quinta-feira, 7 de junho de 2018

AINDA SOBRE A GREVE DOS CAMINHONEIROS



Os quase 10 dias de paralisação que trouxeram de volta o que houve de pior na década de 80 ― quando cenas de desabastecimento nos supermercados, descontrole de preços e filas quilométricas em postos de combustíveis eram comuns ― confirmaram a fragilidade de um governo impopular e inepto e serviram de prévia para o que está por vir durante a campanha eleitoral, dado o oportunismo da maioria dos postulantes à presidência da República, que mudam de opinião ao sabor das conveniências.

Desde o início da paralisação já se ouvia ― tanto na imprensa quanto nas redes sociais ― que a revolta da boleia tinha traços do velho corporativismo brasileiro e adotava uma postura fortemente autoritária, incompatível com a convivência democrática. O primeiro a ser atropelado foi o governo federal, que subestimou todos os alertas e se revelou incapaz de lidar com a chantagem dos caminhoneiros. Quando os efeitos da greve ficaram claros, só lhe restou atender a todos os pleitos da categoria. E enquanto o bufão da corte, Carlos Marun, fazia pouco da gravidade da situação a cada aparição pública, Temer entregava tudo e mais um pouco, e a sociedade comemorava seu próprio descaminho: subsídio ao diesel, reserva de mercado e redução de pedágios por decreto.

Se o presidente encontrou seu desmoronamento moral nas denúncias da JBS e seu fim político no abandono da agenda de reformas, sua administração chegou perto da derrocada operacional durante essa paralisação, cujo prejuízo bilionário será repassados aos consumidores. E o Congresso não ficou atrás em matéria de irresponsabilidade. O primeiro a aderir ao oba-oba populista, certamente pensando em capitalizar politicamente sobre o sofrimento da nação, foi o presidente da Câmara, que logo anunciou em vídeo cheio de papagaios de pirata ― incluindo o presidente do Senado ― a proposta de zerar a Cide. Depois, liderou a votação para zerar o PIS/COFINS com base em cálculos ginasianos, quiçá feitos em papel de pão. 

Ao se dar conta da patuscada, Eunício Oliveira preferiu se resguardar da falta de combustíveis e voar de volta para seu reduto em plena quinta-feira, enquanto deputados e senadores se refestelavam na pantomima democrática, manifestando no plenário e em redes sociais uma compreensão pedestre das contas públicas e do funcionamento da economia, pedindo a cabeça do presidente da Petrobras. Não à toa, a empresa perdeu mais de R$ 120 bilhões em valor de mercado durante a greve.

A queda de Temer está fora de cogitação, seja porque faltam 4 meses para as eleições, seja porque nem a oposição quer tirá-lo do cargo. É certo que do governo e do Congresso que estão aí já não se esperava mais nada, mas preocupa o fato de os pré-candidatos à Presidência tampouco se terem revelado à altura do momento dramático que o país enfrentou.

Jair Bolsonaro, abandonando qualquer flerte com o liberalismo e esquecendo-se oportunamente de sua oposição aos métodos autoritários de reivindicação política ― contra os quais, aliás, ele mesmo apresentou um projeto de lei ―, só na undécima hora pediu a “volta à normalidade”. Marina Silva repudiou o uso das Forças Armadas, alertou para o risco de as concessões aos caminhoneiros recaírem no bolso da população e salientou a insatisfação generalizada dos brasileiros, mas escusou-se de apresentar uma solução para pôr fim à crise, limitando-se a dizer que “propor soluções para problemas complexos exige legitimidade para negociar em nome da sociedade”.

Álvaro Dias e Ciro Gomes aderiram à mesma mentalidade populista e irresponsável ― este último, inclusive, aproveitou para desfiar o rosário do estatismo intervencionista mais tacanho, somando equívoco sobre equívoco em rede nacional no programa Roda Viva. Henrique Meirelles e Geraldo Alckmin mostraram alguma preocupação com a independência da política de preços da Petrobras, mas falharam, certamente pelo incentivo do calendário eleitoral, ao não demonstrarem a clareza moral, em suas posições, contra os métodos autoritários do movimento paredista.

No campo da esquerda, Manuela D’Ávila defendeu um plano de investimentos na Petrobras para aumentar a capacidade de refino e tornar o país menos dependente das oscilações de preço do petróleo no mercado internacional, e Guilherme Boulos, a quintessência do socialismo abilolado, condenou a “política de preços que só visa ao lucro dos acionistas de Wall Street” e viu na paralisação um movimento de resistência popular. Já a FUP, movimento ligado ao PT, não traiu seu oportunismo atávico e armou uma greve para chamar de sua (a dos petroleiros).

Em uma democracia sadia, ninguém é dono verdade nem tenta impor seu projeto pessoal de sociedade, sob pena de a coisa pública ser apropriada por interesses privados e momentâneos ― ainda que da maioria ― em detrimento do bem comum, e da força prevalecer sobre o direito. Não se nega que assista razão ao caminhoneiros, pelo menos em algumas de suas reivindicações, mas há um sem-número de alternativas legítimas para defender as próprias pautas em uma democracia. A paralisação nunca teve nada de democrático ― pelo contrário, é mais do velho autoritarismo e do corporativismo à brasileira.

Não é exagero dizer que, nestes dias que passaram, grande parte da sociedade brasileira foi tomada por um surto coletivo. Que este momento de convalescença possa servir a uma reflexão ― de cada cidadão, liderança política e empresarial ― que recoloque a todos no caminho da razoabilidade, do diálogo e da moderação. Fora desse caminho, as dores serão ainda maiores.

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