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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 114ª PARTE

QUEM PENSA DEMAIS NO FUTURO NÃO TEM TEMPO DE VIVER O PRESENTE.

Vimos que a ciência em geral e a tecnologia em especial evoluíram significativamente nos últimos 200 anos, e mesmo assim os cientistas ainda não conseguem explicar a natureza do tempo, afirmar com certeza se ele realmente existe e tampouco esclarecer o que são as experiências de quase-morte e o déjà-vu, entre outros "mistérios". 


Também como vimos, viajar para o futuro é apenas uma questão de tempo (sem trocadilho). Isso porque os efeitos da dilatação temporal só são expressivos em velocidades próximas à da luz (cerca de 1,08 bilhão de km/h), e a sonda mais veloz que a Nasa lançou até agora atingiu "apenas" 0,064% dessa velocidade. Assim, uma viagem de ida até Proxima Centauri, que fica a 4,2 anos-luz do nosso sistema solar (1 ano-luz = 9,5 trilhões de km), levaria cerca de 6,5 mil anos.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O circo do Supremo pegou fogo. André Mendonça riscou o fósforo ao expor detalhes das relações promíscuas de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes. Os vínculos estão estampados em relatório de 218 páginas da Polícia Federal. Num prenúncio do que está por vir, Moraes bateu boca com Mendonça a portas fechadas na segunda-feira. 

O Supremo vive uma crise inédita. Coisa jamais vista nos 135 anos de existência do tribunal. Por muito menos, Xandão já teria decretado a prisão cautelar de Alexandre de Moraes. Já fez isso com inúmeros investigados de menor influência, sob a alegação de que poderiam comprometer investigações. Junto com o mandado de prisão, expediria uma ordem de busca e apreensão do celular do contato supremo de Vorcaro.

Mendonça deseja que o plenário do Supremo decida, em sessão pública, se Moraes deve ser investigado. Se abafar o caso, como fez com a venda do resort de Toffoli para o Master, o tribunal pode ser carbonizado junto com Moraes num processo de impeachment no Senado em 2027.

Mendonça levantou o tapete. O PGR Paulo Gonet opinou pela anulação da imundície sob o pretexto de "dupla nulidade": a Polícia Federal e a Procuradoria não pediram a vassoura. E o plenário do Supremo não autorizou a faxina nas relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.

A coisa se encaminha para mais um acobertamento de rotina. Mas a turma do abafa precisará responder a uma pergunta singela: "E a sujeira?". O que fazer com as mensagens endereçadas a Moraes? Com o pedido de proteção? Com os apelos para que intercedesse junto aos chefes da PF, da PGR e do BC? Com a pergunta de Vorcaro a Moraes sobre se deveria sair do país pouco antes de ser preso?

Gonet aparece no relatório que Mendonça encomendou à PF como parte do detrito. Numa mensagem, manda um advogado amigo dizer a Vorcaro que está "com saudade". Confirma presença num evento patrocinado pelo banqueiro mafioso em Londres: "Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan". Pede a inclusão do filho, Pedro Gonet, no convescote.

Mendonça é evangélico, não santo. A 32 dias da eleição presidencial, maneja seletivamente os ventiladores do caso Master. A ventania não chega com a mesma intensidade à crina bolsonarista de Dark Horse. Mas o rigor processual de Gonet ignora outras flexibilidades do Supremo.

Aberto por Dias Toffoli sem o aval da PGR, o inquérito das fake news é conduzido por Moraes há quase oito anos. A liberalidade metodológica, quando é muita, acaba engolindo os donos. O tapete do Supremo ficou pequeno. O resort vendido por Toffoli ao cunhado de Vorcaro já vaza pelas bordas. Com Moraes, o excesso tende a tornar tudo insignificante, exceto a pergunta: "E a sujeira?"


Por outro lado, estudos matemáticos sugerem que um hipotético viajante do tempo que entrasse numa curva temporal fechada e retornasse ao passado poderia seguir caminhos diferentes sem alterar o resultado de suas ações. Isso porque quaisquer mudanças nos acontecimentos criariam linhas de tempo alternativas, paralelas à original, a partir do ponto de mudança. 


A existência de uma LTA para cada decisão tomada tornaria a viagem ao passado factível, pois eliminaria paradoxos temporais como o do Avô. Todavia, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e efeitos.  


Hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã. Quando dobramos à direita em vez de à esquerda numa encruzilhada do hoje, desencadeamos uma sucessão de consequências que se espalham no amanhã como as ondas produzidas por uma pedra na superfície de um lago. Isso sem falar que as viagens no tempo só fazem sentido se o tempo realmente existir e for como uma estrada pela qual podemos avançar numa velocidade constante, acelerar, desacelerar e até mesmo parar.


Voltando agora às incompatibilidades entre a física clássica e a mecânica quântica (mais detalhes no capítulo anterior), Einstein já sonhava encontrar uma forma de acomodar ambas numa mesma equação matemática capaz de explicar todas as partículas, todas as forças fundamentais e, quem sabe, o próprio espaço e o próprio tempo. Mas nem ele nem quem mais perseguiu essa solução tiveram sucesso até agora. 


Desde as mais priscas eras, a humanidade procura algum tipo de unidade fundamental — os filósofos gregos buscavam o elemento primordial, os alquimistas, a substância universal, e por aí vai. O tempo passou, o método mudou e as ferramentas evoluíram, mas os físicos modernos continuam perseguindo uma equação capaz de descrever a realidade inteira. E a pergunta continua surpreendentemente parecida: existe uma regra fundamental escondida por trás da diversidade do Universo, ou será que estamos diante de uma realidade complexa demais para caber em uma única explicação?


Foi nesse contexto que surgiu uma proposta tão ousada quanto controversa: e se elétrons, quarks e todas as demais partículas fundamentais não fossem pontos sem dimensão, e sim minúsculas cordas vibrando em diferentes frequências, como as cordas de um violão cósmico? A ideia soa bizarra, mas está longe de ser a parte mais estranha dessa história.


Durante uma palestra, o físico Carlo Rovelli — um dos “pais” da teoria da gravidade quântica em loop — esticou uma corda de uma ponta a outra do palco, pendurou uma caneta no meio e disse: “É aqui que estamos; à direita fica o futuro e à esquerda, o passado". Depois de uma breve pausa, ele acrescentou: “Só que isso é tão errado quanto afirmar que a Terra é plana.”


A gravidade quântica em loop busca compatibilizar a relatividade geral e a mecânica quântica. Nesse contexto, a ideia de que o espaço seja um recipiente vazio e contínuo dá lugar a uma visão bastante diferente. Segundo essa hipótese, o espaço seria formado por estruturas elementares extremamente pequenas, algo semelhante a "pacotinhos" de espaço, da mesma forma que a luz é formada por fótons. Isso significa que as coisas não existem dentro de um espaço preexistente, mas sim umas em relação às outras, e o espaço não seria um palco imóvel onde os acontecimentos ocorrem, mas algo que emerge das próprias relações entre os objetos físicos.


Se essa interpretação estiver correta, então o tempo também deixa de ser uma linha reta pela qual tudo flui do passado para o futuro. Em vez disso, passado, presente e futuro podem ser apenas maneiras humanas de organizar uma realidade muito mais complexa do que nossa experiência cotidiana sugere.


Para entender a teoria da gravidade quântica, devemos pôr de lado a ideia de que um gigantesco relógio cósmico marca o tempo do Universo. Um ano corresponde ao tempo que a Terra leva para dar uma volta completa em torno do Sol, e nosso conceito de “ano” só faz sentido em nosso planeta — em Saturno, por exemplo, um ano corresponde a 29,5 anos terrestres. 


Como se vê, nosso conceito de tempo pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Newton dizia não ser possível medir o “tempo verdadeiro”, mas que assumir sua existência ajudava a descrever vários fenômenos da natureza. Séculos depois, Einstein postulou que cada objeto do Universo tem seu próprio tempo, só que o tempo como o concebemos não funciona numa escala muito pequena — como a escala quântica. 


As coisas mudam apenas umas em relação às outras; no nível fundamental, o tempo não existe, e viajar para o passado só faz sentido se admitirmos sua existência. Mas talvez a causalidade não seja tão absoluta quanto imaginamos, e se ela for uma tapeçaria tecida com fios de múltiplas possibilidades, como fica o observador nesse bordado quântico?


Para não estender demais este capítulo, achei por bem abordar a Teoria das Cordas e que tais na próxima postagem. Até lá. 


Continua…

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

SERÁ QUE VIVEMOS NUMA SIMULAÇÃO?

SE CIVILIZAÇÕES AVANÇADAS CRIARAM MUITAS SIMULAÇÕES COM SERES CONSCIENTES, É MAIS PROVÁVEL QUE ESTEJAMOS VIVENDO DENTRO DE UMA DESSAS SIMULAÇÕES DO QUE NA REALIDADE BASE.

O mundo está cada vez mais estranho. Se fossemos Keanu Reeves vivendo em uma simulação de computador, diríamos que estamos constantemente passando por “falhas na Matrix”.


A franquia Matrix explora um futuro distópico onde a realidade que conhecemos é, na verdade, um sistema de inteligência artificial chamado "Matrix". Thomas Anderson, — conhecido pelo apelido Neo e atormentado por falhas na sua realidade — é contatado por Morpheus e Trinity para invadir a simulação, recrutar e treinar "despertados". Morpheus oferece a Neo a escolha entre duas pílulas: a azul (para continuar na ilusão) e a vermelha (para descobrir a verdade). Ao escolher a pílula vermelha, o programador acorda em um mundo devastado e descobre que as máquinas dominam o planeta, mantendo os corpos humanos em cápsulas para extrair energia (bioeletricidade).


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Os púlpitos vazios de Lula e Flávio Bolsonaro chamaram a atenção, mas a ausência dos favoritos já era esperada. Dos seis convidados, restaram apenas três. Romeu Zema se juntou aos fujões. Augusto Cury ameaçou desistir, mas foi convencido pelo jornalista Fernando Mitre a desistir da desistência, juntando-se no estúdio a Ronaldo Caiado e Renan Santos. Os três somam 11% das intenções de voto no Datafolha, contra 71% atribuídos ao molusco macróbio e ao rebento do refugo da escória da humanidade..

A cena mais marcante da palhaçada estava na plateia, não no palco. Vice de Ronaldo Caiado, Gilberto Kassab cochilou várias vezes — inclusive durante uma fala do seu companheiro de chapa. Com suas sonecas, foi o vice-campeão do "debate", perdendo apenas para o eleitorado que foi dormir antes dele.

Em última análise, foi "debate" entre aspas, sem embates. Lula apanhou mais que Bolsonarinho. Zema foi ignorado — ninguém quis chutar cachorro morto.

Com linguajar de sarjeta, Renan exibiu cortes para a internet, não ideias. Disse que Lula e Flávio fugiram como "duas cadelas". Escorregou entre a misoginia e a homofobia. Fez ataques gratuitos a Janja e Erika Hilton.

Com sorriso robótico, Caiado soou menos como presidenciável do que como guia turístico do seu estado. Prometeu transformar o Brasil numa espécie de Goiás hipertrofiado. Com ares professorais, o psiquiatra Cury forneceu receitas de autoajuda para um país "doente". 

A 41 dias do primeiro turno, dificilmente o "debate" influenciará significativamente os ponteiros das pesquisas. Lulistas e bolsonaristas aplaudem os fujões. O eleitor que atrasou o sono não se livrou do pesadelo da polarização.


Isso cheira a ficção, mas e se nosso Universo for mesmo um gigantesco holograma, como afirmam pesquisadores da Universidade de Southampton, no Reino Unido, Universidade de Waterloo e Instituto Perimeter, no Canadá, Lecce e Universidade de Salento, na Itália, que publicaram um estudo sobre o assunto no periódico Physical Review Letters após constatarem que uma das explicações para a formação do Universo cabe direitinho em um modelo de duas dimensões (2D)? 


Essa é uma entre as mais de 10 mil pesquisas sérias relacionadas ao conceito do Universo Holográfico, criado pelo físico Leonard Susskind nos anos 1990. Só que, até onde se sabe, o cosmos é formado por três dimensões espaciais (altura, profundidade e largura) e uma quarta, de natureza temporal. Dito isso, como ele poderia funcionar com uma dimensão a menos (sendo que é só olhar para a frente para ver que tudo ao nosso redor é em 3D)?


Imagine que tudo o que você vê, sente e ouve em três dimensões (mais a sua percepção de tempo), na verdade, emana de um campo plano de duas dimensões. A ideia é semelhante à dos hologramas comuns, nos quais uma imagem em 3D está decodificada em uma superfície plana, como o holograma de um cartão de crédito. A diferença é que agora é o Universo inteiro que está decodificado. Mas isso não significa que estamos vivendo agora em um holograma, e sim que isso pode ter acontecido no surgimento do Universo, há quase 14 bilhões de anos. 


Como mencionado em dezenas de oportunidades, a ciência sabe muito, mas não sabe tudo, e ainda não foi capaz de conciliar o modelo da mecânica quântica (que regula o universo das coisas menores do que um átomo) com o modelo da relatividade geral (aquela mesma proposta por Einstein, que regula os corpos gigantescos como estrelas e planetas). Isso fica especialmente evidente ao se tentar descrever o surgimento do Universo, quando, segundo a teoria do Big Bang, toda a massa e energia existentes estavam contidas em um único ponto menor do que uma ervilha, mas com densidade infinita.


Em outras palavras, existem duas físicas que falam línguas diferentes, já que a mesma gravidade que explica tão bem o comportamento dos planetas, por exemplo, não funciona para explicar o comportamento de partículas subatômicas. No entanto, uma teoria que tenta fazer as duas físicas conversarem é conhecida como gravidade quântica.


De acordo com o físico italiano Carlo Rovelli, apesar de ainda não ter sido comprovada experimentalmente (como muita coisa na física teórica), essa teoria é a que melhor explica a realidade que nos cerca, pois para a gravidade quântica não existe o espaço-tempo. Segundo esta concepção de mundo, tudo seria formado por campos quânticos — compostos pelas partículas que, como os fótons, por exemplo, não precisam do espaço-tempo para lhes servir de suporte porque eles próprios são o espaço-tempo.

 

Além do tempo e do espaço, a teoria elimina também o universo infinitamente pequeno, menor do que as partículas subatômicas, onde a mecânica quântica atua. Assim, as relações espaciais que tecem o espaço curvo de Einstein são as mesmas interações que tecem as relações entre os sistemas elementares da mecânica quântica — que se tornam compatíveis quando se conclui que espaço e tempo são aspectos de um campo quântico que podem viver mesmo sem serem escorados num espaço externo.


Como se vê, o cosmos é um lugar fascinante e nada óbvio. E o mais interessante da gravidade quântica é que ela prevê que, se eliminarmos uma dimensão, podemos eliminar também a gravidade, tornando os cálculos muito mais fáceis. Com esta ideia em mente, os pesquisadores desenvolveram um modelo com duas dimensões (mais o tempo) para explicar como o princípio do holograma poderia explicar os acontecimentos do Big Bang e suas consequências.


Vale reforçar que eles estão longe de provar que o nosso Universo era um holograma no começo, mas o fato de as evidências observacionais do mundo real explicarem partes faltantes das leis da física em duas dimensões significa que não devemos descartar a ideia. Por outro lado, nenhum de nós é um desenho animado vivendo em um mundo sem profundidade. Segundo Niayesh Afshordi, da Universidade de Waterloo, talvez não vivamos em um holograma, mas podemos ter saído de um. Seja como for, até prova em contrário o Universo tem três dimensões.


Dada a quantidade de universos criados, a ideia encontra eco nos trabalhos tanto de filósofos contemporâneos como David Chalmers, da Universidade de Nova York, quanto de filósofos clássicos como Platão — com sua alegoria da caverna — e modernos como Descartes, para quem não podemos confiar cegamente em nossas percepções. Por exemplo, o resultado de uma final de copa do mundo pode ser o mesmo para os dois países, mas dificilmente quem perdeu vai ter a mesma percepção daquele que ganhou (pergunte a um torcedor alemão se ele ficou triste com o 7x1). Tem-se aí duas realidades alternativas baseadas em um único fato.

A Hipótese da Simulação ficou ainda mais conhecida em 2016, quando o magnata Elon Musk, CEO da SpaceX, disse que fazemos parte de um mundo simulado e que a nossa realidade poderia ser só uma entre muitas. Mas a tecnologia de hoje é muito mais avançada do que há dez anos, quando agíamos como neandertais e usávamos o Orkut, tínhamos que ir ao banco pagar boletos, ou passávamos madrugadas baixando músicas na internet. 


A questão que os filósofos propõem é exatamente esta: a humanidade poderia evoluir a ponto de criar uma inteligência que vivesse em um mundo simulado e que fosse capaz de ter consciência? Há quem diga que já chegamos a esse nível, e que fazemos parte desse imenso game que seria a realidade que nos cerca, manipulados por seres avançados de um universo “acima” do nosso.


Em um podcast do jornal The Guardian, Chalmers afirma que seria impossível conseguirmos qualquer prova desta teoria, por causa de um simples fator: qualquer evidência que a gente consiga pode ser ela própria uma simulação. Mas isso não nos impede de caçá-las. Como afirmou o cosmólogo do MIT Max Tegmark, quanto mais aprendemos sobre o nosso Universo, mais ele parece ser baseado nas leis da matemática, pois elas apenas refletem os códigos de computadores em que foram escritas. 


Mas nem todos concordam. A física teórica Lisa Randall, da Universidade Harvard, afirma que usar a Hipótese da Simulação como desculpa para eventos que dão errado, como a cerimônia do Oscar ou a eleição de Donald Trump, é uma forma de abdicar das responsabilidades. Segundo ela, seria mais frutífero focar no que podemos fazer para evitar os erros e melhorar o mundo do que atribuir resultados indesejáveis a forças externas incontroláveis.


Na física, não se consegue provar de fato uma teoria, apenas excluir teorias alternativas. Então, não se pode afirmar que nenhuma teoria da física é absolutamente correta (ou incorreta) porque não se tem acesso a todos os níveis de informação. O fato de vivermos em um jogo de videogame não significaria que a realidade não existe, apenas que ela seria feita de informação.


O problema é que, caso a hipótese se confirmasse e todos descobríssemos que somos feitos de bits, teríamos dilemas morais muito mais complexos para resolver. Por exemplo, a entidade que criou a nossa realidade poderia ser um deus ou apenas hackers em um Universo ‘acima’ do nosso. E não há razão para pensarmos nesta inteligência superior como superpoderosa só porque ela controla o que fazemos. 


Ou talvez não se trate de videogame, mas de algo mais autônomo, que não precisa necessariamente de um controlador. Em uma simulação, colocamos as leis da física e da natureza e criamos um Universo, mas não interferimos no que criamos, apenas colocamos os princípios fundamentais e observamos. 

 

Outra questão a ser respondida seria: uma inteligência artificial consciente é menos humana do que um ser humano de verdade — ou pelo menos o que consideramos humano? Como afirmou um dos robôs do parque de Westworld quando foi confrontado com a sua “falta de humanidade”: “A dor existe na mente; ela é sempre imaginada. Então qual é a diferença entre a minha dor e a sua, entre você e eu?”

quarta-feira, 22 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A NATUREZA DO TEMPO

o tempo é lento demais para os que esperam, rápido demais para os que temem, longo demais para os que lamentam, curto demais para os que celebram e eterno para os que amam. 

Para entender melhor a essência do tempo é preciso abandonar a ideia de que o espaço é um “recipiente que contém as coisas” e o tempo, uma linha pela qual os acontecimentos fluem do passado para o presente e deste para o futuro (mais detalhes nesta postagem).

Einstein já havia sugerido que o tempo e o espaço formam um todo único — o “espaço-tempo” — e que o tempo varia conforme a velocidade com que o observador se move e a atração gravitacional que atua sobre ele.

Se não percebemos isso, é porque os relógios que usamos no dia a dia não são precisos o bastante. Mos relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra adiantam 38,4 µs/dia (+45,6 µs/dia por conta da gravidade menor e −7,2 µs/dia graças à velocidade maior), tornando esse efeito mensurável.

Observação: Em velocidades próximas à da luz, a dilatação do tempo se torna extrema — a pouquíssimo menos de "c", um segundo para o viajante equivale a anos para quem ficou na Terra (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos).

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Para entender melhor a teoria da gravidade quântica, é preciso abandonar a ideia segundo a qual existe um gigantesco relógio cósmico que marca o tempo do Universo, mesmo porque um dia é o tempo que a Terra leva para dar uma volta em torno do próprio eixo, e um ano, o tempo que ela leva para dar uma volta completa em torno do Sol. Esse "dia" de 24 horas e esse “ano” de 365 dias e 6 horas só fazem sentido para os terráqueos — em Plutão, por exemplo, a translação leva 248 anos terrestres.

Nosso conceito de tempo é uma convenção que pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Cada objeto do Universo possui um tempo próprio. Se na Terra, em altitudes diferentes, o tempo varia, imagina em Marte ou em Proxima Centauri. Séculos antes de Einstein publicar suas famosas equações relativísticas, Newton já havia dito que não é possível medir o “verdadeiro” tempo, mas, assumir sua existência permitiria descrever vários fenômenos da natureza. Mas na escala quântica o tempo como o conhecemos não funciona.

O espaço é um campo e o Universo é um sem-número de campos quânticos que não habitam o espaço-tempo, já que são o próprio espaço-tempo. Da mesma forma que os fótons se comportam tanto como partículas quanto como ondas, o espaço-tempo é formado por quanta de gravidade, e assim como os fótons medeiam a interação entre as ondas de luz, esse quanta possibilita a interação entre espaço e tempo.

Segundo o físico Carlo Rovelli, o preço conceitual pago para entender a teoria da gravidade quântica em loop é a renúncia à ideia de espaço e tempo como estruturas gerais para enquadrar o mundo. Talvez a dificuldade em entender o conceito se deva ao fato de que é praticamente impossível pensar em um mundo sem tempo e sem espaço, pois essa ideia coloca em xeque a própria realidade — e daí para o niilismo é um pulo. Mas para compreender o mundo pode ser preciso contrariar nossa própria intuição.

Uma das maiores contribuições da gravidade quântica em loop é a visão de mundo que ela oferece: por definir que existe um limite para o espaço e o tempo, a tensão entre a relatividade geral e a mecânica quântica não existe mais. Não é preciso entender o que se passa em um universo infinitamente pequeno, onde as leis de Einstein não se aplicam, mesmo porque os quanta de gravidade eliminam a ideia de espaço contínuo.

Por outro lado, é preciso ter em mente que tanto a teoria da gravidade quântica em loop quanto a teoria das cordas são tentativas de explicar o mundo. Como vários conceitos clássicos da ciência, elas carecem de comprovação experimental, mas nem por isso devem ser subvalorizadas. Vale lembrar que até serem confirmadas (em 2016), as ondas gravitacionais não passavam de especulações, e o mesmo vale para o bóson de Higgs e para as ondas eletromagnéticas.

Na física, quando uma teoria não pode ser comprovada, alternativas continuam sendo avaliadas; teorias são aceitas, ajustadas ou descartadas conforme evidências experimentais. Não se pode afirmar taxativamente que uma teoria seja absolutamente correta ou incorreta, já que não temos acesso a todos os níveis de informação. Mas quanto mais aprendemos de forma interdisciplinar, melhor compreendemos as coisas, e quanto mais desvendamos o mundo, mais descobrimos coisas a desvendar.

Parafraseando Rovelli: a única coisa realmente infinita no Universo é a nossa ignorância.

Continua…

sexta-feira, 17 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO E A TEORIA DE TUDO

OCULTAR SEU PASSADO É O MESMO QUE FECHAR A JANELA DA SUA VIDA.

Talvez não seja o tempo que passa por nós, mas nós que passamos por ele como grãos de areia entre as câmaras de uma ampulheta, e talvez a forma como o sentimos seja uma construção da nossa mente. 

A coisa fica ainda mais complicada quando deixamos a psicologia e focamos o campo da física: em algumas teorias modernas, como a da Gravitação Quântica em Loop, o tempo simplesmente não aparece nas equações fundamentais.

Para compreender isso melhor, devemos ter em mente que a Relatividade Geral diz respeito aos corpos gigantescos do Universo, como estrelas e planetas, enquanto a física quântica é a base da física nuclear e trata do universo das partículas menores do que os prótons e os elétrons. 

Curiosamente, as equações de Einstein não afrontam a física quântica e vice-versa: ambas coexistem sem se contradizerem formalmente, embora não se juntem numa teoria unificada. É como se a natureza tivesse duas explicações diferentes para seu funcionamento e nenhuma deles estivesse errada. Em outras palavras, mesmo que elas se expressem em idiomas diferentes, ambas pareçam dizer a verdade.

Observação: Para explicar esse aparente contrassenso, o físico italiano Carlo Rovelli compara a natureza a um velho rabino que, consultado por dois homens para resolver uma disputa, deu razão a ambos — e quando sua mulher ponderou que os dois não poderiam ter razão ao mesmo tempo, ele disse que ela também estava certa.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Políticos, quando hesitam em embarcar numa canoa ou ameaçam desembarcar dela, fazem-no porque vislumbram no horizonte a possibilidade de naufrágio. 

Projetos com presumida taxa alta de sucesso atraem adesões por gravidade. Foi assim que a direita aderiu pragmaticamente aos governos do PT, até abandonar o partido no governo Dilma Rousseff 2, e foi assim também que Jair Bolsonaro conseguiu transformar sua inicialmente desacreditada candidatura à Presidência num êxito eleitoral que deu nome a um movimento.

O chamado bolsonarismo, contudo, dá sinais de fragilidade na ausência do chefe. Ao contrário do petismo, que se manteve vivo mesmo com a prisão de Luiz Inácio da Silva, em 2018, e na ausência de postulantes a substitutos a ponto de ir pela quinta vez ao Palácio do Planalto em 2022, a corrente se dispersa sob a administração dos herdeiros.

O atrito com Michelle é só o gesto mais atrativo, do ponto de vista da intriga midiática. Outros menos chamativos têm significado político que indica franca indisposição da direita — seja ela extrema ou moderada — com a candidatura de Flávio Bolsonaro.


Os cientistas apreciam teorias elegantes, simples e funcionais, e talvez por isso essa aparente incompatibilidade entre os dois maiores pilares da física os estimule a buscar um terceiro, que escore ambos os campos de estudo. E é aí que surge a Teoria das Cordas, segundo a qual o mundo quântico é formado por minúsculos filamentos de energia — cordas unidimensionais que, vibrando em diferentes frequências, correspondem a diferentes partículas, assim como as cordas de um violão produzem diferentes notas musicais.


Essa teoria se apresenta como a candidata mais promissora para o papel de conciliadora, pois visa conectar todos os fenômenos naturais sob uma mesma descrição com uma elegância matemática extraordinária. É fato que os detratores dessa teoria torcem o nariz para a ideia de um mundo infinitamente pequeno que comporte as tais cordas. Aliás, esse antagonismo rendeu até briga no seriado The Big Bang Theory —, e que a gravidade quântica em loop dissolve essa tensão, já que não pretende ser uma Teoria de Tudo, e sim entender o Big Bang e o interior dos buracos negros — o que, convenhamos, não é pouco.


Tanto a Teoria das Cordas quanto a Teoria da Gravidade Quântica em Loop são apenas sugestões de visão de mundo. Além de não existir uma tecnologia que permita um tira-teima, a tensão entre os dois tipos de física não existe na Gravidade Quântica em Loop, que combina Relatividade Geral e Mecânica Quântica sem utilizar qualquer outra hipótese além dessas duas teorias devidamente reescritas para se tornarem compatíveis.


A Relatividade Geral sustenta que o espaço não é uma caixa rígida e inerte, como um recipiente em que jogamos as coisas, e sim um campo dinâmico e maleável — um imenso molusco em que estamos imersos, capaz de se comprimir e se retorcer na presença de massa e energia, e através do qual se propagam a luz e as ondas de rádio que chegam aos nossos olhos e ouvidos. Já a mecânica quântica define o universo como uma estrutura granular formada por pequenos pacotinhos (quanta), como os fótons que compõem a luz. A diferença é que os fótons vivem no espaço, enquanto os tais pacotinhos são eles próprios o espaço.


De acordo com o físico italiano o Carlo Rovelli, o espaço como recipiente amorfo das coisas desaparece da física com a gravidade quântica; as coisas (quanta) não habitam o espaço, e sim uma os arredores da outra — o espaço é o tecido de suas relações de vizinhança. Daí se depreende que, numa escala muito pequena, o espaço não é algo contínuo, mas tem como limite o limite dos pacotinhos que o formam.


A física teórica ditou o rumo dos experimentos durante décadas, mas, de um tempo a esta parte, ficou mais difícil apresentar uma nova hipótese que explique de maneira convincente questões que seguem em aberto. A própria história da física mostra que muitas teorias perderam força, enquanto outras foram colocadas de lado e retomadas tempos depois. Um bom exemplo é o Modelo de Huygens, segundo o qual a luz era onda, que foi o mais aceito Einstein explicar o efeito fotoelétrico, segundo o qual a luz se comporta tanto como onda quanto como partícula.


Mesmo tendo perdido um pouco de seu encanto, a Teoria das Cordas continua sendo a base da Teoria M, que busca unificar a Relatividade, que descreve o macrocosmo, e a Física Quântica, que remete ao universo microscópico das partículas subatômicas, bem como acomodar todos os fenômenos conhecidos sob o guarda-chuva de uma estrutura matemática elegante e universal. Mais que uma mudança de paradigma, ela é uma expansão ambiciosa do que entendemos por tempo e espaço, e parte de seu fascínio vem da capacidade de explicar a gravidade dentro de um arcabouço quântico (através de uma hipotética partícula chamada "gráviton").


Observação: Para essa teoria funcionar, é preciso que o universo tenha sete ou oito dimensões além das três espaciais e uma temporal, tão minúsculas que sejam impossíveis de detectar. Não obstante, se essa teoria estiver correta, então o Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos, mas mais estranho do que podemos imaginar.


A Teoria das Cordas inclui ingredientes que combinam com descobertas experimentais recentes, como a ideia de que cada partícula tem um “parceiro” supersimétrico. No entanto, a despeito de sua beleza matemática, ela peca pela falta de evidências experimentais à luz da tecnologia atual: além de não termos como medir as dimensões extras, as energias necessárias para testar o modelo em questão estão muito além do alcance de qualquer acelerador de partículas existente ou previsto para os próximos anos.


A evolução dessa teoria abriu espaço para a Teoria M, e conceitos dela derivados vêm influenciando outras áreas da física teórica, como os estudos sobre buracos negros, a holografia e até as redes quânticas. Mesmo sem provas experimentais diretas, as cordas continuam sendo uma das possibilidades mais atraentes da física teórica. Se será testável um dia é uma questão que segue em aberto. Mas experimentos em gravidade quântica, avanços na detecção de partículas e até mesmo observações astronômicas de alta precisão podem fornecer pistas indiretas para confirmar ou refutar aspectos da teoria.


Ao fim e ao cabo, a física é como um farol no mar escuro da ignorância; a Teoria das Cordas pode não ser a luz final, mas ilumina muitos caminhos possíveis.

Continua…

segunda-feira, 13 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO

O TEMPO É O FOGO QUE NOS CONSOME.

A despeito do avanço substantivo da ciência desde a invenção da roda, ainda não sabemos se o tempo é uma realidade física ou apenas uma convenção para organizar o caos, nem se ele flui através de nós ou somos nós que o atravessamos.

Para o cosmólogo Carlo Rovelli, o tempo não é uma linha reta pela qual os acontecimentos deslizam do passado ao futuro, mas uma variável emergente, resultante do aumento da entropia do cosmos ao longo dos últimos 13,8 bilhões de anos. Já o matemático e metafísico J. M. E. McTaggart chegou à mesma conclusão por meio da lógica pura, demonstrando a inconsistência da ideia de tempo com um simples exercício de pensamento.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A nova rodada do Datafolha em São Paulo intensificou a luz amarela que pisca no painel de controle do comitê de campanha de Lula ao reforçar a hipótese de Tarcísio de Freitas prevalecer sobre Fernando Haddad no primeiro turno — algo que, se confirmado, deixaria o molusco sem um palanque na segunda rodada no maior colégio eleitoral do país.

Tarcísio aparece no com 46% das intenções de voto, 16 pontos à frente de Haddad. Na contagem oficial, a Justiça Eleitoral leva em conta apenas os votos válidos, e aí a porca torce o rabo para o petismo. Numa projeção que desconsidera os eleitores que sinalizaram ao Datafolha a intenção de votar em branco ou anular o voto, Tarcísio prevaleceria hoje sobre Haddad por 52% a 34%. Nessa hipótese o governador seria reeleito no primeiro round, pois somaria mais do que o mínimo necessário: 50% dos votos válidos mais um.

Na sucessão de 2018, quando Lula estava preso, o PT foi representado na corrida presidencial por Haddad. Bolsonaro chegou ao Planalto porque obteve no Sudeste 5,1 milhões de votos a mais do que o rival petista. Com isso, conseguiu anular a vantagem que o PT tradicionalmente obtém na região Nordeste.

Dos 23 municípios do Sudeste com mais de 500 mil habitantes em que Bolsonaro derrotou Haddad, dez ficavam em São Paulo. Em 2022, Haddad mediu forças com Tarcísio na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Perdeu no segundo turno. Mas seu desempenho foi crucial para que Lula reduzisse a desvantagem no Sudeste. Lula voltou a perder para Bolsonaro na região. Mas reduziu a desvantagem para 784 mil votos. O que foi fundamental para a vitória nacional pela pequena margem de 1,8 ponto percentual.

Confirmando-se a hipótese da ausência de um segundo turno em São Paulo, o comitê do xamã petista ganha desafios novos, entre os quais o aperfeiçoamento da linguagem digital. A campanha no estado escorregaria naturalmente das ruas para as redes sociais — um ambiente no qual a direita costuma levar vantagem sobre a esquerda.

Essas premissas podem soar contraditórias, mas a contradição se desfaz quando consideramos, por exemplo, que a Grande Pirâmide de Gizé foi erguida no presente do faraó Queóps — o que, para nós, equivale a 4,5 mil anos atrás. Em outras palavras, se a realidade depende do ponto de vista do observador, o presente não é uma data fixa no calendário. Assim, um olhar verdadeiramente objetivo não pode se apoiar em categorias como presente, passado ou futuro — da mesma forma que “eu”, “aqui” ou “lá” só têm sentido para quem fala, mas não existem de forma absoluta.


Se o tempo, a exemplo do espaço — que compreende apenas relações entre lugares —, comporta somente relações entre acontecimentos mensuráveis, uma descrição objetiva do mundo não comporta presente, passado e futuro. E se presente, passado e futuro não existem, então o tempo também não existe — ou talvez exista, mas não do jeito que nós imaginamos.


Na antiguidade, o tempo era visto ora como um deus implacável, ora como um fluxo sereno, ora como uma ilusão. Na mitologia grega, Cronos usou sua foice para castrar seu pai, Urano, que aprisionava os filhos por receio de ser destronado… e passou a devorar os seus.


Músicas como Dust in the Wind traduzem a inevitável transitoriedade da vida, enquanto o cinema faz do tempo um personagem central, tanto nas narrativas fragmentadas de Memento quanto nos paradoxos temporais de Interestelar, que transformam em drama humano a dilatação do tempo prevista pela Teoria da Relatividade de Einstein., segundo a qual o espaço não é uma caixa rígida e inerte, mas algo como um imenso molusco que se comprime e se retorce na presença de massa e energia.


Já a mecânica quântica revelou que tudo ao nosso redor é formado por pequenos pacotinhos — como os fótons que formam a luz. O problema é que as duas teorias não se falam: uma descreve o espaço como contínuo e suave; a outra sugere que tudo o mais é granular e discreto. Conciliá-las é uma das maiores questões em aberto da física. 


Observação: A relatividade geral e a mecânica quântica se expressam em idiomas diferentes, mas ambas parecem dizer a verdade. Uma metáfora usada por Rovelli compara a natureza a um velho rabino que, consultado por dois homens para resolver uma disputa, deu razão a ambos, e quando sua mulher ponderou que eles não poderiam ter razão ao mesmo tempo, disse que ela também estava certa.


A gravidade quântica em loop visa compatibilizar a relatividade geral e a mecânica quântica. Nesse contexto, a hipótese de o espaço ser um recipiente amorfo desaparece da física com a gravidade quântica, e as coisas (quanta) não habitam o espaço, mas os arredores umas das outras. Se o espaço não for um tecido contínuo que tem como limite o limite dos pacotinhos que o formam, então o tempo não é uma linha reta pela qual as coisas fluem, nem tampouco uma sucessão de acontecimentos formados por passado, presente e futuro.


Devido às dilatações do tempo e da gravidade, o relógio anda mais devagar para quem se move em altas velocidades ou habita regiões onde a atração gravitacional é mais intensa. Um minuto numa espaçonave viajando a uma velocidade próxima à da luz equivale a milhares de anos terrestres, e um minuto no topo do Monte Everest corresponde a 60,000000000058 segundos no nível do mar — uma diferença de míseros 58 nanossegundos, mas mensurável com relógios atômicos de alta precisão.


Observação: Um relógio sobre um móvel registra que o tempo passa mais depressa quando comparado com outro que está no chão. Pelo mesmo motivo, o tempo passa mais depressa no cume do Everest do que na praia. Quanto mais próximo do centro da Terra, mais intensa é a gravidade e, consequentemente, mais devagar o tempo passa, como foi comprovado experimentalmente por relógios atômicos altamente sofisticados.


Para entender a teoria da gravidade quântica é preciso abandonar a ideia de que um gigantesco relógio cósmico marca o tempo do Universo. Um ano é apenas o tempo que a Terra leva para dar uma volta completa em torno do Sol, mas nosso conceito de “ano” só faz sentido em nosso planeta — para um hipotético habitante de Saturno, um ano corresponderia a 29,5 anos terrestres.


Nosso conceito de tempo pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Em última análise, as coisas mudam apenas umas em relação às outras; no nível fundamental, o tempo não existe. Na filosofia, Santo Agostinho sintetizou sua angústia na frase: “Se ninguém me pergunta, eu sei o que é; mas se me perguntam, já não sei responder”. Para ele, presente e futuro só existiam dentro da consciência, como memória, atenção e expectativa. Séculos depois, Henri Bergson distinguiu entre o tempo mensurável da ciência e a duração subjetiva da vida, fluida e elástica. Mas é na ciência moderna que o tempo se torna questão de medição e de leis. 


Newton falava de um “tempo absoluto”, invisível mas necessário para ordenar os movimentos do mundo. Essa noção foi revolucionada por Einstein, que demonstrou com suas equações relativísticas que não somos viajantes imóveis em um rio inexorável, e sim habitantes de um tecido cósmico onde espaço e tempo formam uma única realidade. A partir daí, tornou-se possível compreender que o tempo não é igual para todos.


Nossos antepassados começaram a medir o tempo quando notaram que as fases da Lua e a mudança das estações influenciavam o comportamento dos animais — uma questão vital para quem vivia da caça e da pesca. Na cosmologia, o tempo como o conhecemos nasceu com o Big Bang, e especular sobre o que existia antes dele faz tanto sentido quanto perguntar o que existe ao norte do Polo Norte. 

 

De acordo com a causalidade (não confundir com casualidade), o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o que acontece hoje influencia o que acontecerá amanhã. Como esse princípio dá ao Universo uma direção única, a possibilidade de voltar no tempo põe a ciência em xeque. Mas algumas interpretações da física — como a da gravidade quântica — atestam que o tempo se resume a uma dimensão secundária que surge da interação entre eventos e partículas, sem existir como entidade independente.


Por outro lado, se causa e efeito estão relacionados pela ordem dos eventos, e não pela passagem do tempo em si, então o tempo é ilusório e a causalidade pode se manter através dessas relações ordenadas. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.