NÃO É PORQUE NÃO VEMOS QUE NÃO EXISTE; NÃO É PORQUE NÃO PODEMOS EXPLICAR QUE NÃO É REAL.
Os astrônomos e astrofísicos não sabem quanto tempo durou a inflação cósmica que marcou os primeiros instantes do Universo, mas, segundo o Teorema de Borde-Guth-Vilenkin, espaços inflacionários não podem ser eternos no passado e precisam ter um começo.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
O fantasma da interferência dos Estados Unidos ronda a sucessão presidencial brasileira, e na bica do primeiro turno o receio ganhou contornos financeiros. Em notícia-crime enviada à PGR e à PF, a AGU pede a investigação de denúncia veiculada pelo jornal britânico The Guardian, segundo a qual existe um projeto do governo Trump de nome sugestivo — "Combate à Litigância Deliberativa e à Censura no Brasil" — que prevê o investimento de US$ 176,9 milhões de um fundo do Departamento de Estado norte-americano em 43 projetos. O pretexto seria combater a "censura" e um hipotético "abuso de poder" do STF. Horas antes da divulgação da notícia-crime da AGU, Trump sacudiu seu lençol em Washington ao afirmar que acompanha "bem de perto" a eleição no Brasil e classificar a disputa como "muito importante".
Entrementes, o primogênito do presidiário e candidato do PL ao Planalto fugiu do debate da Globo: esgrimindo decisões judiciais inusitadas — numa, a ministra Estela Aranha, do TSE, subverteu regras com as quais todos os candidatos haviam concordado e determinou que a Globo retirasse do cenário o púlpito vazio de Lula e proibisse os os debatedores de dirigirem perguntas ao candidato ausente.
Uma vez que o molusco macróbio já havia tomado a rota de fuga, o esvaziamento levou a emissora a cancelar o debate. Noutro despacho sui generis, Gilmar Mendes rasgou no Supremo a lei que exclui dos debates candidatos cujos partidos não disponham de cinco representantes na Câmara e ordenou à Globo que admitisse no debate o candidato Renan Santos, atropelando decisões anteriores tomadas por Nunes Marques, no TSE, e por Cármen Lúcia, no próprio STF. No início da semana, Nunes Marques já havia enfiado goela abaixo da Globo a participação de Romeu Zema.
O extravagante protagonismo eleitoral do Judiciário produziu um efeito deletério: o eleitor foi privado de assistir à fricção de ideias dos candidatos que se dispuseram a debater. Ganhou Lula, que havia acertado uma entrevista com o podcast Flow. Perdeu Flávio Bolsonaro, que passou um atestado de covardia para si mesmo. Tremeu com a perspectiva de ser fustigado por Renan Santos.
Ao cancelar o debate, a Globo produziu dois perdedores adicionais: o eleitor e, sobretudo, a democracia.
Tampouco se sabe o tamanho do cosmos, mas admite-se a possibilidade de ele ser infinitamente maior do que sua porção observável. Até porque, se tivesse uma geometria fechada, uma nave viajando pelo espaço em linha reta por tempo suficiente poderia acabar retornando ao ponto de partida.
Algumas teorias sugerem a existência de múltiplos universos semelhantes ao nosso, mas com diferenças fundamentais. Se essas hipóteses forem corretas, o cosmos pode ser muito mais vasto do que imaginamos, abrigando um número imenso — talvez infinito — de universos paralelos. Em alguns desses cenários, podem existir versões alternativas de cada um de nós, vivendo em realidades semelhantes ou completamente diferentes e fazendo escolhas divergentes a cada decisão tomada.
Admitindo que a inflação tenha gerado inúmeros universos dentro de um multiverso, a quantidade de realidades possíveis implica a existência de fenômenos impossíveis de serem observados. No célebre experimento de Schrödinger, um gato é trancado numa caixa e o decaimento de um único átomo determina se ele vai morrer ou sobreviver. Na leitura de Everett, cada realidade permanece conectada a um dos possíveis estados do átomo. Uma vez separados, esses universos seguem seus próprios caminhos e nunca mais interagem com os demais.
Observação: Segundo a Interpretação de Copenhague, o gato está em um estado de superposição quântica — ou seja, vivo e morto ao mesmo tempo —, e seu futuro será decidido no momento em que a caixa for aberta. Já na Interpretação de Everett o universo se separa em dois; num deles, o gato está vivo, no outro, ele está morto.
Durante muito tempo, falar sobre universos paralelos foi quase um tabu na comunidade científica. Nos últimos anos, porém, a ideia de multiverso passou a receber atenção crescente, não por constituir uma teoria independente, mas por surgir como consequência possível de diferentes modelos físicos amplamente estudados.
A Relatividade Geral, por exemplo, prevê matematicamente a existência do interior dos buracos negros, embora essa região não possa ser observada diretamente. De maneira semelhante, algumas versões da Inflação Eterna e certas interpretações da mecânica quântica também admitem, como consequência de suas equações, a possibilidade da existência de universos paralelos.
O conceito de multiverso soa menos estranho quando lembramos que, diferentemente dos bits da computação tradicional — que assumem apenas um valor por vez (0 ou 1) —, os qubits (bits quânticos) podem existir em superposição de estados. Na Interpretação dos Muitos Mundos, essa superposição não desaparece com a observação: ela se desdobra em diferentes ramos da realidade. Em outras palavras, cada resultado possível continua existindo, não no mesmo universo, mas em histórias paralelas que evoluem independentemente umas das outras.
Observação: No chamado Multiverso de Nível 3 — sobre o qual falaremos mais adiante —, a natureza não escolhe apenas um entre vários resultados possíveis. Segundo a Interpretação dos Muitos Mundos, todos eles continuam existindo, cada qual em um ramo distinto da realidade. Em vez de um único futuro, haveria uma multiplicidade de histórias paralelas, descritas matematicamente no Espaço de Hilbert.
Para cientistas do quilate de Neil deGrasse Tyson e Stephen Hawking, a existência de multiversos é uma possibilidade que merece ser levada a sério. O problema é que a expressão "universo paralelo" pode significar coisas muito diferentes, dependendo da teoria considerada, o que dificulta o debate. Para organizar esse cenário, o cosmólogo Max Tegmark propôs uma classificação dos multiversos em quatro níveis, que abordaremos na postagem de amanhã.
Continua…




