida e o sensato reflete. Toda religião é a verdade absoluta para quem a professa, mas não passa de mera fantasia para os devotos das outras seitas. No entanto, qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria refutar a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem ou assando lentamente num espeto. Mesmo assim, em pleno século XXI, algumas doutrinas claramente inverossímeis têm hostes de seguidores que pegam em lanças para defender seus rituais e liturgias.
No Mito da Caverna, Platão ensina que a sabedoria e o conhecimento estão além das aparências superficiais, e que só a reflexão crítica leva à compreensão das nossas convicções e das narrativas que escolhemos abraçar. Infelizmente, pode-se levar um burro até o regato, mas não se pode obrigá-lo a beber.
Continua…





