A fé move montanhas, mas, por via das dúvidas, o chanceler Mauro Vieira continua empurrando, enquanto os 34 nomes que o Itamaraty enviou às autoridades de Israel e do Egito rezam para que mísseis não lhes caiam sobre a cabeça. Já não há força no universo capaz de deter no primeiro escalão do governo Lula a maledicência segundo a qual o "fator revide" retarda a repatriação. Cada minuto a mais é uma eternidade a menos na taxa de sanidade mental dos que esperam.Diz-se nos bastidores que o pavio de Lula ficou mais curto. Nada melhor do que a impotência para esticar o pavio. Resta a quem não dispõe da força lembrar que a diplomacia traz a maciez injetada no nome.
***
Ao chancelar a indicação do advogado de estimação de D. Lula III para o STF, que viola claramente o princípio da impessoalidade, o Senado ratificou sua vocação para repartição cumpridora das ordens do Planalto. Mas estamos no Brasil, onde não há inocentes na política. E isso tabmém se aplica a quem vota em candidatos como Erundina, Agnaldo Timóteo, Romário, Tiririca (sem mencionar o rinoceronte Cacareco e o Macaco Tião), lembrando que maus políticos não "brotam" nos gabinetes por geração espontânea.
Observação: Acusado de protecionismo durante a criação do Mundo por favorecer a porção de terra que futuramente tocaria ao Brasil, disse o Senhor das Esferas: "Esperem para ver o povinho de merda que eu vou botar lá." Dito e feito.
Churchill ensinou que a "democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras" — mas disse também que "o melhor argumento contra a democracia é cinco minutos de conversa com um eleitor mediano.Já o general Figueiredo lecionou que "um povo que não sabe sequer escovar os dentes não está preparado para votar".
Observação: A aprovação do dublê de ministro da Justiça e pastor presbiteriano foi comemorada com pulinhos, gritinhos de “Aleluia”, “Glória a Deus” e frases ininteligíveis por Micheque (ou Mijoias), que, a exemplo do marido, jamais ouviu falar em "liturgia do cargo".Jobim (o ex-ministro, não o maestro) disse certa vez que o Brasil não é para amadores. Mas o país está ficando esquisito até para os profissionais. Qual a imparcialidade que se pode esperar de Zanin, que até outro dia recebia e cumpria ordens do atual presidente? Não dá. Na sabatina, os nobres senadores não examinaram nada; fizeram de conta que perguntavam e o candidato fez de conta que respondia. E teria sido aprovado mesmo que falasse em aramaico para a banca examinadora, uma vez que essa era a vontade de Lula. Entre as muitas coisas inúteis da vida brasileira, poucas competem com essas sabatinas. Por que montar esse circo mambembe, com a simulação de que estão sendo tomadas decisões importantes para o país, se essas decisões não têm importância nenhuma? Zanin estava aprovado antes mesmo de seu nome ser oficialmente apresentado. Nunca foi um candidato; sempre foi um novo ministro. Quem decidiu tudo foi Lula, não o Senado. Ninguém procurou seque manter as aparências.
Qual é o "notável saber jurídico" do ex-advogado de Lula? Não se sabe. Não há registro de que exista, não no mundo das realidades. Ele não fez pós-graduação em Direito, não escreveu nenhum livro ou artigo que chamasse a atenção por sua qualidade como exposição de conhecimentos jurídicos, não comandou seminários nem tampouco deu cursos dos quais alguém se lembre. Sua única qualificação é ter sido nomeado por Lula — que é a única que realmente vale no Brasil de hoje. A nomeação do nobre causídico reacendeu o debate acerca da escolha das togas. Nos últimos dez anos, foram apresentadas 23 PECs propondo mudanças na formatação da corte, no processo de indicação e na fixação de tempo de mandato das ministros. Dessas, cinco foram protocoladas no Senado, mas somente a PEC 16/2019 continua tramitando (as demais foram arquivadas no final da legislatura). Na Câmara, 14 das 18 PECs seguem em tramitação, mas, como algumas foram apensadas a outras, esse número gira em torno de seis.
Só o ministro Fachin e o Senhor das Esferas sabem ao certo se
a decisão da última segunda-feira visava salvar o legado da Lava-Jatoa despeito de favorecer Lulaou favorecer Lulae, en passant, esvaziar
o pedido de suspeição de Moro. Mas
ficou evidente que a estratégia do relator dos processos da força-tarefa no STF foi sopa no mel para o ex-presidente
ficha-lavada e serviu de sinal de alerta para o ex-juiz pôr as barbichas de molho.
Observação: A decisão do ministro não
transformou Lula na “alma viva mais honesta do Brasil”; apenas
transferiu os processos da 13ª Vara Federal de Curitiba para a Justiça
Federal do DF, para que sejam
refeitos. Mas concedeu ao petista tempo precioso para evitar o
restabelecimento das condenações, sem mencionar que a tramitação das ações manterá suas culpas sob os holofotes da mídia.
Num contragolpe
veloz, o todo-poderoso Gilmar Mendes
levou a julgamento na 2ª Turma um
trunfo que mantinha na gaveta havia mais de dois anos: o pedido de suspeição de
Sergio Moro. Em 2018, depois que Fachin e CármenLúcia rejeitaram
a tese esposada pela defesa de Lula,
o semideus togado, receando que o fiel da balança (na época, o decano Celso de Mello) pendesse para o “lado
errado” e atrapalhasse seus planos, valeu-se de um pedido de “vista obstrutiva” para suspender o
julgamento do processo. Agora, com Mello
aposentado, o “peixe” de Bolsonaro ocupando
o lugar do ex-decano na 2ª Turma e a
mudança dos ventos produzida pela “vaza-jato
de Verdevaldo
das Couves”, a
encarnação de Amon-Rá decidiu que o
dia do ajuste de contas finalmente chegou.
Observação: Em teoria, um juiz pede vista (e não “vistas”, como muita gente diz) quando precisa de
mais tempo para estudar o processo. Na prática, esses pedidos têm por objetivo
interromper o julgamento da ação. Essa prática espúria veio do Legislativo, de
carona com o deputado Nelson Jobim
— que FHC nomeou ministro
da Justiça em 1995 e promoveu a ministro do STF em 1997. Pelo regimento interno do Supremo, a devolução dos autos deve ser
feita até a segunda sessão
subsequente à do pedido de vista, mas ninguém se atém a isso, e o autor do
pedido pode devolver o processo somente quando vislumbrar a possibilidade de um
ou mais magistrados mudarem o voto, ou quando a maioria formada já não fizer
mais diferença.
Deu-se início a uma
nova fase do esquartejamento da Lava-Jato.
Na decisão da véspera, Fachin
anotara que a anulação dos processos contra Lula tornara desnecessária a conclusão do julgamento sobre a
alegada parcialidade de Moro.
Abespinhado, Gilmar decidiu
atropelar o colega. Em ofício enviado ao presidente da Corte, Fachin pediu a retirada do processo da
pauta. Aliado tradicional da Lava-Jato,
Fux se fingiu de morto.
Iniciada a sessão, Fachin reiterou o ponto de vista
segundo o qual o veredicto sobre o comportamento de Moro tornara-se inútil depois que as condenações de Lula foram anuladas por ele. Dos cinco
membros da 2ª Turma, quatro votaram
contra sua posição, promovendo-o de uma posição minoritária para o total
isolamento. Nem mesmo Cármen Lúcia,
tida e havida como aliada da força-tarefa de Curitiba, acompanhou o voto do
relator. Coube a Nunes Marques,
ministro de estimação de Bolsonaro,
esclarecer que “não se trata de
anular o processo, mas de saber se as provas que foram colhidas pelo então juiz
Sergio Moro são válidas ou não".
Ao promover a
ressurreição eleitoral do sumo pontífice da Petelândia, Fachin favoreceu por linhas tortas os interesses eleitorais de Bolsonaro, reforçando a dicotomia
político-ideológica que as forças de centro tentavam desmontar. Lula e Bolsonaro tornaram-se cabos eleitorais um do outro, já que
interessa a ambos repetir em 2022 a polarização de 2018. Mas com duas
diferenças: a primeira é que se abre agora a perspectiva de Bolsonaro enfrentar o próprio Lula, não o poste indicado por ele; a
segunda é que o ainda presidente, beneficiário do antipetismo, maior força
eleitoral da sucessão passada, passou a fornecer material para o surgimento de
uma segunda onda: o antibolsonarismo.
A pandemia levou Lula a intensificar os ataques ao
capitão, numa demonstração de que joga o mesmo jogo do rival. No momento, os
dois operam para evitar o surgimento de uma terceira via capaz de representar o
centro político na disputa de 2022. Na outra ponta, aquele Bolsonaro eleito por mais de 57 milhões de brasileiros lida com o
seu encolhimento. Em dois anos de mandato, o capitão perdeu parte do eleitorado
que votou nele para evitar a volta do PT
ao poder, e agora espanta a plateia fabricando crises desnecessárias em meio a
uma pandemia mortal. Nesse pôquer polarizado entre dois extremos há espaço para
o surgimento de uma carta nova. O que não existe, pelo menos por enquanto, é
capacidade de articulação do centro político para produzir a novidade. O país
ainda não sabe como se chega ao centro.
Caso seja reconhecida
a parcialidade de Moro, o juiz
federal de Brasília não poderá aproveitar as provas, e os processos contra Lula retornarão ao zero absoluto,
abrindo-se a perspectiva de prescrição dos crimes atribuídos ao ex-presidente
petista no caso do tríplex. A defesa, naturalmente, pedirá a extensão da nulidade
para os outros casos. Em seu voto, Gilmar
atirou contra a reputação de Moro o
material que o próprio ex-juiz e os procuradores da Lava-Jato forneceram nas mensagens hackeadas dos seus celulares.
Como previsto, avalizou a posição dos advogados de Lula, declarando a suspeição de Moro. A hipótese de o ex-juiz sair do julgamento com a reputação
preservada é virtualmente inexistente. A dúvida é quanto ao placar. Se Nunes Marques se juntar a Gilmar e Lewandowski e CármenLúcia mudar de ideia, Fachin amargará outra derrota por 1 a 4.
Gilmar não disse, mas Fachin acabou
facilitando a vida dos advogados de Lula, pois o que está em julgamento na 2ª Turma é a imparcialidade de Moro no caso do tríplex. Confirmando-se
o veredicto de suspeição, Lula
continuaria ficha suja, pois foi condenado em segunda instância também no caso
do sítio de Atibaia, que teve a participação de Moro. Ao anular todas as
condenações, Fachin poupou o
trabalho dos advogados, que não precisarão ralar um novo habeas corpus.
A Lava-Jato já havia perdido uma perna
quando o STF reverteu a regra que
permitia a prisão de larápios condenados em segunda instância. A operação
movia-se pela conjuntura como um saci, pulando entre uma amputação e outra.
Graças à manobra de Fachin, a força-tarefa
perdeu os anéis e os dedos. Logo será decepada a última perna da operação, que
descerá à cova junto com as provas vivas que o Supremo enterra sem uma análise de mérito.
ENQUANTO A VERDADE CALÇA OS SAPATOS, A MENTIRA DÁ A
VOLTA AO MUNDO.
Segundo o Gênesis (do
grego Γένεσις, que significa "origem",
"criação", "início"), “no princípio era o Caos, e do
Caos Deus criou o Céu e a Terra (...).
Em apenas
6 dias o Criador transformou oCaosem
ordem. Criou a luz e separou-a em duas (uma, grande, para governar o dia, e
outra, menor, para governar a noite). Criou as águas e separou-as em duas (e
juntou as da porção inferior num só lugar, para que ali emergisse parte seca).
Cobriu a terra de plantas, povoou-a com todo tipo de seres vivos e no sexto
dia, disse o Senhor das Esferas: “Agora vamos fazer os seres humanos, que
serão como nós, que se parecerão conosco. Eles terão poder sobre os peixes,
sobre as aves, sobre os animais domésticos e selvagens e sobre os animais que
se arrastam pelo chão”. E após concluir Sua obra e ver que tudo era bom
(?!), abençoou e santificou o sétimo dia, quando então descansou.
Observação: A primeira versão escrita
do Antigo Testamento remonta ao século 10 a.C. Desde então, seus relatos foram copiados, editados e reescritos um sem-número de vezes, até
que alguém teve a ideia de juntar a essa compilação o Novo Testamento.
E assim formou-se a síntese da mitologia cristã, composta por 66 livros, sendo
39 do A.T. e 27 do N.T.,que ficou
conhecida mundialmente como Bíblia(do grego
"biblion", que significa "livro", "rolo").
Do Gênesis bíblico à teoria do Big
Bang, diversos povos construíram versões próprias da origem do universo. Na
maioria delas, o Caos seria uma matéria sem forma definida. Mas
nenhuma trouxe a lume o detalhe que ora lhes revelo: Antes do Caos, já havia
políticos, pois certamenteforam eles que criaram o Caos!
Com os políticos, surgiu a vigarice. Em Juízes
12: 1-15, o Antigo Testamento registra que a palavra “xibolete”
(do hebraico שבולת,
que significa “espiga”) funcionava como “senha linguística”
para identificar um grupo de indivíduos. Séculos depois, durante o massacre
das Vésperas Sicilianas (1282 d.C.), os
franceses eram reconhecidos pela forma como pronunciavam “cìciri” (grão
de bico, no dialeto siciliano). Assim, engana-se quem imagina que as
senhas surgiram com a popularização da Internet, embora a popularização da
Internet as tenha popularizado e multiplicado.
Em 1961, para evitar que alguns estudantes monopolizassem
o computador, o MIT desenvolveu o Compatible Time-Sharing System, mas os nerds logo descobriram como
burlar a exigência da senha e se livrar da incomodativa limitação de tempo. No âmbito das transações financeiras, a autenticação por senha foi implementada no Brasil no início dos anos 1980, com o advento
dos caixas eletrônicos ― a primeira máquina foi instalada pelo Itaú no município paulista de Campinas, em 1983. O cartão de crédito surgiu muito antes, inicialmente como alternativa para clientes de redes de hotéis e petroleiras comprarem a
crédito nos próprios estabelecimentos (a primeira versão para uso no
comércio em geral foi o Diners Club Card, que desembarcou no Brasil em
meados dos anos 1950).
No início dos anos 1980, os fraudadores recuperavam os dados do papel-carbono dos formulários usados nas maquininhas manuais para lesar as operadoras, que contra-atacaram com
mídias providas de tarjas magnéticas. Quando os vigaristas responderam com os “chupa-cabras”, a tarja deu lagar ao microchip e a autenticação por assinatura foi substituída pela senha. E o resto é história recente.
Quando os PCs se tornaram populares (embora inicialmente não
passassem de caríssimos substitutos das máquinas de escreve e de calcular e do
console de videogame), era comum a mesma máquina ser compartilhada por
todos os membros da família ― uma solução economicamente interessante, mas desastrosa do ponto de vista da privacidade. Sensível ao problema, a Microsoft tornou o Windows
“multiusuário” e implementou uma política de contas e senhas de
acesso. Com isso, cada membro da família se logava no sistema e meio que “tinha um Windows só para ele”.
Embora essa solução não pusesse fim à disputa pelo uso da máquina, ao impedia o acesso a pastas e arquivos alheios, o que já não era pouco. Mas os usuários do Windows
ME — edição lançada pela Microsoft a toque de caixa
para aproveitar o apelo mercadológico da “virada do milênio” — logo descobriram
que bastava pressionar a tecla Esc para "pular" a tela de logon (essa falha foi sanada no XP, que foi desenvolvido a partir do kernel do WinNT).
Reminiscências à parte, interessa dizer (de novo) que
segurança absoluta no âmbito digital é conversa para boi dormir. E da feita que
comodidade e segurança são como água e azeite, senhas difíceis de quebrar costumam
ser virtualmente impossíveis de memorizar. E como usamos dezenas delas no dia a
dia, tendemos a padronizar os acessos, ou seja, recorrer à mesma password para
desbloquear a tela do smartphone, fazer logon no Windows, acessar redes sociais
e contas de email, fazer compras online, transações financeiras via netbanking
e por aí vai.
É possível criar senhas complexas e, ao mesmo tempo,
fáceis de memorizar, como veremos na próxima postagem.
Depois que Alexandre de Moraescolocou Anderson Torres em liberdade, Mauro Cid, que mandou dizer a Bolsonaro que não pretendia enredá-lo em seus futuros depoimentos à PF, troca o advogado Rodrigo Roca, avesso a delações, pelo criminalista Bernardo Fenelon, especialista em delações.
A senha que conduziu a PF às nuvens conectadas ao celular do ex-ajudante de ordens do capetão abriu a caverna do ex-primeiro casal. Em meio a cartões de vacina falsificados e diálogos golpistas, os investigadores esbarraram na caixa registradora de Michelle Bolsonaro. Aos pouquinhos, vai sendo exposto o lado Ali Babá dos ex-inquilinos do Alvorada.
Numa das mensagens, Cid compara as transações à rachadinha de Zero Um. Micheque fazia compras com um cartão de crédito da amiga Rosemary Cardoso Cordeiro, e ele, Cid, pagava as faturas em dinheiro vivo, sacado em uma agência do Banco do Brasil dentro do Planalto. Para piorar, uma empresa com contratos firmados com a estatal Codevasffez pelo menos 12 depósitos na conta do sargento Luis Marcos dos Reis(coisa de R$ 25.360), subordinado a Cid, e que, segundo a PF, o realizou pagamentos de despesas atribuídas à ex-primeira dama.
Preso numa unidade militar e cercado por indícios de fraude, Cid depôs no inquérito sobre a fraude nos cartões de vacina, reconhecendo em privado que se encontra num local bastante parecido com um buraco. E a vida ensina que a primeira regra dos buracos é singela: quando se cai dentro de um, deve-se parar de cavar. Se contar aos investigadores que apenas cumpria ordens quando entrou no sistema do Ministério da Saúde para injetar vacinas falsas nos cartões de Bolsonaro e da filha do ex-chefe, o coronel abandona a picareta e reduz o tamanho de sua pena. Se endossar a versão segundo a qual agiu por conta própria, sem o conhecimento do ex-chefe, jogará terra sobre si mesmo. Na dúvida, ele preferiu ficar em silêncio.
Observação: Até bem pouco, Cid era festejado como avis rara do bolsonarismo, um eficiente faz-tudo do então presidente. Hoje, está abandonado à própria sorte. Ao interrogar Bolsonaro 48 horas antes da inquirição de Cid, a PF ofereceu ao coronel uma oportunidade para refletir sobre o próprio futuro. Em quase três horas de interrogatório, Bolsonaro limitou-se a entoar o bordão "eu não sabia". Acomodou todas as culpas sobre os ombros de Cid. Lançando mão dos melhores estratagemas para atingir os piores subterfúgios, o ex-mito negou a própria fama. De presidente mandão, converteu-se num coadjuvante nato.
Ficou mais difícil sustentar a tese de que Cid agiu sozinho. Notícia do Globo informa que a PF descobriu que a senha de acesso de Bolsonaro ao aplicativo ConecteSUS, que estava associado ao email de Cid, foi transferida para o coronel Marcelo Costa Câmara, que integra a equipe de oito assessores a que o ex-mandatário tem direito, mas tornou-se inviável para esse estrupício reeditar o bordão "eu não sabia."
Por baixo das narrativas falaciosas do verdugo do Planalto, seus protetores precisam acomodar outras camadas de mentiras — como a declaração categórica do ex-mandatário feita após a batida policial em sua casa: "Não existe adulteração da minha parte. Não tomei a vacina. Ponto final" e a sinalização de que o Cid se dispõe a assumir as culpas sozinho, isentando o ex-chefe.
No tempo em que Brasília ainda tentava fazer sentido, os valores pareciam mais nítidos. Bolsonaro se considerava um deus onipresente e Cid, pau mandado do capetão, um militar cioso da hierarquia. Subitamente, a nitidez perdeu a função. Nada é o que parece. Bolsonaro virou um antilíder e o coronel puxa-saco foi brindado com a alternativa de se reposicionar em cena, de se comportar como o sujeito que reclama do barulho quando a oportunidade bate à porta.
Pintou um clima entre o bolsonarismo e a picaretagem financeira. Tornou-se difícil ouvir falar em Deus, pátria e família sem reprimir um sorriso interior. Doravante, sempre que o ex-primeiro casal escorar suas atitudes na tríade predileta do fascismo, uma voz no fundo da consciência dos brasileiros avisará: "Farsantes!" Mal comparando, o convívio com Bolsonaro é mais ou menos como o sarampo, cuja falta de cuidado deixa marcas indeléveis. Michelle já convivia com as erupções dos R$ 89 mil que Fabrício Queiroz borrifara em sua conta bancária. Surgem agora em sua biografia imaculada infecções que potencializam o caráter criminal da moléstia. São sete os pecados capitais: soberba, avareza, luxúria, inveja, gula, ira e preguiça. Madame se enroscou no oitavo, ainda não catalogado: o pecado do capital propriamente dito. Sua pose de cristã limpinha perdeu o prazo de validade. Virou um inquérito policial esperando na fila para acontecer. Os dados extraídos do celular de Cid transformam-na de coadjuvante de uma rachadinha do enteado a estrela do seu próprio escândalo financeiro. No despacho em que autorizou a extensão das quebras de sigilos de Cid a funcionários da Presidência e pessoas ligadas à ex-primeira-dama, o ministro Alexandre anotou que os dados colecionados pela PF revelaram "fortes indícios de desvio de dinheiro público, por meio da Ajudância de Ordens da Presidência da República" para pessoas indicadas pelas duas assessoras da ex-primeira-dama. Aos pouquinhos, os indícios vão se convertendo em provas duras de roer. Vêm à luz coisas que deixariam Ali Babá e os 40 ladrões ruborizados. Deus, como se sabe, está em toda parte. Mas, ao sentir os odores que exalam das finanças de Michelle, o Senhor das Esferas achou melhor cuidar de outras coisas.
Regina Duarteaceitou
participar de uma fase de testes no cargo de secretária da Cultura do
governo federal, e virá hoje a Brasília para conhecer melhor a pasta. Segundo Lima Duarte, que contracenou com a atriz no folhetim Roque
Santeiro (exibido pela TV Globo em 1985), "para o Brasil de
hoje ficou ideal: um Sinhozinho Malta no poder e uma Porcina no
ministério".
A aceitação do cargo são favas contadas, até porque jamais aconteceu de um
presidente desta Banânia convidar publicamente alguém para assumir um ministério e esse
alguém declinar do convite. Além disso, uma “nomeação provisória” — ou “teste”,
como vem sendo dito na mídia — caracterizaria crime de
usurpação de função pública, já que a nomeação só passa a valer depois de ser devidamente publicada no Diário Oficial da União. O que poderia acontecer mais
adiante é Regina pedir demissão ou Bolsonaro exonerá-la, mas isso é outra conversa.
Ainda que a Secretaria
Especial da Cultura não readquira o status de ministério (essa possibilidade vinha sendo cogitada, mas parece que foi descartada), é possível que futura
ex-atriz global (Regina terá seu contrato com a Globo
suspenso) venha a se reportar diretamente a Bolsonaro, a despeito de a pasta
em questão continuar sob o guarda-chuva do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio — que
inexplicavelmente continua no cargo, a despeito de ter
sido indiciado por suspeitas de envolvimento no esquema de candidaturas-laranjas
no PSL. Em circunstâncias normais, caberia a Antônio, cujo nome
verdadeiro é Marcelo Henrique Teixeira Dias, escolher o substituto do
nazista de araque Roberto Alvim, que na verdade se chama Roberto Rego
Pinheiro.
***
O ministro da
Justiça e Segurança Pública participou do Roda Viva da
última segunda-feira. Sobre sua atuação no ministério, pouco lhe foi perguntado
— os inquisidores queriam mesmo era extrair a “confissão” de que ele teria sido parcial na condução do julgamento do ex-presidente petista ladrão, bem
como induzi-lo a criticar o atual governo e seu comandante-em-chefe.
A julgar pela
maneira como enfrentou o assédio dos entrevistadores — demonstrando serenidade
e evitando levantar a voz, mesmo quando visivelmente irritado —, Moro
deixou claro que, se a intenção dos jornalistas era semear a cizânia entre ele e
Bolsonaro, melhor seria que se dedicassem a descobrir seu
time de futebol (que ele não revela nem com reza braba).
Pelo visto, um ano
no governo foi suficiente para a metamorfose do magistrado em político —
aqui sem qualquer alusão negativa à caterva que criou o Caos muito antes de o
Senhor das Esferas criar o Mundo ser concluída com êxito. A despeito das
tentativas dos jornalistas de emparedá-lo, Moro deixou claro que quem estava no
centro da roda não era o ex-juiz, mas o ministroda Justiça e Segurança
Pública, embora tenha respondido questionamentos sobre o
grampo da ex-presidanta Dilma (falo da conversa que deixou claro que a nomeação
do criminoso de Garanhuns para a Casa Civil visava simplesmente tirá-lo do
alcance da Lava-Jato) e as mensagens trocadas com procuradores da força-tarefa,
obtidas criminosamente e divulgadas maliciosamente pelo site panfletário The
Intercept Brasil, que ele classificou como “uma bobajarada". Em ambos os casos, o ministro reafirmou que não cometeu qualquer
irregularidade e que não reconhece a autenticidade das mensagens divulgadas, além de ter negado, mais uma vez, a suposta intenção de disputar a presidência em 2022 (clique aquipara ouvira a análise abalizada de Felipe Moura Brasil).
O programa de
entrevistas que a TC Cultura exibe nas noites de segunda-feira desde 1986
já foi ancorado por diversos “monstros sagrados” da imprensa tupiniquim — como Marília
Gabriela, Heródoto Barbeiro e Lillian Witte Fibe
entre outros. Em minha humilde opinião, quem se saiu melhor foi o jornalista Augusto
Nunes, mestre de cerimônias da atração entre 1987 e 1989 e de 2013 a 2018, quando se desligou devido a pressões
políticas. Aliás, seu substituto, o insosso Ricardo Lessa, foi
defenestrado cerca de um ano depois, e a ainda mais insípida Daniela Lima
foi sucedida por Vera Magalhães, que estreou justamente na última
segunda-feira.
Se você não
assistiu à entrevista ao vivo e em cores, valha-se do vídeo a seguir:
EU VOU CONTAR PRA TODOS/A HISTÓRIA DE UM
RAPAZ/QUE TINHA HÁ MUITO TEMPO A
FAMA DE SER MAU/SEU NOME ERA TEMIDO,
SABIA ATIRAR BEM/SEU GÊNIO VIOLENTO,
JAMAIS GOSTOU DE ALGUÉM.
Os versos acima foram pinçados da canção "A HISTÓRIA DE UM HOMEM MAU" (querendo, dê play no vídeo abaixo e ouça a música).
A
razão de esse velho sucesso dos anos 1960 me ter vindo à mente e o porquê de eu usá-lo na abertura deste texto
ficarão claros ao longo desta postagem.
Há quem acredite na existência de dimensões paralelas, onde clones de nós vivem as vidas que
viveríamos se tivéssemos escolhido virar à direita em vez de à esquerda, ou
vice-versa, nas diversas encruzilhadas que se nos apresentam ao longo de nossa
existência (a quem interessar possa, sugiro a leitura deste artigo).
A ideia de múltiplos universos existindo simultaneamente em
dimensões paralelas deu azo a inúmeros livros e filmes — dentre os quais eu recomendo o
fantástico (sem trocadilho) seriadoFringe,
de J.J. Abrans (de Armageddon e Missão Impossível 3), cujo piloto, tão caro quanto o de Lost,
que já era um dos mais caros da história, àquela época, começa com um
misterioso caso que, para resolver, a agente Olivia Dunham (Anna Torv)
busca a ajuda do cientista excêntricoWalter Bishop (John Noble), que não à toa foi internado em um manicômio.
Basicamente, a ideia é de que há tanto regiões do universo que
foram inflacionadas no passado e criaram matéria e radiação quanto outras que
ainda estão inflacionando e devem gerar em algum momento mais matéria e
radiação, dando origem a novos universos.
Nesse multiverso, a Terra é apenas um dos planetas que compartilham nosso
sistema solar, que é um dos incontáveis sistemas estelares que compõem a Via Láctea, que é uma das inúmeras
galáxias que existem no Universo — algumas tão distantes que a luz de suas
estrelas ainda não foram captadas por nossos mais poderosos telescópios.
Para além disso tudo, especula-se que haja outros universos, mas em dimensões diferentes — alguns tão
minúsculos que seus sistemas estelares estariam dentro dos átomos que formam a
matéria. Num deles, ou em alguns deles, ou em milhões, bilhões ou trilhões
deles, talvez exista um "outro você" vivendo num mundo que pode ser igual a este, mas onde a história seguiu um curso diferente.
Detalhar tudo isso foge ao escopo desta postagem (para saber mais sobre multiverso clique aqui) e à esfera
de conhecimentos deste humilde blogueiro, sem mencionar que fazê-lo tornaria esta introdução
maior que a historinhade ficção que vou narrar a seguir — por "ficção" entenda-se "fantasia", algo que é fruto da criatividade e/ou imaginação do autor; assim, quaisquer semelhanças com fatos, eventos ou pessoas, vivas ou mortas, neste ou em outro país, serão meras coincidências.
Era uma vez um desses universos paralelos que supomos
existir. Num de seus zilhões de galáxias, brilha uma estrela de quinta grandeza
orbitada por uma porção de planetas, dentre os quais o Lodo, que abriga um paisinho sem-vergonha chamado Bostil.
Reza a lenda que o Criador
foi magnânimo com Bostil ao
distribuir benesses e desgraças entre os 7 continentes de Lodo. Assim, ao verem o país ser favorecido por um clima
predominantemente subtropical, fauna e flora diversificadas e abundantes, mais
de 8 mil quilômetros de costa e 5 mil quilômetros quadrados de florestas numa área
chamada de Bananônia Legal — onde
todo ano ocorrem queimadas, e todo ano ONGs e comunidades internacionais (pois
é, isso existe também por lá) reagem como se a fumaça estivesse prestes sufocar
toda a população do planeta —, a oposição chiou. Mas o Senhor das Esferas sentenciou:
Esperem para ver o povinho de merda que
eu vou colocar aí". Dito e feito.
Os primeiros habitantes de Bostil eram silvícolas preguiçosos, que não cultivavam nada, nem tampouco replantavam o que consumiam. Quando exauriam os recursos naturais da área ocupada por suas aldeias, simplesmente mudavam-nas para outro lugar. Quando suas mulheres pariam, refestelavam-se em suas
redes; quando eram forçados pelos "colonizadores" a trabalhar, preferiam morrer (literalmente) a pegar no batente — qualquer semelhança com certo ex-presidente
de origem popular, que séculos depois espoliaria o Erário de Bostil para se perpetuar no poder (pois
é, coisas assim também acontecem por lá), pode ou não ser mera coincidência.
Mas vamos por partes.
Bostil proclamou
sua independência, trocou a monarquia pela república, foi presidido por uma sucessão
de populistas e amargou por 21 anos uma ditadura militar que o atual presidente afirma jamais ter existido. O último ditador, que apreciava mais o cheiro
dos cavalos que o do povo, pressionado por movimentos pró-diretas comandados
por líderes políticos como Tronqueto Merdes e Ulyxo Cagalhões, deu
início a um tortuoso processo de abertura. Mas não só deixou claro Bostil ainda teria saudades dele como se recusou a passar a faixa presidencial a José
Sarnento, vice de Tronqueto —
o primeiro presidente civil pós-ditadura eleito indiretamente (para evitar que o
populacho fizesse merda), mas que esticou as canelas antes de tomar posse.
Durante a gestão do Sarnento-de-Bigode-e-Jaquetão,
foi promulgada uma Constituição — a sétima da história de Bostil — que instituiu um formidável
festival de bondades, mas se esqueceu de apontar quem bancaria a farra. E foi então que o sonho
começou a virar pesadelo.
Sucedeu-lhe no cargo o primeiro presidente efetivamente
eleito pelo valoroso voto popular na "nova república". Dois anos
depois, denunciado por corrupção e ciente de que seria inexoravelmente penabundado, o escroque renunciou para evitar a perda de seus direitos políticos — mas então já era tarde demais: diante da
forte pressão popular, o Congresso cassou-o mesmo assim... e, acredite se quiser, anos depois esse sacripanta foi eleito senador da
república. Quem não está acostumado estranha, mas vai por mim: absolutamente tudo pode acontecer em Bostil.
Seguiu-se um governo de transição comandado pelo prosaico Lindomar Frango,e os bons resultados no combate à hiperinflação que campeava solta havia décadas levaram os bostileiros a eleger presidente seu ministro do fazenda, o grão-duque do partido
"Rei na Barriga".
Devido à inenarrável soberba da legenda (curiosamente emblemada por um tucano), sucederam a seu
governo 13 anos e fumaça da mais inacreditável roubalheira, então sob o
comando do "Partido dos Camarões"
(assim chamado porque seus integrantes e apoiadores não só são "vermelhos" e têm os
intestinos na cabeça). Como não há bem que sempre dure nem mal que nunca termine
— mesmo nesse rincões da galáxia —, a sucessora do primeiro presidente Camarão, indicada para manter quente a poltrona presidencial enquanto seu padrinho político e mentor cumpria o intervalo constitucional de 4 anos após o qual poderia voltar a se candidatar ao posto, foi picada pela mosca azul (lá também tem mosca azul), fez um pacto com o diabo para se reeleger, mas acabou penabundada antes de concluir seu segundo mandato (ainda pior do que o primeiro).
Como consequência, durante dois anos e fumaça os bostileiros foram assombrados por um vampiro (vampiros existem nesse mundo paralelo, e não só em Bostil, mas em todo o planeta Lodo). Hoje, até onde se sabe, o país é
comandado por JavirBostonardo, um inconsequente saudosista da ditadura militar (por
incrível que pareça, coisas assim acontecem por lá), mas isso já é assunto para o
próximo capítulo, que pretendo publicar depois de amanhã. Até lá.