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terça-feira, 30 de dezembro de 2025

OS IDIOTAS VÃO DOMINAR O MUNDO...

... NÃO PELA CAPACIDADE, MAS PELA QUANTIDADE.

Em Ensaio sobre a cegueira, o escritor português José Saramago — Nobel de Literatura em 1998 — elencou diversas frases que poderiam descrever nosso surreal cotidiano. Entre elas, eu detaco: 1) "se queres ser cego, sê-lo-ás"; 2) "a pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos pela frente"; 3) "a cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu, não há nada que se possa fazer a respeito."

A cegueira pode ser congênita ou adquirida, reversível ou irreversível, mas, metaforicamente falando, "o pior cego é aquele que não quer enxergar". É fato que os efeitos tendem a desaparecer quando se lhes suprime a causa, mas argumentar com quem acredita nas próprias mentiras é o mesmo que dar remédio a um morto.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O Banco Master é um daqueles escândalos que envolve tanta gente, mas tanta gente, que mal nasce e já há um rosário de voluntários se propondo a assar uma pizza em sua homenagem, e as ações de Toffoli, como uma acareação fora de hora entre o dono do banco e o diretor de fiscalização do Banco Central cheiram a marguerita.

O ministro não conseguiria extinguir a liquidação do banco, que morreu bem antes de ser enterrado pelo BC, mas pode livrar a cara de Daniel Vorcaro e garantir que ele mantenha o bico fechado, já que a canto dessa ave, em forma de delação, levaria ao apocalipse em Brasília.

Faria bem ao país se o caso fosse apurado dentro da lei e longe da promiscuidade, mas o problema é o de sempre: a instrumentalização para um lado ou para o outro do resultados de investigações. Além disso, tudo indica que muita gente tem culpa no cartório, mas o sistema nunca age por contra própria e sempre se protege. 

Em outras palavras, um crime dessa magnitude não se sustenta sem apoio político. Daniel Vorcaro construiu ou comprou amizades em um espectro ideológico amplo. Ao contrário de Mauro Cid, que era de Jair, Vorcaro é de muitos. 

Se a investigação sobre o golpe expôs o projeto autoritário de um grupo político, o caso Master tem condições de escancarar o modo de financiamento de parte da política brasileira, o condomínio de interesses que transforma banco em máquina de fabricar dinheiro público para campanhas, consultorias de fachada e patrimônio oculto em paraíso fiscal.

Claro, tudo isso depende de as instituições estarem dispostas a ir até o fim. A experiência de delações passadas mostra que, no Brasil, o sistema político tem uma capacidade impressionante de metabolizar escândalos sem se depurar. Não falta advogado caro, voto em tribunal superior ou narrativa patriótica para transformar propina em "erro contábil" e fraude em "risco de mercado".

Num país em que banqueiro é tratado como gênio disruptivo mesmo quando vende vento por bilhões, talvez seja simbólico que a maior bomba não esteja em instalações militares, mas num banco em liquidação.


Um poema atribuído ao dramaturgo alemão Bertolt BrechtO pior analfabeto / É o analfabeto político / Ele não ouve, não fala / Nem participa dos acontecimentos políticos / Não sabe que o custo de vida / O preço do feijão, do peixe / Da farinha, do aluguel, do calçado / Depende de decisões políticas — resume magistralmente o conceito de "idiota" (do grego ἰδιώτης, idiṓtēs). Originalmente, o termo não tinha relação com inteligência (ou com a falta dela) e, portanto, não era considerado insultuoso — na verdade, ele era usado para definir um cidadão comum em contraposição a um estudioso ou alguém que ocupava cargo público e agia em nome do Estado. Para os gregos, sem a participação cívica a democracia entraria em colapso; todos os cidadãos deveriam estar familiarizados com assuntos públicos — ou, por outra, não deveriam ser idiotas.

 

Como permanecer à margem da vida pública era sinal de ignorância, quem não contribuía para os debates políticos era considerado absolutamente inútil. Nesse contexto, a palavra "idiota" adquiriu a desdenhosa conotação negativa que a acompanha até hoje — segundo o Michaelis, "idiota" é alguém que "sofre de idiotia, que demonstra falta de inteligência, de discernimento ou de bom senso, estúpido, imbecil, tolo etc."

 

No início do século passado, os psicólogos Alfred Binet e Theodore Simon criaram o primeiro teste de inteligência moderno, que aferia o QI com base na capacidade das crianças de realizar tarefas como apontar para o nariz e contar moedas. Mais adiante, pessoas com quociente intelectual superior a 70 passaram a ser consideradas "normais", e aquelas que superassem 130, "superdotadas". Para lidar com pessoas com QI inferior a 70, criou-se uma nomenclatura segundo a qual um adulto com idade mental inferior a 3 anos foi rotulado de "idiota"; entre 3 e 7, de "imbecil"; e entre 7 e 10, de "débil mental".

 

A exemplo do que ocorreu com "imbecil", o termo "idiota" passou a ser usado em contextos jurídicos e psiquiátricos para descrever graus de deficiência psíquica — e daí a se tornar insultuoso foi um passo. Algumas culturas deixaram de usar o termo por considerá-lo ofensivo, mas ele continua figurando no Diccionario de la lengua española, da Real Academia Española, com o sentido de "transtorno caracterizado por uma deficiência muito profunda das faculdades mentais".

 

Segundo Walter C. Parker, professor emérito da Universidade de Washington, a antiga etimologia pode ser uma ferramenta valiosa para uma compreensão contemporânea da democracia e da cidadania: "idiota é alguém cuja vida privada é sua única preocupação, alguém que não toma iniciativa na política, alguém imaturo, com desenvolvimento truncado, que pode ter vida social, mas não vida pública", diz ele. 


Já para a historiadora e filósofa Hannah Arendt, todos podemos ter uma vida social — com nossos amigos e familiares, redes sociais, trabalho, lazer — sem necessariamente termos uma vida pública (ou política). De acordo com ela, "o ideal da democracia liberal é que o povo participe, estabelecendo o governo e criando as regras que o defendam do tipo de vida pública que não deseja".

 

O idiota rejeita tudo isso. Ele simplesmente se enterra na sua vida privada e na sua vida social, permitindo que populistas, demagogos e aproveitadores da pior espécie assumam o poder. Apesar de viver num mundo em que as pessoas têm meios de acesso à informação, ele acredita mais nas versões do que nos fatos, o que resulta num terreno fértil — e muito perigoso — para a demagogia. E daí para a polarização é um passo.

 

Atribui-se a Nelson Rodrigues a máxima segundo a qual os idiotas vão dominar o mundo, não por capacidade, mas pela quantidade. A julgar pelo comportamento dos eleitores, que fazem a cada dois anos, por ignorância, o que Pandora fez, por curiosidade, uma única vez, nada indica que haja luz no fim desse túnel. 


E assim seguimos: com cada vez mais idiotas nas redes, no Congresso, no poder. No fim das contas, a democracia pode até sobreviver aos canalhas, mas dificilmente resistirá aos idiotas — esses, afinal, estão por toda parte, até mesmo aqui, lendo este texto. Ou não.

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 53ª PARTE

QUANDO A SORTE TE BAFEJA, ATÉ UM BOI TE DÁ UM BEZERRO.

Embora o tempo seja uma das únicas certezas da vida, como a morte, os impostos e a incompetência do eleitorado tupiniquim, que faz a cada eleição o que Pandora fez uma única vez, sabe-se muito pouco sobre ele. 


Até Einstein publicar sua famosa teoria, a compreensão do tempo se baseava principalmente na física newtoniana, segundo a qual o tempo fluía de maneira uniforme e constante em todo o universo, independentemente do observador ou das circunstâncias. À luz dessa premissa, tempo e espaço eram dimensões independentes, e o tempo passava sempre na mesma velocidade, sem acelerar ou desacelerar sob nenhuma circunstância. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Presenteado por Hugo Motta com o posto de relator do projeto anti-facção de Lula, o deputado Guilherme Derrite apresentou-se como um anjo da tecnicidade a serviço da segurança pública, mas perdeu as asas ao propor que o crime organizado seja blindado contra a Polícia Federal. 

Em 72 horas, Derrite produziu dois textos. Nas duas versões, ele equipara crimes cometidos por facções criminosas e milícias ao terrorismo. No primeiro, proibia a PF de investigar sem a requisição dos governadores; no segundo, permite que a PF atue contra o crime organizado desde que comunique previamente às autoridades estaduais.

A PF não é um canteiro de rosas, mas ainda fornece os melhores espinhos de que o Estado dispõe para espetar as organizações criminosas. Derrite, que é unha e carne com o governador bolsonarista de São Paulo, sabe que as más companhias das polícias estaduais fazem a PF parecer melhor do que é.

Um capitão da PM lotado no Gabinete Militar de Tarcísio foi pilhado pela PF ajudando a lavar dinheiro do PCC em bancos digitais, outro operador de lavanderias da facção foi executado quando delatava o vínculo do PCC com a polícia paulista, pelo menos 15 policiais e um delegado foram indiciados e três PMs foram acusados de disparar os tiros que mataram o delator.

No Rio de Janeiro, a polícia civil de Cláudio Castro passou cinco anos investigando a execução de Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes. E não esclareceu o crime. Acionada, a PF mostrou que as investigações patinavam porque a vereadora foi emboscada por dois milicianos egressos da PM, a mando de um deputado e um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, sob a proteção de um delegado.

Após críticas do Palácio do Planalto, governadores de direita, parlamentares da base e oposição, além de especialistas em Segurança Pública, Derrite apresentou a quarta versão do texto, mas não houve consenso e a votação foi adiada para próxima terça-feira. Os principais problemas apontados são quanto ao financiamento da PF e à caracterização do crime de “facção criminosa”. Paralelamente, cinco governadores de direita pediram ao presidente da Câmara que consulte o STF para evitar questionamentos judiciais no futuro.

Se a proposta que blinda a criminalidade contra a PF prevalecer no plenário, a Câmara provará ao país que o crime, quando organizado, compensa.


Einstein mostrou que o tempo pode se dilatar ou contrair ao sabor da velocidade e da gravidade, que está intrinsecamente ligado ao espaço (formando o espaço-tempo), e que a simultaneidade é relativa — ou seja, que a velocidade com que o tempo passa para um determinado observador é inversamente proporcional à velocidade com que esse observador se movimenta. Mais adiante, Stephen Hawking explorou o comportamento do tempo em condições extremas, como na proximidade do horizonte de eventos de um buraco negro. 

 

Einstein previu a existência dos buracos negros em suas equações, mas foi o astrônomo norte-americano John Wheeler quem deu esse nome aos corpos celestes resultam de colisões entre estrelas de nêutrons ou se formam quando estrelas supermassivas com pelo menos 10 vezes a massa do Sol explodem como supernovas, dando origem a uma região cósmica densa, compacta, onde a atração gravitacional é tamanha que nem a própria luz consegue escapar.

 

Einstein tampouco foi o primeiro a propor a existência dos buracos negros. Em 1783, o clérigo e cientista inglês John Michell propôs a existência de "estrelas escuras" e sugeriu que seria possível detectá-las se houvesse estrelas luminosas orbitando ao redor por seus efeitos gravitacionais em objetos próximos, e o matemático e astrônomo francês Pierre-Simon de Laplace publicou a mesma conclusão no livro Exposition du Système du Monde, mas foi a famosa teoria do físico alemão que forneceu as bases matemáticas modernas para a existência desse corpos celestes e ajudou a popularizá-los na ficção científica. Ironicamente, ele morreu sem ver sua teoria comprovada: foi somente em 2019 que o Event Horizon Telescope fotografou o buraco negro que fica no centro da galáxia Messier 87, a 53 milhões de anos-luz da Terra. 

 

Costuma-se dizer que os buracos negros são como ninjas do universo: invisíveis, misteriosos, capazes de transformar qualquer coisa que se aproxime de seu horizonte de eventos num pontinho infinitesimal de densidade extrema (conhecido como singularidade), mas mantendo sua massa original.  Vale realçar que o termo singularidade não designa o buraco negro em si, mas o elemento essencial dentro dele, o que torna o buraco negro o melhor exemplo de locais onde a singularidade pode existir.

 

O que acontece no horizonte de eventos, que representa o limite a partir do qual qualquer informação sobre o que é engolido deixa de existir para o restante do Universo, é um mistério que a ciência ainda tenta decifrar. Mas sabe-se que a força gravitacional dos buracos negros é tamanha que nem a a própria luz conseguir escapar, o que torna invisíveis, obrigando os cientistas a detectá-los mediante a observação do comportamento de objetos e da radiação a seu redor.

 

Observação: horizonte de eventos não é uma superfície física, mas uma região matemática no espaço-tempo que cresce quando massa é absorvida e encolhe à medida que o buraco negro "evapora" através da radiação de Hawking (um processo quântico fundamentado no princípio da Incerteza de Heisenberg). 


A NASA usou um supercomputador para criar uma simulação baseada em Sagittarius A* levando em conta dois cenários diferentes: no primeiro, a câmera — que representa o astronauta — erra o horizonte de eventos e dispara de volta; no segundo, ela cruza a fronteira e sela seu destino. Vale a pena conferir.

 

Continua...

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 52ª PARTE

EU SOU CALMO; SÃO AS PESSOAS QUE ME IRRITAM.

Albert Einstein foi o maior físico do século XX — senão de todos os tempos —, e Henri Bergson, um dos filósofos mais eminentes de sua época. Em abril de 1922, os dois se encontraram para debater ideias sobre o tempo. O físico alemão já havia publicado sua teoria da relatividade, enquanto o filósofo e diplomata francês, prestes a lançar Duração e Simultaneidade, considerava-se intelectualmente superior ao rival.

 Quando Bergson afirmou que a Filosofia ainda tinha seu espaço na compreensão do tempo, Einstein rebateu dizendo que o "tempo dos filósofos" não existe. Isso abriu uma verdadeira Caixa de Pandora sobre a relação entre a Ciência — segundo a qual a experiência da passagem do tempo é secundária, até ilusória, e transcende a percepção individual — e a Filosofia — para a qual a vivência subjetiva do tempo não pode ser reduzida às medições dos relógios. Foi a partir dessas discussões que se consolidou a visão einsteiniana de que espaço e tempo formam uma estrutura indissociável — o espaço-tempo — onde o tempo é mais uma dimensão do espaço.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Numa evidência de que quem sai aos seus não endireita, Eduardo Bolsonaro será encostado no banco dos réus no próximo dia 14 — mesma data que seu pai entrará na reta de chegada da prisão em regime fechado, com provável escala na Papuda antes da análise de um previsível pedido de reclusão domiciliar humanitária.

Pai e filho tornaram-se protótipos de uma família autossuficiente: eles mesmos cometem os crimes, eles mesmos fornecem as provas, eles mesmos complicam a defesa, oferecendo eloquentes indícios de que, ao contrário do que postula a teoria de Darwin, está em curso um processo de regressão de certas espécies.


Bergson reconhecia que a teoria da relatividade era interessante, mas não passava de uma teoria. Einstein defendia que, sem a noção de dilatação temporal, a Física se perderia num emaranhado de contradições. No entanto, o francês alertava que não se poderia aceitar a Ciência sem um olhar crítico, histórico, social e político; afinal, "o tempo é o que se faz e o que faz com que tudo seja feito".

 

Embora a dilatação do tempo tenha sido confirmada experimentalmente por meio de relógios extremamente precisos, Bergson registrou em seu livro que esse suposto atraso de um relógio em relação a outro não existia de fato, e acusou Einstein de cometer o "erro cartesiano" de equiparar seres humanos a máquinas. Para este, o rival tinha uma visão do tempo que, por não ser objetiva, não poderia corresponder à realidade. Como tantas vezes ocorre hoje na política polarizada do Brasil, os seguidores do cientista tornaram-se críticos do filósofo — e vice-versa.

 

Meses após desse debate, Einstein recebeu o Prêmio Nobel de Física. Embora a láurea se devesse a suas descobertas sobre o efeito fotoelétrico, ficou subentendido que ele havia derrotado Bergson e que cabia à Física — e não à Filosofia — explicar a natureza do tempo. Bergson manteve suas convicções, mas não voltou a fazer comentários públicos sobre Einstein ou sua teoria. Ainda assim, seu livro acabou sendo malvisto, e sua interpretação da relatividade, considerada simplista demais.

 

Fato é que ainda hoje persistem questões sobre o tempo que nem a Ciência, nem a Filosofia conseguiram plenamente elucidar — como vimos ao longo desta sequencia e voltaremos a ver nos próximos capítulos. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

MENTIRAS QUE SOAM VERDADEIRAS

É MELHOR UM FIM HORROROSO DO QUE UM HORROR SEM FIM.  

A maioria de nós já ouviu dizer que avestruzes enterram a cabeça na areia quando estão assustados, que preguiças são preguiçosas, que porcos são sujos, que golfinhos estão sempre sorrindo, que elefantes nunca esquecem, que Lula foi absolvido e que Bolsonaro foi condenado injustamente. Só que nada disso é verdade. 


No que tange aos avestruzes, as fêmeas colocam a cabeça no buraco que usam como ninho para virar os ovos várias vezes durante o dia — se realmente enterrassem a cabeça para não ver o perigo, como diz a lenda, as pobres aves morreriam asfixiadas. 


As preguiças se movem devagar porque seu metabolismo as obriga a economizar energia, e como não andam sobre as solas dos pés, mas se arrastam com suas longas garras, sua locomoção nas árvores e no solo é lenta e desajeitada. Por outro lado, elas se movem velozmente na água e dormem cerca de 10 horas por dia — bem menos que os gatos e outros animais domésticos.


Os porcos são animais naturalmente asseados. Eles defecam longe de onde comem, dormem e acasalam, mas, como não conseguem suar, refrescam-se chafurdando na lama — o que lhes dá a aparência de sujos. Por outro lado, é impossível manter-se limpo quando se vive confinado num chiqueiro pequeno, superlotado e imundo.


Os golfinhos são brincalhões e parecem sorrir porque o formato de suas mandíbulas cria essa ilusão. Mas são incapazes de mudar de expressão, e podem ser surpreendentemente desagradáveis e traiçoeiros, chegando a atacar outros mamíferos marinhos e até pessoas quando se sentem ameaçados.


Os elefantes possuem o maior cérebro entre os mamíferos terrestres. Seu lobo temporal — extremamente desenvolvido — permite memorizar cheiros, vozes, lugares, hierarquias, vínculos familiares e comandos de voz. Eles são capazes de reconhecer outros elefantes — e até humanos — após décadas de separação, bem como de manter relações complexas dentro da manada, que a matriarca conduz por rotas migratórias antigas, guiada por lembranças de locais com água e comida.


Assim como afirmar que “os elefantes não esquecem” é uma simplificação poética embasada na ciência, dizer que os eleitores brasileiros fazem, a cada dois anos, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez por curiosidade, é uma simplificação poética embasada na mitologia grega.


Celebrizada pelo jornalista Ivan Lessa, a máxima segundo a qual os brasileiros esquecem, a cada 15 anos, o que aconteceu nos últimos 15, ilustra a quintessência da falta de memória — ou de preparo — do nosso eleitorado. Aliás, em momentos distintos da ditadura, Pelé e o ex-presidente João Figueiredo alertaram para o risco de misturar brasileiros e urnas em eleições presidenciais. Ambos foram muito criticados, mas como contestá-los, se lutamos tanto pelo direito de votar para presidente e elegemos gente como Lula, Dilma e Bolsonaro?


Em 135 anos de história republicana, 35 brasileiros foram alçados à Presidência pelo voto popular, eleição indireta, linha sucessória ou golpe de Estado. Em agosto de 1961, a renúncia de Jânio Quadros ladrilhou o caminho para o golpe de 1964, que depôs João “Jango” Goulart do Palácio do Planalto e deu início a duas décadas de ditadura militar.


Em 1989, depois de 29 anos sem votar para presidente e podendo escolher entre Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola — de um cardápio com mais de 20 postulantes — a plebe ignara preferiu despachar Collor e Lula para o segundo turno. O caçador de marajás de mentirinha derrotou o desempregado que deu certo por 683.920 a 215.177 votos válidos, provando que memória histórica e senso crítico não são pré-requisitos para exercer o direito de voto.


Collor foi empossado em março de 1990 e penabundado em dezembro de 1992. Em 1994, graças ao bem-sucedido Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, elegeu-se presidente no primeiro turno. Picado pela “mosca azul”, comprou a PEC da Reeleição.


Como quem parte, reparte e não fica com a melhor parte é burro ou não tem arte, o tucano de plumas vistosas renovou seu mandato no ano seguinte — novamente no primeiro turno. Mas não há nada como o tempo para passar. Em 2002, sem novos coelhos para tirar da velha cartola, não conseguiu eleger seu sucessor: Lula derrotou José Serra por 61,27% a 38,73% dos votos válidos.


Em 2006, apesar do escândalo do mensalão, o petista venceu Geraldo Alckmin por 60,83% a 39,17% dos votos válidos. Em 2010, visando manter aquecida a poltrona que tencionava disputar dali a quatro anos, fez eleger um “poste” — Dilma Rousseff —, que pegou gosto pelo poder, fez o diabo para se reeleger, entrou em curto-circuito e foi desligada em 2016, pondo fim a 13 anos e fumaça de lulopetismo corrupto.


Com o impeachment da mulher sapiens, Michel Temer passou de vice a titular do cargo. Num primeiro momento, a troca de comando pareceu alvissareira. Depois de mais de uma década ouvindo garranchos verbais de um semianalfabeto e frases desconexas de uma destrambelhada que não sabia juntar sujeito e predicado, ter um presidente que sabia falar — até usando mesóclises — foi como uma lufada de ar fresco numa catacumba. Mas há males que vêm para o bem e bens que vêm para pior.


O prometido “ministério de notáveis” revelou-se uma notável agremiação de corruptos, e a “ponte para o futuro”, uma patética pinguela. Depois que sua conversa de alcova com Joesley Batista veio a lume, Temer pensou em renunciar, mas foi demovido por sua tropa de choque.


Escudado das flechadas de Janot pelas marafonas da Câmara, o nosferatu que tem medo de fantasma concluiu seu mandato-tampão como pato manco e transferiu a faixa para um mix de mau militar e parlamentar medíocre travestido de outsider antissistema, que se tornou o pior mandatário tupiniquim desde Tomé de Souza.


Para provar que era amigo do mercado e obter o apoio dos empresários, o estadista que sempre acreditou em Estado grande e intervencionista e lutou por privilégios para corporações que se locupletam do Estado há décadas, foi buscar Paulo Guedes..


Para provar que era inimigo da corrupção e obter o apoio da classe média, o deputado adepto das práticas da baixa política, amigo de milicianos, que em sete mandatos aprovou apenas dois projetos e passou por oito partidos diferentes, todos de aluguel, foi buscar Sérgio Moro. 


Para obter o apoio das Forças Armadas, o oficial de baixa patente, despreparado, agressivo e falastrão, condenado por insubordinação e indisciplina e enxotado da corporação, foi buscar legitimidade numa penca de generais saudosos da ditadura.


Bolsonaro obrigou Moro a reverter uma nomeação, tomou-lhe o Coaf, forçou-o a substituir um superintendente da PF e esnobou seu projeto contra a corrupção. O ex-juiz fingiu que não viu, tentou negociar e, por fim, desembarcou do governo para tentar salvar o pouco prestígio que lhe restava.


Bolsonaro desautorizou Guedes, interferiu em seu ministério, sabotou seus projetos e, com o Centrão, enterrou de vez a agenda econômica. A maneira como gerenciou a pandemia de Covid foi catastrófica. Os crimes comuns e de responsabilidade cometidos pelo aspirante a genocida só ficaram impunes graças à leniência de Rodrigo Maia e Arthur Lira, que presidiram a Câmara durante sua gestão, e à cumplicidade de Augusto Aras, seu antiprocurador-geral.


Bolsonaro jamais escondeu a admiração pela ditadura militar e a vocação para o autoritarismo. Em 2019, poucos meses após a posse, reconheceu que não nasceu para ser presidente, mas para ser militar, embora tenha passado menos anos no Exército do que na política e, ao longo de 27 anos no baixo clero da Câmara, tenha apresentado 172 projetos, relatado 73 e aprovado apenas dois.


Na eleição de 2014, ao ver o poste de Lula derrotar o neto corrupto de Tancredo, Bolsonaro resolveu disputar a Presidência “com a cara da direita”. Ignorado pelo PP, que apoiou a campanha de Dilma, lançou seu ultimato: “Ou o partido sai da latrina ou afunda de vez”. Graças à Lava-Jato, a sigla afundou de vez. Graças à sua pregação antipetista, Bolsonaro renovou seu mandato como deputado mais votado do Rio de Janeiro, saltando de 120,6 mil votos em 2010 para 464,5 mil em 2014.


Derrotado em 2022 graças à sua nefasta gestão, Bolsonaro pôs em marcha a tentativa de golpe que lhe rendeu a condenação a 27 anos e 3 meses de prisão, além do pagamento de multa e indenização. O acórdão publicado na terça-feira (22) abriu o prazo de cinco dias para a interposição de embargos de declaração e de 15 dias para embargos infringentes.


Os embargos de declaração servem apenas para pedir esclarecimentos sobre o texto do acórdão — nada de rediscutir o mérito. Já os embargos infringentes permitiriam um novo julgamento no plenário, mas o Supremo já decidiu em outros casos que eles só são admissíveis quando há pelo menos dois votos favoráveis à absolvição — condição que, adivinhe, não se aplica à condenação do ex-presidente. Ele cumpre prisão domiciliar desde agosto e pode ser enviado ao Complexo Penitenciário da Papuda antes do final do ano.


Há males que o tempo cura, males que vêm para pior e males que pioram com o passar dos anos. Lula 3.0 é uma reedição piorada das versões 1 e 2 e, como nada é tão ruim que não possa piorar, o macróbio quer, porque quer, disputar a reeleição em 2026 — para nossa alegria (risos nervosos).


Vale lembrar que o ministro Fachin tomou a decisão teratológica de anular as condenações de Lula em caráter eminentemente processual. Como o mérito não foi analisado, o ex-presidiário não foi absolvido. Em outras palavras, o ministro agiu como um delegado que manda soltar um criminoso porque ele foi preso em flagrante pela Guarda Civil Metropolitana, e não pela Polícia Militar. Mesmo assim, o macróbio eneadáctilo alega que foi inocentado — e sua claque amestrada acredita.


As consequências da inconsequência do eleitorado tupiniquim são lamentadas todos os dias, inclusive por quem abriu a Caixa de Pandora achando que estava escolhendo o menor de dois males — o que só se justificaria se não houvesse outra opção. Tanto em 2018 quanto em 2022 havia alternativas; só não viu quem não quis ou não conseguiu, porque sofre do pior tipo de cegueira, que é a mental.

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Reza uma velha (e filosófica) anedota que quando Deus estava distribuindo benesses e catástrofes naturais pelo mundo recém-criado, um anjo apontou para o que seria futuramente o Brasil e perguntou: Senhor, por que brindas essa porção de terra com clima ameno, praias e florestas deslumbrantes, grandes rios e belos lagos, mas não desertos, geleiras, vulcões, furacões ou terremotos? E o Criador respondeu: Espera para ver o povinho filho da puta que vou colocar lá.


Resumo da ópera:


Bolsonaro foi eleito em 2018 graças ao antipetismo, mas a emenda ficou pior que o soneto. Sua nefasta passagem pelo Planalto resultou na “descondenação” de Lula e culminou com seu terceiro mandato, que vem se revelando pior do que os anteriores. E a possibilidade de ele se reeleger é assustadoramente real, mesmo porque, ironicamente, seu maior cabo eleitoral é Bolsonaro — e seus filhos despirocados, claro.


Se Sérgio Moro não tivesse trocado a magistratura pelo ministério da Justiça no desgoverno do capetão, é possível que a Lava-Jato ainda estivesse ativa e operante, e Lula ainda estivesse cumprindo pena em Curitiba, na Papuda ou no diabo que o carregue. Tanto ele quanto Bolsonaro são cânceres que evoluíram para metástases e, portanto, se tornaram inoperáveis. Mais cedo ou mais tarde, a Ceifadora livrará o Brasil desse mal. Até lá, a abjeta polarização seguirá a todo vapor — a menos que uma “terceira via” surja e se consolide ao longo do ano que vem.


Políticos incompetentes e/ou corruptos que ocupam cargos eletivos não brotam nos gabinetes por geração espontânea; se estão lá, é porque foram eleitos por ignorantes polarizados, que brigam entre si enquanto a alcateia de chacais se banqueteia e ri da cara deles — e dos nossos, de brinde.


Einstein teria dito que o Universo e a estupidez humana são infinitos, mas salientou que, no tocante ao Universo, ele ainda não tinha 100% de certeza. Alguns aspectos de suas famosas teorias não sobreviveram à passagem do tempo, mas sua percepção da infinitude da estupidez humana deveria ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta e pendurada no hall de entrada do Congresso.


Não há provas de que boas ações produzam bons resultados. A lei do retorno é mera cantilena para dormitar bovinos, mas insistir no mesmo erro esperando produzir um acerto é a melhor definição de imbecilidade que conheço, e más escolhas inevitavelmente geram péssimas consequências — como temos visto a cada eleição presidencial desde 2002.


Triste Brasil.