sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

SOBRE GATOS PRETOS

AZAR NÃO É A PESSOA ENCONTRAR UM GATO PRETO NUMA SEXTA-FEIRA 13, E SIM UM GATO PRETO ENCONTRAR UMA PESSOA IGNORANTE NESSE DIA.

Como vimos no post do dia 4, os gatos domésticos têm sentidos apurados, percebem variações químicas e térmicas em seus tutores, captam emoções, pressentem tragédias ou preveem desastres naturais. Na Idade Média, acreditava-se que eles fossem os responsáveis pela peste e por outras doenças infecciosas — quando na verdade ajudavam a erradicar os ratos, que eram os verdadeiros vetores da praga.


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Aos 46 anos, o PT vive uma fase marcada por transições físicas — rugas e cabelos brancos — e cognitivas — maturidade e reflexão sobre a vida. Lula trocou o antigo figurino contemporizador de “Lulinha paz e amor” pela armadura: “essa eleição vai ser uma guerra”, soando como quem se equipa para guerrear contra Flávio Bolsonaro, o adversário de sua predileção. 

Noutros tempos, o xamã petista criticava os críticos da política; agora, incorpora a antipolítica a seu cardápio e torpedeia a atividade que exerce desde os tempos de sindicalista: "A política apodreceu; agora, é dinheiro rolando para tudo quanto é lado".

Ecoando o slogan "Congresso inimigo do povo", Lula chamou de "sequestro" as emendas que promovem um escoamento de verbas públicas pelo ladrão do Orçamento federal e cobrou da plateia autocrítica e reação: "Vocês têm obrigação de não deixar que partido vá para a vala comum da política." 

Tomado pela retórica, Lula vai aos palanques de 2026 com uma pose de político antissistema. Um contrassenso, pois lidera umas das legendas mais sistêmicas do país. Ao término do atual mandato, somando-se o tempo de Presidência de Lula e de Dilma, o PT terá dado as cartas no Planalto por 17 anos e oito meses.

Na prática, Lula ajudou a erguer o sistema que passou a praguejar. Nos seus dois primeiros mandatos, o matrimônio do governo com o Centrão deu em mensalão, em petrolão, no impeachment da mulher sapiens e em Bolsonaro, que se elegeu como antissistema e comprou o Centrão com o orçamento secreto, uma abjeção da qual Lula ainda não conseguiu se livrar.

Num instante em que a candidatura tóxica de Flávio Bolsonaro cresce sobre as cinzas de uma direita pulverizada e a sujeira do Banco Master vaza pelas bordas dos tapetes de Brasília, atacar o bolsonarismo e abominar o sistema tornaram-se desabafos úteis para Lula, mas nem por isso o desabafo virou solução para um presidente que chega à antessala da eleição com a popularidade ainda no vermelho.

A guerra prevista pelo macróbio aparece em todas as pesquisas como uma batalha de rejeições. Prenuncia-se uma disputa apertada. Em vez de escolher o candidato da preferência, o pedaço independente do eleitorado que decidirá a eleição — coisa de 3%— votará na base do "esse não", rejeitando Lula ou refugando o herdeiro de sangue do prisioneiro da Papudinha.

Confirmando-se o embate entre nhô-ruim e nhô-íor num eventual segundo turno, o próximo presidente subirá a rampa do Planalto mais pela debilidade do adversário do que pela pujança de suas ideias. Exatamente como aconteceu em 2018 com Bolsonaro e em 2022, quando Lula conquistou seu terceiro mandato..

Confiante na vitória, Lula injetou na maturidade que veio com a meia-idade do PT uma dose de pragmatismo. Soou como se enxergasse no estilhaçamento que o primogênito do capetão produz na direita uma oportunidade para ampliar a caravana da reeleição. "Temos que tratar de fazer as alianças necessárias para a gente ganhar as eleições. Um acordo político é uma coisa tática para a gente poder governar esse país. E estamos mais sabidos, muito mais preparados."

Juntando-se a retórica antissistema com o desejo de atrair para a coligação governista o pedaço do Centrão que se sente órfão de Tarcísio de Freitas, cuja candidatura presidencial apodreceu antes de amadurecer, Lula como que reedita o terror pendular que marca a política brasileira. O roteiro é invariável: no palanque, candidatos soam valentes; eleitos, deslizam para aquilo que Lula chamou em Salvador de "vala comum da política". Nesse vaivém, a governabilidade ganha um sentido sistematicamente gangsterismo. Seja quem for o eleito, o Centrão continuará fazendo a festa.

Devido a uma superstição que remonta aos tempos de antanho e os vincula à bruxaria e ao ocultismo, os gatos pretos são frequentemente associados à má-sorte. Em algumas culturas, porém, ocorre exatamente o contrário: no Japão, as mulheres solteiras acreditam que eles aumentam o número de pretendentes; na Escócia, vê-los à porta é sinal de prosperidade; no Reino Unido, um gato preto atravessando a rua atrai sorte. Marinheiros britânicos os apreciam porque eles são caçadores naturais de roedores e “garantem uma navegação tranquila e um retorno seguro”. Já os piratas os veem como sinal de azar quando os animais caminham em sua direção, de sorte quando se afastam, e de naufrágio quando rumam para o navio e mudam de direção sem motivo aparente.


De acordo com a Cat Fanciers Association, 22 raças de gatos podem apresentar pelagem preta sólida, mas somente os da raça Bombay são exclusivamente pretos. Para que isso aconteça, basta um dos pais transmitir o gene da cor, o que os torna comuns — estimativas sugerem que de 10% a 18% dos gatos domésticos são pretos —, mas não necessariamente a maioria da população felina mundial. Por outro lado, há mais gatos pretos machos do que fêmeas, e um fenômeno conhecido como “ferrugem” — que queima o pigmento preto da pelagem — pode mudar a cor para um vermelho acobreado. 


Um sistema imunológico mais eficiente faz com que os gatos pretos sejam mais resistentes a diversas doenças que afetam seus irmãos de outras cores e reduz o risco do vírus da imunodeficiência felina (FIV) — semelhante ao HIV dos humanos. Curiosamente, ao contrário do que a superstição leva a crer, eles representam cerca de 20% dos pets disponíveis para adoção no Brasil e são mais numerosos em abrigos dos EUA e do Reino Unido — tanto por serem comuns como por serem frequentemente preteridos na hora da adoção. Mas vale lembrar que “gato preto” é uma descrição de cor, e pode aparecer em muitos tipos e raças diferentes.


Os antigos egípcios tratavam os felinos como animais sagrados, mas os gatos pretos eram considerados a encarnação viva da deusa Bastet — retratada com a cabeça de gato e corpo humano —, e matá-los era um crime passível de pena capital. Hoje, eles são homenageados nos EUA em 17 de agosto — Dia Nacional de Apreciação do Gato Preto — e em 27 de outubro — Dia Nacional do Gato Preto.


Da deusa egípcia ao abrigo de adoção, os gatos pretos sobreviveram à peste, à Inquisição e à ignorância humana — infelizmente, esta última ainda persiste. Mas eles não trazem má-sorte, apenas revelam a ignorância de quem ainda acredita nessa superstição.


Bom Carnaval.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

AVISO AOS NAVEGANTES

COMPUTADOR SEGURO É COMPUTADOR DESLIGADO.

Existem registros (teóricos) de programas capazes de se autorreplicar desde meados do século passado, mas o termo "vírus" só passou a ser usado para designá-los na década de 1980, quando um pesquisador chamado Fred Cohen embasou sua tese de doutorado nas semelhanças entre os vírus biológicos e os eletrônicos.


No alvorecer da computação pessoal, os vírus exibiam mensagens e sons engraçados ou obscenos, mas logo se tornaram nocivos — a propósito, vale lembrar que um vírus, em si, não é necessariamente destrutivo, e um programa destrutivo, em si, não é necessariamente um vírus. Mais adiante, a popularização da Internet entre usuários domésticos levou os cibercriminosos a elegerem o correio eletrônico (notadamente os anexos de email) como meio de transporte para seus códigos maliciosos, e com o passar do tempo os malwares (vírus, trojans, keyloggers, spywares e afins) passaram de algumas dezenas a muitos milhões.


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Lula jogou Alckmin na frigideira num dia — "tem um papel a cumprir em São Paulo"— e diminuiu o fogo da fritura dois dias depois —"sempre digo que na minha vida as coisas só acontecem porque Deus quer, e Alckmin é uma dessas coisas." Alheia ao vaivém retórico, a banda lulista do MDB conversa sobre a ocupação da vice de Lula como se Alckmin já fosse versa.

Em entrevista ao Globo, o ministro dos Transportes Renan Filho soltou sua língua da coleira. Disse que Lula "está verificando qual é a melhor aliança que amplia a possibilidade de reeleição” e se referiu à vaga de Alckmin como uma oportunidade em aberto: "haverá um novo debate sobre isso." 

O filho de Renan avalia que a pulverização da direita e a saída de Tarcísio de Freitas da corrida presidencial levam água para esse moinho. Sem rodeios, declarou que o eventual acerto de Lula com o MDB inclui "a composição da chapa" presidencial. 

Tanta desenvoltura deixou irritados os aliados de Alckmin. Um dirigente do PSB, partido do vice, ironizou a articulação de Lula com o MDB: puxada de tapete não é coisa de Deus, sobretudo quando atinge uma pessoa leal como o Alckmin; a última vez que Lula enfiou o MDB numa chapa presidencial deu em Michel Temer e no impeachment da Dilma."


Atualmente, qualquer dispositivo inteligente — de PCs a carros autônomos — está na mira do cibervigaristas, mas os smartphones são mais visados porque carregam fotos, senhas, localização, documentos digitais, acesso a bancos e redes sociais etc. Boas suítes de segurança reúnem antimalware, firewall, antispyware, gerenciador de senhas, controle parental e VPN, utilizam heurística, machine learning e inteligência artificial para identificar ameaças desconhecidas — inclusive em dispositivos móveis, IoT, servidores em nuvem e ambientes corporativos híbridos.


Esses pacotes costumam oferecer mais recursos nas versões comerciais (shareware) do que nas gratuitas (freeware), mas, eles são como coletes à prova de balas: protegem contra muitos tiros, mas não contra todos, e não impedem a vítima de abrir a porta para o atirador. Ou seja, nenhum deles é 100% idiot proof, mesmo porque, quando se trata de segurança, os usuários são o elo mais frágil da corrente. Mal comparando, esses softwares 


No âmbito dos desktops e notebooks, o Windows abocanha 70% de seu segmento de mercado (contra os 15,5% do macOS), o que o torna o alvo preferido dos cibercriminosos. E o mesmo raciocínio se aplica ao Android, que é mais visado do que o iOS devido ao código aberto e presença em cerca de 80% dos smartphones ativos. 


Conforme eu mencionei em diversas oportunidades, os aplicativos são os maiores responsáveis pela infecção dos sistemas móveis. Instalar os programinhas somente de fontes confiáveis (a Google Play Store e as lojas dos fabricantes de smartphones no caso do Android, e da App Store no caso do iOS) reduz os riscos, mas não garante 100% de segurança. Diversos aplicativos infectados já burlaram a vigilância do Google e da Apple, e o phishing continua fazendo vítimas, seja por email, por SMS ou por telefone. 


Em um mundo hiperconectado, nenhum software de segurança substitui o bom senso. Informar-se, desconfiar e proteger-se continuam sendo as melhores medidas protetivas de que dispomos. Adotá-las não significa ficar protegido por uma muralha intransponível, mas ignorá-las é procurar sarna para se coçar.


O Google tem emitido alertas frequentes para que usuários desinstalem imediatamente aplicativos que rastreiam dados silenciosamente e infectam dispositivos com malware, como cavalos de Troia bancários e adwares. Em fevereiro de 2026, novas ameaças que se disfarçam de plataformas populares como WhatsApp, Discord e YouTube foram identificadas tentando espionar usuários de Android


Aplicativos de jogos e entretenimento como Theft Auto Mafia, Cute Pet House, Creation Magic World, Amazing Unicorn Party, Open World Gangsters e Sakura Dream Academy devem ser excluídos imediatamente. O malware DroidLock, descoberto recentemente, pode bloquear a tela para exigir resgate (ransomware), gravar áudio e até apagar dados do dispositivo. Frequentemente encontrados em utilitários e ferramentas de personalização, o Trojan Anatsa e o Joker roubam credenciais bancárias e inscrevem usuários em serviços pagos à sua revelia. 


Aplicativos como NS Chat e Equifa VPN foram detectados na Play Store usando permissões excessivas para acessar localização e contatos enquanto executavam atividades maliciosas em segundo plano. No Brasil, uma ação recente derrubou mais de 20 serviços de streaming ilegal, como My Family Cinema, TV Express e Eppi Cinema, devido a riscos de segurança e pirataria. 


Por essas e outras, fique atento aos seguintes sinais de que um aplicativo pode estar comprometendo seu aparelho: aumento repentino no uso de dados móveis ou bateria que descarrega muito mais rápido do que o normal; lentidão ou travamento do dispositivo sem motivo aparente; propagandas que aparecem fora de aplicativos ou que simulam ícones do sistema para se esconder; e aplicativos com nomes genéricos como Speed Boost, System Clean ou 4G Update, que costumam servir de fachada para malwares. 


Utilize regularmente o Google Play Protect (acessível pelas configurações da Play Store) para escanear apps nocivos instalados e remova os que lhe parecerem suspeitos. Se um app não permitir a desinstalação, verifique em Configurações > Segurança > Administração do dispositivo e cancele a permissão de acesso administrativo antes de tentar novamente.

Boa sorte.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 73ª PARTE

THE PAST IS ANOTHER COUNTRY; ALL ROADS LEAD TO TOMORROW.


Falar de maneira coerente sobre o que significa a existência do espaço-tempo sem reintroduzir o tempo por uma porta conceitual que a física não reconhece é o mesmo que tentar descrever uma música que existe de uma só vez — sem jamais ser tocada, ouvida ou desdobrada no tempo — ou questionar o que existe ao norte do Polo Norte.

 

Essa confusão molda a forma como imaginamos o tempo na ficção e na ciência popular. Na franquia O Exterminador do Futuro, todos os eventos são tratados como fixos — a viagem no tempo é possível, mas a linha do tempo não pode ser alterada, e tudo já existe em um estado fixo e atemporal. 


Já em Vingadores: Ultimato, os personagens alterem eventos passados e remodelem a linha do tempo, sugerindo um “Universo em bloco” que existe e muda. Mas essa mudança só pode ocorrer se uma linha do tempo quadridimensional existir da mesma forma que nosso mundo tridimensional existe. 


Independentemente de tal mudança ser ou não possível, ambos os cenários assumem que o passado e o futuro estão lá e prontos para serem visitados, mas nenhum deles aborda que tipo de existência isso implica, ou como o espaço-tempo difere de um mapa de eventos.


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Todas as pesquisas de institutos relevantes indicam que Lula tem vaga assegurada no segundo turno. Evoluindo no vácuo produzido pela pulverização da direita, Flávio Bolsonaro consolidou-se como candidato mais bem-posto para obter a segunda vaga — segundo a Quaest, ele atraiu 77% dos votos do eleitorado bolsonarista.

O PSD esboçou a pretensão de oferecer ao eleitorado um anti-Lula sem toxinas antidemocráticas, mas bastou as pesquisas apontarem que os eleitores "independentes" e de "direita não bolsonarista" somam 53% da população para Gilberto Kassab sinalizar que o partido escolherá um presidenciável entre Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.

Num prenúncio do que está por vir, o camundongo que governa o Paraná se declarou favorável à concessão de um indulto para Bolsonaro. Sob o pretexto de "pacificar o Brasil", o chefe do executivo goiano espancou a tese da despolarização, sinalizando a intenção de costurar uma aliança com o primogênito do presidiário já no primeiro turno.

Entre os autoproclamados “independentes”, que representam ⅓ do eleitorado, Lula amealha 25% das intenções de voto,. Flávio soma 16% e Tarcísio de Freitas, 15%, mas o governador paulista abdicou do sonho presidencial após visitar seu amo e senhor na Resumo da ópera: antes de medir forças com Lula num hipotético segundo turno, o candidato a ser escolhido pelo PSD terá que prevalecer sobre o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias no primeiro escrutínio. Ratinho Júnior e Caiado, que carregam na mochila a participação em atos pró-anistia estrelados por Bolsonaro, agora se oferecem como alternativas democráticas sem se dar conta de que o óbvio é o óbvio. Eduardo Leite, o terceiro nome da seleção de Kassab, manifestou-se contra a anistia e coleciona declarações críticas tanto ao petismo quanto ao bolsonarismo. Seria, em tese, um candidato mais leve para a centro-direita, mas sempre carregou a lanterninha nas pesquisas em que seu nome foi testado e acabou sendo excluído das sondagens eleitorais.

Resta a percepção de que, diferentemente dos pré-candidatos do PSD, a maioria dos brasileiros parece cultivar a sensação de que a coisa mais importante não é de onde o país vem, mas para onde ele vai. Na sondagem da Quaest, o índice dos que têm medo da volta da famiglia Bolsonaro ao poder (46%) é maior do que o dos que temem a permanência de Lula no Planalto (40%). Nesse cenário, não basta reivindicar o volante; é preciso expor um itinerário que faça nexo.

 

Quando dizem que o espaço-tempo “existe”, os físicos se referem a uma estrutura obscura onde uma linha tênue separa existência de ocorrência. Um modelo metafísico que, na melhor das hipóteses, carece de precisão conceitual, e, na pior, obscurece a própria natureza da realidade. As equações de Einstein continuam valendo; o que muda é a forma como as interpretamos, especialmente quando tentamos reconciliar a relatividade geral com a mecânica quântica — um desafio explorado tanto na filosofia quanto em discussões de ciência popular. 

 

Definir o espaço-tempo é mais do que um debate técnico, pois envolve o tipo de mundo em que acreditamos viver. Um estudo recente trouxe novas perspectivas e possíveis respostas para esse dilema básico: combinando três grandes áreas da física — relatividade geral, mecânica quântica e termodinâmica — o pesquisador Lorenzo Gavassino, do Departamento de Matemática da Universidade de Vanderbilt, em Nashville, concluiu que a viagem no tempo poderia, ao menos teoricamente, acontecer sem criar paradoxos.

 

Para entender as viagens no tempo, primeiro é preciso entender como a ciência compreende essa grandeza física. No dia a dia, pensamos no tempo como algo que avança linearmente, do passado para o futuro, como um rio que corre em uma única direção. Essa ideia vem das formulações físicas de Newton, que Einstein questionou ao demonstrar que espaço e tempo estão conectados, formando o que chamamos de “espaço-tempo”. 


A possibilidade de o tempo ser “dobrado” da mesma forma que o espaço pode se curvar (como vemos em variações da gravidade) dá azo à existência de curvas no espaço-tempo que voltam ao ponto inicial, como um círculo. Assim, se alguém viajasse por uma dessas curvas, poderia, em tese, retornar ao passado.

 

Na relatividade geral, a gravidade não é gerada apenas a massa, como se pensava na física newtoniana. O fator determinante é o conteúdo completo de energia e momento de um sistema, descrito pelo chamado tensor energia-momento. Um exemplo famoso é o frame-dragging (efeito de arraste de referencial) previsto por soluções da relatividade como a métrica de Kerr, que descreve buracos negros rotativos. Nesse caso, o momento angular — ou seja, o giro — curva o espaço-tempo, fazendo com que ele “gire” junto com a massa e arraste o espaço-tempo com ela. 


O efeito pode ser insignificante em planetas e estrelas, mas, em um Universo onde toda a matéria gira, o espaço-tempo se tornaria tão distorcido que o tempo efetivamente se curvaria sobre si mesmo, formando um loop. E uma astronave que viajasse por esse loop poderia retornar ao ponto de partida, não apenas no espaço, mas também no tempo. Embora nada sugira que o Universo como um todo gire dessa forma, Gavassino sustenta que buracos negros supermassivos girando rapidamente “arrastam” o espaço-tempo a seu redor, criando curvas fechadas do tipo tempo que, em tese, poderiam levar ao passado. 


A questão é que viajar ao passado ensejaria paradoxos como o do avô — no qual alguém que voltasse no tempo e matasse seu avô antes que ele casasse e procriasse inviabilizaria sua própria existência —, bem como problemas relacionados às leis da física, especialmente à entropia — grandeza termodinâmica associada à irreversibilidade do grau de desordem em sistema físico, à luz da qual a seta do tempo aponta sempre para o futuro. Mas se o tempo se dobra sobre si mesmo, será que a entropia continua aumentando ou poderia, de alguma forma, diminuir?

 

Gavassino demonstrou que a entropia nos loops temporais poderia diminuir sem violar as leis da física quântica. Assim, uma pessoa poderia rejuvenescer, esquecer ou até reviver experiências, já que todas estão ligadas ao aumento da entropia. Segundo   princípio de autoconsistência, a reversão da entropia evitaria paradoxos, pois o próprio tecido do espaço-tempo "corrigiria" inconsistências temporais, garantindo que a realidade permaneça logicamente coesa.

 

De acordo com a maioria dos físicos e filósofos, se a viagem no tempo fosse possível, a natureza sempre encontraria uma maneira de evitar situações contraditórias. Em 1992, Stephen Hawking propôs a “conjectura de proteção cronológica”, segundo a qual as próprias leis da física impedem a formação de loops temporaisGavassino aplicou a estrutura padrão da mecânica quântica sem postulados adicionais ou suposições controversas e demonstrou que a autoconsistência da história decorre naturalmente das leis quânticas, mas suas conclusões ainda carecem de revisão pelo pares. 


Mesmo que a viagem no tempo (ainda) não seja possível, entender como a entropia e outros fenômenos funcionam em condições extremas ajuda a elucidar mistérios sobre o comportamento do universo em escalas subatômicas e força uma reflexão sobre conceitos básicos, mesmo porque a possibilidade de viajar no tempo pode produzir mudanças consideráveis na nossa compreensão das leis do universo.

 

Continua... 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

TARCÍSIO E OS "POLIÇAS" NAS SALAS DE AULA

É A INGUINORANSSA QUE ASTRAVANCA O POGREÇO.

Para tristeza da elite que não depende de serviços públicos essenciais, como a educação, e felicidade geral da nação, Tarcísio de Freitas não será candidato a presidente neste ano. Todavia, a julgar por sua atuação à frente do governo paulista — São Paulo concentra 30% do PIB brasileiro, mas ocupa a sexta posição no ranking nacional do ensino fundamental e um vergonhoso oitavo lugar no Ensino Médio —, uma eventual passagem pelo Planalto não só agravaria os atuais problemas como criaria outros pela adoção de falsas soluções.


Segundo um levantamento do Ideb divulgado em 2024, no período de 2019 a 2023 a qualidade da educação caiu em todos os níveis de ensino. Tarcísio reduziu a autonomia dos professores em sala de aula, trocou o livro didático pelas plataformas digitais e a avaliação conjunta do ensino por um sistema de denúncias e punições que aponta unicamente para os professores. Como “inovação", trouxe um programa cívico-militar que interfere em todas as relações escolares com a sutileza de um elefante numa loja de cristais.


A falta de preparo dos monitores — como são chamados os policiais militares aposentados que não realizam nenhuma prova para obter o cargo que lhes garante remuneração superior à dos professores e é contestada pela PGR —, os editais para preencher as vagas nas 100 escolas que entraram no programa (das 302 consultadas) falam em provas de títulos, mas cheira a cabide de empregos. 


Num vídeo gravado no primeiro dia de aula de uma escola estadual em Caçapava (SP), enquanto um militar ensinava a ordem unida (posturas militares) aos alunos, outro escrevia três palavras na lousa — duas das quais com erros de ortografia. Num ambiente escolar, em que aprender português de acordo com a gramática faz parte das habilidades esperadas, o que foi ensinado pelos monitores - ordens de sentido, continência, descansar - são de pouca ou nenhuma utilidade, dada sua total inadequação à sala de aula de uma escola. 


Os tais monitores - pelo menos um em cada escola, de acordo com a lei estadual que criou programa - têm entre suas atividades a organização escolar, a segurança e o desempenho de atividades extracurriculares, o que significa interferência na autonomia pedagógica e a imposição de um modelo formativo de corporação militar aos estudantes, oposto ao ambiente de acolhimento, compreensão e inclusão adequado ao aprendizado. Um problema que se torna ainda maior quando a corporação em questão não tem obtido bons resultados nem para formar seus próprios membros, como demonstram os altos índices de violência policial e de problemas de saúde mental entre os policiais militares, que  vêm desde o treinamento.


Educar crianças e adolescentes em um país profundamente desigual, racista, com uma herança de fome, analfabetismo e privação, não permite visões estreitas e ultrapassadas, o amadorismo e o risco de colocar nas salas de aula pessoas sem formação adequada ou com problemas sérios de conduta. Mas o governador de São Paulo parece não ter repertório para além do porrete — como demonstra sua gestão da segurança pública — e sua devoção desbragada ao ex-presidente e atual hóspede compulsório da Papudinha — que o afilhado já externou em diversas oportunidades.


Triste Brasil.

 

Com Marina Amaral — Diretora Executiva da Agência Pública.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 74ª PARTE

O TEMPO É ALGO QUE CRIAMOS. 

Costumamos pensar no hoje como o amanhã de ontem e o ontem de amanhã, que o tempo passa — ou passamos por ele — do nascimento à morte. Mas uma série de argumentos sustentados por filósofos, físicos e astrônomos desafia a intuição de que o tempo é real. É o caso do matemático e filósofo inglês J. M. E. McTaggart, que se vale do pensamento lógico para sustentar a inexistência do tempo.


Percebemos os eventos como presentes, passados ou futuros. Como ilustra McTaggart, a afirmação "o nascimento de alguém é futuro" só é verdadeira antes do fato; depois que ocorre, ela se torna imediatamente falsa, pois o evento agora é passado. No entanto, essa classificação em termos de "antes", "depois" ou "agora" é uma relação externa. Ela não modifica a posição temporal objetiva do evento nem o valor de verdade da proposição que descreve sua ocorrência efetiva.


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A condução da transação bilionária entre Daniel Vorcaro e BRB foi marcada por falta de rigor e clareza. Sustentar o suposto desconhecimento dos envolvidos sobre detalhes essenciais, como a titularidade dos papéis negociados, é escarnecer da inteligência alheia. No universo da alta finança, não há transação que não seja precedida de uma minuciosa análise dos papéis, dos documentos, dos títulos. E para isso existem empresas de auditoria e equipes técnicas que passam em revista todos os dados, todos os documentos, sobretudo quando se trata de um negócio de R$12 bilhões.

De um lado do balcão estava Daniel Vorcaro e do outro, Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília, vinculado ao governo do DF. Curiosamente, os personagens que comandaram essa transação foram acometidos de uma oportuna amnésia coletiva — Vorcaro, então, diz que não se lembra de nada.

A postura dessa quadrilha banalizou o padrão esperado de governança em operações com recursos públicos, transformando uma alta transação financeira num negócio de uma xepa de feira. E aí ficam discutindo quem enfiou o quê na sacola.


É impossível alterar a característica temporal de um evento (de futuro para passado) sem, de certa forma, transformá-lo em algo distinto. Mas esse pressuposto desafia nossa compreensão da realidade temporal, pois aponta para um paradoxo mais profundo sobre tempo e mudança: por um lado,  um mundo sem mudança seria atemporal; por outro, se a mudança significa que um evento adquire ou perde uma propriedade temporal (como "ser futuro"), então o evento em si precisa se alterar. Mas como um evento ocorrido pode mudar? Isso não o tornaria um evento diferente?


O problema em ver o tempo como subjetivo — isto é, associado ao momento da percepção — é que algo pode ser presente para uma pessoa e passado para outra. Se duas pessoas veem um piano, esse piano é presente para ambas, mas passa a ser presente e passado simultaneamente no instante em que uma das pessoas deixa de vê-lo, ele — o que gera uma contradição lógica difícil de sustentar. 


O presente de um tempo objetivo difere intimamente do presente desse tempo subjetivo — o “presente ilusório”, como McTaggart chama o que é presente apenas no momento da percepção. No tempo objetivo, os diversos presentes que ocorrem em momentos diferentes não podem ser todos presentes ao mesmo tempo, apenas sucessivos. Mas a objeção central à distinção entre o presente e o presente ilusório é que, se o presente objetivo é diferente do que percebemos como presente, não há razão para acreditarmos em sua existência. No entanto, se admitirmos que ele exista, qual seria sua duração?


McTaggart afirma que devemos acreditar no presente porque os diversos presentes ilusórios (de cada percepção) não podem estar uns dentro dos outros, já que uns ocorrem antes de outros, mas todos precisam estar em um tempo objetivo. Quanto à duração do presente, ele diz que devemos concebê-lo apenas como um ponto — a interseção entre o passado e o futuro, a fronteira que os separa. Mas não aplica esse mesmo raciocínio para contestar a realidade do espaço — por causa do “aqui” — e da personalidade — por causa do “eu”.


Assim, não há análogos para o espaço ou para a personalidade: mesmo que todos os termos token-reflexivos de nossa linguagem espacial (expressões que dependem do contexto de quem fala, como “aqui”, “agora”, “ali” e semelhantes) fossem removidos, ainda seria possível conceber os objetos no espaço e as pessoas sem recorrer a termos como “eu”, “ele” e assemelhados — o que não seria análogo ao tempo.


Ainda de acordo com McTaggart, há dois tipos de descrições temporais possíveis: uma independente do sujeito (completa) e outra dependente do sujeito (incompleta). Mesmo que se dispusesse de uma descrição temporal independente — ou seja, que não recorresse a termos como “agora”, “hoje” ou “ontem” —, não seria possível descrever os acontecimentos exclusivamente por esse tipo de descrição, pois haveria apenas eventos tridimensionais dispostos em sequência ao longo dos pontos do tempo, formando o que o filósofo chama de “figura tetradimensional da realidade”. E ainda que pudesse contemplar toda a sequência de eventos na ordem que desejasse, o observador precisaria dos termos token-reflexivos para indicar qual evento está ocorrendo agora. Mas McTaggart não deixa claro se “observar todos os eventos” significa acompanhar sua sucessão real ou apenas visualizar uma representação estática dessa sequência.


Quando representamos os eventos no tempo, representamos estados de coisas tridimensionais diferentes em pontos temporais distintos. Para criar representações bidimensionais de uma sequência de eventos tridimensionais, recorremos a convenções gráficas que indicam tanto a terceira dimensão quanto o tempo propriamente dito. 


Uma pessoa que observasse uma representação bidimensional ou tridimensional de um universo quadridimensional — como uma pessoa caminhando, por exemplo — veria apenas os estados ocupados pela pessoa em cada momento, e não seu deslocamento contínuo entre eles. Ainda assim, ao serem examinadas mais profundamente, essas ideias revelam-se incompatíveis com a maneira como normalmente as compreendemos. 


Se isso estiver correto, as premissas de McTaggart — fundamentais para suas conclusões — seriam falsas, e não conseguir provar a irrealidade do tempo abre espaço para discussões filosóficas futuras. E se o tempo não passa de uma ilusão, discutir viagens temporais é tão inútil quanto planejar férias em Atlântida. Afinal, como atravessar algo que não existe? Se não há fluxo temporal, não há “antes” nem “depois”; o viajante do tempo seria apenas um observador preso a um ponto fixo de um quadro estático, não a um filme em movimento.


Talvez o verdadeiro paradoxo não seja o de mudar o passado, mas o de acreditar que há um caminho a ser percorrido entre o ontem e o amanhã. E, convenhamos: se o tempo for mesmo uma invenção humana, as máquinas do tempo não passam de meros artefatos da ficção científica tentando corrigir um defeito de fábrica da mente humana.


Continua…