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segunda-feira, 20 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE EQMs

OS HOMENS TEMEM A MORTE COMO AS CRIANÇAS TEMEM A ESCURIDÃO.

Evidências são indícios que apontam para a ocorrência de fatos; fatos são os acontecimentos propriamente ditos; e provas são os meios usados para demonstrar que os fatos efetivamente ocorreram. 


Na percepção distorcida e limitada dos que padecem de cegueira mental, as EQMs (detalhes no capítulo anterior) não são evidências de coisa alguma. Os céticos as veem como um fato, mas não como prova da existência da "alma imortal" ou de que a consciência sobrevive à morte clínica. Para quem tem a mente aberta e cultiva o saudável hábito de raciocinar, esse fenômeno dá o que pensar.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Até um burro cego morde a cenoura de vez em quando. Lula falou muita bobagem durante suas três gestões (bem menos do que Dilma em uma gestão e meia, mas enfim), e, como ensina o teorema do macaco infinito, toda araruta tem seu dia de mingau. Interessa dizer que o senador das rachadinhas, panetones e mansões milionárias, seu provável adversário na disputa pela Presidência deste ano (que Deus nos livre da vitória de qualquer um desses dois dejetos) foi o sujeito oculto do macróbio eneadáctilo no Fórum em Defesa da Democracia, no sábado 19, em Barcelona. Sem citá-lo, o xamã petista o tratou como um risco à democracia no Brasil. Em timbre de palanque, Lula disse: "Temos um ex-presidente preso condenado a 27 anos de cadeia, temos quatro generais quatro-estrelas presos porque tentaram dar o golpe." Numa referência ao filho de Bolsonaro, disse que "o extremismo não acabou, ele continua vivo e vai disputar eleição outra vez." Quem sabe ouvir nas entrelinhas percebe na fala a intenção de Lula de reativar em 2026 o fator democrático que lhe rendeu a vitória, por pequena margem, na sucessão de 2022. Na campanha de 2022, Lula prometeu governar para todos. Assegurou que faria um governo "para além do PT". Eleito com uma diferença de 1,8 ponto percentual, preferiu intensificar a polarização. Perdeu ao longo de três anos e meio de mandato o apoio dos eleitores que votaram nele para mandar Bolsonaro mais cedo para casa. Na pesquisa Quaest do mês passado, 48% dos independentes diziam que o filho do pai não era mais moderado que sua família. Na sondagem divulgada nesta semana, esse percentual caiu para 45%. Em janeiro, o molusco estava 16 pontos à frente do rival nesse nicho do eleitorado. Agora, a diferença se inverteu por uma vantagem de sete pontos.


EQMs que acontecem quando não há atividade no córtex frontal (morte clínica) são documentadas a partir de relatos feitos pelos próprios pacientes após a reanimação. Se não há registros delas em casos de morte encefálica, é porque a irreversibilidade dessa condição exclui a possibilidade de reanimação — ou seja, se o paciente já atravessou a via de mão única que leva ao "lado de lá", não há como colher seu depoimento, a menos que ele compareça a uma sessão de mesa branca ou reencarne e preserve lembranças da vida anterior.

 

O "roteiro" da maioria das EQMs documentadas é quase sempre o mesmo: a pessoa "trazida de volta" relata que viu próprio corpo morto, foi "sugada" para um túnel de luz, viu a própria vida como num filme, reencontrou parentes já falecidos, mas sentiu que precisava retornar ao corpo. Alguns pacientes descrevem um profundo sentimento de paz e um estado ampliado de consciência, mas os relatos mais impressionantes são os que incluem detalhes do que aconteceu enquanto eles estavam clinicamente mortos, sobretudo porque esses detalhes são confirmados por médicos, parentes e outras pessoas que assistiram aos procedimentos de reanimação. 

 

Se a consciência é produzida pelo cérebro, como ela pode continuar existindo depois que o cérebro parou de funcionar? Não há uma resposta fácil, a não ser para quem se escora em dogmas meramente impositivos — se Deus quis assim, então é assim e ponto final. Mas à luz da ciência, o buraco é mais embaixo (a propósito, sugiro a leitura do livro Experiências de Quase Morte – Ciência, mente e cérebro, do neurocirurgião Edson Amâncio).


EQMs e vida após a morte são coisas diferentes, ainda que correlacionadas. Tudo se resume — se é que se pode "resumir" conceitos tão complexos — à incerteza sobre o que acontece "depois", ou mesmo se existe um "depois". Os religiosos acreditam na imortalidade da alma, mas o que é a religião senão a evolução do misticismo que levou nossos ancestrais a endeusar o Sol, a Lua, os raios, os trovões e tantos outros fenômenos que hoje sabemos que são naturais? 

 

Para os católicos, a alma é única e eterna e a morte carimba o passaporte que autoriza os "bons" a ingressarem no Reino dos Céus — depois de uma escala no Purgatório — e despacha os "maus" para as profundezas da Inferno, onde serão cozidos em óleo fervente ou assados em espetos por toda a eternidade.


Observação: Aqui caberia abrir um parêntese para discutir o conceito de eternidade, mas vou deixar essa discussão para outra ocasião. Quanto ao inferno, sugiro a leitura desta anedota sobre o "inferno brasileiro".

 

Os espíritas acreditam que a alma sobrevive à morte física e passa para um novo plano astral; que Deus nos criou simples e ignorantes — sem discernimento do mal e do bem —; que quem pratica o mal reencarna várias vezes até evoluir espiritualmente; e que quem pratica a caridade, o bem e o amor só reencarna se quiser. Para eles, os espíritos desencarnados possuem a capacidade de se ligar a outros espíritos — encarnados ou não, de acordo com a sintonia e a afinidade dessas almas —, o que explicaria a existência de lugares com diferentes níveis vibratórios..


O Judaísmo admite múltiplas interpretações. Algumas vertentes acreditam na sobrevivência da alma, mas não têm um roteiro definido sobre o que acontece depois da morte — ou mesmo se existe vida após a morte. Segundo a Cabala, a alma é imortal, e as provações que cada um enfrenta em vida levam a seu aperfeiçoamento. Existem, segundo eles, três tipos de almas, e o desligamento do corpo não é imediato (podendo levar de 30 dias a 1 ano). Enquanto a alma está ligada ao corpo, não há possibilidade de reencarnação, daí os familiares do finado cobrirem os espelhos da casa e rezarem o Kadish.

 

Os budistas acreditam que o espírito reencarna, podendo voltar como gente ou como animal, dependendo de sua conduta durante a vida, e que esse ciclo se repete até que o espírito se liberte de seu carma. No Japão, além de flores no caixão, uma tigela com arroz cozido, água, um vaso com flores, velas e incenso são colocados sobre uma mesa, para que nada falte ao morto. 


Para os islâmicos, a vida é uma preparação para outra existência. A morte dá início ao primeiro dia na eternidade, onde as almas dos muçulmanos ficam aguardando o juízo final. Quem seguiu as leis de Alá e as tradições dos profetas é enviado para o Paraíso; e quem foi desviado por Xeitã é despachado para o Inferno.


Segundo o Candomblé, as pessoas são formadas por elementos constitutivos perecíveis (corpo) e imperecíveis (ori), e a vida continua por meio da força vital (o ori retorna em outro corpo, mas dentro da mesma família. Não há punição eterna nem a ideia preconcebida de Céu e Inferno; a morte é considerada uma passagem para outra dimensão, onde os espíritos se reúnem aos guias e orixás. Já na visão dos umbandistas, o universo é formado por sete linhas, cada qual regida por um orixá, e a morte é uma etapa evolutiva (clique aqui para mais detalhes sobre as religiões afro-brasileiras).

 

No Hinduísmo, a pessoa é a alma, não o corpo físico. Após a morte, a alma se separa do corpo e parte rumo a outra dimensão. Almas evoluídas voltam em altas castas — como a dos brâmanes, composta por filósofos e sacerdotes. Guerreiros e políticos pertencem à casta dos xátrias, e os menos evoluídos reencarnam como comerciantes (casta dos vaishyas) ou trabalhadores (casta dos sudras). Quem consegue se desapegar do mundo material e atinge um patamar elevado não está obrigado a reencarnar.

 

Para os batistas, quem aceitar Jesus terá uma vida de paz e felicidade no Paraíso, e quem não aceitar, uma vida de dor, angústias e sofrimento no inferno. Já os adventistas acreditam que os mortos dormem até o momento da ressurreição, quando então os que cumpriram seu papel na Terra ganham a vida eterna, e os demais desaparecem. Para os sectários da Cientologia — como John Travolta e Tom Cruise — o thetan (espírito) sai em busca de um novo corpo no qual retornará à vida. Segundo seus sectários, 75 milhões de anos atrás havia dezenas de planetas governados como uma confederação por Xenu — um líder maligno que enviou bilhões de espíritos para a Terra. Assim, os terráqueos são reencarnações desses extraterrestres, que são imortais e, portanto, continuam reencarnando ad aeternum.

 

A exemplo dos católicos, os evangélicos acreditam no juízo final e na existência de Paraíso, Inferno e Purgatório. A diferença é que, segundo eles, as almas ficam adormecidas até Jesus voltar à Terra e decidir quem irá com ele para o Reino dos Céus e quem passará a eternidade num lago de enxofre e fogo. Já os protestantes descartam a reencarnação, mas não a existência de Céu e Inferno. Segundo eles, o julgamento ocorre não pelas ações da pessoa em vida, mas pela fé que ela teve na palavra de Deus e pelo amor ao Senhor.


De acordo com o fisicalismo — que é o cientificismo reducionista e materialista aplicado à neurociência — o cérebro produz a mente. Seus sectários desdenham das experiências de quase-morte, escarnecem de quem afirma lembrar de vidas passadas e negam a mediunidade — mas não oferecem uma explicação convincente para casos notórios, como os da norte-americana Leonora Piper e do brasileiro Chico Xavier.

 

Não há provas irrefutáveis de que a consciência (ou alma, ou espírito) sobreviva à morte física, mas sobram indícios que levam água a esse moinho. Parafraseando Shakespeare, há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia, e cosmólogo e romancista Carl Sagan, ausência de evidências não é evidência de ausência (na verdade, essa ideia foi desenvolvida por William Wright em 1887; Sagan apenas popularizou o aforismo num livro que escreveu sobre a existência de seres extraterrestres). 

 

Escorar-se na falta de evidências para negar a existência de seja lá o que for é afrontar a ciência, já que ela amplia os limites do conhecimento transitando entre o conhecido e o desconhecido. Os fenômenos que mencionei ao longo deste capítulo existem, mas explicá-los é outra história. Por outro lado, refutá-los de plano é o mesmo que retroceder pelo caminho que levou a humanidade do obscurantismo ao iluminismo. Em outras palavras, em não havendo fraude envolvida, negá-los é comprovar o que teria dito Einstein sobre a infinitude da estupidez humana.

 

Continua…

terça-feira, 29 de abril de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 22ª PARTE

UM BARCO SEM COMANDANTE É UM BARCO À DERIVA.


Diversas teorias amplamente aceitas preveem a existência de fenômenos impossíveis de serem observados diretamente. A Relatividade Geral, por exemplo, previu a existência dos buracos negros décadas antes de eles serem avistados de fotografados, e descreveu matematicamente seu interior, embora nenhum buraco negro tenha sido acessado diretamente.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Condenado em 2023 a oito anos e 10 meses de cana, Collor finalmente foi preso última sexta-feira. Visando converter o regime fechado em prisão domiciliar, sua defesa argumentara que, além de ser idoso, o ex-presidente padece de diversas comorbidades que exigem cuidados contínuos e acompanhamento médico especializado.
Não foi essa a impressão deixada pelo Rei Sol durante a audiência de custódia. Interrogado por videoconferência pelo juiz Rafael Henrique, da equipe de Alexandre de Moraes, ele demonstrou estar bem-disposto e chegou a exibir um leve sorriso. Ao ser questionado se tinha alguma doença ou fazia uso de medicação contínua, foi curto e grosso: "Não". Indagado se havia passado por exame de corpo de delito, relatou que uma enfermeira aferiu sua pressão e auscultou seu coração. "Se isso é corpo de delito, então foi feito", concluiu. 
Moraes atendeu ao pedido do réu e o enviou para uma hospedaria "especial" do presídio alagoano de Baldomero Cavalcanti de Oliveira, e determinou que a instituição informasse no prazo de 24 se dispõe de estrutura para garantir que o detento continue vendendo saúde. 
Talvez conviesse à defesa adicionar a amnésia em nova petição ao Supremo: somente um surto de falta de memória levaria um paciente de Parkinson, apneia grave e transtorno bipolar a dizer que não toma remédios.

A Teoria do Multiverso não é uma teoria isolada, mas uma consequência de abordagens como a Inflação Eterna e a Mecânica Quântica. Cientistas renomados — incluindo o saudoso Stephen Hawking — sustentam que os universos paralelos são plausíveis, e Max Tegmark foi além, classificando-os em quatro níveis.

O Multiverso de Nível 1 corresponde à porção do cosmos que ainda não conseguimos avistar porque os últimos 13,8 bilhões de anos foram insuficientes para que sua luz chegasse até nós. Se o universo é infinito, é razoável supor que existam incontáveis regiões idênticas à nossa, além da Esfera de Hubble, que se estende para todos os lados por 49 bilhões de anos-luz. 

A ideia de que tudo que está além desse limite pode ser considerado outro universo se torna ainda mais intrigante quando pensamos que, embora o universo possa ser infinito, as formas de organizar suas partículas são finitas. Assim, se viajássemos indefinidamente em linha reta, acabaríamos encontrando uma galáxia idêntica à Via Láctea, com um planeta igual à Terra e cópias exatas de cada um de nós. A existência desses clones não é apenas uma possibilidade, mas uma previsão matemática. 
 
O que chamamos de "realidade" é apenas a forma como cosmos organiza suas partículas em um dado momento. Esse princípio lembra o famoso teorema do macaco infinito: em um universo com combinações finitas de partículas, um número infinito de possibilidades inevitavelmente gera "universos-espelho". Como o Multiverso de Nível 1 segue as mesmas leis físicas e constantes cosmológicas do nosso Universo, ele poderia, pelo menos em tese, ser explorado quando (e se) nossa tecnologia assim o permitir.

O Multiverso de Nível 2 se baseia na Inflação Cósmica, um desdobramento da Inflação Eterna. Segundo Tegmark, a energia usada para expandir uma região em estado de inflação cria massa suficiente para que essa região continue crescendo sem perder densidade. Como esse processo é autossustentável, ele pode gerar universos inteiros a partir de quase nada. Isso significa que um espaço finito poderia abrigar inúmeros espaços infinitos.

Em resumo, o Multiverso de Nível 2 consiste em vários universos incomunicáveis, cada um infinito em si mesmo. Ainda que sua existência não possa ser provada experimentalmente, a teoria que o sustenta é parte do "pacote" da Inflação Eterna, e aceitar um implica aceitar o outro.

Continua...

sexta-feira, 29 de março de 2024

MALES QUE VÊM PARA PIOR



Enquanto os sábios aprendem com os erros alheios e os tolos com os próprios, os brasileiros repetem os mesmos erros esperando obter resultados diferentes — o que é burrice, pois o Teorema do Macaco Infinito não orna com eleições bienais.
 
Em dois momentos distintos da ditadura, o "rei" Pelé e o "presidente" Figueiredo alertaram para o risco de misturar brasileiros com urnas em pleitos presidenciais, e o tempo provou que eles estavam certos. Talvez pelo fato de o Criador ter cedido à pressão da oposição, a maioria lobotomizada do eleitorado tupiniquim obriga sistematicamente a minoria pensante a escolher o "menos pior" de seus bandidos de estimação. E galinhas criarão dentes antes que essa récua perceba que políticos não devem serem endeusados, mas cobrados, e defenestrados se mijarem fora do penico.
 
Falando em penico (já que a merda é sempre a mesma, o que mudam são as moscas), um pedido de vista do partido Novo adiou a votação do parecer do relator Darci de Matos, favorável à manutenção da prisão do deputado Chiquinho Brazão. O imperador da Câmara — fidelíssimo cumpridor do regulamento da Casa quando lhe convém — determinou que a votação só seja retomada após as duas próximas sessões. Graças à Semana Santa, o adiamento dará tempo para a "fervura baixar", aumentando as chances de soltura do encrencado (para que a prisão seja mantida é preciso que pelo menos 257 dos 513 deputados votem nesse sentido). 
 
Os dicionários definem "apatifar" como "tornar-se um patife", "virar um canalha", "aviltar-se". A Câmara se apatifará se oferecer proteção ao deputado que, segundo a PF, foi um dos mentores do assassinato da vereadora Marielle Franco. Como se apatifou no caso da deputada Flordelis dos Santos, que foi acusada de mandar matar o marido em junho de 2019, mas só foi presa em agosto de 2021, dois dias depois que seu mandato foi cassado (em novembro de 2022, ela sua filha biológica Simone dos Santos Rodrigues foram condenadas a 50 anos e 28 dias de prisão).
 
Eduardo Bolsonaro — também conhecido como o fritador de hambúrgueres que quase virou embaixador — publicou 9 posts no X (antigo Twitter) e outros 5 stories no Instagram relacionados à hospedagem do pai na embaixada húngara. Esgrimindo o típico discurso bolsonarista sobre perseguição da imprensa, o filho do pai afirmou que não houve nenhum indício suspeito na tal "visita diplomática", argumentou que qualquer fala de "fugir" para embaixada beira a insanidade, ponderou que ele retornou espontaneamente dos EUA (onde passou três meses homiziado na cueca do Pateta após a derrota nas urnas) e da Argentina (onde foi prestigiar a posse Milei). 

Observação: 
Zero três chegou mesmo ao absurdo de insinuar o envolvimento da CIA em uma suposta conspiração para incriminar o ex-presidente e a atribuir as denúncias a um "jornal esquerdista" (referindo-se ao New York Times, que é dos mais influentes jornais do mundo). Zero um compartilhou dois posts de outras contas no Instagram em defesa do ex-presidente, disse que não tinha conhecimento da estada do pai na embaixada até segunda-feira, embora Bolsonaro tenha dito a aliados que seus filhos sabiam que ele estava no local. Prova disso é que Zero dois chegou a visitá-lo na embaixada porque, segundo ele, "não frequenta a casa do pai em Brasília devido a uma questão pessoal" (o vereador e a madrasta Michelle não se bicam). 
 
Rui Barbosa ensinou que a força do direito supera o direito da força. As duas noites que Bolsonaro passou sob a asa do embaixador húngaro seriam um bom pretexto para uma exibição de força de "Xandão", mas o ministro preferiu fortalecer os inquéritos que conduz evitando presentear o investigado com um mandado de prisão preventiva. Ao se deixar flagrar pelas câmeras de segurança da embaixada, o encrencado como que soprou uma língua de sogra na cara de "seu algoz". Nem Freud explica. 
 
Moraes deu prazo de 48 horas para a defesa de Bolsonaro explicar o inexplicável. Por meio de nota, seus advogados já haviam pedido ao Brasil e ao STF que se fizessem de bobos pelo bem de seu cliente. Mais adiante, elaboraram a resposta alegando que não havia receio de prisão e, portanto, seria "ilógico" supor que ele se abrigou na embaixada em busca de asilo. 

Não se pode deixar de admirar o talento dos nobres causídicos para ajustar a realidade às conveniências processuais. Na resposta requerida por Moraes, eles trataram o episódio como um fato volúvel e se esforçaram para demonstrar como é injusto sujeitar uma nação inteira ao óbvio sem que Bolsonaro possa reagir. 

Em 2019, quando estava na bica de escolher o seu primeiro procurador-geral, o então presidente deu de ombros para a autonomia constitucional do Ministério Público. Comparando sua gestão a um jogo de xadrez, declarou que o PGR seria a dama — a peça mais poderosa do tabuleiro, pois pode se movimentar em todas as direções — e que ele, Bolsonaro, o rei — a peça mais importante, porque perdê-lo significa ser derrotado no jogo. 

Escolhendo Augusto Aras, o então mandatário se blindou por quatro anos; destronado, está nas mãos de Paulo Gonet — escolhido por Lula e aprovado no Senado com o apoio da bancada bolsonarista —, cujo comportamento "anti-Aras" revela rara sintonia com Alexandre de MoraesNo episódio em tela, Gonet pode fazer quase tudo, exceto papel de bobo. Qualquer cidadão pode se refugiar numa embaixada e requisitar asilo político a um ditador amigo. A questão é que, diante de um esboço tão nítido da rota de fuga de um investigado, nem a PGR nem o Supremo têm direito à inércia. 
 
Moraes mandou dizer resolverá o que fazer depois de receber o parecer de GonetA aleivosia dos advogados de Bolsonaro não alivia sua situação penal, mas a versão segundo a qual ele não teria motivos para "suspeitar minimamente" de que Moraes poderia mandar prendê-lo ajuda a melhorar sua autoestima, e o lero-lero de que dormiu duas noites numa embaixada que fica a 20 minutos de sua casa "apenas para manter contatos com autoridades húngaras" leva paz de espírito a sua alma. Resta saber o ministro vai endossar a linha que ignora o óbvio ou enxergar as explicações sobre a hospedagem como um cutucão da defesa com o pé, para ver se ele morde. 

Bolsonaro demora a perceber que, por mal de seus pecados, a realidade que ele nega tornou-se o único lugar onde se pode conseguir uma tornozeleira eletrônica ou um mandado de prisão preventiva. A prisão seria um presente, pois reforçaria a pose vitimista que o "mito" vende e seus devotos compram alegremente. Conviria ao Supremo converter-se momentaneamente numa espécie de centro terapêutico para tratá-lo de suas loucuras. Mais adiante, quando vier a condenação, a ordem de prisão não seria vista como abuso de poder, mas como uma espécie de cura: encrencados como Bolsonaro não são presos; eles têm alta.
 
Voltando ao caso dos fugitivos de Mossoró, não seria preciso gastar rios de dinheiro (mais de R$ 6 milhões) e mobilizar centenas de policiais durante mais de um mês na tentativa (até agora inexitosa) de recapturá-los se criminosos de alta periculosidade nitidamente irrecuperáveis fossem sentenciados a comer capim pela raiz na chácara do vigário. Até onde se sabe, não há nenhum caso documentado de defunto que fugiu da cova.
 
Triste Brasil.

quinta-feira, 21 de março de 2024

APOCALIPSE DA INTERNET?

TANTAS VEZES VAI O JARRO À FONTE QUE UM DIA LÁ DEIXA A ASA.

O avanço das investigações pode levar algumas pessoas que foram à Paulista apoiar Bolsonaro a considerar a hipótese de terem sido logradas. 
É evidente que isso não se aplica aos fanáticos nem os adeptos da ruptura institucional, apenas àqueles que, por alguma razão, acreditavam que o dejeto da escória da humanidade é vítima de uma narrativa oposicionista. 
Os ex-comandantes do Exército e da Aeronáutica foram escolhidos pelo golpista por serem afinados com ele, e tudo indica que seus depoimentos guardaram relação apenas com os compromissos de elogio à verdade e fidelidade aos preceitos inerentes às prerrogativas das fardas estreladas. 
Claro que para enxergar essa obviedade requer olhos (a pior cegueira é a mental) e inferir que o "mito" tentou usar as FFAA em seu projeto golpista  tanto antes quanto depois das eleições de 2022  exige ao menos dois neurônios minimamente funcionais. 
Sabe-se agora que o encastelamento do aspirante a tiranete no Alvorada não decorreu de doença ou depressão pós-derrota, mas da urdidura de uma tramoia para anular o resultado das urnas e continuar no poder. Exibindo sua extraordinária capacidade dedutiva, Sherlock Lula revelou no dia 18 que o golpe só não aconteceu porque "o coisa" é um "covardão". 
Interessa dizer que nossa banânia passou por mais essa provação, que a verdade vem sendo posta e, dando tudo certo, seus detratores serão punidos.

Profetas, videntes e assemelhados trombeteiam vaticínios apocalípticos desde o início dos tempos. No alvorecer da era cristã, respaldados no "Apocalipse de João", vates delirantes agendaram o "juízo final" para algum momento próximo virada do primeiro milênio, depois para 1033, para 1666, e assim por diante. 

Em 1806, uma galinha que passou a pôr ovos com a inscrição "Christ is coming" espalhou pânico nas Ilhas Britânicas — até que se descobriu que uma falsa vidente escrevia a mensagem na casca dos ovos e os enfiava de volta pela cloaca da adivinha emplumada. A Igreja Católica Apostólica (criada em 1836) anunciou que Jesus voltaria após a morte de seus 12 fundadores (o último bateu as botas em 1901) — anúncio que as Testemunhas de Jeová fazem desde 1870. À luz do Teorema do Macaco Infinito, talvez um dia alguém acerte. 
 
Rumores sobre um suposto alerta feito pela Nasa dando conta de um suposto "apocalipse da Internet viralizaram nas redes sociais no final do ano passado, mas nem a agência fez tal anúncio, nem o astrofísico Peter Becker, responsável pelo vaticínio, publicou um estudo que sustentasse suas alegações. É fato que os polos magnéticos do Sol se invertem a cada 11 anos, que essa inversão aumenta a frequência de erupções solares e que uma tempestade solar pode comprometer o funcionamento da Internet, mas fato é que isso jamais aconteceu — e nada indica que desta vez será diferente.
 
Essa teoria conspiratória surgiu a partir de um estudo feito em 2021 sobre os efeitos de uma ejeção de massa coronal extremamente intensa nas redes elétricas e de comunicações tradicionais e na internet global. No entanto, somente três casos foram registrados até hoje: 1) em 1859, o Evento Carrington provocou pane em quase todos os sistemas elétricos existentes na época e gerou auroras polares que puderam ser vistas de todo o planeta, inclusive em regiões tropicais; 2) em 1929, um evento ainda maior causou um incêndio de média escala na Estação Grand Central e derrubou a rede de telégrafos de NYC; 3) em 1989, uma ejeção moderada de massa coronal derrubou a rede elétrica Hydro-Québec, no norte do Canadá, deixando parte daquele país sem energia por cerca de nove horas. 
 
Para os arautos da desgraça, três décadas sem um evento majoritário é sinal de que ele está na bica de ocorrer. Há quem diga que a pandemia de Covid foi a prova provada de nosso despreparo para lidar com cataclismos dessa magnitude. Exageros à parte, numa sociedade extremamente dependente da tecnologia, uma tempestade solar capaz de deixar o planta sem energia elétrica, Internet, satélites, celulares, com noites iluminadas por auroras e aparelhos dando choque mesmo desligados da tomada... não vejo exemplo melhor de antessala do inferno. 

ObservaçãoUma explosão de solar categoria M7 ionizou o topo da atmosfera terrestre no último dia 10, deixando sem sinal de rádio por cerca de 30 minutos partes da África, do Brasil, da Venezuela e da Colômbia. O ciclo solar atual começou em dezembro de 2019. O anterior foi considerado tranquilo, com baixa quantidade de vento solar expelido da estrela no centro do nosso sistema, mas, de outubro de 2021 para cá, o Sol tem gerado manchas e erupções com maior frequência O pico é esperado para este ano. Com sua aproximação, a atividade deve ficar cada vez mais intensa, aumentando a quantidade de erupções e jatos de plasma solar.