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sábado, 5 de setembro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 115ª PARTE

SPACE BENDS, TIME BREAKS (O ESPAÇO SE CURVA, O TEMPO PARA). 


Vimos que nem toda a evolução havida desde a invenção da roda até os tempos atuais permitiu que a ciência explicasse a natureza do tempo, que acomodasse numa única equação matemática a teoria da relatividade e a mecânica quântica, e que viajar para o futuro depende somente de conseguirmos construir espaçonaves capazes de singrar o cosmos em velocidades próximas à da luz, levar os astronautas até as proximidades do horizonte de eventos de um buraco negro, ou então atravessar um buraco de minhoca.


Voltar ao passado, todavia, é mais complicado, pois esbarra numa série de obstáculos impostos pelas leis da física clássica — sem falar que o simples desembarque do viajante numa época pretérita bastaria para alterar os acontecimentos e criar um "novo futuro", como explica o célebre paradoxo do avô. 


A boa notícia é que segundo o físico Lorenzo Gavassino, uma combinação da teoria da relatividade geral com a mecânica quântica e a termodinâmica sugere que é possível viajar para o passado sem criar contradições. Para não estender demais este texto, vou deixar para detalhar o Paradoxo do Avô e a Teoria das Cordas numa próxima postagem, até porque, quando escrevemos sobre esses assuntos, cada pena puxada traz uma galinha inteira.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

André Mendonça levantou o tapete. Mandou ouvir a PGR sobre o mau cheiro. O procurador-geral Paulo Gonet opinou pela anulação da imundície. Apontou "dupla nulidade", sob o pretexto de que a Polícia Federal e a Procuradoria não pediram a vassoura. E o plenário do Supremo não autorizou a faxina nas relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro.
A coisa se encaminha para mais um acobertamento de rotina. Mas a turma do abafa precisará responder a uma pergunta singela: "E a sujeira?". O que fazer com as mensagens endereçadas a Moraes? Com o pedido de proteção? Com os apelos para que intercedesse junto aos chefes da PF, da PGR e do BC? Com a pergunta de Vorcaro a Moraes sobre se deveria sair do país pouco antes de ser preso?
Gonet aparece no relatório que Mendonça encomendou à PF como parte do detrito. Numa mensagem, manda um advogado amigo dizer a Vorcaro que está "com saudade". Confirma presença num evento patrocinado pelo banqueiro mafioso em Londres: "Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan". Pede a inclusão do filho, Pedro Gonet, no convescote.
A liberalidade metodológica, quando é muita, acaba engolindo os donos. O tapete do Supremo ficou pequeno. O resort vendido por Toffoli ao cunhado de Vorcaro já vaza pelas bordas. Com Moraes, o excesso tende a tornar tudo insignificante, exceto a pergunta: "E a sujeira?"

Embora nossa compreensão do tempo se baseie na física newtoniana, a teoria da relatividade desafia o pressuposto intuitivo de que os acontecimentos progridem linearmente do passado para o futuro, sugerindo que o espaço-tempo pode se comportar de formas bizarras, como demonstram os buracos negros (cuja existência já foi comprovada).

Como dito no post anterior, uma curva temporal fechada permitiria a um viajante do tempo seguir caminhos diferentes sem alterar o futuro, já que a criação de uma linha do tempo alternativa a cada decisão tomada tornaria a volta ao passado factível. Por outro lado, essa teoria ainda não foi comprovada experimentalmente, e sem múltiplos universos e LTAs, o efeito borboleta poderia gerar um loop infinito de causas e consequências.

Einstein bem que tentou, mas não conseguiu desenvolver uma equação capaz de descrever a realidade inteira. Outros físicos seguiram seus passos — entre os quais Stephen Hawking —, mas nenhum deles teve melhor sorte, e a busca por uma regra fundamental escondida por trás da diversidade do universo continua. E não faltam teorias que visam elucidar essa questão, sendo a Teoria de Tudo uma das mais promissoras.

Por muito tempo, falar sobre universos paralelos foi tabu entre a comunidade científica, mas não há nada como o tempo para passar, e teorias que se baseiam na hipotética existência de multiversos têm seus defensores e seus detratores. Mas os universos paralelos não são teorias em si, e sim previsões de determinadas teorias que sustentam a existência de fenômenos impossíveis de ser observados — como os buracos de minhoca, que continuam no campo das conjecturas embora "façam parte do pacote" da relatividade geral de Einstein, e o mesmo acontece com os universos paralelos em teorias como a inflação infinita, e talvez até na mecânica quântica.

A existência de universos paralelos foi defendida por cientistas do quilate de Stephen Hawking e Neil deGrasse Tyson, mas o problema é que o tema suscita muita confusão, sobretudo porque não se sabe de qual tipo de universo paralelo se está falando. Para facilitar, o livro Our Mathematical Universe, do cosmólogo Max Tegmark, dividiu os universos paralelos em quatro níveis diferentes. Vamos a eles:

O Multiverso de Nível 1, também conhecido como Quilted, é todo o cosmos que está tão longe que sua luz ainda não teve tempo de chegar até nós, embora o Big Bang tenha ocorrido há cerca de 13,8 bilhões de anos. A propósito, o universo "observável" é uma esfera com raio de 49 bilhões de anos-luz, conhecida como Esfera Hubble, e tudo que fica fora dela pode ser considerado outro universo.

Esse nível fica mais interessante quando paramos para pensar que existem apenas finitas maneiras de rearranjar as partículas do universo observável. Significa dizer que se pudéssemos singrar o cosmos por tempo suficiente, acabaríamos nos deparando com um clone da Terra com cópias idênticas dos terráqueos, da mesma forma que um macaco digitando aleatoriamente em um teclado por um período de tempo infinito acabará escrevendo a obra completa de Shakespeare. Vale destacar que esse nível do universo obedece às leis da física clássica e às constantes cosmológicas conhecidas, de modo que, pelo menos, em teoria, poderemos alcançá-lo quando e se desenvolvermos tecnologia avançada o suficiente para isso.

Para entender o Multiverso de Nível 2 é preciso compreender a Teoria da Inflação Cósmica, segundo a qual existiu um momento de inflação imensa e quase instantânea logo depois do Big Bang. Todavia, diferentemente de uma bolha de sabão, que ocupa espaço em um ambiente externo, o Universo não precisa de um exterior para se expandir. Uma teoria elegante, proposta por Stephen Hawking, é a da fronteira sem fronteira — um modelo de tempo imaginário no qual o cosmos seria como a superfície da Terra: finito, mas sem uma borda nem uma singularidade inicial.

Conforme Einstein estabeleceu em sua teoria da relatividade geral, pressão negativa gera gravidade repulsiva. Assim, uma substância em estado de inflação cósmica produz uma antigravidade que a explode, e a energia que essa antigravidade usa para expandir cria massa suficiente para que ela duplique de tamanho e continue a duplicar de novo e de novo. Ou seja, cria-se um universo inteiro sem tomar lugar de qualquer outra coisa, e assim diversos espaços infinitos poderiam existir dentro de um espaço finito.

Observação: Não se sabe porque as constantes cósmicas do universo têm os valores que têm, mas sabe-se que isso é fundamental para que tudo exista como conhecemos. O físico Alan Lightman explica no livro The Accidental Universe que se a quantidade de energia escura do nosso universo fosse um pouquinho diferente, a vida nunca poderia ter surgido.

Em suma, o Multiverso de Nível 2 é um conjunto de universos tecnicamente incomunicáveis, já que cada um deles é infinito, apesar de ocupar um espaço finito se visto de fora. Mas a aceitação desse nível de multiverso depende da aceitação geral da própria Teoria da Inflação Eterna, que sugere boas soluções para vários outros problemas misteriosos. Aliás, trata-se da melhor hipótese que temos para resolver um dos problemas mais misteriosos do nosso próprio Universo: o da “afinação” (ou fine-tuning). 

Diferente dos outros dois, o Multiverso de Nível 3 é o "queridinho" das obras de ficção científica e do imaginário popular. Segundo a interpretação de Copenhague, proposta por Niels Bohr e Werner Heisenberg, antes de ser observada, cada partícula se comporta também como onda e está em um estado de superposição quântica — ou seja, em dois ou mais locais ao mesmo tempo. Mas quando observamos essa partícula/onda, ela "escolhe" um local único para se mostrar como partícula. Mas uma teoria alternativa que está ganhando cada vez mais atenção é a chamada Interpretação dos Muitos Mundos, proposta por Hugh Everett em 1957.

Segundo essa teoria, a onda jamais entra em colapso, de modo que todas as possibilidades de localização seriam igualmente verdadeiras, criando uma infinidade de bifurcações quânticas, cada uma dando origem a um universo paralelo, onde tudo que pode acontecer acontece em algum lugar. Ou seja – existem milhões de versões de cada um de nós vivendo em universos ligeiramente ou totalmente diferentes, e cada vez que tomamos uma decisão, um clone de nós toma a decisão oposta em algum universo paralelo.

No famoso experimento do gato de Schrödinger, o gato está em um estado de superposição quântica — vivo e morto ao mesmo tempo —, e seu futuro só é decidido no momento em que a caixa é aberta (obrigando a partícula a decidir se decai ou não). Na Interpretação de Everett, no entanto, o universo se separa em dois, e o gato está vivo num deles e morto no outro, sem jamais interagirem um com o outro.

A ideia de que milhões de universos paralelos existem parece absurda, mas não é mais incoerente do que a possibilidade de uma partícula se comportar como onda, estar em vários locais ao mesmo tempo e mudar de estado de modo totalmente randômico quando é observada (como disse Richard Feynman, "ninguém realmente compreende a mecânica quântica").

Os cientistas avessos à Interpretação dos Muitos Mundos se escoram na Navalha de Occam — a explicação mais simples tende a ser a verdadeira — já que seria complicado adicionar infinitos universos paralelos para justificar a existência do nosso. Mas trata-se apenas de uma maneira diferente de olhar para os mesmos dados e os mesmos resultados, já que as equações que admitem a existência desses universos já existem.

Por último, mas não menos importante, resta dizer que o Multiverso de Nível 4 engloba todos os multiversos dos níveis 1, 2 e 3 numa única estrutura matemática infinitamente complexa, e que aceitar essas hipóteses sobre a maneira como a realidade se comporta vai de encontro (e não ao encontro) a nosso instinto fundamental de acreditar que somos o centro do universo.

Esse tipo de egocentrismo natural pode até ser socialmente repulsivo, mas é a nossa configuração padrão, impressa nos nossos circuitos desde o nascimento. Mesmo porque nunca tivemos uma experiência da qual não fomos o centro absoluto. Mas talvez o multiverso incomode porque reduz a existência de cada um à sua insignificância, e o ser humano tem dificuldade em aceitar a ideia de que ele não é essencialmente especial.

Continua…

sábado, 13 de dezembro de 2025

DE VOLTA DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 62ª PARTE

ORA (DIREIS) OUVIR ESTRELAS! CERTO PERDESTE O SENSO!

Às vezes, basta uma imagem antiga para acender o fósforo da dúvida e alimentar a chama da imaginação. O que você veria se pudesse espiar o passado por uma fresta no tempo? Um mundo estranho, silencioso e preto-e-branco? Algo que não deveria estar lá — uma figura deslocada, um gesto familiar, um artefato impossível? 


O Hipster do Passado tornou-se um dos memes mais fascinantes sobre viagens no tempo. Tudo começou em 2010, quando o Museu Virtual de Baskerville, na Colúmbia Britânica, disponibilizou online uma coleção de fotografias históricas. Numa delas — uma imagem em preto e branco datada de novembro de 1941 — vê-se um homem usando óculos escuros modernos, camiseta com estampa aparentemente contemporânea e um corte de cabelo no estilo hipster dos anos 2000.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Alexandre de Moraes — o terror dos criminosos travestidos de políticos — decretou pela segunda vez a perda do mandato de Carla Zambelli, anulando a votação em que nossos conspícuos deputados desafiaram o veredicto do STF. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, diz um ditado no qual conviria ao presidente da Camarilha Federal prestar atenção. 

Ante a condenação de uma parlamentar à pena de prisão, Hugo Motta deveria providenciar o ato formal de Zambelli — que está presa na Itália, aguardando a extradição. No caso de Alexandre Ramagem — que chamou Xandão de “rei do Brasil” e “descontrolado” ao comentar a decisão do ministro de anular a votação da Câmara dos Deputados que havia mantido a parlamentar no cargo.

Não tem sido fácil para o presidente da Câmara ser Hugo Motta e manter um mínimo de compostura. Deveria procurar uma gota de amor-próprio no fundo do poço. Se encontrar, talvez apresse também o expurgo de Dudu "Bananinha" Bolsonaro dos quadros da Câmara.


O flagrante contraste com os trajes típicos da década de 1940, usados pelas demais pessoas que aparecem na foto, suscitou hipóteses de que se tratava de um viajante temporal que voltara aos anos 1940 e fora fotografado durante o evento. Mas logo surgiram explicações mais prosaicas: os óculos escuros já existiam na época; a camiseta poderia ser apenas uma peça casual daqueles tempos; o corte de cabelo, embora incomum, não seria impossível — e assim por diante.

 

O próprio museu tentou desmistificar as teorias e contextualizar a fotografia historicamente, mas o mistério do Hipster do Passado permanece, evidenciando tanto a fascinação coletiva com a possibilidade de viajar no tempo quanto a tendência humana de buscar o extraordinário no comum.

 

Outro caso que alimentou teorias conspiratórias sobre viagens temporais é o Mistério do Celular. Em 2010, ao assistir aos extras do DVD de O Circo (1928), de Charlie Chaplin, o cineasta irlandês George Clarke reparou numa mulher caminhando com a mão no ouvido, aparentemente conversando com alguém. "Ela está claramente falando com alguém — não há outra explicação além da viagem no tempo", disse ele num vídeo que logo acumulou milhões de visualizações.

 

A cena realmente é intrigante. A mulher caminha naturalmente, com um objeto junto ao ouvido, fazendo movimentos que parecem familiares a qualquer pessoa do século XXI. Mas será que estamos vendo o que realmente está acontecendo?

 

Dez anos depois do filme de Chaplin, outro "anacronismo temporal" foi capturado num filme promocional da empresa DuPont. A certa altura, uma funcionária aparece caminhando pelo local com algo próximo ao ouvido, aparentemente falando ao telefone — como fazemos hoje com um celular. A qualidade da imagem torna o caso ainda mais desconcertante, e o gesto, ainda mais inequívoco. Mas como seria possível alguém "falar ao telefone" enquanto caminha por uma fábrica em 1938?

 

A ciência sabe muito — mas não sabe tudo. Sabe, por exemplo, que o cérebro é uma máquina de reconhecimento de padrões extremamente sofisticada — e às vezes excessivamente criativa —, mas ainda não consegue explicar satisfatoriamente as EQMs (experiências de quase morte) nem o déjà vu (a estranha sensação de já ter vivenciado uma situação pela qual a pessoa nunca passou). A dúvida gera a incerteza que move o moinho das teorias sobre experiências vividas em outra encarnação, lapsos entre planos de existência, e por aí vai.

 

Talvez a "pareidolia tecnológica" explique esses casos. Esse fenômeno — que já foi considerado sintoma de psicose — nos leva a ver animais em nuvens ou o rosto de Cristo em qualquer coisa: de manchas na parede a torradas e caranguejos. No livro "The Demon-Haunted World", o astrofísico Carl Sagan anotou que a hiperpercepção facial resulta de uma necessidade evolutiva de reconhecer rostos — mas isso é outra conversa. 

 

Nosso cérebro, condicionado por décadas de uso de telefones, tende a interpretar determinados gestos e posições como "falar ao telefone", mas talvez a mulher no filme de Chaplin estivesse usando um aparelho auditivo portátil (essa tecnologia começou a ser desenvolvida nos anos 1920), com dor de dente (o gesto de levar a mão ao ouvido é uma reação comum), ou simplesmente protegendo o ouvido do frio ou do vento. Falar sozinho ou gesticular enquanto se caminha são comportamentos banais desde que o mundo é mundo, e outras possibilidades incluem dispositivos experimentais, equipamentos de trabalho (fones de ouvido ou proteção auricular eram comuns em ambientes industriais) ou algum acessório não relacionado a telefonia. No entanto, como dizia um sargento que conheci nos anos 1970, "explica, mas não justifica."

 

Esses casos se juntam a outros "mistérios" similares, nos quais imagens antigas permitem múltiplas interpretações — levando-nos a projetar nosso mundo tecnológico onde ele não existe, ou a procurar evidências que confirmem teorias extraordinárias. Mas nada disso muda o fato de que as viagens no tempo são uma possibilidade real, embora nossa tecnologia ainda não nos permita colher o fruto mais desejado da árvore da relatividade.

 

Talvez a verdadeira magia não esteja na possibilidade de viajar no tempo, mas na capacidade infinita da mente humana de encontrar mistérios e conexões onde menos se espera. Então, na próxima vez que você vir algo “impossível” em uma foto antiga, lembre-se: às vezes, o maior mistério não está na imagem — mas no espelho.


Continua...

sábado, 23 de novembro de 2024

ELE NÃO SABIA DE NADA

QUANDO A GENTE IMAGINA QUE JÁ VIU O PIOR DAS PESSOAS, APARECE ALGUÉM PARA MOSTRAR QUE O MAL É INFINITO.

 

Sob Bolsonaro, o absurdo era tramado com a naturalidade de um batizado. Adorno tétrico da trama, o assassinato de Lula, Alckmin e Moraes forneceria a apoteose necessária para virar a mesa da democracia em grande estilo. Mas o imprevisto costuma ter voto decisivo na assembleia dos acontecimentos, e as consequências sempre chegam depois.
 
"Quem espera sempre alcança", reza a sabedoria popular. Sempre que se via em apuros, Bolsonaro recorria ao versículo multiuso: "conhecereis a verdade e a verdade vos libertará" (João, 8:32). A Operação Contragolpe proporcionou seu encontro com a verdade, mas, ao invés de libertá-lo, a verdade o empurrará à cadeia. 

Até o momento, quatro militares de alta patente e um policial federal foram presos. Bolsonaro, Braga Netto e Mauro Cid estão entre os 37 indiciados pela "suposta" tentativa de golpe — "suposta" porque, como sabemos, sempre há a possibilidade de o que tem rabo de jacaré, couro de jacaré, boca de jacaré e dentes de jacaré ser, na verdade, um coelhinho branco.
 
Em junho de 2022, numa reunião em que o presidente foi filmado rosnando contra a democracia e o bobo da corte dizendo que era preciso virar a mesa antes das eleições, o general Mário Fernandes, número dois da Secretaria-Geral da Presidência, fez coro com os insurretos: 
"...É muito melhor assumir um pequeno risco de conturbar o país [...], para que aconteça antes, do que assumir um risco muito maior de conturbação no 'day after', né? Quando a fotografia lá for de quem a fraude determinar". 

Segundo a PF, o "day after" do general incluía uma carnificina que só não aconteceu por falta de adesão da tropa.
 
Bolsonaro perdeu a reeleição e colecionou derrotas nos pleitos municipais. A inelegibilidade o excluiu da cédula de 2026, mas a vitória de Trump o animou a conceder entrevistas em série, pregando uma "pacificação" escorada numa anistia inusitada. A cada vez mais provável condenação criminal pende como uma espada de Dâmocles sobre seu plano de controlar a sucessão no campo da direita.
 
Em público, Valdemar Costa Neto — ex-presidiário do Mensalão e indiciado na última terça-feira — insiste na tese abilolada de que Bolsonaro "não tem nada a ver com nada". Nos bastidores, porém, a cúpula do PL já admite que subiu no telhado a pretensão mimetizar Lula em 2018, registrando uma candidatura legalmente inviável.
 
A esta altura, falar em solidariedade afronta o razoável, mesmo nos insanos territórios da extrema-direita, e a construção de uma chapa conservadora, sem o veneno golpista do "mito", já começa a ser articulada. Mesmo porque os parlamentares do Centrão são conhecidos por carregar o caixão, não por pular na cova com o defunto. 
 
Cabe aos representantes da direita construir uma alternativa sensata, e a Tarcísio de Freitas, o primeiro da fila, tirar a mão da alça do caixão, trocando uma reeleição praticamente certa para o governo de São Paulo pela aventura de concorrer disputar o Planalto em 2026. Na seara da esquerda, Lula diz que concorrerá ao quarto mandato "se tiver saúde" — se tivesse juízo, o macróbio indicaria um sucessor para recompor o arco conservador que o reabilitou, não por gostar dele, mas para se livrar do refugo da escória da humanidade.
 
Indiciado, Bolsonaro renovou a pose de perseguido. Mas demonizar Moraes perdeu o nexo quando quando o delator Mauro Cid, os ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica (que não aderiram ao golpe) os investigadores da PF, as togas que avalizam os despachos de Moraes e o procurador-geral Paulo Gonet se juntaram à hipotética confraria de perseguidores.
 
Em 1986, ainda capitão da ativa, Bolsonaro amargou 15 dias de prisão disciplinar por publicar na revista Veja o artigo "O salário está baixo". No ano seguinte, a mesma revista revelou que ele e outro capitão planejavam explodir bombas nos quartéis se o aumento do soldo ficasse abaixo de 60%. O então ministro do Exército pediu a expulsão dos insurretos, mas o Superior Tribunal Militar acatou a tese da defesa.
 
Bolsonaro trocou a caserna por um mandato de vereador e outros 7 de deputado federal. Em 1991, defendeu o retorno do regime de exceção e o fechamento temporário do Congresso. Em 1994, disse que preferia "sobreviver no regime militar a morrer nesta democracia". Em 1999, afirmou que "a situação do país seria melhor se a ditadura tivesse matado mais gente" (incluindo o então presidente FHC). Em 2016, 
ao votar favor do impeachment de Dilma, homenageou o torturador da ditadura Carlos Alberto Brilhante Ustra. 

Sem outra fonte de renda além do salário de parlamentar, a "Famiglia Bolsonaro" comprou mais de 100 imóveis, 51 dos quais foram pagos total ou parcialmente em espécie. Em "O Negócio do Jair", a jornalista Juliana Dal Piva revela o método usado pelo clã para acumular milhões de reais e construir um projeto político iniciado com o emprego de parentes e coordenado pela segunda esposa. O livro detalha ainda as relações da família com o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, que virou chefe da milícia de Rio das Pedras e do Escritório do Crime, e acabou executado em 2020 por policiais militares baianos e fluminenses.  
 
Em meio à pandemia, Bolsonaro desdenhou do vírus, disse que a reação da população e da imprensa era "histeria", chamou a Covid de "gripezinha de nada" e demitiu Mandetta da Saúde porque o médico "estava se achando estrela", nomeou um sucessor que não durou um mês no cargo, e colocou em seu lugar o general Eduardo 
"um manda e o outro obedece" Pazuello. 
 
O relatório da CPI da Covid apontou uma dúzia de crimes, mas o genocida saiu ileso graças à subserviência do antiprocurador Augusto Aras, e escapou de 140 pedidos de impeachment porque Rodrigo Maia "viu erros, mas não crimes de responsabilidade", e Arthur Lira avaliou que "todos os pedidos que analisou eram inúteis". 

Ao longo de toda a gestão, o pior mandatário desde Tomé de Souza não só incentivou como participou de atos antidemocráticos, chamou Moraes de canalha e Barroso de filho da puta, transformou o 7 de Setembro em apologia ao golpe de Estado, e por aí afora. Mas o dito ficou pelo não dito. 
 
Derrotado nas urnas, o capetão-golpista se encastelou no Alvorada até a antevéspera da posse de Lula. Mestre em tirar a castanha com a mão do gato, escafedeu-se para a Flórida (EUA) e se homiziou na cueca do Pateta por 89 dias, retornando somente quando poeira dos atos terroristas do 8 de janeiro já havia baixado. 

Observação: Se Bolsonaro não conspirasse 24/7 contra a democracia, não se associasse à a Covid, não rosnasse para o Legislativo e o Judiciário, não se amancebasse com Queiroz, Zambelli, Collor, milicianos e que tais, talvez o ex-tudo (ex-retirante, ex-metalúrgico, ex-sindicalista, ex-presidiário, ex-condenado etc.) ainda estivesse gozando férias compulsórias na carceragem da PF em Curitiba. Mas de nada adianta chorar sobre o leite derramado.
 
Desde a última terça-feira que só se fala na Operação Contragolpe e seus impactos na situação do ex-presidente — uma novela que começou há anos e deve entrar pelo ano que vem, já que novidades surgem dia sim, outro também, e a última peça nunca fica pronta. 

Moraes deve enviar a PGR, nesta segunda-feira, o relatório de 884 páginas que recebeu da PF, mas Gonet dificilmente denunciará os indiciados até o final do ano, e o tempo necessário para alinhar todas as investigações conduzidas pode empurrar a denúncia para depois do recesso judiciário. O recebimento da denúncia pelo STF abrirá prazo para a instrução da ação penal. 

Espera-se que a sentença saia ainda em 2025, para não contaminar as eleições de 2026. Com as penas impostas aos envolvidos no 8 de janeiro variando entre 16 e 18 anos, é provável que, em caso de condenação, o Messias que não miracula permaneça inelegível por mais tempo que os anos que lhe restam de vida. 

Bolsonaro disse a Veja que "jamais compactuaria com qualquer plano para dar um golpe". Lavou as mãos sobre o plano que previa o assassinato de Lula, Alckmin e Moraes. Se alguém cometeu algum crime, ele não sabia. Collor também não sabia do esquema PC, e Lula, do Mensalão. O "eu não sabia" é um velho conhecido dos brasileiros, que reaparece sempre que algum personagem capaz de tudo pede à nação que o veja como como um incapaz de todo.
 
O Brasil terá que aprender a conviver com um Bolsonaro inelegível, indiciado e indefensável. Não será fácil, e ficará mais difícil à medida que o indiciamento evoluir para denúncia, ação penal e provável condenação. Essa convivência pode ser longa, já que a Justiça, conhecida por tardar mas não falhar, move-se em solo brasileiro a velocidade de um cágado perneta. 

O fato de a deusa Themis ter sido retratada sentada diante do STF indica que quem recorre àquela corte precisa ter paciência de Jó: dependendo de quem julga e de quem é julgado, a sentença pode demorar 20 horas ou 20 anos (haja vista as condenações de Maluf, de Collor e do próprio Lula).

Triste Brasil.

sábado, 19 de agosto de 2023

CONVÉM NÃO DISCUTIR COM ESPECIALISTA


Preso desde 3 de maio, Mauro Cid já contabiliza três advogados. O primeiro rodou porque soava mais interessado em salvar o pescoço de Bolsonaro do que em afastar seu cliente da forca, e o segundo, especialista em delações, abdicou da defesa sem converter o vassalo do suserano em colaborador. 

O causídico recém-contratado tenta vestir farda nos crimes do fardado. Tão logo assumiu, afirmou que, por sua formação militar, seu cliente "sempre prezou pelo respeito a chefia, pela obediência hierárquica, e é exatamente essa obediência a um superior militar que há de afastar a culpabilidade dele",  parecendo buscar inspiração no ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, que cunhou o lema: "Um manda e outro obedece". 

Atualização: O advogado Cezar Roberto Bitencourt deu declarações confusas e divergentes sobre a suposta decisão de Cidinho no caso da venda de joias. Na quarta, disse que não sabia detalhes das acusações porque havia recém-assumido a defesa e ainda não tinha encontrado seu cliente, mas adiantou  que "assessor cumpre ordens do chefe". Depois do primeiro encontro com Cid, o criminalista disse que já havia concedido muitas entrevistas e que a atitude poderia "irritar o outro lado também". Questionado sobre quem seria o "outro lado", ele respondeu: "O chefe dele, é claro". Disse ainda que o objetivo da PF era chegar até Bolsonaro, e que a chance de seu cliente partir para uma delação premiada era "nula". Horas depois, em mais uma nova versão, o doutor afirmou que Cid decidira confessar a atuação na venda das joias e declarar que havia cometido o crime por ordem de Bolsonaro. "Ele vai confessar o que ele praticou, comprou e vendeu, o atestado das vacinas. Ele vai confessar", completou. Ontem, outra reviravolta: "Não, não tem nada a ver com joias! Isso foi erro da Vejs (sic) não se falou em joias!", escreveu Bitencourt na mensagem. Mais tarde, ele disse que o caso não se trata de joias, mas de somente uma: um relógio Rolex, e que não se trataria de uma confissão, mas "esclarecimentos" a serem feitos aos investigadores, e que Cid não ia culpar o ex-presidente: "Tem muitas coisas que não tem nada a ver. Na realidade houve um equívoco, houve má-fé. Em primeiro lugar [é um equívoco] que o Cid vai dedurar o Bolsonaro".

Mesmo sem delatar, Cidinho pode mijar no chope do capetão, e sua defesa se arrisca a tropeçar numa obviedade: o militar não responde a inquéritos militares, mas por crimes ordinários em extraordinários processos que correm no STF. O general Santos Cruz, expurgado por Bolsonaro de um ministério palaciano por se recusar a ser um Pazuello, já ensinou que "farda não é pano de chão; hierarquia e disciplina são princípios nobres, não significam subserviência e nem podem ser resumidos a uma coisa 'simples assim, como um manda e o outro obedece', como mandar varrer a porta do quartel."
 
Até a semana passada, Bolsonaro tinha: 1) o general Lourena Cid para segurar a língua do filho; 2) a cumplicidade muda de Frederick Wassef; 3) as orações de Michelle e 4) a solidariedade dos seus milicianos políticos. Hoje, ele precisa se certificar da fidelidade do mensaleiro ex-presidiário Valdemar Costa Neto, que pode ser a última coisa que lhe resta. 
 
Tratado pela PF como membro da "organização criminosa" das joias, o Cidão parece mais preocupado com sua autodefesa do que com a autocombustão do filho — cujo novo advogado realça uma obviedade: a quadrilha não é acéfala, e Cidinho, militar disciplinado, apenas interpretou ao pé da letra o nome do seu cargo. Nessa versão, quem deve pagar pelos crimes é o chefe, não o ajudante cumpridor de ordens.
 
O dublê de advogado e mafioso de comédia
 apelidado de "Wacéfalo" — por ter transformado a operação de recompra de um Rolex numa lambança com aparência de confissão — adicionou um drama novo à rotina do defensor do ex-presidente. Cada vez que o perdigueiro jurídico da família da rachadinha rosna, o causídico precisa explicar por que seu cliente é amigo dele. 

Fred perdeu as prerrogativas de associado da OAB. Autoconvertido de advogado em delinquente, sofre batida policial em público e tem 4 celulares apreendidos pela PF numa churrascaria. Michelle já não tem tanto tempo livre para as preces: com as contas pessoais em desalinho, prestes a ser intimada a prestar depoimento, precisa construir uma defesa. Madame ainda acredita que Deus existe, mas começa a suspeitar que Ele não é full-time. 

O lixo que vaza pelas bordas do tapete que Cid filho hesita em levantar expõe varrições que estão mais próximas do Código Penal do que da porta do quartel. É improvável que a nova pregação da defesa alivie suas culpas, mas a lealdade, já bem extenuada, parece chegar ao limite. 

Bolsonaro precisa examinar periodicamente a rigidez do dedo indicador da esposa, pois delações domésticas não são incomuns na política brasileira. No final de 2021, ele disse que havia três alternativas para seu futuro: a prisão, a morte ou a vitória. Como não obteve a vitória e nem morreu, só lhe resta a prisão. Em privado, até Costa Neto já o vê atrás das grades. 

Convém não discutir com um especialista.

Com Josias de Souza

terça-feira, 18 de julho de 2023

VADE RETRO!


Empunhando a bandeira do "Mais Brasil, menos Brasília", Bolsonaro prometeu uma nova economia de mercado, com amplo programa de privatizações e pagamento da dívida pública, mas encerrou sua abjeta passagem pelo Planalto com 0% de crescimento do PIB. 


Logo no início do governo, o "mito" articulou a deposição do presidente da Venezuela através do manto da ajuda humanitária. Passados quatro anos e meio, Maduro continua governando o país vizinho (para gáudio de Lula, que o considera um monumento à Democracia), ao passo que o capitão está inelegível até 2030. Seu ministro da Justiça, Anderson Torres, e seu ajudante de ordens, Mauro Cid, seguem detidos.

 

À CPMI dos atos golpistas no último dia 11, Cid disse que é alvo de ao menos oito investigações criminais e que foi orientado por seus advogados a se manter em silêncio. A Advocacia do Senado acionou a 10ª Vara da Justiça Federal de Brasília contra o não-depoente por abuso do direito ao silêncio e "calar a verdade como testemunha". Sua defesa alegou que ele ficou em silêncio por ter sido constrangido pelos parlamentares, e  pediu que ação seja arquivada.

 

Desde que foi preso, em 3 de maio, o ex-ajudante do ex-mandatário recebeu 73 pessoas — entre as quais 41 militares. Outros visitantes ilustres foram Fábio Wajngarten, que tem interesse direto em seu depoimento à CPMI, e o coronel Jean Lawand Júnior, que também é investigado. 


Após tomar conhecimento do "número elevadíssimo de visitas", o ministro Alexandre de Moraes as restringiu à mulher, aos filhos e as advogados de Cid. A "farra das visitas" também é alvo de uma investigação da comissão parlamentar, que quer saber se Lawand visitou o preso antes ou depois de trocar mensagens com ele sobre um golpe de Estado e cobrar dele uma ação de Bolsonaro para impedir a posse de Lula.

 

Mesmo já declarado inelegível, Bolsonaro enfrenta outras 15 Ações de Investigação Judicial Eleitoral no TSE. A corte retomou no último dia 14 o andamento de duas delas — numa delas, o ministro-corregedor Benedito Gonçalves rejeitou o pedido de produção de provas feito pela defesa e determinou que o MPE se manifeste sobre a acusação por uso indevido de estrutura pública em ato de campanha; na outra, abriu novo prazo para que o investigado e outros que respondem solidariamente a ele por uso indevido dos meios de comunicação social e abuso de poder político se pronunciem. A depender do resultado dessas ações, a inelegibilidade do capetão pode se estender até 2031.

 

Bolsonaro sempre desdenhou de pandemia, mesmo depois das mais de 700 mil mortes ocorridas no Brasil — 10,5% das óbitos no mundo para uma população que corresponde a 2,7% da mundial. Seu ministro da saúde mais longevo — que não era médico, mas general da ativa e fiel seguidor do "um manda e o outro obedece" — defendeu enfaticamente o tratamento preventivo com cloroquina e outros fármacos comprovadamente ineficazes contra o SARS-CoV-2.

 

Nos discursos proferidos em Brasília e na capital paulista no 7 de Setembro de 2021, Bolsonaro atacou as instituições (notadamente o STF, com destaque para o ministro Alexandre de Moraes, a quem chamou publicamente de "canalha"). Em julho de 2022, convocou uma reunião com embaixadores para denegrir nosso sistema eleitoral. Nas comemorações de 7 de Setembro, voltou a defender o fechamento STF. Depois de sua derrota nas urnas, ocorreram várias tentativas de golpe de Estado — com direito a acampamentos defronte a quartéis e depredação das sedes do Poderes —, que só não foram adiante por falta de adesão da alta cúpula das FFAA. 

 

Somam-se a esses descalabros o patético autoexílio na Flórida (EUA), o escândalo das joias sauditas e a falsificação de cartões de vacina. Em março, Bolsonaro retornou ao Brasil para engordar as aposentadorias que recebe como militar da reserva e ex-deputado com o salário de R$ 41,6 mil, pagos com dinheiro do contribuinte pelo partido do ex-presidiário Valdemar Costa Neto, do qual o imbrochável ora inelegível figura como "presidente de honra". Mas o subprocurador-geral Lucas Furtado encaminhou uma representação ao TCU pedindo a suspensão cautelar desse pagamento, uma vez que usar recursos públicos para remunerar pessoa condenada pelo TSE à inelegibilidade configura "violação direta e mortal do princípio da moralidade administrativa".

 

Bolsonaro chegou ao Planalto travestido de representante da antipolítica, embora morasse no déficit público desde 1973. quando virou o soldado que o general Ernesto Geisel classificou posteriormente de mau militar. Enxotado da caserna, elegeu-se vereador, deputado federal e presidente da República. Ao longo dessa trajetória, ergueu o conglomerado da rachadinha e amealhou invejável patrimônio. 

 

Não há como negar a existência de um movimento conservador brasileiro, e que Bolsonaro, como líder radical, influenciará alguns eleitorados em cidades do país em 2024. Mas tudo indica que ele dificilmente voltará ao cenário das eleições presidenciais. 


Vade retro, Satanás!