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quinta-feira, 7 de julho de 2022

SERGIO MORO DE VOLTA ÀS ORIGENS (CONTINUAÇÃO)


Vimos que uma das primeiras derrotas de Moro como o “superministro” a quem Bolsonaro havia prometido carta-branca foi a transferência do Coaf para o Ministério da Economia, depois que o órgão identificou “movimentações financeiras atípicas” e mal explicadas na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, amigo de longa data do presidente e factótum da Famiglia Bolsonaro. 


Outro foco de tensão surgiu com a nomeação de Ilona Szabó como suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e PenitenciáriaMoro teve que recuar da escolha devido a uma campanha de bolsonaristas nas redes sociais, nas quais os aloprados lembraram que, além de divergir do capitão em temas como armamento e política de drogas, Szabó havia se posicionado contra ele durante a campanha eleitoral de 2018.

 

Os sinais de interferência do Planalto na Receita Federal, sobretudo na unidade do Rio de Janeiro, começaram no primeiro ano do governo. As pressões se referiam principalmente à troca de servidores em postos de comando do órgão. Em meio a apurações que atingem autoridades e também familiares e pessoas próximas a Bolsonaro, um subsecretário-geral do posto fluminense chegou a ser substituído pelo governo, em 2019, por se posicionar de forma contrária às intervenções. Questionado na época sobre as ingerências na Receita e na PF, o mandatário afirmou: “Fui eleito presidente para interferir mesmo, se é isso que eles querem. Se é para ser um banana ou um poste dentro da Presidência, tô fora”.

Depois de tudo que Bolsonaro disse na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, nem a Velhinha de Taubaté acreditaria que ele não interferiu “politicamente” na PF. Não interferiu uma, mas diversas vezes. E quase sempre para proteger sua prole (quatro dos seus cinco filhos são alvo de investigações, a exemplo do pai, que responde a pelo menos meia dúzia de inquéritos). Mas a PF parece ser mais crédula do que a finada personagem de Luíz Fernando Veríssimo: como também foi dito no capítulo anterior, o órgão concluiu que o presidente não cometeu crime por interferências na instituição.

 

Bolsonaro coleciona interferências na PF e em outras áreas ligadas ao governo como filatelistas colecionam selos postais. Quando questionado, reafirma sua autoridade com um “quem manda sou eu”, deixando claro o poder de sua patética esferográfica Bic — como fez em fevereiro do ano passado ao substituir Castello Branco por Silva e Luna na presidência da Petrobras, suscitando comparações com os governos petistas. "Não adianta a imprensa falar que eu intervi [sic]. Estão na mesma linha da questão da Polícia Federal, que eles não acharam nada de interferência minha no tocante à PF", postou o presidente (ou seu ghost writer) numa de suas redes sociais. 


Em 2019Bolsonaro defendeu publicamente que a Petrobras rompesse contratos com o escritório de advocacia de Felipe Santa Cruz — então presidente da OAB e desafeto do capitão. 


No mesmo ano, "o presidente que não interferiu na PF segundo a própria PF" avançou sobre decisões internas do órgão ao anunciar a substituição do então superintendente da PF no Rio de JaneiroRicardo Saadi — na época, a PF divulgou nota afirmando que Saadi seria substituído por Carlos Henrique Oliveira, mas Bolsonaro disse ter acertado previamente que o cargo seria ocupado pelo superintendente no estado do Amazonas, Alexandre Saraiva.


Bolsonaro ignorou a lista tríplice do MPF por duas vezes ao indicar o jurista soteropolitano Augusto Aras para o comando da PGR. A condução do processo foi chamada de retrocesso e criticada por sugerir risco à autonomia do MPFAras já abriu diversas apurações para investigar supostos ilícitos de seu suserano, mas sempre a contragosto e sem jamais encontrar algo que o desabone, a despeito de as evidências estarem diante de seu nariz. 


Bolsonaro bancou a eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara para ter um aliado no comando da Casa e, de quebra, um cão de guarda para seus quase 150 pedidos de impeachment. Para favorecer o aliado, o "mito" prometeu cargos a congressistas e acenou com a liberação de recursos de emendas parlamentares e ofereceu até a recriação de ministérios para acomodar indicados do Centrão — e chegou mesmo a admitir a intervenção.


Bolsonaro determinou a demissão de André Brandão da presidência do Banco do Brasil, foi convencido a recuar pelo ministro da Fazenda e pelo presidente do Banco Central, mas recuou do recuo menos de dois meses depois. Em outro episódio envolvendo o BB, ele não só mandou tirar do ar uma campanha publicitária com atores que representavam a diversidade racial e sexual, mas também determinou que campanhas de natureza mercadológica de estatais passassem a ser submetidas previamente à Secretaria de Comunicação Social (também nesse caso ele acabou recuando). Em outra oportunidade, anunciou ter implodido o Inmetro (com a substituição da então presidente do órgão por um militar do Exército) porque “não gostou” das mudanças que envolviam tacógrafos e provocaram reclamações de motoristas e taxistas. 

 

Em diferentes momentos, Bolsonaro requisitou a AGU para tarefas que podem ser consideradas como extrapolação de seu escopo institucional. Numa ocasião, mandou o órgão tomar providências sobre a reclamação de que seguidores não estariam conseguindo postar fotos na página presidencial no Facebook. Em 2020, desautorizou a AGU no episódio da posse do delegado Alexandre Ramagem no comando da PF, mandando-a recorrer da decisão do ministro Alexandre de Moraes depois que a instituição publicou nota informando que não contestaria a decisão do STF. 

 

Bolsonaro mobilizou o Ministério da Justiça para impetrar um pedido de habeas corpus em favor do ex-ministro Abraham Weintraub. A petição, assinada pelo então ministro da Justiça, André Mendonça — posteriormente alçado ao STF com as bênçãos do capitão —, foi considerada inapropriada, já que a tarefa caberia à AGU ou a um advogado pessoal (enviar um documento com a assinatura de Mendonça foi uma maneira de Bolsonaro dar um caráter político, e não técnico, à manifestação num momento em que o Judiciário estava sob ataque). 


Bolsonaro exonerou o presidente do Inpe porque ele divulgou dados que desmentiam a falaciosa posição do governo sobre o desmatamento da Amazônia — o capitão queria que as informações fossem discutidas com o Palácio do Planalto antes de serem tornadas públicas. Dois dias após a exoneração, indicou em entrevista ter ordenado ao ministro da Ciência e Tecnologia a exoneração do subordinado. “Está a cargo do ministro. Eu não peço, certas coisas eu mando”, afirmou o sultão do bananistão.

 

O Brasil se tornou um país surpreendente porque nada mais surpreende de verdade. A conclusão estapafúrdia da PF sobre a ingerência de Bolsonaro no órgão perde para duas teratológicas decisões supremas: a que avalizou por 8 votos a 3 o delírio fachiniano segundo o qual a 13ª Vara Federal de Curitiba não era competente para julgar Lula, e a que confirmou por 7 votos a 4 a decisão da 2ª Turma que reconheceu a parcialidade de Sérgio Moro na condução de quatro processos contra Lula. Vale lembrar que a defesa do petralha ingressou com cerca de 400 recursos na ação referente ao tríplex, e todos foram rejeitados — alguns, inclusive, pelo próprio STF —, e que, no caso do sítio de Atibaia, o TRF-4 confirmou a decisão da juíza substituta Gabriela Hardt. 

 

Observação: Preso numa espécie de “Dilema do Bonde”, Fachin optou por anular as condenações de Lula para evitar um “mal maior” à Lava-Jato — que seria a declaração de parcialidade de Moro. A estratégia retirou de Curitiba os processos do triplex, do sítio e dois outros envolvendo o Instituto Lula, mas que ainda estavam em fase de instrução. Quase nove meses depois, todas as ações enfrentaram reveses na Justiça e Moro foi declarado suspeito, apesar da manobra de Fachin, que anulou os atos decisórios praticados nas quatro ações penais, mas manteve válidas as quebras de sigilo, interceptações e material resultante de buscas e apreensões). Na sequência, Moro foi declarado suspeito, o MPF pediu o arquivamento do processo do tríplex (por prescrição) e a nova denúncia no caso do sítio foi rejeitada pela JF do DF.



Continua... 

terça-feira, 5 de abril de 2022

INTERFERÊNCIA, EU?

Depois de tudo que Bolsonaro falou na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, nem a Velhinha de Taubaté acreditaria quando ele diz que não interferiu “politicamente” na Polícia Federal. Não interferiu uma, mas diversas vezes — na maioria delas para proteger sua prole (quatro dos seus cinco filhos são alvo de investigações, a exemplo do pai, que responde a pelo menos meia dúzia de inquéritos). Mas a PF parece ser mais crédula do que a finada velhinha: a conclusão da investigação foi a de que o presidente não cometeu crime por interferências na instituição.

O Brasil se tornou um país surpreendente porque nada mais surpreende de verdade. A conclusão estapafúrdia da PF nem se compara à teratológica decisão suprema que avalizou o delírio fachiniano segundo o qual a 13ª Vara Federal de Curitiba não era competente para julgar Lula e, por 8 votos a 3, anulou tanto as condenações quanto as provas referentes a quatro processos — dois dos quais tiveram sentenças condenatórias ratificadas pelo TRF-4 e pelo STJ.

Bolsonaro coleciona interferências em órgãos e outras áreas ligadas ao governo como os filatelistas colecionam selos. Quando questionado, reafirma sua autoridade com um “quem manda sou eu” — “e eu quero o Ramagem lá”, como afirmou a jornalistas, referindo-se à ordem para que a AGU recorresse da decisão do Supremo que vetou a nomeação de Alexandre Ramagem. Também deixou claro o poder de sua caneta em fevereiro do ano passado, quando substituiu Castello Branco por Silva e Luna, na presidência da Petrobras, suscitando comparações com os governos petistas. "Não adianta a imprensa falar que eu intervi [sic]. Estão na mesma linha da questão da Polícia Federal, que eles não acharam nada de interferência minha no tocante à PF", disse ele em uma rede social no sábado.

Em 2019, Bolsonaro defendeu publicamente que a petrolífera rompesse contratos com o escritório de advocacia de Felipe Santa Cruz — então presidente da OAB e desafeto do capitão. Naquele mesmo ano, o mandatário que “não interferiu na PF”, segundo a própria PF, avançou sobre decisões internas do órgão ao anunciar a substituição do então superintendente da PF no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi — na época, a PF divulgou nota afirmando que Saadi seria substituído por Carlos Henrique Oliveira, mas Bolsonaro disse ter acertado previamente que o cargo seria ocupado pelo superintendente no estado do Amazonas, Alexandre Silva Saraiva.

Bolsonaro ignorou a lista tríplice do MPF por duas vezes ao indicar Augusto Aras para o comando da PGR. A condução do processo foi chamada de retrocesso e criticada por sugerir risco à autonomia do Ministério Público. Aras já abriu diversas apurações para investigar supostos ilícitos de seu suserano, mas sempre a contragosto e nunca encontrado nada que desabone o chefe, a despeito de as evidências saltarem diante de seu nariz.

Bolsonaro bancou a eleição de Arthur Lira para a presidência da Câmara para ter um aliado no comando da Casa e, de quebra, um cão de guarda para os mais de 140 pedidos de impeachment protocolados em seu desfavor. Para tanto, prometeu cargos a congressistas e acenou com a liberação de recursos de emendas parlamentares e ofereceu até a recriação de ministérios para acomodar indicados do Centrão. Chegou mesmo a admitir a intervenção: “Vamos, se Deus quiser, participar, influir na presidência da Câmara, com estes parlamentares, de modo que possamos ter um relacionamento pacífico e produtivo para o nosso Brasil”.

Bolsonaro determinou a demissão de André Brandão da presidência do Banco do Brasil. Foi convencido a recuar pelo ministro da Fazenda e pelo presidente do Banco Central, mas recuou do recuo menos de dois meses depois — afinal, quem tem a caneta pode mais, e quem pode mais chora menos. Em outro episódio envolvendo o BB, o "mito" mandou tirar do ar uma campanha publicitária do banco com atores que representavam a diversidade racial e sexual: “A linha mudou. A massa quer o quê? Respeito à família. Ninguém quer perseguir minoria nenhuma, nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira”. O Planalto chegou a determinar que estatais deveriam submeter previamente à avaliação da Secretaria de Comunicação Social campanhas de natureza mercadológica, mas depois acabou recuando.

Bolsonaro anunciou ter implodido o Inmetro com a substituição da então presidente do órgão por um militar do Exército. As exonerações na autarquia, vinculada ao Ministério da Economia, foram decididas porque o mandatário não gostou das mudanças que envolveriam tacógrafos e provocaram reclamações de motoristas e taxistas.

Em diferentes momentos, Bolsonaro requisitou a AGU para tarefas que podem ser consideradas uma extrapolação do escopo institucional do órgão. Entre outras, acionou a AGU para tomar providências sobre a reclamação de que seguidores não estariam conseguindo postar fotos na página do presidente no Facebook. Em 2020, desautorizou a AGU no episódio da posse do delegado Alexandre Ramagem no comando da PF, barrada pelo ministro Alexandre de Moraes, mandando o órgão recorrer da decisão do magistrado depois de a AGU publicar nota informando que não contestaria o ato do STF.

Bolsonaro mobilizou o Ministério da Justiça para impetrar um pedido de habeas corpus em favor do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, intimado pelo STF  explicar os ataques feitos à Corte. A petição, assinada pelo então ministro da Justiça, André Mendonça — que foi guindado ao STF com as bênçãos do capitão, foi considerada inapropriada, já que a tarefa caberia à AGU ou a um advogado pessoal. Membros do governo disseram que enviar um documento com a assinatura de Mendonça foi uma maneira de dar um caráter político, e não técnico, à manifestação, em um momento no qual o Executivo estava em atrito com o Judiciário.

Durante a gestão do ex-juiz Sergio Moro, um dos primeiros focos de tensão do então ministro da Justiça e o presidente se deveu à nomeação de Ilona Szabó como suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. Moro teve que recuar da escolha após campanha de bolsonaristas nas redes sociais. Os aloprados lembraram que, além de divergir do capitão em temas como armamento e política de drogas, Szabó havia se posicionado contra ele durante a campanha eleitoral de 2018. Bolsonaro confirmou publicamente, e em duas ocasiões, ter pressionado o ministro pela suspensão da nomeação, afirmando que ela possuía posicionamentos incompatíveis com o governo. E disse ainda que “não foi fácil conseguir a saída por causa da resistência de Moro”.

Observação: Nunca é demais lembrar que o presidente "acabou com a Lava-Jato porque não tem mais corrupção no governo" e que disse isso dias depois de seu líder no Senado ser flagrado, pela PF, com R$ 30 mil escondidos entre as nádegas!

Bolsonaro exonerou o presidente do Inpe depois que ele divulgou dados sobre o desmatamento da Amazônia que desmentiam a falaciosa posição do governo — o capitão queria que as informações fossem discutidas previamente com o Palácio do Planalto antes de serem tornadas públicas. Dois dias após a exoneração, Bolsonaro indicou em entrevista ter ordenado ao ministro da Ciência e Tecnologia a exoneração do subordinado. “Está a cargo do ministro. Eu não peço, certas coisas eu mando”, afirmou o presidente.

Os sinais de interferência do Planalto na Receita Federal, sobretudo na unidade do Rio de Janeiro, começaram no primeiro ano do governo. As pressões se referiam principalmente à troca de servidores em postos de comando do órgão. Em meio a apurações que atingem autoridades e também familiares e pessoas próximas a Bolsonaro, um subsecretário-geral do posto fluminense chegou a ser substituído pelo governo, em 2019, por se posicionar de forma contrária às intervenções. Questionado na época sobre as ingerências na Receita e na PF, o mandatário afirmou: “Fui eleito presidente para interferir mesmo, se é isso que eles querem. Se é para ser um banana ou um poste dentro da Presidência, tô fora”.

Bolsonaro continua presidente e, pior, candidatíssimo à reeleição. Como se não bastasse, tudo indica que, para nos livrarmos dele, teremos de amargar o retorno da cleptocracia lulopetista. Triste Brasil!

Texto baseado em informações publicadas pela Folha

sexta-feira, 5 de maio de 2023

A NOVELA DA VEZ

Depois do escândalo da muamba das arábias, os primeiros capítulos da novela da vez têm como roteiro a visita da PF à casa de Jair Bolsonaro na última quarta-feira, durante o cumprimento 16 de mandados de busca e apreensão e seis de prisão preventiva no escopo da Operação Venire, que apura suspeitas de fraude em dados do certificado de vacinação contra a Covid do ex-presidente, da ex-primeira-dama, da filha do casal e de familiares do tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do capitão, preso preventivamente nesta quarta-feira. 

Segundo a PF, Cid teria conspirado para emitir cartões falsos de vacinação para sua esposa e filhas, e depois para o presidente e sua filha Laura, então com 11 anos. As investigações foram baseadas nas quebras de seu sigilo telefônico e telemático em outro inquérito que investiga uma live em que Bolsonaro associou a vacina contra a Covid à contaminação por AIDS. Durante o depoimento, Cid permaneceu em silêncio.

Ao autorizar a ação, o ministro Alexandre de Moraes escreveu que não há qualquer indicação nos autos que conceda credibilidade à versão de que o ajudante de ordens de Bolsonaro pudesse ter comandado relevante operação criminosa, destinada diretamente ao então mandatário e sua filha sem, no mínimo, conhecimento e aquiescência daquele, circunstância que somente poderá ser apurada mediante a realização da medida de busca e apreensão requerida pela autoridade policial. 

As inserções falsas sob suspeita se deram entre novembro de 2021 e dezembro de 2022, e tiveram como consequência a alteração da verdade sobre fato juridicamente relevante, qual seja a condição de imunizado dos beneficiários. O objetivo do grupo seria "manter coeso o elemento identitário em relação a suas pautas ideológicas, no caso, sustentar o discurso voltado aos ataques à vacinação contra a Covid".
 
O relatório da PF atribui aos investigados crimes de infração de medida sanitária preventiva, associação criminosa, inserção de dados falsos em sistemas de informação e corrupção de menores, mas o relatório enviado ao ministro Alexandre atribui especificamente a Bolsonaro os crimes de uso de documento falso e de corrupção de menores, além de dizer que há indícios consistentes de que o então presidente tinha conhecimento da alteração fraudulenta dos dados no sistema do Ministério da Saúde. Bolsonaro seria ouvido pela PF na própria quarta-feira 3, mas se recusou a depor. O advogado Fabio Wajngarten afirmou que seu cliente só se manifestará após a defesa ter acesso aos autos. 
 
Observação: A eventual entrada de Bolsonaro nos EUA com certificado de vacinação falso configuraria crime federal naquele país, com pena de até dez anos de prisão, mas vale lembrar que quando desembarcou na Flórida, no final de dezembro passado, ele ainda era presidente e tinha passaporte diplomático. 
 
Além de jamais ter informado se tomou ou não a vacina, Bolsonaro impôs um sigilo de até cem anos aos dados — um dos mais de mil temas colocados em sigilo durante sua gestão —, mas as suspeitas de que havia algo de podre em Pindorama surgiram depois que um integrante do grupo interdisciplinar Infovid rastreou o cartão de vacinação vazado à imprensa por um funcionário da CGU e descobriu dados estranhíssimos de vacinas aplicadas num posto do município fluminense de Duque de Caxias em datas coincidentes com motociatas realizadas no Rio de Janeiro.

Inicialmente, um médico bolsonarista lotado na prefeitura do município goiano de Cabeceiras teria preenchido os cartões de vacinação que o grupo tentou registrar no sistema eletrônico do SUS em Duque de Caxias. Mas o lote das vacinas tinha sido enviado para Goiás, de modo que o sistema rejeitou as informações, o que ensejou a troca de mensagens entre Cid e seus ajudantes, a partir das quais a PF descobriu que o grupo havia conseguido um outro número de lote, desta vez do Rio, para fazer o registro, imprimir os cartões e remover os arquivos digitais do sistema.
 
O portal Metrópoles informou que Bolsonaro manterá a versão de que desconhecia esquema dos cartões de vacina. Já o g1 publicou que uma servidora do SUS de Duque de Caxias que foi coagida a fornecer a sua senha de acesso ao sistema do Ministério da Saúde. Registros dão conta de que duas doses da vacina da Pfizer foram aplicadas em Bolsonaro e na filha, e a PF apurou que sua inserção no sistema foi feita pelo secretário municipal João Carlos de Sousa Brecha. No dia seguinte, o ConecteSUS emitiu o certificado de vacinação — que, ainda segundo a PF, foi solicitado do Palácio do Planalto. Uma semana depois, novo acesso foi feito a partir do mesmo dispositivo, solicitando a emissão do segundo comprovante de vacinação. 
 
No dia 30 de dezembro próximo passado, horas antes de Bolsonaro embarcar rumo à Flórida, um novo acesso ao ConecteSUS foi feito a partir do celular de Mauro Cid, que obteve um terceiro certificado de vacinação em nome de Bolsonaro no qual constava a dose única da vacina da Janssen. O relatório da PF diz ainda que o email vinculado à conta foi alterado neste período, passando a ser o do assessor Marcelo Costa Camara, que acompanhou o capitão na terra do Pateta.

A PF prendeu Mauro Cid, Max Guilherme e Sérgio Cordeiro, que acompanharam Bolsonaro em seu autoexílio na Flórida, e João Carlos de Sousa Brecha, secretário de Governo em Duque de Caxias. Marcelo Câmara — outro que viajou para os EUA com o ex-presidente — foi alvo de busca e apreensão. O deputado Gutemberg Reis, irmão do ex-prefeito de Caxias, e o ex-vereador carioca Marcello Siciliano são investigados por suposta participação no esquema. De acordo com o g1, todos os detidos optaram pelo silêncio no primeiro depoimento tomado após suas prisões. Bolsonaro e Michelle tiveram seus celulares apreendidos, mas o ex-presidente não informou a senha do seu aparelho.
 
Quanto ao restante do Clã, a ex-primeira-dama teria sido vacinada em setembro de 2021, em Nova Iorque (EUA). Segundo a Secom informou à época, quando fez o teste PCR ela foi indagada pelo médico se gostaria de aproveitar a oportunidade para ser vacinada e aceitou a oferta. Flávio Bolsonaro publicou em meados de 2021 um vídeo em que ele aparece sendo vacinado pelo então ministro da Saúde Marcelo Queiroga. No mês seguinte foi a vez de Eduardo Bolsonaro, que também postou um vídeo dando conta do fato.
 
Observação: Em dezembro de 2021, Bolsonaro afirmou categoricamente que sua filha, então com 11 anos, não tomaria a vacina, a despeito da resolução da Anvisa que autorizava a imunização de crianças de 5 a 11 anos. "Eu espero que não haja interferência do Judiciário. Espero, porque minha filha não vai se vacinar, estou deixando bem claro."

Diante da informação de que teria furado a fila para se vacinar, Carlos Bolsonaro disse: "A única coisa que devo ter furado deve ter sido a mãe de quem divulga mais uma fake news de nível global e diária! A escória não vive sem mentir e manipular! Não tomei vacina alguma!". Jair Renan teve Covid em 2020; na ocasião, ele disse que foi só uma "gripezinha" e que tomou cloroquina durante o período em que apresentou os sintomas (não há registros de que ele tenha sido vacinado).
 
Moraes determinou a apreensão do passaporte do ex-presidente que se mostrou desgostoso com a ação policial e questionou o motivo de os agentes terem ido a sua casa quando poderiam ter feito as perguntas diretamente a ele, além de destacar que a pressão sofrida por sua família é “desumana”. Na sua avaliação, tudo está sendo feito para criar fatos contra sua pessoa e prejudicá-lo politicamente.
 
Novos desdobramentos dessa tragicomédia surgem a cada minuto, mas eu preciso concluir este texto em algum momento. Antes, porém, vale acrescentar que a CNN Brasil noticiou no final da tarde de ontem que o ex-major Ailton Barros (mais um que foi preso na última quarta-feira) discutiu em dezembro último um golpe de Estado com Mauro Cid. De acordo com a PF, ele também integrou o grupo que teria forjado os registros de vacina.
 
CNN teve acesso a três áudios nos quais o ex-major descreve o "conceito da operação". No dia 15 de dezembro, ele diz: “É o seguinte, entre hoje e amanhã, sexta-feira, tem que continuar pressionando o Freire Gomes [comandante do Exército] para que ele faça o que tem que fazer". Até amanhã à tarde, ele aderindo… bem, ele faça um pronunciamento, então, se posicionando dessa maneira, para defesa do povo brasileiro. Se ele não aderir, quem tem que fazer esse pronunciamento é o Bolsonaro, para levantar a moral da tropa. Que você viu, né? Eu não preciso falar. Está abalada em todo o Brasil".
 
Barros ressalta a necessidade de Gomes ou Bolsonaro realizarem o pronunciamento comentado no áudio, dando preferência ao comandante do Exército, de modo que fique "tudo dentro das quatro linhas". A CNN entrou em contato com Bolsonaro, Cid, Barros e Gomes, mas ainda ainda aguardava retorno quando eu concluí este texto.
 
Detalhe: Um longo histórico de transgressões levou à expulsão de Ailton da corporação. Documentos do Superior Tribunal Militar obtidos pela CNN revelam que ele foi preso pelo menos sete vezes entre 1997 e 2006. Naquele ano, reportagens mostraram sua participação em um caso de desvio de armas do Exército para traficantes do Rio de Janeiro. O ex-major se identificava como "o 01 do Bolsonaro" em sua campanha para deputado federal em 2022, e teve quase 7 mil votos.

Triste o país onde o povo não tem capacidade para votar.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

COM A CARA NO FOGO E A CAMINHO DO INFERNO

 

Pode-se morrer de tudo no jornalismo, menos de tédio”, costumava dizer o saudoso Ricardo Boechat — que, por uma ironia do destino, perdeu a vida num surreal acidente — no qual o helicóptero em que voltava de Campinas (SP) para a capital paulista colidiu com um caminhão. 


Observação: Cito essa frase porque estou redigindo este texto seis dias da data prevista para sua publicação, de modo que é bem provável que o escândalo envolvendo o dublê de pastor e ex-ministro da Educação tenha tido novos desdobramentos (vide atualização no final da postagem). 

 

Na avaliação do comitê de campanha de Bolsonaro, a prisão de Ribeiro e dos pastores lobistas do MEC tem alto potencial destrutivo. Montou-se às pressas uma operação para tentar reduzir os danos, mas em cima de um paradoxo: em público, tenta-se distanciar Bolsonaro de Ribeiro. Nos bastidores, o Planalto envia ao ex-ministro a mensagem de que ele não será abandonado. Bolsonaro precisa agora rezar para que o ex-auxiliar se disponha a colocar a cara no fogo por ele.

 

Observação: No último dia 24, o pastor Arilton Moura, apontado como um dos líderes do gabinete paralelo no MEC, disse a um de seus advogados: “Eu preciso que você ligue para a minha esposa... acalme minha esposa... porque se der qualquer problema com a minha menininha, eu vou destruir todo mundo". O trecho do diálogo, e que consta nas investigações, foi divulgado naquele dia pelo jornal O Globo.

 

A 100 dias da eleição, injetou-se uma crise ética dentro da campanha de Bolsonaro num instante em que o capitão já arrasta pela conjuntura a bola de ferro da crise econômica. Elegeu-se como prioridade a preservação de três pilares da estratégia eleitoral traçada anteriormente. Num esforço para manter a pregação anticorrupção, decidiu-se aprofundar a tática de rememorar os escândalos da era petista. Imagina-se que isso inibirá a exploração do escândalo pelo PT e por Lula. 

 

Mobilizaram-se pastores amigos para tentar evitar prejuízos à aliança mística que Bolsonaro cultiva com a religiosidade — donos de 32 milhões de votos, os evangélicos genuínos não costumam compactuar com transgressões éticas. De resto, o comitê do presidente busca informações que permitam à campanha caminhar adiante dos investigadores. Dando de ombros para o fato de que o processo corre em sigilo, Bolsonaro encomendou ao Ministério da Justiça dados detalhados sobre o inquérito da PF.

 

Fiel escudeiro do pai e um dos principais articuladores de sua campanha à reeleição, o senador Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo em que compara os casos de corrupção do governo paterno com os escândalos das gestões petistas. “Enquanto no governo Bolsonaro, quando há um caso isolado de suspeita de alguma coisa, a pessoa tem que ser investigada e ela tem que provar sua inocência, nos governos passados, como da Dilma e do Lula, havia um esquema geral de corrupção em que já foram devolvidos muitos bilhões de reais desviados de várias áreas, em especial da Petrobras.”

 

Ao contrário do que o menino de ouro tenta fazer parecer, a corretagem de verbas públicas do MEC por pastores não é um caso isolado, mas o assalto à Petrobras nas gestões petistas teve, de fato, proporções amazônicas — balanço da estatal divulgado em 2014, sob Dilma Rousseff, anotou que o roubo foi de R$ 6,2 bilhões (em valores da época). O grosso desse dinheiro foi recuperado, o que apenas reforça a falta nexo da pureza moral que o filho do presidente atribui à gestão do pai. Primeiro porque Flávio substitui o discurso da “corrupção zero” pela tese segundo a qual agora os desvios são mais comedidos. Segundo porque os bandoleiros da caravana petista estão ao lado de Bolsonaro. 

 

O FNDE, fonte das verbas agenciadas pelos pastores, é controlado por prepostos de Ciro Nogueira — atual ministro-chefe da Casa Civil —, cujo partido, o PP, estrelou o escândalo do petrolão, e pelo ex-mensaleiro e ex-presidiário Valdemar Costa Neto, presidente do partido ao qual Bolsonaro se filiou, no final do ano passado, para disputar a reeleição. O réu que preside a Câmara, Arthur Lira, que é do mesmo partido de Ciro Nogueira, comanda o rateio do orçamento secreto, que financia desvios em série — da compra de kits de robótica para escolas que não dispõem nem de água potável ao superfaturamento de ônibus escolares e de asfalto. É como se Flávio Bolsonaro, coordenador da campanha do pai, desejasse transformar a polarização com Lula numa gincana de sujos e mal lavados travada numa colônia de nudismo.

 

O presidente, seus filhos e todos os bumbos da banda do bolsonarismo se referiram à prisão de Ribeiro como uma evidência de que o governo não interfere no trabalho da Polícia Federal. Numa correspondência de nove parágrafos, o delegado federal Bruno Calandrini, responsável pelo inquérito sobre o pastoreio de verbas no MEC, triturou essa versão. Numa espécie de desabafo para os colegas que participaram das batidas de busca e apreensão e das prisões, ele sustenta que houve “interferência na condução da investigação”. Espanto! Anota que o ex-ministro “foi tratado com honrarias não existentes na lei”. Pasmo!! Declara que a apuração foi “prejudicada”. Assombro!!! Avalia que não dispõe de “autonomia investigativa para conduzir o inquérito deste caso com independência e segurança institucional”. Estupefação!!!

 

Como evidência da interferência, Calandrini menciona o fato de o ex-titular do MEC não ter sido transferido da cidade de Santos para Brasília, como havia determinado inicialmente o juiz da 15ª Vara Federal do Distrito Federal. Ribeiro acabou sendo conduzido para a carceragem da PF em São Paulo. Segundo a versão oficial, “riscos e dificuldades financeiras” impediram transferência, mas o delegado insinua que as razões foram outras e lamenta a perda da chance de interrogar o ex-ministro nas pegadas de sua detenção. 


Surpreendido, Ribeiro poderia tropeçar na língua, mas o efeito surpresa virou fumaça com a retenção do preso em São Paulo e a posterior ordem de soltura emitida pelo desembargador Ney Bello, do TRF-1. A repórter Malu Gaspar informa no jornal O Globo que Bello — magistrado favorito a assumir uma das vagas à espera de preenchimento no STJ — coleciona um histórico de decisões que ornam com os interesses do Planalto.

 

A propósito da correspondência do delegado Calandrini, a Polícia Federal informou por meio de nota que abrirá apuração “para verificar a eventual ocorrência de interferência, buscando o total esclarecimento dos fatos”. Resta saber quem investigará a apuração da PF.


Atualização: As manifestações de Bolsonaro sobre o escândalo do MEC evoluíram do temerário para o ridículo. O presidente soava temerário quando dizia que colocaria a cara no fogo pelo ministro. Descambou para o ridículo ao sustentar que Milton Ribeiro é perseguido por gente interessada em constranger o governo. O capitão relança a surrada tese da perseguição política. Fala sobre as mazelas criminais ao redor não como presidente, mas como comentarista inocente do seu próprio governo. O comentarista não diz nada sobre o grampo legal que permitiu à PF escutar Ribeiro contando à mulher que o ex-chefe lhe telefonara dos Estados Unidos para avisar sobre a operação de busca e apreensão que acabou ocorrendo 13 dias depois. Finge não existir a gravação em que o ex-ministro declara que abriu as portas do MEC para os pastores traficantes de verbas atendendo a um "pedido especial" dele, Bolsonaro. O presidente comentarista se refere ao relaxamento da prisão do ex-ministro como suposta evidência de que nada foi descoberto sobre ele. Tolice. Bolsonaro ajusta o discurso. Na primeira hora, declarou coisas assim: "Se a Polícia Federal prendeu, tem um motivo." Agora, diz que a cana foi injusta. Bolsonaro faz de conta que ignora o fato de que a decisão provisória que soltou o ex-ministro e os demais integrantes do grupo que a PF chama de "organização criminosa" não tem nada a ver com o conteúdo cabeludo do inquérito. As celas foram abertas porque um desembargador do TRF-1 entendeu que os acusados poderiam responder em liberdade sem interferir na investigação. É bem mais fácil e confortável para o presidente sustentar a tese da formação de um complô urdido por um juiz de primeira instância, procuradores, agentes federais e repórteres comunistas para transformar um capitão modelo em corrupto. A alternativa seria admitir que tudo o que está na cara não passa de uma conspiração da lei das probabilidades contra um comentarista inocente. Bolsonaro evoluiu da temeridade para o ridículo justamente num instante em que o processo foi remetido para o Supremo por conta da suspeita de que o presidente interveio na PF para obstruir a investigação. O presidente e seus operadores contam com a impunidade proporcionada pela blindagem do procurador-geral Augusto Aras.

 

Com Josias de Souza

segunda-feira, 25 de maio de 2020

GOVERNO DO GENERAL DA BANDA — GANGRENA EM ESTADO AVANÇADO REQUER AMPUTAÇÃO DE MEMBRO AFETADO, SOB PENA DE ÓBITO DO PACIENTE



Nelson Teich divulgou no último sábado, 23, ter recusado um convite para ser conselheiro do Ministério da Saúde. Em postagem no Twitter, o oncologista disse que “não seria coerente ter deixado o cargo de ministro da Saúde na semana passada e aceitar a posição de conselheiro na semana seguinte”. Aplausos para o ex-ministro. De bobos da corte, o quadro palaciano está mais que completo.

Abrilhantam a Esplanada um ministro da educação mal-educado, que defende a prisão de ministros do STF; uma ministra que viu Jesus na goiabeira e quer prender governadores e prefeitos; uma (agora ex) secretária da Cultura que dá piti no ar e interrompe entrevista porque o script “fugiu ao combinado”; um ministro que enche o tempo (e o saco) com notas de repúdio ao Supremo por ter sido convocado a depor debaixo de vara, e que acha que periciar o telefone do capitão trará “consequências imprevisíveis”; um ministro que concorda e apoia a opinião do ministro anterior e, pior, fala em nome das Forças Armadas...

Isso sem falar nos ministros terraplanistas, criacionistas, negacionistas... Tem até ministro que acredita (mesmo) que o general da banda comanda. Suas excelências devem ter tomado muita cloroquina. Ou tubaína.

Interlocutores ligados à Globo vazaram que a emissora cresceu o olho para o Ibope do vídeo da reunião interministerial, que deu de lavada na novela Malhação — exibida pela Vênus Platinada desde o tempo em que televisor era movido a corda. Já se fala num projeto de filmar outras reuniões e exibi-las numa minissérie, cujo título será escolhido pelo diretor de dramaturgia, Sílvio de Abreu, entre as diversas sugestões apresentadas. Entre as cotadas estão “Palhação”, “Empulhação”, “O Canastrão” e “O Canetão”.

Brincadeiras à parte, uma série de mensagens trocadas entre o presidente e o então ministro da Justiça evidencia que o primeiro falava da Polícia Federal, e não de sua segurança pessoal, quando exigiu substituições nessa área na fatídica reunião ministerial.

A cronologia de oito diálogos aos quais o Estadão teve acesso mostra que Bolsonaro chegou à reunião com a decisão já tomada de demitir o diretor-geral da PF: “Moro, Valeixo sai esta semana”, escreveu o presidente às 6h26 de 22 de abril. “Está decidido”, continuou ele, em outra mensagem enviada na sequência. “Você pode dizer apenas a forma. A pedido ou ex ofício”. A resposta de Moro foi enviada 11 minutos depois, às 6h37. “Presidente, sobre esse assunto precisamos conversar pessoalmente. Estou ah (sic) disposição para tanto”.

Em outra sequência de mensagens, enviadas também antes da reunião ministerial, Bolsonaro encaminha dois vídeos e reclama com Moro de ser informado por “terceiros”. “Força Nacional, Ibama, Funai... As coisas chegam para mim por terceiros... Eu não vou me omitir”, disse o presidente às 8h01m.

Na reunião ministerial, Bolsonaro demonstrou irritação. “Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meu (sic), porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira”, disse o presidente, olhando para Moro.

As mensagens que agora vêm à tona contrariam a versão de Bolsonaro de que Valeixo pediu para ser demitido, além de ajudarem a explicar o comportamento de Moro na reunião. O ex-ministro ficou em silêncio quando foi constrangido pelo chefe, que cobrou mudanças nas áreas de inteligência. Àquela altura, ele já havia sido comunicado da decisão unilateral de demitir Valeixo, sem que pudesse opinar a respeito. Na entrevista que o Fantástico levou ao ar neste domingo, Moro reforçou essa justificativa, além de afirmar que "o ambiante claramente não abria espaço para o contraditório". Disse ainda que se valeu de um compromisso previamente agendado para antecipar sua saída da reunião. Menos de 48 horas depois, o então ministro pediu sua exoneração. 

Bolsonaro tem sustentado em entrevistas que foi Valeixo quem pediu para ser demitido. Segundo ele, isso comprova que não houve interferência da sua parte. “O senhor Valeixo de há muito vinha falando que queria sair. Na véspera da coletiva do senhor Sérgio Moro, dia 24 (de abril), o senhor Valeixo fez uma videoconferência com os 27 superintendentes do Brasil, onde disse que iria sair. Eu liguei pro senhor Valeixo, o qual respeito, na quinta-feira, à noite. Primeiro ele ligou pra mim. Depois eu retornei pra ele. ‘Valeixo, tudo bem?. Sai amanhã? Ex officio ou a pedido?’. A pedido (foi a resposta de Valeixo, segundo Bolsonaro). E assim foi publicado no DOU. Lamento ter constado o nome do ministro da Justiça ali. É porque é praxe”, disse o presidente na noite de sexta-feira, após a divulgação do vídeo.

Em depoimento no inquérito, no dia 11 de maio, Valeixo contou que jamais formalizou um pedido de demissão. De acordo com ele, um dia antes da publicação no Diário Oficial, recebeu um telefonema do próprio presidente questionando se ele concordava que sua exoneração saísse a pedido. Sem alternativa, assentiu. Valeixo relatou, ainda, que Bolsonaro justificou que queria alguém no cargo com quem tivesse “afinidade”.

A troca de mensagens foi extraída do celular de Moro durante seu depoimento. Na ocasião, peritos da PF fizeram uma varredura completa no aparelho, em busca de mensagens que poderiam comprovar a acusação contra o presidente. Na sexta-feira, o ministro Celso de Mello encaminhou à PGR um pedido de partidos de oposição para que o celular de Bolsonaro fosse apreendido em busca de mais provas da suposta interferência dele na PF. A reação do Planalto veio do general Augusto Heleno, que, em nota, disse que uma decisão favorável a esse pedido poderia ter “consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”.

Três horas depois dos diálogos obtidos pelo Estadão, nos quais Bolsonaro dá a ordem para mudar a PF, ocorreria a reunião ministerial tornada pública na sexta-feira, na qual o presidente afirma claramente que desejava troca na “segurança” do Rio. Chegou a dizer que era alvo de “putaria o tempo todo” para atingir não só ele como sua família.

Bolsonaro disse ali que não podia ser “surpreendido com notícias”. “Pô, eu tenho a PF que não me dá informações”, reclamou. E assegurou, ainda, que ia interferir em todos os ministérios. “Não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é ameaça, não é uma … uma extrapolação da minha parte. É uma verdade”, afirmou, olhando para o lado onde estava Moro.

A versão de que o presidente se referia à sua segurança pessoal no Rio, e não à PF, é colocada em xeque por mudanças ocorridas no escritório do GSI no Rio, dois meses antes da reunião ministerial. A contradição foi revelada pelo Jornal Nacional. A reportagem mostrou também que, 28 dias antes daquela reunião, o responsável pela segurança do presidente havia sido promovido.

Em 5 de maio, Bolsonaro exibiu o seu celular com mensagens trocadas por ele e Moro na tarde do dia 22 de abril para dizer que o ex-ministro havia mudado de versão sobre a tentativa de interferência na PF. “Isso é uma mentira deslavada”, disse. No entanto, a conversa ocorrida na manhã do dia 22, em que Bolsonaro avisa a Moro que demitirá Valeixo, não foram mostradas pelo presidente.

Estadão procurou a Secom para falar sobre as mensagens, mas o Planalto informou que não iria comentar. A defesa de Moro disse que “as declarações do presidente da República demonstram, de maneira inquestionável, sua vontade de interferir indevidamente” na Polícia Federal. “Esses elementos probatórios somam-se às demais diligências investigatórias, inclusive ao vídeo da reunião de 22 de abril, comprovando as afirmações do ex-ministro Sérgio Moro”, afirmou o advogado Rodrigo Rios.

Fica cada vez mais nítido que este governo apodreceu. Urge concitar o excelso general da banda a enfiar a cloroquina no saco e ir tocar em outro coreto.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

INTERFERÊNCIA? EU?

 


A substituição de Castello Branco por Silva e Luna na presidência da Petrobras (que ainda precisa ser chancelada pelo conselho de administração) não foi a primeira intromissão indevida de Bolsonaro. Ao longo de sua desditosa gestão, o capitão reafirmou ad nauseam sua autoridade com frases como "quem manda sou eu", "minha caneta funciona" e “não sou um presidente banana”, e interferiu a mais não poder em órgãos e outras áreas ligadas ao governo. Só para relembrar: 

- Em 2019, Bolsonaro mandou a Petrobras romper contratos com o escritório de advocacia do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, seu desafeto, cujo pai desapareceu durante a ditadura militar.

- Ainda em 2019, Bolsonaro avançou sobre decisões internas da PF ao antecipar a substituição do então superintendente do órgão no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi. A PF divulgou que Saadi seria substituído por Carlos Henrique Oliveira, mas Bolsonaro disse que havia acertado previamente que o cargo seria ocupado pelo superintendente da PF do Amazonas, Alexandre Silva Saraiva. Em setembro do mesmo ano, indicou o substituto de Raquel Dodge sem levar em conta a lista tríplice do MPF, comprometendo a independência do Ministério Público com a nomeação de um PGR que, por gratidão ou por ambicionar uma vaga no STF, tornou-se um pau mandado do chefe do Executivo. 

- Em 27 de abril de 2020, cinco dias depois da fatídica reunião de Bolsonaro com seu ministério e três depois de o ex-juiz Sergio Moro desembarcar do governo, a PGR abriu (muito a contragosto) um inquérito para investigar se o presidente violou a autonomia da PF. A investigação está em curso, falta o STF decidir se Bolsonaro vai depor presencialmente ou por escrito.

- Bolsonaro fez campanha para Arthur Lira na disputa com Baleia Rossi pela presidência da Câmara. "Vamos, se Deus quiser, participar, influir na presidência da Câmara, com estes parlamentares, de modo que possamos ter um relacionamento pacífico e produtivo para o nosso Brasil.", disse ele, e, para enfunar as velas da campanha do deputado, prometeu cargos a congressistas e acenou com a liberação de recursos de emendas parlamentares e até a recriação de ministérios para acomodar indicados do Centrão.

- Ao tomar conhecimento do anúncio de um plano de demissão voluntária e do encerramento de 361 unidades do Banco do Brasil, Bolsonaro pediu a cabeça do presidente do órgão, André Brandão, mas foi demovido pelo ministro Paulo Guedes e pelo presidente do Banco Central. A medida de reestruturação que irritou o capitão tinha o apoio de Guedes e de outros membros da equipe econômica. Brandão permanece no cargo e disse que houve “um problema de comunicação”.

- Em outro episódio envolvendo o BB, Bolsonaro mandou tirar do ar uma campanha publicitária do banco, dirigida ao público jovem, com atores que representavam a diversidade racial e sexual, além de ordenar o afastamento do diretor de marketing da instituição, responsável pela aprovação das propagandas. Devido ao ocorrido, o presidente chegou mesmo dizer que empresas estatais deveriam submeter previamente à avaliação da Secom campanhas de natureza mercadológica, mas a medida contraria a Lei das Estatais, e ele acabou recuando.

- Em fevereiro de 2020, Bolsonaro anunciou ter "implodido" o Inmetro com a demissão de integrantes da diretoria e a troca do presidente e do órgão por um militar. As exonerações na autarquia federal, vinculada ao Ministério da Economia, foram decididas porque o capitão estava insatisfeito com mudanças que envolveriam tacógrafos e, supostamente, provocaram reclamações de motoristas e taxistas.

- Em diferentes momentos, Bolsonaro requisitou a AGU para tarefas que podem ser consideradas uma extrapolação do escopo institucional do órgão. Entre outras está a declaração feita neste mês, de que acionou a AGU para tomar providências sobre a reclamação de que seguidores não estariam conseguindo postar fotos em sua página oficial no Facebook. O jornal "Folha de S.Paulo" revelou que o recurso de envio de fotos por comentários estava desativado no perfil do capitão na rede social.

- Bolsonaro também usou a AGU para entrar com uma ação no STF contra a decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender contas de redes sociais de apoiadores do governo investigados em inquérito da corte. Em 2020, ele desautorizou a AGU no episódio da posse do delegado Alexandre Ramagem no comando da Polícia Federal, barrada por Moraes, e mandou o órgão recorrer da decisão, mesmo depois de José Levy divulgar uma nota informando que não contestaria o ato do STF. "Quem manda sou eu, e eu quero o Ramagem lá." O recurso foi impetrado e devidamente rejeitado pelo ministro.

- Bolsonaro mobilizou o Ministério da Justiça para impetrar um habeas corpus em favor do ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, intimado pelo STF para explicar ataques feitos à Corte. A petição, assinada por André Mendonça, foi considerada algo insólito, já que a tarefa, em tese, caberia à AGU ou a um advogado pessoal. Membros do governo disseram que enviar um documento com a assinatura de Mendonça foi uma maneira de dar um caráter político, e não técnico, à manifestação. E num momento em que o Executivo estava em atrito com o Judiciário.

- Ainda na gestão do ex-juiz Sergio Moro na pasta, um dos primeiros focos de tensão do então ministro com o presidente da República se deu em torno da nomeação da especialista em segurança pública Ilona Szabó como suplente do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, em 2019. Moro teve que recuar da escolha de Ilona após campanha de bolsonaristas nas redes sociais. Os apoiadores lembraram que, além de divergir de Bolsonaro em temas como armamento e política de drogas, ela havia se posicionado contra o então candidato na campanha eleitoral de 2018. Bolsonaro confirmou publicamente, em duas ocasiões, ter pressionado Moro pela suspensão da nomeação, afirmando que Ilona possui posicionamentos incompatíveis com o governo — e que "não foi fácil" conseguir a saída dela devido à resistência do então ministro (que declarou em depoimento à PF que a revogação do convite foi pedida por Bolsonaro e que ele relutou em aceitar a ordem, mas teve que ceder).

- Devido à divulgação dos dados referentes ao aumento do desmatamento na Amazônia, Bolsonaro ordenou ao ministro Marcos Pontes a exoneração de Ricardo Galvão da diretoria do Inpe. "Eu não peço, certas coisas eu mando", afirmou sua alteza, que queria que as informações fossem discutidas previamente com ele antes de ser tornadas públicas.

Os primeiros sinais de interferência do Planalto na Receita Federal, sobretudo na unidade do Rio de Janeiro, começaram no primeiro ano do governo, em 2019. As pressões se referem principalmente à troca de servidores em postos de comando do órgão. 

Em meio a apurações que atingem autoridades e também familiares e pessoas próximas a Bolsonaro, um subsecretário-geral do posto fluminense chegou a ser substituído pelo governo, por se posicionar de forma contrária às intervenções. Questionado na época sobre as ingerências na Receita e na PF, o presidente afirmou: "Está interferindo? Ora, eu fui [eleito] presidente para interferir mesmo, se é isso que eles querem. Se é para ser um banana ou um poste dentro da Presidência, tô fora".

Em fevereiro de 2019 — relembra a colunista do UOL Taís Oyama —, Paulo Guedes anunciou a morte da “velha política” "As estatais não vão mais alimentar uma forma equivocada de fazer política, esse excesso de gasto do governo que corrompeu a democracia e travou o crescimento da economia". Mas até agora o supeministro reabixado a ministro quese demissionário não deu um pio sobre o manifesto desejo de seu chefe de "dar um gás na popularidade" baixando artificalmente a conta de luz, à custa do uso de um fundo setorial e tributos federais.

Em abril daquele ano, tentando consertar uma "gafe" de presidente em início de mandato, o então porta-voz-general Otávio do Rêgo Barros disse aos jornalistas: "Uma frase que o nosso presidente disse logo no início da reunião: 'Eu não quero e não tenho direito de intervir na Petrobras'".

Pouco antes, ao saber que a petrolífera havia anunciado o aumento do preço do diesel, Bolsonaro ordenou o cancelamento. A divulgação dessa ingerência causou um princípio de incêndio no mercado — as ações da Petrobras despencaram 7,5%. Guedes se apressou a bancar o bombeiro e o general-porta-voz garantiu que o presidente havia entendido as explicações do ministro e não iria mais intervir na estatal. Detalhe: o interlocutor no telefonema em que o capitão reclamou que a Petrobras estava "jogando diesel" no seu chope era Paulo Castello Branco, penabundado dias atrás, depois do anúncio de mais um aumento no preço dos combustíveis.

Em setembro do ano passado, falando sobre o auxílio emergencial em sua live semanal, also sprach Zarathustra, digo, Bolsonaro: "Quando foi criado era para três meses. Passamos para cinco. Alguns querem para mais quatro. Impossível. Quebra o Brasil, perdemos a confiança". Bastou sua popularidade despencar para levar com ela a preocupação do grande estadista com o risco de “quebrar o Brasil”.

Para um líder populista, há sempre uma solução simples para um problema complexo. Para reduzir a inflação, congela-se o preço dos alimentos. Para acabar com a escassez de carne, manda-se a Polícia Federal caçar bois no pasto. Para baixar o preço da gasolina e da conta de luz, demite-se o presidente da Petrobras e arromba-se um pouquinho mais os cofres públicos.

O populismo tende a vicejar nas crises porque se baseia na ideia de um permanente confronto entre "o povo e as elites". Assim, toda vez que o negócio aperta para o lado do governante populista (o "protetor do povo"), os culpados já estão nominados. São, claro, "as elites", cuja cara pode mudar dependendo da situação: ora é o Congresso, ora o Supremo, ora a imprensa. Agora parece ser "o pessoal do lucro" que "não tem coração".

O ano passado marcou o oitavo ano consecutivo que estrangeiros retiraram investimentos do Brasil (em 2020 foram 51 bilhões de dólares líquidos que fugiram pela janela), o que é bem fácil de entender. Um investidor estrangeiro, ao constatar que seu dinheiro está num país governado por um presidente impulsivo, que acredita em cloroquina como cura da Covid e não tem pudor em interferir na gestão de empresas autônomas, muda seu dinheiro de lugar e pronto.

Para os brasileiros que aqui ficam a coisa é mais complicada. Se não é possível mais confiar no investimento estrangeiro para facilitar a retomada do crescimento e do emprego, tampouco se pode contar para isso com a possibilidade de investimento público ou do setor privado, um inexistente e o outro, asfixiado.

Nunca houve amor verdadeiro entre o nacionalista-populista Jair Bolsonaro e o liberal Paulo Guedes — mas, a essa altura, isso é o de menos. Como um casamento de conveniência, esse pode até sobreviver. Quem está arriscado perecer é o Brasil.

Com Thais Oyama