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terça-feira, 17 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 85ª PARTE

O PRESENTE É APENAS UMA ILUSÃO.

Segundo a teoria da relatividade de Einstein, se pensarmos no espaço-tempo como uma estrutura única que se expande continuamente, então o Big Bang foi o início de tudo e o indicativo de como será o fim. Mas onde há um físico teórico existe uma possibilidade elegante que os físicos experimentais podem ou não comprovar, e alguns negam a existência do tempo escorando-se na incompatibilidade da relatividade com a mecânica quântica.

Ao contrário das outras três forças da natureza descritas pelo Modelo Padrão (forte, fraca e eletromagnética), a gravidade parece viver em um reino próprio. E se todo o universo pode ser explicado por meio das partículas fundamentais (bósons, quarks e fótons, por exemplo), por que a gravidade é uma exceção?

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Os investigadores do início do século 20 gastavam sola de sapato para entrevistar testemunhas e dispunham de poucas ferramentas científicas para auxiliá-los. Mais adiante, surgiram pequenas revoluções na forma de análise de DNA e outras técnicas forenses sofisticadas, mas nada supera o advento dos smartphones — que estão para as investigações como a confissão e as redes sociais para a Igreja Católica. 

Um caso emblemático é o da invasão à praça dos Três Poderes no fatídico 8 de Janeiro, é outro é o celular do Vorcaro, que já derrubou o Maquiavel de Marília da relatoria do caso Master, enlameou a imagem de Xandão e promete fazer mais estragos. Mas é preciso distinguir a ordem jurídica — que, em tese, lida com fatos objetivos e exige que a culpa dos suspeitos seja demonstrada para que eles sofram condenação — da ordem política — na qual os juízos são instantâneos. Nesta, pelo menos dois togados já foram tragados pelo caso Master, causando um prejuízo irreparável para a reputação do STF.

Nada clarifica mais a mente do que a ausência de alternativas. O pedaço da República que se vendeu ao Master já não se pergunta se, mas quando o preso vai virar delator e apontar para o alto, entregando os contatos que conseguiu seduzir num pedaço da engrenagem que André Mendonça chamou de "altos escalões da República". A recompensa não pode incluir nada que se pareça com um perdão: afora os trovões já extraídos das nuvens de um celular de Vorcaro, oito aparelhos continuam na fila da perícia..

Num cenário dos sonhos, todos os pesadelos da República do Master tornariam os contatos do preso em frequentadores de uma colônia de nudismo. Nessa hipótese, sua eventual delação e a consequente premiação seriam desnecessárias. Mas o Brasil está na bica de assistir a um espetáculo de nudismo que ninguém pediu, que ninguém quer ver, e que já não espanta mais ninguém.

Em junho do ano passado, 58% dos entrevistados pelo Datafolha disseram ter vergonha dos ministros do Supremo. Decorridos nove meses, Bolsonaro e os oficiais daquilo que ele chamava de "minhas Forças Armadas" foram parar na cadeia, mas uma nova pesquisa trouxe duas notícias sobre o Supremo.

A má notícia é que não há notícia boa, e a ruim é que a maioria dos entrevistados considera o Supremo a instituição mais enroscada no escândalo Master — é mais do que o índice de comprometimento atribuído ao governo federal (21%) e ao Congresso (17,9%). Para piorar, 44% dos entrevistados disseram estar propensos a enviar para o Senado candidatos comprometidos com o impeachment de magistrados. Quer dizer: a deposição de togas vai deixando de ser tabu à medida que o desgaste pessoal de Moraes e Toffoli corrói a imagem do STF. 

A situação da corte se ajusta à célebre metáfora de Hegel, sobre a Coruja de Minerva, que só voa quando o crepúsculo chega. Em outras palavras, as pessoas só compreendem o tempo em que vivem quando ele já se esgotou. E em certas situações incertas, quem mata o tempo comete suicídio.


Os cientistas tentam explicar esse fenômeno buscando na mecânica quântica uma partícula fundamental da qual a gravidade surge como a luz surge dos fótons, e um dos candidatos mais prováveis é o gráviton — que, se realmente existir, seria o responsável pela mediação da força gravitacional. 


Outras possibilidades são a Teoria das Cordas — segundo a qual a gravidade é resultante do espaço-tempo feito de pixels, como uma tela formada por um sem-número de minúsculos pontos — e a Gravidade Quântica em Loop (LQG) — segundo a qual o espaço-tempo seria composto por uma série de loops entrelaçados, cada um com cerca de um trilionésimo de trilionésimo de trilionésimo de metro.


A relatividade geral já foi comprovada incontáveis vezes — inclusive por uma sonda da NASA que observou a gravidade distorcer o espaço-tempo ao redor do nosso planeta —, ao passo que essas teorias seguem no campo da especulação. No entanto, se uma partícula fundamental da gravidade realmente existir, a maneira como a ciência tenta explicar o espaço-tempo precisará ser revista.


Newton descreveu a gravidade como uma força de atração entre dois corpos, e Einstein, como a deformação que objetos supermassivos causam no espaço-tempo. Se a hipótese dos grávitons ou dos loops gravitacionais for confirmada, a independência da gravidade em relação ao espaço-tempo será um problema, já nosso futuro é baseado no conceito de passagem do tempo expresso pelos relógios e calendários.


Se o tempo não é necessário para explicar a gravidade e, consequentemente, o espaço, então ele não passa de uma invenção humana criada para explicar eventos simples, como o amanhecer e o anoitecer, as fases da Lua e as quatro estações. E da feita que planejamos o futuro com base nas escolhas que fizemos no passado, o que chamamos de arbítrio seria uma aleatoriedade que flui no cosmos como as ondas de um mar, indiferente à passagem das horas, dias, meses, anos, etc.


Mesmo que isso se confirme, ainda restará o princípio da causalidade (não confundir com casualidade) — segundo o qual as causas sempre precedem as consequências. Porém, ao contrário do que sugere a relatividade, a história do cosmos passaria a ser uma questão de causa e efeito, reações em cadeia, partículas decaindo e formando átomos desde o início dos tempos — ou do espaço, o que dá no mesmo.

 

Nesse contexto, o arbítrio ainda seria um conceito real, pois poderíamos reconstruir um sistema com base em causas e consequências — embora não nos relógios e nos calendários, já que as horas e os dias seriam mera convenção. E essa percepção nos levaria à conclusão de que nossa existência está pré-determinada desde o Big Bang


Como disse Stephen Hawking, se tudo o que existe é um efeito em cascata de causas e consequências, então o plasma de quark-glúon dos primeiros instantes do Universo já estava destinado a evoluir para a matéria estruturada, dando origem às estrelas, aos planetas e a formas de vida como a nossa. Mas vale frisar que essa visão pré-determinista não coaduna com a mecânica quântica; alguns cientistas propõem inclusive que em vez de surgir de uma lógica de causa e efeito para se formar, o cosmos moldou as leis da natureza conforme evoluiu.


Embora pareça meramente filosófico, esse embate envolve a física moderna e está vinculado às próximas descobertas em aceleradores de partículas como o Grande Colisor de Hádrons (LHC). 


Enfim, quem viver verá.


Continua…

quarta-feira, 11 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 83ª PARTE

O FUTURO JÁ ACONTECEU?

Há quem considere os casos de Fentz, Carlssin, Titor e do hipster de 1941 (vide capítulos anteriores) como evidências de viagens no tempo, e as pirâmides de Gizé e Stonehenge como provas da visita de alienígenas cuja tecnologia permitiu atravessar galáxias a velocidades superluminais e usar os buracos de minhoca como atalhos cósmicos. Para os céticos, nada disso prova coisa alguma, mas mentes obstinadas podem ser montanhas intransponíveis.


Em Ensaio sobre a cegueira, o Nobel de Literatura José Saramago escreveu que a cegueira é uma questão privada entre as pessoas e os olhos com que elas nasceram, e que a pior cegueira é a mental.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Na última sexta-feira, o ministro Alexandre de Moraes divulgou nota argumentando que os arquivos encontrados no celular de Daniel Vorcaro e repassados à CPMI do INSS indicavam que as mensagens de visualização única atribuídas a ele foram na verdade enviadas ao banqueiro por outro interlocutor. Ato contínuo, a Globo divulgou um texto informando que os softwares usados pela PF permiteM afirmar com certeza que o diálogo se deu entre o dono do Banco Master e o magistrado. 

Durante o fim de semana, o ministro negou que teria visitado a casa de Vorcaro na Bahia. Na manhã do dia 9, sua esposa divulgou detalhes sobre o contrato que manteve com o banco até novembro do ano passado, quando o BC decidiu por sua liquidação. O texto cita supostas reuniões e a elaboração de documentos que justificariam os R$ 3,6 milhões mensais pagos mensalmente ao escritório de advocacia da família do ministro. 

Entre os políticos, os desdobramentos do caso deram à luz a máxima segundo a qual “jantar não é crime”. O receio é que qualquer um que tenha tido contato com Vorcaro se torne radioativo, mesmo sem ter recebido dinheiro ou vantagens.

Sobre a cabeça de Lula paira a quebra de sigilo de Lulinha e a percepção da população de que o STF atua de forma política para beneficiar o petista.

Quanto a Moraes, dá-se de barato que, pelo menos de momento, não se cogita seu afastamento. O magistrado costuma reagir quando pressionado, e tem armas para tal: o inquérito das fake news, a apuração contra servidores da Receita e até a ADPF das Favelas e a recente apuração contra servidores da Receita Federal e do Coaf. Uma das estratégias será desacreditar as informações, sustentando que o vazamento foi seletivo e recortado para criar uma narrativa contra ele e o STF.

Atendendo à defesa de Vorcaro, André Mendonça determinou a abertura de uma investigação sobre quem repassou os dados à imprensa. A ofensiva tende a gerar repercussões, especialmente no Congresso, onde um grupo formado por parlamentares bolsonaristas e do Centrão já está com Moraes na alça de mira, e outro pode apoiar medidas contra vazamentos visando frear as investigações.

O fato é que reputação de Moraes subiu no telhado. Embora ele tente se desvencilhar das mensagens, a crise está posta, e se antes as críticas se concentravam em decisões controversas, agora elas ultrapassam a esfera jurídica e focam possíveis relações não republicanas do togado.

O presidente da CPMI do INSS, Carlos Viana, ficou de convocar o ministro Flávio para explicar por que suspendeu as quebras de sigilo fiscal e bancário de Lulinha. Se aprovado, o gesto será interpretado no STF como uma afronta num momento de tensão entre os Poderes. Em outra frente, as relações entre Alcolumbre e Lula estão estremecidas, devido, sobretudo, ao avanço das investigações da PF no caso Master.

O vazamento de mensagens do celular de Vorcaro e os boatos de delação fortalecem a tese de que a crise dificilmente transcorrerá sem  baixas no mundo político. Dirigentes partidários da oposição e do Centrão, já preparam uma vacina para o que vier nos próximos vazamentos, num movimento de defesa da classe política. Segundo suas insolências, jantar não é crime, amizade não significa corrupção e ter contato salvo, então, não significa absolutamente nada. Mas o temor é de uma “epsteinização” do caso: qualquer um que tenha tido contato com Vorcaro vai se tornar radioativo, mesmo que não tenha recebido dinheiro ou vantagens.

Ainda é cedo para avaliar o estrago que isso fará na campanha de quem foi citado e dos que ainda virão a sê-lo, já que as investigações devem adentrar o período eleitoral e contaminar as disputas. Uma das estratégias dos envolvidos no imbróglio será desacreditar as informações, sustentando que o vazamento foi seletivo e recortado para criar uma narrativa contra ele e atingir o Supremo.

O ministro André Mendonça determinou à Polícia Federal que abra investigação sobre quem repassou os dados à imprensa, atendendo a pedido da defesa de Vorcaro. O eleitorado, majoritariamente ignorante, talvez não compreenda a teia de fraudes e títulos podres do banco Master, mas sabe que a etiqueta que resume o caso é a de corrupção.


Talvez seja por isso que as religiões perduraram milênios — a despeito do manancial de indícios que contradizem seus preceitos, crenças e dogmas — e milhões de pessoas ainda acreditam que Deus criou o mundo em 4004 a.C. e que todos os seres humanos descendem de Adão e Eva — embora haja evidências científicas acachapantes da idade do Universo e da evolução natural.


A ciência evoluiu muito nos últimos séculos, mas ainda não consegue explicar a natureza do tempo nem se é ele que passa ou se somos nós que passamos por ele e o dobramos com as decisões que adiamos e os caminhos que não tomamos. Para viajar no tempo — o fruto mais cobiçado e ainda não alcançado da árvore da relatividade — seria preciso superar inúmeros obstáculos, mas nunca é demais lembrar que Cabral levou 44 dias para cruzar o Atlântico e “descobrir” o Brasil, e menos de 500 anos depois o Concorde fazia a mesma viagem pelo ar em cerca de três horas.


Quiçá viajar no tempo seja apenas uma questão de tempo. A chave pode estar nos buracos de minhoca, nas cordas cósmicas, nos loops temporais, no multiverso e na teoria dos muitos mundos, entre outras possibilidades. Isso pode parecer roteiro de filme de ficção científica, mas o impossível só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário. Ademais, a ausência de evidência não é evidência de ausência, e desafiar os limites é o único caminho para superá-los.


Acontecimentos inexplicáveis como os mencionados nos capítulos anteriores levam água ao moinho dos teóricos da conspiração. Há quem considere os casos de Fentz, Carlssin, Titor e do Hipster de 1941 como evidências de viagens no tempo, e as pirâmides de Gizé e Stonehenge, como provas da visita de alienígenas cuja tecnologia permite viagens intergalácticas a velocidades superluminais e uso de buracos de minhoca como atalhos cósmicos. Para os céticos, nada disso prova coisa nenhuma, mas mentes obstinadas podem ser montanhas intransponíveis. 

Dizem que o futuro é um território ainda por vir. Mas e se ele já tivesse acontecido, e nós, distraídos, estivéssemos apenas tentando alcançá-lo? Quiçá o segredo não esteja em viajar pelo tempo, mas em perceber que o tempo sempre viajou por nós, dobrando memórias, adiando sonhos, reinventando passados. No fim das contas, o relógio não marca as horas: ele as fabrica. E nós, confiantes, seguimos acreditando que somos os condutores, embora seja o tempo que nos carrega pela coleira das horas..

Talvez as viagens no tempo aconteçam o tempo todo, só que sem aviso, sem passaporte e, claro, sem reembolso. Afinal, o tempo é o único viajante que nunca se perde… e ainda ri de quem tenta alcançá-lo.

Continua...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 78ª PARTE

YESTERDAY'S GONE, TOMORROW NEVER COMES.

Publicado por H.G. Wells em 1895, o romance A Máquina do Tempo não só inaugurou o conceito de uma tecnologia capaz de nos levar a outros pontos da linha temporal como espaço para dilemas filosóficos e sociais e forneceu material para os escritores e roteiristas de ficção científica.

Nos filmes, os buracos negros são retratados como “atalhos” que permitem percorrer milhares de anos-luz em poucos segundos e chegar a outras galáxias, neste ou em outro universo, no passado ou num ponto futuro da linha do tempo, mas esse papel cabe na verdade aos buracos de minhocatambém como Pontes de Einstein-Rosen.

Previstos nas soluções teóricas das equações da relatividade geral, esses túneis cósmicos ficam nas imediações ou no interior dos buracos negros. No entanto, enquanto os buracos negros “engolem” tudo que atravessa seu horizonte de eventos, os buracos de minhoca só permitem uma travessia segura se permanecerem abertos e estáveis por tempo suficiente, e isso exigiria uma quantidade imensa de um tipo hipotético de matéria com massa negativa e propriedades antigravitacionais que nunca foi observadas na natureza.

Alguns modelos matemáticos sugerem que atravessar um buraco de minhoca pode ser mais demorado do que fazer a viagem pelo espaço convencional, pois a geometria interna do túnel poderia se alongar de forma imprevisível, tornando-o não apenas inútil, mas potencialmente perigoso. Esse paradoxo entre a promessa da ficção científica e as limitações da física teórica ilustra o quanto ainda há para compreender sobre a verdadeira natureza do espaço-tempo.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

O julgamento dos mentores do assassinato de Marielle Franco foi como a radiografia que expõe as células de um tumor que virou metástase, e as condenações são parte do tratamento, não a cura.

Na cobertura da organização criminosa, estavam um conselheiro do Tribunal de Contas do Rio e um deputado federal cassado, que pegaram 76 anos e três meses de cadeia. Abaixo deles, um ex-chefe da Polícia Civil e policiais militares, cujas penas foram de 9 a 56 anos de prisão.

O crime demorou oito anos para ser julgado porque havia no banco dos réus um sujeito oculto: o Estado. A infiltração de criminosos no aparato estatal é um câncer nacional. Mas no Rio de Janeiro a doença evoluiu da contaminação para a fusão. Ali, o crime e a política operam em regime de coalizão

Milicianos e traficantes atuam como sócios na exploração de pedaços do mapa, controlam o território e os votos, elegem representantes na Câmara Municipal, na Assembleia Legislativa e no Congresso e indicam prepostos para cargos públicos, inclusive no setor de segurança. Para saber como o câncer evolui, basta olhar para o que acontece no México.


A existência de portais dimensionais no Universo é uma perspectiva sedutora. Diversos cientistas publicaram estudos sobre a possibilidade de haver buracos de minhoca nas profundezas dos buracos negros, a despeito da inexistência de provas concretas. Por outro lado, a teoria da relatividade geral sustenta que o espaço-tempo pode ser distorcido e comprimido por qualquer objeto massivo o bastante — e essa distorção é o fenômeno que chamamos de gravidade. 


Comprimindo o espaço-tempo, podemos chegar mais longe viajando menos. A metáfora da folha de papel dobrada facilita a compreensão dessa premissa, mas os pesquisadores se baseiam principalmente em cálculos matemáticos das equações de Einstein. Dependendo de como esses problemas se resolvem, um buraco de minhoca poderia criar um “atalho” no espaço-tempo através do qual seria possível chegar a um lugar distante 10 milhões de anos-luz numa fração de segundo no referencial dos astronautas, já que a velocidade com que o tempo passa diminui à medida que a velocidade do observador aumenta. Na prática, porém, as coisas podem ser diferentes.


Voltando aos buracos negros, o tamanho desses corpos celestes depende do chamado raio de Schwarzschild, que estabelece o limite crítico a partir do qual um objeto de determinada massa se torna um buraco negro. O raio de Schwarzschild do Sol, por exemplo, é de aproximadamente 3 km, e o da Terra, de aproximadamente 9 mm. Isso significa que, se o Sol fosse comprimido até atingir um raio de apenas 3 km (ou seja, 6 km de diâmetro), ele se transformaria em um buraco negro. O mesmo ocorreria com a Terra se fosse espremida até ter apenas 9 mm de raio.


Esse processo de compressão extrema não ocorre naturalmente com estrelas como o Sol. Para que uma estrela colapse e dê origem a um buraco negro no final da vida requer uma massa pelo menos dez vezes superior à do Sol. E uma vez formado o buraco negro, só seria possível escapar dele ultrapassando a velocidade da luz — algo impossível segundo a física clássica, que estabelece a luz como o limite máximo de velocidade no universo.


Os astrônomos não sabem exatamente qual o tamanho máximo que um buraco negro pode atingir, mas existem limites para tudo no Universo, incluindo esses titãs cósmicos. Quando estudam a natureza dos buracos negros, alguns cientistas optam por usar um modelo teórico (como a métrica de Schwarzschild) ou o que é conhecido como buraco negro astrofísico, que leva em conta apenas o que se pode ter certeza a respeito desses objetos. Por não ser bem compreendida, a singularidade gravitacional não é levada em conta nesses cálculos.


Observação: A singularidade gravitacional é basicamente o ponto onde toda a massa se achatou para formar um buraco negro. Esse ponto é inferior ao comprimento de Planck (10⁻³⁵ metro, cerca de 10²⁰ vezes menor que o raio do próton), mas sua densidade tende ao infinito. Como a física clássica não lida com infinitos nem com coisas menores que o comprimento de Planck, a existência da singularidade continua sendo discutida.


Além dos hipotéticos buracos de minhoca, a física teórica oferece outras possibilidades intrigantes para as viagens no tempo. Entre as soluções que derivam diretamente das equações da relatividade geral de Einstein, destacam-se os cilindros de Tipler e as cordas cósmicas — estruturas hipotéticas que poderiam distorcer o espaço-tempo de maneiras surpreendentes e potencialmente úteis nas viagens temporais, tanto para o passado quanto para o futuro.


Propostos pelo físico Frank Tipler em 1974, os Cilindros de Tipler consistem em cilindros infinitamente longos e extremamente densos girando em altíssima velocidade. Sua rotação distorceria o espaço-tempo a seu redor de tal forma que as linhas temporais se curvariam, criando curvas temporais fechadas (CTCs, na sigla em inglês), ou seja, trajetórias através do espaço-tempo que retornam ao mesmo ponto no tempo de onde partiram. 


Em teoria, uma espaçonave que orbitasse esse cilindro em espiral poderia emergir em um momento anterior ao da partida. Na prática, construir ou encontrar tal objeto exigiria uma quantidade de matéria e energia absolutamente proibitiva, além de tecnologias que nem sequer começamos a arranhar conceitualmente.


Já as cordas cósmicas são defeitos topológicos no tecido do espaço-tempo que teriam se formado nos primeiros momentos após o Big Bang, durante as transições de fase do Universo primitivo. Para facilitar a compreensão, podemos imaginá-las como "rachaduras" unidimensionais extremamente finas, mas incrivelmente densas: uma corda cósmica com a espessura de um átomo poderia pesar tanto quanto uma montanha. 


Quando passam uma pela outra em alta velocidade, duas cordas cósmicas distorcem o espaço-tempo de maneira tão intensa que criam condições para viagens temporais. No entanto, a exemplo dos Cilindros de Tipler, elas permanecem no campo da especulação, já que não existem evidências observacionais que confirmem sua existência — e mesmo que existissem, controlá-las ou interagir com elas seria um desafio colossal.


Outro conceito fascinante são os táquions — partículas hipotéticas que, em algumas formulações da teoria da relatividade, são superluminais, isto é, movem-se mais rápido que a luz. Supõe-se que sua energia diminui à medida que eles aceleram, e que eles são capazes de transmitir informações para o passado, violando o princípio da causalidade. Muitos físicos acreditam que essas partículas sejam matematicamente possíveis e fisicamente inexistentes, mas isso não muda o fato de que a perspectiva de serem reais vem dando margem a questões filosóficas sobre a natureza do tempo e da causalidade.


Em teoria, já temos o mapa dos atalhos cósmicos. Falta apenas construí-los — o que, convenhamos, é tão complicado quanto dobrar o espaço-tempo com as próprias mãos. Mas vai que algum dia alguém consegue. Talvez alguém já tenha conseguido e não contou pra ninguém — não seria a primeira vez que a ciência se disfarça de ficção — e vice-versa.


Talvez as chaves do tempo não estejam apenas nas equações de Einstein, mas também nas entrelinhas da curiosidade humana — esse motor que, desde H.G. Wells, insiste em girar no sentido contrário das impossibilidades. Há até quem diga que o primeiro a realmente testar uma dessas teorias não foi um físico, e sim um homem comum — cujo desaparecimento ainda hoje intriga tanto quanto as equações que ele dizia ter decifrado. Em última análise, impossível mesmo é voltar atrás depois de cruzar o horizonte de eventos da própria curiosidade.


Continua…