sábado, 24 de janeiro de 2026

DE VOLTA À TEORIA DAS CORDAS

TUDO É CRIADO PRIMEIRO NA MENTE E DEPOIS NA REALIDADE. TUDO QUE SE CONSEGUE IMAGINAR É REAL.

Segundo a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, vivemos em quatro dimensões: três espaciais e uma temporal. Todas as observações, tanto no universo macroscópico quanto no quântico, também indicam que estamos limitados a isso, mas o que seria da ciência sem as perguntas intrigantes que, muitas vezes, impulsionam grandes descobertas e até mesmo revoluções?

Uma metáfora famosa usada para explicar as dimensões adicionais é imaginar um mundo com apenas duas dimensões espaciais, como uma folha de papel. Os seres que vivem nesse universo podem acessar largura e comprimento, mas não a altura. Do mesmo modo, se existisse outra dimensão acima da nossa, não poderíamos vê-la, mas poderíamos detectá-la medindo as energias de nossa própria dimensão.

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Crivado de críticas pelas decisões esdrúxulas que vem tomando no âmbito do inquérito sobre o Banco Master, Dias Toffoli age como se considerasse não ter feito nada de errado na condução do caso. O problema é que nada vai se tornando uma expressão que ultrapassa tudo à medida que vão se acumulando no noticiário revelações que tornam a conduta supostamente irrepreensível do ministro em matéria-prima para investigação.

Alvo de uma batida de busca e apreensão da PF na semana passada, o pastor e empresário Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, o banqueiro falido do Master, comprou por meio de um fundo de investimentos parte de um resort luxuoso que pertencia a dois irmãos do magistrado, que, aliás, é assíduo frequentador do resort.

O negócio foi comprado posteriormente pelo advogado Paulo Humberto Costa, que atua para a J & F — grupo da família Batista, outra beneficiária de decisões de Toffoli. 

Como se não bastasse o fato de Toffoli continuar frequentando o empreendimento, a empresa de seus tem como sede uma casa humilde situada na cidade paulista de Marília, onde mora a família de José Eugênio Dias Toffoli. Demais disso, Cássia Pires Toffoli, cunhada do ministro, negou à reportagem do Estadão que seu marido tenha sido sócio do resort paranaense frequentado pelo contraparente, em flagrante contraste com os registros oficiais.

Expostas no noticiário em ritmo de conta-gotas, as revelações constrangem o STF, inquietam a PF e animam um pedido de CPI no Congresso. Pressionado a devolver o caso à primeira instância do Judiciário, onde o escândalo do Master tramitava antes de ser içado para nossa mais alta Corte, Toffoli resiste à ideia, desafiando o interesse público, a lógica e o esforço do ministro Edson Fachin, presidente de turno do Tribunal, para colocar de pé um Código de Conduta capaz de acomodar as togas nos trilhos da ética.

Em nosso universo tridimensional, as ondas sonoras se espalham omnidirecionalmente, ou seja, para todos os lados, na forma de uma bolha, e dependem da energia cinética para se deslocarem até chegar aos nossos ouvidos. Podemos medir as energias para descobrir se alguma coisa está "vazando" para uma quarta dimensão espacial, mas os cientistas testaram essa possibilidade e concluíram que a energia emitida não "vaza", já que sempre é encontrada na medida certa. 

Nada indica (pelo menos até agora) que exista uma dimensão espacial extra do tamanho das três que já conhecemos, mas as microdimensões embasam a famosa Teoria das Cordas — segundo a qual as partículas fundamentais são pequenas "cordas" vibrantes cuja frequência de vibração determina o tipo de partícula. O "xis" da questão é a gravidade, que está presente em todo o universo observável, mas parece não funcionar em escalas muito pequenas, ou seja, entre as partículas. Os átomos, por exemplo, se atraem por meio da força eletromagnética, e não pela gravidade. 

Os cientistas vêm testando a gravidade em escalas cada vez menores, chegando à incrível marca de detectar a força gravitacional de duas esferas de ouro de 1 milímetro e peso de 92 miligramas, separadas por 40 milímetros, e os resultados mostraram que Einstein estava certo. Mas os experimentos em colisores de partículas ainda não encontraram sinais de força gravitacional entre as partículas subatômicas, que estão unidas pelas demais três forças.

Para unificar o Modelo Padrão de partículas e a Relatividade Geral, os físicos tentam descobrir onde está a gravitação quântica — sem essa unificação, a compreensão do universo continua incompleta. 

Uma das propostas mais populares para essa unificação é uma partícula gravitacional chamada Gráviton, ainda não detectada e, portanto, não confirmada. Outra hipótese, menos convencional — apesar de sua grande popularidade graças a divulgadores científicos famosos como Stephen Hawking — é a Teoria das Cordas.

Muitos cientistas apostam nessa teoria porque ela funciona maravilhosamente bem na matemática, onde é descrita como a solução mais elegante já criada para responder questões incômodas, incluindo a gravidade quântica. 

Uma das primeiras versões dessa teoria precisava de 26 dimensões, mas já era interessante o suficiente para ser levada adiante. O problema é que havia limitações, como a falta de uma explicação para a matéria bariônica — ela explicava apenas os bósons, como fótons, por exemplo.

Outras versões foram propostas até chegarmos à mais completa já feita: a Teoria M. Nela, são apresentados conceitos como supercordas e supersimetria, que reduzem a quantidade de dimensões necessárias para 11, sem precisar alterar o Modelo Padrão. Significa que precisamos encontrar 7 dimensões superiores, já que conhecemos 4 delas — 3 espaciais e 1 temporal.

Conclui no post da próxima segunda-feira.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VPNs

MAIS VALE UMA PALAVRINHA ANTES QUE DOIS PALAVRÕES DEPOIS.

A navegação anônima (ou privada) está longe de ser um "manto de invisibilidade" como o de Harry Potter, mas evita que o histórico e as informações inseridas em formulários sejam salvos e apaga os cookies ao final da sessão. Ela é útil para burlar a limitação de artigos com acesso gratuito em determinados sites, fazer pesquisas sem receber toneladas de anúncios de produtos semelhantes e evitar que o(a) parceiro(a) descubra que você visitou sites “pouco recomendáveis”, mas não chega aos pés do Tor Browser e das VPNs, que utilizam canais de dados criptografados e mantêm o IP oculto dos sites visitados.

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Depois de cortar o cabelo, um padre perguntou quanto devia e o barbeiro respondeu que não cobraria nada, que era “um serviço para o Senhor". Na manhã seguinte, havia 12 livros de oração e uma nota de agradecimento do religioso defronte à barbearia.. Dias depois, um policial federal cortou a barba, perguntou quanto devia e o barbeiro tornou a dizer que não era nada, que considerava o corte um serviço para a comunidade". Na manhã seguinte, havia uma dúzia de rosquinhas e uma nota de agradecimento assinada pelo policial. Passados mais alguns dias, um deputado cortou o cabelo, perguntou quanto devia e ouviu do barbeiro que se tratava de um serviço para o país e que nada cobraria do parlamentar. Na manhã seguinte, três dúzias de senadores faziam fila diante da. barbearia…

As extensões de VPN atuam de forma semelhante aos aplicativos de VPN, mas seus efeitos se limitam ao navegador em que foram instaladas. Isso significa que uma extensão desenvolvida para o Chrome não protege os dados de navegação no Edge ou no Firefox, por exemplo. Já os apps completos de VPN protegem os dados tanto no navegador quanto em outros aplicativos — e até no próprio sistema operacional.

Existem diversas opções de VPN gratuitas, mas não existe almoço grátis. Ou seja, se você não está pagando por um produto, é porque você é o produto. 

Essa máxima se aplica à maioria dos serviços de Internet, mas especialmente às VPNs, pois manter uma rede de servidores espalhada pelo mundo e lidar com o tráfego criptografado de milhões de usuários custa caro.

Em maio de 2024, o FBI desmantelou uma botnet conhecida como 911 S5, que abrangia 19 milhões de endereços IP exclusivos em mais de 190 países. Seus criadores usaram vários serviços de VPN gratuitos como isca. Os usuários que instalaram esses aplicativos tiveram seus dispositivos transformados em servidores proxy, usados para atividades ilícitas pelos verdadeiros clientes da botnet — tornando-se cúmplices involuntários de ataques cibernéticos, lavagem de dinheiro, fraudes em massa e por aí afora. 

Estima-se que os criadores da botnet tenham lucrado quase US$ 100 milhões no período em que a rede esteve em operação, enquanto os prejuízos das vítimas confirmadas somaram bilhões de dólares.

Após a publicação do relatório, os aplicativos de VPN infectados foram removidos do Google Play, mas continuaram (e continuam) circulando sob diferentes nomes na popular loja alternativa APKPure. Caso você não queira ou não possa contratar um serviço pago, ao menos verifique as avaliações feitas por usuários do produto que você tem em vista. 

A Kaspersky VPN Secure Connectiondisponível como uma compra independente ou como parte de nossas assinaturas Kaspersky Plus e Kaspersky Premium, promete alta velocidade de conexão e proteção adicional contra phishing e outras ameaças, além de oferecer um período de avaliação gratuita de 30 dias para você testar o produto antes de você formalizar a compra. 

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

KASPERSKY WHO CALLS

O QUE SERIA DOS ESPARTOS SE NÃO FOSSEM OS TROUXAS?

Segundo a empresa de segurança digital Nord Security, mais de 70% dos brasileiros já sofreram alguma tentativa de fraude eletrônica. Os golpes estão cada vez mais sofisticados, mas ainda existem padrões que ajudam a separar o joio do trigo. 


Ligações ou mensagens solicitando a confirmação de dados pessoais, senhas bancárias ou de outras contas (redes sociais, aplicativos etc.) — especialmente quando tentam criar um senso de urgência — são indicativos clássicos de golpe. Também merecem desconfiança os pedidos de pagamento para liberação de produtos ou serviços, como encomendas retidas pela alfândega, falsas ofertas de emprego e mensagens com erros ortográficos ou de gramática.

 

Se você perceber que está sendo alvo de um golpe, desligue o telefone ou descarte a mensagem imediatamente, conforme o caso, e registre um boletim de ocorrência com o número que entrou em contato, horário da ligação ou capturas da tela.


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Alegando compromissos, Tarcísio de Freitas adiou visita a Bolsonaro na prisão, evitando um encontro que poderia ser considerado uma cilada política. Flávio Bolsonaro afirmou que o governador paulista ouviria do pai elogios por seu trabalho em São Paulo e sobre sua importância para derrotar o PT.

Não existe sinceridade em política, mas todo político busca um simulacro perfeito. Oscilando entre o Bandeirantes e o Planalto, Tarcísio procura não parecer o que é porque imagina que Zero Dois ainda pode não ser o que parece. De repente, a conversa com o criador pareceu uma cilada para a criatura.

Na política, como na vida, quem nasce para ser ou não ser acaba não sendo coisa nenhuma. Alheio ao dilema hamletiano daquele que se considera candidato ideal a CEO do Brasil, Lula monta o espetáculo no qual se esmera em moldar a percepção pública de sua posição e ações no cenário nacional devem ser sem jamais deixarem de parecer.


Para quem precisa atender números desconhecidos por motivos profissionais ou pessoais, bloquear todas as chamadas não identificadas não é uma opção viável. A alternativa está em usar aplicativos específicos que filtram ligações suspeitas. O Who Calls, da empresa de segurança russa Kaspersky, identifica e bloqueia chamadas de telemarketing e tentativas de golpe com o uso de inteligência artificial. Na versão gratuita, o aplicativo identifica e bloqueia chamadas suspeitas, alô passo que na versão paga (R$ 19,90 por ano para um dispositivo, segundo cotação de junho) ele também bloqueia chamadas suspeitas via WhatsAppUsuários de Android contam ainda com recursos extras, como o bloqueio de chamadas de números internacionais, de contatos não salvos e proteção contra phishing via SMS.

 

Observação: Rejeitar chamadas de spam pode parecer solução rápida, mas na prática confirma que seu número está ativo, aumentando a chance de novas tentativas e multiplicando sua presença em bancos de dados de golpistas. A melhor estratégia é ignorar completamente a ligação e deixar o celular tocar. Quando não há nenhuma reação, o sistema perde o rastro e diminui o interesse pelo contato específico. Já se você desliga manualmente, fica evidente que existe uma pessoa real monitorando aquele aparelho e multiplica sua presença em listas de spam. Outra solução eficaz envolve ativar os filtros nativos de segurança do smartphone ou entrar em listas oficiais de bloqueio.

 

Após o Departamento de Comércio dos EUA proibir a Kaspersky de comercializar seus produtos em território americano e de fornecer atualizações aos softwares já instalados, os apps da empresa foram removidos da Google Play Store, de modo que a instalação do Who Calls deve ser feita diretamente pelo site oficial do fabricante (clique neste link para instruções passo a passo). Usuários de iOS podem baixar o aplicativo por aqui.


Boa sorte.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 68ª PARTE

A CIÊNCIA PODE EXPLICAR O UNIVERSO, MAS NÃO CONSEGUE EXPLICAR O TEMPO.

Segundo a mitologia grega, Urano, temendo ser destronado, enfiava os filhos de volta no útero de Gaia — até que ela escondeu Cronos e, quando ele cresceu, pediu-lhe que castrasse o pai.

Cronos atendeu ao pedido da mãe e assumiu o poder — mas, a exemplo de Urano, passou a devorar a própria cria, levando Rehia a esconder Zeus e lhe pedir para obrigar o pai a regurgitar os irmãos. Zeus não só cumpriu a missão como derrotou o pai numa guerra que durou dez anos, conquistou a imortalidade e se tornou o deus dos deuses.

Não sabemos se Urano e Cronos realmente existiram, nem se Saturno — o deus do tempo na mitologia romana — ceifou os dias com sua foice. A ciência sequer sabe se o tempo existe ou se é apenas uma convenção criada por nossos ancestrais para dar sentido a eventos como o amanhecer e o entardecer, as fases da lua e as estações do ano.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Incomodado com as ranhuras que o escândalo do Banco Master escava na imagem do Supremo, o atual presidente da Corte, Édson Fachin, enxergou na ventania produzida por decisões esdrúxulas adotadas pelo colega Dias Toffoli a oportunidade de içar as velas da ética, e retornou a Brasília duas semanas antes do encerramento do recesso do Judiciário.

Toffoli ignora a suspeição que o assedia desde que pegou carona em jatinho ao lado do advogado de um dos investigados, dá de ombros para a sociedade de seus irmãos com um fundo de investimento do Master e virou um estorvo para a Polícia Federal.

A consciência é mais ou menos como a vesícula: só preocupa quando dói. E não há toga sem vesícula. 

O Brasil logo saberá quantos ministros do STF ainda dispõem de consciência para aceitar a submissão a um código de conduta.


Sabe-se que Rudolf Clausius definiu a entropia como medida da desordem, que Ludwig Boltzmann associou o conceito à probabilidade estatística de estados microscópicos de um sistema, que Josiah Willard Gibbs consolidou a base matemática da Termodinâmica, e que todos concordam que a entropia sempre aumenta. 

Um vaso sobre a mesa tem baixa entropia até cair e se espatifar no chão. Como os cacos não se reagrupam sozinhos, sua entropia não diminui. A partir dessa irreversibilidade, Arthur Eddington criou o conceito de seta do tempo e estabeleceu que ela é unilateral — aponta sempre do passado para o futuro. Reverter esse fluxo exigiria reduzir localmente a entropia, mas essa já é outra conversa.

Entre mito e matemática, uma certeza: o tempo não é apenas uma linha reta. É também um ciclo, uma arma, uma prisão e, por vezes, uma porta. Cronos encarna o tempo em sua forma mais cruel — aquele que consome, envelhece e destrói. Saturno carrega a foice não apenas como símbolo da colheita, mas como instrumento do corte inevitável entre o agora e o depois. Nenhum deles perdoa distrações: quem os ignora é engolido.

A imagem de Cronos devorando a prole é uma das metáforas mais viscerais da mitologia — o tempo não apenas mede, mas consome tudo o que cria. Inverter o sentido da seta do tempo parece impossível, mas nem todo tempo é linear. Aion, figura menos conhecida da mitologia grega, representa o tempo eterno e cíclico — aquele que retorna, gira e se renova. 

Ouroboros — serpente que engole a própria cauda — sugere que o tempo não é uma reta com fim, mas um círculo sem começo. Talvez seja nesses ciclos que se escondam os viajantes do tempo, entre retornos e desvios, entre o que já foi e o que ainda será.

Como ciclo, o tempo sugere renovação, a possibilidade de que algo se repita ou se reconecte. Como linha, denota a experiência vivida, na qual cada momento que passa é irrecuperável. A foice de Saturno corta não só o trigo maduro como também a continuidade, criando um antes e um depois que jamais se encontram.

Ficamos presos não apenas na sequência inevitável dos momentos, mas também na consciência dessa passagem — na ansiedade do futuro e no peso do passado. No entanto, mesmo que o tempo não negocie nem faça exceções, há momentos de transcendência onde ele se transforma de algoz em aliado, de prisão em porta de saída. 

Outras culturas lidaram com o tempo de formas distintas. Os egípcios o viam como parte de Ma'at, a ordem cósmica, e confiaram a Thoth — deus da Lua, do conhecimento e da sabedoria — a missão de registrar os ciclos lunares e os eventos eternos. Já os nórdicos, mais afeitos ao fim do mundo do que à eternidade, não tinham um deus do tempo, mas deram ao tempo um destino: o Ragnarök, o colapso final seguido do reinício inevitável. Curiosamente, nenhuma dessas mitologias fala em viagens no tempo como as concebemos hoje, mas todas tratam o tempo como algo maleável, perigoso, sagrado.

Se Cronos devorava os próprios filhos, talvez devore também quem ficar em seu caminho. Se Saturno ceifava o trigo, talvez ceife também quem tentar enganá-lo. E os giros de Aion talvez permitam que alguns escapem por entre os ciclos, como quem escapa por uma fenda na eternidade. Mas fica no ar a pergunta: se o tempo não é linear como nos relógios, mas um labirinto como sugerem os mitos, quem é seu Minotauro? E quem são os intrépidos viajantes que ousam enfrentá-lo?

Talvez o Minotauro seja a própria consciência da mortalidade, e os viajantes sejam todos nós, navegando entre memória e expectativa, presos no presente mas sempre tentando transcendê-lo. Ou talvez a resposta is blowing in the wind, escondida entre deuses e paradoxos. 

Continua...

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

DE VOLTA AO CRAPWARE E OUTRAS ENCHEÇÕES DE SACO

COMO É CONSENSO ENTRE TODOS OS SÁBIOS DE TODOS OS TEMPOS, MERDAS ACONTECEM.

O que veremos a seguir não se limita aos smartphones da Motorola, já que Samsung, Xiaomi, Google (linha Pixel) e outros fabricantes também pré-instalam dúzias de aplicativos de manifesta inutilidade — daí o apelido crapware (crap = merda) ou bloatware (bloat = inchaço). 

Todo programa ocupa espaço no armazenamento interno, consome ciclos de processamento, memória RAM e outros recursos preciosos. Em teoria, tudo que não faz parte do Android pode ser descartado. Na prática, porém, é mais fácil falar do que fazer.

 

Para remover um app, acessamos Configurações > Apps > Mostrar todos os "x" apps (o "x" corresponde ao número de aplicativos instalados), selecionamos o item em questão e tocamos em Desinstalar. Caso essa opção não esteja disponível (como ocorre com a maioria dos apps pré-instalados), devemos tocar em Interromper > Desativar. Feito isso, o app será colocado em "animação suspensa", podendo ser "despertado" quando — e se — a gente quiser.

 

O Brilho Adaptável, presente em todos os celulares Android, é útil, mas ver a tela escurecer e clarear sozinha com base na iluminação ambiente pode ser incômodo. Para desligar essa função, basta acessar Configurações > Tela e mover o botão da opção Brilho adaptável para a esquerda.

 

Por alguma razão, o Modo escuro — que reduz o cansaço visual e melhora a experiência em ambientes com pouca luz — não vem ativado por padrão. Para ativá-lo, tocamos em Configurações > Tela e ligamos o botão ao lado de Tema escuroTambém é possível programar um horário para sua ativação e desativação automática — basta tocar em Tema escuro > Programação e definir o período desejado.


A maioria dos apps envia notificações de tempos em tempos, mas alguns abusam da nossa paciência. Para reduzir essa encheção de saco, tocamos em Configurações > Notificações > Notificações do aplicativo, selecionamos o app que queremos silenciar e movemos o botão correspondente para a esquerda. 

 

Vale lembrar que o modo Não Perturbe silencia chamadas, alertas e notificações durante o período que a gente definir. Para ativá-lo, basta tocar em Configurações > Notificações > Não Perturbe e personalizar as opções — lembrando que é possível criar exceções para contatos importantes em caso de emergência.

 

Observação: O caminho e a nomenclatura dos recursos podem variar conforme o fabricante do aparelho e a versão do Android.

 

A propaganda é a "alma do negócio" — para os anunciantes —, mas usar aplicativos freeware (gratuitos) e não ser bombardeado por anúncios é quase impossível sem a ajuda de ferramentas de terceiros (bloqueadores de anúncios).

 

Nos smartphones Motorola, podemos reduzir a exibição de anúncios acessando Configurações > Google > Todos os serviços > Privacidade e segurança > Anúncios > Excluir o ID de publicidade e confirmando a exclusão. Para bloquear anúncios em aplicativos específicos, tocamos em Configurações, pesquisamos por Acesso especial e, na lista de aplicativos, selecionamos os que desejamos restringir e fazemos o ajuste.

 

Entre as diversas opções de bloqueadores (tanto pagos como gratuitos), destaco o AdBlock, o AdAway, o AdClear, o AdLock e o AdGuard — lembrando que nem todos estão disponíveis na Google Play Store, e que não é recomendável baixar apps de outras fontes.

 

Outra forma de inibir anúncios é configurar um DNS privado. Para isso, tocamos em Configurações > Rede e Internet > DNS privado, digitamos dns.google como nome do host, tocamos em Salvar e reiniciamos o aparelho.

 

Por fim, também é possível bloquear anúncios diretamente no navegador. Basta tocar nos três pontinhos, acessar Configurações > Configurações do site, localizar as opções Pop-ups e redirecionamentos e Anúncios invasivos, acessá-las e mover os botões para a esquerda.

 

Nenhuma dessas dicas (nem a combinação delas) elimina todos os anúncios, mas reduz a encheção de saco a níveis suportáveis. Afinal, a gente já se estressa demais com trânsito, fila, boletos, política e outras mazelas do mundo real, e não precisamos de um celular cheio de penduricalhos e propagandas para piorar as coisas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

DITADOS POPULARES

A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS.

Ditados populares — ou provérbios — são tesouros da sabedoria coletiva que resumem em poucas palavras lições, advertências e observações sobre a vida, o comportamento humano e o mundo ao redor. Muitos deles sofrem alterações ao longo do tempo, seja por mudanças na língua, seja por interpretações equivocadas, o que às vezes nos leva a repeti-los sem conhecer sua origem ou sentido real. 

 

Qualquer pessoa minimamente esclarecida entende o que significa “quem espera sempre alcança”, “para bom entendedor, meia palavra basta” e “Deus ajuda quem cedo madruga”, por exemplo, mas nem todo mundo compreende o subtexto de “filho de peixe, peixinho é” ou de “o fruto não cai muito longe da árvore”, também por exemplo.

 

Quem não tem cão caça com gato” significa que, na falta dos recursos adequados, usa-se aquilo que se tem para alcançar o objetivo. No entanto, forma correta é “quem não tem cão caça como gato”, ou seja, na falta do recurso principal (o cão, que caça em grupo), recorre-se à esperteza (como o gato, que caça sozinho).

 

Outro ditado que mudou ao longo do tempo é “quem tem boca vai a Roma”. A versão atual sugere que quem pergunta chega aonde deseja (os romanos diziam que "todos os caminhos levam a Roma, que era o centro do mundo antigo). Mas a forma original — “quem tem boca vaia Roma” — refletia o espírito crítico dos romanos, que vaiavam (manifestavam-se) contra o poder instituído. A mudança de "vaia" para "vai a" parece ter surgido por associação ao ato de viajar ou chegar a um objetivo.

 

Um ditado particularmente curioso é “cuspido e escarrado”, que remete a algo ou alguém muito parecido com outra coisa ou pessoa. Embora soe estranho atualmente, escarrado tinha o sentido de marcado, estampado, reforçando a ideia de semelhança extrema. A ligação com “esculpido em Carrara” é fruto de uma tentativa culta (e equivocada) de "corrigir" o que se supunha um erro.

 

Cor de burro quando foge” parece aludir à cor de um animal em fuga, como se fosse uma tonalidade impossível de definir. Todavia, a expressão original — "corro de burro quando foge" — reforça o conselho de se afastar rapidamente de encrenca, como alguém que corre para escapar de um burro desgovernado, que se torna perigoso quando assustado.

 

O verso “batatinha quando nasce, esparrama pelo chão”, de um conhecido poema infantil, é na verdade “espalha a rama pelo chão”, descrevendo o crescimento da batata, que espalha suas folhas e raízes pelo solo. Outro versinho de roda que foi distorcido ao longo dos anos é “hoje é domingo, pé de cachimbo”. O correto é “pede cachimbo”, sugerindo que, em dia de descanso, fuma-se cachimbo como forma de lazer. Ainda que os cachimbos sejam feitos de madeira, não há registros de que eles “nasçam em árvores”, como a expressão “pé de cachimbo” leva a crer.

 

Ossos do ofício” remete às dificuldades com que as pessoas têm de lidar no exercício de suas profissões. A forma “ócios do ofício”, defendida por palpiteiros de plantão, não tem registro em dicionários nem em textos clássicos. “Quem pariu Mateus que o embale” é uma corruptela de “quem pariu que mantenha e embale”. Em ambos os casos o significado é o mesmo: quem cria uma situação deve arcar com as consequências.

 

Parece que tem bicho-carpinteiro” se diz de pessoas irrequietas. Embora os dicionários registrem “bicho-carpinteiro” como o nome popular de algumas espécies de besouros, tudo indica que a forma correta seja “parece que tem bicho no corpo inteiro”. Mas o resultado é o mesmo em uma forma ou na outra.

 

Enfiar o pé na jaca” também tem duas versões, e ambas são consideradas corretas, pois evocam o descontrole. A jaca, fruta grande e pegajosa, pode remeter à ideia de sujeira ou de embaraço em sentido figurado (como quem se afunda no exagero). Já o jacá, — nome de um cesto de palha — sugere a cena de quem, ao exagerar na bebida, esbarra no dito-cujo ao sair do bar. 

 

Cair no gosto do povo” indica que algo se tornou popular. A forma tradicional era “cair no goto” (sinônimo informal de glote ou garganta). A expressão original fazia alusão a algo que “descia bem”, caía no gosto literal, mas com o tempo o “goto” virou “gosto”, alinhando o sentido ao paladar e ao apreço. 

 

A expressão “faca de dois gumes” indica que algo pode produzir tanto resultados positivos quanto negativos. A troca por “dois legumes” — que criou uma versão irônica ou jocosa do ditado — pode ter surgido porque pouca gente sabe que “gume” designa a parte cortante da lâmina. 


Mas não dizem que “a voz do povo é a voz de Deus”?

domingo, 18 de janeiro de 2026

ARROZ SOLTINHO

TUDO FICA MAIS FÁCIL QUANDO SE CONHECE O CAMINHO DAS PEDRAS.


O arroz começou a ser cultivado na China e na Índia lá pelos anos 3000 a.C e se disseminou para o Oriente Médio, Mediterrâneo, Europa e Américas, impulsionado por rotas comerciais e migrações.


Antes da chegada dos portugueses, já existia no Brasil uma espécie de arroz selvagem, conhecido pelos indígenas Tupi como "abati-uaupé" (milho-d'água) e cultivado em áreas alagadas. Há registros de seu cultivo organizado e crescente no Maranhão, em Pernambuco e na Bahia a partir do século XVIII, mas a cultura se fortaleceu e o consumo se tornou mais amplo no início do século XIX, e com a chegada da Corte Portuguesa esse cereal passou a fazer parte da dieta de seus servidores e se tornou a base da alimentação do brasileiro.


Hoje em dia, sozinho ou combinado com o feijão, o arroz acompanha todos os tipos de proteína (carne, frango, peixe, ovos), sendo um ingrediente essencial em diversas preparações regionais e nacionais, de risotos ao arroz de carreteiro, da galinhada ao baião de dois, do strogonoff ao filé à parmegiana, sem falar no arroz doce — sobremesa cremosa, muitas vezes aromatizada com canela.


Há quem goste do arroz “empapado” ou “em bloco” (como o famoso “unidos venceremos”) e quem prefira os grãos soltinhos e firmes, quase “al dente”, como é o caso deste que vos escreve. Eu já testei várias dicas, e todas funcionaram — uma mais, outra menos.


Uma delas consiste em iniciar o processo aquecendo um pouco de azeite numa panela em fogo alto, fritar quatro dentes de alho picado até o ponto “crocantinho moreninho”, adicionar o arroz cru e mexer bem, lembrando que a proporção ideal é usar o dobro de água em relação à quantidade de arroz — ou seja, duas xícaras de água para cada xícara de arroz.


O segredo é fritar o arroz até que ele comece a se soltar do fundo da panela. No início ele vai grudar, mas basta continuar mexendo para que ele deslize com facilidade. Além disso, contrariando o senso comum, deve-se cobrir o arroz frito com água fria, e não fervente, pois isso garante textura e sabor superiores.


Quando a água começar a ferver, mexa delicadamente para soltar possíveis grãos presos ao fundo da panela e prove a água para acertar o ponto do sal — o ideal é que ela esteja levemente salgada, como a água do mar, já que o arroz absorve parte do sal durante o cozimento e pode ficar insosso se você não salgar a água adequadamente.


Observação: se você exagerar no sal, descasque uma batata, corte ao meio ou em rodelas grossas e coloque dentro da panela enquanto o arroz está cozinhando (se ainda houver líquido) ou no arroz já pronto, juntamente com um pouco d’água. Como é rica em amido, a batata atua como uma esponja, absorvendo parte do líquido e, com ele, o excesso de sal. Deixe a batata cozinhar por cerca de 10 a 15 minutos e depois retire-a da panela antes de servir o arroz. 


Quando o arroz estiver “subindo” e a água atingir o mesmo nível dos grãos — ou seja, quase secando — desligue o fogo, tampe a panela e deixe descansar por cerca de 20 minutos. O arroz terminará de cozinhar no calor residual sem o risco de queimar ou grudar no fundo. Mas é importante não abrir a panela durante esse tempo.


Outro truque que produz bons resultados é colocar um pano de prato limpo entre a panela e a tampa. Quando o arroz estiver pronto, desligue o fogo, retire a tampa, recoloque o pano e feche a panela novamente, certificando-se de que o pano esteja esticado e não toque no alimento. Feito isso, espere 10 minutos para que o pano absorva a umidade e então destampe a panela e solte os grãos usando um garfo.


Eu já disse isso em outra postagem, mas não custa relembrar: no tempo das nossas avós, o arroz vendido à granel em empórios e armazéns trazia “marinheiros” — casca e grãos quebrados que flutuavam quando colocados na água —, pedriscos e resíduos de insetos mortos. Assim, era preciso “escolher” e lavar o arroz antes de colocá-lo para cozinhar.


Atualmente, o arroz vendido nos supermercados é escolhido e lavado antes de ser embalado; lavá-lo novamente reduzirá ainda mais a concentração de amido nos grãos. 


Se você optar por lavar esse cereal, tenha em mente que, se o excesso de amido afeta o cozimento, a falta faz com que ele fique mais seco, dificultando o preparo. Isso sem falar que você estará reduzindo também a concentração de sais minerais, vitaminas e outros nutrientes importantes.


Bom apetite.

sábado, 17 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 67ª PARTE

YO NO CREO EM BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY!

Os OOPArts — acrônimo de Out Of Place Artefacts — costumam ser apontados como indícios da existência de viajantes do tempo, e poucos causaram tanto alvoroço quanto uma combinação de anel e relógio encontrada por arqueólogos na China, em 2008, no interior de uma tumba da dinastia Ming que estava selada havia mais de 400 anos. 


No mostrador do artefato que não poderia estar ali, os ponteiros marcavam 10h06 e a caixa exibia a inscrição “Swiss”. A notícia logo se espalhou e dividiu opiniões: para os entusiastas do insólito, tratava-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo. Para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos sérios, publicações acadêmicas e imagens confiáveis — além de uma única foto desfocada que circulou pela internet — sugeriam fraude. O episódio permanece envolto em mistério, servindo como combustível para debates entre curiosos, cientistas e alimentando teorias da conspiração.

 

Pinturas e murais retratando sacerdotes maias com o punho à frente do rosto — como fazemos atualmente quando conferimos notificações em nossos smartwatches — levam água aos moinhos da conspiração — quando mais não seja, porque os primeiros smartwatches só foram lançados em 2015. Mas os céticos atribuem a postura dos sacerdotes a um gesto ritual, e argumentam que o cérebro humano é programado para reconhecer padrões mesmo onde eles não existem.

 

Observação: A tendência de atribuir formas familiares a estímulos ambíguos é conhecida como pareidolia. Quando confrontado com imagens vagas ou simbólicas, nosso cérebro preenche as lacunas com referências do presente, levando-nos a enxergar coelhos, dragões ou castelos nas nuvens, ver astronautas em pinturas rupestres e capacetes espaciais em máscaras cerimoniais. Como dizem os espanhóis, yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay. 

 

Um indivíduo de cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada se destaca da multidão numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), em 1941. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 e outra pessoa que é vista na foto duas filas adiante, segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna, são viajantes do tempo. Para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. A imagem — que faz parte da exposição “Their Past Lives Here” — teve sua autenticidade comprovada por especialistas, e os trajes, nitidamente anacrônicos, foram considerados compatíveis com os anos 1940. E eu sou o coelhinho da Páscoa.

 

Outro caso emblemático: no início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100 — necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o Efeito 2038. O modelo em questão foi lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação do suposto viajante do tempo fazia sentido. Além disso, a Big Blue reconheceu que uma unidade dotada de uma rara interface — que permitiria ao programador acessar todos os códigos da empresa — desapareceu misteriosamente de seus depósitos. 

 

Visando tornar sua narrativa menos inverossímil, Titor detalhou seus deslocamentos temporais e fez revelações sobre o futuro. Segundo ele, o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001, e as máquinas do tempo, criadas para transportar pequenos objetos, seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Chegou mesmo a postar desenhos esquemáticos do projeto e uma foto de sua máquina — que chamou de "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". 

 

A “guerra civil” profetizada para 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial — que, segundo Titor, teria início em 2015 e dividiria EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas nos anos seguintes, e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. Após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, o suposto viajante do tempo desapareceu dos fóruns em março de 2001, deixando uma frase misteriosa ("traga uma lata de gasolina com você quando seu carro morrer na estrada") e miríades de perguntas sem respostas. 

 

Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que Titor era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de "John Titor Foundation", onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida (EUA).

 

Para os teóricos da conspiração, as previsões não falharam, apenas deram a abertura temporal para que Titor conseguisse corrigi-las a tempo de não ocorrerem. Ele próprio avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o "modelo Everett-Wheeler da física quântica" estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo — a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. Vale lembrar que a “Interpretação de muitos mundos” postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um "universo paralelo" — de acordo com o "paradoxo do avô", se voltasse ao passado e matasse o próprio avô, o neto se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal que não a dele (já que não poderia existir na dele). 

 

Talvez tudo isso não passe de uma fraude, mas, se for, quem a criou sabia muito bem do que estava falando. Até hoje ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira, e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Demais disso, cada um pode acreditar no que bem entender, da autoproclamada “absolvição” de Lula à narrativa segundo a qual Bolsonaro é um ex-presidente de mostruário que vem sendo perseguido injustamente por Alexandre de Moraes e seus pares no STF. Felizmente, com exceção de Luiz Fux, os integrantes da Primeira Turma da Corte não se deixaram iludir pelo canto da sereia, como prova a condenação do “mito” dos descerebrados a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes contra o Estado Democrático de Direito. Mas isso é outra conversa.

 

Nada alimenta mais as especulações temporais do que obras faraônicas como as pirâmides de Gizé, erguidas a partir de milhões de blocos de até 80 toneladas, encaixados com precisão milimétrica e alinhados com os pontos cardeais e a Constelação de Orion por um povo que dispunha de simples cinzéis e prosaicos ábacos. Como não poderia deixar de ser, essa implausibilidade deu azo a teorias de ajuda extraterrestre, tecnologias perdidas, ou — por que não? — visitantes do futuro. E o mesmo raciocínio vale para Stonehenge, na Inglaterra, com seus megálitos gigantescos transportados por dezenas de quilômetros e alinhados ao solstício.

 

Em Machu Picchu, no Peru, e em sítios como Sacsayhuamán, blocos de pedra irregulares se encaixam com tamanha precisão que nem uma lâmina de barbear passa entre eles. Explicações existem: trabalho humano intensivo, técnicas engenhosas de escavação, polimento e transporte. Mas não convencem aqueles para quem é mais sedutor acreditar que alguém trouxe uma furadeira quântica do futuro para dar uma mãozinha.

 

A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Basta lembrar de Sherazade e os Contos das 1.001 Noites, com tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz, enfim, prodígios tecnológicos que somente seriam inventados dali a milhares de anos.

 

Segundo a Navalha de Ockham — ou princípio da parcimônia —, sempre que há múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si. Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias — Júlio Verne imaginou submarinos e viagens à Lua séculos antes de elas se tornarem realidade. No entanto, quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como “memória do futuro” fica ainda maior.

 

Todos esses exemplos sugerem que a maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. Talvez a maioria das “provas” não resista a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios trabalharem duro durante décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar pedras”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…