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segunda-feira, 20 de outubro de 2025

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM… (3ª PARTE)

THE UNIVERSE REMEMBERS EVERYTHING 


A maioria de nós acredita que o passado se foi, que nem mesmo Deus pode fazer com que o que foi não tenha sido. O futuro, por sua vez, é tido como incerto, embora uma parte dele dependa de leis naturais — daí ser possível prever a posição dos astros em qualquer data futura, o dia e a hora do próximo eclipse lunar e a maioria dos efeitos de uma reação física ou química.


Observação: Conforme comentou meu velho amigo Edward no primeiro capítulo desta sequência, a concepção de tempo varia profundamente entre as culturas. O povo Aymara, do altiplano andino, possui uma visão única: para eles, o passado (nayra, que significa "fronte" e "olho") está à frente, porque é conhecido e visível, enquanto o futuro (qhipa, "atrás") está às costas, por ser desconhecido e invisível. Já entre alguns povos indígenas do Brasil, como os Munduruku e os Pirahã, a experiência temporal é distinta. Sua concepção não é espacial como a dos Aymara, mas focada em um presente contínuo e expansivo. Eles valorizam intensamente a memória ancestral e o mundo imediato, vivendo de forma plena o momento, sem a mesma abstração linear de futuro que caracteriza o pensamento ocidental.

Ainda não conseguimos prever o que acontecerá na semana que vem — não porque o futuro seja intrinsecamente incerto, mas porque envolve variáveis com as quais nem os computadores mais poderosos conseguem lidar. Mas conhecer é prever, e isso torna possíveis todas as técnicas, da máquina a vapor ao computador.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

A intentona bolsonarista não prosperou devido ao amadorismo acachapante do ex-presidente e seus capangas. A tramóia urdida pelo filho do pai nos EUA frutificou, mas não impediu a condenação do chefe e demais integrantes do núcleo crucial do golpe. Para piorar a situação dessa caterva, a “química que rolou” com a calopsita alaranjada reverteu a tendência de queda do molusco eneadáctilo, que por ora é tido como imbatível em 2026, independente de quem for o adversário.
Um presidente em viés de alta nas pesquisas não precisa calçar mocassim, mas tampouco deve exagerar no tamanho do salto. Discursando para uma plateia companheira, o xamã petista disse que não rolou apenas uma química entre eles, "pintou uma indústria petroquímica." Na mesma em que ele destilou confiança no Rio de Janeiro, o representante comercial americano Jamieson Greer e o secretário de Tesouro Scott Bessent disseram, numa entrevista em Washington, que o tarifaço contra o Brasil se deveu a afronta ao "estado de direito e aos direitos humanos", "censura" a big techs e "detenção ilegal" de americanos no Brasil.
O encontro de Mauro Vieira com o chefe da diplomacia americana Marco Rubio pavimentou o caminho para uma conversa entre Lula e Trump. A chance de melhoria das relações bilaterais é grande, pois pior do que está é difícil ficar. Mas nada justifica a exacerbação do otimismo.
O último político brasileiro que se entusiasmou com Trump foi Bolsonaro. Quando seu ídolo foi coroado pela segunda vez, o futuro hóspede da Papuda exultou: "Estou animado. Não vou nem tomar mais Viagra". Mas não demorou a se dar conta de que quem pula junto com Trump dá um salto mortal.
Lula olha para Trump do alto de um salto agulha de 15 cm, mas faria um bem a si mesmo se descesse para um discreto, compacto e seguro salto Anabela. Além disso, para quem está na bica de completar 80 anos, parecer sensual deveria ser a última das preocupações.

Não temos como prever tudo, mas sabemos quase tudo que é preciso para prever a evolução física do mundo, mesmo porque as leis da natureza são constantes. Na escala microfísica, o determinismo é universal; na escala física, o futuro é previsível, mas a conduta humana não obedece às leis universais.


Quando se trata do futuro, não estamos apenas no incerto, no imprevisível, mas também no indeterminado. Alguns futuros são contingentes. Talvez um dia possamos prever tudo do cosmos, ainda que não consigamos predizer o comportamento de nosso melhor amigo — ou mesmo o nosso.


O tempo nos apresenta três graus de ser: o superior é o passado (o que não pode não ser); o  intermediário é o presente (o que é, simplesmente); e o inferior é o futuro (que pode ser ou não ser). O presente é real, o passado, real e necessário, e o futuro, apenas possível — ou a diversidade dos possíveis, já que se trata menos de um ser do que de uma potência.


No que se refere ao tempo, talvez sejamos vítimas de uma confusão — frequente e quase inevitável. Como bem observou Santo Agostinho, ˝se ninguém me pergunta, eu sei, mas se me perguntam e quero explicar, já não sei mais˝. Temos apenas um conhecimento intuitivo, não conceitual, e esse conhecimento intuitivo não é direto, já que não temos acesso ao próprio tempo, apenas às coisas que estão no tempo e mudam com o tempo. 


Percebemos a mudança, não o tempo. É o que já assinalava David Hume: ˝Toda vez que não temos percepções sucessivas, não temos noção do tempo, mesmo se houvesse uma sucessão real nos objetos˝. O tempo não pode fazer sua aparição nem completamente só, nem acompanhado de um objeto constante e invariável, apenas se deixa descobrir por alguma sucessão perceptível de objetos mutáveis. O tempo passou porque agora não chove mais, porque eu dormi, porque o ponteiro do relógio se moveu, e por aí vai. É a razão pela qual temos a impressão — enganadora — de que, se as coisas parassem de mudar, o próprio tempo pararia. 


Em versos que todos os escolares franceses conhecem, o poeta Lamartine escreveu: ˝Ô temps! Suspends ton vol, et vous, heures propices. Suspendez votre cours, laissez-nous savourer les rapides delices des plus beaux de nos jours.˝ Mas o filósofo poderia responder ao poeta: “Que o tempo suspenda seu voo, admito! Mas… por quanto tempo?


Como todos nós, o bardo francês confunde tempo com acontecimentos temporais. Mesmo que pudéssemos deter o curso dos acontecimentos, mesmo que as coisas pudessem se manter numa espécie de presente perpétuo, mesmo que o devir se detivesse, o tempo propriamente dito não se deteria. Talvez o futuro fosse semelhante ao presente, mas o tempo continuaria seu curso.


Os poetas não são os únicos a confundir a forma do tempo com seu conteúdo. O mesmo acontece com sociólogos, psicólogos e filósofos. Alguns sociólogos falam, por exemplo, em aceleração do tempo, quando na verdade há cada vez mais ações ou acontecimentos no mesmo lapso de tempo — ou talvez essa seja a impressão que temos, já que o tempo é a medida pela qual expressamos velocidade, e ele mesmo não pode ter velocidade — segue sempre segundo após segundo, por definição.


Em última análise, falar em velocidade do tempo é uma incoerência, já que pressupõe exprimir a variação do tempo em relação a si mesmo. Por outro lado, as equações relativísticas de Einstein demonstraram que o tempo é relativo: ele passa mais devagar para um observador em movimento em relação a outro, sem que exista um referencial privilegiado. Isso já foi detalhado em outras postagens, mas foge ao escopo desta abordagem.


Alguns historiadores afirmam que os gregos tinham uma concepção cíclica do tempo. É fato que eles — e outros povos antigos — previam o movimento dos astros, o retorno das estações e a repetição dos mesmos acontecimentos a intervalos regulares. Mas o fato de alguns acontecimentos serem cíclicos prova apenas que o tempo não o é. Se fosse, os eventos se confundiriam com seus precedentes. Afirmar que o mesmo acontecimento se repete a intervalos regulares, como a volta completa de um círculo, implica admitir que o mesmo momento ocorre em momentos diferentes, o que é contraditório; logo, esposar a tese do eterno retorno é tomar a repetição de eventos pela circularidade do próprio tempo.


Podemos dizer que o porvir é a parte do tempo que ainda não é presente, e que o futuro continua sendo futuro, ou seja, uma dimensão essencial e constitutiva da temporalidade tão real quanto o presente, mas que ainda não é, a parte do tempo que nunca atingimos, mas que representamos sempre. Essa distinção do tempo e de seu conteúdo nos oferece um meio indireto de definir o tempo: se suprimirmos tudo o que existe à nossa volta, restam o espaço que esses corpos ocupavam e tempo no qual ocorriam todos os acontecimentos. 


Nesse contexto, o espaço aparece como uma espécie de forma vazia, na qual se podem introduzir objetos tridimensionais. Se retirarmos o espaço, resta somente o tempo no qual e pelo qual pensamos, que aparece como uma espécie de forma vazia na qual se podem introduzir processos de uma dimensão: as mudanças que acontecem às coisas sensíveis (os corpos extensos no espaço) e aos pensamentos, o nosso. 


Em última análise, isso ilustra a distinção entre a forma do tempo e seu conteúdo. Os acontecimentos são sempre distintos, mas o tempo permanece o mesmo — como na concepção de Newton, segundo a qual ˝o tempo absoluto, verdadeiro e matemático, sem relação a nada de exterior, escoa uniformemente e se chama duração˝.


Essa é também a concepção de Kant, para quem o tempo era uma forma pura pela qual percebemos as coisas exteriores e nossos próprios pensamentos, um quadro a priori no qual se instalam a posteriori todos os fenômenos percebidos, estejam eles em nós ou fora de nós. Mas talvez o tempo não seja uma forma sem conteúdo: o que seria um tempo vazio, uma duração sem nada que dure? Absolutamente nada. Segundo a concepção de Leibniz, oposta nesse ponto à de Newton, sem acontecimentos não haveria tempo.. 


O tempo não é uma substância que existe por si mesma e que os diversos acontecimentos que nele se desenrolam, reais ou possíveis, vêm a preencher, e sim uma relação entre os acontecimentos existentes. E o mesmo se dá com o espaço, com a diferença de que o espaço e o tempo não definem o mesmo tipo de relações entre as coisas. 


O espaço é uma ordem de coexistências na qual os existentes que são compatíveis entre si podem estar, um em relação ao outro, numa relação espacial. Já o tempo é uma ordem de sucessão onde os existentes incompatíveis só podem coexistir sucessivamente, um antes do outro ou um depois do outro, mas não simultaneamente. Em suma, o tempo nada mais é que essa relação de incompatibilidade entre estados do mundo igualmente existentes.


Vale reforçar que isso não altera o que vimos no começo deste ensaio. O tempo pode existir sem os acontecimentos (como sustentou Newton) ou não existir independentemente deles (como postulou Leibniz). Mas é importante não confundir as propriedades do tempo em si com as dos acontecimentos temporais. Dado que o tempo é constante, unidimensional, unidirecional e imutável, o futuro como dimensão do tempo é sempre o mesmo.


Por outro lado — e tudo sempre tem mais que um lado num universo quadridimensional — não se deve confundir o tempo com seu conteúdo nem com a maneira como ele se nos apresenta. Mas isso é assunto para o capítulo final.


Continua…

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM… (FINAL)

WE ARE ALL TIME TRAVELERS.

Se o futuro é uma possibilidade e o passado é uma lembrança, então o único estado de coisas que realmente existe é o presente. Mas como afirmar isso se a própria existência do tempo não é uma unanimidade entre os filósofos e cientistas?

Na visão do cosmólogo Carlo Rovelli, o tempo não é uma e linha reta pela qual as coisas fluem do passado para o futuro, mas uma variável resultante do aumento da entropia do cosmos ao longo dos últimos 13,8 bilhões de anos. 

Segundo o metafísico J. M. E. McTaggart, é possível atestar a inexistência do tempo usando somente o pensamento lógico e um baralho de cartas

Grande Pirâmide de Gizé foi erguida no presente do faraó Queóps, que para nós significa 4,5 mil anos atrás. Se a realidade depende do ponto de vista do observador, então o presente não é uma data fixa no calendário, e um ponto de vista objetivo deve excluir o presente, o passado e o futuro. Esse mesmo raciocínio se aplica quando alguém diz "eu" — se esse pronome designa sempre a pessoa que fala, então ele não existe objetivamente, da mesma forma que "aqui" e "lá".

Se, assim como o espaço, que compreende apenas relações entre lugares (afastamento/proximidade), o tempo comporta somente relações entre acontecimentos mensuráveis (anterioridade/posterioridade), uma descrição objetiva do mundo não comporta presente, passado e futuro.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Lula já se definiu como "metamorfose ambulante" — talvez “metástase fosse uma definição mais adequada, mas isso é outra conversa. 

Na última quinta-feira, discursando num evento do PCdoB, o molusco ensinou que a esquerda precisa "acreditar que o deputado é importante", lançando uma profusão de candidatos ao Legislativo. Passados apenas quatro dias, fez exatamente o oposto do que lecionou ao nomear Boulos para um ministério palaciano.

Na prática, ele condenou o deputado a permanecer em seu governo até o final, tirando das urnas o maior puxador de votos da esquerda — que chegou à Câmara com pouco mais de 1 milhão de votos — 55 mil a mais que Carla Zambelli e 259 mil a mais que Eduardo Bolsonaro. 

No discurso da semana passada, Lula ensinou que PT, PCdoB, PDT, PSB e também o PSOL, partido de

Em tese, o macróbio não precisaria puxar o tapete do PSOL para usufruir das conexões sociais de Boulos. Sua incorporação à caravana da reeleição não estava condicionada à obtenção de uma poltrona de ministro, mas o gesto sinalizou para os partidos aliados que ele continua cultivando um tipo muito peculiar de parceria: “todos no mesmo barco e cada um por si”.

Se, à luz da Teoria da Relatividade, dois acontecimentos simultâneos deixam de sê-lo quando um observador está parado e o outro, em movimento, então nem o presente nem o futuro são absolutos, pois variam de acordo com a posição do observador. Uma mesa ou uma cadeira são reais do ponto de vista físico, já que são objetos formados por átomos, elétrons e quarks. Mas nem tudo o que existe no mundo segue as leis da física clássica. 

Mesmo que não existam no mundo real, o passado e o futuro nos parecem tão reais quanto a mesa ou a cadeira, já que o presente delimita o que deixou de ser real de um lado (o passado) e o que ainda não é real (o futuro). No entanto, a metáfora do “rio do tempo” (vide capítulos anteriores) rejeita o paralelismo entre o "aqui" e o "presente", posto que este não pode ser subjetivo no mesmo sentido que aquele. 

Quando estamos aqui e vamos a algum lugar, esse lugar passa a ser nosso "aqui", e o lugar de onde saímos, nosso "lá". Mas isso não se aplica ao "agora", já que o presente nos é imposto, o passado está fora do nosso alcance. Já avançar rumo ao que consideramos como futuro não só é possível como necessário, mas não depende de nós, e sim da realidade do tempo.

Explicando melhor: a decisão de ir a um lugar no espaço depende de cada um de nós, mas é o tempo que determina o que acontece antes e depois, organizando os fatos de forma irreversível. Isso significa que podemos nos mover pelo espaço, mas não podemos controlar o fato de o presente acontecer agora e depois virar passado, que acontece conforme a ordem do tempo. É por isso que temos a impressão de que o tempo se desloca em relação a nós, de que ele está sempre em movimento, queiramos ou não.

Como vimos nos capítulos anteriores, as metáforas do rio do tempo e do trem do tempo têm cada qual seus defensores e detratores. Os partidários da primeira acreditam no presente, e os partidários da segunda acham que o presente é apenas uma ilusão subjetiva. Mas não dá para dizer quem está certo: por um lado, o que acontece agora nunca aconteceu e, portanto, é objetivamente real; por outro, dizemos que uma coisa acontece agora porque somos contemporâneos dela, e o que se nos apresenta como passado ou futuro é tão objetivamente real quanto o que é presente para nós.

Na imagem do trem do tempo os acontecimentos estão ligados entre si por relações imutáveis de simultaneidade, anterioridade e posterioridade, mas a descrição realista do mundo é inexoravelmente atemporal. O Natal de 2024 aconteceu antes do Réveillon de 2025, que precedeu ao Carnaval, à Páscoa e ao Dia das Crianças. Isso era verdadeiro no passado, é verdadeiro agora e continuará sendo verdadeiro para sempre — tão atemporalmente verdadeiro quanto o fato de dois e dois serem quatro tanto hoje como ontem. Mas como pode haver tempo se nada muda? 

Não faz sentido falar em mudanças se não se pode distinguir o que é do que foi e do que será, se tudo é fixo, imutável, invariável. Para quem vê o mundo de fora — ou seja, do ponto de vista eternalista de um Deus onisciente, que abarca tudo num único olhar —, o tempo não existe: se não estamos no mundo e pensamos fora dele, não há que falar em passado, em futuro, e tampouco em tempo.

Por outro lado, pensar em mudanças nos leva a mergulhar de novo no rio do tempo e admitir que tudo muda o tempo todo: o que é futuro se torna presente, e o presente se torna passado. Mas se há presente no mundo, e se ele não é somente uma ilusão devida à nossa posição na história, então o passado não é real, já que o presente cessa tão logo se torna passado. E o futuro é ainda menos real, pois sequer chegou a ser real. No entanto, se há somente o presente, como explicar as mudança? 

Um ser consciente do estado do mundo, mas que não tivesse memória do passado nem imaginação do futuro, saberia tudo da realidade presente, mas nada veria mudar. Para dizer que uma coisa muda, é preciso poder dizer que ela não era o que passou a ser. Mas a memória do passado e a imaginação do futuro não são características do mundo, e sim da nossa consciência. Num mundo em que o presente é real, ele é o único a existir, e isso nos leva a outra negação do tempo.

A imagem do trem do tempo nos permite pensar a realidade das relações entre os acontecimentos sem presente, passado nem futuro, na medida em que implica uma visão eternalista que não exclui o tempo. Em contrapartida, a imagem do rio nos permite pensar a realidade do presente, mas exclui a realidade do passado e do porvir, impondo uma visão presentista que nos impede igualmente de pensar o tempo.

Ainda que o tempo não seja somente uma ilusão — o que se admite apenas por amor à argumentação —, é impossível encerrá-lo num conceito sem esbarrar em dificuldades insuperáveis ou em contradições. E mesmo que o presente não seja uma ilusão, é impossível dizer se ele existe fora de nós ou por nós, se depende do mundo ou de nossa consciência. Já o futuro é, dos três modos da temporalidade, aquele que tem menos existência, seja por ainda não ser, seja por mudar o tempo todo.

Vivemos necessariamente no presente. O passado e o futuro não existem, o que existe é um presente relativo ao passado — a memória —, um presente relativo ao presente — a percepção — e um presente relativo ao futuro — a expectativa. Para a consciência, porém, há somente o presente, pois o passado não é senão a memória presente do passado, e o futuro não é senão a imaginação presente do futuro.

Por esse prisma, o futuro não difere do passado ou do presente — que também mudam o tempo todo —, mas existe somente em nossa imaginação, pois varia em função do nosso presente, que é o hoje, não o ontem nem o amanhã. Por acharmos o futuro demasiado lento e ao apressarmos seu curso, esquecemo-nos do passado, mas, imprudentes que somos, não pensamos no único tempo que nos pertence, sonhamos com o que não existe mais e evitamos refletir sobre o único que subsiste. Assim, em vez de vivermos, esperamos viver.

Quando nos lembrarmos desse presente no futuro, ele será o passado que traremos de volta ao presente, ou seja, outro presente. Mas viver no presente exige inevitavelmente considerar o futuro — ou seja, ver a água do futuro fluir em torno de nós. Para estarmos aqui, devemos olhar adiante, para além de nós, e a todo instante ver e prever o porvir. Viver no presente é querer, é desejar, é esperar outra coisa que não é o presente, é projetar-se no futuro. Por isso sabemos que morreremos um dia, embora nos seja difícil imaginar isso, e por pensamos que a morte é somente o nada, a ausência de consciência, temos medo de partir desta vida demasiado cedo, quando ainda estamos vivos, de ficar do mundo enquanto ele continua a avançar sem nós, que continuamos a desejar no presente outro futuro, pois viver é estar voltado sempre para o futuro imediato de nossas intenções, ainda que distante das nossas aspirações.

Talvez a imagem do rio seja ilusória, mas é uma ilusão vital. O futuro é seguramente uma ilusão, já que existe apenas em função da nossa imaginação, em nossos temores, esperanças, medos e desejos. Até porque só o presente existe, e é nele que vivemos, mesmo que não seja ele que nos faça viver. Se nos ocupássemos somente do que o presente nos dá, não viveríamos: apenas sobreviveríamos sem finalidade, sem memória nem desejo, sem qualquer razão para viver. 

Estamos condenados a viver no presente, mas dele nos libertamos pela imaginação do futuro que não existe, mas que nos faz existir, dando sentido à nossa existência. Um futuro que não é mais o que era, que está sempre por se reinventar. 

Essa é a verdadeira definição da liberdade humana.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 104ª PARTE — O ENTRELAÇAMENTO QUÂNTICO E A SETA DO TEMPO

WE ARE ALL TIME TRIPPERS 

Nossos ancestrais começaram a medir a passagem do tempo quando notaram padrões no amanhecer e no anoitecer, nas fases da Lua e nas estações, por exemplo. Mas a física moderna sugere que o tempo pode ser uma ilusão.

O que convencionamos chamar de "dia" é o intervalo de uma meia-noite à seguinte; o que chamamos de "mês", uma sequência de 28 a 31 dias; e o que chamamos de "ano", um ciclo de aproximadamente 365 dias e 6 horas — arredondamento que explica a existência dos anos bissextos.

O que cada pessoa faz a cada dia é subjetivo: no mesmo dia que você volta de férias e desfaz as malas eu posso estar arrumando as malas para sair de férias — e vice-versa. Segundo a teoria da relatividade de Einstein, o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial. Consequentemente, o tempo não flui do passado para o futuro, mesmo porque o que é futuro para um observador pode ser passado para outro. As equações relativísticas de Einstein levaram ao que os filósofos chamam de "eternismo", cuja ideia central é a de que passado, presente e futuro existem com o mesmo status ontológico — ou seja, o que chamamos de "agora" é apenas uma fatia arbitrária desse bloco quadridimensional. 

Antes de Einstein, o “presente” era compartilhado por todos no universo: existia um “Grande Agora”. A gente podia olhar para o relógio, ver que marcava meio-dia, por exemplo, e dizer que muitas coisas estavam acontecendo “agora”, mesmo para pessoas muito distantes de nós. Com as equações do físico alemão, isso deixou de ser verdade.


Cada um só pode falar sobre o "presente" a partir de seu próprio referencial. O "Grande Agora", que se estendia por todo o Universo, deixou de existir. O que está acontecendo "agora" da sua perspectiva pode parecer muito diferente para um hipotético alienígena viajando numa nave espacial a uma velocidade incrivelmente alta. 


Observação: A 99,999999999999999999981% da velocidade da luz, que é de 1,08 bilhão de km/h, a dilatação do tempo faz com que um segundo no referencial do viajante equivalha a 2,5 anos no tempo terrestre (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos). Em um cenário mais moderado, chegar a Alpha Centauri (que dista 4,367 anos-luz da Terra) viajando a essa velocidade levaria mais de 4 anos terrestres, mas o trajeto seria completado em menos de duas horas no referencial dos astronautas.


O fato de a simultaneidade ser relativa ao observador conflita com a mecânica quântica, na qual o tempo funciona como um parâmetro externo e universal, não sujeito à incerteza quântica como posição e momento. Em outras palavras, a relatividade exige que o tempo seja local e relacional, enquanto a mecânica quântica o trata como um pano de fundo fixo e comum a todos os observadores.


No entanto, a ideia de que o tempo é uma construção mental não é nova (detalhes nesta postagem).. Em meados do século XVII, as Leis de Newton já eram simétricas no tempo — ou seja, suas equações funcionam igualmente bem se imaginarmos pessoas andando para trás, relógios retrocedendo da tarde para a manhã ou frutas subindo do chão para os galhos das árvores.


De acordo com um artigo publicado na revista Physical Review A, o tic-tac do relógio é apenas uma representação conveniente de uma série de eventos emaranhados, pois o tempo não é uma dimensão contínua e independente, mas uma sequência de acontecimentos correlacionados que emergem do entrelaçamento quântico.


Na visão dos autores, o tempo é uma ilusão, e conceitos como passado, presente e futuro são simples convenções que usamos para descrever nossa experiência subjetiva. Isso explica por que as equações da física quântica são simétricas no tempo — ou seja, funcionam tanto para frente quanto para trás. O próprio Einstein costumava dizer que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas "uma ilusão teimosamente persistente". Mas se é assim, de onde vem a flecha do tempo?


A flecha que avança do passado para o futuro surge somente quando nos afastamos do mundo microscópico em direção ao macroscópico. Isso tem a ver com o fato de olharmos para as coisas grandes e ignorarmos os detalhes. Isso não significa que o mundo seja fundamentalmente orientado no espaço e no tempo, mas, quando olhamos à nossa volta, vemos a direção na qual a entropia dos objetos do dia a dia aumenta — como a fruta madura que cai da árvore e apodrece no chão, sem nunca fazer o caminho inverso.


A Segunda Lei da Termodinâmica diz que a entropia de um sistema isolado sempre aumenta. Por estar indissociavelmente ligada à direção do tempo, ela é a única lei da física com direcionalidade temporal que perde essa característica quando se fecha o foco em coisas muito pequenas. A entropia de um cubo de gelo aumenta conforme ele é aquecido, já que suas moléculas se movimentam com mais liberdade quando o gelo derrete e se transforma em água líquida — e mais ainda quando a água ferve e se transforma em vapor. Mas isso levanta uma questão perturbadora: se as leis microscópicas são simétricas no tempo, então a assimetria que sentimos como "o tempo fluindo" pode ser apenas um fenômeno estatístico.


O físico Ludwig Boltzmann passou anos tentando explicar por que o Universo começou com entropia tão baixa. A resposta moderna aponta para o Big Bang como uma condição inicial de baixíssima entropia, mas isso apenas empurra o mistério para trás. Na tentativa de unificar a relatividade geral com mecânica quântica, a gravidade quântica em loop e outras abordagens chegam a uma conclusão chocante. A famosa equação de Wheeler-DeWitt — uma tentativa de equação quântica para o Universo inteiro — simplesmente não tem o tempo como variável. O universo, descrito matematicamente, é estático.


Para o físico Carlo Rovelli, o tempo não existe para uma única partícula, mas emerge de interações entre muitos sistemas, e seu "fluir" seria nossa percepção de um aumento de correlações com o ambiente — nossa velha conhecida entropia novamente. Por outro lado, a física ainda não sabe responder porque, se as leis são simétricas, temos memória do passado e não do futuro? O que exatamente colapsa a função de onda, e isso define um "agora"? Como reconciliar o tempo relativo de Einstein com o tempo como parâmetro externo da mecânica quântica?


Alguns físicos — como Roger Penrose — sugerem que a experiência subjetiva do tempo pode ter raízes quânticas no cérebro. Uma ideia controversa, mas é curioso que nossos ancestrais tinham acesso a algo genuinamente misterioso simplesmente observando o Sol e a Lua, e nós, com toda a física moderna, não sabemos sequer se o tempo existe.


Continua…

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 62ª PARTE

NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÃ.


Muitos mistérios são revelados, mas alguns jamais serão descobertos. Ainda não se sabe, por exemplo, o que é vida em si, como o Universo surgiu, ou se o tempo não passa de uma ilusão criada por nossos ancestrais para explicar padrões como o dia e a noite, as fases da Lua e as mudanças das estações.


Achamos que o hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã, mas o tempo não flui da mesma maneira para todos. Segundo as equações relativísticas de Einstein, tudo no Universo é relativo, exceto a velocidade da luz — que é constante e absoluta porque o tempo é relativo.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Trump empurrou o bolsonarismo para a cova quando declarou ter "uma química" com Lula, encheu a cova de terra ao suspender a supertarifação da pauta de exportações do Brasil, jogou a derradeira pá de cal ao retirar Alexandre de Moraes e sua mulher da lista de sancionados pela Lei Magnitsky e acomodou uma laje sobre o túmulo quando articulou uma parceria com o Brasil no combate ao crime organizado. 

Coveiros de Bolsonaro, Dudu Bananinha e Paulo Figueiredo atribuíram o réquiem do bolsonarismo à incapacidade da sociedade brasileira de construir unidade para enfrentar "problemas estruturais". Provável herdeiro do capital político do pai no ano, Flávio Bolsonaro disse que o governo Trump fez um gesto gigantesco pela anistia no Brasil — lembrando que dosimetria não é anistia.

Certo Natal, dois irmãos desembrulharam os presentes que haviam ganhado. Ao se deparar com uma bicicleta, o mais velho maldisse a sorte: “ou vou cair dela me machucar, ou ela me será roubada". Vendo o caçula todo feliz com um balde cheio de estrume, perguntou-lhe o motivo de tanta alegria, e o irmão respondeu: “ganhei um pônei; você viu ele por aí?” 

Descansando sob a lápide da família Bolsonaro estão os governadores Romeu Zema, Ratinho Jr. Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas, que beijaram a cruz a troco de nada. Lula vai a 2026 com o trunfo de ter mantido a espinha ereta diante das ameaças da Casa Branca. Fica entendido que o imperador laranja não respeita os fracos e tampouco aprecia a associação de sua imagem com os derrotados.

 

Viajamos para o futuro desde o momento em que nascemos e vislumbramos o passado quando observamos a luz que as estrelas emitiram há milhões ou bilhões de anos. Talvez isso não seja tão emocionante quanto o antigo seriado televisivo O Túnel de Tempo, mas é real — como também é real a possibilidade de o tempo não ter uma direção preferencial no mundo microscópico, onde as partículas podem se mover livremente para frente ou para trás, como sustenta um estudo publicado na Scientific Reports por pesquisadores da Universidade de Surrey.

 

No reino quântico, as leis da física operam como uma coreografia perfeitamente reversível. Se assistíssemos de trás para frente um filme de partículas interagindo, seria impossível distinguir qual é a "versão correta". Um elétron saltando de uma órbita para outra, um fóton sendo absorvido e reemitido — todos esses processos fundamentais não distinguem entre passado e futuro. Essa simetria temporal não é apenas um curiosidade teórica: em 2019, pesquisadores da Universidade de Viena conseguiram literalmente "apagar o passado" de fótons, fazendo com que informações sobre sua trajetória prévia desaparecessem retroativamente. É como se as partículas pudessem reescrever a própria história.

 

A pergunta que se coloca é: se no nível mais fundamental a natureza não distingue entre antes e depois, por que nossa experiência cotidiana é tão implacavelmente unidirecional? Por que lembramos do passado, mas não do futuro? Por que os ovos se quebram, mas nunca se reconstituem espontaneamente? A resposta está numa conspiração cósmica chamada entropia. 

 

Quando bilhões de partículas reversíveis se juntam, o caos estatístico cria uma direção preferencial. É como um baralho de cartas sendo embaralhado — tecnicamente, existe uma chance infinitesimal de as cartas se reorganizarem perfeitamente, mas, na prática, o caos sempre prevalece. Vale lembrar que o tempo negativo é uma realidade matemática e experimental no mundo quântico, embora ainda seja visto como "desfritar um ovo". E inverter a seta do tempo é essencial quando a ideia é saborear um filé de brontossauro com Fred Flintstone na pré-histórica Bedrock.

 

A segunda lei da termodinâmica não impede que o tempo flua para trás, apenas torna essa possibilidade estatisticamente improvável — a cada segundo que passa, o universo se torna um pouco mais desorganizado, fazendo com que a seta do tempo aponte inexoravelmente para a entropia máxima. Curiosamente, isso significa que a direção do tempo não é uma propriedade fundamental da realidade, mas um fenômeno coletivo — como o conceito de "temperatura" só faz sentido quando temos muitas moléculas juntas. Uma única partícula não tem temperatura; bilhões delas, sim. Mas isso é conversa para outra hora.

 

Outro termo crucial nessa equação é a decoerência quântica. No mundo microscópico, as partículas podem estar em múltiplos estados simultaneamente — como ilustra a metáfora do gato de Schrödinger, criada em 1935 por Erwin Schrödinger para explicar as peculiaridades da física quântica. Assim, um hipotético gato colocado numa caixa selada, com um mecanismo ligado a uma partícula radioativa, um contador Gêiser e um frasco de veneno, permaneceria simultaneamente vivo ou morto até que alguém abrisse a caixa para verificar se a partícula se desintegrou e o veneno matou o bichano. 


Ao transpor essa lógica para algo do cotidiano, Schrödinger mostrou como seria estranho aplicar as mesmas regras quânticas ao mundo comum. Isso levou os cientistas a proporem conceitos como o da decoerência quântica, que descreve como sistemas quânticos interagem com o ambiente e rapidamente perdem a superposição de estados, comportando-se então como objetos clássicos. Quando sistemas quânticos interagem com o ambiente, essas superposições "colapsam" rapidamente. Em outras palavras, a decoerência quântica atua como um mecanismo de "esquecimento quântico". 

 

Ainda que colocar seres vivos em superposição esteja fora do alcance da tecnologia atual, o número crescente de experiências mostra que o conceito do gato — antes visto como ridículo pelo próprio Schrödinger — tornou-se uma referência prática no avanço da tecnologia quântica, mesmo porque não foi criado para explicar como os gatos funcionam ou provar a existência de zumbis, e sim para criticar os paradoxos gerados pela interpretação de Copenhague, e destacar como os conceitos da mecânica quântica, quando aplicados ao mundo macroscópico, levam a implicações que desafiam nossa intuição.

 

À medida que informações sobre estados quânticos se dispersam no ambiente, o sistema perde a capacidade de "lembrar" certas possibilidades passadas, contribuindo para nossa percepção linear do tempo. Para entender melhor, imagine o momento presente como uma fotografia instantânea de uma dança quântica complexa. A decoerência impede que "desembaralhemos" essas fotografias para reconstruir estados anteriores, criando a ilusão de que o tempo tem uma direção única.

 

A mecânica quântica reserva surpresas ainda mais perturbadoras. Em 2017, pesquisadores demonstraram que a escolha de como medir uma partícula no futuro pode afetar retroativamente seu comportamento no passado, como se o universo operasse numa espécie de "crédito temporal", permitindo que efeitos precedam suas causas, mas desde que o balanço final seja mantido. Em outras palavras, eventos futuros podem, em determinadas circunstâncias, influenciar o passado de forma mensurável. Isso não é ficção científica, e sim um fenômeno que os cientistas chamam de "retrocausalidade quântica". 

 

A criação do par elétron-pósitron pode ser modelada matematicamente como um único eléctron a voltar e avançar no tempo, mas não resulta em implicações ontológicas. A não-localidade quântica proposta no Teorema de Bell sugere que, em alguns quadros de referência, sinais causais podem retornar no tempo, com todos os paradoxos da causalidade que isto implica.

 

Essas descobertas abrem possibilidades fascinantes para o que se pode chamar de "engenharia temporal quântica". Ainda que não tenha sido possível enviar pessoas de volta no tempo, talvez seja possível encontrar formas de transmitir informações através de entrelaçamentos quânticos que transcendam nossa noção linear de causalidade.

 

Einstein demonstrou que o impossível é apenas uma questão de tempo; Carl Sagan, que a ausência de evidências não é evidência de ausência, e Arthur C. Clarke, que desafiar limites é o único caminho para superá-los.  

Continua...