EM TERRA DE CEGO, QUEM TEM UM OLHO É… CAOLHO.
Os provérbios populares remontam aos primórdios da humanidade. No contexto bíblico, eles lembram Salomão, terceiro rei de Israel, que ensina regras de justiça, disciplina e boa convivência em seu Livro dos Provérbios, mas no nordeste brasileiro eles evocam o folclorista Mário Souto Maior, cuja vasta obra inclui Alimentação e Folclore — uma coleção de ditos populares que se enraizaram na cultura tupiniquim.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Reunido para julgar a censura imposta por Nunes Marques à pesquisa AtlasIntel, o plenário do TSE decidiu não decidir, mantendo a liminar atendeu a um pedido esdrúxulo do primogênito de seu benfeitor. O plenário do tribunal tinha pelo menos três razões para desdizer o "10% de Bolsonaro no Supremo", cuja decisão monocrática se revelou juridicamente inepta, politicamente inútil e cientificamente perigosa.
A liminar é Inepta porque liminares pressupõem urgência, e a pesquisa suspensa foi divulgada no mês passado — a alegação de que o áudio do filho do pai pedindo dinheiro a Vorcaro induziu os entrevistados não fica em pé, quanto mais não seja porque a peça só foi exibida no final do questionário sobre intenção de voto.
A liminar é inútil porque retirar de circulação uma pesquisa amplamente divulgada é tão inviável quanto desfritar um ovo, e perigosa porque o TSE ameaça quebrar vários ovos para produzir não uma omelete, mas uma lambança.
O julgamento foi interrompido por um pedido de vista da ministra Estela Aranha, e num prenúncio do que está por vir, o vice-presidente da corte,, André Mendonça, insinuou que o tempo pedido pela colega seria útil para inaugurar um debate sobre regras para os institutos de pesquisa. Surpreendentemente, Dias Toffoli afirmou que "quanto mais proibição, mais tutela", e que "as pesquisas deveriam ser liberadas totalmente".
Nada pode ser mais perigoso do que um debate no qual a voz precária de Toffoli soa como contraponto lúcido.
"A fome é o melhor tempero" é um bom exemplo. Embora o sal, o azeite, o vinagre, o orégano, a salsinha, a cebolinha, o manjericão, a hortelã, o louro, o cravo, a canela, a noz-moscada, as pimentas e condimentos preparados, como a mostarda e o molho inglês, sejam imprescindíveis, não há nada como a fome para deixar a comida mais apetitosa.
"A verdade e o azeite andam em cima" - Como as demais gorduras e a nata do leite, o azeite sobe à superfície quando misturado a outros líquidos.
"Amizade remendada, café requentado" - Reaquecer o café destrói as substâncias responsáveis pelo aroma e o sabor dessa bebida da mesma forma que uma amizade (ou uma relação amorosa) reatada não volta a ser como era antes do rompimento.
"Azeite, vinho e amigo, melhor o antigo" — Dizem que só quem come trinta quilos de sal (um quilo por ano) é amigo de verdade. Isso vale também para os vinhos — que melhoram com o tempo quando não viram vinagre —, mas não para o azeite, que fica rançoso depois de alguns meses.
"Barato que só bolo de goma" - Goma é o polvilho da mandioca, que é usado para fazer tapioca, biscoitos, beijus e… bolo de goma. A receita é simples, rende muito e é barata.
"Puxar a brasa para sua sardinha" (ou “puxar a sardinha para sua brasa”, dependendo da versão) — A sardinha recebeu esse nome por ser abundante na ilha da Sardenha (Itália), e a expressão em tela (ou sua variante inversa) nasceu de um contexto culinário típico de feiras, romarias, festas populares e acampamentos, no qual as pessoas assavam as sardinhas na mesma fogueira e tentavam arrastar a brasa mais quente para perto da sua. Com o passar do tempo, a expressão passou a significar agir em benefício próprio em detrimento do interesse coletivo."Em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão" — O pão é o principal alimento dos povos desde a pré-história, e a falta dele, o pavio para toda sorte de desentendimentos (outro ditado semelhante é: “quando a necessidade entra pela porta, o amor sai pela janela”).
"Macaco, quando não pode comer banana, diz que ela está verde" — Bananas verdes não devem ser consumidas in natura porque travam na boca e dão dor de barriga. Aliás, os macacos começam a descascar a banana pela ponta (o bico preto), evitando que aqueles fiozinhos amargos fiquem grudados na fruta.
"Não há mulher sem graça nem festa sem cachaça" — A cachaça é um subproduto da cana-de-açúcar, que os escravos consumiam para suportar o frio e o trabalho duro nos canaviais, e os senhores de engenho usavam como remédio para quase tudo, de reumatismo a sífilis e picada de cobra. Mulher sem graça pode até ter, mas festa sem cachaça, no Nordeste, é meio difícil.
"Não se faz omelete sem quebrar ovos" - Como a omelete é feita com ovos batidos, o sentido oculto da frase é que não há bônus sem ônus nem resultado sem sacrifício. Em outras palavras, para alcançar um objetivo — seja ele pessoal, político, econômico ou até moralmente nobre — algo precisa ser perdido, destruído ou colocado em risco.
"O frango de hoje é preferível ao galo de amanhã" - O provérbio ensina que a carne mais nova e tenra é sempre melhor e mais saborosa que a mais velha e dura.
"Ninguém fica pra semente" - Na linguagem bíblica, isso se diz de quem vive muito além da média (caso de Matusalém, que teria vivido 969 anos).
"Para quem ama, catinga de bode é cheiro" — Versão nordestina do ditado “quem ama o feio bonito lhe parece”. A propósito, a catinga do bode é causada por uma glândula que se desenvolve na cabeça do animal a partir do quinto mês de vida. Para obter melhores resultados culinários, recomenda-se abater o caprino antes dessa idade.
"Pimenta nos olhos dos outros é refresco" - A pimenta arde por ser rica em capsaicinoides, que não têm cheiro nem sabor, mas estimulam as células nervosas da boca, produzindo a sensação de ardor. Uma variação menos elegante desse provérbio substitui olhos por cu, mas isso é outra conversa.
"Uma azeitona é ouro, a segunda é prata e terceira mata" — Cada 100 g de azeitonas verdes têm 140 kcal, e das pretas, 180 kcal. Mas o provérbio é um exagero, já que uma azeitona a mais dificilmente mata alguém.
A associação com a comida deixa claro que a origem dessas pérolas está menos nos púlpitos e mais nas cozinhas, feiras e fogões improvisados. Antes de virar metáfora política, moral ou social, era só gente tentando garantir o jantar. O cardápio mudou, mas os ditados ficaram — e a fome, como sempre, continua sendo o melhor tempero da lucidez.



