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quarta-feira, 26 de novembro de 2025

TRISTE BRASIL

De tão recorrente, o vitimismo político se tornou um padrão nesta banânia.

De D. Pedro I, forçado a abdicar em 1831, ouvimos que “abria mão do cargo para "que o Brasil sossegasse".

Em 1954, Vargas tirou a própria vida (se é que não foi “suicidado”) e deixou uma carta melodramática afirmando que "saía da vida para entrar na História”.

Em 1961, Jânio Quadros afirmou que "forças terríveis o levaram a renunciar”. Vice do demagogo cachaceiro, João 'Jango' Goulart denunciou uma trama em que "não o deixavam governar" e foi apeado pelo golpe militar de 64.

Collor disse que caiu por conta de "um complô articulado por interesses contrariados"; Dilma, que foi vítima de uma "farsa"; Temer, que havia "uma conspiração contra seu governo". Lula, que ficou preso por 580 dias, pariu a seguinte pérola: "Eu sou uma jararaca; eles tentaram me matar e não conseguiram".


Em que pese esse passado de ressentimentos e lamúrias de imperadores e presidentes, ninguém foi tão constante na vitimização como Bolsonaro, seus familiares e seguidores. Além de requentar, amplificar e instrumentalizar ad nauseam a facada que levou às vésperas das eleições de 2018, o aspirante a tiranete perorou que "deu o sangue pelo país", numa tentativa de transformar um atentado em evento messiânico e idólatra.


No clássico "Purificar e Destruir", Jacques Sémelin anotou que muitos dos regimes mais autoritários e sanguinários da história foram justificados por uma violência redentora e restauradora contra inimigos da pátria que impedia o povo de atingir seu potencial.


No populismo, o povo é sempre trabalhador, moral, altivo, o verdadeiro representante da alma mais pura da nação, herdeiro legítimo dos bons tempos que construíram o país, e “eles”, os conspiradores que minavam os fundamentos da pátria como cupins.


A única saída para curar essa doença social era identificar os inimigos do povo e depois prender, exilar e matar. Não que os ditadores gostassem de violência. Eles a evocavam como um mal necessário para a restauração da ordem e passava a ser aceita como parte de uma guerra justa, legítima defesa, motivada por uma ira santa, patriotismo e sacrifício dos verdadeiros patriotas que sonham restaurar o passado glorioso que foi roubado por "eles".


Quanto mais crimes demandados pelos líderes do movimento, mais o vitimismo servia como justificativa moral e espiritual para os carrascos convocados naquela missão cívica. Mas a democracia pressupõe alternância de poder e é do jogo que grupos políticos distintos tenham vitórias e derrotas, entrem e saiam do poder.


Como ensinou Roger Scruton, a democracia é o regime em que os derrotados na eleição aceitam ser governados pelo grupo adversário e vão para a oposição em paz, desejando boa sorte a quem venceu e mostrando que o país está acima daquela disputa que se encerra. 


A lógica autoritária e tribal não reconhece adversários legítimos, apenas inimigos a serem destruídos. Toda disputa é existencial, e o destino da nação está sempre naquela disputa pelo poder que não admite derrota. Se o fim é a salvação do povo, todo meio é legítimo na luta, mesmo os mais violentos e arbitrários. E a maneira mais eficiente de convencer um cidadão comum a cometer atos criminosos, como invadir e vandalizar prédios públicos, é fazer com que ele acredite que ele é vítima, e que, naquela disputa, é matar ou morrer.


Foi essa lógica que alimentou o núcleo de desinformação da trama golpista bolsonarista — e funcionou por anos como central de produção de fantasias persecutórias, instigando e radicalizando parte da população contra as instituições, as urnas, as pesquisas e "eles".


Nenhum movimento político no país levou o vitimismo e o conspiracionismo tão longe quanto o bolsonarismo. Em 2018, ainda no hospital, Bolsonaro afirmou em rede nacional: "Eu, pelo que eu vejo nas ruas, não aceito resultado das eleições diferente da minha eleição". Três anos depois, diante de pastores, completou: "Só saio [da presidência] preso, morto ou com a vitória". "Não tenho ambição pelo poder, tenho obsessão pelo Brasil", repetia. "Deus me colocou aqui, e somente Deus me tira daqui". Depois da prisão, mais vitimismo: "Estou sendo humilhado. Não tem nada de concreto. Isso é perseguição".


Quando foi derrubado por um golpe militar, D. Pedro II tinha à mão todo o prestígio necessário para incendiar o país e provocar o caos. Muitos correligionários se ofereceram para pegar em armas e defender seu reinado, mas ele partiu sem vitimismo, sem bravata, sem transformar sua dor em chantagem. Aceitou o exílio com serenidade. Saiu como estadista, não como coitado — e nunca foi superado. Jamais teremos mais um brasileiro como D. Pedro II, mas poderíamos ter ao menos um mínimo de compostura.


Bolsonaro precisa de remédio que ofereça democracia, não de psiquiatra. Não existe droga química contra o fascismo. O remédio é a política, o exercício da democracia até onde ela deve e pode alcançar, que é fazer a defesa de si mesma. E para isso é preciso às vezes prender pessoas que cometem crimes.


Os advogados do ex-presidente insistem que seu cliente precisa ficar em casa para ter uma assistência permanente, eventualmente com aparelhos, etc., que na cadeia ele não teria. Mas a pergunta é: cadê o imbrochável, incomível e imorrível, para quem a Covid não passava de uma gripezinha mixuruca? Que estaria saudável para enfrentar uma campanha eleitoral, mas que vai morrer se ficar numa cela da Papuda?


Bolsonaro sempre foi contra punir fake news, porque mentir não é crime. Na esteira desse raciocínio, fingir demência também não é.


Inspirado em um artigo de Alexandre Borges

terça-feira, 11 de novembro de 2025

ANDROID OU iOS? A ESCOLHA É SUA (CONTINUAÇÃO)

MANDA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO.

Os primeiros "cérebros eletrônicos" surgiram nos anos 1940. No final da década seguinte, a IBM lançou os primeiros computadores totalmente transistorizados. 


Mais adiante, a TEXAS INSTRUMENTS revolucionou o mundo da tecnologia com os circuitos integrados (conjuntos de transistores, resistores e capacitores), que a Big Blue usou com total sucesso no IBM 360, lançado em 1964. 


Anos depois, a INTEL agrupou múltiplos CIs numa única peça, dando origem os microchips, e dali até o advento dos computadores de pequeno porte foi um pulo. Nas pegadas do ALTAIR 8800, vendido sob a forma de kit, o PET 2001, lançado em 1977, entrou para a história como o primeiro computador pessoal.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Conhecido por ter a língua mais frouxa que o esfíncter, Lula condenou-se no último domingo à meia palavra, ao discursar num evento esvaziado — dos 60 chefes de estado convidados, apenas nove compareceram — na cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, a Celac, na Colômbia.

Tendo a presença militar dos EUA nos mares do Caribe e na costa da Venezuela como pano de fundo, o petista recorreu à sugestão, às entrelinhas, ao subentendido, como se temesse uma reação de Trump. Afirmou que "velhas manobras retóricas são recicladas para justificar intervenções ilegais", mas não dedicou um mísero garrancho verbal às embarcações venezuelanas afundadas, às execuções extrajudiciais e à alegação não comprovada de que transportavam drogas.

As meias palavras de Lula contrastaram com o discurso de palavras inteiras do anfitrião colombiano Gustavo Petro. Ele chamou de "barbárie" e "assassinatos" os ataques americanos. Vê-lo medir as palavras e o chanceler Mauro Vieira enfiar a régua da diplomacia em local incerto e não sabido — ao dizer que a Celac daria "um apoio, uma solidariedade regional à Venezuela” — gerou o receio de o Sun-Tzu de Atibaia fazer um bate-volta à Colômbia e produzir improvisos de indignação com o propósito de alisar o pelo da esquerda latino-americana.

A melhor maneira de exorcizar um demônio é falar nele. A reticência a que recorreu Lula para suprimir o nome de Trump se explica pela prudência, mas aí é preciso explicar a prudência: Lula manteve a língua no cabresto para não correr o risco de contaminar as negociações para rever o tarifaço, algo prioritário para o interesse nacional, mas, se estava condenado pelas circunstâncias a fazer um discurso de meias palavras, por que decidiu na última hora voar para a Colômbia se a prudência recomendava a ausência? 

Ou ele dizia tudo ou não dizia nada. Ao dizer apenas a metade, reforçou a noção de que o demônio laranja dá as cartas.


Depois que Apple revolucionou o mercado de celulares com seu icônico iPhone (2007), os fabricantes concorrentes se viram forçados a promover seus dumbphones a smartphones; depois que os smartphones se tornaram verdadeiros microcomputadores de bolso, cada vez menos pessoas usam desktops e notebooks — salvo quando a tarefa requer tela de grandes dimensões, teclado e mouse físicos e mais poder de processamento, memória e armazenamento que os "pequenos notáveis" são capazes de proporcionar.

 

Curiosamente, Thomas Watson — que presidia a IMB em meados do século passado — profetizou que "haveria mercado para talvez cinco computadores", referindo-se aos gigantescos e caríssimos mainframes de então. Nas décadas seguintes, as previsões continuaram equivocadas. Ken Olsen, presidente e fundador da Digital Equipment Corp., vaticinou em 1977 que "não havia razão para alguém querer um computador em casa" — e viveu por tempo suficiente para se arrepender de sua falta de previsão, mas isso é outra conversa.

 

Até a virada do século, muita gente torcia o nariz para os microcomputadores, achando que não fazia sentido pagar caro por um mero substituto digital da máquina de escrever, da calculadora e do baralho de cartas. Mas não há nada como o tempo para passar. Nos anos seguintes, os PCs venderam feito pão quente. Escolas de informática e cursos de montagem e manutenção de "micros" se reproduziram como coelhos. Revistas sobre TI vendiam mais que o jornal do dia, sobretudo quando traziam disquetes (e, mais adiante, CDs) com os arquivos de instalação de programinhas demo ou freeware. 

 

Observação: Embora esses arquivos pudessem ser "baixados" por qualquer pessoa que dispusesse de um PC e de um modem analógico, a conexão discada era lenta e encarecia consideravelmente a conta do telefone — a não ser nos feriados e finais de semana, quando as operadoras cobravam um pulso por chamada, independentemente do tempo de ligação. 

 

Meu primeiro desktop foi um AT 286, presenteado por um primo que trabalhava na IBM. Por vias tortas, o presente deu azo ao primeiro artigo que publiquei sobre vírus de computador. A matéria não rendeu muito dinheiro, mas me estimulou a continuar escrevendo sobre TI — na sequência, publiquei meus ensaios em revistas como In-Hardware, Curso Dinâmico de Hardware, INFO, PC WORLD, PC Magazine e PC&Cia. Mais adiante, a parceria com um amigo e editor gráfico resultou em dezenas de livrinhos da saudosa Coleção Guia Fácil Informática. 

 

Observação: Foi justamente para embasar a edição Blogs & Websites que criei este espaço em 2006. A ideia era tirá-lo do ar assim que o livrinho chegasse às bancas, mas o carinho dos leitores (que o viam como um canal de comunicação para tirar dúvidas e fazer consultas) me levou a seguir adiante. E cá estamos nós, 19 anos e 7.394 postagens depois.

 

Se você está se perguntando o que isso tem a ver com assunto em pauta, a resposta é: nada. Fi-lo porque qui-lo (como teria dito Jânio Quadros quando lhe perguntaram por que renunciou à Presidência em 1961 — lembrando que o correto é "fi-lo porque o quis". Ou talvez por mero saudosismo; afinal, a idade torna as pessoas nostálgicas — daí eu ter dedicado nove parágrafos (sem contar o atual) a estas divagações. Dito isso, passemos ao que interessa.

 

A exemplo dos PCs do final da década de 1990, os primeiros celulares traziam manuais com centenas de páginas. O uso básico dos telefoninhos era mais intuitivo que o dos PCs, já que a maioria servia para fazer e receber ligações de voz e SMS. Mas para usar a agenda, a calculadora e o cronômetro, programar o despertador e jogar os games rudimentares que eles ofereciam, era necessário consultar o manual do usuário — que quase ninguém se dava ao trabalho de ler e, consequentemente, acabava subutilizando o dispositivo. Isso sem falar que quem trocava um aparelho da Ericsson por um modelo da Motorola, por exemplo, passava semanas reaprendendo a usar o celular.

 

Atualmente, quem migra de um smartphone Samsung para um Motorola — também por exemplo — não enfrenta maiores dificuldades, pois ambas as fabricantes utilizam o sistema operacional Android, desenvolvido pelo Google. Mesmo que cada uma crie sua própria UI (interface de usuário), e que ícones, botões, menus, layouts e informações na tela possam variar, a adaptação é bem mais rápida e intuitiva do que na era dos dumbphones, já que a maioria dos recursos não é fornecida pelo aparelho em si, mas pelo sistema operacional. Mas isso não significa que cada UI não tenha suas peculiaridades. 

 

A One UI da Samsung oferece a suíte de aplicativos Good Lock, que permite alterar a aparência do painel de notificações, o gerenciador de tarefas, a tela de bloqueio e muito mais. A Pasta Segura oferece um espaço privado para armazenar aplicativos, arquivos e dados sensíveis, protegidos por senha ou biometria. O Dual Audio possibilita a reprodução de áudio em dois fones de ouvido simultaneamente — ideal para compartilhar música ou vídeos com outra pessoa —, além de captura de tela por gestos, de fotos por comando de voz, e filtros para videochamadas.

 

A Hello UI da Motorola conta com o Moto Display, que exibe informações importantes na tela bloqueada de forma discreta e permite interações rápidas, como visualizar notificações e controlar a reprodução de músicas. O Gestos Moto oferece atalhos práticos para ações como abrir a câmera, lanterna, capturar a tela e acessar outras funções do celular por meio de gestos com as mãos ou movimentos. A Bateria Adaptável otimiza o uso da bateria com base no perfil do usuário, visando prolongar a autonomia do aparelho, e o Moto Actions permite personalizar gestos para ações rápidas, como abrir a câmera girando o pulso ou ligar a lanterna balançando o celular. 

 

A Motorola se destaca pela interface mais próxima da versão pura do Android, com menos modificações e personalizações, o que pode agradar usuários que preferem uma experiência mais clean e leve. Mas alguns recursos estão presentes em aparelhos de ambas as marcas, ainda com implementações diferentes, enquanto outros podem ser exclusivos de modelos específicos de cada marca. 

 

O resto fica para o próximo capítulo. 

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

MENTIRAS QUE SOAM VERDADEIRAS

É MELHOR UM FIM HORROROSO DO QUE UM HORROR SEM FIM.  

A maioria de nós já ouviu dizer que avestruzes enterram a cabeça na areia quando estão assustados, que preguiças são preguiçosas, que porcos são sujos, que golfinhos estão sempre sorrindo, que elefantes nunca esquecem, que Lula foi absolvido e que Bolsonaro foi condenado injustamente. Só que nada disso é verdade. 


No que tange aos avestruzes, as fêmeas colocam a cabeça no buraco que usam como ninho para virar os ovos várias vezes durante o dia — se realmente enterrassem a cabeça para não ver o perigo, como diz a lenda, as pobres aves morreriam asfixiadas. 


As preguiças se movem devagar porque seu metabolismo as obriga a economizar energia, e como não andam sobre as solas dos pés, mas se arrastam com suas longas garras, sua locomoção nas árvores e no solo é lenta e desajeitada. Por outro lado, elas se movem velozmente na água e dormem cerca de 10 horas por dia — bem menos que os gatos e outros animais domésticos.


Os porcos são animais naturalmente asseados. Eles defecam longe de onde comem, dormem e acasalam, mas, como não conseguem suar, refrescam-se chafurdando na lama — o que lhes dá a aparência de sujos. Por outro lado, é impossível manter-se limpo quando se vive confinado num chiqueiro pequeno, superlotado e imundo.


Os golfinhos são brincalhões e parecem sorrir porque o formato de suas mandíbulas cria essa ilusão. Mas são incapazes de mudar de expressão, e podem ser surpreendentemente desagradáveis e traiçoeiros, chegando a atacar outros mamíferos marinhos e até pessoas quando se sentem ameaçados.


Os elefantes possuem o maior cérebro entre os mamíferos terrestres. Seu lobo temporal — extremamente desenvolvido — permite memorizar cheiros, vozes, lugares, hierarquias, vínculos familiares e comandos de voz. Eles são capazes de reconhecer outros elefantes — e até humanos — após décadas de separação, bem como de manter relações complexas dentro da manada, que a matriarca conduz por rotas migratórias antigas, guiada por lembranças de locais com água e comida.


Assim como afirmar que “os elefantes não esquecem” é uma simplificação poética embasada na ciência, dizer que os eleitores brasileiros fazem, a cada dois anos, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez por curiosidade, é uma simplificação poética embasada na mitologia grega.


Celebrizada pelo jornalista Ivan Lessa, a máxima segundo a qual os brasileiros esquecem, a cada 15 anos, o que aconteceu nos últimos 15, ilustra a quintessência da falta de memória — ou de preparo — do nosso eleitorado. Aliás, em momentos distintos da ditadura, Pelé e o ex-presidente João Figueiredo alertaram para o risco de misturar brasileiros e urnas em eleições presidenciais. Ambos foram muito criticados, mas como contestá-los, se lutamos tanto pelo direito de votar para presidente e elegemos gente como Lula, Dilma e Bolsonaro?


Em 135 anos de história republicana, 35 brasileiros foram alçados à Presidência pelo voto popular, eleição indireta, linha sucessória ou golpe de Estado. Em agosto de 1961, a renúncia de Jânio Quadros ladrilhou o caminho para o golpe de 1964, que depôs João “Jango” Goulart do Palácio do Planalto e deu início a duas décadas de ditadura militar.


Em 1989, depois de 29 anos sem votar para presidente e podendo escolher entre Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola — de um cardápio com mais de 20 postulantes — a plebe ignara preferiu despachar Collor e Lula para o segundo turno. O caçador de marajás de mentirinha derrotou o desempregado que deu certo por 683.920 a 215.177 votos válidos, provando que memória histórica e senso crítico não são pré-requisitos para exercer o direito de voto.


Collor foi empossado em março de 1990 e penabundado em dezembro de 1992. Em 1994, graças ao bem-sucedido Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, elegeu-se presidente no primeiro turno. Picado pela “mosca azul”, comprou a PEC da Reeleição.


Como quem parte, reparte e não fica com a melhor parte é burro ou não tem arte, o tucano de plumas vistosas renovou seu mandato no ano seguinte — novamente no primeiro turno. Mas não há nada como o tempo para passar. Em 2002, sem novos coelhos para tirar da velha cartola, não conseguiu eleger seu sucessor: Lula derrotou José Serra por 61,27% a 38,73% dos votos válidos.


Em 2006, apesar do escândalo do mensalão, o petista venceu Geraldo Alckmin por 60,83% a 39,17% dos votos válidos. Em 2010, visando manter aquecida a poltrona que tencionava disputar dali a quatro anos, fez eleger um “poste” — Dilma Rousseff —, que pegou gosto pelo poder, fez o diabo para se reeleger, entrou em curto-circuito e foi desligada em 2016, pondo fim a 13 anos e fumaça de lulopetismo corrupto.


Com o impeachment da mulher sapiens, Michel Temer passou de vice a titular do cargo. Num primeiro momento, a troca de comando pareceu alvissareira. Depois de mais de uma década ouvindo garranchos verbais de um semianalfabeto e frases desconexas de uma destrambelhada que não sabia juntar sujeito e predicado, ter um presidente que sabia falar — até usando mesóclises — foi como uma lufada de ar fresco numa catacumba. Mas há males que vêm para o bem e bens que vêm para pior.


O prometido “ministério de notáveis” revelou-se uma notável agremiação de corruptos, e a “ponte para o futuro”, uma patética pinguela. Depois que sua conversa de alcova com Joesley Batista veio a lume, Temer pensou em renunciar, mas foi demovido por sua tropa de choque.


Escudado das flechadas de Janot pelas marafonas da Câmara, o nosferatu que tem medo de fantasma concluiu seu mandato-tampão como pato manco e transferiu a faixa para um mix de mau militar e parlamentar medíocre travestido de outsider antissistema, que se tornou o pior mandatário tupiniquim desde Tomé de Souza.


Para provar que era amigo do mercado e obter o apoio dos empresários, o estadista que sempre acreditou em Estado grande e intervencionista e lutou por privilégios para corporações que se locupletam do Estado há décadas, foi buscar Paulo Guedes..


Para provar que era inimigo da corrupção e obter o apoio da classe média, o deputado adepto das práticas da baixa política, amigo de milicianos, que em sete mandatos aprovou apenas dois projetos e passou por oito partidos diferentes, todos de aluguel, foi buscar Sérgio Moro. 


Para obter o apoio das Forças Armadas, o oficial de baixa patente, despreparado, agressivo e falastrão, condenado por insubordinação e indisciplina e enxotado da corporação, foi buscar legitimidade numa penca de generais saudosos da ditadura.


Bolsonaro obrigou Moro a reverter uma nomeação, tomou-lhe o Coaf, forçou-o a substituir um superintendente da PF e esnobou seu projeto contra a corrupção. O ex-juiz fingiu que não viu, tentou negociar e, por fim, desembarcou do governo para tentar salvar o pouco prestígio que lhe restava.


Bolsonaro desautorizou Guedes, interferiu em seu ministério, sabotou seus projetos e, com o Centrão, enterrou de vez a agenda econômica. A maneira como gerenciou a pandemia de Covid foi catastrófica. Os crimes comuns e de responsabilidade cometidos pelo aspirante a genocida só ficaram impunes graças à leniência de Rodrigo Maia e Arthur Lira, que presidiram a Câmara durante sua gestão, e à cumplicidade de Augusto Aras, seu antiprocurador-geral.


Bolsonaro jamais escondeu a admiração pela ditadura militar e a vocação para o autoritarismo. Em 2019, poucos meses após a posse, reconheceu que não nasceu para ser presidente, mas para ser militar, embora tenha passado menos anos no Exército do que na política e, ao longo de 27 anos no baixo clero da Câmara, tenha apresentado 172 projetos, relatado 73 e aprovado apenas dois.


Na eleição de 2014, ao ver o poste de Lula derrotar o neto corrupto de Tancredo, Bolsonaro resolveu disputar a Presidência “com a cara da direita”. Ignorado pelo PP, que apoiou a campanha de Dilma, lançou seu ultimato: “Ou o partido sai da latrina ou afunda de vez”. Graças à Lava-Jato, a sigla afundou de vez. Graças à sua pregação antipetista, Bolsonaro renovou seu mandato como deputado mais votado do Rio de Janeiro, saltando de 120,6 mil votos em 2010 para 464,5 mil em 2014.


Derrotado em 2022 graças à sua nefasta gestão, Bolsonaro pôs em marcha a tentativa de golpe que lhe rendeu a condenação a 27 anos e 3 meses de prisão, além do pagamento de multa e indenização. O acórdão publicado na terça-feira (22) abriu o prazo de cinco dias para a interposição de embargos de declaração e de 15 dias para embargos infringentes.


Os embargos de declaração servem apenas para pedir esclarecimentos sobre o texto do acórdão — nada de rediscutir o mérito. Já os embargos infringentes permitiriam um novo julgamento no plenário, mas o Supremo já decidiu em outros casos que eles só são admissíveis quando há pelo menos dois votos favoráveis à absolvição — condição que, adivinhe, não se aplica à condenação do ex-presidente. Ele cumpre prisão domiciliar desde agosto e pode ser enviado ao Complexo Penitenciário da Papuda antes do final do ano.


Há males que o tempo cura, males que vêm para pior e males que pioram com o passar dos anos. Lula 3.0 é uma reedição piorada das versões 1 e 2 e, como nada é tão ruim que não possa piorar, o macróbio quer, porque quer, disputar a reeleição em 2026 — para nossa alegria (risos nervosos).


Vale lembrar que o ministro Fachin tomou a decisão teratológica de anular as condenações de Lula em caráter eminentemente processual. Como o mérito não foi analisado, o ex-presidiário não foi absolvido. Em outras palavras, o ministro agiu como um delegado que manda soltar um criminoso porque ele foi preso em flagrante pela Guarda Civil Metropolitana, e não pela Polícia Militar. Mesmo assim, o macróbio eneadáctilo alega que foi inocentado — e sua claque amestrada acredita.


As consequências da inconsequência do eleitorado tupiniquim são lamentadas todos os dias, inclusive por quem abriu a Caixa de Pandora achando que estava escolhendo o menor de dois males — o que só se justificaria se não houvesse outra opção. Tanto em 2018 quanto em 2022 havia alternativas; só não viu quem não quis ou não conseguiu, porque sofre do pior tipo de cegueira, que é a mental.

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Reza uma velha (e filosófica) anedota que quando Deus estava distribuindo benesses e catástrofes naturais pelo mundo recém-criado, um anjo apontou para o que seria futuramente o Brasil e perguntou: Senhor, por que brindas essa porção de terra com clima ameno, praias e florestas deslumbrantes, grandes rios e belos lagos, mas não desertos, geleiras, vulcões, furacões ou terremotos? E o Criador respondeu: Espera para ver o povinho filho da puta que vou colocar lá.


Resumo da ópera:


Bolsonaro foi eleito em 2018 graças ao antipetismo, mas a emenda ficou pior que o soneto. Sua nefasta passagem pelo Planalto resultou na “descondenação” de Lula e culminou com seu terceiro mandato, que vem se revelando pior do que os anteriores. E a possibilidade de ele se reeleger é assustadoramente real, mesmo porque, ironicamente, seu maior cabo eleitoral é Bolsonaro — e seus filhos despirocados, claro.


Se Sérgio Moro não tivesse trocado a magistratura pelo ministério da Justiça no desgoverno do capetão, é possível que a Lava-Jato ainda estivesse ativa e operante, e Lula ainda estivesse cumprindo pena em Curitiba, na Papuda ou no diabo que o carregue. Tanto ele quanto Bolsonaro são cânceres que evoluíram para metástases e, portanto, se tornaram inoperáveis. Mais cedo ou mais tarde, a Ceifadora livrará o Brasil desse mal. Até lá, a abjeta polarização seguirá a todo vapor — a menos que uma “terceira via” surja e se consolide ao longo do ano que vem.


Políticos incompetentes e/ou corruptos que ocupam cargos eletivos não brotam nos gabinetes por geração espontânea; se estão lá, é porque foram eleitos por ignorantes polarizados, que brigam entre si enquanto a alcateia de chacais se banqueteia e ri da cara deles — e dos nossos, de brinde.


Einstein teria dito que o Universo e a estupidez humana são infinitos, mas salientou que, no tocante ao Universo, ele ainda não tinha 100% de certeza. Alguns aspectos de suas famosas teorias não sobreviveram à passagem do tempo, mas sua percepção da infinitude da estupidez humana deveria ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta e pendurada no hall de entrada do Congresso.


Não há provas de que boas ações produzam bons resultados. A lei do retorno é mera cantilena para dormitar bovinos, mas insistir no mesmo erro esperando produzir um acerto é a melhor definição de imbecilidade que conheço, e más escolhas inevitavelmente geram péssimas consequências — como temos visto a cada eleição presidencial desde 2002.


Triste Brasil.