SPACE BENDS, TIME BREAKS (O ESPAÇO SE CURVA, O TEMPO PARA).
Vimos que nem toda a evolução havida desde a invenção da roda até os tempos atuais permitiu que a ciência explicasse a natureza do tempo, que acomodasse numa única equação matemática a teoria da relatividade e a mecânica quântica, e que viajar para o futuro depende somente de conseguirmos construir espaçonaves capazes de singrar o cosmos em velocidades próximas à da luz, levar os astronautas até as proximidades do horizonte de eventos de um buraco negro, ou então atravessar um buraco de minhoca.
Voltar ao passado, todavia, é mais complicado, pois esbarra numa série de obstáculos impostos pelas leis da física clássica — sem falar que o simples desembarque do viajante numa época pretérita bastaria para alterar os acontecimentos e criar um "novo futuro", como explica o célebre paradoxo do avô.
A coisa se encaminha para mais um acobertamento de rotina. Mas a turma do abafa precisará responder a uma pergunta singela: "E a sujeira?". O que fazer com as mensagens endereçadas a Moraes? Com o pedido de proteção? Com os apelos para que intercedesse junto aos chefes da PF, da PGR e do BC? Com a pergunta de Vorcaro a Moraes sobre se deveria sair do país pouco antes de ser preso?
Gonet aparece no relatório que Mendonça encomendou à PF como parte do detrito. Numa mensagem, manda um advogado amigo dizer a Vorcaro que está "com saudade". Confirma presença num evento patrocinado pelo banqueiro mafioso em Londres: "Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan". Pede a inclusão do filho, Pedro Gonet, no convescote.
A liberalidade metodológica, quando é muita, acaba engolindo os donos. O tapete do Supremo ficou pequeno. O resort vendido por Toffoli ao cunhado de Vorcaro já vaza pelas bordas. Com Moraes, o excesso tende a tornar tudo insignificante, exceto a pergunta: "E a sujeira?"
Embora nossa compreensão do tempo se baseie na física newtoniana, a teoria da relatividade desafia o pressuposto intuitivo de que os acontecimentos progridem linearmente do passado para o futuro, sugerindo que o espaço-tempo pode se comportar de formas bizarras, como demonstram os buracos negros (cuja existência já foi comprovada).
Como dito no post anterior, uma curva temporal fechada permitiria a um viajante do tempo seguir caminhos diferentes sem alterar o futuro, já que a criação de uma linha do tempo alternativa a cada decisão tomada tornaria a volta ao passado factível. Por outro lado, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e consequências.
Einstein bem que tentou, mas não conseguiu desenvolver uma equação capaz de descrever a realidade inteira. Outros físicos seguiram seus passos — entre os quais Stephen Hawking —, mas nenhum deles teve melhor sorte, e a busca por uma regra fundamental escondida por trás da diversidade do universo continua. E não faltam teorias que visam elucidar essa questão, sendo a Teoria de Tudo uma das mais promissoras.
Por muito tempo, falar sobre universos paralelos foi tabu entre a comunidade científica, mas não há nada como o tempo para passar, e teorias que se baseiam na hipotética existência de multiversos têm seus defensores e seus detratores. Mas os universos paralelos não são teorias em si, e sim previsões de determinadas teorias que sustentam a existência de fenômenos impossíveis de ser observados — como os buracos de minhoca, que continuam no campo das conjecturas embora "façam parte do pacote" da relatividade geral de Einstein, e o mesmo acontece com os universos paralelos em teorias como a inflação infinita, e talvez até na mecânica quântica.
A existência de universos paralelos foi defendida por cientistas do quilate de Stephen Hawking e Neil deGrasse Tyson, mas o problema é que o tema suscita muita confusão, sobretudo porque não se sabe de qual tipo de universo paralelo se está falando. Para facilitar, o livro Our Mathematical Universe, do cosmólogo Max Tegmark, dividiu os universos paralelos em quatro níveis diferentes. Vamos a eles:
O Multiverso de Nível 1, também conhecido como Quilted, é todo o cosmos que está tão longe que sua luz ainda não teve tempo de chegar até nós, embora o Big Bang tenha ocorrido há cerca de 13,8 bilhões de anos. A propósito, o universo "observável" é uma esfera com raio de 49 bilhões de anos-luz, conhecida como Esfera Hubble, e tudo que fica fora dela pode ser considerado outro universo.
Esse nível fica mais interessante quando paramos para pensar que existem apenas finitas maneiras de rearranjar as partículas do universo observável. Significa dizer que se pudéssemos singrar o cosmos por tempo suficiente, acabaríamos nos deparando com um clone da Terra com cópias idênticas dos terráqueos, da mesma forma que um macaco digitando aleatoriamente em um teclado por um período de tempo infinito acabará escrevendo a obra completa de Shakespeare. Vale destacar que esse nível do universo obedece às leis da física clássica e às constantes cosmológicas conhecidas, de modo que, pelo menos, em teoria, poderemos alcançá-lo quando e se desenvolvermos tecnologia avançada o suficiente para isso.
Para entender o Multiverso de Nível 2 é preciso compreender a Teoria da Inflação Cósmica, segundo a qual existiu um momento de inflação imensa e quase instantânea logo depois do Big Bang. Todavia, diferentemente de uma bolha de sabão, que ocupa espaço em um ambiente externo, o Universo não precisa de um exterior para se expandir. Uma teoria elegante, proposta por Stephen Hawking, é a da fronteira sem fronteira — um modelo de tempo imaginário no qual o cosmos seria como a superfície da Terra: finito, mas sem uma borda nem uma singularidade inicial.
Conforme Einstein estabeleceu em sua teoria da relatividade geral, pressão negativa gera gravidade repulsiva. Assim, uma substância em estado de inflação cósmica produz uma antigravidade que a explode, e a energia que essa antigravidade usa para expandir cria massa suficiente para que ela duplique de tamanho e continue a duplicar de novo e de novo. Ou seja, cria-se um universo inteiro sem tomar lugar de qualquer outra coisa, e assim diversos espaços infinitos poderiam existir dentro de um espaço finito.
Em suma, o Multiverso de Nível 2 é um conjunto de universos tecnicamente incomunicáveis, já que cada um deles é infinito, apesar de ocupar um espaço finito se visto de fora. Mas a aceitação desse nível de multiverso depende da aceitação geral da própria Teoria da Inflação Eterna, que sugere boas soluções para vários outros problemas misteriosos. Aliás, trata-se da melhor hipótese que temos para resolver um dos problemas mais misteriosos do nosso próprio Universo: o da “afinação” (ou fine-tuning).
Diferente dos outros dois, o Multiverso de Nível 3 é o "queridinho" das obras de ficção científica e do imaginário popular. Segundo a interpretação de Copenhague, proposta por Niels Bohr e Werner Heisenberg, antes de ser observada, cada partícula se comporta também como onda e está em um estado de superposição quântica — ou seja, em dois ou mais locais ao mesmo tempo. Mas quando observamos essa partícula/onda, ela "escolhe" um local único para se mostrar como partícula. Mas uma teoria alternativa que está ganhando cada vez mais atenção é a chamada Interpretação dos Muitos Mundos, proposta por Hugh Everett em 1957.
Segundo essa teoria, a onda jamais entra em colapso, de modo que todas as possibilidades de localização seriam igualmente verdadeiras, criando uma infinidade de bifurcações quânticas, cada uma dando origem a um universo paralelo, onde tudo que pode acontecer acontece em algum lugar. Ou seja – existem milhões de versões de cada um de nós vivendo em universos ligeiramente ou totalmente diferentes, e cada vez que tomamos uma decisão, um clone de nós toma a decisão oposta em algum universo paralelo.
No famoso experimento do gato de Schrödinger, o gato está em um estado de superposição quântica — vivo e morto ao mesmo tempo —, e seu futuro só é decidido no momento em que a caixa é aberta (obrigando a partícula a decidir se decai ou não). Na Interpretação de Everett, no entanto, o universo se separa em dois, e o gato está vivo num deles e morto no outro, sem jamais interagirem um com o outro.
A ideia de que milhões de universos paralelos existem parece absurda, mas não é mais incoerente do que a possibilidade de uma partícula se comportar como onda, estar em vários locais ao mesmo tempo e mudar de estado de modo totalmente randômico quando é observada (como disse Richard Feynman, "ninguém realmente compreende a mecânica quântica").
Os cientistas avessos à Interpretação dos Muitos Mundos se escoram na Navalha de Occam — a explicação mais simples tende a ser a verdadeira — já que seria complicado adicionar infinitos universos paralelos para justificar a existência do nosso. Mas trata-se apenas de uma maneira diferente de olhar para os mesmos dados e os mesmos resultados, já que as equações que admitem a existência desses universos já existem.
Por último, mas não menos importante, resta dizer que o Multiverso de Nível 4 engloba todos os multiversos dos níveis 1, 2 e 3 numa única estrutura matemática infinitamente complexa, e que aceitar essas hipóteses sobre a maneira como a realidade se comporta vai de encontro (e não ao encontro) a nosso instinto fundamental de acreditar que somos o centro do universo.
Esse tipo de egocentrismo natural pode até ser socialmente repulsivo, mas é a nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento. Mesmo porque nunca tivemos uma experiência da qual não fomos o centro absoluto. Mas talvez o multiverso incomode porque reduz a existência de cada um à sua insignificância, e o ser humano tem dificuldade em aceitar a ideia de que ele não é essencialmente especial.
Continua…


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