quinta-feira, 10 de setembro de 2026

ESTRELAS QUE ENGOLIRAM PLANETAS

NENHUM TELESCÓPIO ALCANÇA A DISTÂNCIA DE UM PENSAMENTO DETERMINADO.

Uma questão que intriga os cientistas é se existem buracos negros capazes de engolir galáxias inteiras.


Embora não haja consenso, a opinião dominante é de que essa possibilidade é desprezível, e a razão é basicamente uma questão de escala e de mecânica orbital.


Mesmo os buracos negros mais colossais, com massas bilhões de vezes superiores à massa solar, são minúsculos quando comparados às galáxias que os hospedam (algo como 0,1% a 0,5% da massa do bojo de sua galáxia). Isso já dá uma pista de como a hierarquia de escalas é desproporcional, embora o fator decisivo seja orbital.


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Noutros tempos, o 7 de Setembro era o sagrado Dia da Independência. Sob Bolsonaro, a data tornou-se alerta de golpe. Hoje, virou comício. Mas não deve mexer significativamente nos ponteiros das pesquisas.

Lula acionou clarins gastos, que ele toca desde o ano passado. Na noite de domingo, num discurso transmitido em rede nacional, disse que "defender a independência é defender a soberania" e que o Brasil "não será colônia de ninguém". 

Espelhando-se no pai, Flávio Bolsonaro apimentou o ato convocado para a Avenida Paulista e adicionou ao "fora Lula" o "fora Moraes". Atira pedras no magistrado sob um telhado de vidro. Pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro — valor da mesma magnitude dos R$ 131 milhões do contrato firmado entre o Master e o escritório de Viviane Barci, a mulher de Moraes.

Nos gráficos das pesquisas eleitorais, as linhas que representam candidatos rivais são como mandíbulas de jacaré. Quando a diferença aumenta, a boca se abre. Quando diminui, ela se fecha. Nas sondagens mais recentes, o molusco macróbio e o primogênito do refugo da escória da humanidade aparecem estatisticamente empatados no segundo turno. Mas a visão de ambos sobre a força eleitoral do 7 de Setembro pode ser apenas ilusão de ótica; o jacaré não deve bocejar. Talvez nem soluce.

A campanha de Lula é assombrada pelo espírito do Curupira — figura lendária do folclore brasileiro, o Curupira é um moleque que vive na floresta, tem os cabelos avermelhados e os pés virados para trás. Entre maio e julho, o petista abriu oito pontos de vantagem sobre o rival na simulação de segundo turno da Quaest. Desde então, só deu marcha à ré. A distância caiu para zero. No levantamento desta segunda-feira, 7 de Setembro, os dois aparecem empatados em 41%. O jacaré fechou a boca.

Lula recua com dois espinhos nos pés: endividamento e corrupção. O percentual de eleitores que dizem ter muitas dívidas (28%) voltou ao patamar de maio, mês em que foi lançado o Desenrola 2. Desde a semana passada, a menção à corrupção como maior problema do país saltou seis pontos — de 14% para 20%. O tema só perde para a violência no ranking das preocupações do eleitor.

Não bastasse o efeito Lulinha, o candidato ao quarto mandato agora receia ser atingido por estilhaços da vidraça de Alexandre de Moraes. Entrementes, fingindo que não pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, Bolsonarinho ajustou seu bordão, colando no "fora Lula" um "fora Moraes".

A síndrome do Curupira corrói também o índice de avaliação de Lula. Em julho, o saldo entre sua aprovação e a desaprovação estava positivo em um ponto percentual. Agora, está sete pontos no vermelho. A 26 dias do primeiro turno, é uma péssima notícia para quem reivindica uma re-re-re-reeleição.


A grande maioria das estrelas de uma galáxia segue órbitas estáveis e de longa duração em torno do centro galáctico, e o mesmo vale para a maior parte do gás e da poeira interestelar — exceto, claro, pela fração que está sendo ativamente perturbada, em colisão, ou caindo em direção ao centro por perda de momento angular (que é uma fração pequena, mas não nula). Por outro lado, a gravidade não é uma força de "sucção" — ela rege órbitas. Para algo cair num buraco negro, esse algo precisa perder momento angular, e isso normalmente exige um evento dissipativo (colisão, atrito com gás, perturbação gravitacional de outra estrela) que retire energia orbital. Sem isso, a matéria simplesmente continua girando, possivelmente por bilhões de anos.


Os buracos negros supermassivos surgem durante fusões entre galáxias, quando dois buracos negros centrais eventualmente coalescem, somando massas — mas isso ainda está longe de "engolir uma galáxia". Mesmo cenários dramáticos, como o destroçamento de uma estrela que se aproxima demais (os chamados tidal disruption events), afetam objetos isolados, não a galáxia como um todo.


Os buracos negros supermassivos engordam por dois caminhos, nenhum deles parecido com o de um predador faminto. O primeiro é o acréscimo paciente de gás, que espirala lentamente disco adentro — processo capaz de acender um núcleo galaticamente ativo, ou até um quasar, mas que mal arranha a quantidade de matéria disponível na galáxia. O segundo se dá nas fusões entre galáxias, quando os buracos negros centrais de cada uma, depois de uma dança gravitacional que pode levar éons, acabam coalescendo e somando suas massas. De qualquer forma, isolados ou combinados, esses processos seguem a anos-luz de distância de qualquer coisa parecida com "engolir uma galáxia inteira


Por outro lado, existe uma exceção teórica de prazo extremamente longo: em uma escala de tempo muito além da idade atual do universo (estimativas especulativas falam em 1019 - 1020 anos), e interações gravitacionais cumulativas poderiam, em princípio, ejetar a maior parte das estrelas de uma galáxia ou fazê-las espiralar para o centro — um processo de "relaxamento" dinâmico de longuíssimo prazo. Mas isso é qualitativamente diferente de um buraco negro "puxando" tudo para si de forma ativa; é mais um efeito coletivo e gradual do sistema como um todo, e permanece no campo da extrapolação teórica.


Concluído esse (não tão) breve preâmbulo, passamos ao tema central desta postagem, que tem a ver com uma nova técnica desenvolvida por cientistas da USP que identifica estrelas que engoliram planetas. Além disso, segundo os pesquisadores, sistemas solares estáveis como o nosso talvez sejam menos comuns do que se imaginava, o que impacta o surgimento de vida complexa.


O estudo analisou um sistema binário formado por duas estrelas muito semelhantes entre si — chamadas HD 129171 e HD 129209 — ambas com características físicas, químicas e de atividade magnética semelhantes às do nosso Sol. Em princípio, estrelas binárias como essas deveriam apresentar praticamente a mesma composição química, pois nasceram ao mesmo tempo e da mesma nuvem molecular (aglomerados de poeira e gás que funcionam como berçários estelares). Não obstante, os pesquisadores encontraram diferenças significativas entre elas.


Os cientistas já suspeitavam que algumas estrelas poderiam incorporar planetas ou fragmentos planetários, mas o diferencial do novo trabalho foi demonstrar pela primeira vez que diferenças na abundância de berílio em estrelas binárias podem funcionar como marcadores confiáveis desse processo.


A estrela HD 129171 apresenta enriquecimento em elementos refratários — ou seja, que normalmente condensam em estado sólido e constituem planetas rochosos. Isso sugere fortemente que ela engoliu material planetário ao longo de sua evolução. 


O berílio possui uma característica importante: ele não é fabricado no “coração” das estrelas ao longo de sua evolução. Por isso, a assinatura desse elemento na luz que a estrela emite indica a presença de material rochoso – como restos de planetas – supostamente "engolido" muito tempo depois de ela ter se formado.


A maioria dos elementos químicos têm sua origem na nucleossíntese primordial — a formação dos primeiros núcleos atômicos nos minutos iniciais logo após o Big Bang — ou na nucleossíntese estelar — o processo de fusão nuclear que ocorre no interior das estrelas ao longo de suas vidas —, mas o berílio e o boro surgem principalmente por um processo chamado ‘espalação cósmica’, no qual partículas de alta energia fragmentam núcleos mais pesados, como carbono, nitrogênio e oxigênio, produzindo elementos mais leves. O lítio também é produzido principalmente por espalação, embora uma quantidade ínfima tenha surgido na nucleossíntese primordial e possa surgir também, em circunstâncias especiais, em alguns tipos de estrelas.


Para realizar o estudo, a equipe utilizou dados obtidos com o espectrógrafo UVES, instalado no Very Large Telescope do Observatório Europeu do Sul, no Chile. As observações mostraram que a HD 129171 possui abundância significativamente maior de elementos refratários – como ferro, magnésio, silício, cálcio e titânio – em comparação com sua companheira HD 129209. Além disso, a estrela apresenta excesso tanto de lítio quanto de berílio — padrão compatível com a ingestão equivalente a mais de 11 vezes a massa da Terra de material rochoso. Esse material pode ter vindo de um único grande planeta ou da soma de vários corpos menores, mas, no caso de estrelas semelhantes ao Sol, a mistura interna é tão eficiente que a assinatura química final não permite distinguir esses cenários.


Os cientistas também discutiram os mecanismos dinâmicos capazes de levar planetas a cair em suas estrelas hospedeiras, entre os quais as interações gravitacionais entre planetas, perturbações produzidas por estrelas companheiras e processos de migração orbital. Uma implicação importante do estudo diz respeito à possível raridade de sistemas solares estáveis, como o nosso, com planetas gigantes em órbitas externas quase circulares e planetas rochosos em órbitas internas estáveis. Além desses sistemas não surgirem com frequência, poucos análogos de Júpiter em órbitas comparáveis à do gigante gasoso do nosso sistema solar foram observados até agora.


Sistemas binários são muito comuns na Via Láctea. Estimativas atuais indicam que aproximadamente metade das estrelas da nossa galáxia possui uma companheira gravitacional, e como ambas se formam praticamente ao mesmo tempo e a partir da mesma nuvem molecular, diferenças químicas entre elas constituem um forte indício de que processos posteriores – como a ingestão de planetas – alteraram sua composição original.


Isso pode ter implicações diretas para a existência de vida complexa, que não só precisaria de bilhões de anos para surgir e evoluir, como também o planeta teria que permanecer em uma órbita suficientemente estável para sobreviver a perturbações gravitacionais importantes. 


Resumo da ópera: Se as diferenças químicas observadas em estrelas binárias fossem causadas por heterogeneidades na nuvem primordial que lhes deu origem, isso exigiria revisão de modelos atualmente aceitos sobre formação estelar. Os resultados obtidos pela equipe favorecem, porém, a hipótese de ingestão planetária.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 117ª PARTE

A INCERTEZA QUE ESVOAÇA DESGRAÇA MAIS DO QUE A PRÓPRIA DESGRAÇA.

Vimos que a possibilidade de viajar no tempo é admissível à luz da física, mas não à luz da lógica: segundo a conjectura de proteção cronológica, o próprio universo impede ações que criem paradoxos ou alterem o futuro. 


Pode-se argumentar que isso não passa de teoria, mas a existência dos buracos negros, proposta no século XIX, permaneceu no campo das loterias até 2019, quando foi confirmada com a publicação das imagens do M87* que o Event Horizon Telescope havia capturado dois anos antes.


Observação: Einstein não foi o primeiro a propor a existência dos buracos negros, mas foi sua Teoria da Relatividade Geral que tornou o tema tão popular.


Vimos também que a ciência ainda não conseguiu explicar satisfatoriamente a queda das maçãs, o brilho das estrelas, o funcionamento dos átomos e o espaço-tempo, e que as duas teorias mais bem-sucedidas da história da física descrevem o universo de maneiras muito diferentes. De um lado está a relatividade geral, formulada por Einstein em 1915, que explica com precisão o macrocosmo, e do outro a mecânica quântica, que rege o comportamento das partículas elementares, dos átomos e das forças que atuam no microcosmo. A questão é que elas descrevem o universo de maneiras muito diferentes. 


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O ato de 7 de Setembro em Brasília virou um "palanque de constrangimentos" em meio à crise institucional no STF, visto que a comemoração do Dia da Independência reuniu os presidentes dos Três Poderes e expôs tensões entre autoridades. 

Todos os ministros da Corte foram convidados. No ano passado, eles não compareceram devido ao julgamento de Bolsonaro; neste, apenas Edson Fachin, presidente do Supremo, deu o ar de sua graça. 

Além de Lula e de Fachin, marcaram presença os presidentes da Câmara e do Senado. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, está às turras com o advogado-geral da União, Jorge Messias, mas ambos subiram, embora não se tenham cumprimentado.

Alcolumbre também está em pé de guerra com o chefe da PF, após seu nome ter sido suscitado em um relatório apócrifo da inteligência que serviu de base para o pedido de investigação do ministro André Mendonça pelo colega Alexandre de Moraes, que vivem uma guerra aberta devido ao caso Master.

O cenário reforçou o caráter excepcional do evento, ocorrido num momento em que o Supremo vive "uma crise institucional inédita", com contornos políticos em meio à disputa eleitoral na qual o molusco eneadáctilo tenta a reeleição. Aliás, houve uma assessoria jurídica para que não houvesse nenhuma extrapolação que pudesse ser depois motivo de ação na justiça eleitoral contra a campanha do xamã petista.


Na relatividade geral, a gravidade não é uma força convencional, mas uma deformação da própria geometria do espaço-tempo; na mecânica quântica, todas as interações são descritas em termos de partículas e campos quânticos sujeitos a probabilidades e flutuações aleatórias. O problema surge quando se tenta aplicar simultaneamente as duas teorias em ambientes extremos — como o interior de um buraco negro ou os instantes iniciais do Big Bang. Nesse contexto, as equações entram em conflito, como se dois mapas perfeitamente corretos da mesma cidade deixassem de coincidir quando colocados um sobre o outro.


Considerando que o universo é um só, seria de supor que uma única descrição fundamental explicasse todos os seus fenômenos. Como a natureza parece obedecer a duas coleções diferentes de regras dependendo da escala observada, os cientistas buscam desenvolver uma "Teoria de Tudo", que seja capaz de unificar todas as forças da natureza e explicar simultaneamente o mundo do infinitamente grande e do infinitamente pequeno.


A Teoria de Tudo seria o equivalente científico do Santo Graal, da Pedra Filosofal e do mapa do tesouro na mesma escavação arqueológica. Todavia, a despeito dos bilhões de dólares investidos e de algumas das mentes mais brilhantes da história envolvidas na busca, essa teoria ainda não foi encontrada. Mas isso não impediu os físicos de produzirem hipóteses extraordinárias em escala industrial, como veremos no próximo capítulo.


Antes de encerrar, relembro que as viagens no tempo são o fruto mais cobiçado (e ainda não alcançado) da árvore da relatividade, e que não faltam teorias sobre voltar no tempo como nos filmes de ficção científica. No entanto, faltam respostas para muitas perguntas sobre a verdadeira natureza do tempo: será que ele existe realmente ou é apenas um artifício criado quando nossos antepassados perceberam padrões no amanhecer e no anoitecer, nas fases da Lua e nas mudanças sazonais. Mal comparando, seria como aprender a dirigir automóveis quando existiam somente carroças de tração animal. 


Como bem observou o filósofo austro-britânico Ludwig Wittgenstein, os problemas filosóficos surgem quando a linguagem sai de férias. A física pode ser um excelente exemplo disso: ao longo do último século, palavras familiares como tempo, existir e atemporal foram reaproveitadas em contextos técnicos sem que se examinasse o significado que elas carregam na linguagem cotidiana, levando a uma confusão generalizada sobre o que esses termos realmente significam.

 

Na filosofia da física, particularmente em uma visão conhecida como eternalismo, a palavra "atemporal" dá a ideia de que o tempo não flui nem passa, que todos os eventos são igualmente reais dentro de uma estrutura quadridimensional conhecida como Universo em bloco. Mas se tudo o que acontece ao longo da eternidade é igualmente real e todos os eventos já estão lá, o que realmente significa dizer que o espaço-tempo existe? 


Para entender essa questão, é preciso ter em mente que "existência" é um modo de ser e "ocorrência", de acontecer. Imagine que há um elefante ao seu lado. Você provavelmente diria “o elefante existe”, e poderia descrevê-lo como um objeto tridimensional. Agora imagine um elefante puramente tridimensional que aparece na sala por um instante e desaparece como um fantasma. Esse elefante não existe realmente no sentido comum, mas simplesmente acontece.


Um elefante existente perdura ao longo do tempo, e o espaço-tempo cataloga cada momento de sua existência como uma linha de universo quadridimensional. Já o elefante imaginário que acontece é apenas uma fatia espacial desse tubo; um momento tridimensional. Mas e o espaço-tempo? Será que ele perdura, tem seu próprio conjunto de momentos “agora”, ou é apenas a variedade de todos os eventos que acontecem ao longo da eternidade?


Se imaginarmos que todos os eventos ao longo da história “existem” dentro do Universo em bloco, então poderíamos perguntar: quando o próprio bloco existe? Se não se desenrola nem muda, ele existe atemporalmente? Se sim, então estamos sobrepondo outra dimensão do tempo a algo que deveria ser atemporal no sentido literal. 

 

Para entender isso melhor, imagine uma estrutura de cinco dimensões, sendo três espaciais e duas temporais. Em tese, o segundo eixo temporal permite dizer que o espaço-tempo quadridimensional existe exatamente da mesma forma que normalmente pensamos que um elefante na sala existe dentro das três dimensões do espaço que nos rodeiam — que catalogamos como espaço-tempo quadridimensional. 


Nesse ponto, saímos da física estabelecida, que descreve o espaço-tempo apenas através de quatro dimensões e somos levados a outro problema: falar sobre o que significa a existência do espaço-tempo sem reintroduzir o tempo por uma porta conceitual que a física não reconhece é como tentar descrever uma música que existe de uma só vez — sem jamais ser tocada, ouvida ou desdobrada no tempo —, ou querer saber o que existe ao norte do Polo Norte.


OBSERVAÇÃO: Nosso blog — criado em 9 de setembro de 2006 para embasar a criação
do livro
BLOGS&WEBSITES da minha saudosa COLEÇÃO GUIA FÁCIL INFORMÁTICA
—, sopra hoje sua vigésima velinha. Todavia, tendo vista a conjuntura geral e as eleições de outubro em particular, não vejo motivo para grandes comemorações.


Continua...

terça-feira, 8 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 116ª PARTE

ALGUMAS COISAS SÃO DIFÍCEIS DE ENTENDER, MAS NEM POR ISSO DEIXAM DE SER VERDADEIRAS.  

Como a audiência do blog é rotativa, cabe aqui uma breve contextualização, começando por relembrar que, apesar de toda a evolução da havida nos últimos séculos, a ciência ainda não consegue explicar a natureza do tempo nem acomodar a teoria da relatividade e a mecânica quântica numa mesma equação matemática. 


As equações relativísticas de Einstein dão azo à possibilidade de viajar rumo ao futuro, bastando para isso construir naves capazes de alcançar a velocidade da luz, aproximar-se do horizonte de eventos de um buraco negro (onde o tempo desacelera significativamente) ou entrar num buraco de minhoca e sair em outra galáxia, no presente ou em outro ponto da linha do tempo. No entanto, retornar ao passado esbarra nas leis da física clássica, sem falar que o simples desembarque do viajante do tempo numa época pretérita altera o futuro — como ilustram magistralmente o efeito borboleta e o paradoxo do avô


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Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria. Mesmo porque o enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte, mas um preceito básico, pré-requisito essencial ao regime democrático — aquele em nome de cuja retomada inscreveram-se as normas que passariam a valer depois de 21 anos de submissão do Legislativo e do Judiciário ao mando do Executivo hipertrofiado — a ditadura.

De lá para cá, o país sofreu e venceu solavancos que testaram a firmeza do desenho institucional de 1988. Mas não está conseguindo resistir à inaptidão da geração subsequente em seguir os passos dos arquitetos da redemocratização.  Em meio a autoritarismos, voluntarismos, populismos, usurpação de funções e agressão a ritos e regras, assistimos a uma deterioração de condutas cuja solução passa longe da culpa do aludido sistema ao qual se pedem reformas, na tentativa de fugir da responsabilidade que é de seus condutores e operadores.

Visando contornar dificuldades num Legislativo interesseiro e arisco, o chefe do Executivo achou por bem se escorar em magistrados permeáveis a alianças no Judiciário, que, alheios às consequências, entraram numa espiral descendente de desmoralização compartilhada. 

A eleição presidencial se dá em ambiente de rejeição e desencanto; o Supremo Tribunal Federal vive um impasse de gravidade inédita e o Congresso não dispõe de lideranças com estatura institucional à altura do desafio. O túnel é escuro e o poço sem fundo. A resposta em outros tempos esteve na política, que perdeu tônus e protagonismo quando decidiu se dedicar primordialmente aos negócios e terceirizar suas funções a juízes com pendores políticos e vocação para santos guerreiros. Queira o bom senso que a saída não esteja em acertos para estancar a sangria com Supremo e com tudo.


Embora nossa compreensão do tempo se baseie na física newtoniana, a teoria da relatividade desafia o pressuposto intuitivo de que os acontecimentos progridem linearmente do passado para o futuro, sugerindo que o espaço-tempo pode se comportar de formas bizarras. Para o físico Lorenzo Gavassino, combinar a teoria da relatividade geral, a mecânica quântica e a termodinâmica permitiria voltar ao passado sem criar contradições.


Conforme foi dito em outros capítulos desta sequência, uma curva temporal fechada criaria linhas do tempo alternativa a cada decisão tomada pelo viajante, que assim seguiria caminhos diferentes sem alterar o futuro. No entanto, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e consequências.


Albert Einstein, Stephen Hawking e vários outros físicos renomados tentaram, sem sucesso, conciliar a física clássica com a mecânica quântica. Ainda assim, não faltam teorias que buscam esse resultado, entre as quais a Teoria de Tudo é uma das mais promissoras. Todavia, antes de detalhar essa e outras teorias afins, lembro que a viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da relatividade, embora possa ter implicações estranhas e perigosas para os viajantes — e até para seus familiares. 


O conceito vem sendo explorado em livros, filmes e seriados de ficção científica desde a publicação do romance A Máquina do Tempo por H.G. Wells, em 1895. Mas a pergunta que não quer calar é: será mesmo possível voltar no tempo, e, se for, será mesmo possível alterar o passado? 


Uma das formas mais tradicionais de explorar as consequências da viagem no tempo é através do Paradoxo do Avô, no qual o viajante volta no tempo e mata o próprio avô antes de ele conhecer sua avó, o que impediria o nascimento de um de seus pais e, consequentemente, do próprio viajante, que assim não poderia ter viajado para o passado e matado o avô. Antes de explicar as possíveis soluções do paradoxo e as suas implicações, vale destacar que o viajante precisa matar o avô antes de ele conhecer a avó — se esse encontro não ocorrer, o viajante jamais nascerá.


Como se vê, essas duas premissas são mutuamente excludentes: o avô não pode estar vivo no dia em que conheceu a avó — pois o viajante o matou antes disso —, mas também tem que estar vivo e ter conhecido a avó para o neto ter nascido, voltado ao passado e matado o avô. Mas o avô não pode estar vivo e morto ao mesmo tempo, como o Gato de Schrödinger


Para resolver o paradoxo do avô, a solução mais óbvia é afirmar que viagem no tempo é impossível — segundo a conjectura de proteção cronológica, viajar no tempo contraria as leis da natureza, só que ninguém descobriu até hoje qual lei exatamente proíbe todas as formas de viagem no tempo. O argumento mais utilizado é que qualquer máquina do tempo se transforma inevitavelmente em um buraco negro.


Imagine que um pouco de energia entre numa máquina sob a forma de radiação, saia da máquina no passado (em relação a quando ela entrou na máquina), entre uma segunda vez, e assim sucessivamente. Nesse contexto, uma única partícula de luz seria suficiente para produzir energia infinita e colapsar a máquina em um buraco negro. Não obstante, alguns físicos argumentam que é possível contornar esse problema adicionando um custo de energia para atravessar a máquina, ou seja, uma forma de pagar pedágio para que a viagem no tempo aconteça. Nas condições certas, isso bastaria para evitar que a máquina colapsasse.


Em última análise, a verdade é que os cientistas não conseguem decidir se viajar no tempo é impossível ou não baseando-se unicamente nas leis da física. Então, o jeito é recorrer a outro campo do conhecimento — no caso, a filosofia. Vamos analisar o Paradoxo do Avô como uma contradição filosófica, sem nos importarmos com o que as leis da natureza têm a dizer. 


Como vimos, o Paradoxo do Avô aponta para uma contradição lógica verdadeira, ou seja, um cenário que realmente é impossível. Assim, se a viagem no tempo cria uma contradição lógica, então viajar no tempo é impossível. Da mesma forma, se alguma teoria matemática provar que 1 = 2, fica evidente que a teoria está errada, pois 1 e 2 são comprovadamente números diferentes. Dito isso, se algo permite uma situação logicamente impossível, então esse algo é impossível, e concluir que viajar no tempo é impossível é uma interpretação correta do Paradoxo do Avô. Só que essa não é a única conclusão possível.


A criação do paradoxo depende de outros fatores do cenário, e para que ele se forme, devemos assumir que viajar no tempo é matar o avô no passado são ações possíveis à luz da teoria das linhas do tempo alternativas — segundo a qual o viajante volta ao passado — não para o próprio passado, mas para um passado de um universo até então idêntico ao dele até ele estragar tudo voltando no tempo e chegando até lá. 


Mas talvez a viagem no tempo separe o universo em duas linhas, numa das quais o avô do viajante conheceu a avó e outra na qual o viajante executou seu plano assassino. Assim, existe o avô original, que sempre esteve vivo, conheceu a avó e constituiu família, e o avô do universo alternativo que o viajante matou. Em outras palavras, esses dois avôs, tecnicamente diferentes, estariam um morto e o outro vivo ao mesmo tempo.


Uma consequência dessa solução para o paradoxo é que o viajante nunca muda o próprio passado, mas somente um passado alternativo, evitando qualquer paradoxo por conta disso. Claro que essa solução também precisa de algum tipo de universo paralelo para fazer sentido, mas talvez exista outra solução possível.


Em suma, existem basicamente três premissas no paradoxo do avô: a primeira é que viajar no tempo é possível; a segunda é que o viajante pode alcançar as condições certas (8:06) para matar o avô; e a terceira é que o avô que ele matou é o mesmo que se casou com a sua avó, e não uma versão alternativa em outra linha do tempo. A única premissa que ainda não negamos é a de que o passado está determinado e é impossível modificar o que já aconteceu. Assim, ainda que seja possível voltar no tempo, não é possível matar o próprio avô. 


Num primeiro momento, essa parece uma boa solução, mas apenas se partirmos do pressuposto de que o livre-arbítrio não existe. Uma vez que a viagem no tempo exista, o que exatamente é o passado e o que exatamente é o futuro são coisas relativas. Hoje, meu futuro é o amanhã, o mês que vem, o ano que vem. Se eu voltasse até maio passado, meu futuro seria o mês de junho, e assim por diante. Assim, se a viagem no tempo for realmente possível, sempre será possível mudar o passado e alterar o futuro. 


Isso nos leva de volta ao Paradoxo do Avô, mas a solução aqui é simples: talvez não seja possível mudar nem mesmo o futuro, pois tanto o passado quanto o futuro já têm os seus fatos determinados. Existem verdades que não podem ser mudadas — nem no passado, nem no futuro —, da mesma forma que não é possível alguém voltar no tempo para impedir que o avô conheça a avó. Isso sempre esteve determinado, independente de viagens no tempo. Nesse cenário, toda a história é como um filme; todas as informações do que acontece já estão determinadas, não importa qual parte do filme se esteja assistindo. 


Nem todo mundo concorda com a ideia desse universo determinístico, mas existem outros argumentos que embasam a impossibilidade de mudar sem afrontar o livre-arbítrio. A ideia mais popular é o princípio da autoconsistência de Novikov — também conhecido como lei da conservação da história —, segundo o qual a possibilidade de qualquer capaz de causar um paradoxo temporal acontecer é zero.


Dito isso, e considerando que matar o avô no passado cria um paradoxo, então a probabilidade de o viajante ter sucesso nesse intento é zero — talvez a máquina do tempo falhe nessa viagem, ou talvez o viajante chegue ao passado, mas seja atropelado ou sofra outro acidente qualquer que o impeça de evitar que o avô conheça a avó. Ou talvez ele saque a arma, mire o avô e o tiro falhe misteriosamente. 


Ao transformar a possibilidade de criar um paradoxo em zero, essa probabilidade tem que ir para outros eventos menos prováveis. Se a chance de a arma falhar atirando normalmente é de menos de 1%, quando o viajante tenta matar o avô, criando um paradoxo, a chance de o tiro falhar misteriosamente aumenta para 100%. Ainda que a arma funcione perfeitamente em qualquer outro cenário, ela sempre irá falhar quando o viajante tentar matar seu avô.


Viajar no tempo talvez seja 100% possível segundo as leis da física, mas impossível à luz da lógica. Talvez o universo crie situações absurdas dignas de um desenho animado para impedir que viajantes do tempo tenham sucesso em mudar o passado. Aliás, o conceito dos paradoxos temporais pode ser usado de forma ainda mais radical, já que a possibilidade de voltar ao passado implica uma infinidade de ações que podem causar inconsistências e contradições, e esses eventos têm todos probabilidades zero de acontecer.


Em face do exposto, é mais provável que toda tentativa de viajar para o passado falhe, mesmo que a viagem no tempo seja fisicamente possíveis. E mais: supondo que seu hipotético neto invente uma máquina do tempo no futuro, as chances de você morrer ou ficar infértil antes de ter filhos aumentam consideravelmente, impedindo, consequentemente, que seu descendente viaje no tempo e crie os indefectíveis paradoxos. 


Continua…

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SERÁ POSSÍVEL ENVIAR SINAIS PARA O PASSADO?

O UNIVERSO PODE SER INFINITO, MAS A MENTE HUMANA DESENHA SEUS LIMITES.

Ao revisitar as equações relativísticas publicadas por Albert Einstein no início do século XX, pesquisadores chegaram a uma conclusão que parece saída de ficção científica: em certos universos, seria possível enviar mensagens para o passado.


A ideia abre espaço para imaginar conversas em tempo real com outras formas de vida sencientes — caso existam —, independentemente da distância. Em outras palavras, as equações do físico alemão revelam atalhos secretos pelos quais sinais podem atravessar o cosmo.


Curiosamente, isso não depende da mecânica quântica nem do famoso “emaranhamento fantasmagórico” entre partículas, mas nasce da física clássica, na versão relativística apresentada em 1905. Einstein, aliás, sempre foi cético em relação a certos aspectos da mecânica quântica. É fascinante perceber que suas próprias ideias sobre a relatividade restrita podem produzir fenômenos semelhantes à “ação à distância” que tanto o intrigava. Por outro lado, convém esclarecer: enviar sinais para o passado não significa inverter a seta do tempo. 


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Alexandre de Moraes ligou o botão do foda-se. Incapaz de refutar as suspeitas, passou a operar no modo desespero e a se mostrar capaz de tudo para matar as provas que o ligam a Daniel Vorcaro. Sem despir a toga, comporta-se como qualquer investigado em apuros: cola em André Mendonça a pecha de juiz parcial.

Suprema ironia: Moraes enfiou Mendonça no inquérito das fake news — aquele que Dias Toffoli abriu há quase oito anos, a pretexto de investigar os inimigos da suprema corte. Acusa-o de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade. Sustenta que o colega atua como investigador, direciona investigações e se mete até na negociação de delações.

O objetivo primordial de Moraes está mal disfarçado atrás de uma expressão técnica. Ele insinua que houve "quebra da cadeia de custódia das provas". Usa em causa própria o bordão preferido de investigados indefensáveis. Serve para semear tumulto em inquéritos, para colher futuras nulidades processuais.

Com sua vingança, Moraes realiza o pesadelo da perda de autoridade. Realiza também o sonho de autoridades e políticos comprados por Vorcaro. 

A história mostra que a implosão de inquéritos conduz a acordos que restauram a imoralidade. A diferença é que agora as provas não são as únicas vítimas. O produto final é o cadáver do próprio Supremo.


A física descreve futuro e passado de forma simétrica, embora nossa experiência humana os diferencie. Assim, o fenômeno não altera nossa vivência temporal, mas pode permitir, por exemplo, que um sinal enviado da Terra ao meio-dia chegue a Proxima Centauri antes mesmo desse horário.


Quem assistiu à trilogia “De Volta para o Futuro” pode pensar em paradoxos, mas os cientistas garantem: não se trata de universos paralelos nem da interpretação de muitos mundos da mecânica quântica. É pura relatividade. Ainda assim, o debate sobre múltiplos universos permanece vivo, especialmente quando se discute a energia escura — esse valor incrivelmente pequeno que desafia explicações em um universo único.


Alguns físicos acreditam que apenas a hipótese de muitos mundos pode dar conta desse mistério. Outros a consideram absurda. Mas descartar de plano seria precipitado: se um fenômeno não puder ser explicado em um único universo, talvez seja preciso recorrer a essa teoria. Mas é importante não confundir ciência com espiritualidade: a física pode dialogar com a filosofia, mas não deve ser usada como base para crenças místicas. O livre-arbítrio, por exemplo, continua em debate entre filósofos e físicos, e a balança parece pender para a ideia de que não existe.


Einstein dizia que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão persistente. Essa afirmação é tão filosófica quanto científica. E mostra como física e filosofia podem se encontrar — ainda que muitos físicos resistam a esse diálogo. Outras ideias especulativas sugerem regiões do cosmos onde o tempo corre na direção oposta. Já as mais convencionais imaginam o Big Bang como um início altamente ordenado, seguido pelo aumento da entropia. Mas por que o começo foi tão ordenado?


Essa pergunta desafia a física há décadas. A teoria das cordas, que busca unir a mecânica quântica à gravidade, pode fornecer a resposta, mas ainda carece de comprovação experimental. E o mesmo vale para qualquer teoria que tente conciliar os dois pilares da física moderna: a quântica, precisa no micromundo das partículas, e a relatividade geral, precisa no macromundo das estrelas e galáxias. Já o Modelo Padrão continua a explicar com precisão os dados dos aceleradores de partículas, mas ainda há mistérios: não sabemos o que é a matéria escura, responsável pela maior parte da gravidade do universo, nem a energia escura, que acelera sua expansão.


Esses enigmas mostram que a física está longe de ser um edifício completo. E talvez isso seja sua maior beleza: sempre haverá perguntas em aberto, sempre haverá vertigens de perspectiva. Como disse Niels Bohr, quem não fica chocado ao aprender mecânica quântica pela primeira vez é porque não a entendeu.

A física nos arranca o chão e nos mostra que, sob a superfície, existe um mundo radicalmente diferente daquele que experimentamos no cotidiano. É nesse abismo de possibilidades que mora a verdadeira aventura intelectual: compreender que o tempo, o espaço e até o passado podem ser muito mais maleáveis do que ousamos imaginar.