Vimos que talvez não seja o tempo que passa por nós, mas nós que passamos por ele como grãos de areia entre as câmaras de uma ampulheta, e que a forma como o sentimos pode ser uma construção da nossa mente.
Isso fica ainda mais complicado quando deixamos a psicologia e voltamos para o campo da física, já que, em algumas teorias modernas, como a da Gravitação Quântica em Loop, o tempo simplesmente não aparece nas equações fundamentais.
Políticos, quando hesitam em embarcar numa canoa ou ameaçam desembarcar dela, fazem-no porque vislumbram no horizonte a possibilidade de naufrágio.
Projetos com presumida taxa alta de sucesso atraem adesões por gravidade. Foi assim que a direita aderiu pragmaticamente aos governos do PT, até abandonar o partido no governo Dilma Rousseff 2, e foi assim também que Jair Bolsonaro conseguiu transformar sua inicialmente desacreditada candidatura à Presidência num êxito eleitoral que deu nome a um movimento.
O chamado bolsonarismo, contudo, dá sinais de fragilidade na ausência do chefe. Ao contrário do petismo, que se manteve vivo mesmo com a prisão de Luiz Inácio da Silva, em 2018, e na ausência de postulantes a substitutos a ponto de ir pela quinta vez ao Palácio do Planalto em 2022, a corrente se dispersa sob a administração dos herdeiros.
O atrito com Michelle é só o gesto mais atrativo, do ponto de vista da intriga midiática. Outros menos chamativos têm significado político que indica franca indisposição da direita — seja ela extrema ou moderada — com a candidatura de Flávio Bolsonaro.
Os cientistas apreciam teorias elegantes, simples e funcionais, e talvez por isso essa aparente incompatibilidade entre os dois maiores pilares da física os estimule a buscar um terceiro, que escore ambos os campos de estudo. E é aí que surge a Teoria das Cordas, segundo a qual o mundo quântico é formado por minúsculos filamentos de energia — cordas unidimensionais que, vibrando em diferentes frequências, correspondem a diferentes partículas, assim como as cordas de um violão produzem diferentes notas musicais.
Essa teoria se apresenta como a candidata mais promissora para o papel de conciliadora, pois visa conectar todos os fenômenos naturais sob uma mesma descrição com uma elegância matemática extraordinária. É fato que os detratores dessa teoria torcem o nariz para a ideia de um mundo infinitamente pequeno que comporte as tais cordas. Aliás, esse antagonismo rendeu até briga no seriado The Big Bang Theory —, e que a gravidade quântica em loop dissolve essa tensão, já que não pretende ser uma Teoria de Tudo, e sim entender o Big Bang e o interior dos buracos negros — o que, convenhamos, não é pouco.
Tanto a Teoria das Cordas quanto a Teoria da Gravidade Quântica em Loop são apenas sugestões de visão de mundo. Além de não existir uma tecnologia que permita um tira-teima, a tensão entre os dois tipos de física não existe na Gravidade Quântica em Loop, que combina Relatividade Geral e Mecânica Quântica sem utilizar qualquer outra hipótese além dessas duas teorias devidamente reescritas para se tornarem compatíveis.
A Relatividade Geral sustenta que o espaço não é uma caixa rígida e inerte, como um recipiente em que jogamos as coisas, e sim um campo dinâmico e maleável — um imenso molusco em que estamos imersos, capaz de se comprimir e se retorcer na presença de massa e energia, e através do qual se propagam a luz e as ondas de rádio que chegam aos nossos olhos e ouvidos. Já a mecânica quântica define o universo como uma estrutura granular formada por pequenos pacotinhos (quanta), como os fótons que compõem a luz. A diferença é que os fótons vivem no espaço, enquanto os tais pacotinhos são eles próprios o espaço.
De acordo com o físico italiano o Carlo Rovelli, o espaço como recipiente amorfo das coisas desaparece da física com a gravidade quântica; as coisas (quanta) não habitam o espaço, e sim uma os arredores da outra — o espaço é o tecido de suas relações de vizinhança. Daí se depreende que, numa escala muito pequena, o espaço não é algo contínuo, mas tem como limite o limite dos pacotinhos que o formam.
A física teórica ditou o rumo dos experimentos durante décadas, mas, de um tempo a esta parte, ficou mais difícil apresentar uma nova hipótese que explique de maneira convincente questões que seguem em aberto. A própria história da física mostra que muitas teorias perderam força, enquanto outras foram colocadas de lado e retomadas tempos depois. Um bom exemplo é o Modelo de Huygens, segundo o qual a luz era onda, que foi o mais aceito Einstein explicar o efeito fotoelétrico, segundo o qual a luz se comporta tanto como onda quanto como partícula.
Mesmo tendo perdido um pouco de seu encanto, a Teoria das Cordas continua sendo a base da Teoria M, que busca unificar a Relatividade, que descreve o macrocosmo, e a Física Quântica, que remete ao universo microscópico das partículas subatômicas, bem como acomodar todos os fenômenos conhecidos sob o guarda-chuva de uma estrutura matemática elegante e universal. Mais que uma mudança de paradigma, ela é uma expansão ambiciosa do que entendemos por tempo e espaço, e parte de seu fascínio vem da capacidade de explicar a gravidade dentro de um arcabouço quântico (através de uma hipotética partícula chamada "gráviton").
Observação: Para essa teoria funcionar, é preciso que o universo tenha sete ou oito dimensões além das três espaciais e uma temporal, tão minúsculas que sejam impossíveis de detectar. Não obstante, se essa teoria estiver correta, então o Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos, mas mais estranho do que podemos imaginar.
A Teoria das Cordas inclui ingredientes que combinam com descobertas experimentais recentes, como a ideia de que cada partícula tem um “parceiro” supersimétrico. No entanto, a despeito de sua beleza matemática, ela peca pela falta de evidências experimentais à luz da tecnologia atual: além de não termos como medir as dimensões extras, as energias necessárias para testar o modelo em questão estão muito além do alcance de qualquer acelerador de partículas existente ou previsto para os próximos anos.
A evolução dessa teoria abriu espaço para a Teoria M, e conceitos dela derivados vêm influenciando outras áreas da física teórica, como os estudos sobre buracos negros, a holografia e até as redes quânticas. Mesmo sem provas experimentais diretas, as cordas continuam sendo uma das possibilidades mais atraentes da física teórica. Se será testável um dia é uma questão que segue em aberto. Mas experimentos em gravidade quântica, avanços na detecção de partículas e até mesmo observações astronômicas de alta precisão podem fornecer pistas indiretas para confirmar ou refutar aspectos da teoria.
Ao fim e ao cabo, a física é como um farol no mar escuro da ignorância; a Teoria das Cordas pode não ser a luz final, mas ilumina muitos caminhos possíveis.
Continua…
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