sexta-feira, 20 de julho de 2018

SOBRE AS ELEIÇÕES 2018



O pleito presidencial se aproxima e as incertezas campeiam soltas. Como em 1989, o número de candidatos ao Planalto passa de 20, embora alguns tenham ficado pelo caminho e outros ainda ficarão.

Como plano de fundo para essa tragédia anunciada, o semestre começou com revisões para baixo na perspectiva de crescimento (1,55%), para cima na inflação (4,03%) e uma redução do desemprego aquém da esperada (está em 12,7%). Some-se a isso um câmbio que pode chegar a 5 reais, na visão de analistas mais pessimistas, e uma produção industrial que caiu 11% em maio, afetada pela greve dos caminhoneiros, e sinta-se na antessala do inferno, assistindo aos dois extremos da cegueira político-eleitoral disputarem a preferência dos ignorantes e inconsequentes que, no Brasil, nascem com o título de eleitor enfiado no rabo.

Em meio à indefinição sobre o futuro de Lula, o PT enfrenta dificuldades para ampliar o leque de alianças. Após desistir de lançar candidatura própria, o PSB iniciou um flerte com os petistas, mas, devido à grande rejeição dentro do partido, a tendência atual é apoiar Ciro Gomes. Já Manuela D’Ávila, do PCdoB, e Guilherme Boulos, do PSOL, não parecem dispostos a abdicar de suas candidaturas diante da falta de consenso sobre o nome que poderia unir os partidos de esquerda.

Observação: Deu ontem no Estadão que Dias Toffoli tem confidenciado a interlocutores que poderá por água no chope na festa dos petistas que contam com sua ajuda, quando ele assumir a presidência do STF, para derrubar o mais rapidamente possível a jurisprudência que mantém preso Lula, condenado em segunda instância. Não se sabe se ele está falando sério em adiar, no mínimo, para 2019 essa providência, até porque ele ainda não anunciou publicamente a posição. Certo é que a autorização para prender condenado por colegiado não põe o Brasil no grupo das democracias civilizadas que autorizam prisão após condenação na primeira, mas pelo menos mantém nossa Justiça distante da esquisitice das chicanas até as calendas.

No “Centrão” (ou “Blocão”), anseia-se por um nome capaz de aglutinar os indecisos — frise-se que a expectativa de votos brancos, nulos e abstenções quadruplicou em comparação com o pleito de 2014. Mas o tempo está passando e as perspectivas não são alvissareiras.

Depois da desistência do ex-ministro Joaquim Barbosa, uma parte do DEM aposta em Alckmin, enquanto a outra considera o “picolé de chuchu” mais um peso morto do que um puxador de votos — sobretudo no Nordeste, onde a rejeição do tucano supera 60% (não resta dúvidas de que a candidatura de Rodrigo Maia não passa de uma jogada de marketing para valorizar o passe do partido).

Alckmin, assombrado pela possibilidade de ser preterido por João Doria, tenta convencer potenciais aliados de que sua candidatura é viável, mas, com menos de 10% de intenções de voto nas pesquisas, a missão é quase impossível. Seu coordenador da campanha, Marconi Perillo, defendeu uma aliança com o MDB e sugeriu que Henrique Meirelles aceitasse ser vice na chapa tucana, mas o ex-ministro, que mal alcança 1% das intenções de voto, demonstrou uma superlativa e inquebrantável autoestima ao responder: “teremos grande satisfação em receber o apoio do PSDB no segundo turno”.

O ex-governador de São Paulo insiste na tese de que a campanha eleitoral não começou de verdade, que boa parte do eleitorado nem sabe quem são os candidatos, e prefere mirar o período de propaganda eleitoral gratuita, acreditando que pode crescer e atingir o desempenho alcançado em 2006, quando também começou por baixo e conseguiu chegar ao segundo turno. Mas não tem conseguido convencer nem seu próprio partido a se engajar em sua campanha.

Apesar das negativas, João Doria continua sendo incluído em algumas pesquisas, mas o resultado não vem sendo animador a ponto de justificar a troca. Em meados do mês passado, enquanto Alckmin era reprovado por 70% dos eleitores e aprovado por 18%, Doria tinha 65% de rejeição e 11% de aprovação. Por outro lado, 24% dos eleitores consultados não têm opinião formada sobre ele — mais do que os 12% que não têm opinião sobre Alckmin —, e as mesmas pesquisas apontam que 65% dos eleitores reprovam a conduta de Ciro, 64% desaprovam a atuação de Bolsonaro e 63% rejeitam Marina.

Sempre moderado em suas manifestações públicas, Alckmin defendeu recentemente facilitar o porte de armas em regiões rurais e liberar armamentos para guardas municipais, chegando mesmo a desafiar Bolsonaro para um debate sobre segurança por meio de suas redes sociais.

Observação: De acordo com um levantamento do Instituto Paraná Pesquisas em parceria com a rádio Jovem Pan, realizado com 1.540 eleitores do DF entre os dias 6 e 11 deste mês, o candidato de extrema-direita aparece com 25,2% das intenções de voto. Num segundo cenário, com inclusão de Lula, ele cai para 24,3%, mas permanece à frente do petralha, que fica com 21%. Ainda segundo a mesma pesquisa, Marina tem 10,6%; Ciro, 6,9%; Álvaro Dias, 5,4%; Alckmin, 3,7%; Meirelles, 1,7%; Manuela,1,3% e Amoedo,1%. 18,4% responderam que não votariam em nenhum deles, e 3,8 não souberam responder.

ATUALIZAÇÃO: A decisão do Centrão —  formado por PP, PR, DEM, PRB e Solidariedade — de apoiar a pré-candidatura de Geraldo Alckmin fará disparar o tempo de televisão do candidato. Somando os quinhões a que têm direito os dez partidos que devem participar da coligação, o tucano terá mais de 50% das duas horas diárias dedicadas às candidaturas, somando-se os programas eleitorais e as muitas inserções ao longo do dial. A cada bloco do horário eleitoral destinado exclusivamente aos presidenciáveis, com 12 minutos e 30 segundos, cerca de 6 minutos e 50 segundos serão destinadas à propaganda de Alckmin. Além disso, o bloco representa também uma nada modesta fatia de 440,4 milhões de reais no fundo eleitoral. O Mercado Financeiro reagiu positivamente à notícia — a Bovespa registrou alta de 2 pontos percentuais nesta sexta-feira.

Além do presidente e do vice, os eleitores escolherão em outubro governadores e vice-governadores dos 26 estados e do Distrito, além de deputados estaduais e distrital. Na Câmara Federal, quem não se reeleger perderá a boquinha, e o mesmo vale para 2/3 dos atuais integrantes do Senado. Considerando que o nível sócio-cultural do eleitorado não o qualifica sequer para escolher um síndico de prédio de periferia, o futuro é sombrio.

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