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quarta-feira, 20 de maio de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — PROFECIAS E VATICÍNIOS

NA CIÊNCIA, O CRÉDITO VAI PARA QUEM CONVENCE O MUNDO DE UMA IDEIA, NÃO PARA QUEM A TEVE PRIMEIRO.  


Não há final de ano sem que programas de TV de quinta categoria entrevistem paranormais que invariavelmente antecipam "a morte de um artista famoso”, sabedores de que as palavras “artista” e “famoso” dão margem a múltiplas interpretações. Todavia, a despeito da evolução da ciência nos últimos séculos, um sem-número de pessoas que reputamos inteligentes continua a consultar cartomantes, quiromantes, videntes e afins.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


"Dark Horse" — nome do filme sobre a trajetória política do ex-presidente golpista e ora presidiário — já era sinal de mau agouro, pois significa "azarão", "vencedor improvável", mas ninguém imaginava que o Judiciário mandaria prender Lula, durante a pré-campanha eleitoral de 2018.

Na Bíblia, o terceiro cavaleiro do Apocalipse aparece montado num cavalo negro, com uma balança na mão, e anuncia fome e miséria (Ap 6,5-6). Contra "fome e miséria" de políticos e autoridades, ninguém melhor que Vorcaro nos últimos tempos, mas até o momento nenhum deles havia sido flagrado pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro. Flávio Rachadinha inaugurou a lista, pedindo ao dono do Master R$ 134 milhões, alegadamente para a cinebiografia do pai. Pelo menos R$ 61 milhões foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações da Entre Investimentos, empresa ligada ao grupo Master, para o Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

A operação contou com intermediários como Thiago Miranda, sócio-fundador do Portal Leo Dias, que participou das negociações. Fabiano Zettel, cunhado e principal operador financeiro de Vorcaro, organizava os repasses, e o deputado cassado e foragido Dudu Bananinha aparece nas conversas em 21 de março de 2025, sugerindo "alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA".

Vorcaro foi preso pela Polícia Federal tentando deixar o país em 18 de novembro de 2025, no dia seguinte ao "estarei contigo sempre" de Flávio. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central no dia seguinte, com rombo estimado em R$ 50 bilhões no FGC (Fundo Garantidor de Créditos). Na época, a situação do Master não era segredo para ninguém em Brasília. A CVM investigava movimentações atípicas desde 2022, e o Banco Central emitiu ultimato a Vorcaro em 2024, com prazo de 180 dias para reestruturação do Master. O próprio Vorcaro assinou em novembro daquele ano documento ao BC assumindo os problemas, com prazo final para correção em maio de 2025, exatamente o período em que as seis transferências para o Texas foram concluídas. 

Nas conversas, Flávio reconhece que "Daniel estava passando por momentos difíceis". O Ministério Público Federal havia requisitado à PF, ainda em 2024, o início de investigações criminais do Master por emissão de títulos falsos. No ano seguinte, Brasília, estava careca de saber quem era Daniel Vorcaro.

Também merece atenção o valor — R$ 134 milhões — solicitados para uma produção com anjos caídos de Hollywood e um time B ou C nos créditos. Para um filme com time modesto em termos artísticos, com poucas pretensões além da propaganda política para convertidos, produtoras bolsonaristas nacionais fariam tudo por 10% desse valor, mesmo incluindo o cachê de Jim Caviezel. "Ainda Estou Aqui", vencedor do Oscar, teve um custo estimado em R$ 45 milhões, e "O Agente Secreto", pouco mais da metade desse valor. A conta não fecha.

Mário Frias, deputado bolsonarista do PL, roteirista e produtor executivo do filme, divulgou nota oficial afirmando que "dentre os mais de uma dezena de investidores que compõem o quadro de financiadores do longa-metragem Dark Horse, não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário".

Resta saber onde foram parar os mais de R$ 60 milhões repassados

Alguns oportunistas que vivem há anos do bolsonarismo já começaram a se distanciar de Flávio, lembrando o adágio que os ratos são sempre os primeiros a pular de um barco que afunda. Ainda é cedo para prever o que acontecerá nas próximas horas ou dias, mas o estrago é inegável. E sabe-se lá o que ainda está para surgir durante as investigações.

Até o momento, a surpresa é saber que um filme com jeito de documentário do Brasil Paralelo custou mais que uma festa de Vorcaro com Coldplay e isso, por si só, já é um escândalo que merece investigação rigorosa.

Cavalo negro, simbolicamente, nunca é portador de boas notícias. No folclore brasileiro, "Dark Horse" é a mula sem cabeça.


Nostradamus, sacerdotes do Oráculo de Delfos, astrólogos maias e afins foram venerados como semideuses, mas usaram e abusaram de ambiguidades e indeterminações para tornar suas chances de erro tão desprezíveis quanto as dos horoscopistas de almanaque, que embrulham no vistoso papel dos mapas astrais mensagens como cuide melhor da saúde, evite investimentos arriscados, aguarde novidades no campo sentimental, e por aí afora.


Dono de uma pena vocacionada a vaticínios macabros e apocalípticos, Michel de Nostradama (1503-1566) se notabilizou pela suposta capacidade de prever o futuro. Contrariando as conclusões tendenciosas que os arautos do apocalipse extraíram de suas Centúrias, o astrólogo francês não previu a Revolução Francesa, a ascensão de Hitler, o desmoronamento das torres gêmeas, o fim mundo na virada do milênio (nem em 21/12/2012) ou a coroação do rei Charles III e sua renúncia.


Nostradamus também não vaticinou a pandemia da Covid-19 — esse boato nasceu de uma publicação feita pelo cartunista argentino Cristian Dzwonik, criador do satírico Gato Gaturro. A mensagem original, postada na página do cartunista nas redes sociais, foi rotulada como FAKE NEWS pelo Facebook após ter sido desmentida por agências internacionaisFalando em redes sociais, elas foram a maior benesse para os serviços de inteligência desde que a Igreja Católica inventou a confissão, mas isso é uma outra conversa e fica para uma outra vez.


Alguns dos versos de Nostradamus contêm referências chocantes a supostos acontecimentos futuros, mas vale lembrar que o os escreveu de forma prolífica, cifrada e ambígua, como que visando acomodar as mais variadas versões dos fatos. Mesmo assim, entra ano, sai ano, milhões de pessoas se equipam para sobreviver a chuvas de meteoros, colisões com asteroides, inversões da polaridade terrestre e outros cataclismos oriundos de interpretações tendenciosas de profecias chinfrins feitas por quem ouviu o galo cantar sem saber onde.


Observação: Reza a lenda que, quando seu galo de estimação desapareceu, um alfaiate carioca do século XVIII ofereceu uma recompensa a quem o encontrasse. De olho na gratificação, um aprendiz afirmou ter ouvido a ave cantar, mas não soube dizer onde, e acabou demitido. A partir de então, a expressão "ouvir o galo cantar sem saber onde" tornou-se sinônimo de falar sobre sobre algo sem conhecer os detalhes ou o contexto.


A facilidade para encontrar verdades pessoais em afirmações genéricas é conhecida como "efeito Barnum" — assim chamado por causa dos "testes de personalidade" usados por P. T. Barnum para convencer os espectadores de circo a acreditarem que ele possuía poderes paranormais. Em decorrência dessa "característica", milhões de pessoas supostamente esclarecidas juram que somos todos descendentes de Adão e Eva, em que pesem os indícios científicos acachapantes da evolução.


Tampouco faltam cegos mentais que se refutam a enxergar a esfericidade da Terra — coisa que Aristóteles descobriu no século III a.C. e cuja circunferência Eratóstenes calculou a partir da diferença das sombras em duas cidades próximas — a despeito das milhares de fotos tiradas do espaço e até da Lua.


Continua...

sexta-feira, 24 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — PSICOTRÔNICA, CONTROLE DA MENTE E EQMs

NA POLÍTICA, BURRICE NÃO É OBSTÁCULO. 

As primeiras pesquisas sobre telepatia, percepção extrassensorial, controle do pensamento e estados alterados de consciência foram reunidas sob o título de “psicotrônica” e se tornaram as precursoras da ciência noética moderna. 


Durante a Guerra Fria, a URSS investiu mais de um bilhão de dólares no estudo do controle da mente e psicovigilância. Ao saber disso, o governo dos EUA iniciou uma série de programas ultrassecretos de pesquisa neuromilitar, mas o fiasco do Stargate rendeu sérias críticas à CIA, que foi acusada de gastar rios de dinheiro em pseudociência para treinar espiões-fantasmas.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Durante o namoro e o noivado, é meu bem pra lá e meu bem pra cá. Com o divórcio, a história muda: meus bens pra cá e meus bens pra lá.

Mutatis mutandis, o mesmo raciocínio vale para a política: as campanhas são pavimentadas com promessas que os candidatos sabem que jamais cumprirão. Como observou Bismarck, nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada.

O ceticismo é saudável, mas convém lembrar que há custos eleitorais e institucionais reais para quem quebra promessas sistematicamente. A desonestidade política não é lei da natureza; é, muitas vezes, escolha.

Romeu Zema foi além dos seus interesses eleitoreiros ao divulgar um vídeo satírico contra ministros do STF. O problema não é a crítica à corte — essa é legítima, necessária e constitucionalmente protegida. O problema é que o ataque ultrapassou a instituição e atingiu Gilmar Mendes e Dias Toffoli como pessoas.

Essa distinção importa: figuras públicas no exercício do poder têm o limiar de proteção à honra deliberadamente elevado, justamente para não sufocar o debate democrático. Mas esse limiar existe — e, segundo a avaliação jurídica do episódio, pode ter sido cruzado. No esforço de crescer na corrida presidencial com retórica anti-Supremo, Zema pode ter levado sua fala às fronteiras da criminalidade, não por criticar a corte, mas por ofender pessoalmente dois de seus membros.

A crítica mais substancial, porém, recai sobre o inquérito das fake news, que foi "desvirtuado" ao longo dos anos e passou a abrigar casos sem relação direta com seu objetivo original. Os números falam por si: sete anos de duração, escopo progressivamente ampliado e relatoria nas mãos de Xandão — um ministro diretamente mencionado em parte dos episódios investigados.

Um inquérito conduzido pelo próprio tribunal para proteger seus membros cria um conflito de interesses estrutural que é difícil de defender, independentemente da posição política de quem o aponta. O STF existe para conduzir inquéritos, mas também para encerrá-los. Manter indefinidamente um instrumento jurídico multiuso, acionado de forma seletiva para apaziguar aflições internas da corte, não é exercício de jurisdição — é exercício de poder sem freios adequados.

A independência do STF é um valor constitucional inegociável. Mas ela não imuniza a instituição de críticas sobre seus próprios procedimentos. Confundir a defesa legítima da corte com a blindagem de comportamentos questionáveis de seus membros — ou, no sentido oposto, confundir a crítica aos ministros com ataque ao Estado de Direito — é o equívoco que alimenta tanto o populismo anti-institucional quanto o corporativismo judicial.

O debate brasileiro ganharia em qualidade se aprendesse a separar essas camadas.


Afirmar que as experiências de quase morte resultam do aumento da atividade cerebral nos últimos instantes de vida é fácil. O difícil é explicar como alguém que esteve clinicamente morto consegue lembrar como é estar morto. 


No livro Apagar a Morte, o médico e professor Sam Parnia escreve que um paciente que havia sofrido uma parada cardíaca descreveu com exatidão o trabalho dos médicos e enfermeiros e disse que foi submetido duas vezes ao choque dos desfibriladores — exatamente o número de tentativas feitas para ressuscitá-lo, embora ele não tivesse como saber disso porque seu cérebro estava inativo.


Em "The Spiritual Doorway in the Brain", o neurologista Kevin Nelson anota que os limites entre os estágios da consciência são tênues, e as fronteiras entre vigília, sono REM e sono não-REM, tão difusas que em momentos de crise o sono invade a vigília e causa os efeitos descritos nas EQMs, como se o cérebro acionasse um interruptor. Em Ciência da Vida Após a Morte, os autores abordam evidências científicas sobre a consciência após a morte, incluindo a mediunidade, as EQMs e a reencarnação. Vale assistir também a esta entrevista com o autor de Death is but a dream.


Desmaios podem desencadear EQMs, já que a sensação de perigo altera a pressão sanguínea nos olhos, deixa a visão borrada nas bordas e cria a impressão de que há um túnel com luzes. Já a sensação de "sair do corpo" pode ser explicada pelo "desligamento" da região cerebral responsável pela percepção espacial — quando a pessoa entra em REM, o cérebro ativa o mesmo mecanismo que produz os sonhos, o que explica as alucinações.


Continua... 

segunda-feira, 30 de março de 2026

AS QUERELAS DO BRASIL

EXISTEM APENAS DOIS TIPOS DE PESSOAS: AS QUE CONCORDAM COMIGO E AS QUE ESTÃO ERRADAS.


A polarização na política sempre existiu, mas nunca foi tão desbragada quanto nas duas últimas disputas presidenciais. Depois que a "abertura lenta, gradual e segura" pôs fim a três décadas de jejum de urna, os brasileiros voltaram a escolher seu presidente.


Embora o cardápio da eleição solteira de 1989 listasse 22 postulantes — entre os quais Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola —, o eleitorado tupiniquim, que repete a cada pleito o que Pandora fez uma única vez, enviou para o segundo turno um caçador de marajás demagogo e populista e um ex-metalúrgico populista e demagogo. 


Lula concorreu à Presidência em 1989, 1994 e 1998, foi eleito em em 2002 e reeleito em 2006, a despeito do escândalo do Mensalão. Em 2010, transformou uma nulidade em "gerentona de araque" para manter aquecida a poltrona que ele pretendia reconquistar em 2014, mas o "poste" gostou da brincadeira e insistiu em disputar a reeleição. Por motivos que agora não vêm ao caso, o criador se resignou a apoiar a criatura, que afundou o país e foi impichada em 2016 (pelo conjunto da obra; as folclóricas "pedaladas fiscais" foram apenas um pretexto para penabundar a incompetente insolente e arrogante). 


Com a deposição da "mulher sapiens", Michel Temer passou de vice titular, mas seu prometido ministério de notáveis se revelou de uma notável confraria de corruptos. O primeiro a cair foi Romero Jucá, com apenas uma semana no cargo. Na sequência, demitiram-se — ou foram demitidos — Fabiano Silveira, Henrique Eduardo Alves, Geddel Vieira Lima, entre outros ministros e assessores presidenciais investigados na Justiça ou acusados de corrupção por delatores na Lava-Jato


Para encurtar a história, quando a conversa de alcova nada republicana que manteve nos porões do Jaburu, em maio de 2017, com o dono da JBS, Temer pensou em renunciar, mas foi demovido da ideia pelo deputado Carlos Marun, seu fiel escudeiro, que também se encarregou de comprar votos das marafonas da Câmara em número suficiente para salvar o presidente das flechadas de Janot


Observação: O patético hipopótamo dançarino foi o relator da CPI da JBS, embora tivesse recebido R$ 103 mil em doações do frigorífico e sido acusado de beneficiar uma empresa de software em contratos de R$ 16,6 milhões.


Acabou que o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil concluiu seu mandato-tampão como um "pato manco" e transferiu a faixa presidencial para o combo de mau militar e parlamentar medíocre que derrotou o títere de Lula — que não tinha o mesmo carisma que o titereiro —, tornou-se o pior mandatário desde Tomé de Souza e foi sentenciado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.


Observação: Temer chegou a ser preso em março de 2019, mas foi solto dias depois por ordem do desembargador Ivan Athié, do TRF-2 — que ficou afastado do cargo durante sete anos por suspeitas de corrupção.


A polarização esteve presente em todos os capítulos da nossa história, mas o quadro se agravou quando o Planalto passou a ser disputado pelo PT e pelo PSDB. Ainda assim, as campanhas eram relativamente civilizadas, pois mortadelas e coxinhas se tratavam como adversários políticos, não como inimigos figadais. Nas duas últimas disputas pelo Planalto, no entanto, o antagonismo exacerbado impediu que uma candidatura alternativa competitiva se consolidasse. 


Em 2018, Ciro Gomes acabou em terceiro lugar, com míseros 3,04% dos votos válidos no segundo turno. Em 2022, Henrique Mandetta, João Dória, Sérgio Moro, Eduardo Leite, Aldo Rebelo, Luciano Bivar e André Janones desistiram antes do início da corrida eleitoral. Simone Tebet ficou em terceiro lugar, com 4,16% dos votos. Soraya Thronicke, Sofia Manzano, Vera Lúcia e Padre Kelmon obtiveram resultados inexpressivos.


Como era esperado, a disputa ficou entre Lula e Bolsonaro, e o desempregado que deu certo venceu o mandrião aspirante a golpista pela menor diferença de votos desde a redemocratização (menos de 2%). Durante a campanha, o ex-presidiário "descondenado" tripudiou: "Agora quem acabou foi o PSDB". Em resposta, os tucanos disseram que o PT passou anos tentando reescrever a história, semeando o ódio, perseguindo adversários, dividindo a sociedade e montando uma usina de fake news.


No debate promovido pela Band em outubro de 2022, o Lula vociferou que "nomear amigo e companheiro para o Supremo é retrocesso" (referindo-se a Nunes Marques e André Mendonça, indicados por Bolsonaro). Eleito, indicou seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e seu advogado particular Cristiano Zanin — e ainda teve o desplante de negar a relação de amizade com o causídico, que esteve em seu casamento com Janja e a quem chamou de "amigo" em entrevista à BandNews


Faltando pouco mais de seis meses para o primeiro turno das próximas eleições, o alto nível de rejeição popular ao xamã do PT e ao sobrenome Bolsonaro animou alguns partidos com a possibilidade de finalmente romper a polarização. O PSD de Gilberto Kassab apresentou três governadores como potenciais postulantes, mas Ratinho Jr — o mais competitivo dos três — desistiu de última hora.


A despeito da fama de bom gestor, de uma administração aprovada por cerca de 80% dos paranaenses e apoio de várias lideranças, Ratinho Jr voltou atrás, movido por uma conjunção de fatores, incluindo as investigações sobre a venda da subsidiária de telecomunicações da Copel e as conexões com Nelson Tanure —suposto sócio oculto de Vorcaro nas traficâncias do Master. Mas a filiação de Sérgio Moro ao PL também pesou: até então, o governador paranaense achava que faria seu sucessor com facilidade, mas o ex-herói nacional já aparece como franco favorito nas pesquisas. 


Os índices de desaprovação do governo federal e o derretimento da popularidade de Lula sugerem que ele é "bananeira que deu cacho", mas engana-se quem pensa que o pontifex maximus da Petelândia é carta fora do baralho. Segundo as pesquisas, cerca de 33% dos entrevistados não se declaram petistas nem bolsonaristas, 26% não votaram no em Lula nem em Bolsonaro na eleição passada — ou votaram e se arrependeram, —, 27% escolheram o macróbio mas não se identificam como de esquerda, e 18% dos que votaram no "mito" dos anencéfalos não se reconhecem como de direita.


Somados, esses grupos representam 71% do total de votos, e, pelo menos em tese, podem ser conquistados por qualquer candidato — o núcleo duro da polarização é formado por apenas 11% e 18% de esquerdistas e direitistas convictos, respectivamente, de modo que existe espaço para uma candidatura de terceira via.


Os extremos fazem barulho nas redes sociais, pautam a cobertura da mídia, alimentariam o algoritmo. Há “avenida enorme” para uma candidatura de centro (não confundir com o Centrão adesista) neste ano, mas cabe aos interessados priorizar a defesa da democracia, a reorganização dos programas sociais e um plano de desenvolvimento centrado nas novas tecnologias e novas relações de trabalho.


A questão é que quase todo tema polêmico — como a “taxa das blusinhas”, a PEC da Segurança Pública e até a CPMI do INSS — se torna refém da polarização no Congresso. Ainda não se sabe o que o PSD pretende fazer nas áreas da economia e da segurança pública. O MDB, dividido como sempre em alas, se preocupa mais com querelas paroquiais e a disputa para a Câmara dos Deputados — cujo resultado é decisivo para a divisão dos bilionários fundos eleitoral e partidário. Já o PSDB, que governou o país por dois mandatos com FHC, perdeu quadros, capilaridade nacional e capacidade de dialogar com o eleitorado. 


Observação: Geraldo Alckmin, que foi quatro vezes governador de São Paulo pelo PSDB, disputou a Presidência em 2006 — e foi derrotado por Lula no segundo turno — e em 2018 — quando amargou um vexatório quarto lugar. Apesar de ter dito que eleger o petista era o mesmo que reconduzir um criminoso à cena do crime, filiou-se ao PSB para concorrer à vice na chapa encabeçada pelo ex-adversário — talvez achando que essa seria sua única de aboletar na poltrona mais cobiçada do Palácio do Planalto. Só que faltou combinar com O Ceifador, sem falar que que o diabo detesta concorrência.


A maioria dos analistas políticos estima que a eleição deste ano será decidida pelos eleitores considerados independentes. No escrete eleitoral de Lula, nunca houve uma preocupação com a hipótese de uma candidatura de centro ganhar corpo a ponto de chegar ao segundo turno, mas, há apreensão com a possibilidade de os escândalos de corrupção sob investigação — especialmente do caso do Banco Master e da roubalheira contra aposentados e pensionistas do INSS — alterarem esse cenário.


Flávio Bolsonaro trabalha para que o centro e a direita não apresentem concorrentes — além de sugerir Ratinho Jr como seu vice, o filho do pai mandou emissários sondarem Ronaldo Caiado e Romeu Zema para o posto. Contrariando a tradição familiar de verborragia, o senador das rachadinhas tem economizado nas palavras, deixando Lula se desgastar sozinho com os problemas da administração federal. Nos últimos dias, defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública — ideia que foi sugerida por petistas, mas rejeitada por Lula


Na semana passada, Xandão autorizou a prisão domiciliar humanitária para o atual presidiário mais famoso desta banânia por um prazo inicial de 90 dias. Mesmo obrigado a usar tornozeleira eletrônica e proibido de acessar redes sociais e de gravar áudios ou vídeos, o condenado estará mais à vontade para ajudar na organização da campanha do primogênito, que tenta se vender com a roupagem de "moderado".


Resumo da ópera: No início deste século, ainda predominava a crença de que, na democracia, os moderados prevalecem — e moderam os radicais. Houve até quem acreditasse na possibilidade de juntar os melhores quadros do PT e do PSDB para contribuir com um governo capaz de modernizar o país. Hoje, mesmo os quadros reconhecidamente ponderados se mantêm abrigados sob os guarda-chuvas da polarização para continuarem relevantes no xadrez político, e, em determinadas situações, os extremistas estão conseguindo radicalizar os moderados.


Caberá ao eleitor decidir qual caminho irá seguir, e a exemplo do que ocorreu nas últimas campanhas, o caminho do centro continua acidentado e sem uma liderança clara.