O UNIVERSO NÃO TEM OBRIGAÇÃO DE FAZER SENTIDO PARA NÓO Universo não nos deve respostas fáceis. Ele existe do jeito que existe, quer a gente entenda, quer não. Mas é justamente isso que torna a ciência e a exploração tão emocionantes. Às vezes, esperamos que tudo se encaixe naquilo que já conhecemos, mas não é assim que a banda toca. A ciência consiste justamente em fazer perguntas e descobrir coisas novas, mesmo quando as respostas parecem estranhas ou inesperadas.
Em um estudo publicado recentemente na revista Nature, um grupo internacional de cientistas liderado por Kevin Hoy, da Universidade Diego Portales e do Observatório Europeu do Sul (ESO), no Chile, apresentou evidências de um corpo celeste que pode ser o primeiro exosatélite já detectado fora do Sistema Solar. No entanto, ele não se parece nem um pouco com a nossa Lua, de modo que talvez nem seja correto chamá-lo de “lua”.
Renata Lo Prete tentou uma, duas, três vezes, mas não conseguiu arrancar de Flávio Bolsonaro uma resposta categórica sobre o papel que o pai teria num eventual governo do filho, de modo que o brasileiro ficou autorizado a suspeitar que o candidato foi mandado às urnas como segundo escalão da família Bolsonaro.
Num hipotético governo de Flávio, o verdadeiro chefe de Estado será Jair.
"Se vencer a eleição, seu pai terá cargo no governo?", indagou Lo Prete. A jornalista foi específica: "Qual?" Flávio passou a falar da condenação do pai. Chamou o julgamento de "farsa". E classificou como "golpe da Disney" a trama que levou à prisão de Bolsonaro.
A entrevistadora tentou novamente: "Se o senhor vencer a eleição, seu pai vai ter cargo no governo?". Flávio grudou os olhos na câmera: "Meu pai vai ser você, vai ser o povo brasileiro. É pra você que eu vou trabalhar". O candidato esticou o blá-blá-blá: "Tenho o privilégio de, a hora que eu precisar consultar um ex-presidente da República, tenho um dentro de casa, de confiança. Sou privilegiado por isso, mas nunca tratou de cargo comigo."Lo Prete não se deu por vencida: "Mas o senhor cogita nomear? Daria um cargo para o seu pai no governo?". Pela terceira vez, Flávio Bolsonaro desconversou: "Ele nunca tratou disso comigo. Não está no radar". Numa campanha eleitoral, nunca é uma palavra perigosa. Os candidatos deveriam sempre se lembrar de nunca usá-la.
O filho de Bolsonaro é candidato não a presidente, mas a marionete. Como ventríloquo, seu pai desfruta de privilégios eleitorais que seriam inacessíveis a um preso inelegível — com uma vantagem que nenhum candidato à reeleição jamais teve: a de participar da campanha como sujeito oculto. A presença em sabatinas e debates seria um rebaixamento para o capitão.
Uma eventual presidência de Flávio não proporcionaria ao Brasil a experiência de ser presidido por um Bolsonaro hipoteticamente moderado. Na prática, seria como se Jair Bolsonaro obtivesse um segundo mandato. Seria um rei sem trono. O mito viraria folclore. Nem precisaria de cargos para exercer seu poder presumido.
Como uma anã marrom não é nem uma estrela propriamente dita nem um planeta, Hoy e seus colegas preferem o termo mais abrangente “exosatélite” — "exolua” seria uma designação mais específica, normalmente associada a um satélite que orbita um exoplaneta, e como o próprio artigo da Nature ressalta, ainda não existe uma definição formal e universalmente aceita para “exolua”.
Independentemente do nome que acabará prevalecendo, o estudo representa um passo importante: pela primeira vez, a técnica de velocidade radial produziu evidências convincentes de um satélite orbitando uma anã marrom. Isso é particularmente interessante porque, apesar de já termos descoberto mais de 6.000 exoplanetas, nenhuma lua orbitando um exoplaneta foi confirmada de maneira incontestável. Há candidatos, mas eles continuam controversos.
Para procurar o exosatélite, a equipe utilizou a mesma técnica de velocidade radial empregada na descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela semelhante ao Sol, em 1995. O método consiste em observar pequenas mudanças periódicas na velocidade com que o objeto se aproxima ou se afasta de nós, detectadas por meio dos deslocamentos das linhas espectrais de sua luz — o conhecido efeito Doppler.
Quando um corpo orbita outro, ambos giram em torno de um centro de massa comum. Se o corpo secundário tiver massa suficiente, ele provoca um pequeno “rebolado” no corpo principal. Esse movimento pode ser percebido nas alterações periódicas de sua velocidade radial. Foi justamente esse sutil rebolado que os pesquisadores procuraram — e encontraram — em CD-35 2722 B.
A anã marrom em questão é conhecida como CD-35 2722 B, nome derivado de sua identificação em catálogos astronômicos. O principal candidato a satélite ainda não recebeu uma designação própria. O modelo mais bem ajustado indica uma massa mínima de aproximadamente 0,9 vez a massa de Júpiter e um período orbital de cerca de 170 dias. Em outras palavras, estamos diante de algo com massa da ordem de 1,7 × 10²⁴ toneladas — praticamente um Júpiter em miniatura, embora não saibamos necessariamente seu tamanho físico.
O modelo que melhor explica os dados também aponta para um segundo candidato a satélite, mais próximo da anã marrom, com massa mínima estimada em cerca de 0,28 vez a massa de Júpiter e período orbital de aproximadamente 87 dias. Essa segunda detecção, entretanto, é bem menos segura que a primeira. Os dois períodos estão próximos de uma proporção de 2 para 1, o que pode indicar uma ressonância orbital, fenômeno que também ocorre entre algumas luas de Júpiter.
Esse sistema é difícil de definir usando termos que conhecemos do Sistema Solar. O objeto principal tem massa suficiente para ser comparado a um planeta gigante, mas não orbita diretamente uma estrela, e sim uma anã marrom que, por sua vez, orbita uma estrela. E a anã marrom não se encaixa nem na categoria de estrela nem na de planeta.
É por isso que os pesquisadores preferiram chamá-lo simplesmente de satélite, evitando por enquanto a palavra “lua”. Afinal, estamos diante de um objeto que exerce o papel gravitacional de uma lua, mas cuja massa é comparável à de um planeta gigante. Essa discussão também antecipa um problema que poderá surgir quando encontrarmos, de maneira inequívoca, uma lua orbitando um exoplaneta: quem poderá dizer que descobriu a primeira exolua?
Uma controvérsia parecida já aconteceu no passado. Em 1992, o astrônomo polonês Aleksander Wolszczan descobriu os primeiros planetas conhecidos fora do Sistema Solar, orbitando o pulsar PSR B1257+12 — o remanescente extremamente compacto de uma estrela que explodiu como supernova.
Três anos depois, em 1995, Michel Mayor e Didier Queloz descobriram 51 Pegasi b, o primeiro exoplaneta encontrado orbitando uma estrela semelhante ao Sol. Foi por essa descoberta que os dois receberam o Prêmio Nobel de Física de 2019. A distinção não ignorava a importância do trabalho de Wolszczan: o prêmio estava especificamente relacionado à descoberta do primeiro exoplaneta orbitando uma estrela do tipo solar. Ainda assim, a história mostra como definições e critérios podem influenciar a maneira como atribuímos pioneirismos científicos.
No caso da descoberta de Hoy, a nomenclatura também poderá pesar nos reconhecimentos futuros. Afinal, se o objeto for oficialmente classificado como exosatélite, ele será o primeiro desse tipo a ser detectado; se a comunidade científica decidir que a categoria “exolua” pode incluir satélites de anãs marrons, a história será contada de outra maneira.
É comum em astronomia que novas descobertas deem azo a debates sobre classificação. Um dos exemplos mais famosos ocorreu em 2006, quando a União Astronômica Internacional (IAU) aprovou uma definição formal de planeta e criou a categoria dos planetas anões. Plutão, que até então era considerado o nono planeta do Sistema Solar, passou a integrar essa nova categoria.
A questão das exoluas tem potencial para provocar um rebuliço semelhante. Ainda não existe uma definição formal de “exolua” adotada pela IAU, e os astrônomos discutem quais critérios deveriam ser utilizados. Uma lua precisa necessariamente orbitar um planeta? Um satélite de uma anã marrom pode ser chamado de exolua? Existe um limite de massa para uma lua? E como classificar um objeto cuja massa se aproxima da de Júpiter, mas que orbita uma anã marrom?
Observação: O caso de CD-35 2722 B mostra que a natureza não está particularmente preocupada com a nossa necessidade de classificação. Ela simplesmente produz os objetos que suas leis físicas permitem — e deixa para nós a tarefa de inventar nomes para eles.
O estudo deve aquecer ainda mais a corrida entre astrônomos em busca da primeira exolua propriamente dita, isto é, um satélite orbitando um exoplaneta. Alguns cientistas tentam fazer isso por meio de técnicas diferentes da utilizada por Hoy. Uma delas é a detecção por trânsito, que procura pequenas reduções no brilho de uma estrela quando um planeta passa diante dela. Se esse planeta possuir uma lua, ela poderá produzir uma alteração adicional, extremamente sutil, na curva de luz.
O problema é que esses sinais são minúsculos e as órbitas dos candidatos podem ser demoradas. Em alguns casos, seriam necessárias várias passagens diante da estrela para que os astrônomos pudessem reunir evidências suficientes para confirmar a existência de uma lua. É uma caçada cósmica em que a paciência, mais uma vez, é uma virtude indispensável.
Uma esperança para acelerar essa busca está no Extremely Large Telescope (ELT), que o ESO está construindo no Chile. Com um espelho principal de 39 metros, ele será o maior telescópio óptico e infravermelho do mundo quando entrar em operação e terá capacidade muito superior à dos atuais grandes telescópios para estudar objetos extremamente tênues e distantes.
O cronograma atualmente divulgado pelo ESO prevê a chamada “primeira luz” do telescópio em março de 2029, seguida da instalação e comissionamento dos primeiros instrumentos. A chamada primeira luz científica está prevista para dezembro de 2030.
Quando o ELT estiver funcionando plenamente, poderemos finalmente começar a enxergar uma população de mundos que hoje mal conseguimos perceber. E talvez encontremos entre eles aquilo que os astrônomos procuram há décadas: uma verdadeira lua orbitando um planeta situado em outro sistema estelar.
Mas talvez a descoberta mais interessante proporcionada por CD-35 2722 B seja outra: ela nos lembra que o Universo não tem a menor obrigação de organizar seus objetos segundo as categorias que inventamos aqui na Terra. Nós gostamos de planetas, luas, estrelas e anãs marrons devidamente separados em compartimentos, ao passo que o Universo parece preferir a bagunça. E convenhamos: é justamente quando ele bagunça nossas gavetas que a astronomia fica mais interessante.




