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sábado, 6 de junho de 2026

DE VOLTA À NATUREZA DO TEMPO CRONOLÓGICO

NÃO FORCE DEMAIS AS COISAS. O QUE FLUI, FLUI, O QUE TERMINA, TERMINA, E O QUE TIVER DE SER, SERÁ.

A ciência não sabe se o tempo existe realmente ou é somente uma convenção criada por nossos antepassados para explicar o dia e a noite, as fases da lua, as estações do ano e demais eventos sazonais. Ainda assim, consultamos o relógio acreditando que o tempo flui inexoravelmente do passado para o futuro como as águas de um rio correm da nascente para a foz, mas e se esse fluxo não passar de uma ilusão?

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Durou pouco o entusiasmo de Bolsonarinho com a Casa Branca. Quatro dias após batizar de terroristas o PCC e o CV, Trump acenou com a imposição de novo tarifaço contra produtos brasileiros (desta vez de 25%) e incluiu entre os motivos o Pix.

A ameaça de nova paulada chega como resultado da investigação por supostas práticas comerciais injustas do Brasil, aberta no ano passado junto com o tarifaço de 50% — uma das medidas adotadas pela calopsita alaranjada em resposta ao que chamou de "caça às bruxas" contra Bolsonaro, atribuída à influência do traidor da pátria autoexilado Dudu Bananinha.

Na semana passada, o filho do presidiário disse ter sinalizado a Trump que, se eleito presidente desta republiqueta de bananas, os EUA teriam "um presidente aliado", o que tornaria desnecessária a adoção de retaliações tarifárias. Dias antes, Lula, o macróbio, havia dito que, se conseguisse fazer Trump sorrir, conseguiria "outras coisas". Nos últimos dias, voltou a atribuir o rosnado do imperador laranja à traição dos Bolsonaro contra a pátria.

Se Deus o intimasse Trump a optar entre a conveniência da quadrilha Bolsonaro e seus próprios interesses, ele certamente diria algo como "fuck Bolsonaro and Lula", e os protagonistas da sucessão brasileira talvez percebessem que o único amigo do tresloucado mandatário americano é sua imagem refletida no espelho.

A decisão sobre as novas tarifas será tomada até 15 de julho. Se forem baixadas, será péssimo para o Brasil, mas pode impulsionar a reeleição de Lula. Para o clã Bolsonaro e seu presidenciável, um novo tarifaço editado a três meses e meio da eleição seria como um beijo da morte.


Desde tempos imemoriais, cientistas e filósofos buscam desvendar a verdadeira natureza do tempo, mas ainda não descobriram se ele é uma propriedade natural ou um componente da teoria que introduzimos manualmente. 


Para os físicos, o tempo é um problema que se apresenta em pelo menos três versões difíceis de conciliar. Em primeiro lugar, existe o que se chama de "tempo coordenado": em muitas das equações que descrevem fenômenos físicos o tempo aparece simplesmente como um parâmetro matemático, uma coordenada numérica que indica quando um evento ocorre. Nesse contexto, o tempo não aparece como algo que flui, mas como um parâmetro que nos permite ordenar mudanças.


Einstein revolucionou a física ao demonstrar que o tempo relativístico não é um relógio comum a todos — se dois observadores movendo-se a velocidades diferentes podem discordar sobre a ordem dos eventos, então o tempo deixa de ser um relógio e passa a fazer parte da estrutura do espaço-tempo, que é afetada pela gravidade e pelo movimento —, e complicou ainda mais o cenário ao demonstrar que o "agora" não é universal.


Já o tempo termodinâmico — talvez a única indicação clara de que o tempo parece se mover em apenas uma direção — surge da segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia, que descreve o grau de desordem em um sistema, tende a aumentar. É por isso que um ovo que se quebrou, os cacos de um copo que se espatifou e a fumaça que se dispersou no ar, por exemplo, não voltam espontaneamente ao status quo ante.


O problema é que nenhuma dessas versões se alinha completamente entre si nem com nossa experiência subjetiva do tempo, e muitas das equações mais fundamentais funcionam da mesma maneira, tanto para frente quanto para trás — não há nenhuma seta nos números que aponte para o futuro.


Para alguns pensadores, o que percebemos como o "fluxo do tempo" nada mais é do que uma história que contamos a nós mesmos. Ou seja: o cérebro constrói uma linha do tempo para dar coerência à experiência e, assim como acontece com as cores, nós confundimos essa construção com uma propriedade do mundo externo. 


A relatividade reforça essa suspeita: acontecimentos que parecem simultâneos para um observador podem ocorrer em momentos distintos para outro, pois o que existe não é um "agora" universal, e sim uma rede de eventos distribuídos pelo espaço-tempo, onde o passado, o presente e o futuro coexistem — nessa perspectiva, a distinção entre eles seria nada mais que uma ilusão, ainda que persistentemente convincente.


Mas a física vai ainda mais longe: no reino quântico, não há uma maneira direta de medir o tempo como há com outras propriedades físicas. Pode-se medir onde uma partícula está, mas nunca quando ela está, pois o tempo aparece menos como uma propriedade natural dos sistemas quânticos e mais como um parâmetro que introduzimos manualmente para descrevê-los. Esse paradoxo levou alguns físicos a formularem uma questão radical: e se o tempo não for fundamental, mas emergir de uma estrutura mais profunda que ainda não compreendemos?


Em 1983, os físicos Don Page e William Wootters propuseram que o universo seria uma gigantesca função de onda quântica atemporal, mas dividir essa estrutura em duas partes — uma descrevendo toda a matéria observável e a outra atuando como um "relógio interno" — faz com que o entrelaçamento quântico entre as duas enseje o surgimento da percepção do tempo. De acordo com essa ideia, ao consultarmos o relógio estamos selecionando (ou fixando) o estado correlacionado do restante do sistema naquele momento, ou seja, o tempo, surge como um efeito do entrelaçamento.


Para entender melhor essa ideia, imagine um manuscrito sobre uma mesa, onde o início, o meio e o fim já existem simultaneamente. Porém, para que a história faça sentido é preciso ler suas páginas em ordem, pois a numeração conecta cenas que, na realidade, permanecem fixas. Algo semelhante poderia acontecer com o universo: a mudança não estaria necessariamente na história em si, mas na maneira como a vivenciamos.


Durante décadas, essa ideia não passou de um elegante exercício teórico, mas em 2024 a física Paola Verrucchi, do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, conseguiu construir um modelo matemático funcional inspirado nesse mecanismo: um sistema que entrelaçava um relógio magnético com outro sistema quântico análogo a uma mola. Vista de fora, essa estrutura permanecia estática, mas, em relação ao relógio interno, a mola parecia esticar e contrair seguindo sequências temporais. 


O mais surpreendente é que esse comportamento persistiu mesmo quando o sistema foi ampliado, sugerindo que a ilusão do tempo pode não estar limitada apenas ao mundo quântico. O entrelaçamento quântico entre um relógio interno e a matéria observável permitiria o surgimento do tempo, de acordo com a teoria de Page-Wootters proposta em 1983. 


Outra descoberta surpreendente dessa linha de pesquisa é que a medição do tempo gera entropia. Em outras palavras, os relógios — mesmo os mais simples — não apenas registram a passagem do tempo, mas também produzem calor. Marcus Huber, da Universidade Técnica de Viena, e Natália Ares, da Universidade de Oxford, estão investigando o que acontece quando desmontamos um relógio até seu nível quântico mais básico, e seus resultados descrevem uma relação de compromisso: quanto mais preciso e frequente o tique-taque (quanto mais informação temporal for extraída), maior a tendência de geração de entropia. Mesmo um relógio quase perfeito torna-se instável quando se tenta extrair informações dele.


Tudo isso abre uma possibilidade intrigante: e se a sensação de que o tempo está passando não depender de sua existência como algo fundamental, mas sim de nossa interação com os sistemas que usamos para medi-lo? Alguns cientistas sustentam que o universo já possui relógios naturais, que são os buracos negros — corpos celestes extremamente massivos, de cuja atração gravitacional nem a própria luz consegue escapar. 


Stephen Hawking demonstrou que os buracos negros podem se emaranhar com o mundo exterior através da radiação que emitem, abrindo espaço para a hipótese de que eles possam funcionar como relógios cósmicos. Se assim for, seu tique-taque deveria deixar rastros na entropia da radiação Hawking. Mas poderiam os buracos negros desempenhar o papel de relógio quântico do universo através do entrelaçamento com essa radiação?


A chave desse mistério pode estar em algo ainda mais fundamental do que a entropia. Em 1935, Erwin Schrödinger demonstrou o paradoxo da superposição propondo que um gato em uma caixa lacrada, ligado a um evento radioativo aleatório, poderia ser considerado simultaneamente vivo e morto até que a caixa fosse aberta e o estado observado. Isso significa que uma partícula quântica pode existir em múltiplos estados até que a meçamos. Como esse colapso é irreversível — uma vez que o medimos, não há como voltar atrás —, a flecha do tempo pode ​​ser simplesmente um registro do que foi medido. Assim, nós não apenas participamos do tempo, mas o criamos sempre que perguntamos que horas são.


Essa perspectiva não nega o significado da nossa experiência temporal. Embora seja genuína, a interpretação metafísica que lhe atribuímos é opcional. Nossa vida continua sendo uma sequência de escolhas e memórias, mas essa sequência reside dentro de nós, não em um cosmos que flui independentemente. E se o fluxo do tempo é uma espécie de construção cognitiva, talvez isso altere a forma como vivenciamos a urgência dos prazos, lidamos com a perda ou sentimos que o tempo nos roubou algo. Talvez a flecha do tempo não nos atinja: somos nós que seguimos em frente, construindo memórias enquanto percorremos o mundo.


A física moderna dispõe de ferramentas capazes de explorar questões antes restritas à filosofia, mas suas grandes teorias — relatividade, mecânica quântica e termodinâmica — ainda entram em conflito quando tentam descrever o que o tempo realmente é. E talvez essa tensão seja o indício mais claro de que o tempo, como o imaginamos, não existe como uma entidade única. Talvez o tempo só seja real em diferentes sentidos: como experiência, como aumento da entropia, como ilusão cognitiva ou como efeito da forma como interpretamos o mundo.


Por ora, o tempo ainda está aí, pelo menos para nós, marcando cada segundo.


Continua...

quarta-feira, 13 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 104ª PARTE — O ENTRELAÇAMENTO QUÂNTICO E A SETA DO TEMPO

WE ARE ALL TIME TRIPPERS 

Nossos ancestrais começaram a medir a passagem do tempo quando notaram padrões no amanhecer e no anoitecer, nas fases da Lua e nas estações, por exemplo. Mas a física moderna sugere que o tempo pode ser uma ilusão.

O que convencionamos chamar de "dia" é o intervalo de uma meia-noite à seguinte; o que chamamos de "mês", uma sequência de 28 a 31 dias; e o que chamamos de "ano", um ciclo de aproximadamente 365 dias e 6 horas — arredondamento que explica a existência dos anos bissextos.

O que cada pessoa faz a cada dia é subjetivo: no mesmo dia que você volta de férias e desfaz as malas eu posso estar arrumando as malas para sair de férias — e vice-versa. Segundo a teoria da relatividade de Einstein, o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial. Consequentemente, o tempo não flui do passado para o futuro, mesmo porque o que é futuro para um observador pode ser passado para outro. As equações relativísticas de Einstein levaram ao que os filósofos chamam de "eternismo", cuja ideia central é a de que passado, presente e futuro existem com o mesmo status ontológico — ou seja, o que chamamos de "agora" é apenas uma fatia arbitrária desse bloco quadridimensional. 

Antes de Einstein, o “presente” era compartilhado por todos no universo: existia um “Grande Agora”. A gente podia olhar para o relógio, ver que marcava meio-dia, por exemplo, e dizer que muitas coisas estavam acontecendo “agora”, mesmo para pessoas muito distantes de nós. Com as equações do físico alemão, isso deixou de ser verdade.


Cada um só pode falar sobre o "presente" a partir de seu próprio referencial. O "Grande Agora", que se estendia por todo o Universo, deixou de existir. O que está acontecendo "agora" da sua perspectiva pode parecer muito diferente para um hipotético alienígena viajando numa nave espacial a uma velocidade incrivelmente alta. 


Observação: A 99,999999999999999999981% da velocidade da luz, que é de 1,08 bilhão de km/h, a dilatação do tempo faz com que um segundo no referencial do viajante equivalha a 2,5 anos no tempo terrestre (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos). Em um cenário mais moderado, chegar a Alpha Centauri (que dista 4,367 anos-luz da Terra) viajando a essa velocidade levaria mais de 4 anos terrestres, mas o trajeto seria completado em menos de duas horas no referencial dos astronautas.


O fato de a simultaneidade ser relativa ao observador conflita com a mecânica quântica, na qual o tempo funciona como um parâmetro externo e universal, não sujeito à incerteza quântica como posição e momento. Em outras palavras, a relatividade exige que o tempo seja local e relacional, enquanto a mecânica quântica o trata como um pano de fundo fixo e comum a todos os observadores.


No entanto, a ideia de que o tempo é uma construção mental não é nova (detalhes nesta postagem).. Em meados do século XVII, as Leis de Newton já eram simétricas no tempo — ou seja, suas equações funcionam igualmente bem se imaginarmos pessoas andando para trás, relógios retrocedendo da tarde para a manhã ou frutas subindo do chão para os galhos das árvores.


De acordo com um artigo publicado na revista Physical Review A, o tic-tac do relógio é apenas uma representação conveniente de uma série de eventos emaranhados, pois o tempo não é uma dimensão contínua e independente, mas uma sequência de acontecimentos correlacionados que emergem do entrelaçamento quântico.


Na visão dos autores, o tempo é uma ilusão, e conceitos como passado, presente e futuro são simples convenções que usamos para descrever nossa experiência subjetiva. Isso explica por que as equações da física quântica são simétricas no tempo — ou seja, funcionam tanto para frente quanto para trás. O próprio Einstein costumava dizer que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas "uma ilusão teimosamente persistente". Mas se é assim, de onde vem a flecha do tempo?


A flecha que avança do passado para o futuro surge somente quando nos afastamos do mundo microscópico em direção ao macroscópico. Isso tem a ver com o fato de olharmos para as coisas grandes e ignorarmos os detalhes. Isso não significa que o mundo seja fundamentalmente orientado no espaço e no tempo, mas, quando olhamos à nossa volta, vemos a direção na qual a entropia dos objetos do dia a dia aumenta — como a fruta madura que cai da árvore e apodrece no chão, sem nunca fazer o caminho inverso.


A Segunda Lei da Termodinâmica diz que a entropia de um sistema isolado sempre aumenta. Por estar indissociavelmente ligada à direção do tempo, ela é a única lei da física com direcionalidade temporal que perde essa característica quando se fecha o foco em coisas muito pequenas. A entropia de um cubo de gelo aumenta conforme ele é aquecido, já que suas moléculas se movimentam com mais liberdade quando o gelo derrete e se transforma em água líquida — e mais ainda quando a água ferve e se transforma em vapor. Mas isso levanta uma questão perturbadora: se as leis microscópicas são simétricas no tempo, então a assimetria que sentimos como "o tempo fluindo" pode ser apenas um fenômeno estatístico.


O físico Ludwig Boltzmann passou anos tentando explicar por que o Universo começou com entropia tão baixa. A resposta moderna aponta para o Big Bang como uma condição inicial de baixíssima entropia, mas isso apenas empurra o mistério para trás. Na tentativa de unificar a relatividade geral com mecânica quântica, a gravidade quântica em loop e outras abordagens chegam a uma conclusão chocante. A famosa equação de Wheeler-DeWitt — uma tentativa de equação quântica para o Universo inteiro — simplesmente não tem o tempo como variável. O universo, descrito matematicamente, é estático.


Para o físico Carlo Rovelli, o tempo não existe para uma única partícula, mas emerge de interações entre muitos sistemas, e seu "fluir" seria nossa percepção de um aumento de correlações com o ambiente — nossa velha conhecida entropia novamente. Por outro lado, a física ainda não sabe responder porque, se as leis são simétricas, temos memória do passado e não do futuro? O que exatamente colapsa a função de onda, e isso define um "agora"? Como reconciliar o tempo relativo de Einstein com o tempo como parâmetro externo da mecânica quântica?


Alguns físicos — como Roger Penrose — sugerem que a experiência subjetiva do tempo pode ter raízes quânticas no cérebro. Uma ideia controversa, mas é curioso que nossos ancestrais tinham acesso a algo genuinamente misterioso simplesmente observando o Sol e a Lua, e nós, com toda a física moderna, não sabemos sequer se o tempo existe.


Continua…

sexta-feira, 8 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 103ª PARTE — A LÓGICA E A INEXISTÊNCIA DO TEMPO

A VIDA NÃO É ENTENDÍVEL, DE MODO QUE VIVER É MUITO PERIGOSO.

Três anos depois de Einstein publicar a Teoria da Relatividade Especial e sete anos antes de a Teoria da Relatividade Geral vir à luz, o matemático, filósofo e lógico J.M.E. McTaggart divulgou um raciocínio lógico com vistas a negar a existência do tempo.


Segundo ele, a proposição "nascerá amanhã" é verdadeira hoje. Após o nascimento, "nasceu ontem" é verdadeira. Consequentemente, classificar os acontecimentos como "antes", "depois" ou "agora" não altera suas posições temporais objetivas nem o valor de verdade das proposições que descrevem suas ocorrências efetivas. Dito com outras palavras, o tempo é apenas uma ilusãoMas há quem diga que isso não significa que nada mudou ontologicamente — mudou o status temporal do evento em relação ao presente, e o fato de o presente avançar é real, não ilusório.


A questão é que, se o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial, o que é futuro para um observador é passado para outro. Assim afirmar que o tempo flui do passado para o futuro conflita com a forma como o tempo é tratado em teorias físicas como a relatividade, nas quais não existe um “agora” universal.


Observação: A teoria do Universo em blocos tem implicações diretas na interpretação da relatividade restrita: se todos os momentos coexistem igualmente, o "presente" seria apenas uma fatia do bloco quadridimensional — o que reforça a tese de McTaggart por uma via completamente diferente: a física.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O anúncio de que Lula conversaria com Trump na quinta-feira (7) desparafusou os dois neurônios de Eduardo Bolsonaro. De repente, o mundo se tornou mais complexo do que o manual de instruções do bolsonarismo, e Dudu Bananinha não enxergasse no próprio umbigo o centro do universo. Lula, malandro que é, fez um discurso para a militância e outro para as elites. Embatucado, Eduardo refugiou-se no raciocínio binário: se a coisa não se encaixa, há uma conspiração em curso. 

Surge, então, a teoria de que há dois Lulas na praça: para o consumo dos militantes, enrolado na bandeira nacional, e outro subserviente, para as elites, subserviente e entreguista. Na melhor das hipóteses, o filho do refugo da escória da humanidade está sendo cínico para evitar que bolsonaristas ingênuos sejam intoxicados pela descoberta, quase subversiva, de que um presidente brasileiro deve escorar sua política externa na defesa do interesse nacional. Na pior, ele acredita mesmo que Trump tem uma missão especial na Terra, de inspiração divina, que inclui apoiar a candidatura do irmão para converter o Planalto em puxadinho da Casa Branca.

Lula, por sua vez, presta um serviço ao interesse nacional cada vez que consegue neutralizar o estrago feito pelo bolsonarismo ao envenenar Trump contra o Brasil. Depois que a polarização doméstica foi exportada como conflito internacional, qualquer gesto de normalização é um ganho. O problema começa quando o serviço necessário e até esperado de um chefe de Estado passa a ser tratado como façanha extraordinária  — ou, pior, como um ativo de campanha.

Embora muitos não percebam, há uma diferença enorme entre governar e fazer marketing político. Transformar uma visita à Casa Branca em troféu eleitoral revela mais ansiedade do que estratégia — como se o simples fato de sentar à mesa com Trump resolvesse, por si só, as contradições internas. É aí que a metáfora do náufrago se encaixa: confundir diplomacia com salvação política é tão arriscado quanto agarrar um jacaré achando que é um tronco.

A política externa não substitui gestão econômica e articulação no Congresso, nem tampouco arranca a popularidade de Lula do vermelho. Como instrumento de Estado, a diplomacia cumpre o seu papel. Quando vira palanque, perde a eficácia. Melhor fazer o básico, sem teatralização e torcer para que o eleitor minoritário de centro, que decidirá a sucessão em 2026, perceba que o Brasil precisa de relações internacionais estáveis, não de enredos politicamente inflados.


Com o intuito de provar que o tempo não passa de uma ilusão, McTaggart usou um baralho no qual cada carta representava um evento. Primeiramente, ele organizou as cartas em uma sequência: os acontecimentos pretéritos à esquerda, os presentes no meio e os futuros à direita, formando uma ordem baseada na relação anterior/posterior.


Vale lembrar que, num sistema fechado, a flecha do tempo se baseia no aumento da entropia, e que qualquer dispositivo destinado a medir o tempo — como um relógio, por exemplo — depende de alterações (ticks). Uma vez que não existe tempo sem mudança, o experimento não serviu para "capturar" a essência do tempo, levando McTaggart a reorganizar as cartas em três pilhas não estáticas e movê-las da pilha da direita (futuro) para a do meio (presente) e desta para a da esquerda (passado). 


De acordo com o polímata, nessa série circular os eventos futuros se tornam presentes assim que acontecem e pretéritos logo em seguida. Em vista disso, há claramente uma mudança, pois é preciso estar no tempo para realizar esse arranjo, e como o tempo é exatamente o que se pretende capturar, precisar de tempo para descrever o tempo cria uma circularidade que viola a lógica.


Uma vez que o primeiro arranjo não conseguiu descrever o tempo porque era imutável, e o segundo arranjo previa mudanças que ocorriam de maneira circular, nenhum dos dois experimentos funcionou, e assim McTaggart concluiu que o tempo não poderia ser real. 


Mais de cem anos depois, os filósofos continuam buscando uma solução. Alguns, chamados A-theorists, tentam definir o segundo experimento de uma forma que não seja circular, enquanto outros, chamados B-theorists, defendem que o primeiro experimento descreve a realidade e dizem que McTaggart estava errado ao exigir que a série mudasse. Há também C-theorists, para quem a linha de cartas sequer tem uma direção do antes para o depois.


Independentemente de quem tem razão, há maneiras diferentes de pensar sobre o tempo, e raciocinar em termos de passado, presente e futuro pode ser apenas uma convenção. Mal comparando, seria como numerar as tábuas de uma cerca: como ela não tem direção, a pessoa pode começar do lado que quiser. Mas o detalhe é que McTaggart defendeu sua tese valendo-se apenas da lógica e de um baralho de cartas. Um dos experimentos ilustra a incoerência interna do conceito de "presente" na estrutura lógica do tempo, enquanto o outro exige que momentos sejam simultaneamente passados, presentes e futuros, gerando uma contradição conceitual.


A teoria do Universo em bloco (via relatividade) sugere que o "presente" é fisicamente irrelevante, e a relatividade restrita dissolve a simultaneidade absoluta. Se o espaço-tempo não é quadridimensional, não há "fatiamento privilegiado" do presente, e o "agora" é apenas um acidente perspectivo do observador. No entanto, mesmo que relatividade nos ofereça um bloco eterno, a termodinâmica aponta para uma assimetria — a entropia crescente — que levanta uma questão incômoda: se o tempo não existe, por que ele parece fluir em uma direção?


McTaggart não precisava responder a isso — seu argumento é puramente lógico —, mas a física sugere que talvez haja mais estrutura no problema do que ambas as abordagens capturam.

Enfim, chegar a uma resposta pode ser apenas uma questão de… tempo.

Continua…

quarta-feira, 6 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 102ª PARTE

TODOS NÓS VIAJAMOS NO TEMPO À VELOCIDADE DA LUZ, SÓ QUE QUASE NINGUÉM PERCEBE ISSO.

As Leis de Newton elucidaram diversas questões, mas também trouxeram consigo algumas estranhezas teóricas: pessoas que poderiam andar para trás, relógios que retrocederiam da tarde para a manhã e frutas que subiriam do chão de volta para os galhos das árvores. 

Curiosamente, as propostas do polímata britânico não diferenciam o passado do futuro, embora uma das características mais marcantes de nossa experiência cotidiana seja justamente a direcionalidade do tempo.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Lula está careca de saber que ser político é engolir sapo sem ter indigestão, mas jamais lhe passou pela cabeça que o Senado rejeitaria seu indicado ao Supremo — coisa que não acontecia desde o governo de Floriano Peixoto, na Era Mesozóica desta republiqueta de bananas. 

Em outras palavras, por 42 votos a 34, os senadores atravessaram na traqueia de Lula não um sapo, mas um dinossauro, e o guindaram informalmente à condição de ex-presidente da República no exercício do cargo. 

Num instante em que o impeachment das togas sobe no palanque, os parlamentares enfiaram a deposição de togados supremos na agenda do Senado a ser empossado em 2027 e empurraram outro dinossauro goela abaixo do macróbio, ao derrubar seu veto ao projeto de lei da dosimetria. A dupla derrota se deveu a uma aliança estratégica de Alcolumbre com o Centrão.

Enrolado no escândalo do Master, o presidente do Congresso e os oligarcas dos partidos majoritários do Legislativo se juntaram ao bolsonarismo para enfraquecer Lula e o Supremo e barrar o avanço das investigações do falecido banco de Daniel Vorcaro.

A aliança, que envolveu um acordo para o sepultamento da CPI que investigaria o escândalo, foi urdida nas pegadas das pesquisas que expõem a impopularidade de Lula e o avanço da candidatura de seu principal adversário. Ficou entendido que a cúpula do centrão e Alcolumbre não só enxergam a derrota do petralha-mor na sucessão de 2026, mas também colocam um pé na canoa do filho do presidiário golpista.

Até pouco tempo atrás, eu tinha vergonha dos políticos (e, por que não dizer, do eleitorado) brasileiros. Hoje, tenho nojo!

Em A Ordem do Tempo, o físico Carlo Rovelli reflete sobre essa aparente indistinção entre passado e futuro. Segundo ele, a flecha do tempo aponta do passado para o futuro apenas quando nos afastamos do mundo microscópico em direção ao macroscópico. Isso não significa que o universo seja fundamentalmente orientado no espaço e no tempo, mas sim que percebemos os processos na direção em que a entropia aumenta — a única lei da física com forte direcionalidade temporal, característica que praticamente desaparece quando aplicada a sistemas muito pequenos.

Acreditamos que o passado se foi e que o futuro é incerto, ainda que possamos prever a posição dos astros em qualquer data futura, o dia e a hora do próximo eclipse lunar e a maioria dos efeitos de uma reação física ou química. Mas a concepção de tempo varia de uma cultura para outra: os Aymaras acreditam que o passado está à frente, por ser conhecido e visível, enquanto o futuro permanece às costas, por ser desconhecido e invisível. Já para povos como os Munduruku e os Pirahã, o tempo tende a ser percebido de maneira menos abstrata e linear, privilegiando um presente vivido de forma mais direta, com menor ênfase em projeções distantes no passado ou no futuro.

Não conseguimos prever o que acontecerá na semana que vem, mas não porque o futuro seja intrinsecamente incerto, e sim porque ele envolve uma quantidade de variáveis com as quais nem os computadores mais poderosos conseguem lidar. Já os videntes, cartomantes, quiromantes, astrólogos e horoscopistas contornam esse obstáculo fazendo previsões suficientemente ambíguas para jamais estarem completamente errados.

A maneira como percebemos o tempo e o espaço é, em grande parte, uma construção mental que nos ajuda a compreender o mundo ao nosso redor. Talvez o tempo não exista de forma estritamente linear, com começo, meio e fim, mas como uma dimensão adicional do universo — algo que o cinema tentou representar artisticamente no final do filme Interstellar. O fenômeno da dilatação temporal, segundo o qual o ritmo do tempo depende do referencial do observador, já foi comprovado experimentalmente com relógios atômicos instalados em aviões, satélites e sondas espaciais.

ObservaçãoUma maneira curiosa de visualizar esse fenômeno é imaginar que todos os objetos do universo se deslocam continuamente pelo espaço-tempo a uma velocidade total constante — equivalente à velocidade da luz. Quando estamos parados em relação a algo, praticamente toda essa “velocidade” ocorre na direção do tempo, razão pela qual envelhecemos normalmente. Mas, à medida que um objeto acelera no espaço, parte desse movimento deixa de ocorrer no tempo. Quanto mais rápido ele se desloca pelo espaço, mais lentamente avança no tempo. No limite da velocidade da luz, todo o movimento ocorreria no espaço e nenhum no tempo — o que ajuda a entender por que o tempo praticamente para para partículas que se aproximam dessa velocidade.

De acordo com a Teoria da Relatividade, o espaço e o tempo formam uma estrutura unificada — o chamado espaço-tempo — na qual o tempo desacelera à medida que a velocidade do observador aumenta. A 99,99999999999% da velocidade da luz, o fator de Lorentz faz com que os relógios da nave corram cerca de 707.000 vezes mais devagar que os da Terra. Não há contradição nisso: cada observador vê o relógio do outro como mais lento, uma consequência direta da simetria das equações relativísticas. Assim, os tripulantes de uma hipotética espaçonave viajando a velocidades próximas à da luz perceberiam o tempo passar muito mais lentamente do que aqueles que permaneceram na Terra — exatamente como ilustra o famoso Paradoxo dos Gêmeos.

Ainda segundo as equações de Einstein, nada que possua massa pode acelerar até a velocidade da luz (simbolizada por c), já que sua massa efetiva tenderia ao infinito, exigindo uma quantidade igualmente infinita de energia para continuar acelerando. A 99,99999999999% da velocidade da luz, nossa hipotética nave levaria cerca de 4,22 anos para chegar a Proxima Centauri na perspectiva de um observador na Terra, mas a viagem seria extremamente curta para os astronautas a bordo.

A NASA vem realizando experimentos a bordo da Estação Espacial Internacional para estudar os efeitos da microgravidade e da relatividade sobre o corpo humano e a percepção do tempo. Os astronautas orbitam a Terra a cerca de 28.000 km/h, a uma altitude aproximada de 400 km, completando uma volta ao redor do planeta a cada 90 minutos. Se permanecerem no espaço durante seis meses, retornam à Terra cerca de cinco milissegundos mais jovens do que estariam se tivessem permanecido no planeta.

Alguns estudos também indicam que a percepção humana de espaço e tempo pode sofrer alterações no ambiente orbital. Pesquisas publicadas em revistas científicas como Nature sugerem que astronautas podem apresentar mudanças na percepção de distância, profundidade e tamanho dos objetos enquanto estão em microgravidade, o que reforça a ideia de que nossa experiência do mundo depende fortemente das condições físicas e sensoriais em que vivemos.

Continua...