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terça-feira, 4 de agosto de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — NOSSO SISTEMA SOLAR — CONTINUAÇÃO

O COSMOS NÃO É APENAS BELEZA; É MÉTODO, RIGOR E MARAVILHA. E PERGUNTAR É TÃO NOBRE QUANTO DESCOBRIR.


Talvez porque nosso cérebro não lida bem com números muito grandes e a cosmologia científica não assegura o pseudoconforto espiritual que as religiões oferecem - ou deveriam oferecer — uma quantidade astronômica de cegos mentais toma o Velho Testamento como jornalismo confiável e o criacionismo como hipótese plausível para a origem da vida na terra.

Segundo o modelo cosmológico baseado no Big Bang, o Universo se formou há 13,8 bilhões de anos, nosso sistema solar, há cerca de 4,57 bilhões de anos, e a Terra, há 4,54 bilhões de anos. Vale destacar que falamos em milhões, bilhões e trilhões com a naturalidade de quem não tem a menor ideia do que essas grandezas significam, mas contar em voz alta de zero a um milhão demoraria cerca de 17 dias. 

Um bilhão de segundos corresponde a 31 anos e 8 meses, mas demoramos mais para pronunciar os números conforme eles aumentam (levamos um segundo para dizer "2" e cinco para dizer "1.987.789"), de modo que seriam necessários aproximadamente 47 anos para contar até 1 bilhão — limitando a contagem a 16 horas por dia, já que as pessoas precisam dormir, comer e satisfazer outras necessidades fisiológicas.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Sentindo-se invadida em sua autonomia no caso do INSS, a PF pediu providências à Advocacia-Geral da União contra um aperto de parafusos promovido pelo ministro André Mendonça, relator no inquérito sobre o caso do INSS. 

Semanas atrás, os investigadores pediram a Mendonça para abrir novo inquérito contra Lulinha — um desdobramento da investigação sobre o assalto contra os aposentados. De plantão na chefia do Supremo durante o recesso do Judiciário, Alexandre de Moraes enviou a solicitação ao setor de distribuição do tribunal, para a escolha de um novo relator. Por uma trapaça do sistema eletrônico do Supremo, Mendonça foi sorteado pelo algoritmo para relatar também o novo inquérito. 

Em privado, o combo de pastor e ministro se queixa de falta de transparência da PF. Incomodou-se por não ter sido informado de um troca-troca na equipe de investigadores. Agora, a PF foi como que intimada pelo acaso a se ajustar à vigilância do magistrado, que, nunca é demais lembrar, ganhou a toga por indicação do ex-presidente golpista.


Nosso sistema solar é um conjunto de corpos celestes formado por 8 planetas, centenas de satélites e um sem-número de asteroides, meteoros e objetos transnetunianos que orbitam o Sol unidos pela força da gravidade. Mas nenhuma teoria explica a contento o que é a gravidade em sua essência nem como ela atua no domínio quântico.

No macrocosmo das estrelas, planetas e objetos cotidianos, a relatividade geral a descreve não como uma força misteriosa à distância, mas como a curvatura do espaço-tempo causada pela presença de massa e energia, e explica fenômenos como a órbita de Mercúrio, o desvio da luz pelas estrelas, a detecção das ondas gravitacionais e até o funcionamento do GPS. Já na mecânica quântica, que rege o microcosmo dos átomos e partículas subatômicas, os elétrons, fótons e quarks se comportam também como ondas, e o vácuo apresenta flutuações energéticas intensas.

Como a relatividade geral e a mecânica quântica usam linguagens matemáticas distintas e princípios fundamentais diferentes, tentar descrever a gravidade em escalas quânticas — dentro de um buraco negro ou nos primeiros instantes do Big Bang, por exemplo — faz com que as equações entrem em colapso, até porque os efeitos quânticos da gravidade são incrivelmente fracos e só se tornam relevantes em escalas inimaginavelmente pequenas — como a Escala de Planck, que é um trilhão de trilhões de vezes menor do que um próton.

Investigar a gravidade quântica é comparável a tentar medir a altura de uma montanha sentindo a vibração de um único átomo em sua base, mas ainda assim existem ensaios brilhantes, como a Teoria das Cordas e a Gravidade Quântica em Loop. A primeira sugere que as partículas fundamentais são minúsculas cordas vibrantes cuja vibração dá origem à gravidade, mas, além de exigir um universo com mais de três dimensões espaciais, ela depende da existência de uma partícula gravitacional chamada Gráviton, que ainda não foi detectada. Já a segunda postula que o espaço-tempo não é contínuo, mas formado por diminutos laços que criam uma estrutura granular. 

Conciliar essas duas ideias e formular uma teoria unificada é um dos maiores desafios da física teórica contemporânea, e enquanto não surgirem evidências experimentais extremamente difíceis de obter, continuaremos sem saber qual é a natureza quântica da gravidade. Por outro lado, essa incapacidade de unificar o muito grande e o muito pequeno não nos impede de mapear o sistema solar com precisão surpreendente — porque, na escala dos planetas, a relatividade geral funciona perfeitamente. 

É nessa escala intermediária, entre o quântico e o cosmológico, que habitamos e exploramos um sistema planetário que se formou na Via Láctea a partir da condensação da matéria originada de explosões de supernovas antigas, estende-se por mais de 5 bilhões de quilômetros e tem como "vizinho de porta" o sistema triplo Alpha Centauri, que fica a 41,3 trilhões de quilômetros daqui e é um dos alvos prioritários na busca por vida extraterrestre (não estou falando de vida microbiana, mas de "vida inteligente").

Como as demais estrelas, nosso Sol é um reator de fusão nuclear que gera luz e calor convertendo hidrogênio em hélio. Embora seja de tamanho médio, ele é considerado estrela de 5ª grandeza porque, se colocado a uma distância padrão de 32,6 anos-luz da Terra, seu brilho intrínseco seria relativamente fraco, a despeito de seu tamanho ser suficiente para conter 1,3 milhões de planetas iguais ao nosso.

Em 2006, o rebaixamento de Plutão a objeto transnetuniano reduziu o número de planetas a oito, embora os cientistas trabalhem com a possibilidade de um hipotético "Planeta X" orbitar o Sol a uma distância 20 vezes maior que Netuno. Dos 8 planetas remanescentes, quatro são internos e rochosos — Mercúrio, Vênus, Terra e Marte — e quatro são externos e gasosos — Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Os primeiros orbitam o Sol antes do cinturão de asteróides, onde estão dispersos destroços de um material que nunca chegou a formar um planeta. A Terra é o maior dos planetas internos e Júpiter, o maior dos gigantes gasosos e, consequentemente, do Sistema Solar.

Se realmente existir, o Planeta X teria entre 5 e 10 vezes a massa da Terra, o que o coloca numa faixa intermediária entre planetas rochosos grandes e gigantes gasosos — uma classe de planeta que, curiosamente, não existe no nosso sistema solar atual, mas é extremamente comum em outros sistemas planetários observados pela astronomia. Além disso, ele estaria a cerca de 500 unidades astronômicas do Sol (uma UA equivale à distância do Sol à Terra), com uma órbita que levaria de 10 mil a 20 mil anos para ser completada.

Quanto à origem, os astrônomos Konstantin Batygin e Michael Brown sugeriram que o planeta misterioso pode ser o núcleo de um gigante gasoso que foi ejetado de sua órbita original por Júpiter durante a formação do Sistema Solar — o que explicaria tanto seu tamanho quanto sua órbita extremamente excêntrica e distante.

Continua…

terça-feira, 28 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE O BIG BANG

O ETERNO NOS CRIOU À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, MAS DEVE TER ERRADO ALGUM INGREDIENTE OU O TEMPO DE COZIMENTO, POIS NOS TORNAMOS DEUSES DE MERDA.

Vimos que os físicos Fred Hoyle, Thomas Gold e Hermann Bondi levantaram a hipótese de que o universo não teria começo nem fim; que Hoyle ironizou a ideia de toda a matéria ter surgido em um "grande estrondo", que a ironia pegou e o termo Big Bang foi adotado pela imprensa, embora tudo tenha começado não como uma grande explosão, mas como uma expansão cósmica há quase 14 bilhões de anos, cujos efeitos ainda podem ser observados através do desvio para o vermelho na luz das galáxias distantes.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Numa homenagem à imprestabilidade, o PL oficializou a escolha do primogênito do refugo da escória da humanidade como candidato à Presidência em uma convenção em São Paulo com direito a discurso do filho do pai com referências a si próprio como "o filho mais velho do capitão". A convenção contou com um recado do primeiro-ministro de Israel, que afirmou que o filho do pai é um grande defensor do Brasil, e com a presença do presidente da Argentina, que veio especialmente para a convenção e chamou o ministro Alexandre de Moraes de "lixo careca" por negar a autorização para que ele visitasse o golpista, que cumpre pena em prisão domiciliar humanitária. . 

Também marcaram presença o governador Tarcísio de Freitas, puxa-saco do Messias, de Valdemar Costa Neto, ex-presidiário do Mensalão e presidente do PL, e do senador Rogério Marinho — outro que morreria afogado se Bolsonaro tomasse um banho de assento —, além de uma série de congressistas e candidatos do PL. 

Estavam no palco ainda o prefeito de São Paulo e candidatos a governador pelo PL, como Sergio Moro, o ex-herói nacional que passou a vergonha nacional e disputa o governo do Paraná. O evento nauseabundo começou com o hino nacional e 22 segundos de silêncio em alusão à suposta tentativa de calar a direita no Brasil, nas palavras do cerimonialista. 

A ex-primeira-dama e madrasta não participou presencialmente do evento, alegando estar em casa cuidando do "seu galego", e tampouco elogiou o enteado-candidato mas pediu que Deus abençoe e proteja sua candidatura e desejou força para a família dele para cumprir a missão com a lealdade que nosso povo merece (pausa para as gargalhadas).  

Os sinais de isolamento do stronzino foram evidenciados pela ausência dos presidentes nacionais dos demais partidos — embora o PL queira repetir a coligação de Bolsonaro em 2022 com a federação União Brasil-PP e o Republicanos, as legendas sinalizaram preferir a neutralidade desta vez.

A falta de uma coligação deixou a chapa sem candidato a vice — a expectativa era de que partidos aliados indicassem um nome, de preferência uma mulher. Em seu discurso, Tarcísio, que foi preterido pelo filho do pai para concorrer ao Planalto, disse que o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias estava ali não pelo sobrenome, mas por ser uma pessoa que vai honrar o pai e o legado e será o maior presidente da história (pausa para o Plasil).

O governador puxa-saco de presidiário aproveitou para criticar o PT e pedir ao público que busque votos e convença os indecisos: "não tem espaço mais para o cansaço, a gente não pode mais se poupar, são 70 dias de trabalho e sacrifício".

Em resumo, mudaram as moscas, mas a merda continua sendo rigorosamente a mesma.

A despeito da imprecisão, o nome Big Bang se espalhou pelo mundo como um bordão irresistível. Em 1993, a revista Sky and Telescope organizou um concurso para substituir o nome e recebeu 13.099 sugestões de 41 países, mas nenhuma convenceu a banca de jurados, que incluía o astrônomo Carl Sagan. Assim, o nome permaneceu, e Hoyle entrou para a história como o homem que batizou uma teoria na qual nunca acreditou.

Faltou dizer que um esforço para melhorar as comunicações por rádio, um ruído vindo do espaço e alguns físicos teóricos formaram uma improvável conjunção de fatores que ajudou a comprovar o principal pilar da cosmologia moderna, embora não explique que existia antes da "grande expansão" e sustente que as leis da física clássica não se aplicam àquele momento inicial. Essa lacuna deu origem a alternativas como a Teoria M, segundo a qual existem inúmeros universos paralelos, e a colisão entre dois deles teria gerado toda a matéria e energia que compõem o nosso Universo. Algumas correntes sustentam que espaço e tempo sempre existiram, e que a grande expansão não foi o ponto inicial de tudo, mas o resultado do colapso entre diferentes dimensões — nesse caso, a explosão primordial — que teria dado origem múltiplos universos que surgiram como bolhas em um caldo cósmico de possibilidades. Essas ideias já foram consideradas pura ficção científica, mas hoje ensejam debates sérios entre físicos teóricos, que tentam conciliar a Relatividade com a Mecânica Quântica por meio de hipóteses como a de que o nosso universo seria apenas uma "membrana" flutuando em um espaço de dimensões superiores imperceptíveis para nossos sentidos. A questão é que aquilo que chamamos de “realidade” seria apenas um entre incontáveis cenários possíveis, com leis físicas diferentes, constantes variadas e talvez até versões alternativas de nós mesmos em outras configurações do espaço-tempo. Na esteira desse raciocínio, o Big Bang deixaria de ser o "início de tudo" e se tornaria apenas um episódio em uma história muito maior — uma entre trilhões de páginas de uma história que ninguém escreveu, mas que insiste em se desenrolar. Ainda que tudo isso não passe de hipóteses, são hipóteses escoradas em equações, observações indiretas e modelos matemáticos complexos, e para muitos físicos a elegância de uma teoria é quase tão sedutora quanto sua capacidade de ser testada. É nesse limite entre o rigor e o devaneio que a ciência avança. Aliás, a verdadeira "beleza" da ciência não está nas respostas, mas nas novas perguntas que cada resposta suscita. Dito isso, o que veio antes do tempo? O que existe fora do espaço? O nada é mesmo nada ou apenas algo que ainda não fomos capazes de entender? A física como a conhecemos deixa de fazer sentido nos primeiros 5,39 × 10⁻⁴⁴ segundos contados do "início" do universo — intervalo conhecido como tempo de Planck. Nesse limite extremo, a gravidade e a mecânica quântica tornam-se incompatíveis. Conforme o universo se expandiu e esfriou — por volta de 10⁻⁶ segundos após o Big Bang — sopa densa e quente de quarks e glúons começou a formar prótons e nêutrons. Assim, quando falamos que “tudo veio do nada”, devemos ter em mente que, na cosmologia, “nada” pode significar ausência de matéria, de espaço-tempo ou mesmo um vácuo quântico repleto de flutuações. Segundo a Teoria Quântica de Campos, mesmo no vácuo existem atividades físicas — flutuações de energia que podem dar origem a partículas que logo desaparecem. Por mais que esse cenário pareça uma abstração matemática, essas partículas foram detectadas em inúmeros experimentos. Algumas hipóteses sugerem que o Universo pode ter surgido de uma flutuação do vácuo, com energia total zero — em que a energia positiva da matéria seria cancelada pela energia negativa da gravidade. Stephen Hawking e outros físicos exploraram a ideia de que o surgimento espontâneo do Universo seria possível dentro da física quântica —, mas não devemos perder de vista que estamos falando de um campo altamente especulativo. Voltando no tempo até a chamada Era de Planck — que ocorreu um décimo de milionésimo de um trilionésimo de um trilionésimo de um trilionésimo de segundo após o Big Bang — deparamo-nos com um limite onde nossas melhores teorias entram em colapso e próprio espaço-tempo sofre flutuações quânticas. E como a mecânica quântica governa o micromundo das partículas, e a relatividade geral, o universo em grande escala, unificá-las exige um Teoria de Tudo. Segundo a Teoria das Cordas e a Gravidade Quântica em Loop, espaço e tempo seriam conceitos emergentes como ondas na superfície de um oceano profundo, e o que chamamos de espaço-tempo seria o resultado de processos quânticos ainda mais fundamentais. Isso fica ainda mais interessante quando tentamos entender que, na Era de Planck, o espaço e o tempo deixam de fazer sentido e a causalidade se desintegra. As principais candidatas à "teoria da gravidade quântica" descrevem um tipo de realidade física que estaria ocorrendo no tal "momento primordial" — uma espécie de precursor quântico do espaço e tempo. Mas a física ainda não encontrou um exemplo confirmado de algo surgindo literalmente do nada — a procura por esse "santo graal" deu azo a explicações sobrenaturais, a modelos cíclicos do Universo e à Teoria do Multiverso, segundo a qual infinitos universos coexistem, cada qual com suas próprias leis e histórias. Inspirado por uma conexão matemática curiosa entre um universo inicial quente e denso e um universo final frio e vazio, Roger Penrose, ganhador do Nobel de Física em 2020, propôs a chamada cosmologia cíclica conformada, na qual os estados iniciais e finais se tornam matematicamente idênticos quando levados aos seus limites. Em outras palavras, o Big Bang pode ter surgido de um "quase nada", isto é, do resquício de um universo anterior onde toda a matéria teria sido consumida por buracos negros e transformada em fótons dispersos num imenso vazio. Mesmo assim, esse "nada" ainda seria um tipo de "algo", ainda que fosse um universo físico desprovido de estrutura. O paradoxo aqui é que esse estado frio e vazio pode ser o mesmo que o estado quente e denso visto sob outra perspectiva. A solução, segundo Penrose, poderia ser uma transformação geométrica complexa, que altera o tamanho, mas não a forma — já que tanto o conceito de tamanho como o próprio tempo podem deixar de fazer sentido em estados extremos. O estado frio e vazio existiria eternamente numa linha do tempo própria, enquanto o estado quente e denso habitaria uma nova linha temporal. Ainda que essa hipótese se comprove no futuro, a pergunta filosófica mais profunda ainda permanece: de onde veio a própria realidade física? De ciclos infinitos, cada um gerando o próximo com variações quânticas aleatórias? Ou de um único ciclo, repetido eternamente, como um universo que retorna sempre ao mesmo ponto, reproduzindo a si mesmo? Ao sugerir que cada ciclo do universo é único, Penrose abre a possibilidade de detectarmos vestígios do ciclo anterior na radiação cósmica de fundo que observamos hoje. Ele e seus colegas afirmam ter encontrado essas marcas nos dados coletados pelo satélite Planck, que mapeou com alta precisão essa radiação remanescente do Big Bang, e que, certos padrões circulares identificados nos mapas poderiam ser ecos de buracos negros supermassivos que existiram no ciclo anterior. Ainda que essas conclusões ainda sejam alvo de intenso debate entre os cientistas, um dia encontrarmos uma forma natural de transformar a cosmologia cíclica de múltiplos ciclos para um único ciclo fechado, e assim nosso Universo poderia ser um loop contínuo do Big Bang ao vazio e de volta ao Big Bang, num renascimento perpétuo do mesmo multiverso quântico onde tudo que pode acontecer acontece, e acontece de novo, de novo e de novo. Na mitologia nórdica, a serpente Jörmungandr, filha de Loki,, morde a própria cauda, criando o círculo que sustenta o equilíbrio do mundo. Como se vê, a pergunta "de onde viemos?" pode ser mais antiga do que imaginamos. As teorias são muitas, mas, ao fim e ao cabo, talvez todas nos levem de volta ao ponto de partida.

Continua...

quarta-feira, 22 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A NATUREZA DO TEMPO

o tempo é lento demais para os que esperam, rápido demais para os que temem, longo demais para os que lamentam, curto demais para os que celebram e eterno para os que amam. 

Para entender melhor a essência do tempo é preciso abandonar a ideia de que o espaço é um “recipiente que contém as coisas” e o tempo, uma linha pela qual os acontecimentos fluem do passado para o presente e deste para o futuro (mais detalhes nesta postagem).

Einstein já havia sugerido que o tempo e o espaço formam um todo único — o “espaço-tempo” — e que o tempo varia conforme a velocidade com que o observador se move e a atração gravitacional que atua sobre ele.

Se não percebemos isso, é porque os relógios que usamos no dia a dia não são precisos o bastante. Mos relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra adiantam 38,4 µs/dia (+45,6 µs/dia por conta da gravidade menor e −7,2 µs/dia graças à velocidade maior), tornando esse efeito mensurável.

Observação: Em velocidades próximas à da luz, a dilatação do tempo se torna extrema — a pouquíssimo menos de "c", um segundo para o viajante equivale a anos para quem ficou na Terra (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos).

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Para entender melhor a teoria da gravidade quântica, é preciso abandonar a ideia segundo a qual existe um gigantesco relógio cósmico que marca o tempo do Universo, mesmo porque um dia é o tempo que a Terra leva para dar uma volta em torno do próprio eixo, e um ano, o tempo que ela leva para dar uma volta completa em torno do Sol. Esse "dia" de 24 horas e esse “ano” de 365 dias e 6 horas só fazem sentido para os terráqueos — em Plutão, por exemplo, a translação leva 248 anos terrestres.

Nosso conceito de tempo é uma convenção que pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Cada objeto do Universo possui um tempo próprio. Se na Terra, em altitudes diferentes, o tempo varia, imagina em Marte ou em Proxima Centauri. Séculos antes de Einstein publicar suas famosas equações relativísticas, Newton já havia dito que não é possível medir o “verdadeiro” tempo, mas, assumir sua existência permitiria descrever vários fenômenos da natureza. Mas na escala quântica o tempo como o conhecemos não funciona.

O espaço é um campo e o Universo é um sem-número de campos quânticos que não habitam o espaço-tempo, já que são o próprio espaço-tempo. Da mesma forma que os fótons se comportam tanto como partículas quanto como ondas, o espaço-tempo é formado por quanta de gravidade, e assim como os fótons medeiam a interação entre as ondas de luz, esse quanta possibilita a interação entre espaço e tempo.

Segundo o físico Carlo Rovelli, o preço conceitual pago para entender a teoria da gravidade quântica em loop é a renúncia à ideia de espaço e tempo como estruturas gerais para enquadrar o mundo. Talvez a dificuldade em entender o conceito se deva ao fato de que é praticamente impossível pensar em um mundo sem tempo e sem espaço, pois essa ideia coloca em xeque a própria realidade — e daí para o niilismo é um pulo. Mas para compreender o mundo pode ser preciso contrariar nossa própria intuição.

Uma das maiores contribuições da gravidade quântica em loop é a visão de mundo que ela oferece: por definir que existe um limite para o espaço e o tempo, a tensão entre a relatividade geral e a mecânica quântica não existe mais. Não é preciso entender o que se passa em um universo infinitamente pequeno, onde as leis de Einstein não se aplicam, mesmo porque os quanta de gravidade eliminam a ideia de espaço contínuo.

Por outro lado, é preciso ter em mente que tanto a teoria da gravidade quântica em loop quanto a teoria das cordas são tentativas de explicar o mundo. Como vários conceitos clássicos da ciência, elas carecem de comprovação experimental, mas nem por isso devem ser subvalorizadas. Vale lembrar que até serem confirmadas (em 2016), as ondas gravitacionais não passavam de especulações, e o mesmo vale para o bóson de Higgs e para as ondas eletromagnéticas.

Na física, quando uma teoria não pode ser comprovada, alternativas continuam sendo avaliadas; teorias são aceitas, ajustadas ou descartadas conforme evidências experimentais. Não se pode afirmar taxativamente que uma teoria seja absolutamente correta ou incorreta, já que não temos acesso a todos os níveis de informação. Mas quanto mais aprendemos de forma interdisciplinar, melhor compreendemos as coisas, e quanto mais desvendamos o mundo, mais descobrimos coisas a desvendar.

Parafraseando Rovelli: a única coisa realmente infinita no Universo é a nossa ignorância.

Continua…

sexta-feira, 17 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO E A TEORIA DE TUDO

OCULTAR SEU PASSADO É O MESMO QUE FECHAR A JANELA DA SUA VIDA.

Talvez não seja o tempo que passa por nós, mas nós que passamos por ele como grãos de areia entre as câmaras de uma ampulheta, e talvez a forma como o sentimos seja uma construção da nossa mente. 

A coisa fica ainda mais complicada quando deixamos a psicologia e focamos o campo da física: em algumas teorias modernas, como a da Gravitação Quântica em Loop, o tempo simplesmente não aparece nas equações fundamentais.

Para compreender isso melhor, devemos ter em mente que a Relatividade Geral diz respeito aos corpos gigantescos do Universo, como estrelas e planetas, enquanto a física quântica é a base da física nuclear e trata do universo das partículas menores do que os prótons e os elétrons. 

Curiosamente, as equações de Einstein não afrontam a física quântica e vice-versa: ambas coexistem sem se contradizerem formalmente, embora não se juntem numa teoria unificada. É como se a natureza tivesse duas explicações diferentes para seu funcionamento e nenhuma deles estivesse errada. Em outras palavras, mesmo que elas se expressem em idiomas diferentes, ambas pareçam dizer a verdade.

Observação: Para explicar esse aparente contrassenso, o físico italiano Carlo Rovelli compara a natureza a um velho rabino que, consultado por dois homens para resolver uma disputa, deu razão a ambos — e quando sua mulher ponderou que os dois não poderiam ter razão ao mesmo tempo, ele disse que ela também estava certa.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Políticos, quando hesitam em embarcar numa canoa ou ameaçam desembarcar dela, fazem-no porque vislumbram no horizonte a possibilidade de naufrágio. 

Projetos com presumida taxa alta de sucesso atraem adesões por gravidade. Foi assim que a direita aderiu pragmaticamente aos governos do PT, até abandonar o partido no governo Dilma Rousseff 2, e foi assim também que Jair Bolsonaro conseguiu transformar sua inicialmente desacreditada candidatura à Presidência num êxito eleitoral que deu nome a um movimento.

O chamado bolsonarismo, contudo, dá sinais de fragilidade na ausência do chefe. Ao contrário do petismo, que se manteve vivo mesmo com a prisão de Luiz Inácio da Silva, em 2018, e na ausência de postulantes a substitutos a ponto de ir pela quinta vez ao Palácio do Planalto em 2022, a corrente se dispersa sob a administração dos herdeiros.

O atrito com Michelle é só o gesto mais atrativo, do ponto de vista da intriga midiática. Outros menos chamativos têm significado político que indica franca indisposição da direita — seja ela extrema ou moderada — com a candidatura de Flávio Bolsonaro.


Os cientistas apreciam teorias elegantes, simples e funcionais, e talvez por isso essa aparente incompatibilidade entre os dois maiores pilares da física os estimule a buscar um terceiro, que escore ambos os campos de estudo. E é aí que surge a Teoria das Cordas, segundo a qual o mundo quântico é formado por minúsculos filamentos de energia — cordas unidimensionais que, vibrando em diferentes frequências, correspondem a diferentes partículas, assim como as cordas de um violão produzem diferentes notas musicais.


Essa teoria se apresenta como a candidata mais promissora para o papel de conciliadora, pois visa conectar todos os fenômenos naturais sob uma mesma descrição com uma elegância matemática extraordinária. É fato que os detratores dessa teoria torcem o nariz para a ideia de um mundo infinitamente pequeno que comporte as tais cordas. Aliás, esse antagonismo rendeu até briga no seriado The Big Bang Theory —, e que a gravidade quântica em loop dissolve essa tensão, já que não pretende ser uma Teoria de Tudo, e sim entender o Big Bang e o interior dos buracos negros — o que, convenhamos, não é pouco.


Tanto a Teoria das Cordas quanto a Teoria da Gravidade Quântica em Loop são apenas sugestões de visão de mundo. Além de não existir uma tecnologia que permita um tira-teima, a tensão entre os dois tipos de física não existe na Gravidade Quântica em Loop, que combina Relatividade Geral e Mecânica Quântica sem utilizar qualquer outra hipótese além dessas duas teorias devidamente reescritas para se tornarem compatíveis.


A Relatividade Geral sustenta que o espaço não é uma caixa rígida e inerte, como um recipiente em que jogamos as coisas, e sim um campo dinâmico e maleável — um imenso molusco em que estamos imersos, capaz de se comprimir e se retorcer na presença de massa e energia, e através do qual se propagam a luz e as ondas de rádio que chegam aos nossos olhos e ouvidos. Já a mecânica quântica define o universo como uma estrutura granular formada por pequenos pacotinhos (quanta), como os fótons que compõem a luz. A diferença é que os fótons vivem no espaço, enquanto os tais pacotinhos são eles próprios o espaço.


De acordo com o físico italiano o Carlo Rovelli, o espaço como recipiente amorfo das coisas desaparece da física com a gravidade quântica; as coisas (quanta) não habitam o espaço, e sim uma os arredores da outra — o espaço é o tecido de suas relações de vizinhança. Daí se depreende que, numa escala muito pequena, o espaço não é algo contínuo, mas tem como limite o limite dos pacotinhos que o formam.


A física teórica ditou o rumo dos experimentos durante décadas, mas, de um tempo a esta parte, ficou mais difícil apresentar uma nova hipótese que explique de maneira convincente questões que seguem em aberto. A própria história da física mostra que muitas teorias perderam força, enquanto outras foram colocadas de lado e retomadas tempos depois. Um bom exemplo é o Modelo de Huygens, segundo o qual a luz era onda, que foi o mais aceito Einstein explicar o efeito fotoelétrico, segundo o qual a luz se comporta tanto como onda quanto como partícula.


Mesmo tendo perdido um pouco de seu encanto, a Teoria das Cordas continua sendo a base da Teoria M, que busca unificar a Relatividade, que descreve o macrocosmo, e a Física Quântica, que remete ao universo microscópico das partículas subatômicas, bem como acomodar todos os fenômenos conhecidos sob o guarda-chuva de uma estrutura matemática elegante e universal. Mais que uma mudança de paradigma, ela é uma expansão ambiciosa do que entendemos por tempo e espaço, e parte de seu fascínio vem da capacidade de explicar a gravidade dentro de um arcabouço quântico (através de uma hipotética partícula chamada "gráviton").


Observação: Para essa teoria funcionar, é preciso que o universo tenha sete ou oito dimensões além das três espaciais e uma temporal, tão minúsculas que sejam impossíveis de detectar. Não obstante, se essa teoria estiver correta, então o Universo não é apenas mais estranho do que imaginamos, mas mais estranho do que podemos imaginar.


A Teoria das Cordas inclui ingredientes que combinam com descobertas experimentais recentes, como a ideia de que cada partícula tem um “parceiro” supersimétrico. No entanto, a despeito de sua beleza matemática, ela peca pela falta de evidências experimentais à luz da tecnologia atual: além de não termos como medir as dimensões extras, as energias necessárias para testar o modelo em questão estão muito além do alcance de qualquer acelerador de partículas existente ou previsto para os próximos anos.


A evolução dessa teoria abriu espaço para a Teoria M, e conceitos dela derivados vêm influenciando outras áreas da física teórica, como os estudos sobre buracos negros, a holografia e até as redes quânticas. Mesmo sem provas experimentais diretas, as cordas continuam sendo uma das possibilidades mais atraentes da física teórica. Se será testável um dia é uma questão que segue em aberto. Mas experimentos em gravidade quântica, avanços na detecção de partículas e até mesmo observações astronômicas de alta precisão podem fornecer pistas indiretas para confirmar ou refutar aspectos da teoria.


Ao fim e ao cabo, a física é como um farol no mar escuro da ignorância; a Teoria das Cordas pode não ser a luz final, mas ilumina muitos caminhos possíveis.

Continua…

quarta-feira, 24 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A ENGENHARIA EXTRATERRESTRE

TALENTOS OCULTOS NÃO VALEM NADA.


Dizer que, se tanta gente avistou discos voadores, é porque existem discos voadores, é um argumento lógico tão fraco quanto sustentar que, se tanta gente acredita em Papai Noel, é porque Papai Noel existe.

Ignorar sistematicamente o que um sem-número de pessoas afirma ter visto — incluindo pilotos militares sob juramento — também não é ciência, e sim dogma com jaleco branco.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Amigo e líder de Lula no Senado, Jaques Wagner é apontado como "beneficiário central" de "vantagens econômicas" de integrantes do Master. Isso inclui um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, uso de aeronaves e até ingresso para o camarote de show internacional em Los Angeles. Coisa de R$ 63,3 mil. Por uma trapaça do azar, o petismo e seu xamã ficaram inibidos de sapatear sobre uma promessa descumprida por Flávio Bolsonaro.

No dia 19 de maio, após reunião com as bancadas federais do PL, o filho de Bolsonaro disse ter feito uma encomenda ao fundo americano que recebeu a verba pedida por ele a Daniel Vorcaro e à produtora brasileira do filme Dark Horse. Deveriam apresentar, em até 30 dias, uma prestação de contas com o detalhamento das despesas com o filme. O prazo que o rival de Lula se autoconcedeu venceu exatamente nesta quinta-feira, mesmo dia em que a PF sacudiu o coreto do líder petista.

Em vez de exibir a prometida escrituração dos R$ 61 milhões que mordeu de Vorcaro a pretexto de financiar a cinebiografia do pai, o filho sentiu-se à vontade para agir como um macaco que senta no próprio rabo para falar mal da cauda dos outros. Acomodado sobre seus vícios, o rival de Lula declarou: "O PT da Bahia acaba de ser implodido pela Polícia Federal com uma operação contra o líder do governo do PT no Senado Federal, Jaques Wagner. Isso é um alento de que a impunidade vai ser combatida..."

Ao recusarem duas ofertas de colaboração premiada de Daniel Vorcaro, a PF e a PGR instalaram em Brasília uma espécie de câmara de descompressão. Jaques Wagner estava entre os políticos que respiravam aliviados. Animou-se a contestar no Senado, na terça-feira, reportagem da Veja que atribuiu a Vorcaro revelações sobre os negócios do Master com o PT baiano.

Estufando o peito como uma segunda barriga, o líder petista discursou: "Já desafiei vários a me mostrarem qual foi a investigação da (Polícia) Federal que encontrou algo sobre o meu comportamento". Decorridas menos de 48 horas, o senador obteve uma amostra do que foi descoberto sobre ele. Para complicar, a novidade veio ornamentada pela imagem do dinheiro apreendido.

Em entrevista, Jaques Wagner disse ter recebido telefonema de solidariedade de Lula. Anunciou: "Eu continuo na liderança até que o presidente peça que eu me retire. Não acho que ele vai fazer isso." Toda crise tem um preço. Lula parece ignorar uma obviedade: quem regateia paga mais caro. A sorte foi traiçoeira com Lula. Ele percorrerá a campanha à reeleição mancando, com o espinho do Master enfiado no pé esquerdo.


A História está repleta de indícios de visitas extraterrestres. As pirâmides de Gizé e Stonehenge, por exemplo, chamam a atenção por sua conexão com fenômenos astronômicos importantes e pelo desafio enfrentado por seus "construtores", que dispunham de prosaicos cinzéis, marretas, rampas de madeira, cordas, polias e outras ferramentas rudimentares. Como era de esperar, não faltam teorias da conspiração sobre o uso de tecnologias inexistentes à época e especulações sobre uma suposta ajuda alienígena. E o mesmo raciocínio se aplica às Linhas de Nazca, a Puma Punku,, aos Moais da Ilha de Páscoa, à fortaleza inca de Sacsayhuamán, a Teotihuacán, ao Templo de Júpiter, entre outros. 

Igualmente difícil é explicar são os tapetes voadores e as cavernas repletas de tesouros, que se abriam por comando de voz — como o célebre Abre-te Sésamo —, uma vez que aviões e edifícios com portas automáticas só surgiram dali a 4 mil anos. De duas uma: ou a imaginação dos autores dos Contos das Mil e Uma Noites era mais prodigiosa do que a dos autores de ficção científica contemporâneos, ou suas "fantasias" retratavam coisas que eles já conheciam.

Os deuses das mitologias grega e nórdica habitavam lugares acima das nuvens — o Monte Olimpo e Asgard, respectivamente. Textos cuneiformes dos antigos assírios descrevem divindades vindas das estrelas que viajavam em barcos celestiais. Os sumérios desenvolveram o sistema sexagesimal que usamos até hoje em relógios e bússolas, e foram capazes de prever eclipses solares e lunares com precisão suficiente para orientar calendários agrícolas e cerimônias religiosas. Seus deuses eram associados a estrelas e planetas numa época em que sequer se cogitava a existência de sistemas solares, e eram retratados como seres com estrelas na cabeça ou cavalgando esferas aladas.

Carruagens com rodas cuspindo fogo foram descritas tanto nos apócrifos de Abraão quanto nos de Moisés, como aponta Erich von Däniken em Eram os deuses astronautas? — livro rotulado como "pseudociência" por acadêmicos, mas que vendeu mais de 80 milhões de cópias mundo afora — e a Teoria dos Antigos Astronautas, que inspirou a bem-sucedida série Alienígenas do Passado, produzida pelo History Channel.

Perto de Bagdá, foi descoberto em 1936 um artefato de dois mil anos que experimentos modernos demonstraram ser capaz de gerar mais de 1,4 volts de eletricidade — potência suficiente para eletrodeposição de metais. A arqueologia oficial hesita em confirmar seu uso como bateria, mas a hesitação, ela mesma, é sugestiva.

Textos do Mahabharata descrevem uma arma chamada Brahmastra, cujos efeitos — luz cegante equivalente a dez mil sóis, explosão devastadora, terra que se torna estéril por gerações, cabelos e unhas que caem nos sobreviventes — são suficientemente precisos para que Oppenheimer, ao assistir ao primeiro teste nuclear em 1945, tenha citado espontaneamente o Bhagavadgita. Coincidência literária ou memória de algo que de fato aconteceu?

Não se nega que muitas teorias da conspiração permeiam o assunto, mas algumas proposições de Von Däniken, mesmo que não comprovadas, contam com defensores ilustres, como o russo Zecharia Sitchin — que contribuiu para difundir o tema com sua interpretação de textos antigos do Oriente Médio — e o britânico Graham Hancock, que dá continuidade às teorias seguindo a linha de argumentação do pesquisador suíço, embora a considere incompleta.

Com base na obra de Homero, Heinrich Schliemann pavimentou a descoberta de Tróia. No apogeu da civilização maia (entre 250 e 900 d.C.), grandes cidades, pirâmides e praças majestosas foram erguidas em plena floresta tropical do México, da Guatemala e de Belize. Teóricos da conspiração atribuem esse prodígio ora a alienígenas, ora a habitantes do continente perdido de Atlântida.

Em Stonehenge Decoded, o astrônomo Gerald Hawkins estima que a estrutura foi erguida no período neolítico, quando as Ilhas Britânicas eram habitadas por povos considerados atrasados em relação a seus contemporâneos mediterrâneos.

Não se sabe o destino das bibliotecas de Jerusalém e de Pérgamo, nem quantos segredos se perderam com as destruições em massa dos livros históricos, astronômicos e filosóficos ordenadas pelo imperador chinês Shih-Huang, por Hitler e por Mao Tsé-Tung. Um alfarrábio contendo "toda a ciência da antiguidade" foi destruído pelo imperador inca Pachacuti, e milhões de volumes pertencentes a Ptolomeu I Sóter foram incinerados por ordem do califa Omar sob a alegação de que afrontavam o Alcorão.

O que se perdeu nessas fogueiras, não se sabe, mas sabe-se que a história do conhecimento humano não é uma linha reta ascendente — é um arquipélago de ilhas separadas por mares de silêncio.

Continua...

terça-feira, 23 de junho de 2026

ONDE ALGUNS VEEM CORDAS, OUTROS VEEM UM ESPAÇO-TEMPO FEITO DE FRACTAIS.

QUANTO MAIS AMPLIAMOS O UNIVERSO, MENOS SÓLIDO ELE NOS PARECE.

Segundo a física Astrid Eichborn, quando reduzimos a escala de observação a níveis extremos, as leis da física clássica simplesmente deixam de funcionar. 

Se ampliarmos o celular que está exibindo esta postagem, a tela, aparentemente lisa, se dissolverá em uma rede de pixels e moléculas. Se ampliarmos ainda mais a imagem, veremos os átomos — estruturas em que nuvens de elétrons vibram ao redor de núcleos atômicos. Se o zoom continuar, mergulharemos no interior desses núcleos, onde prótons e nêutrons parecerão gigantescos, quase como sistemas solares compostos por quarks ligados por intensos campos de força.

A partir desse ponto, as próprias forças fundamentais começarão a mudar de comportamento. O eletromagnetismo e a força fraca tornar-se-ão mais intensos, ao passo que a força forte enfraquecerá. Durante algum tempo, essas mudanças seguirão padrões relativamente bem compreendidos, que os físicos conseguem descrever com bastante precisão. Até deixarem de conseguir.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Lula é um excelente compositor. Compõe com todo mundo. Mas poucos desfrutam de sua amizade. Numa galeria de amigos, o macróbio colocaria o retrato de Jaques Wagner sob a melhor luz, mas a Polícia Federal ofereceu ao senador uma rara oportunidade de demonstrar que o apreço do presidente é correspondido. Investigado no inquérito sobre o Master — que fincou estacas nos três poderes — deveria se desligar imediatamente da função de líder do governo no Senado.Juridicamente, Jaques Wagner tem direito ao benefício da dúvida, mas, politicamente, uma dúvida criminal não é a melhor conselheira para um presidente da República. Em condições normais, afastar o investigado da liderança do governo seria conveniente. Em meio a uma guerra eleitoral, o afastamento é um incontornável preço a pagar. Regateando, o petismo pagará mais caro. E barateará as críticas a Flávio Bolsonaro por pedir dinheiro a Daniel Vorcaro.

Quando ampliamos a realidade a escalas cada vez menores — ou, equivalentemente, energias cada vez maiores —, as leis estabelecidas da física tendem a perder seu poder explicativo. A gravidade, praticamente irrelevante na escala atômica, passa a se comportar de maneira errática, e aí entramos no reino de Planck, onde a física pede licença para sair da sala. Em outras palavras: ninguém sabe ao certo o que está acontecendo — mas as hipóteses são maravilhosamente sofisticadas.

A aparente falha da física de partículas nessa escala sugere que o universo pode ser composto não por partículas pontuais, mas por cordas e membranas vibrantes. Alguns cientistas sustentam que nessas escalas extremas o próprio espaço-tempo deixa de ser contínuo e passa a apresentar uma estrutura formada por laços. Mas alguns pesquisadores exploram uma possibilidade diferente.

Em 1976, Steven Weinberg propôs que, ao ampliar suficientemente a escala de observação, chegamos a um ponto em que as regras da física simplesmente pararam de mudar, a intensidade das forças se estabiliza e a gravidade volta a fazer sentido.

Eichborn tornou-se uma das principais pesquisadoras a investigar essa hipótese — conhecida como segurança assintóticaAo longo da última década, ela e seus colaboradores fizeram progressos significativos na tentativa de demonstrar que as leis quânticas deixam de evoluir na escala de Planck, exatamente como Weinberg suspeitava, como também conseguiram conectar a física desse regime extremo com fenômenos que podem ser estudados em escalas muito mais acessíveis.

A abordagem utilizada para descrever a maioria das forças da natureza é a teoria quântica de campos, que pressupõe que o universo está repleto de campos quânticos ondulantes que se manifestam como partículas pontuais. Essas partículas se movem através de um espaço-tempo contínuo e interagem por meio de forças. O problema é que, quando tentamos tratar a gravidade quântica exatamente da mesma maneira — como um campo quântico flutuante — a teoria deixa de funcionar.

Em linhas gerais, para uma força bem compreendida como o eletromagnetismo, é necessário considerar flutuações do campo em todas as escalas. Em vez de desaparecerem à medida que ampliamos o zoom, essas flutuações manifestam-se como partículas virtuais com energias cada vez maiores. Nesse caso, a intensidade da força muda, mas o arcabouço teórico continua funcionando até a gravidade entrar em cena. Aí a situação se complica. 

Como Albert Einstein demonstrou em suas equações relativísticas, a gravidade está ligada à própria estrutura do espaço-tempo; quando tentamos quantizá-la da mesma forma que fazemos com as outras forças, as flutuações se tornam problemáticas: em distâncias extremamente pequenas, partículas virtuais de alta energia passam a interagir de maneiras que a teoria não consegue descrever.

Algo novo parece acontecer nessas escalas, e há basicamente três grandes linhas de pensamento sobre o que esse “algo novo” poderia ser. Uma possibilidade é a teoria quântica de campos simplesmente deixar de funcionar — situação em que os objetos fundamentais deixariam de ser pontos e passariam a ser cordas microscópicas vibrantesOutra possibilidade é o espaço-tempo não ser contínuo — um copo d’água parece contínuo à primeira vista, mas sabemos que ele é composto por átomos discretos. E a ideia de que o mesmo ocorre com o espaço-tempo é explorada na chamada gravidade quântica em loop

Uma terceira hipótese é a essência da segurança assintótica. Segundo essa linha de raciocínio, campos, partículas e espaço-tempo continuam existindo, mas a estrutura do universo, quando observada em escalas extremamente pequenas, passa a apresentar uma espécie de autossimilaridade, lembrando um fractal. A intensidade das forças — inclusive a gravidade — deixa de variar indefinidamente e passa a seguir as mesmas regras de interação entre partículas.

Se esse regime autossimilar realmente existir, as flutuações do espaço-tempo e dos demais campos podem se tornar estáveis o suficiente para que a boa e velha teoria quântica de campos continue sendo utilizada para fazer previsões — mesmo em energias extremamente altas. E simetrias são extremamente comuns na natureza — o próprio espaço-tempo possui diversas simetrias fundamentais; não existem direções privilegiadas, lugares especiais ou momentos absolutos, apenas escalas privilegiadas.

O mundo se apresenta de formas diferentes para os seres humanos, para as bactérias e para os elétrons, mas, no nível mais fundamental da realidade, é possível que nem mesmo essas escalas sejam especiais — talvez o infinitamente pequeno seja apenas o infinitamente grande visto de muito perto.

Se a teoria quântica de campos nunca falhou em laboratório, uma maneira de torná-la preditiva em todas as escalas é justamente introduzir essa simetria de escala. Para verificar se isso é possível, os físicos utilizam algo semelhante a um microscópio matemático, que constrói representações matemáticas dos campos e de suas interações, calcula como essas interações mudam à medida que se aumenta o “zoom” energético e procura um ponto fixo, onde essa evolução simplesmente deixa de ocorrer.

Grande parte da comunidade científica tem investigado inicialmente o caso mais simples: um espaço-tempo vazio, contendo apenas gravidade pura. Alguns pesquisadores simplificam ainda mais o problema considerando apenas flutuações quânticas do espaço e ignorando temporariamente as flutuações do tempo. Esses cenários foram analisados em centenas de trabalhos teóricos, e muitos deles indicam de forma bastante robusta a existência de um ponto fixo onde as constantes físicas deixam de evoluir.

Em um de seus primeiros estudos, Eichborn incluiu todos os campos de matéria e força conhecidos e concluiu que o ponto fixo ainda aparecia — mesmo nesse cenário mais complexo. Posteriormente, análises mais completas mostraram que o ponto fixo permanece mesmo quando se consideram diversas formas adicionais de interação entre os campos conhecidos.

Outra maneira de testar a ideia consiste em inverter o raciocínio: em vez de procurar matematicamente um ponto fixo nos modelos, parte-se da hipótese de que ele existe e pergunta-se quais seriam suas consequências observáveis no mundo macroscópico. Curiosamente, essa hipótese parece forçar o universo a se parecer muito com o universo que realmente observamos.

Em 2009, Mikhail Shaposhnikov e Christof Wetterich mostraram que, ao se afastar de um ponto fixo desse tipo, a massa do bóson de Higgs tende a aumentar. Num universo sem esse ponto fixo, as massas das partículas poderiam assumir praticamente qualquer valor. Já na presença dele, surge uma interação muito específica entre a gravidade e a força eletrofraca, restringindo os valores possíveis de certas massas fundamentais.

Em outras palavras, um universo com simetria de escala fundamental poderia explicar por que as propriedades das partículas elementares são exatamente aquelas que observamos. Isso não significa, naturalmente, que a segurança assintótica resolva todos os mistérios da física. A massa do próton observada é compatível com a existência de um ponto fixo, mas também poderia ser dezenas de vezes maior sem violar a teoria. Até onde sabemos, nenhuma propriedade conhecida das partículas contradiz a segurança assintótica — o que significa que ela permanece uma possibilidade em aberto. Mas vários modelos populares de matéria escura parecem entrar em tensão com essa ideia. Algumas versões simples de partículas massivas de interação fraca, certos candidatos semelhantes a áxions e modelos de matéria escura ultraleve parecem menos compatíveis com um universo fundamentalmente autossimilar.

Os experimentalistas continuam avançando, e muitos dos experimentos atuais podem acabar funcionando, indiretamente, como testes da própria segurança assintótica. É perfeitamente possível, no entanto, que essa abordagem não seja incompatível com outras teorias de gravidade quântica. Na escala mais fundamental da realidade, talvez existam cordas, laços ou estruturas ainda mais exóticas. Mas, ao nos afastarmos dessas escalas extremas, entramos em um regime onde as leis da física mudam tão lentamente que o universo parece operar em torno de um ponto fixo. Se isso for verdade, diferentes teorias de gravidade quântica que consideramos rivais passam a ser maneiras distintas de olhar para a mesma física profunda.

Na pesquisa em gravidade quântica, afinal de contas, ser humilde é sempre uma boa ideia.