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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 75ª PARTE

CONHECER O FUTURO É UMA OBSESSÃO HUMANA.

Poucos conceitos da física teórica são tão intrigantes quanto o do espaço-tempo, cuja semente foi plantada quando Einstein introduziu na Teoria da Relatividade Geral a ideia de que o espaço e o tempo estão intrinsecamente entrelaçados e formam uma estrutura dinâmica que estrelas, buracos negros e outros objetos supermassivos curvam como alguém pulando numa cama elástica.

O tecido do espaço-tempo é como uma malha tridimensional na qual o espaço representa o comprimento, a largura e a altura, e o tempo, uma dimensão adicional, perpendicular às três dimensões espaciais. As implicações desse conceito vão além da mera descrição da gravidade, e são cruciais para a compreensão de fenômenos como a expansão do Universo, as ondas gravitacionais e a própria natureza do tempo.

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Quando ordenou à PF que vasculhasse gavetas e computadores da 13ª Vara de Curitiba, Toffoli imaginava encontrar novas pás de cal para jogar na sepultura em que o Supremo enterrou a reputação do ex-juiz Sérgio Moro. Mas uma reportagem de Daniela Lima revelou que os agentes recolheram um vídeo em que Tony Garcia disse à juíza Gabriela Hardt, então sucessora de Moro na 13ª Vara, que não era mero delator, mas informante do ex-juiz, e que acabou se tornando "agente infiltrado do Ministério Público".

Nesse enredo, o material recolhido no baú da 13ª Vara arrastaria para a cova, além do ex-juiz, o Ministério Público e a própria Polícia Federal, pois ficaria entendido que a República de Curitiba não era apenas uma metáfora. Se Garcia estiver certo, a promiscuidade veio pelo menos 20 anos antes da Lava-Jato.

Os buracos negros são considerados máquinas do tempo naturais, mas a tecnologia de que dispomos não permite construir espaçonaves capazes de ir até eles — para chegar a Gaia BH1, por exemplo, que fica a cerca de 15 trilhões de quilômetros da Terra, seria preciso viajar 18 meses na velocidade da luz (1,08 bilhão de quilômetros por hora). Mas a pergunta é: seria realmente possível avançar rumo ao futuro ou retornar ao passado?

Talvez sim. À luz das equações relativísticas de Einstein, a distorção causada pelos buracos negros aproxima dois pontos do espaço-tempo como as margens de uma folha de papel dobrada ao meio. Por outro lado, são os hipotéticos buracos de minhoca que funcionam como atalhos cósmicos. Uma vez que o tempo é relativo — ou seja, passa mais rápido ou mais devagar dependendo da velocidade do observador e dos efeitos da gravidade —, um relógio próximo ao horizonte de eventos de um buraco negro avança mais devagar do que os de outro, mais distante. O filme Interestelar ilustra isso perfeitamente: a nave se aproxima de um buraco negro, mas não perto o bastante para ser capturada por sua gravidade, e depois e retorna à Terra anos no futuro.

Acredita-se que a distorção criada pelos buracos negros produza curvas fechadas do tipo tempo, que, em tese, permitiriam retornar ao passado (até o momento em que o buraco negro surgiu). Mas isso exigiria cruzar o horizonte de eventos a uma velocidade superior à da luz, o que afronta as leis da física clássica. Ademais, os astronautas estariam sujeitos ao efeito conhecido como espaguetificação, no qual os átomos de seus corpos seriam enfileirados e espiralados rumo ao vazio.

Embora as equações de Einstein sugiram que as viagens no tempo são matematicamente possíveis, a distância entre a teoria e a prática permanece abissal. Por enquanto, as máquinas do tempo naturais do Universo continuam sendo objetos de fascínio científico e especulação, pois ainda há muito a descobrir sobre a verdadeira natureza do espaço-tempo.

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 71ª PARTE

WE ARE ALL TIME TRAVELERS, YESTERDAY'S GONE, TOMORROW NEVER COMES, THE FUTURE HAS ALREADY HAPPENED.

 

Talvez o tempo seja apenas uma ilusão emergente — uma percepção derivada de mudanças na posição e nos estados das partículas —, o que permite negar sua existência sem afrontar a causalidade. 


Einstein definiu o Universo como um bloco quadridimensional contendo todo o espaço e o tempo simultaneamente, sem um “agora” especial. Suas equações relativísticas descrevem o espaço-tempo como uma entidade única e maleável, curvada pela presença de massa e energia. Essa premissa é aceita pela comunidade científica, mas a aparente incompatibilidade entre a relatividade e a mecânica quântica suscita dúvidas quanto à solidez de sua teoria, pois a gravidade é a única das quatro forças elementares que não se aplica ao mundo das partículas.


A mecânica quântica lida com forças e partículas em escalas microscópicas, onde o eletromagnetismo e as forças forte fraca são descritos por teorias quânticas bem estabelecidas. Mas a gravidade resiste a essa quantização, e sua incompatibilidade com a relatividade geral se evidencia em singularidades como as que habitam o interior dos buracos negros, onde a gravidade se torna extremamente intensa em uma escala minúscula.


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Tarcísio de Freitas acha que é uma coisa, mas sua reputação indica que ele já virou outra coisa devido à submissão a Bolsonaro, um líder preso que o submete a uma realidade muito parecida com a de uma mulher da ficção criada por Josué Guimarães.

Essa mulher da literatura sofria de uma doença que a fazia diminuir diariamente de tamanho. Seus parentes serravam os pés das mesas e das cadeiras, rebaixando os móveis para que ela não percebesse o que lhe acontecia. No caso de Tarcísio, o criador tenta disfarçar o encolhimento da criatura reduzindo a rendição ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro a um gesto de gratidão.

Na semana passada, Bolsonaro serrou os pés da cadeira de Tarcísio quando, em visita à Papudinha, o vassalo assumiu formalmente com seu amo e senhor o compromisso com de restringir sua ambição política em 2026 à disputa pela reeleição ao Palácio dos Bandeirantes. Atento ao movimento, Kassab serrou as pernas da mesa de Tarcísio, e como não conseguiu convencer o chefe a abraçar o desafio de elevar a própria estatura na corrida pelo Planalto, intensificou a articulação para o lançamento de um presidenciável alternativo da direita, que será escolhido numa lista tríplice que inclui Ratinho Júnior, Eduardo Leite e Ronaldo Caiado.

Acorrentado a Bolsonaro, Tarcísio abriu mão de construir uma candidatura conservadora de viés democrático em contraposição ao radicalismo bolsonarista. Na véspera da capitulação da Papudinha, dividiu a mesa de almoço da ala residencial do Bandeirantes com Carlos Bolsonaro, que obteve o aval do pai e dos irmãos para visitar o governador, a quem se referiu como "eterno ministro", eufemismo para subordinado permanente do ex-chefe.

Mantido o processo de encolhimento, Tarcísio logo terá que substituir a cama do palácio por uma caixa de fósforos.

  

Enquanto a física quântica sugere que o espaço-tempo tem uma estrutura granular em níveis extremamente pequenos, a relatividade o trata como um continuum suave. Essa divergência estimulou a busca por uma teoria unificadora, como a teoria das cordas, que propõe novas formas de entender espaço-tempo e gravidade em escalas. 


Sustentar que o tempo não é necessário para explicar a gravidade — e, consequentemente, o espaço — implica a conclusão de que ele é um conceito inventado para explicar eventos simples, como o alvorecer, o anoitecer e outros vinculados ao calendário. Mas será que somos uma simples aleatoriedade no Universo, que flui indiferente à passagem das horas no relógio? Se todo o Universo pode ser explicado através das partículas fundamentais, por que a gravidade foge à regra? Supondo que exista alguma "partícula fundamental da gravidade", como o espaço e tempo podem estar intrinsecamente relacionados? 


Mesmo que o tempo não exista, que as horas, os dias, enfim, o que entendemos por "passar do tempo" seja mera convenção, a causalidade sugere que a existência de tudo — incluindo nós mesmos — estava pré-determinada desde o Big Bang. Como bem observou Stephen Hawking, se a evolução do Universo desde o plasma de quark-glúon até a formação de vida foi definida por uma cadeia de causas e consequências, o cosmos dar origem à matéria, às estrelas, aos planetas e às formas de vida era inevitável. 


Seja na foice de Cronos, nas notas de uma canção melancólica, nas reflexões dos filósofos, nas equações da física ou nas experiências íntimas de cada um de nós, o tempo permanece um enigma que nos escapa. Linear ou circular, absoluto ou relativo, real ou ilusório — ele é ao mesmo tempo prisão e liberdade. É o que tudo consome, mas também o que possibilita mudança, criação, recordação e futuro. Talvez seu maior facínio esteja justamente aí: mais do que um objeto de estudo, ele é a própria condição de nossa experiência de ser.

 

Mas e se o tempo não for aquilo que passa, mas aquilo que nos atravessa?


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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 62ª PARTE

NADA SERÁ COMO ANTES AMANHÃ.


Muitos mistérios são revelados, mas alguns jamais serão descobertos. Ainda não se sabe, por exemplo, o que é vida em si, como o Universo surgiu, ou se o tempo não passa de uma ilusão criada por nossos ancestrais para explicar padrões como o dia e a noite, as fases da Lua e as mudanças das estações.


Achamos que o hoje é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã, mas o tempo não flui da mesma maneira para todos. Segundo as equações relativísticas de Einstein, tudo no Universo é relativo, exceto a velocidade da luz — que é constante e absoluta porque o tempo é relativo.


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Trump empurrou o bolsonarismo para a cova quando declarou ter "uma química" com Lula, encheu a cova de terra ao suspender a supertarifação da pauta de exportações do Brasil, jogou a derradeira pá de cal ao retirar Alexandre de Moraes e sua mulher da lista de sancionados pela Lei Magnitsky e acomodou uma laje sobre o túmulo quando articulou uma parceria com o Brasil no combate ao crime organizado. 

Coveiros de Bolsonaro, Dudu Bananinha e Paulo Figueiredo atribuíram o réquiem do bolsonarismo à incapacidade da sociedade brasileira de construir unidade para enfrentar "problemas estruturais". Provável herdeiro do capital político do pai no ano, Flávio Bolsonaro disse que o governo Trump fez um gesto gigantesco pela anistia no Brasil — lembrando que dosimetria não é anistia.

Certo Natal, dois irmãos desembrulharam os presentes que haviam ganhado. Ao se deparar com uma bicicleta, o mais velho maldisse a sorte: “ou vou cair dela me machucar, ou ela me será roubada". Vendo o caçula todo feliz com um balde cheio de estrume, perguntou-lhe o motivo de tanta alegria, e o irmão respondeu: “ganhei um pônei; você viu ele por aí?” 

Descansando sob a lápide da família Bolsonaro estão os governadores Romeu Zema, Ratinho Jr. Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas, que beijaram a cruz a troco de nada. Lula vai a 2026 com o trunfo de ter mantido a espinha ereta diante das ameaças da Casa Branca. Fica entendido que o imperador laranja não respeita os fracos e tampouco aprecia a associação de sua imagem com os derrotados.

 

Viajamos para o futuro desde o momento em que nascemos e vislumbramos o passado quando observamos a luz que as estrelas emitiram há milhões ou bilhões de anos. Talvez isso não seja tão emocionante quanto o antigo seriado televisivo O Túnel de Tempo, mas é real — como também é real a possibilidade de o tempo não ter uma direção preferencial no mundo microscópico, onde as partículas podem se mover livremente para frente ou para trás, como sustenta um estudo publicado na Scientific Reports por pesquisadores da Universidade de Surrey.

 

No reino quântico, as leis da física operam como uma coreografia perfeitamente reversível. Se assistíssemos de trás para frente um filme de partículas interagindo, seria impossível distinguir qual é a "versão correta". Um elétron saltando de uma órbita para outra, um fóton sendo absorvido e reemitido — todos esses processos fundamentais não distinguem entre passado e futuro. Essa simetria temporal não é apenas um curiosidade teórica: em 2019, pesquisadores da Universidade de Viena conseguiram literalmente "apagar o passado" de fótons, fazendo com que informações sobre sua trajetória prévia desaparecessem retroativamente. É como se as partículas pudessem reescrever a própria história.

 

A pergunta que se coloca é: se no nível mais fundamental a natureza não distingue entre antes e depois, por que nossa experiência cotidiana é tão implacavelmente unidirecional? Por que lembramos do passado, mas não do futuro? Por que os ovos se quebram, mas nunca se reconstituem espontaneamente? A resposta está numa conspiração cósmica chamada entropia. 

 

Quando bilhões de partículas reversíveis se juntam, o caos estatístico cria uma direção preferencial. É como um baralho de cartas sendo embaralhado — tecnicamente, existe uma chance infinitesimal de as cartas se reorganizarem perfeitamente, mas, na prática, o caos sempre prevalece. Vale lembrar que o tempo negativo é uma realidade matemática e experimental no mundo quântico, embora ainda seja visto como "desfritar um ovo". E inverter a seta do tempo é essencial quando a ideia é saborear um filé de brontossauro com Fred Flintstone na pré-histórica Bedrock.

 

A segunda lei da termodinâmica não impede que o tempo flua para trás, apenas torna essa possibilidade estatisticamente improvável — a cada segundo que passa, o universo se torna um pouco mais desorganizado, fazendo com que a seta do tempo aponte inexoravelmente para a entropia máxima. Curiosamente, isso significa que a direção do tempo não é uma propriedade fundamental da realidade, mas um fenômeno coletivo — como o conceito de "temperatura" só faz sentido quando temos muitas moléculas juntas. Uma única partícula não tem temperatura; bilhões delas, sim. Mas isso é conversa para outra hora.

 

Outro termo crucial nessa equação é a decoerência quântica. No mundo microscópico, as partículas podem estar em múltiplos estados simultaneamente — como ilustra a metáfora do gato de Schrödinger, criada em 1935 por Erwin Schrödinger para explicar as peculiaridades da física quântica. Assim, um hipotético gato colocado numa caixa selada, com um mecanismo ligado a uma partícula radioativa, um contador Gêiser e um frasco de veneno, permaneceria simultaneamente vivo ou morto até que alguém abrisse a caixa para verificar se a partícula se desintegrou e o veneno matou o bichano. 


Ao transpor essa lógica para algo do cotidiano, Schrödinger mostrou como seria estranho aplicar as mesmas regras quânticas ao mundo comum. Isso levou os cientistas a proporem conceitos como o da decoerência quântica, que descreve como sistemas quânticos interagem com o ambiente e rapidamente perdem a superposição de estados, comportando-se então como objetos clássicos. Quando sistemas quânticos interagem com o ambiente, essas superposições "colapsam" rapidamente. Em outras palavras, a decoerência quântica atua como um mecanismo de "esquecimento quântico". 

 

Ainda que colocar seres vivos em superposição esteja fora do alcance da tecnologia atual, o número crescente de experiências mostra que o conceito do gato — antes visto como ridículo pelo próprio Schrödinger — tornou-se uma referência prática no avanço da tecnologia quântica, mesmo porque não foi criado para explicar como os gatos funcionam ou provar a existência de zumbis, e sim para criticar os paradoxos gerados pela interpretação de Copenhague, e destacar como os conceitos da mecânica quântica, quando aplicados ao mundo macroscópico, levam a implicações que desafiam nossa intuição.

 

À medida que informações sobre estados quânticos se dispersam no ambiente, o sistema perde a capacidade de "lembrar" certas possibilidades passadas, contribuindo para nossa percepção linear do tempo. Para entender melhor, imagine o momento presente como uma fotografia instantânea de uma dança quântica complexa. A decoerência impede que "desembaralhemos" essas fotografias para reconstruir estados anteriores, criando a ilusão de que o tempo tem uma direção única.

 

A mecânica quântica reserva surpresas ainda mais perturbadoras. Em 2017, pesquisadores demonstraram que a escolha de como medir uma partícula no futuro pode afetar retroativamente seu comportamento no passado, como se o universo operasse numa espécie de "crédito temporal", permitindo que efeitos precedam suas causas, mas desde que o balanço final seja mantido. Em outras palavras, eventos futuros podem, em determinadas circunstâncias, influenciar o passado de forma mensurável. Isso não é ficção científica, e sim um fenômeno que os cientistas chamam de "retrocausalidade quântica". 

 

A criação do par elétron-pósitron pode ser modelada matematicamente como um único eléctron a voltar e avançar no tempo, mas não resulta em implicações ontológicas. A não-localidade quântica proposta no Teorema de Bell sugere que, em alguns quadros de referência, sinais causais podem retornar no tempo, com todos os paradoxos da causalidade que isto implica.

 

Essas descobertas abrem possibilidades fascinantes para o que se pode chamar de "engenharia temporal quântica". Ainda que não tenha sido possível enviar pessoas de volta no tempo, talvez seja possível encontrar formas de transmitir informações através de entrelaçamentos quânticos que transcendam nossa noção linear de causalidade.

 

Einstein demonstrou que o impossível é apenas uma questão de tempo; Carl Sagan, que a ausência de evidências não é evidência de ausência, e Arthur C. Clarke, que desafiar limites é o único caminho para superá-los.  

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segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 57ª PARTE

SE O QUE NOS TORNA ÚNICOS É A CONSCIÊNCIA, E SE VIAJAR NO TEMPO FOSSE POSSÍVEL USANDO APENAS NOSSA CONSCIÊNCIA, TALVEZ AS VIAGENS NO TEMPO SEJAM MAIS SIMPLES DO QUE NÓS AS IMAGINAMOS.

Os relógios que usamos no dia a dia foram concebidos há milênios, quando alguém associou a própria sombra a escalas capazes de determinar as horas a partir da posição projetada pelo sol. As versões de água e de areia surgiram no século VII a.C., e o modelo, mecânico, no século IX da nossa era. Mas nossa percepção da passagem do tempo depende de diversas variáveis. 


Se, por exemplo, estivermos quase borrando as calças e ouvirmos de dentro do banheiro o tradicional "só um minuto", esse minuto vai parecer a antessala da eternidade. Além disso, segundos, minutos e horas não explicam o tempo de uma ação quântica ou da formação de uma galáxia, também por exemplo


Em última análise, tudo é uma questão de tempo, mas o tempo não é tão simples quanto parece. Até porque, segundo abordagens recentes, ele pode ser tridimensional. Explicando melhor: descrever o horário, a passagem dos anos ou o valor de um deslocamento instantâneo de partículas quânticas no universo cósmico são coisas distintas; do ponto de vista cósmico, o tempo é relativo, variando conforme a massa e a aceleração (como ensinou Einstein em sua famosa teoria).

 

A relatividade geral e a mecânica quântica explicam o Universo com alto grau de precisão, mas partem de medidas de tempo distintas (do ponto de vista da física), dificultando a criação de uma teoria única e universal para explicar o tempo. A ideia do tempo 3D não é nova, mas foi reapresentada recentemente num estudo publicado na revista Reports in Advances of Physical Sciences pelo geofísico Gunther Kletetschka, da Universidade do Alasca, que propõe uma reformulação completa dos conceitos básicos que conhecemos. 

 

Para criar um conceito novo que dê conta de explicar tudo, o cientista criou uma estrutura matemática que reproduz as propriedades conhecidas do Universo em uma única equação matemática. Segundo ele, incorporar as três dimensões do tempo em uma operação que as preserva não altera a natureza do tempo, mas concilia suas três dimensões em uma única fórmula capaz de explicar desde o tempo do relógio até o surgimento das partículas quânticas.

 

Kletetschka diz que as primeiras propostas do tempo 3D eram fórmulas matemáticas sem conexões experimentais concretas, ao passo que seu estudo transforma o conceito em uma teoria fisicamente testada e com múltiplos canais de verificação independentes. Além da fórmula por si só, ele consegue reproduzir com precisão as massas conhecidas de diversas partículas, como elétrons e neutrinos.

 

Caso você esteja se perguntando o que isso tem a ver com as viagens no tempo, a resposta é: nada. Como eu disse e repeti dezenas de vezes ao longo desta novela, o tempo passa conforme a velocidade do observador aumenta, e desacelera nas proximidades do horizonte de eventos de um buraco negro. Assim, viajar para o futuro exigiria simplesmente se aproximar de um desses corpos celestes, mas mantendo uma distância segura de seu horizonte de eventos para não ser tragado. 

 

Em outras palavras, bastaria ficar lá por algum tempo para voltar à Terra dezenas, centenas ou milhares de anos no futuro em relação à data de partida. O xis da questão, como também já foi dito nos capítulos anteriores, é a imensidão do cosmos e as distâncias astronômicas — literalmente — que nos separam dos buracos negros conhecidos. A título de ilustração, nosso sistema solar está a "confortáveis" 26 mil anos-luz do buraco negro supermassivo que fica no centro da Via Láctea e a 1,6 ano-luz (cerca de 15 trilhões de quilômetros) de Gaia BH1 — o buraco negro mais próximo que foi avistado até agora. 

 

Para viajar rumo ao passado, as coisas se complicam ainda mais. A monstruosa atração gravitacional dos buracos negros supermassivos distorce o tempo a ponto de criar um loop temporal — como os trilhos dos antigos trens elétricos de brinquedo, que a cada volta passavam novamente pelo ponto de partida. Se conseguíssemos entrar em um dessesloops, teríamos uma máquina do tempo na qual entraríamos no futuro e sairíamos no passado. 

 

Mas há alguns senões, começando pelo fato de que essa viagem ao passado seria limitada à época em que o buraco negro surgiu — se ele tivesse surgido após o período jurássico, por exemplo, não permitiria ver dinossauros ao vivo e em cores. Ademais, encontrar o loop temporal exigiria cruzar o horizonte de eventos, o que só seria possível se nos movêssemos mais rápido que a luz. Isso sem mencionar a "espaguetificação". 

 

No fim das contas, parece mais fácil aceitar que o tempo é um trilho sem retorno do que esperar por uma locomotiva quântica que nos leve ao passado enquanto não dispusermos de naves capazes de contornar buracos negros ou dobrar o contínuo espaço-tempo. Até lá, sigamos de carona no relógio e deixemos essa possibilidade para os netos dos nossos bisnetos. 

 

Independentemente de ser uma dimensão, uma ilusão, uma equação ou uma sentença, o tempo segue em frente e deixa atrás de si perguntas sem resposta e teorias à espera de comprovação. Mesmo que seja possível retroceder no tempo, o desafio maior talvez não seja técnico, mas lógico. Mas isso é conversa para os próximos capítulos.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 54ª PARTE

NÃO SABENDO QUE ERA IMPOSSÍVEL, FOI LÁ E FEZ.

Os hipotéticos buracos de minhoca — também conhecidos como pontes Einstein-Rosen — são tidos como "atalhos cósmicos". Supostamente localizados nas proximidades ou no fundo dos buracos negros, eles interligam dois pontos distantes, neste ou em outro Universo, no presente ou em outro momento da linha do tempo.

 

Mais de um século antes de os buracos negros emergirem das soluções de Schwarzschild para as equações relativísticas de Einstein, o cientista inglês John Michell propôs a existência de "estrelas escuras" (em 1783). O astrônomo francês Pierre-Simon de Laplace publicou conclusão similar em seu livro Exposition du Système du Monde (1796), mas o primeiro exemplar somente foi fotografado pelo Horizon Telescope em 2019. 


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A investigação sobre o assalto de R$6 bilhões contra os velhinhos aposentados ainda nem terminou e já surge no noticiário outra perversão: o endividamento de crianças. Adultos contraíram cerca de R$12 bilhões em empréstimos consignados em nome de menores que deveriam proteger. 

Portadora da Síndrome de Down, a menina Clara, de sete anos, recebe auxílio de um salário mínimo e está pendurada no consignado com uma dívida de R$38 mil, contraída por uma tia materna que detinha sua guarda legal.

A contratação de empréstimos por pais, curadores, tutores ou procuradores das crianças foi autorizada pelo INSS em 2022, sob Bolsonaro. As instituições financeiras poderiam ter soado o alarme, mas não costumam mexer no time que está perdendo no INSS. Assim, a aberração sobreviveu à chegada de Lula e só foi interrompida há quatro meses — não por opção do governo, mas por ordem da Justiça. 

A melhor maneira de prever o futuro de um país é observando o modo como trata seus velhos e suas crianças. Não é à toa que o Brasil se tornou o mais antigo país do futuro do mundo.

 

Os buracos de minhoca seguem envoltos nas brumas da especulação, mas, como já aconteceu várias vezes na astrofísica, o que vale hoje pode ser refutado amanhã. A fusão nuclear, por exemplo, foi considerada uma reação exclusiva do Sol até a detonação da primeira bomba de hidrogênio liberar energia equivalente a 10 megatons de TNT. 


Einstein revolucionou a física ao demonstrar que o espaço e o tempo formam uma estrutura única e indissociável (espaço-tempo), que tudo é relativo no Universo (com exceção da velocidade da luz), e que o tempo desacelera conforme a velocidade do observador aumenta — como bem ilustra o paradoxo dos gêmeos. 

 

Os fótons viajam no vácuo a cerca de 300.000 km/s por serem partículas de luz e não possuírem massa. Partículas com massa exigem quantidades crescentes de energia para acelerar, e sua massa tende ao infinito na velocidade da luz, exigindo energia igualmente infinita para continuar acelerando. Curiosamente, os táquions nascem superluminais, ganham velocidade à medida que perdem energia e se movem no sentido inverso ao da seta do tempo. Quando eles se movem — e eles sempre se movem mais rápido que a luz —, sua energia e seu momento são reais e positivos, mesmo que sua massa de repouso seja imaginária. Isso é matematicamente possível porque as transformações relativísticas envolvem fatores que "cancelam" a natureza imaginária da massa quando a velocidade supra a da luz. 


Os táquions ainda não foram observadas experimentalmente, mas pesquisadores da Universidade de Varsóvia propuseram uma extensão da teoria relatividade especial para explorar sua possível existência. Se ela for confirmada, eles violariam o Princípio da Causalidade, dando azo a paradoxos tão complexos quanto o do Avô e exigindo a reformulação das Transformações de Lorentz. Mas isso é outra história e fica para uma outra vez.

 

A sonda espacial mais rápida lançada pela NASA atingiu 692 mil km/h em dezembro do ano passado. Essa velocidade equivale a 0,064% da velocidade da luz, e é suficiente para ir da Terra à Lua em menos de uma hora e ao Sol em cerca de 10 dias. No entanto, uma viagem até Gaia BH1 — o buraco negro mais próximo da Terra — levaria cerca de 2,5 milhões de anos. Talvez haja um buraco de minhoca por lá, mas não temos como enviar uma missão tripulada para conferir, até porque os efeitos da dilatação temporal só são significativos em velocidades próximas à da luz, e nossa hipotética espaçonave precisaria se mover a 99,9999999999% dessa velocidade para que a viagem de quase dois milhões e meio de anos (pelo tempo terrestre) durasse alguns minutos para os astronautas. 

 

Supondo que essa viagem fosse possível e que existisse um buraco de minhoca em Gaia BH1, seria necessária uma quantidade imensa de matéria exótica (com densidade de energia negativa) para mantê-lo atravessável. E não se sabe se esses "túneis" atraem matéria por uma boca e a devolvem pela outra ou se ambas as bocas apenas "engolem", prendendo a matéria ficaria num loop insano até destruí-la no ponto central.

 

ObservaçãoMatéria exótica é um termo usado na física teórica para descrever substâncias com propriedades incomuns, como densidade de energia negativa ou massa negativa — capazes de gerar efeitos gravitacionais repulsivos. Já a "matéria escura" é uma forma invisível de matéria que interage gravitacionalmente, mas não emite luz nem possui, até onde se sabe, propriedades exóticas. Um exemplo clássico de energia negativa é o Efeito Casimir, descoberto em 1948, segundo o qual a densidade de energia em certas regiões do espaço pode ser menor que a do vácuo. 

 

Alguns cientistas acreditam que, em determinadas situações, os efeitos gravitacionais extremos e a geometria complexa do espaço-tempo no interior dos buracos de minhoca fariam com que a viagem demorasse mais do que se fosse feita diretamente pelo espaço. Ir da Terra a Marte, coisa que a sonda Mars Insight fez em menos de 6 meses, poderia levar mais de 50 anos através de um hipotético buraco de minhoca. 

 

Não é de hoje se busca harmonizar os buracos de minhoca com a física quântica. Uma proposta intrigante sugere que esses túneis e o emaranhamento quântico estão ligados pela equação ER = EPR — em que ER se refere às pontes de Einstein-Rosen e EPR, ao paradoxo de Einstein-Podolsky-Rosen. Em outras palavras, o emaranhamento quântico e os supostos atalhos cósmicos seriam duas manifestações distintas de um mesmo fenômeno físico fundamental. 

 

Tudo isso pode parecer roteiro de filme de ficção científica, mas não se pode perder de vista que inúmeras teorias revolucionárias — como a do heliocentrismo, da desinfecção, da imunoterapia e da deriva continental — foram vistas como delírios até que o tempo provasse que elas estavam certas.

Continua...