Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta canalha. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta canalha. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de março de 2021

O CÚMULO DA CANALHICE

 

Vinte e dois meses atrás, ao votar pela prisão de Michel Temer, o desembargador Abel Gomes, do TRF da 2ª Região, sustentou que, pela forma “incisiva, insidiosa, grave e insistente”, o vampiro do Jaburu deveria ficar preso para ser mantida a ordem pública. Nas palavras do magistrado, “se tem rabo de jacaré, couro de jacaré e boca de jacaré, não pode ser um coelho branco”. 

Seguindo essa mesma linha de raciocínio e após tecer as considerações que eu elenco a seguir, o blogueiro, colunista e “contestador por natureza” Ricardo Kertzman concluiu que se Bolsonaro fala como um canalha, age como um canalha e se comporta como um canalha, então Bolsonaro é um canalha.

De acordo com Kertzman, um canalha ataca pelas costas, e Bolsonaro atacou Roberto da Cunha Castello Branco, presidente da Petrobras, da segurança de seu chiqueirinho à porta do Alvorada (ou pelas redes sociais). Disse que o executivo não trabalhava havia 11 meses porque, idoso, está em “home office”. Detalhe: contrariando a previsão de prejuízo dos analistas, a estatal surpreendeu com um lucro recorde R$ 59,9 bilhões no 4º trimestre de 2020, apesar da pandemia.

Um canalha culpa os outros sem nominá-los, e Bolsonaro, outra vez, colocou a culpa da sua própria incapacidade “neles”. Quem? Nunca dirá, pois não existem. Aliás, bem ao estilo Lula de ser, o corrupto que sempre culpava o tal “eles” pelas besteiras que fazia.

Um canalha acusa sem provas, e Bolsonaro é useiro e vezeiro nessa “arte”. Estamos esperando até hoje as provas de fraude nas eleições presidenciais de 2018 e a emocionante revelação de quem são os agentes do mercado que “estavam gostando” da política de preços da Petrobras.

Um canalha sempre agride para se defender, e Bolsonaro, em vez de explicar os famosos “micheques”, parte para ofensas contra quem lhe pergunta a respeito. Dessa vez, mirou suas cretinices contra os executivos da Petrobras, que “ganham muito sem trabalhar”.

Um canalha usa e abusa do diversionismo — e Bolsonaro, para se livrar de assuntos incômodos, como a rachadinhas de Zero Um, inventa factoides como distração — e recorrer frequentemente ao patriotismo — e Bolsonaro, como Samuel Johnson já nos ensinou em 1775, cumpre à máxima: “o patriotismo é o último refúgio do canalha”. Um canalha mente sem remorso, e Bolsonaro é capaz de mentir sobre qualquer coisa para se livrar de responsabilidades, como a falta de vacinas. E mente ao dizer que não irá interferir na estatal. Ou o que significa “meter o dedo”? Tirar meleca do nariz?

Um canalha não tem piedade, e Bolsonaro jamais se solidarizou de forma honesta com quem perdeu amigos e familiares para a Covid. Afinal, “e daí”, né? (Fico aqui a imaginar o desespero de milhares de pequenos investidores que acreditaram no mito do mito liberal.)

Um canalha é egoísta, só pensa em si mesmo; Bolsonaro não se importa com ninguém e não hesita em atropelar quem se coloca no caminho de sua obsessiva reeleição. Foi assim com Sergio Moro e assim será em breve com Paulo Guedes.

Um canalha vive cercado de canalhas, e Bolsonaro cerca-se de Sara Winter, Daniel Silveira, Collor de Mello, Arthur Lira, Valdemar Costa Neto, Eduardo Bananinha, Carluxo Bolsonaro, Flávio Rachadinha e outros bolsonaristas canalhas.

quarta-feira, 23 de junho de 2021

NÃO HÁ VENTO BOM PARA NAU SEM RUMO

Cala (sic) a boca! Vocês são uns canalhas! Vocês fazem um jornalismo canalha que não ajuda em nada! Vocês destroem a família brasileira, destroem a religião brasileira! Vocês não prestam!

Bolsonaro está sob pressão. Da CPI e das ruas. Mas nada debilita mais sua imagem do que a própria língua. Ontem, em Guaratinguetá, ele voltou a exibir o que tem por dentro ao perder o controle durante uma entrevista. Irritado com uma pergunta sobre o uso de máscara, chamou a repórter de canalha e mandou-a calar a boca. Como se não bastasse, desancou duas emissoras de televisão usando expressões que não convém repetir aqui (em respeito às crianças, como salientou Josias de Souza em seu comentário no Jornal da Gazeta desta segunda-feira). 

No relacionamento entre a imprensa e os políticos, não há perguntas embaraçosas, apenas respostas constrangedoras. As entrevistas de Bolsonaro sempre foram marcadas pelo constrangimento, não pelas perguntas que ele não é capaz de ouvir, mas pelas respostas que não é capaz de fornecer. O capitão já questionou a sexualidade de um repórter, manifestou a vontade de encher de porrada a boca de outro profissional da imprensa, ofendeu a mãe de um terceiro, fez gracejos sexistas em relação a uma jornalista e chamou outra profissional de quadrúpede. Seu comportamento não é normal. É absurdo. Incapaz de elevar a própria estatura, o mandatário rebaixa o teto da Presidência. 

Um presidente não é apenas uma faixa. É preciso que, por detrás da faixa, exista uma noção qualquer de qualificação. Bolsonaro adoraria que a imprensa ajustasse a realidade ao Brasil paralelo onde ele decidiu viver. A função da imprensa não é ajudar governos, mas informar à sociedade o que está acontecendo. O ataque histérico que a pergunta da repórter Laurene Santos, da TV Vanguarda (afiliada da Globo), desencadeou no presidente foi mais um episódio lamentável a comprovar o mais absoluto despreparo de Bolsonaro para exercer o cargo que ocupa. Mas é assim que ele ganha as manchetes e alimenta os robôs da sua tropa de choque nas redes sociais. 

Isso nos leva a imaginar (não sem preocupação) como estará o clima em outubro do ano que vem. Mas a pergunta que não quer calar é: a que horas esse presidente governa?

***

Osmar Terra foi ouvido como convidado, nesta terça-feira, pela CPI do Genocídio. Como tal, o ex-ministro da Cidadania do capitão-cloroquina não estava obrigado a prestar juramento — e não o fez. Numa tentativa de minimizar as suas declarações estapafúrdias, ele admitiu subestimou o impacto da pandemia (segundo sua previsão, o número de mortos não chegaria a 2 mil). Até o momento em que eu concluí este texto (16h20), a equipe do senador Renan Calheiros, relator da Comissão, havia apontado oito contradições no depoimento do médico.

Terra disse que as mudanças nas projeções ocorreram devido ao advento de variantes de Covid (coisa que, segundo ele, jamais aconteceu em outras pandemias) e insistiu na tese de que o distanciamento social implementado por governadores e prefeitos não ajudou a evitar o contágio nem as mortes pela doença. O deputado negou que integrasse o chamado gabinete paralelo — que chamou de “ficção”, embora tenha admitido que se reuniu com pessoas apontadas pela CPI como suspeitas de participar do grupo — e que defendesse a “imunidade de rebanho”

O deputado gaúcho negou à CPI ser defensor da imunidade de rebanho, mesmo confrontado com vídeos e falas dele em prol dessa tese, e se disse favorável à compra das vacinas, contrariando um sem-número de ressalvas que fez à aquisição de imunizantes. “Genocida? Nosso presidente não teve poder de decidir nada, não teve a caneta na mão”, afirmou o depoente — que foi prontamente contestado presidente da Comissão: “Não tem mentira maior de dizer que o STF tirou poder do presidente. Isso é a maior mentira que existe”, disse o senador Omar Aziz sobre a decisão do Supremo que deu autonomia a Estados e municípios para tomar medidas contra a propagação da doença, mas jamais eximiu a União de realizar ações e de buscar acordos com gestores locais. Para saber o que é fato ou fake nas declarações do ex-ministro da Cidadania do desgoverno Bolsonaro, siga este link.

*** 

Dados publicados no site Our World in Data dão conta de que a vacinação começou em meados de dezembro em países como Israel, Canadá, Rússia e China. No Brasil, o ministério da Saúde enjeitou a primeira oferta da Pfizer — de 70 milhões de doses — em 14 agosto de 2020 e outras duas ofertas — de 70 milhões de doses cada — nos dias 18 e 26 daquele mês. Todas elas previam o início da entrega de doses ainda no ano passado. A terceira oferta, feita em 26 de agosto, previa a entrega de 1,5 milhão de doses em dezembro de 2020 e outros 3 milhões no primeiro trimestre de 2021 — o resto seria entregue ao longo do ano.

O fantoche do capitão-negação à frente do quartel da Saúde só “se mexeu” quando Doria disse que começaria a vacinar os paulistas no dia 25 de janeiro — aniversário da capital do Estado — se até lá o governo federal não despertasse de sua bizarra letargia. Assim, quando a campanha nacional teve início do Brasil, Estados Unidos e China já haviam imunizado cerca de 30 milhões de pessoas, o Reino Unido, 10 milhões e Israel e Índia, 5 milhões cada.

Pazuello, a quintessência triestrelada da logística, foi o pior ministro de Estado de toda a história do Brasil. E o mais longevo ministro da Saúde da gestão capitaneada pelo pior presidente desde 1889, ano em que Deodoro da Fonseca proclamou a República (para depois ser guindado à presidência e, em seguida, apeado pelo primeiro dos muitos goles de Estado que abrilhantariam a história desta banânia).

Como a tampa e o penico, o general-vassalo e o capitão-suserano parecem ter sido feitos uma para o outro. Se serão responsabilizados por seus atos, só o futuro dirá. Mas, cá entre nós, um governante que, por incúria ou projeto, contribui para a morte de mais de meio milhão de pessoas não pode continuar no comando em meio à guerra que o país está perdendo para a Covid justamente por falta de comando. Por outro lado, num país onde até o passado é incerto e Augusto Aras é o Procurador-geral da República (a quem cabe denunciar o presidente por crime comum), Arthur Lira, o presidente da Câmara Federal (a quem cabe dar andamento a um pedido de abertura de processo de impeachment contra o chefe do Executivo) e mais alta cúpula do Judiciário... enfim, prefiro não comentar. Fato é que a única certeza que se tem neste arremedo de República é a de que não se tem certeza de nada.

Noves fora alguns excessos pontuais e certa desorganização nos interrogatórios, a CPI do Genocídio está deslindando um mistério aterrorizante. A começar pelo fato de os defensores atávicos do mandatário de fancaria — muitos do quais foram incluídos lista de investigados do senador-relator e multinvestigado Renan Calheiros não só mentiram descaradamente à Comissão como ocultaram detalhes estarrecedores sobre este governo — entre os quais o famigerado “gabinete paralelo”, a estratégia de não comprar vacinas para forçar a imunidade de rebanho, o malfadado tratamento precoce com cloroquina, ivermectina e outros fármacos cuja ineficácia foi atestada tanto pela Anvisa quanto pela OMS, e por aí segue a processão.  

Para os bolsonaristas, todos os organismos internacionais são dominados por comunistas e sua orientação não tem valor, pois a soberania do país deve prevalecer sobre as regras gerais. Assim, a política do governo federal, contrária ao distanciamento social, o uso de máscara e a vacinação em massa, impediu que quatro de cada cinco mortes por Covid fossem evitadas. Enquanto isso, Bolsonaro chancela um relatório paralelo — irresponsável e desqualificado em termos científicos — que aponta para uma superestimação do número de vítimas fatais do vírus maldito, a despeito de estudos acadêmicos sérios e confiáveis apontarem que a subnotificação de mortes pode chegar a 40%. Mas quem se espanta? Bolsonaro nunca teve apreço pela verdade (ou não teria sido deputado federal por 7 mandatos), mas acastelar-se no Planalto transformou o “mito” dos microcéfalos num mitômano de quatro costados.

Somado a outras políticas estapafúrdias, o genocídio dos brasileiros — caso exemplar de improbidade administrativa do governo de turno — não pode ser visto como resultado de um “erro de avaliação”. As ações adotadas pelo governo a pretexto de “combater a pandemia” contrariaram flagrantemente todas as recomendações dos órgãos oficiais, da OMS a organizações cientificas internas e externas, deixando claro que o projeto político-eleitoreiro do chefe do Executivo é uma prática criminosa.

Em defesa desse funério governo, pode-se até dizer que não houve dolo — no sentido de intenção de matar — mas negar o mais que evidente dolo eventual — que se caracteriza quando o autor sabe dos riscos e consuma o ato mesmo assim — exigiria um exercício de retórica que transcende a capacidade argumentativa do mandatário de turno et caterva

Lamentavelmente, a interminável lista de crimes (comuns e de responsabilidade) não sensibiliza o PGR a denunciar o presidente, nem o mandachuva do Centrão a dar andamento a um dos mais de 100 pedidos de impeachment (detalhes no § 3) protocolados na secretaria da Câmara.

Alguém precisa alertar esses senhores de que não há mais tempo a ganhar à espera de uma melhora econômica — que, de resto, não trará de volta meio milhão de desinfelizes que tiveram sentença de morte decretada e executada por um governo ímprobo e incompetente.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

COMO DIRIA PAZUELLO, É SIMPLES ASSIM (PARTE II)


Ainda sobre os discursos golpistas do ex-capitão tiranete, se a fala em Brasília foi ruim — uma peça de pura provocação contra os poderes, inclusive o dele, já que suas atitudes criam entraves ao andamento do governo e com isso aumenta a desaprovação ao presidente —, a de São Paulo foi ainda pior.

Além de manter as agressões, Bolsonaro chamou de "canalha" o ministro Alexandre de Moraes e incitou a violência do público contra ele arrastando seus apoiadores ao perigoso terreno da aventura, acusou o presidente do TSE de fraudar as eleições de 2022, e deixou claro que: 1) não pretende cumprir decisões judiciais; 2) não reconhecerá o resultado do pleito se for derrotado (qualquer semelhança com Donald Trump não é mera coincidência). 

Observação: Como se sabe, Bolsonaro recuou e se retratou, embora não tenha tido a hombridade de ler ao vivo e em cores a carta que o vampiro do Jaburu escreveu a seu pedido. Mas há outro fato igualmente grave: ninguém sabe o que eles conversaram, e só Michel Temer sabe se houve algum escambo entre eles. E dois detalhes curiosos: 1) por 3 votos a 2, a 2ª Turma das togas "entendeu" pela suspeição do ex-juiz Sérgio Moro no julgamento do processo do tríplex de Lula; 2) sobre o atual decano do STF, brilhantemente definido por J.R. Guzzo como "fotografia ambulante do subdesenvolvimento brasileiro, mais um na multidão de altas autoridades que constroem todos os dias o fracasso do país", disse um seu colega de toga, em meio a memorável bate-boca: "Há no Supremo gabinete distribuindo senha para soltar corrupto, sem qualquer forma de direito e numa espécie de ação entre amigos". Em outra oportunidade, esse mesmo colega se referiu ao semideus togado como "uma pessoa horrível, uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia" e o acusou de "desmoralizar o Tribunal". Pois é.

Bolsonaro fez um périplo verbal pelo código penal e pela tipificação do crime de responsabilidade. Depois disso, imaginar-se-ia que o dublê de deputado-réu e presidente da Câmara Federal (também chamada de Casa do Povo) daria seguimento a um dos 136 pedidos de impeachment sobre os quais vem mantendo seu avantajado buzanfã desde fevereiro passado. Leda pretensão: em nenhum momento de sua manifestação (serôdia) sobre a participação do chefe do Executivo nos atos golpistas o deputado alagoano mencionou "impeachment" ou mesmo "crime de responsabilidade".

Os discursos dos presidentes do STF, ministro Luiz Fux (clique aqui para assistir) e do TSE, Luis Roberto Barroso (clique aqui para ler), foram mais incisivos, mas nenhum dos dois deu mostras de que tenciona passar do palavrório para a ação. Há que diga que não existe motivo para tanto, visto que Bolsonaro se retratou (ou se desculpou, ou arregou, como queiram). Mas eu acho que não é por aí.

Não estamos falando de ingênuas Polianas ou crédulas Velhinhas de Taubaté, mas de magistrados experientes. De mais a mais, a patética carta assinada pelo capitão foi escrita pelo igualmente patético ex-presidente Michel Temer, cuja patética passagem pelo Planalto se notabilizou pelos patéticos episódios de escapismo que o ex-vice da patética gerentona de araque protagonizou para fugir das "flechas de Janot".

Como anotou Josias de Souza em sua coluna, faz papel de bobo quem acredita nas variantes moderadas de Jair Bolsonaro, o presidente que agora aderiu a uma nova modalidade de negacionismo: o negacionismo mental.

O pandemônio autoritário era um "golpezinho", o "canalha" do Alexandre de Moraes era apenas uma cepa secundária do respeitado "jurista e professor", e a nova onda do imperador fortão não passava de "conversinha" para dormitar bovinos. Percebendo que havia transformado o trono numa cadeira elétrica, nosso indômito capitão devolveu o Bolsonaristão ao Brasil e fundou uma nova monarquia. Nela, reina o Bolsotemer, um híbrido com o miolo mole do Jair Bolsonaro e a caligrafia do Michel Temer.

Para fundar o novo reino, divulgou-se uma carta à nação. O texto é mais longo do que deveria, mas traz nas entrelinhas apenas dois artigos: 1º) Todo brasileiro sem vergonha na cara deve esquecer as barbaridades que Bolsonaro fez desde o início do seu mandato e as atrocidades que ele declarou nas últimas 48 horas; 2º) Revogam-se as disposições em contrário.

Cerca de três horas após a divulgação da carta, o imperador levou ao ar sua indefectível live semanal das noites de quinta-feira. Em meio a muita desconversa, teve uma recaída. Em resposta ao presidente do TSE, que o chamara de "farsante", voltou a questionar a segurança das urnas eletrônicas. Disse que as "palavras bonitas" de Barroso não convencem ninguém, pois "as urnas são penetráveis".

Ficaram entendidas quatro coisas: 1) Michel Temer é um tranquilizante com prazo de validade vencido. 2) Jair Bolsonaro, personagem que defende a cloroquina e desrespeita as prescrições alheias, precisa do acompanhamento de um profissional da psiquiatria. 3) O Brasil é um país à deriva sem um presidente.

Como diria Pazuello, é simples assim. E viva o povo brasileiro.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

SE FOR POR FALTA DE ADEUS, "TCHAU, QUERIDO"

 


O ex-decano Marco Aurélio Mello gostava parafrasear Platão, repetindo ad nauseam que "vivemos tempos estranhos". Mas o fato é que o Brasil é um país estranho.

Em apenas uma semana, após assinar um patético documento intitulado pomposamente como "Declaração à Nação" pelo respectivo redator — o ex-presidente Michel Temer —, o presidente desta banânia passou de conspirador-mor da República a respeitador das instituições e da Constituição.

A súbita conversão ocorreu logo na introdução, onde o vampiro do Jaburu anota que "o país se encontra dividido entre instituições", o que, convenhamos, não é fácil entender. Mas já dizia o saudoso maestro Tom Jobim, brasileiro até no nome (Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim), que o Brasil não é para amadores.

Se a introdução é pouco feliz, o documento fica pior quando expõe os dez pontos da inútil declaração. Diz que "respeita os outros dois Poderes e que deve haver harmonia entre eles" — estranho que um presidente da República, que jurou respeitar a Constituição, tenha de reafirmar esse compromisso. Como se já não bastasse esse mau sinal, o documento afirma em seguida que "boa parte dessas divergências decorrem de conflitos de entendimento acerca de decisões adotadas pelo ministro Alexandre de Moraes no âmbito do inquérito das fake news."

Só que a epístola não aponta as tais "divergências", o que desautoriza qualificar os ataques criminosos contra o Supremo e as injúrias, calúnias e ameaças de morte assacadas contra o Alexandre de Moraes como simplesmente uma disputa entre intérpretes da Constituição.

Continuando no terreno da mediocridade analítica da complexa relação entre os Poderes, o miliciano de Rio das Pedras diz — em tom de ameaça — que ninguém tem direito de "esticar a corda", e relaciona tal reflexão — digna de um beócio — com a economia e a vida dos brasileiros. E conclui afirmando que suas "palavras contundentes" foram ditas no calor do momento. Mas quais palavras? Quais momentos?

O fecho da frase é fantástico, digno do momento político que vivemos: os ataques à Constituição, as ameaças de golpe de Estado, o estímulo à violência como método político forma transformados, como num passe de mágica, em "embates que sempre visaram ao bem comum."

Não cumprir decisão judicial, como o mito dos otários proclamou que faria em relação às decisões do ministro Alexandre de Moraes, virou "naturais divergências" na novilingua bolsonarista. E o epíteto "canalha", como o capetão se referiu ao magistrado, foi reinterpretado: na versão epistolar, Moraes ganha os atributos de jurista e professor.

Não fosse trágico, seria cômico o jurista de Rio das Pedras dissertar sobre o artigo 5º da Constituição — que nunca leu, registre-se — e lançar luzes milicianas à sua mui particular interpretação da Carta Magna, dando-nos a saber que ele respeita — ufa, mais uma vez — as instituições e — como um Péricles do submundo carioca —, assevera que na democracia os três Poderes trabalham em favor do povo.

Concluiu a "Declaração à Nação" com duas frases que o Doutor Pangloss, com seu inveterado otimismo, diria que são enigmáticas, mas podem ser definidas como o produto de um redator medíocre que desconhece a Constituição, o pensamento lógico e a língua de Camões.

Afirmou o signatário da missiva que sempre esteve "disposto a manter diálogo permanente com os demais Poderes pela manutenção da harmonia e independência entre eles." Manter diálogo é o mínimo que se espera de quem diz respeitar (e jurou!) a Constituição. Agora não é ele — que personifica o Executivo federal — quem vai manter a harmonia e independência entre os Poderes!

Bolsonaro — ou o tosco redator — quer reescrever o caput do artigo 102 da CF (Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda da Constituição"). O "último mandamento", o décimo, Bolsonaro agradece o apoio do povo brasileiro (?) e diz: "conduzo os destinos do nosso Brasil."

A redação é ruim, é verdade. Porém, é possível compreender que é ele quem conduz o nosso destino! Agora temos o condottiere de Rio das Pedras. Para piorar, cita, no final o lema integralista que, imagina-se, deixaria envergonhado Plínio Salgado — que ao menos sabia escrever, e bem.

O patético documento foi recebido como se fosse um discurso de Winston Churchill. Sinal da decadência política do Brasil.

Bolsonaro precisava ganhar tempo para continuar solapando as instituições. Se León Trotsky falava em revolução permanente, o "mito" dos bolsomínions age para produzir o caos permanente. E a crise institucional vai se agravar para além do desastre econômico, social e sanitário.

Em Os Bruzundangas, Lima Barreto desenhou um país muito semelhante ao Brasil contemporâneo. Inclusive, a Constituição estabelecia que para ser elegível o Presidente "devia unicamente saber ler e escrever; que nunca tivesse mostrado ou procurado mostrar que tinha alguma inteligência; que não tivesse vontade própria; que fosse, enfim, de uma mediocridade total." Por mais estranho que pareça, Jair Bolsonaro consegue ser pior.

Em meio a uma contagem regressiva para o próximo surto de Bolsonarite, o TSE disparou no rumo do gabinete presidencial uma bala perdida que desafia o armistício. Por decisão do corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Luis Felipe Salomão, a Corte vai apurar se houve propaganda eleitoral antecipada e abuso de poder nas manifestações promovidas por Bolsonaro no 7 de Setembro.

A providência foi tomada no âmbito do inquérito administrativo sobre a disseminação de mentiras que associam as urnas eletrônicas a fraudes inexistentes e ameaças ao processo eleitoral de 2022. Esse inquérito foi aberto no mês passado, por decisão unânime dos sete ministros que compõem o plenário do TSE.

O TSE coleciona dados para instruir uma eventual decretação da inelegibilidade de Bolsonaro, o que impediria o presidente de disputar a reeleição em 2022. Esse tipo de procedimento não depende de denúncia da Procuradoria-Geral. Ou seja, está fora do alcance da blindagem de Augusto Aras.

Deseja-se apurar a origem das verbas que financiaram os atos estrelados pelo mandatário no Dia da Independência, incluindo o custo do transporte e diárias de manifestantes e a confecção de material em defesa do voto impresso. Além dos indícios de abuso de poder econômico, os atos podem ser enquadrados como campanha fora de época, o que é crime eleitoral.

O custeio das manifestações será apurado também em inquérito aberto no STF sobre agressões à Corte e seus ministros por bolsonaristas que se envolveram na operação que subverteu os festejos do 7 de Setembro. O relator desse inquérito é Alexandre de Moraes, que Bolsonaro, em sua versão moderada, trata como um "ex-canalha".

Já passou da hora de pôr um paradeiro nesse descalabro. Como dizia Giovanni Improtta (protagonizado pelo saudoso José Wilker), "o tempo ruge e a Sapucaí é grande".

sábado, 20 de fevereiro de 2021

AINDA SOBRE A APATIFANTE PATIFARIA


Ainda sobre a prisão do deputado bolsonarista Daniel Silveira, a denúncia do MPF, assinada pelo vice-procurador-geral da República Humberto Jacques de Medeiros, se deu no âmbito do inquérito que investiga o financiamento e a organização de atos antidemocráticos, e a prisão ocorreu com base no inquérito das fake news, que apura informações falsas e ofensas a ministros da Suprema Corte (o deputado é alvo dos dois inquéritos). Segundo Moraes, a prisão foi em flagrante porque o vídeo foi disponibilizado a quem quisesse assisti-lo, o que caracteriza crime continuado. A gravação, que inclui xingamentos e acusações a magistrados (alguns citados nominalmente), estava disponível neste link, mas foi retirado do ar (por “violar a política do YouTube sobre assédio e bullying”) e colocada em modo privado no canal “Política Play”.

Ontem à noite, por 364 votos a favor e 130 contra, o plenário da Câmara chancelou o relatório favorável à mantença da prisão decretada pelo ministro Alexandre de Moraes. Houve três abstenções.

Observação: Ao pôr a Alemanha Nazista de joelhos, o chanceler britânico Sir Winston Churchill assim se pronunciou: “Se Hitler invadisse o Inferno, eu faria uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns”, No Brasil não há Câmara dos Comuns, mas sobram presidentes incomuns. Incomumente corruptos, incomumente incompetentes, incomumente boçais. Se eu sobreviver aos últimos três (noves fora o vampiro, porque vice promovido a titular não conta), comprometo-me a enviar um telegrama de condolências ao Diabo. Afinal, nem ele merece tanta desgraça junta.

Curiosamente, dos 4 dos 11 togados que compõem o colegiado não foram citados (Cármen Lúcia, Nunes Marques, Ricardo Lewandowski e Rosa Weber). Marco Aurélio tem seu nome mencionado, mas não foi alvo de qualquer ofensa específica, e Luiz Fux foi citado nominalmente, mas não desrespeitosamente: O único que respeito em conhecimento é o Fux. Único que respeito em conhecimento jurídico de fato

O portal Poder360publicou a transcrição do vitupério, que eu reproduzo a seguir:

  • Edson Fachin – “Seu moleque, seu menino mimado, mau-caráter, marginal da lei, militante da esquerda, lecionava em uma faculdade, sempre militando pelo PT, pelos partidos narcotraficantes, nações narcoditadoras (…) Fachin, você integra, tipo assim, a nata da bosta do STF, certo? (…) Militante idiotizado, lobotomizado, que atacava militares junto com a Dilma [Rousseff], aquela ladra, vagabunda. Com o multicriminoso Luiz Inácio Lula da Silva, de 9 dedos, vagabundo, cretino, canalha. O que acontece, Fachin, é que todo mundo já está cansado dessa sua cara de filho da puta que tu tem. Essa cara de vagabundo, né(…) Por várias e várias vezes já te imaginei tomando uma surra. Ô… quantas vezes eu imaginei você e todos os integrantes dessa Corte. Quantas vezes eu imaginei você, na rua, levando uma surra. O que você vai falar? Que eu tô fomentando a violência? Não. Eu só imaginei. Ainda que eu premeditasse, ainda assim não seria crime. Você sabe que não seria crime. Você é um jurista pífio. Vai lá e prende o Villas Bôas, rapidão, só pra gente ver um negocinho. Se tu não tem coragem, porque tu não tem, tu não tem colhão roxo pra isso”. “Você tem que tomar vergonha na sua cara, olhar, quando você for tomar banho, olhar o bilauzinho que você tem e falar: ‘Pô, eu acho que sou um homenzinho. Eu vou parar com as minhas bobeirinhas’. Ah, o quê? Eu estou sendo duro demais? Tô sendo o quê, ogro? Ah, tô sendo tosco? O que você espera? Que eu seja o quê? Que eu tenha um tipo de comportamento adequado para tratar a Vossa Excelência? É claro que eu não vou ter. Eu sei que você está vendo esse vídeo aí”. “[Está] previsto lá no artigo 101 da Constituição os requisitos pra que vocês se tornem ministros, totalmente esvaziados, totalmente inócuos. Totalmente oligofrênicos, ignóbeis. É o que vocês são”. “Principalmente você, Fachin. Você integra, tipo assim, a nata da bosta do STF, certo?”;
  • Roberto Barroso – “[sobre ter “colhão roxo” prender o general Villas Bôas] O Barroso, aí que não tem mesmo. Na verdade ele gosta do colhão roxo”;

  • Alexandre de Moraes – “O Oswaldo Eustáquio, jornalista que vocês chamam de blogueiro, foi preso pelo ‘Xandão do PCC’. Está aí, preso ilegalmente. Eu tive acesso ao diário dele. Sabia, Alexandre de Moraes, que eu tive acesso ao diário dele manuscrito na prisão? Dos agentes que o torturaram? Sabia que eu sei? Sabia que eu sei que um [agente] chegou no ouvido dele e falou assim: ‘A nossa missão é eliminar você’. Sabia que eu sei? Eu sei. E eu sei de onde partiram essas ordens. Acha que eu tô blefando? Por que, Alexandre, você ficou putinho porque mandou a Polícia Federal na minha casa uma vez e não achou nada, na minha quebra de sigilo bancário e telemático? É claro que tu não vai achar, idiota, eu não sou da tua laia, eu não sou da tua trupe. Dessa bosta de gangue que tu integra. Não. Aqui você não vai encontrar nada. No máximo, uns trocadinhos. Dinheiro pouco a gente tem muito. É assim que a gente fala. Agora, ilegal a gente não vai ter nada. Será que você permitiria a sua quebra de sigilo telemático? A sua quebra de sigilo bancário? Será que você permitiria a Polícia Federal investigar você e outros 10 aí da ‘supreminha’? Você não ia permitir. Vocês não têm caráter, nem escrúpulo, nem moral para poder estar na Suprema Corte.”;
  • Dias Toffoli – “Levaram o [meu] celular, a Polícia Federal. Ninguém falou nada. Ninguém mandou um ofício dizendo [que era] relacionado ao mandato [de deputado federal]. Mas quando foram apreender o do [senador] José Serra, rapidamente, quase que num estalar de dedos, [Dias] Toffoli foi lá e, de ofício, [disse] ‘não pode apreender o celular do José Serra, não pode apreender o notebook do José Serra. São relacionados ao mandato’. Dois pesos e duas medidas. Não dá, né, chefe?”;

  • Gilmar Mendes – “Solta os bandidos o tempo todo. Toda hora dá um habeas corpus. Toda hora, vende um habeas corpus, vende sentenças, compra o cliente. ‘Opa, foi preso [por] narcotráfico, opa manda pra mim, eu vou ser o relator, tendo ou não a suspeição, desrespeitando o Regimento Interno dessa supreminha aí que de suprema nada tem. [Está] previsto lá no artigo 101 da Constituição os requisitos pra que vocês se tornem ministros, totalmente esvaziados, totalmente inócuos. Totalmente oligofrênicos, ignóbeis. É o que vocês são”. “Gilmar Mendes… isso aqui é só [gesticula com os dedos, indicando dinheiro]… É isso que tu gosta, né, Gilmarzão? A gente sabe”.

Parte inferior do formulário

Segue a transcrição das falas do congressista, na íntegra:

“Fala, pessoal, boa tarde. O ministro [Edson] Fachin começou a chorar, decidiu chorar. Fachin, seu moleque, seu menino mimado, mau caráter, marginal da lei, esse menininho aí, militante da esquerda, lecionava em uma faculdade, sempre militando pelo PT, pelos partidos narcotraficantes, nações narcoditadoras. Mas foi aí levado ao cargo de ministro porque um presidente socialista resolveu colocá-lo na Suprema Corte pra que ele proteja o arcabouço do crime do Brasil, que é a nossa Suprema, que de suprema nada tem.

Fachin, sabe… às vezes fico olhando as tuas babaquices. As tuas bobeiras que você vai à mídia para chorar, ‘olha o artigo 142 está muito claro lá que as Forças Armadas são reguladas na hierarquia e disciplina e blá-blá-blá, vide o que aconteceu no Capitólio [sede do Congresso dos EUA] porque no Capitólio quando tentaram dar um golpe…’ aquilo não é golpe, não, filhinho. Aquilo ali foi parte da população revoltada que, na minha opinião, foram infiltrados do Black Lives Matter, dos antifas, blackblocks, coisa que você e a sua trupe que aí integra defendem. Vocês defendem a todo custo esse bando de terrorista, esse bando de vagabundo. Vagabundo protege vagabundo. Mas não é essa besteira que a gente vai discutir.

Agora, você fala que o general Villas Bôas, quando fez um tuíte afirmando que deveria ser consultada a população e também as instituições, se deveria ou não utilizar o modus operandi do processo de Lula, hoje você se sente ofendidinho dizendo que ‘ah, isso é pressão sobre o Judiciário, é inaceitável, intolerável’. Vai lá! Prende o Villas Bôas, pô, seja homem uma vez na sua vida. Vai lá e prende o Villas Bôas. Fala pro Alexandre de Moraes, homenzão, né, o fodão, vai lá e manda prender o Villas Bôas, manda, vai lá e prende o general do Exército. Quero ver. Eu quero ver, Fachin, você, [os ministros] Alexandre de Moraes, Marco Aurélio Mello, Gilmar Mendes, o que solta os bandidos o tempo todo. Toda hora dá um habeas corpus. Toda hora vende um habeas corpus, vende sentenças, compra o cliente. ‘Opa, foi preso [por] narcotráfico, opa manda pra mim, eu vou ser o relator, tendo ou não a suspeição, desrespeitando o Regimento Interno dessa supreminha aí que de suprema nada tem. [Está] previsto lá no artigo 101 da Constituição os requisitos pra que vocês se tornem ministros, totalmente esvaziados, totalmente inócuos. Totalmente oligofrênicos, ignóbeis. É o que vocês são. Principalmente você, Fachin. Você integra, tipo assim, a nata da bosta do STF, certo?

E o que acontece é que vocês pretendem permanecer sempre intocáveis. O Villas Bôas disse isso mesmo tudo Fachin. Deixa eu te ensinar isso aqui, e debato com você ao vivo a hora que você quiser. Sobre arcabouço jurídico, filosofia do Direito. Podemos debater tranquilamente sem os seus 200 assessores que, inclusive, tem juizes aí na sua assessoria, sem eles, sem papelzinho na mesa, assim, tête-à-tête. Eu poderia debater com você, Alexandre de Moraes. Tranquilamente. Daí, o único que respeito em conhecimento é o [ministro Luiz] Fux. Único que respeito em conhecimento jurídico de fato e debateria com qualquer um de vocês, sem problema. Não iria dar uma surra de jurídico ou intelectual. Agora, que você tem que tomar vergonha na sua cara, olhar, quando você for tomar banho, olhar o bilauzinho que você tem e falar: ‘Pô, eu acho que sou um homenzinho. Eu vou parar com as minhas bobeirinhas’. Ah, o quê? Eu estou sendo duro demais? Tô sendo o quê, ogro? Ah, tô sendo tosco? O que que você espera? Que eu seja o quê? Que eu tenha um tipo de comportamento adequado para tratar a Vossa Excelência? É claro que eu não vou ter. Eu sei que você está vendo esse vídeo aí, daqui a pouco seus assessores, e o Alexandre de Moraes, e [Dias] Toffoli. Mas eu estou ó [bate com as mãos] cagando e andando para vocês.

O que quero saber é quando que vocês vão lá prender o general Villas Bôas. Eu queria saber o que que você [Fachin] vai fazer com os generais? Os homenzinhos de botão dourado, lembra? Você lembra do AI-5 [Ato Institucional nº 5]. Você lembra. Para. Eu sei que você lembra. Ato Institucional número 5, de um total de 17 atos institucionais. Você lembra. Você era militante lá do PT, partido comunista. Você era da aliança comunista do Brasil. Militante idiotizado, lobotomizado, que atacava militares junto com a Dilma [Rousseff], aquela ladra, vagabunda. Com o multicriminoso Luiz Inácio Lula da Silva, de 9 dedos, vagabundo, cretino, canalha. O que acontece, Fachin, é que todo mundo já está cansado dessa sua cara de filho da puta que tu tem. Essa cara de vagabundo, né. Decidindo aqui no Rio de Janeiro que polícia não pode operar enquanto o crime vai se expandindo cada vez mais. Me desculpe, ministro, se estou um pouquinho alterado. Realmente eu tô. Por várias e várias vezes já te imaginei tomando uma surra. Ô… quantas vezes eu imaginei você e todos os integrantes dessa Corte. Quantas vezes eu imaginei você, na rua, levando uma surra. O que você vai falar? Que eu tô fomentando a violência? Não. Eu só imaginei. Ainda que eu premeditasse, ainda assim não seria crime. Você sabe que não seria crime. Você é um jurista pífio, mas sabe que esse mínimo é previsível.

Então, qualquer cidadão que conjecturar uma surra bem dada nessa sua cara com um gato morto até ele miar, de preferência, após cada refeição, não é crime. Você vê, o Oswaldo Eustáquio, jornalista que vocês chamam de blogueiro, foi preso pelo ‘Xandão do PCC’. Está aí preso ilegalmente. Eu tive acesso ao diário dele. Sabia, Alexandre de Moraes, que eu tive acesso ao diário dele manuscrito na prisão, dos agentes que o torturaram? Sabia que eu sei? Sabia que eu sei que um [agente] chegou no ouvido dele e falou assim: ‘A nossa missão é eliminar você’. Sabia que eu sei? Eu sei. E eu sei de onde partiram essas ordens. Acha que eu tô blefando? Por que, Alexandre, você ficou putinho porque mandou a Polícia Federal na minha casa uma vez e não achou nada, na minha quebra de sigilo bancário e telemático? É claro que tu não vai achar, idiota, eu não sou da tua laia, eu não sou da tua trupe. Dessa bosta de gangue que tu integra. Não. Aqui você não vai encontrar nada. No máximo, uns trocadinhos. Dinheiro pouco a gente tem muito. É assim que a gente fala. Agora, ilegal a gente não vai ter nada. Será que você permitiria a sua quebra de sigilo telemático? A sua quebra de sigilo bancário? Será que você permitiria a Polícia Federal investigar você e outros 10 aí da supreminha? Você não ia permitir. Vocês não têm caráter, nem escrúpulo, nem moral para poder estar na Suprema Corte. Eu concordo, né, completamente com [o ex-ministro da Educação] Abraham Weintraub quando ele falou: ‘Eu, por mim, colocava esses vagabundos todos na cadeia’, aponta para trás, ‘começando pelo STF’. Ele estava certo. Ele está certo. E, com ele, pelo menos uns 80 milhões de brasileiros corroboram com esse pensamento.

Só que não, você agora ficou putinho, né. O Fachin putinho porque o Villas Bôas disse que a população deveria ser consultada. Olha, tudo que é de relevância nacional, Fachin, você sabe que… de relevância nacional e que é de importância para todo o povo existe um dispositivo chamado plebiscito. Eu sei que você sabe. É basicamente isso o que o general quis dizer. Se é de relevância e interesse nacional, convoque-se então um plebiscito. Chama a população. Chama as instituições para participarem de uma decisão que não cabe ao STF. Ao STF, pelo menos constitucionalmente, cabe a ele guardar a Constituição. Mas vocês não fazem mais isso. Você e os seus 10 abiguinhos [sic] aí, abiguinhos, não guardam a Constituição. Vocês defecam sobre a mesma Constituição, que é uma porcaria. Ela foi feita para colocar canalhas sempre na hegemonia do poder. E, claro, pessoas da sua estirpe evidentemente devem ser perpetuadas pra que protejam o arcabouço dos crimes do Brasil. E se encontram aí, na Suprema Corte.

E vocês acharam que iriam me calar. É claro que vocês pensaram. E eu tô literalmente cagando e andando para o que vocês pensam, né. É claro que vocês vão me perseguir o resto da minha vida política. Mas eu também vou perseguir vocês. Eu não tenho medo de vagabundo, não tenho medo de traficante, não tenho medo de assassino… vou ter medo de 11? Que não servem pra porra nenhuma nesse país? Não. Não vou ter. Só que eu sei muito bem com quem vocês andam, o que vocês fazem. Lembro, por exemplo, quando eu tive aqui meu celular, meu outro celular apreendido, né. E eu deixei levar porque eu queria que os meus apoiadores vissem que eu não tenho nada a dever, nada a temer, por isso, entreguei meu celular mesmo ignorando o artigo 53 da Constituição, o que dá a minha prerrogativa como parlamentar e representante do povo, de uma parte do povo. Esquerdista pra mim é tudo filho da puta. Eu não represento esses vagabundos, não. Mas a parcela que eu represento, Fachin… eu ignorei o artigo 53, a Emenda Constitucional 35 de 2001 que deixa o texto ainda mais abrangente, mais fortalecido para que eu possa representar a sociedade… eu entreguei o celular.

Levaram o celular, a Polícia Federal levou um celular e um papelzinho que tava anotado algumas falas de uma live como essa aqui. Talvez, alguém me pergunta eu vou ali e anoto um ponto pra poder lembrar e naquele dia eu tinha falado. Aí, Fachin, quando foram levar o meu celular, poderia. Podia, na verdade. Ninguém falou nada. Ninguém mandou um ofício dizendo ‘não, é relacionado ao mandato [de deputado federal]‘. Mas quando foram apreender o do [senador] José Serra, rapidamente, quase que num estalar de dedos, Toffoli foi lá e de ofício [disse] ‘não pode apreender o celular do José Serra, não pode apreender o notebook do José Serra. São relacionados ao mandato’. Dois pesos e duas medidas não dá, né, chefe?

Você vai lá e coloca que um pode e outro não pode. Acontece que no meu celular não teria o conluio do crime com vocês. No do José Serra, ia ser muita coisa, né? A Polícia Federal ia ficar em um impasse gigantesco. Ia ter a prova, a materialidade dos crimes que vocês cometem e vocês teriam que aprovar ou não essa investigação. A Polícia Federal ia ter que agir, não ia? É claro que vocês não querem ficar nas mãos de delegados federais. É claro que vocês não vão querer ter que dividir a parcelinha de vocês com mais alguém. Vocês não vão querer fazer a rachadinha de vocês. Porque vocês querem tudo. São goelões. Vocês não querem colocar o copinho na bica e pegar um pouquinho não. Vocês querem tudo para vocês.

E me desculpe, Fachin, se eu estou zangado ou se eu estou alterado ou se eu falei alguma coisa que te ofendeu. Mas foda-se, né? Foda-se, né, porque vocês merecem ouvir. Vocês não esperavam que pessoas como eu fossem eleitas. Que iríamos ter pelo sufrágio universal a representatividade popular. E vocês esperavam que qualquer um que entrasse iria se seduzir pelo poder também e ficar na mãozinha de vocês porque vocês iriam julgar alguém que está cometendo algum crime. Não. Comigo vocês sentaram e sentaram do meio pra trás. E tem mais alguns lá assim também. Pode ter certeza.

Agora, quando você entra politizando tudo, quando o Bolsonaro decide uma coisa você vai lá [e diz] ‘não, isso não pode’, você desrespeita a tripartição dos Poderes. A tripartição do Estado. Você vai lá e interfere, né. Comete uma ingerência na decisão do presidente, por exemplo, e pensa que pode ficar por isso mesmo. Aí quando um general das Forças Armadas, do Exército para ser preciso, faz um tuíte, fala sobre alguma coisa, né, a conversa com o general, o livro que você tá falando, conversa com comandante, salvo engano [livro do general Villas Bôas], e você [Fachin] fica nervosinho, é porque ele tem as razões dele.

Lá em 64 –na verdade em 35, quando eles perceberam a manobra comunista de vagabundos da sua estirpe– em 64, então foi dado o contragolpe militar, é que teve lá, até os 17 atos institucionais, o AI-5 que é o mais duro de todos como vocês insistem em dizer, aquele que cassou 3 ministros da Suprema Corte, você lembra? Cassou senadores, deputados federais, estaduais, foi uma depuração. Com recadinho muito claro: se fizer besteirinha, a gente volta. Mas o povo, àquela época ignorante, acreditando na Rede Globo, disse: ‘Queremos democracia, presidencialismo, Estados Unidos, somos iguais, não sei o quê…’. E os ditadores que vocês chamam entregaram, então, o poder ao povo. Que ditadura é essa, né? Que ao invés de combater a resistência com ferro e fogo, não, ‘eu entrego o poder de volta’. Aí vocês rapidamente, né, Assembleia Nacional Constituinte, nova Constituição, 85, depois 88, fecha, sacramenta, se blinda e aí crescem um bando de vagabundos no poder que se eternizam. Dança das cadeiras. ‘Eu vou pro TSE [Tribunal Superior Eleitoral]. Agora não, eu sou do STF. Agora, eu vou presidir. Quem preside esse ano? A cada 2 anos’… sempre será no TSE o presidente um ministro do STF. Ou seja, perpetuação do poder. E a fraude nas urnas? Não vai estar sempre na nossa cúpula, sempre iremos dominar. Está sempre, tá tudo tranquilo, tá tudo favorável. É sempre o toma lá, toma lá. Não é nem toma lá, dá cá.

Realmente, vocês são impressionantes. Fachin, um conselho para você: vai lá e prende o Villas Bôas, rapidão, só pra gente ver um negocinho. Se tu não tem coragem, porque tu não tem, tu não tem culhão roxo pra isso. Principalmente o Barroso, aí que não tem mesmo. Na verdade ele gosta do culhão roxo. Gilmar Mendes… isso aqui é só [gesticula com os dedos]… Barroso o que que ele gosta? Culhão roxo. Mas não tem culhão roxo. Fachin, covarde. E Gilmar Mendes… é isso que tu gosta, né, Gilmarzão? A gente sabe.

Mas, enfim. Eu sei que vocês querem armar uma pra mim para poder falar ‘o que que esse cara falou aí no vídeo sobre mim. Desrespeitou a Suprema Corte’. Suprema Corte é o cacete. Na minha opinião, vocês já deveriam ter sido destituídos do posto de vocês e uma nova nomeação convocada e feita de 11 novos ministros. Vocês nunca mereceram estar aí. E vários que já passaram também não mereciam. Vocês são intragáveis, tá certo? Inaceitável. Intolerável, Fachin? Não é nenhum tipo de pressão sobre o Judiciário não. Porque o Judiciário tem feito uma sucessão de merda no Brasil. Uma sucessão de merda. E quando chega em cima, na Suprema Corte, vocês terminam de cagar a porra toda. É isso que vocês fazem. Vocês endossam a merda.

Então, como já dizia lá Ruy Barbosa, a pior ditadura é a do Judiciário, pois contra ela não há a quem recorrer. E, infelizmente, infelizmente, é verdade. Vide MP [Ministério Público]. Uma sucessão de merda. Um bando de militante totalmente lobotomizado fazendo um monte de merda. Esquecendo da prerrogativa parlamentar indo atrás da [deputada] Cris Tonietto porque ela falou a respeito de militantes LGBTs, sensualizando crianças, defendendo a ideologia de gênero nas escolas, na verdade, o sexo nas escolas com ideologia. E quando ela fala ela está respaldada, e eu falo por aqui o que eu aqui, e eu estou falando com base na liberdade de expressão que o cretino do Alexandre de Moraes, lá atrás, quando ele foi passar pela sabatina do Senado, falou mais de 17 vezes em menos de 1 minuto de vídeo, ‘liberdade de expressão, liberdade de expressão’ o tempo todo, tá, que está no artigo 5º, que é cláusula pétrea. A chamada cláusula de pedra. Salvo engano, inciso 9º ou inciso 16. Um é pra liberdade de expressão e um pra liberdade de manifestação. Aí, e também falo com base no artigo 53, garantia constitucional. Eu acho que vocês não mereciam estar aí. E, por mim, claro, claro, que se vocês forem retirados daí, seja por nova nomeação, seja pela aposentadoria, seja por pressão popular, ou seja lá o que for. Claro que vocês serão presos, porque vocês serão investigados, então vocês não terão mais essa prerrogativa. Seria um pouco diferente.

Mas eu sei que tem muita gente aí na mão de vocês e vocês na mão de muita gente. Lá no Senado tem muito senador na mãozinha de vocês. E vocês estão nas mãos de muitos senadores. Por isso vocês ficam brigando quando vai ser um presidente ou outro, vocês querem fazer ingerência da Câmara e do Senado. ‘Quem vai ser? Será que vão pautar nosso impeachment?’. Eu só quero 1 ministro cassado. Tudo que eu quero. Um ministro cassado. Para os outros 10 idiotas pensarem ‘pô, não sou mais intocável. É melhor eu fazer o que eu tenho que fazer’. Julgar aquilo que é constitucional, de competência da Corte.

Fachin, intolerável, inaceitável, é termos você no STF. No mais, Brasil acima de tudo, Deus acima de todos. Força e honra”.

Não satisfeito com a montanha de merda que já havia erguido, o desinfeliz, ao ser preso, achou de mandar “um recado” ao supremo togado dona da calva mais luzidia do planeta: Leia a transcrição do que disse o congressista:

“Ministro, eu quero que você saiba que você está entrando numa queda de braço que você não pode vencer. Não adianta você tentar me calar. Eu já fui preso mais de 90 vezes na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Fiquei em lugares que você nem imaginava. Você nem imagina o que eu já enfrentei, ministro.

Tu acha que vai mandar me prender, passando por cima da minha prerrogativa constitucional? Você acha que vai me assustar e me calar? Claro que não. Na verdade isso só vai me motivar. Isso é um combustível. Um aditivo para eu continuar a provar para o povo brasileiro quem são vocês que ocupam o cargo de ministro do STF.

Tenha a certeza que, a partir daqui, o jogo evoluiu um pouquinho. Eu vou dedicar cada minuto do meu mandato a mostrar quem é Alexandre de Moraes. A mostra quem é Fachin, quem é Marco Aurelio Mello, quem é Toffoli, quem é Lewandowski. Eu vou colocar um por um de vocês em seus devidos lugares. As pessoas que estão aqui me assistindo agora ou vão me assistir, eu não me importo nenhum pouco. Pelo meu país eu estou disposto a matar, morrer, ser preso. Tanto faz. Você não é capaz de me assustar.

A Câmara vai decidir sobre minha prisão ou não. Eu tenho a prerrogativa. Você acabou de rasgar a Constituição mais uma vez. Estou passando aqui para todo mundo, para que as pessoas saibam o que está acontecendo, para que eu mostre quem é o inimigo do Brasil. No mais, vou lá dormir na Polícia Federal. E vamos ver o que é que dá daqui para frente, “Xandão”. Vamos ver quem é quem. Se é você ou se sou eu junto com o povo.”

Depois, em outra mensagem no Twitter, o deputado fez uma provocação a supostos “esquerdistas” que estariam comemorando sua prisão. Disse que vai só “dormir fora de casa”.

“Aos esquerdistas que estão comemorando, relaxem, tenho imunidade material. Só vou dormir fora de casa e provar para o Brasil quem são os ministros dessa Suprema Corte. Ser ‘preso’ sob estas circunstâncias é motivo de orgulho”, publicou.