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segunda-feira, 13 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO

O TEMPO É O FOGO QUE NOS CONSOME.

A despeito do avanço substantivo da ciência desde a invenção da roda, ainda não sabemos se o tempo é uma realidade física ou apenas uma convenção para organizar o caos, nem se ele flui através de nós ou somos nós que o atravessamos.

Para o cosmólogo Carlo Rovelli, o tempo não é uma linha reta pela qual os acontecimentos deslizam do passado ao futuro, mas uma variável emergente, resultante do aumento da entropia do cosmos ao longo dos últimos 13,8 bilhões de anos. Já o matemático e metafísico J. M. E. McTaggart chegou à mesma conclusão por meio da lógica pura, demonstrando a inconsistência da ideia de tempo com um simples exercício de pensamento.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A nova rodada do Datafolha em São Paulo intensificou a luz amarela que pisca no painel de controle do comitê de campanha de Lula ao reforçar a hipótese de Tarcísio de Freitas prevalecer sobre Fernando Haddad no primeiro turno — algo que, se confirmado, deixaria o molusco sem um palanque na segunda rodada no maior colégio eleitoral do país.

Tarcísio aparece no com 46% das intenções de voto, 16 pontos à frente de Haddad. Na contagem oficial, a Justiça Eleitoral leva em conta apenas os votos válidos, e aí a porca torce o rabo para o petismo. Numa projeção que desconsidera os eleitores que sinalizaram ao Datafolha a intenção de votar em branco ou anular o voto, Tarcísio prevaleceria hoje sobre Haddad por 52% a 34%. Nessa hipótese o governador seria reeleito no primeiro round, pois somaria mais do que o mínimo necessário: 50% dos votos válidos mais um.

Na sucessão de 2018, quando Lula estava preso, o PT foi representado na corrida presidencial por Haddad. Bolsonaro chegou ao Planalto porque obteve no Sudeste 5,1 milhões de votos a mais do que o rival petista. Com isso, conseguiu anular a vantagem que o PT tradicionalmente obtém na região Nordeste.

Dos 23 municípios do Sudeste com mais de 500 mil habitantes em que Bolsonaro derrotou Haddad, dez ficavam em São Paulo. Em 2022, Haddad mediu forças com Tarcísio na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Perdeu no segundo turno. Mas seu desempenho foi crucial para que Lula reduzisse a desvantagem no Sudeste. Lula voltou a perder para Bolsonaro na região. Mas reduziu a desvantagem para 784 mil votos. O que foi fundamental para a vitória nacional pela pequena margem de 1,8 ponto percentual.

Confirmando-se a hipótese da ausência de um segundo turno em São Paulo, o comitê do xamã petista ganha desafios novos, entre os quais o aperfeiçoamento da linguagem digital. A campanha no estado escorregaria naturalmente das ruas para as redes sociais — um ambiente no qual a direita costuma levar vantagem sobre a esquerda.

Essas premissas podem soar contraditórias, mas a contradição se desfaz quando consideramos, por exemplo, que a Grande Pirâmide de Gizé foi erguida no presente do faraó Queóps — o que, para nós, equivale a 4,5 mil anos atrás. Em outras palavras, se a realidade depende do ponto de vista do observador, o presente não é uma data fixa no calendário. Assim, um olhar verdadeiramente objetivo não pode se apoiar em categorias como presente, passado ou futuro — da mesma forma que “eu”, “aqui” ou “lá” só têm sentido para quem fala, mas não existem de forma absoluta.


Se o tempo, a exemplo do espaço — que compreende apenas relações entre lugares —, comporta somente relações entre acontecimentos mensuráveis, uma descrição objetiva do mundo não comporta presente, passado e futuro. E se presente, passado e futuro não existem, então o tempo também não existe — ou talvez exista, mas não do jeito que nós imaginamos.


Na antiguidade, o tempo era visto ora como um deus implacável, ora como um fluxo sereno, ora como uma ilusão. Na mitologia grega, Cronos usou sua foice para castrar seu pai, Urano, que aprisionava os filhos por receio de ser destronado… e passou a devorar os seus.


Músicas como Dust in the Wind traduzem a inevitável transitoriedade da vida, enquanto o cinema faz do tempo um personagem central, tanto nas narrativas fragmentadas de Memento quanto nos paradoxos temporais de Interestelar, que transformam em drama humano a dilatação do tempo prevista pela Teoria da Relatividade de Einstein., segundo a qual o espaço não é uma caixa rígida e inerte, mas algo como um imenso molusco que se comprime e se retorce na presença de massa e energia.


Já a mecânica quântica revelou que tudo ao nosso redor é formado por pequenos pacotinhos — como os fótons que formam a luz. O problema é que as duas teorias não se falam: uma descreve o espaço como contínuo e suave; a outra sugere que tudo o mais é granular e discreto. Conciliá-las é uma das maiores questões em aberto da física. 


Observação: A relatividade geral e a mecânica quântica se expressam em idiomas diferentes, mas ambas parecem dizer a verdade. Uma metáfora usada por Rovelli compara a natureza a um velho rabino que, consultado por dois homens para resolver uma disputa, deu razão a ambos, e quando sua mulher ponderou que eles não poderiam ter razão ao mesmo tempo, disse que ela também estava certa.


A gravidade quântica em loop visa compatibilizar a relatividade geral e a mecânica quântica. Nesse contexto, a hipótese de o espaço ser um recipiente amorfo desaparece da física com a gravidade quântica, e as coisas (quanta) não habitam o espaço, mas os arredores umas das outras. Se o espaço não for um tecido contínuo que tem como limite o limite dos pacotinhos que o formam, então o tempo não é uma linha reta pela qual as coisas fluem, nem tampouco uma sucessão de acontecimentos formados por passado, presente e futuro.


Devido às dilatações do tempo e da gravidade, o relógio anda mais devagar para quem se move em altas velocidades ou habita regiões onde a atração gravitacional é mais intensa. Um minuto numa espaçonave viajando a uma velocidade próxima à da luz equivale a milhares de anos terrestres, e um minuto no topo do Monte Everest corresponde a 60,000000000058 segundos no nível do mar — uma diferença de míseros 58 nanossegundos, mas mensurável com relógios atômicos de alta precisão.


Observação: Um relógio sobre um móvel registra que o tempo passa mais depressa quando comparado com outro que está no chão. Pelo mesmo motivo, o tempo passa mais depressa no cume do Everest do que na praia. Quanto mais próximo do centro da Terra, mais intensa é a gravidade e, consequentemente, mais devagar o tempo passa, como foi comprovado experimentalmente por relógios atômicos altamente sofisticados.


Para entender a teoria da gravidade quântica é preciso abandonar a ideia de que um gigantesco relógio cósmico marca o tempo do Universo. Um ano é apenas o tempo que a Terra leva para dar uma volta completa em torno do Sol, mas nosso conceito de “ano” só faz sentido em nosso planeta — para um hipotético habitante de Saturno, um ano corresponderia a 29,5 anos terrestres.


Nosso conceito de tempo pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Em última análise, as coisas mudam apenas umas em relação às outras; no nível fundamental, o tempo não existe. Na filosofia, Santo Agostinho sintetizou sua angústia na frase: “Se ninguém me pergunta, eu sei o que é; mas se me perguntam, já não sei responder”. Para ele, presente e futuro só existiam dentro da consciência, como memória, atenção e expectativa. Séculos depois, Henri Bergson distinguiu entre o tempo mensurável da ciência e a duração subjetiva da vida, fluida e elástica. Mas é na ciência moderna que o tempo se torna questão de medição e de leis. 


Newton falava de um “tempo absoluto”, invisível mas necessário para ordenar os movimentos do mundo. Essa noção foi revolucionada por Einstein, que demonstrou com suas equações relativísticas que não somos viajantes imóveis em um rio inexorável, e sim habitantes de um tecido cósmico onde espaço e tempo formam uma única realidade. A partir daí, tornou-se possível compreender que o tempo não é igual para todos.


Nossos antepassados começaram a medir o tempo quando notaram que as fases da Lua e a mudança das estações influenciavam o comportamento dos animais — uma questão vital para quem vivia da caça e da pesca. Na cosmologia, o tempo como o conhecemos nasceu com o Big Bang, e especular sobre o que existia antes dele faz tanto sentido quanto perguntar o que existe ao norte do Polo Norte. 

 

De acordo com a causalidade (não confundir com casualidade), o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o que acontece hoje influencia o que acontecerá amanhã. Como esse princípio dá ao Universo uma direção única, a possibilidade de voltar no tempo põe a ciência em xeque. Mas algumas interpretações da física — como a da gravidade quântica — atestam que o tempo se resume a uma dimensão secundária que surge da interação entre eventos e partículas, sem existir como entidade independente.


Por outro lado, se causa e efeito estão relacionados pela ordem dos eventos, e não pela passagem do tempo em si, então o tempo é ilusório e a causalidade pode se manter através dessas relações ordenadas. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.

sábado, 6 de junho de 2026

DE VOLTA À NATUREZA DO TEMPO CRONOLÓGICO

NÃO FORCE DEMAIS AS COISAS. O QUE FLUI, FLUI, O QUE TERMINA, TERMINA, E O QUE TIVER DE SER, SERÁ.

A ciência não sabe se o tempo existe realmente ou é somente uma convenção criada por nossos antepassados para explicar o dia e a noite, as fases da lua, as estações do ano e demais eventos sazonais. Ainda assim, consultamos o relógio acreditando que o tempo flui inexoravelmente do passado para o futuro como as águas de um rio correm da nascente para a foz, mas e se esse fluxo não passar de uma ilusão?

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Durou pouco o entusiasmo de Bolsonarinho com a Casa Branca. Quatro dias após batizar de terroristas o PCC e o CV, Trump acenou com a imposição de novo tarifaço contra produtos brasileiros (desta vez de 25%) e incluiu entre os motivos o Pix.

A ameaça de nova paulada chega como resultado da investigação por supostas práticas comerciais injustas do Brasil, aberta no ano passado junto com o tarifaço de 50% — uma das medidas adotadas pela calopsita alaranjada em resposta ao que chamou de "caça às bruxas" contra Bolsonaro, atribuída à influência do traidor da pátria autoexilado Dudu Bananinha.

Na semana passada, o filho do presidiário disse ter sinalizado a Trump que, se eleito presidente desta republiqueta de bananas, os EUA teriam "um presidente aliado", o que tornaria desnecessária a adoção de retaliações tarifárias. Dias antes, Lula, o macróbio, havia dito que, se conseguisse fazer Trump sorrir, conseguiria "outras coisas". Nos últimos dias, voltou a atribuir o rosnado do imperador laranja à traição dos Bolsonaro contra a pátria.

Se Deus o intimasse Trump a optar entre a conveniência da quadrilha Bolsonaro e seus próprios interesses, ele certamente diria algo como "fuck Bolsonaro and Lula", e os protagonistas da sucessão brasileira talvez percebessem que o único amigo do tresloucado mandatário americano é sua imagem refletida no espelho.

A decisão sobre as novas tarifas será tomada até 15 de julho. Se forem baixadas, será péssimo para o Brasil, mas pode impulsionar a reeleição de Lula. Para o clã Bolsonaro e seu presidenciável, um novo tarifaço editado a três meses e meio da eleição seria como um beijo da morte.


Desde tempos imemoriais, cientistas e filósofos buscam desvendar a verdadeira natureza do tempo, mas ainda não descobriram se ele é uma propriedade natural ou um componente da teoria que introduzimos manualmente. 


Para os físicos, o tempo é um problema que se apresenta em pelo menos três versões difíceis de conciliar. Em primeiro lugar, existe o que se chama de "tempo coordenado": em muitas das equações que descrevem fenômenos físicos o tempo aparece simplesmente como um parâmetro matemático, uma coordenada numérica que indica quando um evento ocorre. Nesse contexto, o tempo não aparece como algo que flui, mas como um parâmetro que nos permite ordenar mudanças.


Einstein revolucionou a física ao demonstrar que o tempo relativístico não é um relógio comum a todos — se dois observadores movendo-se a velocidades diferentes podem discordar sobre a ordem dos eventos, então o tempo deixa de ser um relógio e passa a fazer parte da estrutura do espaço-tempo, que é afetada pela gravidade e pelo movimento —, e complicou ainda mais o cenário ao demonstrar que o "agora" não é universal.


Já o tempo termodinâmico — talvez a única indicação clara de que o tempo parece se mover em apenas uma direção — surge da segunda lei da termodinâmica, segundo a qual a entropia, que descreve o grau de desordem em um sistema, tende a aumentar. É por isso que um ovo que se quebrou, os cacos de um copo que se espatifou e a fumaça que se dispersou no ar, por exemplo, não voltam espontaneamente ao status quo ante.


O problema é que nenhuma dessas versões se alinha completamente entre si nem com nossa experiência subjetiva do tempo, e muitas das equações mais fundamentais funcionam da mesma maneira, tanto para frente quanto para trás — não há nenhuma seta nos números que aponte para o futuro.


Para alguns pensadores, o que percebemos como o "fluxo do tempo" nada mais é do que uma história que contamos a nós mesmos. Ou seja: o cérebro constrói uma linha do tempo para dar coerência à experiência e, assim como acontece com as cores, nós confundimos essa construção com uma propriedade do mundo externo. 


A relatividade reforça essa suspeita: acontecimentos que parecem simultâneos para um observador podem ocorrer em momentos distintos para outro, pois o que existe não é um "agora" universal, e sim uma rede de eventos distribuídos pelo espaço-tempo, onde o passado, o presente e o futuro coexistem — nessa perspectiva, a distinção entre eles seria nada mais que uma ilusão, ainda que persistentemente convincente.


Mas a física vai ainda mais longe: no reino quântico, não há uma maneira direta de medir o tempo como há com outras propriedades físicas. Pode-se medir onde uma partícula está, mas nunca quando ela está, pois o tempo aparece menos como uma propriedade natural dos sistemas quânticos e mais como um parâmetro que introduzimos manualmente para descrevê-los. Esse paradoxo levou alguns físicos a formularem uma questão radical: e se o tempo não for fundamental, mas emergir de uma estrutura mais profunda que ainda não compreendemos?


Em 1983, os físicos Don Page e William Wootters propuseram que o universo seria uma gigantesca função de onda quântica atemporal, mas dividir essa estrutura em duas partes — uma descrevendo toda a matéria observável e a outra atuando como um "relógio interno" — faz com que o entrelaçamento quântico entre as duas enseje o surgimento da percepção do tempo. De acordo com essa ideia, ao consultarmos o relógio estamos selecionando (ou fixando) o estado correlacionado do restante do sistema naquele momento, ou seja, o tempo, surge como um efeito do entrelaçamento.


Para entender melhor essa ideia, imagine um manuscrito sobre uma mesa, onde o início, o meio e o fim já existem simultaneamente. Porém, para que a história faça sentido é preciso ler suas páginas em ordem, pois a numeração conecta cenas que, na realidade, permanecem fixas. Algo semelhante poderia acontecer com o universo: a mudança não estaria necessariamente na história em si, mas na maneira como a vivenciamos.


Durante décadas, essa ideia não passou de um elegante exercício teórico, mas em 2024 a física Paola Verrucchi, do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália, conseguiu construir um modelo matemático funcional inspirado nesse mecanismo: um sistema que entrelaçava um relógio magnético com outro sistema quântico análogo a uma mola. Vista de fora, essa estrutura permanecia estática, mas, em relação ao relógio interno, a mola parecia esticar e contrair seguindo sequências temporais. 


O mais surpreendente é que esse comportamento persistiu mesmo quando o sistema foi ampliado, sugerindo que a ilusão do tempo pode não estar limitada apenas ao mundo quântico. O entrelaçamento quântico entre um relógio interno e a matéria observável permitiria o surgimento do tempo, de acordo com a teoria de Page-Wootters proposta em 1983. 


Outra descoberta surpreendente dessa linha de pesquisa é que a medição do tempo gera entropia. Em outras palavras, os relógios — mesmo os mais simples — não apenas registram a passagem do tempo, mas também produzem calor. Marcus Huber, da Universidade Técnica de Viena, e Natália Ares, da Universidade de Oxford, estão investigando o que acontece quando desmontamos um relógio até seu nível quântico mais básico, e seus resultados descrevem uma relação de compromisso: quanto mais preciso e frequente o tique-taque (quanto mais informação temporal for extraída), maior a tendência de geração de entropia. Mesmo um relógio quase perfeito torna-se instável quando se tenta extrair informações dele.


Tudo isso abre uma possibilidade intrigante: e se a sensação de que o tempo está passando não depender de sua existência como algo fundamental, mas sim de nossa interação com os sistemas que usamos para medi-lo? Alguns cientistas sustentam que o universo já possui relógios naturais, que são os buracos negros — corpos celestes extremamente massivos, de cuja atração gravitacional nem a própria luz consegue escapar. 


Stephen Hawking demonstrou que os buracos negros podem se emaranhar com o mundo exterior através da radiação que emitem, abrindo espaço para a hipótese de que eles possam funcionar como relógios cósmicos. Se assim for, seu tique-taque deveria deixar rastros na entropia da radiação Hawking. Mas poderiam os buracos negros desempenhar o papel de relógio quântico do universo através do entrelaçamento com essa radiação?


A chave desse mistério pode estar em algo ainda mais fundamental do que a entropia. Em 1935, Erwin Schrödinger demonstrou o paradoxo da superposição propondo que um gato em uma caixa lacrada, ligado a um evento radioativo aleatório, poderia ser considerado simultaneamente vivo e morto até que a caixa fosse aberta e o estado observado. Isso significa que uma partícula quântica pode existir em múltiplos estados até que a meçamos. Como esse colapso é irreversível — uma vez que o medimos, não há como voltar atrás —, a flecha do tempo pode ​​ser simplesmente um registro do que foi medido. Assim, nós não apenas participamos do tempo, mas o criamos sempre que perguntamos que horas são.


Essa perspectiva não nega o significado da nossa experiência temporal. Embora seja genuína, a interpretação metafísica que lhe atribuímos é opcional. Nossa vida continua sendo uma sequência de escolhas e memórias, mas essa sequência reside dentro de nós, não em um cosmos que flui independentemente. E se o fluxo do tempo é uma espécie de construção cognitiva, talvez isso altere a forma como vivenciamos a urgência dos prazos, lidamos com a perda ou sentimos que o tempo nos roubou algo. Talvez a flecha do tempo não nos atinja: somos nós que seguimos em frente, construindo memórias enquanto percorremos o mundo.


A física moderna dispõe de ferramentas capazes de explorar questões antes restritas à filosofia, mas suas grandes teorias — relatividade, mecânica quântica e termodinâmica — ainda entram em conflito quando tentam descrever o que o tempo realmente é. E talvez essa tensão seja o indício mais claro de que o tempo, como o imaginamos, não existe como uma entidade única. Talvez o tempo só seja real em diferentes sentidos: como experiência, como aumento da entropia, como ilusão cognitiva ou como efeito da forma como interpretamos o mundo.


Por ora, o tempo ainda está aí, pelo menos para nós, marcando cada segundo.


Continua...

quarta-feira, 13 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 104ª PARTE — O ENTRELAÇAMENTO QUÂNTICO E A SETA DO TEMPO

WE ARE ALL TIME TRIPPERS 

Nossos ancestrais começaram a medir a passagem do tempo quando notaram padrões no amanhecer e no anoitecer, nas fases da Lua e nas estações, por exemplo. Mas a física moderna sugere que o tempo pode ser uma ilusão.

O que convencionamos chamar de "dia" é o intervalo de uma meia-noite à seguinte; o que chamamos de "mês", uma sequência de 28 a 31 dias; e o que chamamos de "ano", um ciclo de aproximadamente 365 dias e 6 horas — arredondamento que explica a existência dos anos bissextos.

O que cada pessoa faz a cada dia é subjetivo: no mesmo dia que você volta de férias e desfaz as malas eu posso estar arrumando as malas para sair de férias — e vice-versa. Segundo a teoria da relatividade de Einstein, o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial. Consequentemente, o tempo não flui do passado para o futuro, mesmo porque o que é futuro para um observador pode ser passado para outro. As equações relativísticas de Einstein levaram ao que os filósofos chamam de "eternismo", cuja ideia central é a de que passado, presente e futuro existem com o mesmo status ontológico — ou seja, o que chamamos de "agora" é apenas uma fatia arbitrária desse bloco quadridimensional. 

Antes de Einstein, o “presente” era compartilhado por todos no universo: existia um “Grande Agora”. A gente podia olhar para o relógio, ver que marcava meio-dia, por exemplo, e dizer que muitas coisas estavam acontecendo “agora”, mesmo para pessoas muito distantes de nós. Com as equações do físico alemão, isso deixou de ser verdade.


Cada um só pode falar sobre o "presente" a partir de seu próprio referencial. O "Grande Agora", que se estendia por todo o Universo, deixou de existir. O que está acontecendo "agora" da sua perspectiva pode parecer muito diferente para um hipotético alienígena viajando numa nave espacial a uma velocidade incrivelmente alta. 


Observação: A 99,999999999999999999981% da velocidade da luz, que é de 1,08 bilhão de km/h, a dilatação do tempo faz com que um segundo no referencial do viajante equivalha a 2,5 anos no tempo terrestre (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos). Em um cenário mais moderado, chegar a Alpha Centauri (que dista 4,367 anos-luz da Terra) viajando a essa velocidade levaria mais de 4 anos terrestres, mas o trajeto seria completado em menos de duas horas no referencial dos astronautas.


O fato de a simultaneidade ser relativa ao observador conflita com a mecânica quântica, na qual o tempo funciona como um parâmetro externo e universal, não sujeito à incerteza quântica como posição e momento. Em outras palavras, a relatividade exige que o tempo seja local e relacional, enquanto a mecânica quântica o trata como um pano de fundo fixo e comum a todos os observadores.


No entanto, a ideia de que o tempo é uma construção mental não é nova (detalhes nesta postagem).. Em meados do século XVII, as Leis de Newton já eram simétricas no tempo — ou seja, suas equações funcionam igualmente bem se imaginarmos pessoas andando para trás, relógios retrocedendo da tarde para a manhã ou frutas subindo do chão para os galhos das árvores.


De acordo com um artigo publicado na revista Physical Review A, o tic-tac do relógio é apenas uma representação conveniente de uma série de eventos emaranhados, pois o tempo não é uma dimensão contínua e independente, mas uma sequência de acontecimentos correlacionados que emergem do entrelaçamento quântico.


Na visão dos autores, o tempo é uma ilusão, e conceitos como passado, presente e futuro são simples convenções que usamos para descrever nossa experiência subjetiva. Isso explica por que as equações da física quântica são simétricas no tempo — ou seja, funcionam tanto para frente quanto para trás. O próprio Einstein costumava dizer que a distinção entre passado, presente e futuro é apenas "uma ilusão teimosamente persistente". Mas se é assim, de onde vem a flecha do tempo?


A flecha que avança do passado para o futuro surge somente quando nos afastamos do mundo microscópico em direção ao macroscópico. Isso tem a ver com o fato de olharmos para as coisas grandes e ignorarmos os detalhes. Isso não significa que o mundo seja fundamentalmente orientado no espaço e no tempo, mas, quando olhamos à nossa volta, vemos a direção na qual a entropia dos objetos do dia a dia aumenta — como a fruta madura que cai da árvore e apodrece no chão, sem nunca fazer o caminho inverso.


A Segunda Lei da Termodinâmica diz que a entropia de um sistema isolado sempre aumenta. Por estar indissociavelmente ligada à direção do tempo, ela é a única lei da física com direcionalidade temporal que perde essa característica quando se fecha o foco em coisas muito pequenas. A entropia de um cubo de gelo aumenta conforme ele é aquecido, já que suas moléculas se movimentam com mais liberdade quando o gelo derrete e se transforma em água líquida — e mais ainda quando a água ferve e se transforma em vapor. Mas isso levanta uma questão perturbadora: se as leis microscópicas são simétricas no tempo, então a assimetria que sentimos como "o tempo fluindo" pode ser apenas um fenômeno estatístico.


O físico Ludwig Boltzmann passou anos tentando explicar por que o Universo começou com entropia tão baixa. A resposta moderna aponta para o Big Bang como uma condição inicial de baixíssima entropia, mas isso apenas empurra o mistério para trás. Na tentativa de unificar a relatividade geral com mecânica quântica, a gravidade quântica em loop e outras abordagens chegam a uma conclusão chocante. A famosa equação de Wheeler-DeWitt — uma tentativa de equação quântica para o Universo inteiro — simplesmente não tem o tempo como variável. O universo, descrito matematicamente, é estático.


Para o físico Carlo Rovelli, o tempo não existe para uma única partícula, mas emerge de interações entre muitos sistemas, e seu "fluir" seria nossa percepção de um aumento de correlações com o ambiente — nossa velha conhecida entropia novamente. Por outro lado, a física ainda não sabe responder porque, se as leis são simétricas, temos memória do passado e não do futuro? O que exatamente colapsa a função de onda, e isso define um "agora"? Como reconciliar o tempo relativo de Einstein com o tempo como parâmetro externo da mecânica quântica?


Alguns físicos — como Roger Penrose — sugerem que a experiência subjetiva do tempo pode ter raízes quânticas no cérebro. Uma ideia controversa, mas é curioso que nossos ancestrais tinham acesso a algo genuinamente misterioso simplesmente observando o Sol e a Lua, e nós, com toda a física moderna, não sabemos sequer se o tempo existe.


Continua…

sexta-feira, 8 de maio de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 103ª PARTE — A LÓGICA E A INEXISTÊNCIA DO TEMPO

A VIDA NÃO É ENTENDÍVEL, DE MODO QUE VIVER É MUITO PERIGOSO.

Três anos depois de Einstein publicar a Teoria da Relatividade Especial e sete anos antes de a Teoria da Relatividade Geral vir à luz, o matemático, filósofo e lógico J.M.E. McTaggart divulgou um raciocínio lógico com vistas a negar a existência do tempo.


Segundo ele, a proposição "nascerá amanhã" é verdadeira hoje. Após o nascimento, "nasceu ontem" é verdadeira. Consequentemente, classificar os acontecimentos como "antes", "depois" ou "agora" não altera suas posições temporais objetivas nem o valor de verdade das proposições que descrevem suas ocorrências efetivas. Dito com outras palavras, o tempo é apenas uma ilusãoMas há quem diga que isso não significa que nada mudou ontologicamente — mudou o status temporal do evento em relação ao presente, e o fato de o presente avançar é real, não ilusório.


A questão é que, se o Universo é um bloco quadridimensional estático que contém o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial, o que é futuro para um observador é passado para outro. Assim afirmar que o tempo flui do passado para o futuro conflita com a forma como o tempo é tratado em teorias físicas como a relatividade, nas quais não existe um “agora” universal.


Observação: A teoria do Universo em blocos tem implicações diretas na interpretação da relatividade restrita: se todos os momentos coexistem igualmente, o "presente" seria apenas uma fatia do bloco quadridimensional — o que reforça a tese de McTaggart por uma via completamente diferente: a física.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O anúncio de que Lula conversaria com Trump na quinta-feira (7) desparafusou os dois neurônios de Eduardo Bolsonaro. De repente, o mundo se tornou mais complexo do que o manual de instruções do bolsonarismo, e Dudu Bananinha não enxergasse no próprio umbigo o centro do universo. Lula, malandro que é, fez um discurso para a militância e outro para as elites. Embatucado, Eduardo refugiou-se no raciocínio binário: se a coisa não se encaixa, há uma conspiração em curso. 

Surge, então, a teoria de que há dois Lulas na praça: para o consumo dos militantes, enrolado na bandeira nacional, e outro subserviente, para as elites, subserviente e entreguista. Na melhor das hipóteses, o filho do refugo da escória da humanidade está sendo cínico para evitar que bolsonaristas ingênuos sejam intoxicados pela descoberta, quase subversiva, de que um presidente brasileiro deve escorar sua política externa na defesa do interesse nacional. Na pior, ele acredita mesmo que Trump tem uma missão especial na Terra, de inspiração divina, que inclui apoiar a candidatura do irmão para converter o Planalto em puxadinho da Casa Branca.

Lula, por sua vez, presta um serviço ao interesse nacional cada vez que consegue neutralizar o estrago feito pelo bolsonarismo ao envenenar Trump contra o Brasil. Depois que a polarização doméstica foi exportada como conflito internacional, qualquer gesto de normalização é um ganho. O problema começa quando o serviço necessário e até esperado de um chefe de Estado passa a ser tratado como façanha extraordinária  — ou, pior, como um ativo de campanha.

Embora muitos não percebam, há uma diferença enorme entre governar e fazer marketing político. Transformar uma visita à Casa Branca em troféu eleitoral revela mais ansiedade do que estratégia — como se o simples fato de sentar à mesa com Trump resolvesse, por si só, as contradições internas. É aí que a metáfora do náufrago se encaixa: confundir diplomacia com salvação política é tão arriscado quanto agarrar um jacaré achando que é um tronco.

A política externa não substitui gestão econômica e articulação no Congresso, nem tampouco arranca a popularidade de Lula do vermelho. Como instrumento de Estado, a diplomacia cumpre o seu papel. Quando vira palanque, perde a eficácia. Melhor fazer o básico, sem teatralização e torcer para que o eleitor minoritário de centro, que decidirá a sucessão em 2026, perceba que o Brasil precisa de relações internacionais estáveis, não de enredos politicamente inflados.


Com o intuito de provar que o tempo não passa de uma ilusão, McTaggart usou um baralho no qual cada carta representava um evento. Primeiramente, ele organizou as cartas em uma sequência: os acontecimentos pretéritos à esquerda, os presentes no meio e os futuros à direita, formando uma ordem baseada na relação anterior/posterior.


Vale lembrar que, num sistema fechado, a flecha do tempo se baseia no aumento da entropia, e que qualquer dispositivo destinado a medir o tempo — como um relógio, por exemplo — depende de alterações (ticks). Uma vez que não existe tempo sem mudança, o experimento não serviu para "capturar" a essência do tempo, levando McTaggart a reorganizar as cartas em três pilhas não estáticas e movê-las da pilha da direita (futuro) para a do meio (presente) e desta para a da esquerda (passado). 


De acordo com o polímata, nessa série circular os eventos futuros se tornam presentes assim que acontecem e pretéritos logo em seguida. Em vista disso, há claramente uma mudança, pois é preciso estar no tempo para realizar esse arranjo, e como o tempo é exatamente o que se pretende capturar, precisar de tempo para descrever o tempo cria uma circularidade que viola a lógica.


Uma vez que o primeiro arranjo não conseguiu descrever o tempo porque era imutável, e o segundo arranjo previa mudanças que ocorriam de maneira circular, nenhum dos dois experimentos funcionou, e assim McTaggart concluiu que o tempo não poderia ser real. 


Mais de cem anos depois, os filósofos continuam buscando uma solução. Alguns, chamados A-theorists, tentam definir o segundo experimento de uma forma que não seja circular, enquanto outros, chamados B-theorists, defendem que o primeiro experimento descreve a realidade e dizem que McTaggart estava errado ao exigir que a série mudasse. Há também C-theorists, para quem a linha de cartas sequer tem uma direção do antes para o depois.


Independentemente de quem tem razão, há maneiras diferentes de pensar sobre o tempo, e raciocinar em termos de passado, presente e futuro pode ser apenas uma convenção. Mal comparando, seria como numerar as tábuas de uma cerca: como ela não tem direção, a pessoa pode começar do lado que quiser. Mas o detalhe é que McTaggart defendeu sua tese valendo-se apenas da lógica e de um baralho de cartas. Um dos experimentos ilustra a incoerência interna do conceito de "presente" na estrutura lógica do tempo, enquanto o outro exige que momentos sejam simultaneamente passados, presentes e futuros, gerando uma contradição conceitual.


A teoria do Universo em bloco (via relatividade) sugere que o "presente" é fisicamente irrelevante, e a relatividade restrita dissolve a simultaneidade absoluta. Se o espaço-tempo não é quadridimensional, não há "fatiamento privilegiado" do presente, e o "agora" é apenas um acidente perspectivo do observador. No entanto, mesmo que relatividade nos ofereça um bloco eterno, a termodinâmica aponta para uma assimetria — a entropia crescente — que levanta uma questão incômoda: se o tempo não existe, por que ele parece fluir em uma direção?


McTaggart não precisava responder a isso — seu argumento é puramente lógico —, mas a física sugere que talvez haja mais estrutura no problema do que ambas as abordagens capturam.

Enfim, chegar a uma resposta pode ser apenas uma questão de… tempo.

Continua…