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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O TEMPO PERGUNTOU AO TEMPO QUANTO TEMPO O TEMPO TEM... (FINAL)

QUE OS MISTÉRIOS PERMANEÇAM INSONDÁVEIS PARA QUE A BUSCA NUNCA TERMINE. 

Como vimos no capítulo anterior, a parte observável do universo contém cerca de dois trilhões de galáxias — as menores com alguns milhões de estrelas e as maiores com centenas de bilhões.


Nem todos esses sextilhões de "sóis" são orbitados, mas presume-se que haja tantos planetas quanto estrelas em nossa galáxia, e que a real extensão do cosmos além dessa região seja centenas, milhares ou até infinitas vezes maior do que a fração infinitesimal que conseguimos observar.


Quando as luzes da cidade e a poluição não atrapalham, conseguimos visualizar a olho nu cerca de 5 mil estrelas pertencentes à Via Láctea, a Andrômeda e às duas Nuvens de Magalhães. Entretanto, quando perscrutamos o céu com nossos telescópios espaciais mais poderosos, podemos ver cerca de 46,5 bilhões de anos-luz em todas as direções. Esse é o universo observável, ou seja, tudo que a luz teve tempo de alcançar desde sua criação, há 13,8 bilhões de anos.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


“É a economia, estúpido!” A frase cunhada em 1992 por James Carville, estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton, veste como uma luva nas eleições de outubro: segundo a última pesquisa Genial/Quaest, 82% das famílias estão endividadas e 69% dos entrevistados sentem seu poder de compra diminuído. Em que pesem escândalos e polarizações, muitos brasileiros vão votar com o bolso. Mas o que os principais candidatos a ocupar o Palácio do Planalto pretendem fazer com o nosso dinheiro?

Quarto candidato a ser sabatinado pela TV Globo, Lula questionou o uso de conversas telefônicas como evidência, mas adotou tom diferente ao falar do ex-chefe de gabinete — o Marcola —, investigado por sua relação financeira com a lobista Roberta Luchsinger. 

Nesse caso, o xamã petista afirmou que o ex-assessor agiu de forma “totalmente errada” ao receber valores da empresária e disse que, se ele cometeu irregularidades, terá de pagar por elas. No do filho, classificou como “ilações” as suspeitas envolvendo o menino de ouro e afirmou que ele terá de se defender das investigações. 

Na seara econômica, o molusco afirmou que a dívida pública, hoje acima de 80% do PIB, não o preocupa, e defendeu a condução fiscal de seu governo. Como se não bastasse, atribuiu parte do aumento da dívida aos juros elevados, afirmou ter herdado do governo Bolsonaro um déficit de 2,8% do PIB, e que espera encerrar este ano com superávit primário. Além disso, chamou a lobista Roberta Luchsinger de “pilantra” e negou qualquer relação com ela. Questionado sobre mensagens obtidas pela Polícia Federal, afirmou que as conversas não comprovam o uso de dinheiro público e colocou em dúvida seu valor como evidência. 

“O que um pilantra ou um cara qualquer pode fazer num telefone?”, disse. Para completar, declarou nunca ter visto ou conversado com Luchsinger e negou que ela tenha tido qualquer proximidade com ele. No entanto, apesar das negativas, a lobista tem em sua conta no Instagram pelo menos três fotos com ele, tiradas entre 2022 e 2023, as imagens causaram desconforto na equipe da campanha petista. 

O estadista de fancaria também saiu em defesa do senador petista Jaques Wagner ao comentar as suspeitas que envolvem o aliado no caso Banco Master, afirmando que não pode fazer política com base em “ilações” e disse confiar na honestidade do correligionário. Segundo ele, até agora não há comprovação de uma relação de Wagner com o Banco Master, mas que “Se ele cometeu um desvio, vai pagar o preço”, afirmou.

Dos 40 minutos de entrevista, 25 foram sobre corrupção, nos quais o macróbio eneadáctilo demonstrou não ter aprendido muito em relação ao passado. Garantiu que se algo ficar provado contra o filho e o ex-chefe de gabinete, eles terão que pagar. Mas as afirmações sensatas logo deram lugar à irritação, quando ele passou a comparar a situação do filho à Lava-Jato e a acusar a PF de vazar informações e a imprensa de divulgar mentiras. 

Acuado por denúncias que estouraram bem no início de sua campanha, precisou se amparar em seus governos anteriores e, de maneira menos focada, no futuro, para sobreviver aos questionamentos dos entrevistadores. 

A entrevista na Rede Globo mostrou que o ex-presidiário faz um mandato sem marcas e vive de uma era remota. Confira o que foi verdade, exagero ou simplesmente falso na sua sabatina.

A guerra mais sangrenta e decisiva para o resultado da eleição presidencial não se dará no horário eleitoral, nas redes sociais ou nos debates, mas no Supremo Tribunal Federal, onde tramitam os casos Dark Horse e Lulinha. O ritmo de cada um e as revelações produzidas daqui para a frente não definirão só quem tem mais chance de vitória numa eleição pautada pela rejeição, mas também com quem ficará o domínio do tribunal.


Algo em torno de 440 sextilhões de quilômetros pode parecer um infinito, até porque engloba bilhões de galáxias, cada uma com centenas de bilhões de estrelas. Mas a teoria da inflação cósmica sugere que o universo pode ser incomensuravelmente maior — segundo os modelos científicos mais aceitos, pelo menos 10²³ vezes maior que nossa esfera observável. Tudo o que vemos — todas as galáxias distantes, todos os quasares, toda a imensidão que nos faz sentir insignificantes — é literalmente nada comparado ao que existe além, de estruturas cósmicas inimagináveis até regiões com leis físicas diferentes. No entanto, devido à velocidade finita da luz e à expansão acelerada do Universo, nenhum sinal dessas regiões jamais nos alcançará.


Em outras palavras, isso significa que continuaremos dentro de uma bolha de informação limitada, presos a um horizonte de eventos informacionais e completamente cegos para a verdadeira escala da realidade. A despeito de já termos saído do planeta Terra e de estarmos cogitando fundar colônias na Lua e em Marte, é possível que jamais cheguemos a conhecer a vastidão real do cosmos: além de superar todos os obstáculos de velocidade, tempo e distância, ainda seria preciso lidar com um assassino silencioso embuçado no espaço interestelar, que está repleto de raios cósmicos e partículas subatômicas ejetadas por supernovas, buracos negros e outros eventos, que viajam a velocidades próximas à da luz.


Observação: Até não muito tempo atrás, pensava-se não ser possível transpor a Linha de Kármán — limite imaginário que fica a 100 km de altitude, considerado como "início do espaço" por ser o ponto onde atmosfera se torna rarefeita demais para a sustentação aerodinâmica de aeronaves comuns. É fato que o atrito das moléculas de ar contra a fuselagem a velocidades hipersônicas causa um calor extremo, o que exige escudos térmicos, como também é fato que lutar contra a atração gravitacional requer foguetes extremamente potentes, capazes de alcançar a velocidade de escape (40.320 km/h ou 11,2 km/s).


Na Terra, estamos protegidos pelo campo magnético e pela atmosfera, que desviam e absorvem a maior parte dessa radiação mortal. Como uma nave viajando pelo espaço não conta com essa proteção, os astronautas seriam bombardeados constantemente por radiação ionizante. Durante uma viagem de décadas ou séculos até a estrela mais próxima, mesmo com blindagem significativa, a exposição cumulativa à radiação causaria danos catastróficos ao DNA humano, levando a cânceres agressivos, falência de órgãos e morte prematura, e gerações inteiras de tripulantes nasceriam com mutações genéticas severas. E construir uma blindagem suficientemente espessa para proteger dessa radiação tornaria a nave tão massiva que seria praticamente impossível de acelerar.


Como se vê, além de nos manter longe das estrelas através da distância, o Universo borrifa o caminho até elas com veneno invisível e inevitável. Pode-se tentar cruzar o abismo, mas a jornada em si mataria os cosmonautas muito antes que eles chegassem a seu destino. Isso sem falar que não existe combustível que baste para acelerar uma nave blindada contra a radiação e manter sistemas de suporte de vida para gerações. 


Vale destacar que acelerar uma nave do tamanho de um ônibus espacial até 10% da velocidade da luz usando propulsão de fusão nuclear exige combustível equivalente a centenas de vezes a massa da própria nave. E para acelerar até 50% da velocidade da luz, a quantidade de combustível superaria a massa de planetas inteiros. Além disso, também é preciso desacelerar a nave quando ela chegar ao destino, o que significa carregar ainda mais combustível para desaceleração. 


A equação do foguete de Tsiolkovsky demonstra matematicamente que quanto mais combustível é adicionado, mais a massa total aumenta e mais combustível é necessário para acelerar, criando um ciclo vicioso. Em última análise, a quantidade de combustível excede toda a matéria disponível no sistema solar — mesmo que convertêssemos planetas inteiros em combustível, a quantidade seria insuficiente para enviar uma única nave em uma viagem interestelar.


Em face do exposto, fica evidente que o Universo não nos deu recursos sequer para explorar nossa própria vizinhança cósmica. E não estamos trancados apenas pelas leis da física, mas também pela escassez brutal de energia, o que pode tornar a comunicação interestelar matematicamente impossível.


Mesmo que, contra todas as probabilidades, conseguíssemos enviar uma nave tripulada a Próxima Centauri, e que, depois de estabelecer uma colônia, os astronautas tentassem se comunicar com a Terra, cada mensagem levaria 4,24 anos para chegar — ou seja, uma conversa simples, com uma pergunta e uma resposta, demoraria 8,5 anos. Diante disso, qualquer emergência, qualquer pedido de ajuda ou de informação crítica se tornaria irrelevante em função do tempo. Ou seja: se algo desse errado na colônia, todos morreriam antes que qualquer auxílio pudesse ser organizado na Terra.


Numa colônia em uma estrela a 100 anos-luz de distância, cada troca de mensagens levaria duzentos anos, e considerando que nenhuma civilização, cultura ou espécie biológica consegue manter coesão através de atrasos de comunicação medidos em gerações humanas, essa colônia se tornaria uma entidade completamente separada, sem conexão significativa com seu mundo natal. 


O fato de a velocidade da luz ser o limite universal não só nos impede de viajar livremente pelo cosmos como assegura que qualquer tentativa de construir uma civilização interestelar resulta na fragmentação instantânea e permanente dessa civilização em ilhas isoladas, incapazes de compartilhar conhecimento, cultura ou até mesmo linguagem. Mesmo que um dia consigamos sair, jamais poderemos manter contato com quem ficou para trás. Em outras palavras, estamos condenados não apenas ao isolamento físico, mas também ao isolamento informacional absoluto.


Podemos sonhar com as estrelas, podemos construir telescópios maiores e escrever equações mais elegantes, mas nada disso muda o fato de que somos prisioneiros — e não até desenvolvermos uma tecnologia melhor, mas para sempre.

O universo é vasto, antigo e indiferente, e nós, criaturas frágeis de carne e osso presas em um ponto azul pálido, jamais sairemos dessa jaula cósmica. 

Em face de todo o exposto, se você tivesse a chance de embarcar em uma nave interestelar sabendo que jamais veria a Terra novamente, que todos os seus entes queridos estariam mortos quando você chegasse a seu destino e se tornasse um fantasma do passado navegando pelo futuro, a pergunta é:


Você iria? 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — CONSCIÊNCIA E CIÊNCIA NOÉTICA

A HUMANIDADE TROCOU OS DEUSES PELOS LABORATÓRIOS, MAS NÃO ABANDONOU AS CRENÇAS.

Em sociedades antigas, a crença no sobrenatural e em prodígios de magia era uma maneira natural de explicar fenômenos incompreendidos, dar sentido ao desconhecido e oferecer conforto diante da incerteza.


Tempestades, eclipses e mudanças sazonais eram interpretados como manifestações divinas ou forças invisíveis. Com o avanço da ciência, porém, aquilo que antes pertencia ao domínio do mito passou a ser compreendido por meio da observação sistemática, da experimentação e do raciocínio lógico. Em outras palavras, o que ontem chamávamos de magia hoje atende pelo nome de ciência e tecnologia.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


As pesquisas mostram que a corrupção é o segundo item na agenda de inquietações do eleitor, perdendo apenas para a segurança pública. Num instante em que a Polícia Federal conduz inquéritos que roçam as campanhas dos dois candidatos mais bem-postos na corrida presidencial, a troca de chumbo entre eles tende a virar um jogo de soma zero.

As investigações que atingem Lulinha, o ex-líder do governo Jaques Wagner e Marcola, ex-assessor do ex-presidiário, desgastam a imagem do candidato do PT. O inquérito que apura o destino dos R$ 61 milhões que o filho do presidiário mordeu de Daniel Vorcaro e a investigação de desvios de verbas de emendas do vice Alfredo Gaspar tornam desconexa a retórica anticorrupção do presidenciável do PL.

Nesse contexto, os ataques que os candidatos e seus aliados fazem uns aos outros tendem a ser neutralizados. A permanência de nhô-ruim e nhô-pior no topo do ranking das pesquisas indica que os eleitores cativos de ambos dão de ombros para as suspeitas sob investigação. Resta acompanhar o comportamento do eleitor dito independente, que não morre de amores nem pelo bolsonarismo nem pelo petismo, e é decisivo no tira-teima da sucessão. 

Por ser mais sensível às denúncias de corrupção, o voto dessa parcela do eleitorado pode migrar de um lado para o outro conforme o movimento da lama, desempatando por pequena margem o placar de zero a zero. 

Quer dizer: a atuação da Polícia Federal tornou-se um dos fatores centrais da disputa eleitoral.


As inovações tecnológicas revelam a extraordinária capacidade humana de transformar o mundo ao seu redor. Voar, conversar instantaneamente a milhares de quilômetros de distância ou observar galáxias remotas eram impossibilidades absolutas até poucas gerações atrás. Em tese, a evolução do pensamento humano desloca-se do plano mítico para o científico — ainda que negacionistas, teóricos da conspiração e seus semelhantes insistam em remar contra a maré num oceano particularmente resistente à razão. Ainda assim, a ciência avançou mais nos últimos duzentos anos do que durante milênios inteiros que os antecederam.


Mais de cinco mil anos separam a invenção da roda da compreensão da eletricidade como a utilizamos hoje. Em contraste, bastaram poucos séculos para que travessias marítimas que exigiam semanas passassem a ser realizadas em horas pelos céus. Aprendemos a prever eclipses, compreender as marés e decifrar o nascimento das estrelas, mas seguimos incapazes de cruzar o espaço em velocidades próximas à da luz. O horizonte continua sempre um pouco além do alcance.


O fruto mais cobiçado da árvore da relatividade permanece inacessível. Ainda assim, a história do conhecimento sugere cautela antes de declarar qualquer fronteira definitiva. Muitas impossibilidades revelaram-se apenas limitações temporárias, dissolvidas pelo surgimento de novas ideias ou novas ferramentas. Talvez o impossível não seja aquilo que jamais acontecerá, mas apenas aquilo que ainda não fomos capazes de explicar. Afinal, estamos longe de explorar todo o potencial das próprias mentes que fazem essas perguntas.


Em 2001, nas horas que se seguiram aos ataques terroristas de 11 de setembro, pesquisadores ligados à chamada ciência noética relataram um fenômeno curioso: medições realizadas por geradores de eventos aleatórios distribuídos pelo planeta teriam apresentado desvios estatísticos durante momentos de intensa comoção coletiva. As interpretações permanecem controversas, mas o episódio reacendeu discussões sobre a possibilidade de relações ainda pouco compreendidas entre consciência humana e sistemas físicos complexos.


A hipótese dialoga, ao menos simbolicamente, com antigas ideias espirituais sobre uma consciência universal compartilhada. Estudos envolvendo meditação, intenção coletiva e estados mentais sincronizados passaram a investigar se processos cognitivos poderiam influenciar organismos vivos ou ambientes experimentais específicos.


Alguns autores defendem que a consciência não estaria totalmente confinada aos limites do cérebro, sugerindo que o pensamento direcionado poderia produzir efeitos mensuráveis em determinadas circunstâncias — uma proposta recebida com cautela pela maior parte da comunidade científica.


A expressão “a mente domina a matéria”, portanto, talvez não deva ser entendida como afirmação literal, mas como metáfora poderosa. Somos menos espectadores do universo do que participantes ativos dele. Expectativas, decisões e percepções moldam profundamente a maneira como interagimos com o mundo — e, por consequência, os resultados que dele emergem.


No nível subatômico, interpretações populares da mecânica quântica frequentemente destacam o papel do observador no processo de medição. Isso não implica que a consciência humana crie a realidade à vontade, mas revela algo igualmente intrigante: aquilo que medimos depende inevitavelmente de como escolhemos medir. Entre possibilidade e resultado existe sempre uma interação. Para alguns pensadores, essa relação sugere que compreender o universo exige também compreender quem o observa.


Resumo da ópera: durante séculos acreditamos habitar um universo sólido, objetivo e indiferente à nossa presença — um palco onde a matéria existia independentemente do olhar humano. Hoje sabemos que o observador raramente é apenas espectador. Seja pela psicologia, pela neurociência ou pela própria física experimental, percepção e interpretação participam ativamente da experiência que chamamos de realidade.


Talvez a intenção seja uma habilidade adquirida. Assim como na meditação, controlar a atenção exige prática. Ao longo da história, a capacidade de abstração de alguns poucos indivíduos redefiniu completamente nossa compreensão do cosmos. Talvez esse seja o verdadeiro elo entre o antigo misticismo e a investigação moderna: não a substituição de perguntas antigas por respostas definitivas, mas a persistência das mesmas perguntas sob novas linguagens.


O conhecimento técnico das civilizações antigas, embora frequentemente romantizado, era impressionante em muitos aspectos. Engenheiros dominavam alavancas e polias muito antes de tais princípios serem descritos matematicamente. Alquimistas, apesar de seus equívocos filosóficos, abriram caminhos que mais tarde conduziram à química moderna. Hoje sabemos que partículas podem permanecer correlacionadas à distância por meio do entrelaçamento quântico — um fenômeno rigorosamente estudado — ainda que comparações diretas com crenças espirituais antigas pertençam mais ao campo da metáfora do que da equivalência científica.


Desde sempre, o ser humano buscou compreender sua conexão com o todo. Diferentes tradições chamaram esse impulso de redenção, iluminação ou união. Talvez todas descrevam o mesmo anseio fundamental: superar a sensação de separação diante de um universo vasto demais para caber apenas na experiência individual. Há quem encontre paralelos simbólicos entre teorias cosmológicas modernas e antigas concepções filosóficas sobre múltiplas dimensões da realidade. A teoria das supercordas, por exemplo, imagina um universo mais complexo do que aquele acessível aos sentidos. 


Comparações com ideias antigas podem ser poeticamente sedutoras, embora pertençam mais à analogia cultural do que a uma continuidade histórica direta. No entanto, toda verdade parece exercer sua própria força gravitacional, e ideias abandonadas retornam, reinterpretadas à luz de novos métodos e novas evidências. Talvez a ciência não avance apenas descobrindo o desconhecido, mas também revisitando perguntas antigas com instrumentos mais precisos. Em certos momentos, temos a impressão de que a humanidade não está apenas aprendendo — mas lembrando.

Às vezes, uma lenda atravessa séculos porque guarda algum fragmento de verdade; noutras, como disse Freud, "às vezes um charuto é apenas um charuto". Talvez o verdadeiro desafio não seja escolher entre ciência ou mito, razão ou mistério, mas descobrir qual história ainda não terminou de ser contada.


Continua...

segunda-feira, 20 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO (CONTINUAÇÃO)

O QUE CHAMAMOS DE DESTINO NÃO PASSA DE FÍSICA DISFARÇADA

Como vimos, a ciência ainda não se sabe se o tempo existe, se é apenas uma convenção criada para impor alguma lógica ao caos, nem se é uma estrutura, uma substância ou uma metáfora. Ainda assim, é o tempo que define nossos horários, organiza nossos dias, dita compromissos, aniversários, prazos e calendários.


Em última análise, tudo gira em torno do tempo — ou girava, já que um experimento envolvendo um relógio atômico extremamente preciso suscitou a possibilidade de estarmos errados sobre o tempo desde o começo. Mas façamos como o velho marinheiro, que durante um nevoeiro leva o barco devagar.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O primogênito do golpista perdeu de lavada para o molusco eneadáctilo no quesito tarifaço, como se viu da pesquisa Quaest, na qual o filho do pai gabaritou negativamente o questionário feito sobre o assunto. No universo da política, a avaliação também foi ruim, a começar pelo candidato que já havia reconhecido o prejuízo no pedido de adiamento para não favorecer o adversário. Quem não criticou, calou, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. 

O xamã petista ganhou esse lance, mas passou do ponto ao mandar o governo se enrolar na bandeira brasileira e tomar a frente do batalhão chamando o presidente americano para travar com ele uma "guerra de narrativas".

A pergunta que se impõe é: por quanto tempo e qual o poder que um tema de comércio exterior tem sobre a decisão do voto do eleitorado premido por dificuldades do cotidiano?

Os dois principais oponentes de hoje trocam acusações que nada têm a ver com as preocupações prioritárias da população, como segurança, combate à corrupção e serviços públicos prestados de forma razoavelmente adequada. Espera-se de candidatos sérios que respondam a essas necessidades sem recorrer aos subterfúgios fornecidos pela disputa da posse do verde-louro da flâmula nacional. 

Por outro lado, como esperar políticos sérios disputando a Presidência, se a maioria do eleitorado é apedeuta, desinformada e polarizada, e se digladia para eleger seus bandidos de estimação?


Fomos condicionados a acreditar que o tempo existe, mas não sabemos o que ele é nem tampouco conseguimos defini-lo sem usar a palavra "tempo". Nós o associamos à passagem dos segundos, à duração das coisas ou à sequência dos acontecimentos, mas essas definições se baseiam de forma indireta no próprio conceito de tempo. Curiosamente, podemos "sentir" o tempo, medi-lo e organizar nossa vida em função dele, mas não conseguimos defini-lo sem cair numa espécie de círculo vicioso lógico. 


Como você explicaria o tempo para uma entidade que nunca o vivenciou? Diria que ele mede o intervalo entre dois eventos? Essa definição faz sentido, mas o que seria esse intervalo sem o tempo, se é o tempo que organiza os acontecimentos do passado em direção ao futuro? Como se vê, diferenciar passado e futuro sem o tempo é como tentar explicar o que é esquerda sem mencionar a direita ou qualquer outro ponto de referência espacial. 


Vemos o sol nascer e se pôr todos os dias, notamos a mudança das estações, usamos relógios cada vez mais precisos, capazes de medir intervalos absurdamente pequenos, mas isso prova que o tempo realmente existe ou é apenas a forma como o nosso cérebro interpreta as mudanças ao nosso redor, ou por outra, uma espécie de ilusão convincente? Ademais, o fato de percebermos o tempo não significa que ele é um componente fundamental da realidade. Para entender isso melhor, entremos em nossa máquina do tempo e voltemos ao início do século XX, quando a teoria da relatividade demonstrou que o tempo não é absoluto, pois depende do observador.


Nosso cérebro é uma máquina incrivelmente sofisticada, que armazena memórias do passado e projeta possibilidades para o futuro. No entanto, nossa percepção do tempo está longe de ser constante: quando estamos imersos numa atividade aprazível, ele parece voar, mas quando estamos prestes a borrar as calças e ouvimos de quem está no banheiro “só um minutinho!”, esse minuto pode parecer durar uma eternidade. 


Em vez de ler o tempo diretamente, o cérebro usa mecanismos internos para estimar a passagem do tempo. Esses mecanismos não são exatamente confiáveis: quando vivemos experiências novas, intensas ou fora da rotina, o registro de mais detalhes dá a sensação de que o tempo se alonga, ao passo que na repetição do dia a dia, quando nos damos conta, a semana já acabou. Além disso, nossas experiências se tornam mais previsíveis à medida que envelhecemos, dando-nos a sensação de que o tempo passa cada vez mais depressa, mesmo que os ponteiros do relógio avancem com a mesma velocidade com que avançavam na nossa infância. 


A despeito de os dias sucederem as noites (e vice-versa) a cada doze horas, o tempo não é o mesmo em todos os lugares. Dependendo da velocidade com que duas pessoas se movem e/ou da intensidade da gravidade a que estão submetidas, elas podem experimentar a passagem do tempo de maneiras diferentes. Numa velocidade próxima à da luz, a dilatação do tempo reduz milhares de anos terrestres a poucos segundos. Além disso, a dilatação gravitacional faz com que o tempo passe mais devagar ao nível do mar do que no topo do Monte Everest (fato comprovado por relógios atômicos posicionados com uma diferença de altitude de apenas alguns milímetros, mas suficiente para detectar que o tempo passa em ritmos distintos em cada um deles).


No livro Beyond Time, o pesquisador francês Michel Siffre relata que passou dois meses numa caverna escura, sem relógio nem qualquer outra maneira de saber o tempo, que tomava o próprio pulso e contava os segundos até 120 sempre que se comunicava por rádio com a equipe de apoio, e que o tempo real, cronometrado por seu staff, era de quase 5 minutos. Sem os indicadores naturais (como nascer e pôr-do-sol), seu ciclo circadiano  passou de 24 para 48 horas, e o tempo psicológico foi reduzido à metade do cronológico. O experimento se estendeu por dois meses — que pareceram para ele menos de um.


De acordo com um estudo publicado recentemente pela Nature Reviews Neuroscience, o hipotálamo dos "atrasados crônicos" os faz subestimar o tempo necessário para chegar ao local do compromisso, já que as estimativas são baseadas no tempo gasto para realizar a mesma tarefa no passado, e essas memórias nem sempre são precisas. Ademais, o estado emocional negativo nos dá a sensação de que o tempo está passando mais devagar, e o positivo, a sensação oposta. 


No auge da pandemia da Covid, muitas pessoas queriam "acelerar o tempo" para retomarem a "vida normal". Como emoção e motivação estão interligadas, o tempo pareceu passar ainda mais devagar — quanto maior a motivação, mais acentuada a mudança na percepção de tempo. Enquanto a sensação de aceleração tende a facilitar as conquistas, a desaceleração costuma evitar que demoremos muito em situações potencialmente prejudiciais. Quanto mais o tempo "demora a passar" numa situação de medo, por exemplo, mais rapidamente agimos para nos livrarmos do perigo.


Vale destacar que “ganhar tempo” ou “perder tempo” é um erro de perspectiva. O tempo não é uma moeda que podemos guardar ou desperdiçar, ele simplesmente passa, e tentar “economizá-lo” fazendo várias coisas simultaneamente (multitasking) nos leva a “perder” mais tempo do que se realizássemos uma atividade por vez. Dizem que as mulheres até conseguem, mas eu, particularmente, acho que isso não passa de folclore.


Pensamos no tempo como algo externo, mas ele é um conceito profundamente enraizado em nossa mente. Todos temos um "relógio interno" que regula o sono, a fome e a energia ao longo do dia, e é regulado pelo tempo. Alterá-lo trabalhando à noite ou dormindo em horários irregulares, por exemplo, afeta nossa saúde e compromete nosso bem-estar. Até a invenção da escrita, media-se o tempo com base em fenômenos naturais sazonais; mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias e os egípcios criaram um calendário lunar baseado na estrela Sirius. No final do século XVI, o calendário Juliano foi substituído pelo modelo Gregoriano, que atualmente é adotado pela maioria dos países.


Na maioria das línguas, o passado é descrito como algo que ficou para trás, e o futuro, como algo que está sempre mais adiante. Mas até o idioma e o sistema de escrita (da esquerda para a direita ou vice-versa) fazem diferença. No inglês, as distâncias percorridas são usadas para explicar a duração dos eventos; no grego, o fluxo temporal é percebido como um volume crescente, não como distância física.

Para a física moderna, no entanto, a ideia de que o passado deixou de existir e o futuro ainda não aconteceu pode ser apenas uma limitação dos nossos sentidos. É aqui que entra o conceito do Universo em Bloco: imagine que a realidade é como evento filmado em película: embora nós, os personagens, só consigamos ver um frame por vez (o presente), o rolo inteiro — com o início, o meio e o fim — já está lá, impresso e estático.

Nessa perspectiva, o tempo não flui; ele simplesmente é. O nascimento de uma estrela, sua primeira xícara de café e o último suspiro do universo coexistem em uma estrutura quadridimensional de espaço-tempo. Se isso for verdade, o "agora" não passa de uma coordenada, como o número de uma página em um livro que já foi escrito. O destino, portanto, deixaria de ser uma escolha ou uma maldição para se tornar uma propriedade geométrica da realidade

Em face do exposto, atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede — sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo. Brincadeiras à parte, talvez não seja o tempo que passa por nós — nós é que passamos por ele como grãos de areia entre as câmaras de uma ampulheta. Ou talvez a forma como o sentimos seja em grande parte uma construção da nossa mente.


Continua…

sábado, 11 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — ATÉ ENTRE PLANETAS HÁ OS DO CONTRA

O TEMPO CURA FERIDAS, MAS DEIXA CICATRIZES.


A polarização na política existe desde sempre, mas nunca foi tão nefasta quanto de um tempo a esta parte, com lulopetistas e bolsonaristas defendendo seus bandidos de estimação nas disputas presidenciais travadas entre o bonifrate de Lula em 2018 — e próprio xamã petista em 2022 — contra Jair Bolsonaro.

Tendo o canhestro Fernando Haddad como adversário, o misto de mau militar, parlamentar medíocre e messias que não miracula tornou-se o "mito" da direita radical e foi guindado ao Planalto por uma caterva de descerebrados com capacidade cognitiva comparável à de uma ameba.

Em 2022, o cenário se inverteu: O demiurgo de Garanhuns venceu o capetão golpista por uma vantagem inferior a 2% dos votos válidos — a menor desde a redemocratização e a volta das eleições presidenciais diretas — e assim conquistou sua terceira (e queira Deus derradeira) passagem pelo Planalto. Bolsonaro, por sua vez, cumpre 27 anos de reclusão por tentativa de golpe de Estado (não mais na Papudinha, já que simulou toda sorte de comorbidades para ser autorizado a cumprir prisão domiciliar em sua mansão em Brasília — um santo remédio, considerando que desde então não se ouviu dizer que o mandrião quase sufocou com o próprio vômito ou teve crises de soluço).

Depois de concluir seu segundo mandato, o camelô de empreiteiras e fabricante de postes foi alvo de duas dúzias de processos — a maioria por corrupção. Apesar de ter sido condenado a mais de 20 anos de reclusão nos casos do triplex no Guarujá e do sítio em Atibaia (decisões transitadas em julgado no STJ), o molusco eneadáctilo deixou sua cela VIP e voltou ao tabuleiro político-eleitoral na esdrúxula condição de "descondenado" — graças a uma sucessão de decisões teratológicas do STF.

Já a divisão entre "esquerda" e "direita" remonta a 1789, quando o rei Luís XVI convocou os "Estados Gerais" para discutir a crise financeira que assolava a França. O evento se transformou numa Assembleia Nacional Constituinte, na qual os deputados alinhados com o monarca sentavam-se à direita e os que defendiam a limitação do poder real, à esquerda. Em outras palavras, um simples "acidente de localização" fez com que aqueles que apoiam o status quo sejam vistos como "de direita", e os que desejam mudanças, como "de esquerda".

Vale salientar que as correntes de pensamento e ideologias diferentes que preenchem o espaço entre os dois extremos do espectro político-ideológico são tantas quanto os tons de cinza separam o preto do branco na paleta de cores — sendo o branco a soma de todas as cores do espectro visível e o preto, o resultado da ausência da luz.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Dada a incapacidade notória de prever o efeito de seus atos, Jair Bolsonaro & filhos acabam quase sempre prisioneiros da camisa de 11 varas que produzem com o que falam. Ou por outra: a exemplo dos peixes, essa escumalha morre pela boca.

O pater familias  perdeu a reeleição porque passou quatro anos falando e fazendo absurdos sem medir consequências. O primogênito vai pelo mesmo caminho da inconsequência, cujo exemplo mais recente é a tentativa vã de se livrar da jactância do irmão batendo no peito e diante do tarifaço de Donald Trump ao Brasil, dizendo: "Fui eu".

É um fardo que bolsonarinho carregará na campanha a presidente por completa falta de percepção de que aquilo significava um posicionamento contrário aos interesses do Brasil, o que obviamente permitiria ao governo ir ao revide e tirar proveito político/eleitoral.

Da mesma forma não se apagará a imagem do riso de escárnio do primogênito do refugo da escória da humanidade em reação à pergunta do repórter do site The Intercept sobre suas relações com Daniel Vorcaro, horas antes da divulgação do áudio em que pede que o então banqueiro já encalacrado na Justiça pague o restante dos milhões prometidos para financiar o filme "Dark Horse".

Difícil remover a marca do cinismo e da mentira tatuada à própria testa naquela negativa logo desmentida. E como parecer convincente na defesa do Pix, depois de Dudu Bananinha tê-lo comparado ao Zelle americano e dito que poderia ser posto na mesa de negociações com os EUA?

A pauta do combate ao crime encontra obstáculos nas homenagens passadas a milicianos e alianças recentes com a camarilha de políticos fluminenses presos, investigados e/ou inelegíveis. 

Impossível dar o dito pelo não dito, quando não se sabe o que diz, não se mede a relevância das palavras, não se dispõe de tirocínio para antever resultados nem habilidade para administrar as sequelas.

Em contraponto, a madrasta Michelle — Firmo de nascimento e Bolsonaro por adoção — como vimos, tem roteiro bem pensado, frieza e, sobretudo, visão estratégica.


Curiosamente, também entre os planetas há dois esquerdistas (ou "do contra"), que divergem dos outros seis, embora orbitem o Sol no mesmo sentido da rotação solar — herdada do sentido de rotação do movimento angular do disco de gás e poeira formado 4,6 bilhões de anos atrás. Se tomarmos o polo norte visto de cima como referência, o Sol gira no sentido anti-horário, e seis dos planetas também giram em torno do próprio eixo nessa mesma direção — as exceções são Vênus e Urano, que têm “rotação retrógrada”. 

Para Vênus, não existe uma explicação definitiva, apenas hipóteses. Uma delas é que o planeta tenha sofrido uma ou mais colisões catastróficas que alteraram o sentido de sua rotação. Diferentemente da Terra, que ganhou um satélite a partir de sua colisão (a Lua), Vênus teria absorvido a massa desses asteroides e invertido o sentido de sua rotação em função da força do impacto. Outra hipótese, mais fundamentada e apresentada ainda na década de 1980, é que o astro está sendo “puxado” e “empurrado” ao mesmo tempo por duas forças diferentes.

O jeito como Vênus gira hoje é o resultado desse cabo de guerra: por um lado, o Sol o puxa com sua gravidade, criando pequenas deformações no planeta (como marés), que vão desacelerando a rotação e tentando fazê-lo ficar sempre com o mesmo lado voltado para o Sol. Por outro, sua atmosfera extremamente densa, aquecida pelo Sol, cria “ondas” gigantes e gera um tipo de empurrão contínuo que acontece no sentido contrário ao dos outros planetas, daí a rotação retrógrada. Como resultado dessas duas forças, a rotação de nosso vizinho mais próximo é extremamente lenta (um dia venusiano dura mais de 243 dias terrestres) e no sentido oposto da maioria dos planetas.

Observação: A distância média entre a Terra e Marte é de 225 milhões de quilômetros. Dependendo do ponto em que os dois planetas estão em suas órbitas em torno do Sol, essa distância varia de 54,6 milhões a 401 milhões de quilômetros. Vênus fica a cerca de 40 milhões de quilômetros da Terra, e Mercúrio, a 58 milhões. Como essas distâncias mudam conforme o ponto onde cada um está em sua órbita, Vênus pode ficar a 41 milhões de quilômetros da Terra, e Mercúrio, a 57 milhões. Em qualquer caso, Marte estará sempre mais distante.

O segundo caso é menos complexo, mas também ainda não há consenso definitivo. A inclinação axial de Urano (97,77°) faz seu eixo de rotação ficar quase paralelo ao plano orbital. Na prática, o planeta “rola” em torno do Sol (em comparação, a inclinação axial da Terra é de 23,4°). A explicação mais provável (e ainda assim, apenas uma hipótese) é que um grande objeto deve ter colidido e "derrubado o planeta" de lado. Quando isso aconteceu, pedaços de matéria foram ejetados e se acumularam gradualmente, formando as 29 luas que orbitam Urano.

Pesquisas recentes sugerem que Urano pode ter sofrido não apenas um, mas dois impactos massivos no início de sua história, o que explicaria tanto seu ângulo axial extremo como a órbita equatorial de suas luas (elas giram ao redor do planeta no mesmo plano do equador dele, o que é curioso, já que Urano está deitado). Os autores desse estudo argumentam que, se houvesse ocorrido apenas um impacto, as luas de Urano orbitariam em sentido retrógrado — o contrário do que se observa. Segundo alguns modelos, apenas com múltiplos impactos gigantes seria possível explicar por que Urano manteve suas luas se movendo na direção correta.

Enfim, há mistérios que serão desvendados e mistérios que jamais serão conhecidos.

Continua...

segunda-feira, 30 de março de 2026

AS QUERELAS DO BRASIL

EXISTEM APENAS DOIS TIPOS DE PESSOAS: AS QUE CONCORDAM COMIGO E AS QUE ESTÃO ERRADAS.


A polarização na política sempre existiu, mas nunca foi tão desbragada quanto nas duas últimas disputas presidenciais. Depois que a "abertura lenta, gradual e segura" pôs fim a três décadas de jejum de urna, os brasileiros voltaram a escolher seu presidente.


Embora o cardápio da eleição solteira de 1989 listasse 22 postulantes — entre os quais Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola —, o eleitorado tupiniquim, que repete a cada pleito o que Pandora fez uma única vez, enviou para o segundo turno um caçador de marajás demagogo e populista e um ex-metalúrgico populista e demagogo. 


Lula concorreu à Presidência em 1989, 1994 e 1998, foi eleito em em 2002 e reeleito em 2006, a despeito do escândalo do Mensalão. Em 2010, transformou uma nulidade em "gerentona de araque" para manter aquecida a poltrona que ele pretendia reconquistar em 2014, mas o "poste" gostou da brincadeira e insistiu em disputar a reeleição. Por motivos que agora não vêm ao caso, o criador se resignou a apoiar a criatura, que afundou o país e foi impichada em 2016 (pelo conjunto da obra; as folclóricas "pedaladas fiscais" foram apenas um pretexto para penabundar a incompetente insolente e arrogante). 


Com a deposição da "mulher sapiens", Michel Temer passou de vice titular, mas seu prometido ministério de notáveis se revelou de uma notável confraria de corruptos. O primeiro a cair foi Romero Jucá, com apenas uma semana no cargo. Na sequência, demitiram-se — ou foram demitidos — Fabiano Silveira, Henrique Eduardo Alves, Geddel Vieira Lima, entre outros ministros e assessores presidenciais investigados na Justiça ou acusados de corrupção por delatores na Lava-Jato. 


Para encurtar a história, quando a conversa de alcova nada republicana que manteve nos porões do Jaburu, em maio de 2017, com o dono da JBS, Temer pensou em renunciar, mas foi demovido da ideia pelo deputado Carlos Marun, seu fiel escudeiro, que também se encarregou de comprar votos das marafonas da Câmara em número suficiente para salvar o presidente das flechadas de Janot. 


Observação: O patético hipopótamo dançarino foi o relator da CPI da JBS, embora tivesse recebido R$ 103 mil em doações do frigorífico e sido acusado de beneficiar uma empresa de software em contratos de R$ 16,6 milhões.


Acabou que o chefe da quadrilha mais perigosa do Brasil concluiu seu mandato-tampão como um "pato manco" e transferiu a faixa presidencial para o combo de mau militar e parlamentar medíocre que derrotou o títere de Lula — que não tinha o mesmo carisma que o titereiro —, tornou-se o pior mandatário desde Tomé de Souza e foi sentenciado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.


Observação: Temer chegou a ser preso em março de 2019, mas foi solto dias depois por ordem do desembargador Ivan Athié, do TRF-2 — que ficou afastado do cargo durante sete anos por suspeitas de corrupção.


A polarização esteve presente em todos os capítulos da nossa história, mas o quadro se agravou quando o Planalto passou a ser disputado pelo PT e pelo PSDB. Ainda assim, as campanhas eram relativamente civilizadas, pois mortadelas e coxinhas se tratavam como adversários políticos, não como inimigos figadais. Nas duas últimas disputas pelo Planalto, no entanto, o antagonismo exacerbado impediu que uma candidatura alternativa competitiva se consolidasse. 


Em 2018, Ciro Gomes acabou em terceiro lugar, com míseros 3,04% dos votos válidos no segundo turno. Em 2022, Henrique Mandetta, João Dória, Sérgio Moro, Eduardo Leite, Aldo Rebelo, Luciano Bivar e André Janones desistiram antes do início da corrida eleitoral. Simone Tebet ficou em terceiro lugar, com 4,16% dos votos. Soraya Thronicke, Sofia Manzano, Vera Lúcia e Padre Kelmon obtiveram resultados inexpressivos.


Como era esperado, a disputa ficou entre Lula e Bolsonaro, e o desempregado que deu certo venceu o mandrião aspirante a golpista pela menor diferença de votos desde a redemocratização (menos de 2%). Durante a campanha, o ex-presidiário "descondenado" tripudiou: "Agora quem acabou foi o PSDB". Em resposta, os tucanos disseram que o PT passou anos tentando reescrever a história, semeando o ódio, perseguindo adversários, dividindo a sociedade e montando uma usina de fake news.


No debate promovido pela Band em outubro de 2022, o Lula vociferou que "nomear amigo e companheiro para o Supremo é retrocesso" (referindo-se a Nunes Marques e André Mendonça, indicados por Bolsonaro). Eleito, indicou seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e seu advogado particular Cristiano Zanin — e ainda teve o desplante de negar a relação de amizade com o causídico, que esteve em seu casamento com Janja e a quem chamou de "amigo" em entrevista à BandNews. 


Faltando pouco mais de seis meses para o primeiro turno das próximas eleições, o alto nível de rejeição popular ao xamã do PT e ao sobrenome Bolsonaro animou alguns partidos com a possibilidade de finalmente romper a polarização. O PSD de Gilberto Kassab apresentou três governadores como potenciais postulantes, mas Ratinho Jr — o mais competitivo dos três — desistiu de última hora.


A despeito da fama de bom gestor, de uma administração aprovada por cerca de 80% dos paranaenses e apoio de várias lideranças, Ratinho Jr voltou atrás, movido por uma conjunção de fatores, incluindo as investigações sobre a venda da subsidiária de telecomunicações da Copel e as conexões com Nelson Tanure —suposto sócio oculto de Vorcaro nas traficâncias do Master. Mas a filiação de Sérgio Moro ao PL também pesou: até então, o governador paranaense achava que faria seu sucessor com facilidade, mas o ex-herói nacional já aparece como franco favorito nas pesquisas. 


Os índices de desaprovação do governo federal e o derretimento da popularidade de Lula sugerem que ele é "bananeira que deu cacho", mas engana-se quem pensa que o pontifex maximus da Petelândia é carta fora do baralho. Segundo as pesquisas, cerca de 33% dos entrevistados não se declaram petistas nem bolsonaristas, 26% não votaram no em Lula nem em Bolsonaro na eleição passada — ou votaram e se arrependeram, —, 27% escolheram o macróbio mas não se identificam como de esquerda, e 18% dos que votaram no "mito" dos anencéfalos não se reconhecem como de direita.


Somados, esses grupos representam 71% do total de votos, e, pelo menos em tese, podem ser conquistados por qualquer candidato — o núcleo duro da polarização é formado por apenas 11% e 18% de esquerdistas e direitistas convictos, respectivamente, de modo que existe espaço para uma candidatura de terceira via.


Os extremos fazem barulho nas redes sociais, pautam a cobertura da mídia, alimentariam o algoritmo. Há “avenida enorme” para uma candidatura de centro (não confundir com o Centrão adesista) neste ano, mas cabe aos interessados priorizar a defesa da democracia, a reorganização dos programas sociais e um plano de desenvolvimento centrado nas novas tecnologias e novas relações de trabalho.


A questão é que quase todo tema polêmico — como a “taxa das blusinhas”, a PEC da Segurança Pública e até a CPMI do INSS — se torna refém da polarização no Congresso. Ainda não se sabe o que o PSD pretende fazer nas áreas da economia e da segurança pública. O MDB, dividido como sempre em alas, se preocupa mais com querelas paroquiais e a disputa para a Câmara dos Deputados — cujo resultado é decisivo para a divisão dos bilionários fundos eleitoral e partidário. Já o PSDB, que governou o país por dois mandatos com FHC, perdeu quadros, capilaridade nacional e capacidade de dialogar com o eleitorado. 


Observação: Geraldo Alckmin, que foi quatro vezes governador de São Paulo pelo PSDB, disputou a Presidência em 2006 — e foi derrotado por Lula no segundo turno — e em 2018 — quando amargou um vexatório quarto lugar. Apesar de ter dito que eleger o petista era o mesmo que reconduzir um criminoso à cena do crime, filiou-se ao PSB para concorrer à vice na chapa encabeçada pelo ex-adversário — talvez achando que essa seria sua única de aboletar na poltrona mais cobiçada do Palácio do Planalto. Só que faltou combinar com O Ceifador, sem falar que que o diabo detesta concorrência.


A maioria dos analistas políticos estima que a eleição deste ano será decidida pelos eleitores considerados independentes. No escrete eleitoral de Lula, nunca houve uma preocupação com a hipótese de uma candidatura de centro ganhar corpo a ponto de chegar ao segundo turno, mas, há apreensão com a possibilidade de os escândalos de corrupção sob investigação — especialmente do caso do Banco Master e da roubalheira contra aposentados e pensionistas do INSS — alterarem esse cenário.


Flávio Bolsonaro trabalha para que o centro e a direita não apresentem concorrentes — além de sugerir Ratinho Jr como seu vice, o filho do pai mandou emissários sondarem Ronaldo Caiado e Romeu Zema para o posto. Contrariando a tradição familiar de verborragia, o senador das rachadinhas tem economizado nas palavras, deixando Lula se desgastar sozinho com os problemas da administração federal. Nos últimos dias, defendeu a criação do Ministério da Segurança Pública — ideia que foi sugerida por petistas, mas rejeitada por Lula. 


Na semana passada, Xandão autorizou a prisão domiciliar humanitária para o atual presidiário mais famoso desta banânia por um prazo inicial de 90 dias. Mesmo obrigado a usar tornozeleira eletrônica e proibido de acessar redes sociais e de gravar áudios ou vídeos, o condenado estará mais à vontade para ajudar na organização da campanha do primogênito, que tenta se vender com a roupagem de "moderado".


Resumo da ópera: No início deste século, ainda predominava a crença de que, na democracia, os moderados prevalecem — e moderam os radicais. Houve até quem acreditasse na possibilidade de juntar os melhores quadros do PT e do PSDB para contribuir com um governo capaz de modernizar o país. Hoje, mesmo os quadros reconhecidamente ponderados se mantêm abrigados sob os guarda-chuvas da polarização para continuarem relevantes no xadrez político, e, em determinadas situações, os extremistas estão conseguindo radicalizar os moderados.


Caberá ao eleitor decidir qual caminho irá seguir, e a exemplo do que ocorreu nas últimas campanhas, o caminho do centro continua acidentado e sem uma liderança clara.