segunda-feira, 8 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — MAÇONARIA NÃO É RELIGIÃO

QUEM PROCURA A VERDADE NÃO PODE SE ATER ÀS PRÓPRIAS OPINIÕES.

Ao contrário do que muitos imaginam, a festa máxima da cristandade não é o Natal, mas a Páscoa, que marca o fim da Quaresma, celebra a paixão e a morte de Cristo e cai sempre no primeiro domingo após a primeira lua cheia seguinte ao equinócio de primavera no Hemisfério Norte — daí o Carnaval mudar de data a cada ano, mas sempre entre 4 de fevereiro e 9 de março.


Segundo o Novo Testamento, Deus enviou seu filho para nos salvar do pecado, e Jesus foi crucificado — daí a cruz ter se tornado o símbolo do cristianismo em geral e do catolicismo em particular. Já a "Santa Madre Igreja" impõe aos católicos uma série de restrições durante a Quaresma e na Sexta-Feira Santa, como jejum e abstinência de carne, além de práticas como recolhimento, penitência, oração, participação na Vigília Pascal, Procissão do Encontro, Adoração da Cruz e Missa da Santa Ceia — para o Vaticano, estamos em plena Idade Média. 


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Se o ministro do Marketing de Lula quisesse coordenar os passos da família Bolsonaro, não faria melhor. Os irmãos Flávio e Eduardo tropeçam um no outro. É como se desejassem transferir Lula do inferno astral — onde a popularidade arde no vermelho — para uma zona de conforto na qual o Pix vira cabo eleitoral da reeleição.

Num instante em que o filho do presidiário foge da urucubaca de Trump contra o Pix, seu irmão Dudu Bananinha presta serviço ao xamã petralha nas redes sociais, insinuando que o Brasil poderia negociar com Trump sistemas americanos de pagamento eletrônico "semelhantes" ao Pix.

Autoexilado na América do Norte, o anti-embaixador da famiglia Bozo parece ter dificuldades para se localizar no mundo: além de prejudicar o clã e o Brasil, ele contribui para a elucidação de um mistério: com sua ajuda, foi descoberto que o grande déficit dos Bolsonaro fica localizado entre as orelhas.


Vale destacar que a cruz levou séculos para superar o significado de horror e vergonha que carregava no mundo antigo, ser elevada a símbolo central da fé e garantir presença em todas as igrejas. É aos pés desse antigo instrumento de tortura que os fiéis se ajoelham durante a eucaristia, enquanto consomem símbolos ritualísticos do sangue e da carne de seu Salvador.


A eucaristia é o mais importante dos sete sacramentos católicos e abrange toda a celebração, das orações iniciais à consagração do pão e do vinho e sua distribuição aos fiéis. Seu momento central é a consagração, quando o padre “transforma” pão e vinho no corpo e no sangue de Cristo — não simbolicamente, como entendem os protestantes, mas de forma literal, segundo a doutrina da transubstanciação. O ato de receber a hóstia consagrada é chamado de comunhão — ou sagrada comunhão —, da qual somente os batizados em estado de graça (sem pecado mortal) podem participar.


Fiz essa breve introdução porque rascunhei este capítulo no Domingo de Páscoa. Na verdade, o mote da postagem é a Maçonaria (ou Franco-Maçonaria, como preferem os puristas), que muitos classificam indevidamente como religião ou sociedade secreta, quando, na verdade, se trata de uma “sociedade com segredos”.


Essa definição também se aplica à Coca-Cola, que guarda a sete chaves a fórmula de seu carro-chefe e nem por isso é uma sociedade secreta.


Para ser considerada religião, uma ideologia precisa, basicamente, garantir a salvação, sustentar uma teologia específica e buscar a conversão de infiéis — e a Maçonaria não se enquadra em nenhum desses três critérios. Mas vamos por partes.


Nos primeiros séculos que sucederam à crucificação do dublê de Filho de Deus e Filho do Homem — união hipostática fundamental para os fiéis —, os cristãos foram duramente perseguidos pelo Império Romano. Nesse contexto, usar a cruz como símbolo seria não apenas perigoso, mas também paradoxal para uma fé que pregava a salvação. Diante disso, optou-se por símbolos mais discretos, como o peixe, escolhido porque a palavra grega para peixe (ΙΧΘΥΣ) funciona como um acrônimo para Iesous Christos THeou Yios Sóter ("Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador").


A transformação da cruz em símbolo sagrado se deu no início do século IV. Conta a tradição que, antes da Batalha da Ponte Mílvia, em 312 d.C., o imperador Constantino teve a visão de uma cruz no céu acompanhada da inscrição In hoc signo vinces (“com este sinal vencerás”) e ordenou que o símbolo fosse pintado nos escudos de seus soldados.


Observação: o símbolo usado por Constantino não era a cruz latina (✝) que conhecemos hoje, mas o Crismão (☧) — monograma formado pelas duas primeiras letras gregas de “Cristo” (Chi = X e Rho = P). O Édito de Milão (313 d.C.) garantiu tolerância religiosa aos cultos, e o cristianismo tornou-se religião oficial em 380 d.C., com o Édito de Tessalônica, de Teodósio I. O gesto de traçar uma cruz sobre o próprio corpo (sinal da cruz) remonta ao início do século III. A princípio, era feito apenas na testa com o polegar, mas logo evoluiu para a forma completa que conhecemos hoje.


A mudança definitiva ocorreu no século V, quando a cruz passou a ser vista como o símbolo máximo da vitória de Cristo sobre o pecado e promessa da vida eterna. Reza a lenda que Helena, mãe de Constantino, liderou uma peregrinação à Terra Santa, onde teria encontrado a cruz na qual o Filho de Deus foi crucificado — e a veneração das relíquias da “Verdadeira Cruz” ajudou a popularizar o símbolo.


Uma famosa teoria da conspiração sustenta que o mundo está nas mãos dos Illuminati — uma suposta sociedade de elite global inspirada pelos ideais do Iluminismo e criada no final do século XVIII com o objetivo de contrapor razão e filantropia à superstição e à influência religiosa —, que teriam se aliado aos maçons para recrutar membros e dominar o mundo. Daí a frequente confusão entre os dois grupos.


O símbolo associado aos Illuminati é a coruja de Minerva — ligada a Atena, deusa da sabedoria —, enquanto o Olho da Providência é frequentemente associado à Maçonaria, embora também seja reivindicado por grupos apócrifos e pelos próprios Illuminati. Originalmente um emblema cristão presente em igrejas ao redor do mundo, na nota de um dólar e no verso do Grande Selo dos EUA, o símbolo foi adotado pelos maçons para representar a vigilância de Deus sobre a humanidade — e funciona como um ímã para teorias conspiratórias.


Os Illuminati foram banidos pelo governo da Baviera em 1785, mas teorias difundidas na internet sustentam que continuam ativos e que algumas fraternidades descendem de seus membros originais — sem evidências de que tenham acumulado grande poder político ou influência significativa. Líderes religiosos, artistas e celebridades como Lady Gaga, Beyoncé, Rihanna e Kanye West já foram acusados de pertencer à sociedade, e de integrar uma indústria do entretenimento supostamente dedicada a uma lavagem cerebral em massa.


Em 2018, durante sua campanha à Presidência, um lunático que atende por Cabo Daciolo — e pretende disputar o Planalto novamente este ano — declarou que seria assassinado por ter atacado o grupo. Um ano antes, em entrevista à BBC, o escritor David Bramwell afirmou que os Illuminati de hoje nada têm a ver com os originais da Baviera, atribuindo sua versão contemporânea à contracultura, ao LSD e ao interesse por filosofia oriental nos anos 1960 — movimento que teria ganhado força com a publicação de um pequeno livro chamado Principia Discordia.


O símbolo dos Illuminati é a Coruja de Minerva — associada a Atena, a deusa virgem da sabedoria — e o Olho da Providência, associado à Maçonaria, mas também reivindicado por grupos apócrifos e pelos Illuminati. Originalmente um emblema cristão presente em inúmeras igrejas mundo afora, na nota de um dólar americano e no verso do Grande Selo dos EUA


Para que este texto não se estenda ainda mais, a Maçonaria será abordada em detalhes no próximo capítulo.

domingo, 7 de junho de 2026

A AUTÊNTICA MASSA ALFREDO

SE COZINHAR É ARTE, PEDIR DELIVERY É PERFORMAR.

O "Molho Alfredo" — uma emulsão à base de manteiga e parmesão ralado — é uma ótima opção para quem não aprecia molhos ao sugo e à bolonhesa, que levam tomate, ou para quem simplesmente gosta de variar. A receita foi criada em 1908 por Alfredo Di Lelio, em Roma, para confortar a esposa, que havia perdido o apetite depois do parto, mas logo conquistou os clientes do restaurante e cruzou o Atlântico quando os atores hollywoodianos Mary Pickford e Douglas Fairbanks provou e aprovou o prato.


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O anúncio de que a Casa Branca planeja impor até 15 de julho um novo tarifaço contra o Brasil — dessa vez de 25% — subverteu a estratégia do presidenciável da família Bolsonaro, que passou do ataque à defensiva. Mas soou contraditório ao declarar ter pedido à calopsita alaranjada que evitasse tarifar as exportações do Brasil — foi como se o feitiço enfeitiçasse o feiticeiro. 

Aproveitando-se do novo cenário, Lula, o macróbio, como que chamou o rival para a briga. Taxou o clã Bolsonaro de "família metralha", xingou o filho do presidiário de "imbecil" e, cavalgando as ameaças do governo americano contra o Pix — um dos pretextos para as novas sanções — classificou o dito cujo como "vendilhão" e "traidor da pátria", disse que ele foi a Trump para "pedir arrego" e o acusou de obteve uma medida que "vai prejudicar o povo brasileiro." Bolsonarinho, por sua vez, se apressou a pedir ao chefe do Departamento de Estado americano que evite o novo tarifaço e antecipou a disposição de alinhar o seu hipotético governo aos interesses econômicos dos Estados Unidos.

O molusco disse que espera um "telefonema de Trump". Na hipótese de uma reversão do novo tarifaço até 15 de julho, o êxito seria atribuído e seu staff, não ao adversário, de quem Trump passou rapidamente da posição de "aliado" presumido à condição de principal estorvo.


Nos EUA, o molho ganhou creme de leite, alho e outros ingredientes que não integram a versão original italiana, que continua fiel às origens. Para servir duas pessoas, você vai precisar de 200g de massa fettuccine, 80g de manteiga sem sal de boa qualidade, 100g de Parmigiano Reggiano ralado na hora, pimenta-do-reino a gosto (opcional) e água do cozimento do macarrão. A receita fica pronta em cerca de 15 minutos e combina com fettuccine, talharim ou outra massa de sua preferência. 


Observação: O Grana Padano e o Parmigiano Reggiano eram considerados "pinga da mesma pipa" até meados do século passado, quando foram reconhecidos como produtos diferentes. A exemplo do champanhe, que só é considerado como tal quando produzido na região homônima da França, o parmigiano "legítimo" é feito em Parma e em Reggio Emilia, e o grana, na Planície Padana. Ambos levam leite cru de vaca, sal e coalho, têm textura firme e cor de palha (resultante do alto teor de gordura), mas uma enzima adicionada à massa do parma controla a proliferação de bactérias durante o processo de maturação, tornando-a mais macia, granulosa e adocicada que a massa do parmigiano. Outra diferença é a dieta das vacas que fornecem o leite: no caso do parmigiano, elas se alimentam apenas de pasto fresco ou feno; no grana, o uso de silagem (alimento produzido através da fermentação de plantas como milho, sorgo, capim ou alfafa) é admitido. Já o processo de maturação — responsável pela textura firme e pelo sabor levemente picante desses queijos — é de 12 a 30 meses para o parmigiano e de 9 a 20 para o grana.


1 — Cozinhe a massa em bastante água salgada até ficar al dente. Antes de escorrer, reserve pelo menos uma xícara da água do cozimento.


2 — Numa frigideira grande, derreta a manteiga em fogo baixo até que ela fique líquida, mas sem ferver nem dourar.


3 — Escorra a massa, transfira-a para a frigideira com a manteiga, desligue o fogo, acrescente o queijo ralado e um pouco da água do cozimento, mexa até tudo se incorporar e formar um creme natural e leve.


4 — Ajuste a consistência — se estiver muito grossa, acrescente mais água do cozimento. Se estiver muito rala, adicione mais queijo —, polvilhe pimenta-do-reino e sirva imediatamente.


Bom apetite.

sábado, 6 de junho de 2026

DE VOLTA À NATUREZA DO TEMPO CRONOLÓGICO

NÃO FORCE DEMAIS AS COISAS. O QUE FLUI, FLUI, O QUE TERMINA, TERMINA, E O QUE TIVER DE SER, SERÁ.

A ciência não sabe se o tempo existe realmente ou é somente uma convenção criada por nossos antepassados para explicar o dia e a noite, as fases da lua, as estações do ano e demais eventos sazonais. Ainda assim, consultamos o relógio acreditando que o tempo flui inexoravelmente do passado para o futuro como as águas de um rio correm da nascente para a foz, mas e se esse fluxo não passar de uma ilusão?

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Durou pouco o entusiasmo de Bolsonarinho com a Casa Branca. Quatro dias após batizar de terroristas o PCC e o CV, Trump acenou com a imposição de novo tarifaço contra produtos brasileiros (desta vez de 25%) e incluiu entre os motivos o Pix.

A ameaça de nova paulada chega como resultado da investigação por supostas práticas comerciais injustas do Brasil, aberta no ano passado junto com o tarifaço de 50% — uma das medidas adotadas pela calopsita alaranjada em resposta ao que chamou de "caça às bruxas" contra Bolsonaro, atribuída à influência do traidor da pátria autoexilado Dudu Bananinha.

Na semana passada, o filho do presidiário disse ter sinalizado a Trump que, se eleito presidente desta republiqueta de bananas, os EUA teriam "um presidente aliado", o que tornaria desnecessária a adoção de retaliações tarifárias. Dias antes, Lula, o macróbio, havia dito que, se conseguisse fazer Trump sorrir, conseguiria "outras coisas". Nos últimos dias, voltou a atribuir o rosnado do imperador laranja à traição dos Bolsonaro contra a pátria.

Se Deus o intimasse Trump a optar entre a conveniência da quadrilha Bolsonaro e seus próprios interesses, ele certamente diria algo como "fuck Bolsonaro and Lula", e os protagonistas da sucessão brasileira talvez percebessem que o único amigo do tresloucado mandatário americano é sua imagem refletida no espelho.

A decisão sobre as novas tarifas será tomada até 15 de julho. Se forem baixadas, será péssimo para o Brasil, mas pode impulsionar a reeleição de Lula. Para o clã Bolsonaro e seu presidenciável, um novo tarifaço editado a três meses e meio da eleição seria como um beijo da morte.


Desde tempos imemoriais, cientistas e filósofos buscam desvendar a verdadeira natureza do tempo, mas ainda não descobriram se ele é uma propriedade natural ou um componente da teoria que introduzimos manualmente. 


Para os físicos, o tempo é um problema que se apresenta em pelo menos três versões difíceis de conciliar. Em primeiro lugar, existe o que se chama de "tempo coordenado": em muitas das equações que descrevem fenômenos físicos o tempo aparece simplesmente como um parâmetro matemático, uma coordenada numérica que indica quando um evento ocorre. Nesse contexto, o tempo não aparece como algo que flui, mas como um parâmetro que nos permite ordenar mudanças.


Einstein revolucionou a física ao demonstrar que o tempo relativístico não é um relógio comum a todos — se dois observadores movendo-se a velocidades diferentes podem discordar sobre a ordem dos eventos, então o tempo deixa de ser um relógio e passa a fazer parte da estrutura do espaço-tempo, que é afetada pela gravidade e pelo movimento —, e complicou ainda mais o cenário ao demonstrar que o "agora" não é universal.


Já o tempo termodinâmico — talvez a única indicação clara de que o tempo parece se mover em apenas uma direção — surge da segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia, que descreve o grau de desordem em um sistema, tende a aumentar. É por isso que um ovo que se quebrou, os cacos de um copo que se espatifou e a fumaça que se dispersou no ar, por exemplo, não voltam espontaneamente ao status quo ante.


O problema é que nenhuma dessas versões se alinha completamente entre si nem com nossa experiência subjetiva do tempo, e muitas das equações mais fundamentais funcionam da mesma maneira, tanto para frente quanto para trás — não há nenhuma seta nos números que aponte para o futuro.


Para alguns pensadores, o que percebemos como o "fluxo do tempo" nada mais é do que uma história que contamos a nós mesmos. Ou seja: o cérebro constrói uma linha do tempo para dar coerência à experiência e, assim como acontece com as cores, nós confundimos essa construção com uma propriedade do mundo externo. 


A relatividade reforça essa suspeita: acontecimentos que parecem simultâneos para um observador podem ocorrer em momentos distintos para outro, pois o que existe não é um "agora" universal, e sim uma rede de eventos distribuídos pelo espaço-tempo, onde o passado, o presente e o futuro coexistem — nessa perspectiva, a distinção entre eles seria nada mais que uma ilusão, ainda que persistentemente convincente.


Mas a física vai ainda mais longe: no reino quântico, não há uma maneira direta de medir o tempo como há com outras propriedades físicas. Pode-se medir onde uma partícula está, mas nunca quando ela está, pois o tempo aparece menos como uma propriedade natural dos sistemas quânticos e mais como um parâmetro que introduzimos manualmente para descrevê-los. Esse paradoxo levou alguns físicos a formularem uma questão radical: e se o tempo não for fundamental, mas emergir de uma estrutura mais profunda que ainda não compreendemos?


Em 1983, os físicos Don Page e William Wootters propuseram que o universo seria uma gigantesca função de onda quântica atemporal, mas dividir essa estrutura em duas partes — uma descrevendo toda a matéria observável e a outra atuando como um "relógio interno" — faz com que o entrelaçamento quântico entre as duas enseje o surgimento da percepção do tempo. De acordo com essa ideia, ao consultarmos o relógio estamos selecionando (ou fixando) o estado correlacionado do restante do sistema naquele momento, ou seja, o tempo, surge como um efeito do entrelaçamento.


Para entender melhor essa ideia, imagine um manuscrito sobre uma mesa, onde o início, o meio e o fim já existem simultaneamente. Porém, para que a história faça sentido é preciso ler suas páginas em ordem, pois a numeração conecta cenas que, na realidade, permanecem fixas. Algo semelhante poderia acontecer com o universo: a mudança não estaria necessariamente na história em si, mas na maneira como a vivenciamos.


Durante décadas, essa ideia não passou de um elegante exercício teórico, mas em 2024 a física Paola Verrucchi, do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, conseguiu construir um modelo matemático funcional inspirado nesse mecanismo: um sistema que entrelaçava um relógio magnético com outro sistema quântico análogo a uma mola. Vista de fora, essa estrutura permanecia estática, mas, em relação ao relógio interno, a mola parecia esticar e contrair seguindo sequências temporais. 


O mais surpreendente é que esse comportamento persistiu mesmo quando o sistema foi ampliado, sugerindo que a ilusão do tempo pode não estar limitada apenas ao mundo quântico. O entrelaçamento quântico entre um relógio interno e a matéria observável permitiria o surgimento do tempo, de acordo com a teoria de Page-Wootters proposta em 1983. 


Outra descoberta surpreendente dessa linha de pesquisa é que a medição do tempo gera entropia. Em outras palavras, os relógios — mesmo os mais simples — não apenas registram a passagem do tempo, mas também produzem calor. Marcus Huber, da Universidade Técnica de Viena, e Natália Ares, da Universidade de Oxford, estão investigando o que acontece quando desmontamos um relógio até seu nível quântico mais básico, e seus resultados descrevem uma relação de compromisso: quanto mais preciso e frequente o tique-taque (quanto mais informação temporal for extraída), maior a tendência de geração de entropia. Mesmo um relógio quase perfeito torna-se instável quando se tenta extrair informações dele.


Tudo isso abre uma possibilidade intrigante: e se a sensação de que o tempo está passando não depender de sua existência como algo fundamental, mas sim de nossa interação com os sistemas que usamos para medi-lo? Alguns cientistas sustentam que o universo já possui relógios naturais, que são os buracos negros — corpos celestes extremamente massivos, de cuja atração gravitacional nem a própria luz consegue escapar. 


Stephen Hawking demonstrou que os buracos negros podem se emaranhar com o mundo exterior através da radiação que emitem, abrindo espaço para a hipótese de que eles possam funcionar como relógios cósmicos. Se assim for, seu tique-taque deveria deixar rastros na entropia da radiação Hawking. Mas poderiam os buracos negros desempenhar o papel de relógio quântico do universo através do entrelaçamento com essa radiação?


A chave desse mistério pode estar em algo ainda mais fundamental do que a entropia. Em 1935, Erwin Schrödinger demonstrou o paradoxo da superposição propondo que um gato em uma caixa lacrada, ligado a um evento radioativo aleatório, poderia ser considerado simultaneamente vivo e morto até que a caixa fosse aberta e o estado observado. Isso significa que uma partícula quântica pode existir em múltiplos estados até que a meçamos. Como esse colapso é irreversível — uma vez que o medimos, não há como voltar atrás —, a flecha do tempo pode ​​ser simplesmente um registro do que foi medido. Assim, nós não apenas participamos do tempo, mas o criamos sempre que perguntamos que horas são.


Essa perspectiva não nega o significado da nossa experiência temporal. Embora seja genuína, a interpretação metafísica que lhe atribuímos é opcional. Nossa vida continua sendo uma sequência de escolhas e memórias, mas essa sequência reside dentro de nós, não em um cosmos que flui independentemente. E se o fluxo do tempo é uma espécie de construção cognitiva, talvez isso altere a forma como vivenciamos a urgência dos prazos, lidamos com a perda ou sentimos que o tempo nos roubou algo. Talvez a flecha do tempo não nos atinja: somos nós que seguimos em frente, construindo memórias enquanto percorremos o mundo.


A física moderna dispõe de ferramentas capazes de explorar questões antes restritas à filosofia, mas suas grandes teorias — relatividade, mecânica quântica e termodinâmica — ainda entram em conflito quando tentam descrever o que o tempo realmente é. E talvez essa tensão seja o indício mais claro de que o tempo, como o imaginamos, não existe como uma entidade única. Talvez o tempo só seja real em diferentes sentidos: como experiência, como aumento da entropia, como ilusão cognitiva ou como efeito da forma como interpretamos o mundo.


Por ora, o tempo ainda está aí, pelo menos para nós, marcando cada segundo.


Continua...

sexta-feira, 5 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A MAÇONARIA

NADA CONTRIBUI MAIS PARA A SERENIDADE DA ALMA DO QUE NÃO TER QUALQUER OPINIÃO. 

A Maçonaria não é religião nem sociedade secreta, mas uma 'sociedade com segredos', até porque não promete salvação, não possui teologia específica e não busca converter ninguém — conversas sobre religião são proibidas nas lojas maçônicas, embora acreditar em uma força superior seja um dos requisitos para alguém se tornar maçom.

Em vez de nomes teológicos definitivos, como Deus, Jesus, Allah, Jeová, Buda ou Krishna, os maçons usam Ser Supremo ou Arquiteto do Universo, o que permite a união de pessoas de diferentes crenças e sustenta uma fraternidade espiritual que não discrimina por raça ou cor. Ademais, embora a instituição seja tradicionalmente restrita a homens, ordens femininas e mistas — como a Estrela do Oriente (fundada em 1850 nos EUA) — reúnem milhões de membros.

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Jair Bolsonaro não é alguém que se caracterize por ter boas ideias – a de enfrentar a pandemia a golpes de negacionismo custou-lhe a reeleição; a de montar uma rede de ilegalidades para ficar no poder levou-o à prisão; e a de fazer do primogênito candidato a presidente está em xeque na antessala da demolição.

O projeto de criar um partido morreu antes de nascer, o que fez a turma da extrema se abrigar no PL, que saiu de legenda mediana para o lugar de maior bancada na Câmara. A união vigorou como benção até agora, quando dá sinais de se transformar em maldição.

Pego em calças curtas pela intimidade de Bolsonarinho com o "mermão" Daniel Vorcaro, a agremiação de Valdemar Costa Neto se vê vendida nas versões desencontradas e na incerteza do que pode vir por aí — e na iminência de perder o bonde da Presidência. 

As adversidades mais visíveis localizam-se nos três maiores colégios eleitorais do país. Em São Paulo, os estilhaços têm potencial para atingir Tarcísio de Freitas, cuja percepção do risco se materializa na solidariedade bem mais ou menos que o governador empresta ao enroscado Flávio. Em Minas, o partido rivaliza com o PT na dificuldade de formação de palanque, e no Rio de Janeiro, berçário político da famiglia Bolsonaro, fica ainda pior na fita.

Nos demais estados, essa direita se divide entre o compasso de espera e os preparativos para o abandono do navio.


As opiniões sobre os maçons modernos variam: há quem os classifique como senhores inofensivos que apreciam rituais bizarros e quem os veja como membros de um conluio secreto de poderosos visando controlar o mundo. A meu ver,
 a verdade deve estar em algum ponto entre esses dois extremos — como diziam os antigos romanos: in medio virtus.

Um iniciado poderia definir a Maçonaria como 'um sistema de moralidade envolto em alegoria e ilustrado por símbolos', mas quem não faz parte dessa seleta confraria costuma ver rituais com velas, caixões e crânios cheios de vinho como a quintessência da excentricidade. Não obstante, basta observar práticas religiosas tradicionais — como os rituais cristãos que simbolizam a carne e o sangue de Cristo — para concluir que a linha entre fé e loucura é tênue e muda conforme o ponto de vista do observador.

Em O Alienista, o escritor carioca Machado de Assis narra a história do psiquiatra Simão Bacamarte, que interna quase todos os habitantes de Itaguaí (RJ) ao considerar-se o único equilibrado. No entanto, a própria singularidade também pode ser uma anomalia, e ele acaba internando a si mesmo, morrendo sozinho em seu hospício. Moral da história: o excesso de racionalidade pode isolar o indivíduo da experiência humana — e o mesmo ocorre com o ceticismo radical: ao se blindar contra qualquer possibilidade, o “equilibrado” se afasta da busca genuína.

Durante séculos, saberes antigos foram considerados meras superstições, e gerações sucessivas desmentiram suas antecessoras. À medida que o saber científico avançava, crescia também a consciência da própria ignorância, mas isso vem mudando desde que mitos e magia começaram a ressurgir sob a roupagem da ciência noética, que investiga o potencial ainda inexplorado da psique humana.

O Instituto de Ciências Noéticas (IONS) estuda como as intenções podem afetar os eventos, ecoando conceitos da mecânica quântica, nos quais o observador influencia o resultado. Experimentos como o da dupla fenda sugerem que a observação altera o comportamento das partículas. Para os noéticos, usamos apenas uma fração mínima de nossa mente e espírito, e o cosmos quântico indicaria que pensamentos moldam realidades.

De um tempo para cá, um número crescente de físicos consideram a hipótese de que o universo possua uma organização fractal, na qual cada parte reflete o todo em diferentes escalas, numa repetição potencialmente infinita de auto semelhança. Aliás, os fractais exercem papel relevante em áreas como criptografia, topologia de redes e visualização de dados, entre outras.

Não deixa de ser curioso que, embora partam de premissas distintas, tradições simbólicas como a Maçonaria e correntes contemporâneas como a ciência noética pareçam convergir em um mesmo impulso: o de decifrar padrões ocultos que conectam mente, matéria e realidade. Sejam arquétipos, probabilidades quânticas ou estruturas fractais, tudo aponta para a persistente intuição de que o universo pode não ser um mecanismo caótico, e sim um sistema dotado de camadas de significado, ainda que nos faltem as ferramentas - ou a lucidez - para as interpretar plenamente.

A serenidade não brota da certeza, mas da abertura ao mistério. Entre símbolos, rituais e ciência, a humanidade perscruta incansavelmente — embora, não raro, muitos prefiram a confortável ilusão de já terem encontrado respostas para perguntas que mal conseguiram formular, sobretudo quando podem transformar o desconhecido em dogma e o mistério em convicção inabalável.

Continua…