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segunda-feira, 9 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 82ª PARTE

O REAL NÃO ESTÁ NA SAÍDA NEM NA CHEGADA, MAS NO MEIO DA TRAVESSIA.

Compreender o tempo como ele realmente é pode ser tão letal quanto dobrá-lo, e talvez por isso não existam provas, vestígios e testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.

Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 dentro de uma tumba da Dinastia Ming que ficou selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis indicam fraude.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Lulinha ficou tão isolado que precisa parar de andar sozinho se quiser evitar as más companhias. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, confirmou a votação da CPI do INSS que quebrou o sigilo bancários do "Ronaldinho dos negócios", e a bancada governista desistiu de resistir: "A gente luta para vencer, mas aceita quando perde", disse Randolfe Rodrigues, líder do governo no Congresso. 

Deve-se a resignação ao fato de o ministro André Mendonça ter autorizado em janeiro a PF a invadir as contas bancárias e o Imposto de Renda de Lulinha, dada a suspeita de que ele recebeu dinheiro do Careca do INSS, operador do assalto contra os aposentados.

O Planalto passaria atestado de burrice se continuasse erguendo barricadas numa CPMI que deve terminar em 28 de março. O filho do pai já havia recebido um chega-prá-lá: "Se tiver filho meu metido nisso, será investigado." Haddad também tomou distância: "Lulinha não participa do governo, não conheço a sua vida."

Sem apoio no Congresso e com a PF dentro das suas contas, o primogênito de Lula logo estará cantarolando versos do clássico de Cazuza "Maior Abandonado".


Numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork em British Columbia (Canadá), em 1941, um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos de turno, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros como aqueles eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo".


A guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta.


Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das Mil e Uma Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos.


Sherlock Holmes ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia, que “se houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. O grosso das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua...

sábado, 7 de março de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 81ª PARTE

ÀS VEZES, BASTA UMA MUDANÇA DE PERSPECTIVA PARA REVELAR A VERDADE.

Ninguém sabe ao certo quem ele foi ou de onde veio. Há quem jure que se chamava Rudolph Fentz e que apareceu do nada em plena Times Square, trajando roupas do século XIX e segurando moedas antigas no bolso. Outros sustentam que se tratava de Andrew Carlssin, um investidor anônimo que multiplicou o capital em 126 operações seguidas na Bolsa por ter vindo do futuro (2256), e os mais céticos afirmam que ele nunca existiu, que sua "aparição" não passou de uma sucessão de coincidências, boatos e más interpretações.

O que poucos percebem é que as três versões contam a mesma história: Fentz, Carlssin, ou seja lá quem for, teria descoberto o segredo que há séculos atormenta físicos e filósofos: não é o tempo que nos atravessa, somos nós que o dobramos sem perceber — nas decisões que adiamos, nos caminhos que não tomamos, nas lembranças que nos visitam fora de hora.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


É enorme o empenho suprapartidário para acobertar o escândalo do Master, mas, a despeito das articulações anti-CPI, o avanço das investigações é proporcional à quantidade de dados estocados nos dispositivos eletrônicos de Daniel Vorcaro, e os abafadores vêm enfrentando dificuldades para conter a sujeira nos limites das bordas do tapetão.

A conjuntura está assentada sobre um paiol em que se misturam os favores de Vorcaro e as facilidades que os favorecidos — entre eles autoridades dos Três Poderes e políticos de todas as ideologias — ofereceram ao dono do Master para praticar crimes — as gentilezas incluíram desde contribuições de campanha a contratos milionários, além de convites para festas de arromba.

Se a apuração é incontornável, procrastinar a limpeza é conspirar pela conturbação do processo eleitoral, que pode transformar a sucessão presidencial num grande ventilador.

A ventania aumentou desde André Mendonça acumulou a relatoria do roubo das aposentadorias do INSS e o caso Master. Os dados obtidos por meio da quebra do sigilo telemático de Vorcaro já estão sendo processados pelos computadores da CPI, e o vazamento é tão certo quanto o nascer no leste.

Há em Brasília dois tipos de políticos: os que temem o enrosco e os que desejam desgastar os enroscados. Numa escala de zero a dez, a hipótese de uma combinação como essa terminar bem é de menos onze.


A história teria começado com um projeto confidencial de pesquisa em física experimental, conduzido fora dos grandes centros, sem patrocínio estatal e longe de olhares curiosos. O objetivo oficial era estudar os efeitos da ressonância quântica do vácuo — uma expressão bonita para designar o comportamento errático das partículas virtuais que simplesmente aparecem e desaparecem. Extraoficialmente, porém, havia quem falasse em curvatura artificial do espaço-tempo.


Segundo alguns conspirólogos, o homem misterioso — cujo verdadeiro nome ninguém soube ao certo — trabalhava num laboratório subterrâneo e, engolido acidentalmente pela própria criação, acabou saltando para um ponto qualquer entre o ontem e o amanhã. Mas talvez ele tenha conseguido o que todos sonham e ninguém admite: voltar ao instante em que tudo ainda podia ser diferente. Fala-se que ele acreditava que o tempo era um campo vibratório que, sob determinadas condições de frequência e energia, poderia provocar uma espécie de desalinhamento temporal — talvez não uma viagem física no sentido clássico, mas uma transposição de perspectiva em que a mente se projetaria para um outro ponto da linha temporal… e foi aí que o impossível aconteceu.


Os registros fragmentários e contraditórios falam de um experimento realizado às três da madrugada numa câmara blindada revestida de chumbo e grafeno. Há menção a uma sequência de pulsos eletromagnéticos sincronizados com a rotação da Terra, a um breve colapso de energia e a uma luminosidade azulada que “parecia vibrar como se tivesse vontade própria”. Depois disso, silêncio. Nenhum alarme, nenhuma explosão, nenhuma evidência de falha. Passados 30 segundos, o sistema religou sozinho. O ar estava ionizado, o relógio da câmara marcava um horário diferente dos demais relógios do laboratório — e o homem havia simplesmente desaparecido.


Há quem diga que o homem nunca saiu do lugar, que sua consciência apenas “saltou de trilho”, enxergando simultaneamente o passado, o presente e o futuro — e que isso o enlouqueceu. No entanto, um guarda noturno de Nova York em 1951 disse ter deparado com um sujeito desorientado, vestindo roupas antiquadas e incapaz de explicar onde estava. Uma semana depois, jornais sensacionalistas publicaram a história de um "viajante do tempo acidental". Coincidência? Talvez. Mas algumas coincidências soam mais como recados.


Talvez compreender o tempo como ele realmente é seja tão letal quanto dobrá-lo, e por isso não há provas, nem vestígios, nem testemunhas confiáveis, apenas histórias mal contadas, registros truncados e um estranho fenômeno: toda vez que alguém tenta provar que o experimento nunca existiu, novos indícios surgem, como se o próprio tempo conspirasse para manter viva a lembrança de quem ousou desafiá-lo.


Igualmente emblemático é o caso do OOPArt — acrônimo de Out Of Place Artefact — encontrado em 2008 no interior de uma tumba da Dinastia Ming que permaneceu selada por mais de 400 anos. A caixa do artefato que não poderia estar ali exibia a inscrição Swiss, e os ponteiros marcavam 10h06. Para os entusiastas do insólito, trata-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo; para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos, publicações acadêmicas e imagens confiáveis sugeriam fraude.


Numa foto tirada em 1941, durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), um indivíduo se destaca na multidão pelos cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 — como ele ficou conhecido — e outra pessoa segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna são viajantes do tempo; para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. 

 

No início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100, necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o efeito 2038. O modelo em questão havia sido lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação fazia sentido. Além disso, a IBM reconheceu o “desaparecimento misterioso” de uma unidade dotada de uma interface que dava acesso a todos os códigos da empresa.


Titor detalhou seus deslocamentos temporais, disse que o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001 e que as máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Postou desenhos esquemáticos e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". Mas a guerra civil que ele revelou que aconteceria em 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial, que teria início em 2015 e dividiria os EUA em cinco países. Por outro lado, a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. 


Em março de 2001, após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, Titor desapareceu dos fóruns, deixando uma frase misteriosa — traga uma lata de gasolina com você para quando seu carro morrer na estrada — e diversas perguntas sem resposta. Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o suposto viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de John Titor Foundation, onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida.


Para os teóricos da conspiração, as previsões de Titor não falharam, apenas deram a abertura temporal para que ele as corrigisse a tempo de não ocorrerem. O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o modelo Everett-Wheeler da física quântica estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo; a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. 


Ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Se sua narrativa for mesmo uma fraude, quem a criou sabia muito bem do que estava falando.


Observação: A Interpretação de Muitos Mundos (IMM) postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um universo paralelo e resolve o paradoxo do avô, segundo o qual alguém que voltasse ao passado e matasse o próprio avô se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal, já que não poderia existir na dele.


A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Os Contos das 1.001 Noites estão repletos de tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz e outros prodígios tecnológicos que passariam a existir dali a milhares de anos. Sherlock Holmes nos ensinou que “uma vez descartado o impossível, qualquer coisa que sobre, por mais improvável que pareça, deve ser a verdade”, e o princípio da parcimônia —, que “quando houver múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si”. 


Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias. Foi o que faz Júlio Verne ao imaginar submarinos atômicos e viagens à Lua quase um século antes de se tornarem realidade. Mas quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como memória do futuro fica ainda maior. 


Resumo da ópera: A maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. A maioria das “provas” não resiste a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios terem trabalhado duro durante três décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar os blocos de pedra”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…

sábado, 31 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 70ª PARTE

TIME AND TIDE WAIT FOR NO MEN.

Desde as mais priscas eras, o tempo se apresenta ora como um deus implacável, ora como um fluxo sereno, ora como uma ilusão. Na mitologia grega, Cronos usa sua foice para castrar seu pai, Urano, que aprisionava os filhos por receio de ser destronado, e passa a devorar os seus


Trata-se de uma metáfora cruel, em que o tempo surge como uma força que tudo consome, destruindo sem concessões pai e filho, criação e criador. Não por acaso, a iconografia ocidental transformou a foice de Cronos na imagem tradicional da morte ceifadora.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Pelo andar das carruagens, Flávio Bolsonaro terá que brigar com um candidato do seu próprio campo ideológico por uma vaga no segundo turno para se consolidar como um anti-Lula oficial. No melhor estilo Marcola, Fernandinho Beira-Mar e Cia. Ltda.,, Bolsonaro produziu de dentro da cadeia uma briga autofágica da direita por território e vem tratando facções do Centrão como drones operados por controle remoto desde a Papudinha.

Noutros tempos, o fardo do divisionismo era carregado pela esquerda. A falta de opção faz de Lula um fator de união desse segmento. Na outra ponta, Bolsonaro impõe seu estilo canibal ao conservadorismo brasileiro.

A primeira novidade da sucessão de 2026 surgiu em dezembro de 2025, quando Zero Um disse ter sido escolhido pelo pai como candidato do PL ao Planalto. Decorridos quase dois meses, Tarcísio de Freitas foi à Papudinha para ouvir dos lábios do criador que seu sonho presidencial foi pelos ares.

A segunda novidade surgiu dias atrás, com o desembarque de Ronaldo Caiado no PSD. Sua chegada afunilou a articulação do partido de Kassab para oferecer uma opção ao eleitorado conservador. Vai à urna Ratinho Júnior, Caiado ou Eduardo Leite — o que estiver mais musculoso nas pesquisas até abril —, e o pior é que o eleitorado medíocre, desinformado e mal-ajambrado baterá os cascos em apoio a esse tipo de gente.

 

Enquanto poemas, músicas como Dust in the Wind e pinturas traduzem a inevitável transitoriedade da vida, Proust devolve ao presente aquilo que o passado parecia ter devorado, como na célebre cena da Madeleine, e o cinema faz do tempo um personagem central, tanto nas narrativas fragmentadas de Amnésia quanto nos paradoxos temporais de Interestelar, que transforma em drama humano a dilatação di tempo prevista por Einstein.

 

Na filosofia, Santo Agostinho sintetiza sua angústia na frase: “Se ninguém me pergunta, eu sei o que é; mas se me perguntam, já não sei responder” — para ele, presente e futuro só existem dentro da consciência, como memória, atenção e expectativa. Séculos depois, Henri Bergson distingue entre o tempo mensurável da ciência e a duração subjetiva da vida, fluida e elástica, enquanto Martin Heidegger faz do tempo a condição fundamental da existência.

 

Mas é na ciência moderna que o tempo se torna questão de medição e de leis. Newton falava de um “tempo absoluto”, invisível mas necessário para ordenar os movimentos do mundo. Essa noção foi revolucionada por Einstein, que demonstrou com suas equações relativísticas que não somos viajantes imóveis em um rio inexorável, e sim habitantes de um tecido cósmico onde espaço e tempo formam uma única realidade. A partir daí, tornou-se possível compreender que o tempo não é igual para todos.

 

Devido às dilatações do tempo e da gravidade, o relógio anda mais devagar para quem se move em altas velocidades ou habita regiões onde a atração gravitacional é mais intensa. Um minuto numa espaçonave viajando a uma velocidade próxima à da luz equivale a milhares de anos terrestres, e um minuto no topo do Monte Everest corresponde a 60,000000000058 segundos no nível do mar — uma diferença de míseros 58 nanossegundos, mas mensurável com relógios atômicos de alta precisão.

 

Na cosmologia, o tempo como o conhecemos nasceu com o Big Bang — especular sobre o que havia antes dele faz tanto sentido quanto perguntar o que existe ao norte do Polo Norte. Alguns físicos sugerem que o tempo pode não ser uma dimensão primordial, e sim uma propriedade emergente das relações entre partículas e energias, ao passo que outros chegam a questionar se ele existe de fato ou é apenas uma ilusão fabricada por nossa mente para ordenar as mudanças que percebemos.

 

Nossos antepassados começaram a medir o tempo quando notaram que as fases da Lua e a mudança das estações influenciavam o comportamento dos animais — uma questão vital para quem vivia da caça e da pesca. Em meados do terceiro milênio a.C., os sumérios criaram o primeiro calendário lunar, e os egípcios, um modelo solar com 365 dias divididos em 12 meses de 30 dias, mais 5 dias ao final do ano para completar o ciclo. O calendário juliano foi criado em 46 a.C., e o gregoriano — utilizado atualmente em 168 países — em 1582 d.C. 

 

De acordo com a causalidade (não confundir com casualidade), o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o que acontece hoje influencia o que acontecerá amanhã. Como esse princípio dá ao Universo uma direção única, a possibilidade de voltar no tempo põe a ciência em xeque. Mas em algumas interpretações da física — como a da gravidade quântica — o tempo se resume a uma dimensão secundária que surge da interação entre eventos e partículas, sem existir como entidade independente. No entanto, se causa e efeito estão relacionados pela ordem dos eventos, e não pela passagem do tempo em si, então o tempo é ilusório e a causalidade pode se manter através dessas relações ordenadas.


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sábado, 17 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 67ª PARTE

YO NO CREO EM BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY!

Os OOPArts — acrônimo de Out Of Place Artefacts — costumam ser apontados como indícios da existência de viajantes do tempo, e poucos causaram tanto alvoroço quanto uma combinação de anel e relógio encontrada por arqueólogos na China, em 2008, no interior de uma tumba da dinastia Ming que estava selada havia mais de 400 anos. 


No mostrador do artefato que não poderia estar ali, os ponteiros marcavam 10h06 e a caixa exibia a inscrição “Swiss”. A notícia logo se espalhou e dividiu opiniões: para os entusiastas do insólito, tratava-se de uma “prova irrefutável” da passagem de um viajante do tempo. Para os céticos, a ausência de relatórios arqueológicos sérios, publicações acadêmicas e imagens confiáveis — além de uma única foto desfocada que circulou pela internet — sugeriam fraude. O episódio permanece envolto em mistério, servindo como combustível para debates entre curiosos, cientistas e alimentando teorias da conspiração.

 

Pinturas e murais retratando sacerdotes maias com o punho à frente do rosto — como fazemos atualmente quando conferimos notificações em nossos smartwatches — levam água aos moinhos da conspiração — quando mais não seja, porque os primeiros smartwatches só foram lançados em 2015. Mas os céticos atribuem a postura dos sacerdotes a um gesto ritual, e argumentam que o cérebro humano é programado para reconhecer padrões mesmo onde eles não existem.

 

Observação: A tendência de atribuir formas familiares a estímulos ambíguos é conhecida como pareidolia. Quando confrontado com imagens vagas ou simbólicas, nosso cérebro preenche as lacunas com referências do presente, levando-nos a enxergar coelhos, dragões ou castelos nas nuvens, ver astronautas em pinturas rupestres e capacetes espaciais em máscaras cerimoniais. Como dizem os espanhóis, yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay. 

 

Um indivíduo de cabelos desalinhados, óculos escuros de armação grossa e cardigã aberto sobre uma camiseta estampada se destaca da multidão numa foto tirada durante a reabertura da ponte South Fork, em British Columbia (Canadá), em 1941. Para os conspirólogos, o Hipster de 1941 e outra pessoa que é vista na foto duas filas adiante, segurando o que parece ser uma câmera portátil moderna, são viajantes do tempo. Para os céticos, óculos escuros eram vendidos nos anos 1920, camisetas com logotipos esportivos já existiam e a Kodak fabricava câmeras portáteis desde os anos 1930. A imagem — que faz parte da exposição “Their Past Lives Here” — teve sua autenticidade comprovada por especialistas, e os trajes, nitidamente anacrônicos, foram considerados compatíveis com os anos 1940. E eu sou o coelhinho da Páscoa.

 

Outro caso emblemático: no início dos anos 2000, um internauta chamado John Titor alegou ter vindo de 2036 em busca de um computador IBM 5100 — necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o Efeito 2038. O modelo em questão foi lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, de modo que a alegação do suposto viajante do tempo fazia sentido. Além disso, a Big Blue reconheceu que uma unidade dotada de uma rara interface — que permitiria ao programador acessar todos os códigos da empresa — desapareceu misteriosamente de seus depósitos. 

 

Visando tornar sua narrativa menos inverossímil, Titor detalhou seus deslocamentos temporais e fez revelações sobre o futuro. Segundo ele, o CERN descobriria as bases para a viagem no tempo em 2001, e as máquinas do tempo, criadas para transportar pequenos objetos, seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. Chegou mesmo a postar desenhos esquemáticos do projeto e uma foto de sua máquina — que chamou de "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades duplamente positivas girando no topo". 

 

A “guerra civil” profetizada para 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial — que, segundo Titor, teria início em 2015 e dividiria EUA em cinco países. Mas a doença da vaca louca aporrinhou pecuaristas nos anos seguintes, e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. Após discorrer durante meses sobre a política norte-americana e assuntos como saúde e tecnologia, o suposto viajante do tempo desapareceu dos fóruns em março de 2001, deixando uma frase misteriosa ("traga uma lata de gasolina com você quando seu carro morrer na estrada") e miríades de perguntas sem respostas. 

 

Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que Titor era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de "John Titor Foundation", onde Larry figurava como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida (EUA).

 

Para os teóricos da conspiração, as previsões não falharam, apenas deram a abertura temporal para que Titor conseguisse corrigi-las a tempo de não ocorrerem. Ele próprio avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, pois o "modelo Everett-Wheeler da física quântica" estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo — a original, vivida por ele, e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado. Vale lembrar que a “Interpretação de muitos mundos” postula que todo resultado possível de uma decisão quântica ocorre em um "universo paralelo" — de acordo com o "paradoxo do avô", se voltasse ao passado e matasse o próprio avô, o neto se tornaria uma pessoa diferente em outra linha temporal que não a dele (já que não poderia existir na dele). 

 

Talvez tudo isso não passe de uma fraude, mas, se for, quem a criou sabia muito bem do que estava falando. Até hoje ninguém reconheceu ser o autor da brincadeira, e muitas questões levantadas por Titor jamais foram esclarecidas. Demais disso, cada um pode acreditar no que bem entender, da autoproclamada “absolvição” de Lula à narrativa segundo a qual Bolsonaro é um ex-presidente de mostruário que vem sendo perseguido injustamente por Alexandre de Moraes e seus pares no STF. Felizmente, com exceção de Luiz Fux, os integrantes da Primeira Turma da Corte não se deixaram iludir pelo canto da sereia, como prova a condenação do “mito” dos descerebrados a 27 anos e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e outros crimes contra o Estado Democrático de Direito. Mas isso é outra conversa.

 

Nada alimenta mais as especulações temporais do que obras faraônicas como as pirâmides de Gizé, erguidas a partir de milhões de blocos de até 80 toneladas, encaixados com precisão milimétrica e alinhados com os pontos cardeais e a Constelação de Orion por um povo que dispunha de simples cinzéis e prosaicos ábacos. Como não poderia deixar de ser, essa implausibilidade deu azo a teorias de ajuda extraterrestre, tecnologias perdidas, ou — por que não? — visitantes do futuro. E o mesmo raciocínio vale para Stonehenge, na Inglaterra, com seus megálitos gigantescos transportados por dezenas de quilômetros e alinhados ao solstício.

 

Em Machu Picchu, no Peru, e em sítios como Sacsayhuamán, blocos de pedra irregulares se encaixam com tamanha precisão que nem uma lâmina de barbear passa entre eles. Explicações existem: trabalho humano intensivo, técnicas engenhosas de escavação, polimento e transporte. Mas não convencem aqueles para quem é mais sedutor acreditar que alguém trouxe uma furadeira quântica do futuro para dar uma mãozinha.

 

A literatura antiga também guarda descrições que parecem ter brotado de mentes com visão privilegiada do futuro. Basta lembrar de Sherazade e os Contos das 1.001 Noites, com tapetes que voam, gênios que habitam lâmpadas mágicas, cavernas com portas de pedra se abrem por comandos de voz, enfim, prodígios tecnológicos que somente seriam inventados dali a milhares de anos.

 

Segundo a Navalha de Ockham — ou princípio da parcimônia —, sempre que há múltiplas explicações possíveis para o mesmo fato deve-se escolher a que apresenta o menor número possível de variáveis e hipóteses com relações lógicas entre si. Na esteira desse raciocínio, a explicação mais racional é que a ficção sempre antecipou tecnologias — Júlio Verne imaginou submarinos e viagens à Lua séculos antes de elas se tornarem realidade. No entanto, quando a previsão vem de milênios atrás, a tentação de interpretá-la como “memória do futuro” fica ainda maior.

 

Todos esses exemplos sugerem que a maioria de nós tende a enxergar padrões, a reinterpretar o passado com lentes modernas e a acreditar em histórias que reforçam nosso desejo de escapar das amarras do tempo. Talvez a maioria das “provas” não resista a uma investigação séria, mas a versão fantasiosa é mais divertida de contar. Entre “os egípcios trabalharem duro durante décadas” e “um viajante do tempo trazer um laser portátil para cortar pedras”, a segunda versão rende mais cliques e muito mais histórias para contar.


Continua…