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sábado, 11 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — ATÉ ENTRE PLANETAS HÁ OS DO CONTRA

O TEMPO CURA FERIDAS, MAS DEIXA CICATRIZES.


A polarização na política existe desde sempre, mas nunca foi tão nefasta quanto de um tempo a esta parte, com lulopetistas e bolsonaristas defendendo seus bandidos de estimação nas disputas presidenciais travadas entre o bonifrate de Lula em 2018 — e próprio xamã petista em 2022 — contra Jair Bolsonaro.

Tendo o canhestro Fernando Haddad como adversário, o misto de mau militar, parlamentar medíocre e messias que não miracula tornou-se o "mito" da direita radical e foi guindado ao Planalto por uma caterva de descerebrados com capacidade cognitiva comparável à de uma ameba.

Em 2022, o cenário se inverteu: O demiurgo de Garanhuns venceu o capetão golpista por uma vantagem inferior a 2% dos votos válidos — a menor desde a redemocratização e a volta das eleições presidenciais diretas — e assim conquistou sua terceira (e queira Deus derradeira) passagem pelo Planalto. Bolsonaro, por sua vez, cumpre 27 anos de reclusão por tentativa de golpe de Estado (não mais na Papudinha, já que simulou toda sorte de comorbidades para ser autorizado a cumprir prisão domiciliar em sua mansão em Brasília — um santo remédio, considerando que desde então não se ouviu dizer que o mandrião quase sufocou com o próprio vômito ou teve crises de soluço).

Depois de concluir seu segundo mandato, o camelô de empreiteiras e fabricante de postes foi alvo de duas dúzias de processos — a maioria por corrupção. Apesar de ter sido condenado a mais de 20 anos de reclusão nos casos do triplex no Guarujá e do sítio em Atibaia (decisões transitadas em julgado no STJ), o molusco eneadáctilo deixou sua cela VIP e voltou ao tabuleiro político-eleitoral na esdrúxula condição de "descondenado" — graças a uma sucessão de decisões teratológicas do STF.

Já a divisão entre "esquerda" e "direita" remonta a 1789, quando o rei Luís XVI convocou os "Estados Gerais" para discutir a crise financeira que assolava a França. O evento se transformou numa Assembleia Nacional Constituinte, na qual os deputados alinhados com o monarca sentavam-se à direita e os que defendiam a limitação do poder real, à esquerda. Em outras palavras, um simples "acidente de localização" fez com que aqueles que apoiam o status quo sejam vistos como "de direita", e os que desejam mudanças, como "de esquerda".

Vale salientar que as correntes de pensamento e ideologias diferentes que preenchem o espaço entre os dois extremos do espectro político-ideológico são tantas quanto os tons de cinza separam o preto do branco na paleta de cores — sendo o branco a soma de todas as cores do espectro visível e o preto, o resultado da ausência da luz.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Dada a incapacidade notória de prever o efeito de seus atos, Jair Bolsonaro & filhos acabam quase sempre prisioneiros da camisa de 11 varas que produzem com o que falam. Ou por outra: a exemplo dos peixes, essa escumalha morre pela boca.

O pater familias  perdeu a reeleição porque passou quatro anos falando e fazendo absurdos sem medir consequências. O primogênito vai pelo mesmo caminho da inconsequência, cujo exemplo mais recente é a tentativa vã de se livrar da jactância do irmão batendo no peito e diante do tarifaço de Donald Trump ao Brasil, dizendo: "Fui eu".

É um fardo que bolsonarinho carregará na campanha a presidente por completa falta de percepção de que aquilo significava um posicionamento contrário aos interesses do Brasil, o que obviamente permitiria ao governo ir ao revide e tirar proveito político/eleitoral.

Da mesma forma não se apagará a imagem do riso de escárnio do primogênito do refugo da escória da humanidade em reação à pergunta do repórter do site The Intercept sobre suas relações com Daniel Vorcaro, horas antes da divulgação do áudio em que pede que o então banqueiro já encalacrado na Justiça pague o restante dos milhões prometidos para financiar o filme "Dark Horse".

Difícil remover a marca do cinismo e da mentira tatuada à própria testa naquela negativa logo desmentida. E como parecer convincente na defesa do Pix, depois de Dudu Bananinha tê-lo comparado ao Zelle americano e dito que poderia ser posto na mesa de negociações com os EUA?

A pauta do combate ao crime encontra obstáculos nas homenagens passadas a milicianos e alianças recentes com a camarilha de políticos fluminenses presos, investigados e/ou inelegíveis. 

Impossível dar o dito pelo não dito, quando não se sabe o que diz, não se mede a relevância das palavras, não se dispõe de tirocínio para antever resultados nem habilidade para administrar as sequelas.

Em contraponto, a madrasta Michelle — Firmo de nascimento e Bolsonaro por adoção — como vimos, tem roteiro bem pensado, frieza e, sobretudo, visão estratégica.


Curiosamente, também entre os planetas há dois esquerdistas (ou "do contra"), que divergem dos outros seis, embora orbitem o Sol no mesmo sentido da rotação solar — herdada do sentido de rotação do movimento angular do disco de gás e poeira formado 4,6 bilhões de anos atrás. Se tomarmos o polo norte visto de cima como referência, o Sol gira no sentido anti-horário, e seis dos planetas também giram em torno do próprio eixo nessa mesma direção — as exceções são Vênus e Urano, que têm “rotação retrógrada”. 

Para Vênus, não existe uma explicação definitiva, apenas hipóteses. Uma delas é que o planeta tenha sofrido uma ou mais colisões catastróficas que alteraram o sentido de sua rotação. Diferentemente da Terra, que ganhou um satélite a partir de sua colisão (a Lua), Vênus teria absorvido a massa desses asteroides e invertido o sentido de sua rotação em função da força do impacto. Outra hipótese, mais fundamentada e apresentada ainda na década de 1980, é que o astro está sendo “puxado” e “empurrado” ao mesmo tempo por duas forças diferentes.

O jeito como Vênus gira hoje é o resultado desse cabo de guerra: por um lado, o Sol o puxa com sua gravidade, criando pequenas deformações no planeta (como marés), que vão desacelerando a rotação e tentando fazê-lo ficar sempre com o mesmo lado voltado para o Sol. Por outro, sua atmosfera extremamente densa, aquecida pelo Sol, cria “ondas” gigantes e gera um tipo de empurrão contínuo que acontece no sentido contrário ao dos outros planetas, daí a rotação retrógrada. Como resultado dessas duas forças, a rotação de nosso vizinho mais próximo é extremamente lenta (um dia venusiano dura mais de 243 dias terrestres) e no sentido oposto da maioria dos planetas.

ObservaçãoA distância média entre a Terra e Marte é de 225 milhões de quilômetros. Dependendo do ponto em que os dois planetas estão em suas órbitas em torno do Sol, essa distância varia de 54,6 milhões a 401 milhões de quilômetros. Vênus fica a cerca de 40 milhões de quilômetros da Terra, e Mercúrio, a 58 milhões. Como essas distâncias mudam conforme o ponto onde cada um está em sua órbita, Vênus pode ficar a 41 milhões de quilômetros da Terra, e Mercúrio, a 57 milhões. Em qualquer caso, Marte estará sempre mais distante.

O segundo caso é menos complexo, mas também ainda não há consenso definitivo. A inclinação axial de Urano (97,77°) faz seu eixo de rotação ficar quase paralelo ao plano orbital. Na prática, o planeta “rola” em torno do Sol (em comparação, a inclinação axial da Terra é de 23,4°). A explicação mais provável (e ainda assim, apenas uma hipótese) é que um grande objeto deve ter colidido e "derrubado o planeta" de lado. Quando isso aconteceu, pedaços de matéria foram ejetados e se acumularam gradualmente, formando as 29 luas que orbitam Urano.

Pesquisas recentes sugerem que Urano pode ter sofrido não apenas um, mas dois impactos massivos no início de sua história, o que explicaria tanto seu ângulo axial extremo como a órbita equatorial de suas luas (elas giram ao redor do planeta no mesmo plano do equador dele, o que é curioso, já que Urano está deitado). Os autores desse estudo argumentam que, se houvesse ocorrido apenas um impacto, as luas de Urano orbitariam em sentido retrógrado — o contrário do que se observa. Segundo alguns modelos, apenas com múltiplos impactos gigantes seria possível explicar por que Urano manteve suas luas se movendo na direção correta.

Enfim, há mistérios que serão desvendados e mistérios que jamais serão conhecidos.

Continua...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

ANDROID 17

CUIDADO COM OS ENGENHEIROS: ELES COMEÇARAM INVENTANDO A MÁQUINA DE COSTURA E TERMINARAM PELA BOMBA ATÔMICA.

Nem todos os smartphones Android suportam atualizações para versões mais recentes do sistema, e cada fabricante adota sua própria política e divulga a lista de modelos elegíveis somente quando a nova interface é lançada (confira em Samsung, Motorola e Xiaomi).

Se o Google seguir a tradição, o Android 17 deve ser lançado em junho, inicialmente para os usuários da linha Pixel 7 ou superior, que podem se inscrever no programa Android Beta para receber a atualização over-the-air. Quem não possui um Pixel ainda pode recorrer às imagens genéricas do sistema (GSI) ou emular o Android 17 no Android Studio, lembrando que o hardware ultrapassado dos aparelhos mais antigos pode não dar conta dos novos recursos e funções que acompanham essas atualizações.

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O Brasil vai de bem a melhor. Não bastasse o envolvimento de togas supremas no escândalo do Banco Master, o STJ abriu uma sindicância para investigar denúncias de assédio sexual apresentadas contra o ministro Marco Aurélio Buzzi. No STF, ao apregoar o código de ética, o ministro Fachin como que fala em corda em casa de enforcado. Moraes, ao rodar a toga na primeira sessão depois das férias, disse que magistrado "não pode fazer mais nada na vida", exceto "dar aulas e palestras" — que, segundo ele, "passaram a demonizar".

O ministro disse ainda que não há dúvida quanto ao impedimento de juízes julgarem casos em que parentes advoguem, mas não explicou que talentos especiais de sua mulher, Viviane, justificam o contrato de R$3,6 milhões mensais que assinou com o Master.

Toffoli — que ganhou a suprema toga em retribuição aos “bons serviços prestados a Lula e ao PT", mesmo tendo sido reprovado duas vezes seguidas em concursos para Juiz de Direito em São Paulo, disse que magistrados podem ser sócios de empresas privadas, desde que não sejam dirigentes. E, entre risos, faltou em "doar a herança para entidades de caridade caso tivesse pais empresários”, além de se pronunciar como se nada tivesse sido descoberto sobre a sociedade que seus familiares mantiveram com um fundo do Master num resort frequentado por ele com ares de proprietário.

Todas as pessoas são iguais perante a lei. É fácil saber o que é certo; difícil é fazer o certo. A questão é que certos magistrados se tornam piores quando se comportam como se estivessem acima da lei.

Um código de conduta não fabricará ministros mais éticos, mas pode ser útil para aqueles que não resistem à tentação de imaginar que tudo o que é rigorosamente proibido é ligeiramente permitido.


A Samsung garante até quatro atualizações de sistema para modelos lançados a partir de 2022 nas linhas Galaxy S, A, FE e alguns M. Os flagships e intermediários premium mais recentes — como os Galaxy S23, S24, A56, A36 e similares — prometem de cinco a sete anos de atualizações, dependendo do modelo. 

Na Motorola, a maioria dos aparelhos intermediários e top de linha (como os Edge e os Moto G mais recentes) recebe ao menos dois anos de atualizações do Android e até quatro anos de correções de segurança. O Edge 60 Fusion, por exemplo, deve estacionar na versão 17 do sistema, mas o Moto G75 estreou com a promessa de cinco anos de atualizações — algo inédito no catálogo da marca. 

A Xiaomi costuma oferecer de duas a três grandes atualizações para a maioria dos aparelhos. Modelos flagship recebem suporte mais longo, enquanto linhas de entrada, como Redmi e POCO, tendem a receber menos atualizações. No fim das contas, a promessa de atualizações longas soa ótima no material de marketing, mas a realidade continua sendo um jogo de paciência, loteria e calendário. 

Enquanto o aroma do Android 17 já perfuma a cozinha do Google, muita gente ainda está esperando o 16 chegar ao prato — no mundo Android, as atualizações seguem menos como direito adquirido e mais como aquele convite que diz “a gente te liga”.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 77ª PARTE

A IMAGINAÇÃO É MAIS IMPORTANTE QUE O CONHECIMENTO.

John Michell e Pierre-Simon Laplace propuseram em 1783 e 1796, respectivamente, a existência de "estrelas escuras", mas o conceito moderno de buraco negro surgiu da Relatividade Geral, teorizada por Einstein em 1915. Karl Schwarzschild encontrou a solução matemática em 1916, mas, ironicamente, foi quem Einstein popularizou o tema — inclusive na ficção científica — seis décadas antes de o telescópio Event Horizon capturar a imagem real de uma singularidade existente na galáxia Messier 87, a 53 milhões de anos-luz da Terra (cerca de 503,5 quatrilhões de quilômetros).

Observação: A despeito do que já foi dito sobre buracos negros nesta sequência, revisitar o assunto em nível de detalhes pode esclarecer eventuais dúvidas remanescentes, mesmo porque não é fácil entender o que ocorre dentro do horizonte de eventos — ou ponto sem retorno — desses estranhos corpos celestes. 


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A crise em nossas mais altas cortes ganhou a aparência de uma tempestade perfeita. No Supremo, atualmente acossado pelo escândalo do Master, a maioria dos ministros resiste à edição de um código de ética; no STJ, denúncias de assédio contra o ministro Marco Buzzi, adicionaram um fator sexual a uma ziquizira que submetia a corte ao desgaste de uma investigação da PF sobre venda de sentenças nos gabinetes de três dos seus ministros.

Afastado cautelarmente de suas atividades por tempo indeterminado, Buzzi perdeu acesso ao gabinete e ao carro oficial, mas manteve intacto o salário de R$44 mil mensais e ficou liberado para dedicar 100% do seu tempo à saúde e à formulação da defesa que terá que apresentar à sindicância do STJ, ao CNJ, e ao STF, que analisa as denúncias sob a ótica criminal.

No âmbito administrativo, a pena máxima é a aposentadoria compulsória, com remuneração integral, já que o acusado só perde o salário se for condenado criminalmente. Portanto, espera-se que os fatos prevaleçam sobre o corporativismo.


A força gravitacional dos buracos negros resulta da quantidade absurda de massa que eles concentram numa região extremamente pequena. Quando essa densidade se torna infinita, a gravidade e outras grandezas físicas tendem igualmente ao infinito. Como as leis da física clássica não se aplicam a esses "infinitos", surgem singularidades no espaço-tempo. 


Alguns físicos ainda duvidam da existência de buracos negros supermassivos — talvez porque reconhecer a existência de singularidades implica aceitar que a física tem um limite. Mas ainda que não seja possível ver um buraco negro diretamente (pois nem mesmo a luz escapa de seu horizonte de eventos), não faltam evidências de que eles existem, de pistas matemáticas a detecções indiscutíveis.


Um artigo publicado por Stephen Hawking e Roger Penrose, amplamente aceito pela comunidade científica, demonstra que qualquer objeto submetido a um colapso gravitacional extremo tende a formar uma singularidade ao se transformar em um buraco negro. Nas estrelas, esse colapso é temporariamente contido porque os átomos de elementos leves, como hidrogênio e hélio, passam por fusão nuclear contínua, produzindo uma pressão dirigida de dentro para fora. A gravidade, por sua vez, atua no sentido oposto, comprimindo a matéria e impedindo que a estrela se desintegre.


Observação: Quando o “combustível” do núcleo estelar se esgota, a pressão interna diminui, mas a massa e a gravidade continuam pressionando a matéria em direção ao centro da estrela. Quando essa massa ultrapassa 20 massas solares, a gravidade cria um poço gravitacional do qual nem mesmo a luz consegue escapar. Tudo isso acontece em segundos, mas resulta numa explosão de raios gama tão poderosa quanto toda a energia liberada pela estrela ao longo de toda sua vida. 


As ondas gravitacionais — ondulações no espaço-tempo causadas por eventos cataclísmicos que percorrem todo o Universo — são indícios ainda mais concretos da existência dos buracos negros, já que instrumentos sofisticados, como o LIGO, podem detectar essas ondas, permitindo que os cientistas descrevam os objetos que lhes deram origem.


Estrelas binárias que orbitam umas às outras em espiral tendem a se tornar buracos negros que continuam existindo em dupla, e a interação gravitacional entre eles cria ondulações no espaço-tempo antes mesmo de uma eventual colisão. Em um sistema com mais de duas estrelas binárias, uma se torna um buraco negro e a outra continua em sua forma original ou se se transforma em anã branca.


Existem muitos tipos de galáxias ativas — como quasares, seyfert e radiogaláxias — cada qual com uma intensidade de radiação emitida. A maioria dos astrônomos acredita que esse fenômeno seja causado por buracos negros supermassivos, e que uma a cada dez galáxias ativas produza um jato relativístico de partículas energéticas perpendicular ao disco e em direções opostas. Embora a Via Láctea não seja uma galáxia ativa, o fato de as estrelas mais próximas do seu núcleo girarem a até 8% da velocidade da luz sugere que elas orbitam algo extremamente pequeno e massivo. 


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quinta-feira, 2 de outubro de 2025

DA CAVERNA DE PLATÃO À TABELA PERIÓDICA: A INCESSANTE BUSCA PELA LUZ

SE EXISTE UM DEUS, ELE É IMPESSOAL, POIS NÃO HÁ NADA DE PESSOAL NAS LEIS DA FÍSICA.

Enquanto o dogma se alimenta da rigidez, a ciência avança justamente por duvidar, por questionar o que hoje parece sólido. 

Como nos lembram Platão no Mito da CavernaAristóteles com o axioma "o sábio duvida e o sensato reflete", e a própria ciência, só a dúvida e a revisão constante nos libertam das sombras


Mesmo uma teoria científica robusta e testada é passível de refutação, já que o avanço científico depende da consciência de que todo conhecimento é, por definição, inacabado. O que enfraquece a ciência não é a dúvida, mas a arrogância das certezas definitivas. E é justamente essa maleabilidade que a torna tão poderosa — e tão diferente dos discursos religiosos que prometem respostas eternas.


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Marx teria dito que a história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa. Não sei se alguém disse que a desgraça é cíclica, mas no Brasil isso parece fato. Com um Poder Executivo marcado por crises de confiança (Mensalão, Petrolão, Orçamento Secreto, entre outros) e um Legislativo fisiológico e corrupto (com PECs de blindagem e anistia), restou ao Judiciário atuar como tábua de salvação.
A atual composição do STF não empolga, mas não se pode negar que, diante de uma ameaça real à democracia, Alexandre de Moraes exerceu seu papel com firmeza, coragem e respaldo constitucional. Suas decisões se fundamentaram em dispositivos da Constituição que protegem o Estado Democrático de Direito — como os artigos 1º, 5º e 60 — além de leis penais que tipificam crimes contra a ordem democrática.
Pode-se gostar ou não de Xandão, mas não se pode negar que ele garantiu a lisura das eleições de 2022 e a estabilidade institucional. Em meio à tentativa de golpe, ele foi descrito como “a muralha entre o Brasil e a barbárie”. Sua atuação impediu que setores das Forças Armadas e do (des)governo Bolsonaro desestabilizassem os poderes constituídos. Como escreveu um articulista: “a história cobrará não apenas os que invadiram os prédios dos Três Poderes, mas também os que permitiram que a democracia sangrasse”.
O ministro Luís Edson Fachin, sucessor de Luís Roberto Barroso na presidência do STF, reafirmou uma frase que tende a se tornar mantra de sua gestão: “Ao Direito o que é do Direito, à política o que é da política.” Demonstrando consciência das ameaças ainda vigentes na Corte, reiterou sua total solidariedade a Moraes — que assumiu a vice-presidência do tribunal —, defendeu o equilíbrio da atuação dos magistrados, firmou que “um Judiciário submisso, seja a quem for, mesmo que seja ao populismo, perde sua credibilidade” e que não hesitará em zelar pelo “controle de constitucionalidade de lei ou emenda que afronte a Constituição”, e ressaltou ainda que a atribuição de “proteger os direitos fundamentais e preservar a democracia constitucional” não autoriza o tribunal a “invadir a seara do legislador.”
Num momento em que crescem críticas a decisões individuais das togas supremas, Fachin revelou seu apreço pelas decisões colegiadas. Tomado pelas palavras, parece convencido de que o principal desafio de sua gestão é devolver o STF à sua caixinha institucional na fase pós-tentativa de golpe.
Pode-se gostar ou não de Fachin, mas não se pode esquecer que, iluminado por uma epifania tão estranha quanto tardia, o então relator da Lava-Jato na Corte reconheceu a “incompetência territorial” da 13ª Vara Federal de Curitiba para processar e julgar o então ex-presidente Lula, e anulou as condenações nos casos do Tríplex e do Sítio — mesmo ambas tendo transitado em julgado no STJ e ele, Fachin, ter rejeitado esse argumento da defesa ao menos uma dezena de vezes.

A tabela periódica, originalmente formulada em 1869 por Dmitri Mendeleev, organizou os elementos então conhecidos com base em suas propriedades químicas. Desde então, ela passou por diversas atualizações à medida que novos elementos foram descobertos e os conhecimentos científicos se aprofundaram.

 

Ao contrário de crenças que, como os vaga-lumes, brilham na escuridão para seduzir os menos esclarecidos, a ciência se fundamenta na revisão constante de suas ideias, guiada por evidências — até porque o verdadeiro conhecimento exige ir além das aparências e questionar criticamente as narrativas que escolhemos seguir. E a capacidade da ciência de evoluir à luz de novas evidências não apenas a fortalece, como a diferencia de sistemas dogmáticos. 

 

Voltando à tabela periódica, o que começou como um modelo com menos de 70 elementos hoje inclui 118 oficialmente reconhecidos, além de previsões teóricas para elementos ainda não sintetizados, refletindo não só uma ordem natural, mas também a evolução do próprio pensamento humano na tentativa de compreender e sistematizar o universo de forma racional, verificável e aberta à mudança.

 

Segundo um estudo publicado no site NewScientist, uma versão revista e expandida da tabela prevê a existência de inúmeros íons altamente carregados. Esses íons possuem propriedades eletrônicas únicas, o que os torna candidatos promissores para a construção de relógios atômicos ainda mais precisos do que os atuais.

 

A precisão é um requisito fundamental para o funcionamento de diversas tecnologias modernas, como sistemas de navegação por satélite, redes de telecomunicações e experimentos científicos que exigem medições temporais exatas. Um relógio atômico mais preciso não mede apenas segundos com mais exatidão; ele nos permite investigar fenômenos sutis da física, como variações na gravidade, mudanças na constante fundamental do universo e até testar teorias cosmológicas com maior rigor. 

 

Em suma, ao contrários das certezas pré-concebidas e imutáveis, o conhecimento científico é uma ferramenta viva que constantemente amplia nossos horizontes.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

A QUE PONTO CHEGAMOS!

NÃO É POSSÍVEL CONVENCER UM FANÁTICO DE COISA ALGUMA, POIS SUAS CRENÇAS NÃO SE BASEIAM EM EVIDÊNCIAS, MAS SIM NUMA PROFUNDA NECESSIDADE DE ACREDITAR.   


O saudoso Ivan Lessa ensinou que o brasileiro esquece a cada 15 anos o que aconteceu nos últimos 15 anos. Isso explica por que a récua de muares supostamente capacitada a votar repete a cada eleição o erro que Pandora cometeu uma única vez.

 

Depois de 21 anos de ditadura e 29 de jejum de urna, os brasileiros recuperaram o direito de votar para presidente. Na eleição solteira de 1989, o cardápio incluía Ulysses Guimarães, Mario Covas e Leonel Brizola, mas o esclarecidíssimo eleitor achou por bem despachar para o segundo turno um caçador de marajás demagogo e populista e um ex-metalúrgico populista e demagogo

 

Collor derrotou Lula em 1989 e Fernando Henrique, em 1994 e 1998 — ambas as vezes no primeiro turno. Mas faltaram ao tucano de plumas vistosas novos coelhos para tirar da velha cartola e assim Lula venceu José Serra em 2002 e Geraldo Alckmin em 2006 — a despeito do escândalo do mensalão. Quatro anos depois, ainda com a popularidade maior que o ego, travestiu de “gerentona” uma incompetente de quatro costados  e a incumbiu de manter aquecida a poltrona que ele pretendia disputar novamente em 2014.

 

Dilma derrotou Aécio no segundo turno, mas foi afastada do cargo em abril de 2016 e apeada em definitivo no final de agosto, quando então seu vice, Michel Temer, foi efetivado no cargo. Num primeiro momento, a troca de comando foi como uma lufada de ar fresco numa catacumba: depois de 13 anos ouvindo garranchos verbais de um ex-retirante semianalfabeto e frases desconexas de uma gerentona de araque, um presidente que sabia falar — e até usar mesóclises — foi um refrigério. 

 

Temer conseguiu baixar a inflação e aprovar o Teto de Gastos e a Reforma Trabalhista, mas seu prometido "ministério de notáveis" se revelou uma notável confraria de corruptos, e sua "ponte para o futuro", uma patética pinguela. Depois que uma conversa de alcova com Joesley Batista veio a público, o emedebista pensou em renunciar, mas foi demovido pelo então deputado Carlos Marun, que se encarregou de escudá-lo das “flechadas de Janot”. 

 

Nosso folclórico “Vampiro do Jaburu” terminou seu mandato-tampão como um pato manco e transferiu a faixa ao pseudopatriota eleito em 2018 para evitar que o Brasil fosse governado por um fantoche de presidiário. Mas foi pior a emenda que o soneto: a nefasta gestão de Bolsonaro — um mau militar e parlamentar medíocre de viés golpista — levou o STF a anular as condenações de Lula, embora elas já tivessem transitado em julgado no STJ quando o ministro Fachin, relator da Lava-Jato na Suprema Corte, acolheu a tese da incompetência territorial da 13ª Vara Federal de Curitiba — que ele próprio já havia rejeitado mais de dez vezes. 

 

Assim que o plenário da Corte reverteu (por 6 votos a 5) a jurisprudência que permitia o cumprimento antecipado da pena após condenação em segunda instancia, o petista deixou a cela VIP onde ficou hospedado por míseros 580 dias e, tão logo foi “descondenado” e reabilitado politicamente (por uma sequência de decisões teratológicas), voltou ao palanque e se derrotou Bolsonaro por uma vantagem de 1,8% dos votos válidos.

 

Evitar mais quatro anos (ou sabe Deus quantos) sob a batuta do capetão-golpista era crucial, mas reconduzir o criminoso à cena do crime era opcional. Ainda assim, a quimérica “terceira via” — tanto com João Dória quanto com Henrique Mandetta, Sergio Moro e Simone Tebet — não prosperou, e Lula, que jamais desceu do palanque, segue candidatíssimo a um nada improvável quarto mandato. Mas querer nem sempre é poder.

 

É claro como o sol do meio-dia que Bolsonaro e seus cúmplices do “núcleo crucial da trama golpista” serão condenados na próxima sexta-feira, e podem "pegar" mais de 40 anos de prisão se as penas máxima previstas para os cinco crimes forem aplicadas. Sem embargo, o 7 de Setembro foi marcado por manifestações contra e a favor do perdão aos atos golpistas — na Praça da República, 8,8 mil manifestantes entoaram gritos de “sem anistia” e exaltaram a soberania nacional; na Avenida Paulista e em Copacabana, 84,9 mil bolsonaristas pediram “anistia já”, criticaram o STF e elogiaram os EUA — com direito a uma enorme bandeira americana. 

 

Tarcísio de Freitas transformou sua aparição no alto do caminhão de som num espetáculo pornográfico. Despido desavergonhadamente do que seria seu maior patrimônio político — a presunção de moderação — o governador paulista cavalgou o Kama Sutra em posições ideológicas exóticas. “Ninguém aguenta mais a tirania de Alexandre de Moraes”. Gilmar Mendes saiu em defesa do colega de toga: “o que o Brasil realmente não aguenta mais são as sucessivas tentativas de golpe”.

 

Tarcísio sabe que a condenação consolidará o expurgo do "mito" das urnas, mas, de olho no espólio, soou tão radicalmente inaceitável quanto seu padrinho político. Para criador e criatura, o cinismo é uma forma de patriotismo, mas a candidatura do governador ao Planalto apodreceu antes de amadurecer, enquanto sua reeleição em São Paulo, antes provável, vai se tornando um roliço ponto de interrogação. 


Como era de esperar, o pano de fundo das manifestações foi impregnado de 2026. O ex-presidiário prevalece sobre qualquer rival em todas as pesquisas, enquanto o futuro presidiário ora veste a fantasia de vítima, ora a alegoria de “réu dodói”. Só não troca o papel de candidato fake, embora 65% dos eleitores avaliem que devesse admitir a morte política e apressar o testamento do que lhe restou de espólio eleitoral. Sem falar que 61% dos entrevistados pelo Datafolha fizeram cara de nojo para presidenciáveis que prometem anistiar o "ex-mito" de suas culpas.

 

A persistência com que o ódio de uma fação extremada mobiliza multidões não serve senão para aguçar a extrema angústia de brasileiros que já estão com o saco cheio de tudo o que não se pareça com um projeto consistente de futuro. E essa gente não costuma gritar no meio da multidão — ao contrário, prefere o escondidinho da cabine eleitoral.

sábado, 5 de julho de 2025

SALVE-SE QUEM PUDER!

O ASNO SE CONHECE PELAS ORELHAS, E O TOLO, PELA LÍNGUA.

Sétimo filho de um casal de lavradores (sem contar outros quatro que não "vingaram"), Luiz Inácio da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945 num casebre depauperado do sítio Várzea Comprida, em Caetés (então município de Garanhuns - PE). A mãe, D. Lindu, não foi assistida por uma parteira (a comadre corpulenta caiu do jegue a caminho do sítio) nem pelo marido, Aristides, que havia "retirado" dois meses antes, deixando esposa grávida e levando a reboque uma prima adolescente de D. Lindu, que ele havia engravidado. 


Lula só conheceu o pai aos cinco anos, quando Aristides voltou de visita à terra natal e, no embalo, engravidou D. Lindu de uma menina — que seria registrada como Ruth porque o cartorário achou Sebastiana um nome muito feioAos sete anos, o projeto de petista foi mordido na barriga por uma jumenta, e só não morreu porque alguém enfiou uma peixeira no pescoço do animal (esse episódio consta do livro Lula, o Filho do Brasil, de Denise Paraná, que foi base da cinebiografia homônima).

 

Aristides era um homem rude e ignorante, que bebia muito e tratava melhor seus 20 cachorros do que a mulher, as amantes (ele teve várias) e os 25 filhos que espalhou pelo Brasil afora antes de morrer de cirrose e ser sepultado numa vala comum do cemitério da Consolação, sem túmulo, sem epitáfio e sem despedidas dos filhos e das viúvas. Por ser analfabeto, ele ditava para o primogênito — que morava com ele e a prima da mulher — cartas nas quais dizia que a vida em Vicente de Carvalho estava difícil e que D. Lindu deveria permanecer no Nordeste. Numa dessas cartas, no entanto, o menino incluiu um trecho dizendo que o pai queria que a mãe e os irmãos viessem morar com eles. 

 

Castigada pelo seca de 1952, D. Lindú vendeu o barraco e seus parcos pertences, reuniu a filharada, sacolejou 13 dias num caminhão "pau-de-arara", desembarcou no Brás (bairro da capital paulista) e seguiu de trem rumo à baixada santista, onde o marido morava com a concubina. O reencontro se deu na antevéspera do Natal, mas não foi nada caloroso. Aristides passou a dividir a semana entre as duas famílias, mas tratava D. Lindu e os filhos nas patas do coice. 


Depois de ser espancada com uma mangueira de jardim, ela subiu a serra (literalmente) e passou a morar nos fundos de um boteco na Vila Carioca (bairro da zona sul da capital paulista). Lula ainda morou algum tempo com o pai, mas se juntou à mãe na capital, onde trabalhou como auxiliar de tinturaria, engraxate e office-boy até se formar torneiro mecânico pelo Senai e conseguir emprego numa metalúrgica — onde perdeu o dedo mínimo da mão esquerda num acidente de trabalho até hoje mal explicado. 


Depois de seis meses desempregado, Lula foi contratado pela Villares. Instigado pelo irmão Frei Chico (que era ateu, comunista, e se chamava José Ferreira da Silva), iniciou sua trajetória sindicalista. Foi sob sua liderança que o ciclo de greves em prol da recomposição salarial dos metalúrgicos teve início. Em 1969, casou-se com Maria de Lourdes da Silva, que contraiu hepatite e foi submetida a uma cesariana de emergência da qual nem ela nem o bebê sobreviveram. Em 1974, ano em que casou com Marisa Letícia, Lula já era pai de Lurian, fruto de um caso com a enfermeira Míriam Cordeiro. Desse casamento nasceram Fábio Luiz, Sandro Luíz e Luiz Cláudio a mulher já tinha um filho do primeiro casamento, que Lula adotou formalmente). 


Como dirigente sindical, Lula participou de assembleias e reuniões em várias cidades — e até no Japão a convite da Toyota. Foi cassado em 1979, mas recuperou o cargo com o fim da greve. Em abril de 1980 — mesmo ano da fundação do PT —, passou 31 dias detido no DOPS por incitar greves, mas não foi torturado. A primeira bandeira do partido foi costurada por Marisa, que pouco apareceria nas campanhas eleitorais do marido até 2002. Ela morreu em 2017, vítima de um aneurisma cerebral, cinco meses antes de Moro sentenciar Lula no caso do triplex no Guarujá. 


Lula dizia ter ojeriza à política e aos políticos, mas deixou o chão de fábrica em 1972, ao se tornar dirigente sindical, e abandonou o batente de vez quando fundou o partido que "faria política sem roubar nem deixar roubar". Desde então, dedicou-se à "arte da política" e desfrutou dos confortos que o poder e o dinheiro podem proporcionar. Sempre cultivou a imagem de operário honesto e defensor da justiça social, mas trocou a pinga vagabunda e os cigarros baratos por vinhos premiados, uísques caríssimos e charutos de cem dólares assim que encontrou quem pagasse a conta. Em conversa com o empreiteiro Emílio Odebrecht, o general Golbery do Couto e Silva (vulgo "Bruxo") teria dito que Lula posava de esquerdista, mas não passava de um bon vivant. 


Na primeira eleição presidencial direta desde 1960, o xamã petista foi derrotado por Collor. Em 1994 e 1998 Fernando Henrique foi eleito em primeiro turno. Em 2002, quando faltaram ao tucano de plumas vistosas novos coelhos para tirar da velha cartola, Lula finalmente conseguiu se eleger — e se reeleger em 2006, a despeito do escândalo do mensalão. Em janeiro de 2011, transferiu a faixa para seu "poste" e deixou o Palácio com o ego inflado e a popularidade nas alturas. Em 2012, a despeito de boa parte da alta cúpula petista ter ido parar na cadeia, o chefe sequer foi indiciado na ação penal 470

 

Observação: Durante um jantar regado a Romanée-Conti — vinho da Borgonha que custa US$ 25 mil a garrafa —, Lula tirou uma baforada da cigarrilha cubana (acesa pelo diligente vassalo Delúbio Soares) e se vangloriou: "Sem falsa modéstia, companheiros, eu elejo até um poste para governar o Brasil." E elegeu mesmo. Mas a criatura fez o diabo para se reeleger em 2014, e o criador, sem o manto da Presidência e escudo do foro privilegiado, foi condenado em 2017 e preso em 2018. 


Com a candidatura barrada pelo TSE e o "companheiro" Jaques Wagner declinando do o papel de fantoche, Lula escalou Fernando Haddad para representá-lo no pleito de 2018, mas o ex-prefeito paulistano perdeu para Bolsonaro no segundo turno por 55,13% a 44,87% dos votos válidos. E o resto é história recente: apesar da concorrência acirrada, Bolsonaro sagrou-se o pior mandatário desde Tomé de Souza. Ao longo de sua aziaga gestão, foi alvo de mais de 140 pedidos de impeachment (todos engavetados por Rodrigo Maia e Arthur Lira) e dezenas de denúncias por crimes comuns (que o antiprocurador-geral Augusto Aras matou no peito). 


Como que antevendo a necessidade de defenestrar Bolsonaro em 2022, o STF libertou o então presidiário mais famoso do Brasil — como um delegado que determina a soltura de um ladrão detido pela Guarda Civil Metropolitana sob o pretexto de que o flagrante caberia à PM — e anulou suas suas duas condenações (que somavam quase 25 anos de prisão e haviam transitado em julgado no STJ) e o reabilitou politicamente. De vota ao tabuleiro eleitoral, a "alma viva mais honesta do Brasil" derrotou o refugo da escória da humanidade, no segundo turno, por uma diferença de 1,8% dos votos válidos.


Como aspirante a golpista, Bolsonaro conseguiu ser pior do que foi como presidente. Embora continue sendo o maior exponente da direita radical, as manifestações em seu favor vêm encolhendo: a mais recente, em 28 de junho, reuniu 12,4 mil pessoas no pico do ato — contra 44,5 mil em abril e 185 mil em fevereiro. Mesmo estando inelegível até 2030 e na iminência de ser condenado pelos crimes de organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e grave ameaça contra o patrimônio da União, e deterioração de patrimônio tombado, segue entoando a velha cantilena da perseguição política e posando de candidato ao Planalto, enquanto articula com a banda podre do Congresso uma improvável anistia.

 

Com o país polarizado (cerca de 80% dos eleitores divididos entre nhô-ruim e nhô-pior) e a popularidade do pseudo "Parteiro do Brasil Maravilha" em queda livre, o cenário eleitoral permanece uma incógnita. Pesa contra o macróbio a idade, a saúde precária e o desgaste com o eleitorado. Por outro lado, por ele nunca ter deixado crescer uma arvorezinha que pudesse fazer sombra em seu quintal, a esquerda carece de um "plano B". 


A situação do capetão-golpista é ainda pior: somam-se às pendências judiciais as sequelas da facada que levou em setembro de 2018, a crescente perda de apoio e o discurso de palanque cada vez menos convincente. Ainda assim, e a despeito das candidaturas alternativas à direita — como as de Ronaldo Caiado e Gusttavo Lima —, sua força gravitacional mantém os governadores Tarcísio de Freitas, de São Paulo, e Romeu Zema, de Minas Gerais, orbitando a seu redor.

 

Candidatos à reeleição têm a máquina pública e o erário a seu favor, e Lula vem gastando bilhões (dinheiro dos nossos impostos) em projetos assistencialistas para tentar se manter competitivo. Mas o clima com o Congresso azedou de vez — como demonstrou a derrubada do decreto que aumentava o IOF. Isso sem mencionar que o próximo presidente, seja ele quem for, terá de dar nó em pingo d'água para manter o país adimplente. Em entrevista à TV Bahia, ele disse que pretende conversar com Hugo Motta e Davi Alcolumbre para resgatar a "normalidade política nesse país", mas a governabilidade idealizada por ele não depende mais de acertos com os chefes da Câmara e do Senado, mas de acordos miúdos com cada um dos 513 deputados e dos 81 senadores, numa evidencia clara de que o presidencialismo de coalizão está agonizante — e o pior é que não há nada melhor à vista.

 

Nem à direita nem à esquerda tem interesse num embate cujo desfecho é imprevisível. Lula diz estar candidatíssimo, mas já não tem certeza se vale a pena tentar a reeleição, e Bolsonaro precisa decidir o que fará quando e se for condenado (o que deve acontecer entre setembro e outubro). Até o início de 2026, esquerda e direita devem seguir em ritmo de morde e assopra, com governo e oposição ensaiando ataques e recuso conforme a direção dos ventos. Nenhum dos lados está pronto para uma guerra em que um passo em falso pode dar vantagem ao adversário. 


A ressurreição do slogan "nós contra eles" representa uma guinada de Lula à esquerda, e pode afugentar os eleitores nem-nem (nem Lula nem Bolsonaro) que levaram o levaram ao Planalto pela terceira vez. Mas alguma coisa profundamente anormal precisa acontecer para salvar o país e o orçamento, e a única luz visível no horizonte é o reflexo da lua sobre o iceberg em direção ao qual o Titanic tupiniquim segue a toda velocidade. 


Salve-se quem puder.