sábado, 28 de março de 2026

MOVIMENTO BARATA-VOA EM BRASÍLIA — FINAL

DIZER-SE APOLÍTICO TAMBÉM É UMA POSIÇÃO POLÍTICA, MAS O MAIOR CASTIGO PARA QUEM NÃO SE INTERESSA POR POLÍTICA É SER GOVERNADO POR QUEM SE INTERESSA.  

Sérgio Moro colecionou muitos inimigos, mas ninguém investiu tanto contra sua reputação quanto ele próprio, sobretudo ao ajudar a incinerar as sentenças que lhe deram fama e a transformar as multas de corruptores confessos em cinzas no forno de pizza do STF.


Ao se deixar seduzir pela promessa de uma vaga no Supremo, o então herói nacional trocou 22 anos de magistratura por um efêmero ministério no governo Bolsonaro, e ao embarcar nessa canoa furada, iniciou um périplo pelos nove círculos do inferno


Em 2019, o ex-juiz chegou à Esplanada dos Ministérios como um "superministro" com "carta branca". No ano seguinte, deixou a pasta da Justiça chutando a porta. Na coletiva de imprensa que convocou para anunciar seu desembarque do governo, ele acusou o chefe do executivo de interferir politicamente na PF — a revelação desse segredo de Polichinelo resultou na abertura de um inquérito para apurar os fatos, mas o decano Celso de Mello se aposentou do STF e tudo acabou em pizza.


As coisas poderiam ter tomado outro rumo se ele continuasse engolindo sapos depois da folclórica reunião interministerial de 22 de abril de 2020, na qual Bolsonaro ameaçou trocar o superintendente da PF antes que "alguma sacanagem fodesse sua família ou um amigo". O suposto "desvio de conduta" dele e de Dallagnol — que o jornalista americano Glenn Greenwald trombeteou em seu site panfletário, como vimos no capítulo anterior — foi prontamente replicado por veículos de comunicação "parceiros" do site The Intercept Brasil.


A despeito de os acusados não reconhecerem a autenticidade das conversas rapinadas pelos hackers de Araraquara, de a PF não as ter periciado e de elas não terem validade jurídica, o material espúrio influenciou a decisão dos supremos togados, que colaram em Moro a pecha de juiz parcial e cravaram mais um prego no caixão da Lava-Jato. E assim o ex-juiz e herói nacional que jurou jamais entrar para a política tornou-se ministro de Estado, foi traído por Bolsonaro, simulou desinteresse pelo Planalto, filiou-se ao Podemos e, na condição de pré-candidato à Presidência, prometeu levar a campanha até o fim, mas voltou atrás, migrou para o União Brasil, foi sabotado por Luciano Bivar, candidatou-se a deputado federal por São Paulo por um partido e se elegeu senador pelo Paraná por outro. 


Execrado pela esquerda, abandonado pela extrema-direita e antipático aos olhos da alta cúpula do Judiciário, Moro passou a colher os frutos do que plantou ao trocar o certo pelo duvidoso — ou pelo errado, como descobriu mais adiante. Com a corda no pescoço e os pés no cadafalso, seu alegado desejo de salvar o país da corrupção transmutou-se na ânsia de se livrar da cassação.


Como juiz federal, Moro enquadrou poderosos em processos de grande repercussão, como o escândalo do Banestado, a Operação Farol da Colina e a Operação Fênix. No auge da Lava-Jato, condenou figuras do alto escalão da política e do empresariado tupiniquim, como Lula, José Dirceu, Sérgio Cabral e Marcel Odebrecht. No Senado, apresentou oito projetos mas, nenhum foi aprovado., e tampouco fez algo de consistente ou demonstrou qualquer liderança na oposição 


Em 2021, quando ainda sonhava com a Presidência, Moro fez um discurso de volta ao passado: "Chega de corrupção, chega de mensalão, chega de petrolão, chega de rachadinha, chega de orçamento secreto". Também criticou Bolsonaro pelo negacionismo na gestão da pandemia que deixou mais de 700 mil mortos no país devido à falta de vacinas: “Onde está a vacina para os brasileiros? Tem presidente em Brasília? Quantas vítimas temos que ter para o governo abandonar o seu negacionismo?” Depois de conviver com a amoralidade do União Brasil, filiou-se ao PL do ex-presidiário mensaleiro Valdemar Costa Neto, que tem Bolsonaro como presidente de honra. 


Observação: Mais vergonhoso que isso, só mesmo a virada de casaca do ex-tucano Geraldo Alckmin: depois de dizer que reeleger Lula era reconduzir o criminoso à cena do crime, o pupilo de FHC se filiou ao PSB para disputar a vice-presidência na chapa de Lula. É fato que, na política, o desafeto de hoje pode ser o aliado de amanhã — e vice-versa — mas tudo tem limite. 


Chamado de "idiota" por Bolsonaro, Moro terminou apoiando o ofensor em 2022. Dando de ombros para a compra de apoio Legislativo com emendas secretas, sentou praça no PL deve dividir o palanque com Flávio Bolsonaro — um presidenciável de imagem bem rachadinha. Em meio às mais incríveis desonras, continuará buscando inacreditáveis saídas honrosas para justificar a flacidez de sua conduta. 


Observação: Pode-se acusar o Marreco de Maringá de uma porção de coisas, menos de ter condenado Lula motivado por "ambições políticas" — quando mais não seja porque, em julho de 2017, quando a sentença foi proferida, quase ninguém levava a sério a possibilidade de Bolsonaro ser eleito. Além disso, Lula foi preso por determinação do TRF-4, que não só ratificou a condenação como aumentou a pena em um terço.

 

Moro foi taxado de "traidor" pelos bolsominions por acusar o "mito" líder de interferir politicamente na PF. Nos anos seguintes, enquanto criticava o ex-chefe, os bolsonaristas questionavam sua atuação como juiz da Lava-Jato e como ministro da Justiça. Mas não há nada como o tempo para passar (e para expor o verdadeiro caráter das pessoas que admiramos porque não as conhecemos bem). 


A reconciliação com o clã Bolsonaro ganhou espaço ao longo de 2023 e 2024 e se intensificou com a prisão de Bolsonaro e seu afastamento do tabuleiro eleitoral. A oficialização da aliança que ignora a ruptura de 2020 veio por meio do primogênito Flávio, considerado uma versão menos radical do pai. Durante o evento de filiação, Moro elogiou o "filho do pai" e reiterou a necessidade de tirar o filho da, digo, de tirar Lula do Planalto. 


"Ele [Lula] foi eleito em cima de uma mentira de que ele seria inocente, ele nunca foi inocentado pelo STF, ele foi condenado por várias instâncias", declarou o senador. Além da candidatura de Moro para o governo do Paraná, o PL anunciou os nomes do deputado federal Filipe Martins e do ex-procurador da Lava-Jato e deputado cassado Deltan Dallagnol para o Senado. O ex-herói nacional lidera as pesquisas para o Palácio Iguaçu — daí Ratinho Jr. ter desistido de disputar a Presidência para construir uma coalizão que fortaleça seu grupo político no estado e, por tabela, contenha o avanço do candidato do PL


Como foi dito linhas acima, na política o desafeto de hoje pode ser o aliado de amanhã, e vice-versa. Flávio Bolsonaro acusou Moro de ter deixado o governo por não se contentar com a “posição subalterna” de ministro, e de ter agido de forma “rasteira e traiçoeira” ao tentar atingir a "imagem impoluta" do pai. No evento da última terça-feira, porém, ele afirmou confiar no trabalho e na capacidade de Moro. "Por mais que a gente tenha tido alguma divergência no passado, por mais que a gente tenha tido alguns problemas que são públicos, a gente está olhando para frente", destacou.


Na Divina Comédia, Dante Alighieri percorre o Inferno e o Purgatório guiado por Virgílio, e o Paraíso, pela mão de sua amada Beatriz. Na política, onde cada um precisa fazer seu caminho, Moro seguiu sem guia, e acabou tropeçando nas próprias promessas. No século XIX, certas diferenças só podiam ser lavadas com sangue num duelo; hoje, a hemorragia de Moro escorre sobre as cinzas da Lava-Jato


Quem consegue avistar uma saída honrosa na mais degradante desonra pode achar alvissareira a tentativa do ex-candidato da antipolítica de estreitar sua inimizade com a toga mais política do STF — mas o excesso de cinismo apenas confirma: no Brasil, a exceção é que costuma parecer farsante, mas a regra é ser farsa mesmo.


Resumo da ópera: As baratas são extremamente resistentes, e as que habitam os porões do Planalto, do Congresso e do Supremo são praticamente imorríveis.

sexta-feira, 27 de março de 2026

MOMENTO BARATA-VOA EM BRASÍLIA — CONTINUAÇÃO

ELEITORES NÃO TÊM MEMÓRIA, TÊM AMNÉSIA.

Como vimos no capítulo de abertura, as baratas são extremamente resistentes, e as que habitam o submundo da República não constituem exceção à regra. Depois do bate-cabeça, elas tendem a se reagrupar — como fizeram quando a "Delação do Fim do Mundo" ameaçou varrer do mapa uma porção significativa do Congresso. E como bem observou Karl Marx, "a história se repete primeiro como tragédia e depois como farsa". 


No final de 2016, Cláudio Melo Filho, também chamado de "o homem da Odebrecht em Brasília", entregou à PGR um calhamaço de 82 páginas relacionando 40 políticos a R$ 68 milhões pagos pelo setor de "operações estruturadas" da empreiteira — também chamado de "departamento de propinas" —, que controlava a circulação do dinheiro destinado a financiar a compra de leis, medidas provisórias e decisões de interesse do Grupo. 


O delator baiano era apenas um dos 77 informantes da Delação do Fim do Mundo. Os cinco delatores mais importantes eram Emílio e Marcelo Odebrecht, Alexandrino Alencar, Pedro Novis e Benedicto Júnior, que repassaram propinas aos presidentes Lula Dilma e aos tesoureiros clandestinos do esquema, Antonio Palocci e Guido Mantega.  


A aproximação da Odebrecht com o PT se deu por obra do patriarca Emílio, que se tornou amigo de Lula quando este ainda era aspirante ao Planalto. Com a chegada da petralhada ao poder, a construtora foi irrigada com bilhões de reais do BNDES e se tornou sócia da Petrobras na petroquímica Braskem. A Lava-Jato descobriu mais adiante que esse modelo de corrupção se reproduziu praticamente em todas as estatais, e que só a Odebrecht distribuiu algo em torno de R$7 bilhões em propinas (valor equivalente a 1% de seu faturamento em uma década.


Com Marcelo Odebrecht no comando, o faturamento do grupo passou de R$ 30 bilhões para R$ 125 bilhões. A companhia chegou até a criar um banco num paraíso fiscal caribenho para administrar o pagamento de propinas no Brasil e no exterior. Movimentado através de contas secretas, o dinheiro ajudou a eleger presidentes da República, deputados, senadores, governadores e prefeitos, que eram convertidos em servidores da Odebrecht e recompensados com novas obras, que resultavam em novas propinas que elegiam e reelegiam políticos. Esse círculo vicioso só foi interrompido com a prisão de Marcelo, o "príncipe das empreiteiras".


A Operação Lava-Jato — que ironicamente foi criada durante o governo Lula e desmantelada no de Bolsonaro — ganhou esse nome em 2008. Mas a notoriedade veio somente em 2014, quando um grampo telefônico levou ao doleiro Alberto Youssef e ao dono do Posto da Torre, que vendia 50 mil litros de combustível por dia e contava com 85 funcionários distribuídos por lojas de conveniência e alimentação, borracharia, oficina mecânica, lavanderia e, claro, a famosa casa de câmbio ValorTur, pivô da investigação que, mais adiante, exporia as entranhas pútridas do Petrolão.


Ao longo de 79 fases, a Lava-Jato contabilizou 1.450 mandados de busca e apreensão, 211 conduções coercitivas, 132 mandados de prisão preventiva e 163 de temporária. Foram propostas 38 ações civis públicas e 735 pedidos de cooperação internacional, colhidos materiais e provas que embasaram 130 denúncias contra 533 acusados e geraram 278 condenações (sendo 174 nomes únicos), num total de 2.611 anos de pena, e mais de R$ 4,3 bilhões foram recuperados por meio de 209 acordos de colaboração e 17 de leniência.


Os ataques desfechados contra a força-tarefa pelos políticos investigados bombaram na mídia. Só para ficar num exemplo notório, o então senador Romero Jucá disse a Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, que era preciso uma mudança no governo federal e um "acordão com o Supremo, com tudo, para "estancar a sangria." 


Uma das condenações mais emblemáticas foi a de Lula, que mesmo sendo réu em dezenas de processos e tendo sido condenado nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia a penas que somavam mais de 20 anos de tranca, dizia que "não existia no Brasil uma alma viva mais honesta do que ele”.


Tudo ia bem até que os procuradores cometeram o "pecado" de mirar dois ministros do STF e o filho rachadista do presidente da República. A partir de então, o ministro Gilmar Mendes — a verdadeira herança maldita de FHC — passou de defensor a crítico ferrenho da operação e articulador do fim da prisão em segunda instância


A pá de cal foi gentilmente fornecida pelo site esquerdista The Intercept Brasil, mediante o vazamento seletivo de mensagens roubadas dos celulares de Sergio Moro, Deltan Dallagnol e outros procuradores por uma quadrilha de hackers caipiras. Não obstante, mesmo que sugerisse uma colaboração explícita entre quem acusava e quem deveria julgar com imparcialidade, o material espúrio não foi periciado pela PF, até porque "provas" obtidas criminosamente carecem de valor legal. 


Apesar de a Lava-Jato ter exposto as entranhas pútridas dos governos petistas e mandado para a prisão bandidos travestidos de executivos das maiores empreiteiras do país e políticos ímprobos do mais alto escalão do governo federal, Sérgio Moro passou de herói nacional a "juiz parcial", e Lula, de presidiário a inquilino do Planalto (pela terceira vez). Durante os 580 dias de férias compulsórias na carceragem da PF em Curitiba, sempre que alguém lhe perguntava se estava bem, o pontifex maximus da seita petista respondia: "só vou ficar bem quando foder o Moro".


Mas não há nada como o tempo para passar. Horas depois que o Supremo proibiu a prisão em segunda instância (por 6 a 5, com o voto de Minerva proferido pelo inigualável Maquiavel de Marília), Lula deixou a cela VIP em Curitiba. Mais adiante, ele teve as condenações anuladas e os direitos políticos restabelecidos, mas jamais foi absolvido: suas condenações foram anuladas quando o ministro Fachin acolheu um recurso que questionava a competência territorial da 13ª Vara Federal de Curitiba para processar e julgar o ex-presidente — argumento que o próprio Fachin já havia rejeitado pelo menos dez vezes. Mal comparando, seria como um delegado soltar um criminoso preso em flagrante pela Guarda Civil Metropolitana a pretexto de que prisão deveria ter sido feita pela Polícia Militar.


Sérgio Moro colecionou muitos inimigos, mas ninguém investiu tanto contra sua reputação quanto ele próprio, sobretudo ao ajudar a incinerar as sentenças que lhe deram fama e a transformar as multas de corruptores confessos em cinzas no forno de pizza do STF. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.


Continua…