A VOZ DO TOLO É CONHECIDA PELA PROFUSÃO DE PALAVRAS.
Mitos são fatos históricos "não verdadeiros", e teorias da conspiração, narrativas que carecem de provas e/ou embasamento científico.
Um exemplo de mito é a lenda segundo a qual Prometeu roubou o fogo de Zeus e o deu aos mortais, e um exemplo de teoria da conspiração, a alegada forjadura da alunissagem da Apollo 11.
CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA
Estou chegando ao ponto de vomitar quando escuto falar no filho do presidiário ou ouço os garranchos verbais regurgitados pelo demiurgo de Garanhuns, mas vamos lá.
A pesquisa Datafolha mais recente separa os dois postulantes ao Planalto por quatro pontos percentuais, o que configura empate técnico dentro da margem de erro.
Para virar o jogo, o macróbio precisa atrair eleitores que hoje preferem o adversário. É como gritar "Timão" no meio da torcida do Palmeiras.
Na conta dos votos válidos, o filho do golpista soma 52%, contra 48% do adversário. Há 5% de brancos e nulos, 1% de indecisos e 92% dos eleitores de cada candidato totalmente decididos.
É improvável que os eleitores inclinados ao voto branco ou nulo migrem em massa para Lula. E ainda que atraísse a ínfima parcela de indecisos, o petista não viraria o placar. Terá que seduzir o eleitor que vota em em Flávio menos por identificação com o bolsonarismo do que por rejeição ao petismo. O jogo ainda não está jogado, mas a posição do desafiante é mais confortável.
Para administrar sua vantagem, não pode espantar o eleitor, Lula terá que fazer o inverso: invadir a arquibancada adversária e convencer parte da torcida a trocar de camisa. Tudo isso em 15 dias.
A despeito de Aristóteles, Eratóstenes e Pitágoras terem refutado o terraplanismo séculos antes do início da era cristã, e dos mais de 4 milhões de fotos tiradas do espaço comprovarem que a Terra é redonda, 8% dos brasileiros se declaram terraplanistas (e o pior é que essa gente vota!)
Einstein teria dito que o Universo e a estupidez humana são infinitos, mas ressalvado que, no tocante ao Universo, ele não estava 100% certo. Em Ensaio sobre a cegueira, o escritor português José Saramago, Nobel de Literatura em 1998, descreveu com perfeição a conjuntura surreal que vivenciamos anotando que "a pior cegueira é a mental, pois faz com que não reconheçamos o que temos pela frente".
Inúmeros mitos ensejaram teorias que ainda movem os moinhos dos conspiracionistas, mesmo tendo sido desbancados pelos fatos. Na visão míope dos anencéfalos, Paul McCartney morreu num acidente de carro em 1966, Michael Jackson forjou a própria morte, a princesa Diana foi assassinada a mando da Família Real Britânica, o tsunami do Oceano Índico foi causado por testes nucleares dos EUA e de Israel, e a rainha-consorte Maria Antonieta proferiu a célebre frase "se não têm pão, que comam brioches" — ela tinha apenas 9 anos e vivia na Áustria quando esse epigrama foi registrado pela primeira vez.
Entre outros mitos que não param em pé, mas continuam sendo tidos e havidos como verdades absolutas, figura o do Cavalo de Tróia. Embora a cidade tenha existido e a guerra contra os gregos tenha acontecido, o mesmo não se aplica ao cavalo de madeira recheado de soldados que os gregos deixaram nos portões da cidade.
Alguns pesquisadores acreditam que o famoso cavalo de madeira foi na verdade um carneiro parecido com um cavalo, ou então uma arma de cerco, enquanto outros afirmam que um terremoto destruiu os muros da cidade. Seja qual for o verdadeiro motivo, tudo indica que o cavalo de Tróia é conto da Carochinha.
Reza a lenda que, quando partiam em suas cruzadas, os cavaleiros medievais trancaram as partes íntimas de suas esposas com cintos de castidade e levavam a chave com eles, mas isso não passa de uma narrativa criada pelos renascentistas para exemplificar o obscurantismo da Idade Média. Até porque alguém que usasse tal acessório por períodos tão prolongados morreria de septicemia (infecção generalizada). Além disso, não há uma fonte confiável de registros da Idade Média que diga algo sobre esses artefatos.
Em A Conquista de Marte de Edison, o astrônomo americano Garret P. Serviss anotou que "alguém de fora da Terra" teria visitado o Egito e construído as Pirâmides e a Esfinge. Sete décadas depois, Erich von Däniken publicou Eram os Deuses Astronautas?
O livro de Serviss é pura ficção científica, e o de Däniken foi tachado de pseudociência — mas isso não muda o fato de a obra do pesquisador suíço ter sido traduzida para mais de 30 idiomas, vendido dezenas de milhões de cópias e inspirado a bem-sucedida série Alienígenas do Passado, produzida pelo History Channel.
A teoria segundo a qual soldados de Napoleão Bonaparte destruíram a tiros o nariz da Esfinge de Gizé não se sustenta ante indícios robustos de que a escultura foi mutilada pelo sufi Muhammad Sa’im al-Dahr, que viveu no Egito no século XIV e achava que o culto àquele monumento afrontava os preceitos muçulmanos. Aliás, a destruição de artefatos históricos por fanáticos religiosos foi uma prática recorrente ao longo de toda a história, haja vista o que fez o Estado Islâmico na Síria e no Iraque.
Outro mito que não para em pé afirma que William Shakespeare não é o autor das obras que lhe são atribuídas, uma vez que alguém nascido e criado em um comércio de ovelhas não teria conhecimento suficiente para escrever descrições elaboradas de política, justiça e culturas de outros países. Além disso, a maioria de suas obras foi assinada de maneiras diferentes e seu sobrenome foi grafado ora como Shakespeare, ora como Shake-speare, ora como Shak-spear.
Heródoto associou a construção das pirâmides de Gizé ao trabalho escravo. Ocorre que o historiador grego viveu no século V a.C., e as gigantescas pirâmides foram erguidas entre 2600 e 2500 a.C. Ademais, escavações lideradas por Zahi Hawass e Mark Lehner nas vilas dos operários em Gizé, nos anos 1990, atestam que os restos mortais encontrados eram de trabalhadores assalariados e bem tratados, que foram inclusive sepultadas com honrarias, junto com seus faraós — o que não ocorreria com escravos.
Milhares de pergaminhos e obras de conhecimento inestimável foram supostamente queimados durante o ataque de Júlio César a Alexandria, no Egito, mas, na verdade, a biblioteca havia sido seriamente desfalcada antes da chegada do imperador romano. Isso porque o Estado reduziu gradualmente suas despesas com as necessidades da biblioteca, bolsas de estudos foram canceladas e cientistas estrangeiros foram proibidos de visitar o local.
Em última análise, os mitos e as teorias da conspiração sobrevivem porque oferecem respostas fáceis a perguntas difíceis e, a exemplo das religiões, confortam mentes inquietas diante do desconhecido. Mas avançar como sociedade exige cultivar o espírito crítico e a curiosidade científica, lembrando que a verdade, mesmo sendo menos sedutora do que a fantasia, é infinitamente mais libertadora.




