quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

JOÃO DE DEUS E LULA DO DIABO



Estima-se que haja 726.712 detentos nos presídios tupiniquins. Há quem diga que esse número não expressa a realidade, que a população carcerária é menor. Talvez seja, mas isso não muda o fato de que há muito mais presos do que vagas nos presídios — são 368.049 vagas em 1.449 unidades penais em todo o território nacional. Para alguns juristas renomados, associações de advogados e até ministros supremos da “ala garantista”, a solução é soltar meio mundo. Mas talvez a resposta seja outra. Senão vejamos.

É certo que prender enche prisões, mas é igualmente certo que a punição faz parte do processo de controle da criminalidade. Pode parecer paradoxal, mas, em vez de soltar quem está preso e passar a prender menos, dever-se-ia prender mais e melhor. Claro que isso demanda a construção de mais presídios, e isso custa dinheiro — cerca de R$ 1 bilhão por 20 mil vagas —, mas se R$ 1 bilhão é o custo diário da violência no país, não estamos falando em gasto, e sim em investimento.

Estamos em terceiro lugar no ranking mundial de pessoas presas, mas podemos “nos gabar” de termos entre elas figuras notórias, como o ex-presidente Lula e o médium João Teixeira de Faria, mais conhecido como João de Deus. O primeiro é réu em oito processos e está cumprindo a pena a que foi condenado na ação envolvendo o célebre tríplex no Guarujá; o segundo é réu por estupro e violação sexual e acusado de tráfico de crianças. Ambos estão presos em salas especiais e recebem tratamento diferenciado do que é dispensado aos demais detentos, como será visto mais adiante.

Lula está preso há nove meses e 11 dias na sede da Superintendência da Polícia Federal no Paraná. Para quem estiver interessado em fazer uma visitinha, ela fica no número 220 da R. Profa. Sandália Monzon, em Curitiba. Em razão da “dignidade do cargo” e para evitar riscos a integridade moral ou física do ex-presidente bandido, foi-lhe destinada uma cela especial, com área de 15 m2, mesa redonda e quatro cadeiras, estante, TV de plasma, esteira ergométrica, frigobar, banheiro com pia, vaso sanitário e chuveiro elétrico. Durante a corrida presidencial, o “digno” ocupante dessa sala não teve o menor constrangimento em convertê-la no seu comitê de campanha — com total conivência das autoridades.

Diferentemente dos demais presidiários, Lula não limpa o banheiro, não varre o chão nem recolhe o lixo de sua suíte — tudo isso fica a cargo de um funcionário da limpeza, que faz a faxina quando o “hóspede” está no banho de sol. Por essas e outras, alguns policiais se referem a ele como “Lula Escobar”, numa alusão ao narcotraficante colombiano Pablo Escobar, que, num acordo com a Justiça, construiu uma mansão-presídio para nela cumprir sua pena.

Além do processo que o mandou para a cadeia, Lula responde a outras sete ações criminais, duas das quais tramitam na 13ª Vara Federal do Paraná e estão conclusas para sentença — isto é, a decisão pode sair a qualquer momento —, mas especula-se que juíza substituta Gabriela Hardt deixará o julgamento por conta do magistrado que vier a ser efetivado na vaga aberta com a exoneração de Sérgio Moro.

João de Deus ainda não foi condenado, mas já se tornou réu por estupro de vulnerável e violação sexual, além de ser acusado de tráfico de crianças. Tudo começou quando o programa "Conversa com Bial" levou ao ar o testemunho de 12 mulheres que teriam sido vítimas do curandeiro mais famoso do Brasil. Dessas, a única a autorizar que seu nome fosse divulgado foi a holandesa Zahira Lieneke, que afirmou ter sido estuprada em 2014, mas foi o suficiente para a abrir as comportas do inferno: desde então, o médium de 77 anos — que ao longo das últimas quatro décadas atendeu mais de 3,5 milhões de pessoas do mundo inteiro — foi acusado de violência sexual por centenas de mulheres de pelo menos dez estados do país, sendo de sua própria filha o relato mais surpreendente (depois da enxurrada de delações, Dalva Teixeira, de 49 anos, alegou ter sido abusada pelo pai desde os 10 anos de idade).

João de Deus está preso desde 16 de dezembro. A exemplo de Lula, ele não fica com os outros 5.000 presos do Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia. A pretexto de evitar que se tornasse vítima da tácita lei da bandidagem que pune violência sexual com violência sexual, médium foi acomodado numa sala de 50 m2, que compartilha com outros três detentos, todos advogados. No cômodo, que não tem grades nas janelas, há uma TV de 20 polegadas, banheiro com chuveiro elétrico e privada de louça. Nada mau se considerarmos que os demais prisioneiros ficam amontoados em cubículos projetados para acomodar 5 pessoas cada, mas que têm pelo menos o triplo de ocupantes.

Na semana passada, visando garantir que, em caso de condenação de João de Deus, as vítimas sejam indenizadas, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 50 milhões do curandeiro, entre imóveis e investimentos bancários. Considerando que ele não cobrava formalmente pelos tratamentos espirituais, e que não poderia atender 10 mil pessoas por mês se não dedicasse tempo integral à caridade, explicar esse patrimônio exige levar ao pé da letra o ditado segundo o qual “quem dá aos pobres empresta a Deus”, e acreditar que a retribuição vem com juros e correção monetária.

Antes de se estabelecer em Abadiânia (GO), na década de 1970, João de Deus peregrinou pelo país como Lula em pré-campanha, só que fazendo cirurgias espirituais. Segundo o MP de Goiás, as denúncias vêm desde 2010; em 2012 o médium ser julgado por abuso sexual, mas foi inocentado por falta de provas; no mesmo ano, após vários relatos de abusos contra mulheres, foi proibido de prestar atendimento pelos frequentadores de uma casa na cidade de Três Coroas (RS), mas as vítimas não registraram queixa por medo de represálias. Consta ainda que ele foi denunciado por exercício ilegal da medicina e acusado de “sedução” de menor, atentado ao pudor, contrabando de minério e assassinato, mas jamais foi condenado.

Tanto Lula quanto João de Deus negam os crimes que lhes são imputados, a exemplo do que fazem políticos, empresários e demais figurões investigados na operação Lava-Jato e congêneres. Todos seguem fielmente a mesma cartilha, afirmando-se surpresos com as acusações, dizendo confiar na Justiça, e blá, blá, blá. Mesmo depois de condenados a mais de 100 anos de prisão, como é o caso do o ex-governador fluminense Sérgio Cabral. Outros bom exemplos são Eduardo Cunha e João Vaccari Netto, que estão na cadeia, respectivamente, desde 2017 e 2015. Ou o guerrilheiro de festim José Dirceu e Paulo Maluf, que ainda não foram mandados de volta para a cadeia porque o Supremo é o Supremo.

Dizem as más-línguas que o Lula aconselhou João de Deus a adotar a mesma estratégia de defesa que ele usou no caso do tríplex, mas é difícil o médium convencer alguém de que o pinto não era dela. Aliás, com Lula não funcionou, como também não funcionaram os mais de 80 recursos interpostos por sua defesa em todas as instâncias do Judiciário. E ao que tudo indica, não vai funcionar tampouco no caso do sítio em Atibaia, que, segundo o petralha, nunca foi dele.

Alex Nader, que divide a defesa do curandeiro molestador com Alberto Zacarias Toron e Antonio Carlos Kakay de Almeida Castro (este último atende nada menos que 17 enrolados na Lava-Jato), contesta a prisão preventiva sustentando que seu cliente não tentou movimentar dinheiro, não ameaçou testemunhas e se apresentou à polícia de forma espontânea. Enfim, talvez seja tudo uma questão de fé.  

QUANDO O COMPUTADOR NÃO LIGA OU O WINDOWS NÃO CARREGA...


NÃO HÁ PODER DE CONTROLE SOBRE O UNIVERSO MAIOR DO QUE O PODER QUE NOS CONTROLA.

Mesmo com as facilidades do smartphone e da conexão móvel, há situações em que precisamos ou preferimos usar um PC convencional. No ambiente Windows contemporâneo, mensagens de erro, travamentos, reinicializações aleatórias e “telas azuis da morte” não são tão frequentes quanto nas edições 9x/ME, mas ninguém está livre de ligar o PC e ele se fingir de morto ou o Windows 10 se recusar a carregar. Afinal, máquinas são máquinas, e se até mesmo o corpo humano, que, dizem, foi criado a partir de um projeto divino e aperfeiçoado ao longo de centenas de milhares de anos, tem lá seus piripaques, o que esperar de obras idealizadas, projetadas e construídas por seres sabidamente falíveis?

Um sistema computacional é composto basicamente de dois segmentos distintos, mas interdependentes, que são o hardware e o software. Normalmente, o próprio Windows tenta solucionar os problemas de software que o impedem de carregar, e, na impossibilidade, exibe a tela das opções de recuperação (voltaremos a essas opções mais adiante). Mas a culpa pode ser de uma simples falta de energia — talvez a faxineira tenha desplugado o cabo do PC da tomada para usar o aspirador de pó, por exemplo, ou haja problemas com o plugue, com a própria tomada ou com o estabilizador de tensão. Afinal, às vezes as coisas deixam de funcionar do nada, de uma hora para outra — para morrer, basta estar vivo.

Em determinadas situações, pode ser preciso usar um disco de resgate para recolocar o bonde nos trilhos. O CD que era fornecido com a documentação do computador — e que servia para reinstalar o software — cumpria esse papel, mas deixou de ser fornecido pelos fabricantes, que passaram a economizar alguns trocados gravando os arquivos de instalação numa pequena partição oculta, criada no HD exclusivamente para esse fim. Então, quem quiser um disco de resgate terá de criá-lo. Veja como.   

- Depois de providenciar um pendrive (ou HD externo) com pelo menos 4 GB de espaço livre, ligue o PC (que deve estar funcionando direitinho), conecte a internet, dê um clique direito no botão que convoca o menu Iniciar, clique em Sistema e anote a versão do seu Windows 10.

- Acesse a página de downloads da Microsoft, baixe a ferramenta de criação de mídia e execute-a no computador.

- Clique em Criar mídia de instalação para outro computador e em Avançar. Na tela seguinte, selecione o idioma, a versão (Home ou Professional) e a arquitetura (x86 para 32-bits ou x64 para 64-bits, conforme o caso) e, no campo Edição, escolha a que você anotou anteriormente.

- Marque Unidade flash USB, espete o pendrive (ou o cabinho do HD externo) numa portinha USB do PC, clique em avançar e aguarde a conclusão do processo.

Observação: Se houver arquivos importantes no pendrive ou no HD externo, copie-os previamente para outro local, pois todo o conteúdo será apagado durante a formatação.

Também é possível criar a unidade de regate sem o concurso da ferramenta da Microsoft. Para isso:

- Digite criar unidade na caixa de pesquisas da Barra de Tarefas (ou na caixa de diálogo da Cortana, conforme a configuração do seu Windows) e clique na opção Criar unidade de recuperação Painel de Controle.

- A tela seguinte permite escolher entre simplesmente criar a unidade ou incluir um backup do sistema. Escolha a segunda opção, ainda que o processo seja mais demorado e os arquivos ocupem mais espaço na mídia removível (cerca 16 GB), pois ela poupará tempo e trabalho quando e se você precisar reinstalar o sistema.

- Espete o pendrive (ou o cabo do HD externo) numa portinha USB, indique-o ao assistente de criação, clique em Avançar e em OK na mensagem de que a unidade será formatada, clique no botão Criar e aguarde a conclusão do processo. Quando for exibida uma mensagem dando conta de que a unidade de recuperação está pronta, clique em Concluir.

Continua na próxima postagem.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

CHARADA EM CONSTRUÇÃO



As coisas seriam relativamente simples no Brasil se todas as preocupações, dúvidas e problemas a resolver se resumissem ao novo governo do presidente Jair Bolsonaro. Mas a vida nem sempre nos dá a oportunidade de lidar só com uma questão de cada vez. Além de tudo o que precisa dar certo aqui dentro, hoje em dia é preciso encarar, também, uma quantidade ainda maior de coisas que têm de dar certo lá fora — e essas coisas não parecem estar a caminho de acabar bem.

É uma sinuca, no caso particular do Brasil, onde o governo Bolsonaro se declara disposto a fazer o contrário do que o pensamento mundial recomenda para resolver os problemas do universo. Do outro lado, o consenso ora em formação entre os intelectuais, burocratas, governantes e outros “influenciadores” da vida diária do primeiro mundo demonstra um aberto horror a tudo o que o governo brasileiro imagina que vai fazer nos próximos quatro anos.

De Bolsonaro já sabemos o que é preciso saber. Do outro lado, porém, o que existe é uma charada em construção. Quando você começa a achar que entendeu alguma coisa na lista de deveres a ser obedecida hoje por pessoas e nações, os deveres mudam, ou entram em choque entre si, ou exigem ações que você não sabe como executar.

Não é fácil enxergar com clareza no meio desse nevoeiro. Dá para dizer, em todo caso, que o grande traço de união entre as diversas seitas do novo pensamento é a certeza de que a mãe de todos os pecados do mundo de hoje é a falta de igualdade — tanto entre as pessoas, individualmente, quanto entre as nações. Tudo que há de errado na vida atual se deve, de uma forma ou de outra, à desigualdade; por via de consequência, de acordo com as crenças básicas do consenso mundial que está se formando no mundo rico, a redução ou a eliminação das diferenças levará à solução de todos os problemas que estão aí e não sabemos como resolver.

Dos quebra-quebras em Paris ao derretimento das geleiras no sul da Patagônia, das guerras tribais na África, massacres de civis na Síria e fomo no Congo, nada disso tem alguma relação com as forças e governos que provocam essas desgraças. São, pelo novo sistema de pensar o universo, resultado da desigualdade e, portanto, têm de ser curadas com mais igualdade. Imigração ilegal em massa para os países bem sucedidos? Escassez de água? Emissões de carbono? É tudo mais ou menos a mesma coisa. Se o mundo fosse mais igual, nada disso existiria.

Nada mais fácil, hoje em dia, do que encontrar combatentes da igualdade. Estão por toda a parte. Em geral, acham que a redução do número de pobres se fará através da redução do número de ricos, e nunca da criação de riqueza entre os pobres. Têm uma mal definida hostilidade ao progresso, visto que o progresso não conseguiu eliminar a desigualdade; acham que mais eletricidade ou mais estradas, por exemplo, trazem benefícios desiguais, e portanto são desaconselháveis, sobretudo quando você já tem as duas. 

O New York Times e outros centros da nova inteligência mundial estão convencidos, por exemplo, de que praticamente toda a produção da agricultura brasileira poderia ser substituída no futuro, e com vantagens, pelo consumo de insetos, capazes de fornecer todos os nutrientes necessários ao organismo humano. Com isso, seria possível eliminar fazendas nocivas ao meio ambiente, que hoje desperdiçam com a produção de alimentos terras que deveriam estar destinadas à florestas. Além disso, utilizam “agrotóxicos” e, eventualmente, perturbam a vida indígena. É mais ou menos a mesma visão que atribui aos “direitos dos animais” importância equivalente aos direitos humanos — isso para não falar nos direitos dos vegetais e da camada de gelo do Polo Norte. De modo geral, consideram a sobrevivência do meio ambiente mais importante que a sobrevivência das pessoas de carne e osso. Numa espécie de cavalo-de-pau filosófico, acham natural que os recursos naturais não devam ser utilizados em favor do bem estar humano; ao contrário, estão convencidos que é obrigação do homem e dos governos não tocar em nada que esteja presente na natureza.

Nada disso parece ter alguma coisa a ver com a redução das desigualdades — mas o fato é que todas essas crenças são apresentados como parte do mesmo pacote de salvação do mundo que vai sendo embrulhado hoje em dia por funcionários de burocracias como a ONU, Comissão Europeia e outros organismos internacionais, governos de países ricos, universidades do primeiro mundo, a mídia em geral, o cantor Bono Vox e por aí afora. Há bem estar na Alemanha, por exemplo, e miséria na África? A solução é abrir a Alemanha à imigração dos africanos — onde se espera que passem a desfrutar da mesma prosperidade sem ter feito os últimos 100 anos de trabalho que os alemães fizeram para chegar até onde estão hoje. É essa, por sinal, a grande ideia que sustentou a aprovação do recente acordo internacional declarando que todos os habitantes do planeta têm agora o direito legal de imigrar para o país que quiserem.

Distribuir a fortuna dos ricos parece ser uma ótima ideia até você ver que só dá para fazer essa distribuição uma vez — depois que é consumida, a riqueza acaba, e é preciso criar outra em seu lugar para continuar havendo alguma coisa a distribuir. Outro problema é a tecnologia — quanto mais progresso se cria, mais se aumenta a desigualdade. Profissões inteiras vão se tornando obsoletas por conta dos avanços da inteligência artificial, da impressão em terceira dimensão, da robotização e outras mudanças desagregadoras do mundo profissional como ele é hoje. Para que pilotos de jato se os aviões voarão sozinhos, e com muito maior segurança, de Nova York a Tóquio? Para que médicos, se o computador vai fazer um transplante de coração melhor do que eles? Para que o marceneiro, se a impressão em 3D lhe entrega sua cadeira pronta e sem defeito nenhum?

É um mundo no qual só as pessoas com alto grau de conhecimento serão realmente cidadãos de primeira classe. Por mais que as leis digam que todos são iguais, e por mais que as elites pensantes escrevam programas estabelecendo regras de igualdade, as diferenças estarão cada vez mais evidentes. É para essas realidades que o Brasil tem de se preparar. Será preciso, nesta caminhada, contar com ideias muito melhores do que as que apareceram até agora.

Versão resumida do artigo de J.R. Guzzo publicado na edição impressa de Veja desta semana.

AINDA SOBRE O MODO NARRAÇÃO NO FIREFOX E A CONTRAPARTIDA DO CHROME


QUANTO MENOS PENSAM, MAIS OS HOMENS FALAM.

O modo de leitura do Firefox funciona direitinho, inclusive na opção “modo narração”, que lê em voz alta o conteúdo das páginas. O problema é achar páginas que lhe ofereçam suporte — além do conteúdo do site da Fundação Mozilla, desenvolvedora do browser da raposa, deu para contar nos dedos as páginas compatíveis que consegui encontrar quando eu testei o recurso para escrever o post anterior. Felizmente, o plugin Read Aloud resolve esse problema — para instalá-lo, abra esta postagem no seu Firefox e clique aqui.

O Chrome lê textos das webpages nativamente, dispensando a instalação de plugins. Ou deveria. Em tese, bastaria clicar no trecho selecionado e ativar ou desativar o comando de leitura, mas no meu navegador (versão 71.0.3578.98/64-bit), o comando em questão não aparece nem com reza brava.

Felizmente, também nesse caso há uma extensão que supre essa lacuna. Para adicionar o Speakit (esse é o nome da dita-cuja), é só abrir esta postagem no Chrome e clicar aqui.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

O PT E O PCC, LULA E MARCOLA



Nenhum governo começou com harmonia e serenidade, lembra Veja na Carta ao Leitor da edição desta semana. Collor, que assumiu em pleno colapso econômico provocado pela explosão inflacionária, abriu os trabalhos confiscando o dinheiro da poupança; Itamar, presidente acidental, tomou posse com trapalhadas de todos os lados — não tinha programa, não fez sequer um discurso à nação e montou um ministério que se resumia a um condomínio de amigos. Collor terminou seu governo em desastre; Itamar fez história com o Plano Real, que levou FHC ao Palácio do Planalto.

O começo do governo de Lula foi o mais parecido com a primeira semana completa de Bolsonaro no Planalto. O ministério do petista entrou em campo protagonizando trombadas de um amadorismo ímpar. O ministro da Ciência e Tecnologia elogiou a pesquisa para a fabricação da bomba atômica — e foi logo desmentido em público pelo governo; o dos Transportes disse que, em caso de falta de verbas no ministério, o Exército poderia usar seus batalhões para construir rodovias e estradas — e foi desmentido pelo próprio Exército. Pois Bolsonaro fez até um pouco pior, afirma a revista em sua reportagem de capa (intitulada “Tuitadas e Trombas”).

O novo presidente, diz a matéria, conseguiu um feito ainda inédito na estreia dos governos democráticos: foi publicamente desmentido, ele próprio, por membros de sua equipe. Três vezes. Uma ao dizer que tinha assinado um decreto para aumento do imposto sobre operações financeiras, outra ao afirmar que haveria redução das alíquotas do imposto de renda, e uma terceira ao anunciar quais seriam as novas idades mínimas para a aposentadoria na proposta de reforma da Previdência do governo. Foi um começo desordenado e constrangedor, mas nada que não tenha conserto.

Lula, apesar do caos inicial, acabou presidindo o país em uma fase de notável crescimento econômico e deixou o governo com altíssima popularidade — até parar atrás das grades. Bolsonaro tem tudo para acertar o rumo do seu governo, desde que compreenda, se ainda não compreendeu, que suas declarações no exercício do poder têm peso e consequência infinitamente maiores do que numa campanha eleitoral. Até aqui, as expectativas são tão positivas que nem a bagunça de agora teve efeitos deletérios — a bolsa segue em alta histórica, o dólar mantém sua trajetória de queda e o Brasil continua esperançoso de um futuro melhor.

Num país onde os políticos são... bem... são o que são, o papel de fiscalizar o governo cabe à mídia. Mas criticar é fácil. Propor soluções factíveis é que são elas. Numa analogia com o futebol, tudo bem se você não jogar no time, mas também não precisa torcer contra. Na atual conjuntura, torcer contra o governo é ir contra os interesses do Brasil e dos brasileiros. Embirrar com o resultado das urnas é coisa de petista inconformado. Mas o que se poderia esperar de um partido comandado de dentro da cadeia por um presidiário?

A resposta está numa matéria assinada pelo professor de filosofia Denis L. Rosenfield, publicada meses atrás no Estadão. Confira abaixo uma versão resumida:

O PCC comanda da carceragem toda uma série de operações que são executadas por comparsas agindo enquanto homens livres. Presidente é presidente, independentemente de ser presidiário. Chefe é chefe e, como tal, deve ser obedecido. Para surpresa geral, porém, esse modelo foi imitado pelo PT, em particular por seu chefe, que segue, do ponto de vista formal, os mesmos moldes de operação. Lula está cumprindo pena, mas goza de condições carcerárias não autorizadas para outros cidadãos. Costuma falar da igualdade de todos os brasileiros, mas não aceita, de modo algum, ser considerado um igual. Com a anuência das autoridades públicas que deveriam ter exercido controle sobre essa falta de limites morais e jurídicos, sua cela se tornou um centro de comando, onde são recebidos partidários mascarados de advogados, com os quais se discute a estratégia partidária a ser seguida. De lá emanam ordens que vão ser, depois, seguidas pelo partido. Ao contrário do PCC, que guarda sigilo, Lula e o PT fazem isso à luz do dia.

O PT se apresentou um dia como o partido da ética na política. Dizia aceitar os valores da democracia representativa e transmitia a imagem de uma nova vida partidária, encarregada de regenerar o País. Muitos caíram nesse canto da sereia e chegaram mesmo a ser considerados parceiros socialdemocratas dos tucanos, apesar de relutarem em aceitar tal denominação. Mas o PT fez da corrupção e do desvio dos recursos públicos um meio de governar e de fazer avançar um projeto próprio de poder, à revelia daqueles valores e princípios que outrora dizia defender.

A questão que deveria ser posta por aqueles que permanecem adeptos desses valores e princípios reside em como obedecer às ordens de uma organização partidária que segue o modelo do crime. Ou o PT enfrenta seriamente essa questão, ou estará programática e moralmente perdido. Mas a corrente majoritária no partido adotou o modelo de atuação do PCC. Ordens de comando de dentro da carceragem são transmitidas para fora e obedecidas. A narrativa ainda mantém o ranço das posições socialistas/comunistas em sua nova roupagem do “nós” contra “eles”, dos “ricos” contra os “pobres”, dos “progressistas” contra os “conservadores”. Só uma academia cega ideologicamente consegue aceitar e propagar tais disparates, além dos propriamente incultos, por falta de informação e formação.

A narrativa politicamente correta é o que ampara as ações internacionais dessa organização. Criminosos comuns fazem isso pelo contrabando, pela violência e pela completa ilegalidade. Essa esquerda o faz pela transmissão ideológica amparada numa suposta defesa dos direitos humanos, sustentada por acadêmicos que comungam tais confissão e fanatismo. O artifício não deixa de ser eficaz, embora não consiga esconder a sua perfídia.

A operação internacional foi realizada a partir da atuação junto a uma Comissão de Direitos Humanos cujas recomendações não são vinculantes e, sobretudo, não se sobrepõem ao ordenamento jurídico do País. Ora, utilizando-se de seus contatos ideológicos, o PT conseguiu que dois ditos peritos dessa comissão de 18 membros declarassem Lula como usufruindo direitos políticos para disputar eleições, quando isso é expressamente vedado pela Lei da Ficha-Limpa, pelo mesmo Lula promulgada quando presidente. Seria hilário, não fosse dramaticamente real.

A exemplo dos seus colegas do PCC, os militantes do PT cumprem cegamente as ordens emanadas da cela de cadeia que abriga o chefe supremo da organização. Em matéria de disciplina, portanto, as duas siglas se equivalem. Antes de decidir uma questão mais complicada, Marcos Camacho consulta um conselho de dirigentes do PCC. Lula, ao contrário, não ouve ninguém e decide tudo sozinho. Em matéria de autoritarismo, portanto, Lula bate Marcola por 7×1.

O PCC é o PT do narcotráfico ou o PT é o PCC da política? Tanto faz. A diferença entre os dois chefões é que só Marcola sempre admitiu que é bandido. Nem ele conseguiria, como vive fazendo Lula, fantasiar-se de preso político sem ficar ruborizado.

MODO DE LEITURA NO FIREFOX


A INJUSTIÇA QUE SE FAZ A UM É UMA AMEAÇA QUE SE FAZ A TODOS.

O Google Chrome é o navegador mais popular entre os internautas do mundo inteiro, mas o Mozilla Firefox também é muito legal. Aliás, a escolha do navegador, de uns tempos para cá, tem mais a ver com as preferências pessoais do usuário do que a diferenças entre os recursos dos principais programas.

O browser da raposinha é recheado de recursos e funções que a gente não usa por simples desconhecimento. Um deles é o modo de leitura, que remove elementos desnecessários das webpages — tais como botões, anúncios e imagens de fundo — e altera o tamanho, o contraste e a apresentação do texto para aprimorar a legibilidade.

Se uma pagina estiver disponível no modo de leitura, o ícone respectivo aparecerá na barra de endereços (oriente-se pela figura 01 que ilustra esta postagem). Clique nesse ícone, e ele ficará azul, indicando que o recurso está ativo, e repare que uma barra vertical com quatro botões será exibida no canto esquerdo da página (figura 02). O primeiro botão serve para encerrar o modo leitura, o segundo permite ajustar as fontes, e o terceiro — que eu considero a “cereja do bolo” — dá acesso ao modo narração (figura 03).

Clique no ícone do modo narração para abrir os respectivos controles, que são bastante intuitivos: o botão play faz com que o Firefox leia em voz alta o conteúdo da página, os botões avançar e voltar alternam entre os parágrafos e o botão deslizante ajusta a velocidade da leitura e dá acesso a algumas (poucas) opções de voz.

Para que esse recurso funcione, você precisa ativá-lo. Com o navegador aberto na página desejada, clique no menu Exibir (se a barra de menus estiver oculta, pressione a tecla ALT para que ela apareça) e acesse a opção Entrar no leitor (alternativamente, pressione a tecla F9, que produz o mesmo resultado). Se essa opção não for exibida, é porque a página visitada não está disponível para acesso no modo leitura. Enfim, nada é perfeito.

Observação: Claro que você pode contornar esse problema adicionando a (excelente) extensão Read Aloud — abra esta postagem no Firefox e clique aqui para incluir o plugin no seu navegador.

Era isso, pessoal. Espero ter ajudado.

domingo, 13 de janeiro de 2019

GLEISI HOFFMANN COM MADURO E RENAN CALHEIROS COM BOLSONARO


Gleisi Hoffmann, a abilolada, viajou à Venezuela para prestigiar a posse de Nicolás Maduro, reeleito em maio do ano passado num pleito boicotado pela oposição, com alta abstenção e denúncias de fraude, sem mencionar que o novo mandato do tiranete não é reconhecido pela Assembleia Nacional e por dezenas de países. Para a presidente nacional do PT, porém, o venezuelano foi eleito dentro do marco constitucional. À imprensa, ela disse que “não entraria no mérito” sobre a ditadura instalada naquele país, e que compareceu à posse para "marcar posição contra grosseira relação do governo Bolsonaro com a Venezuela". 

Relembro que o PT e seus satélites não compareceram à cerimônia de posse de Jair Bolsonaro. Gleisi alegou que a "lisura" do processo eleitoral deste ano foi "descaracterizada pelo golpe do impeachment, pela proibição ilegal da candidatura do ex-presidente Lula e pela manipulação criminosa das redes sociais para difundir mentiras contra o candidato Fernando Haddad", deixando claro que só reconhece a legitimidade de uma eleição quando o vitorioso teve o apoio do partido chefiado por um presidiário. O PSOL, através de comunicado assinado por sua executiva nacional, informou que os parlamentares da sigla não compareceriam à solenidade de Bolsonaro porque "não havia nada a comemorar". Eis aí a mentalidade da esquerda brasileira.

Mudando de pato pra ganso, Dias Toffoli revogou a decisão monocrática do ministro Marco Aurélio e manteve o voto secreto na eleição da mesa diretora do Senado — a exemplo do que havia feito antes em relação à da presidência da Câmara. Para quem não leu minha postagem da última sexta-feira, isso foi sopa no mel para Renan Calheiros, que é um exemplo pronto e acabado de tudo o que não presta na política tupiniquim e estava propenso a renunciar à candidatura no caso de o voto secreto não ser mantido, dada a possibilidade de seus pares não votarem abertamente nele. Quando mais não seja, porque o cara já foi alvo de 18 inquéritos no STF (9 deles arquivados), é “arroz de festa” em delações premiadas da Lava-Jato e exibe um currículo recheado de casos suspeitos. Eis aí um resumo da velha política, que boa parte do Congresso continua defendendo.

Já tentaram me matar muitas vezes, mas eu não sou morredor”, costuma dizer o cangaceiro das Alagoas. Relembrando: em 1989, Renan articulou a eleição de Collor a presidente e no ano seguinte rompeu com o governo e chegou a depor contra o caçador de marajás fajuto na CPI que investigou o esquema PC Farias. Em 2002, o nobre senador apostou em José Serra contra Lula, mas acabou apoiando a adesão do então PMDB ao governo petista, acumulando poder para se eleger presidente do Senado em 2005. Renan foi um aliado do PT até a véspera do impeachment de Dilma, quando pulou para o barco de Michel Temer — com quem romperia no ano seguinte para se aliar ao PT em prol de sua reeleição nas Alagoas, estado afinado com o lulismo. Passada a campanha, o camaleão do nordeste reatou com Temer e agora tenta se realinhar ao novo eixo de poder para se aproximar de Bolsonaro.

O sentimento do MDB é de ajudar o governo e fazer as mudanças de que o país precisa. Eu só posso ser produto da indicação da minha bancada se concordar com isso”, diz o sanfoneiro sem sanfona, que passou a usar as redes sociais para se adaptar aos novos tempos, fez ataques a indicações políticas para cargos públicos (compromisso de campanha de Bolsonaro) e até flexibilizou sua visão sobre pautas sociais: “Quando a sociedade muda os costumes, o Parlamento tem que atualizar as leis. Muitos itens da pauta de costumes do Bolsonaro eu vou ajudar”, afirmou sua excelência.

O velho Renan Calheiros, lulista, foi desautorizado pelo novo Renan Calheiros, bolsonarista. Ele disse para O Globo: “Não estou dando entrevista porque as pessoas querem perguntar ao velho Renan o que o novo senador Renan, que será empossado no dia primeiro, vai fazer. E o velho está se sentindo sem legitimidade para responder.” É uma das guinadas mais extraordinárias jamais vistas na política brasileira. O novo Renan se oferece a Bolsonaro exatamente da mesma maneira que o velho Renan se oferecia a Lula: “Tem que conversar e tentar, na complexidade que vivemos, construir convergências para o Brasil. Converso com ele (Bolsonaro) qualquer hora que for convidado. Jamais se pode ser presidente de um Poder sem conversar com o presidente da República. Isso é elementar. A hora que ele me chamar, eu vou.”

Ao contrário de Rodrigo Maia, que conseguiu a adesão do PSL à sua candidatura a presidente da Câmara, Renan não é bem visto por integrantes do governo, mas vem se esforçando para derrubar essas resistências e, principalmente, convencer seus pares de que não será um elemento de conflito com o Planalto caso seja eleito para comandar o Senado. Não vai ser fácil: o grupo de Bolsonaro demonstra hostilidade aberta ao alagoano, já que ele simboliza a “velha política” rejeitada na eleição. 

A conferir.

sábado, 12 de janeiro de 2019

LULA LÁ — CONCLUSÃO



Continuando de onde paramos no capítulo anterior:

Lula, que sempre desdenhou o mensalão, farejou o perigo assim que a Lava-Jato começou a expor as entranhas pútridas da Petrobras. Achando que somente um “profissional” seria capaz de abafar o escândalo, ele recorreu a aliados e à imprensa chapa-branca para forçar sua sucessora a desistir da reeleição. Mas a pupila se recusou a ceder a vez ao mestre, levando-o a se queixar — em off, naturalmente — de ter sido a maior vítima de Dilma”, rebaixando à condição de acidente de percurso, em seu egocentrismo megalômano, a crise pavorosa que se abateu sobre o país.

Dilma foi reeleita através do maior estelionato eleitoral da nossa história. Em 2015, quando a economia caminhava alegremente para o abismo e a Lava-Jato bafejava no cangote de gente graúda, Lula, alegando que Moro sequestrara o país e que uma campanha para criminalizar a atividade político-partidária estava em curso, buscou unir o Planalto, o PT e o PMDB para pressionar o Congresso pôr freio na força-tarefa. Mas a estocadora de vento, convencida pelo esbirro Aloísio Mercadante de que as investigações atingiriam tão somente os parlamentares, só topou fazer parte da conspiração quando se deu conta de que ela própria acabaria sendo tragada pela tormenta. Mas aí era tarde: a Lava-Jato já chegara à rampa do Planalto.

Semanas após Lula ser conduzido coercitivamente para depor na Polícia Federal, Dilma o nomeou ministro-­chefe da Casa Civil, mas o ato foi barrado pela Justiça quando Moro divulgou a conversa telefônica que deixava claro que tudo não passava de uma estratégia para evitar que o petralha fosse preso. Diante do cenário pouco alvissareiro, partidos governistas capitaneados pelo PMDB decidiram assumir as rédeas da situação. Romero Jucá, numa frase que se tornaria emblemática, sentenciou que era preciso tirar Dilma da Presidência, “estancar a sangria e fazer um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo”.

O medo das investigações e a formidável recessão econômica gestada e parida pela gerentona de araque levaram antigos aliados do PT, sócios no petrolão, a se alinharem à oposição para apear do Planalto a calamidade em forma de gente. Do ponto de vista legal, porém, não houve golpe algum. Dilma foi expelida através de um processo constitucional, ao longo do qual lhe foi garantido total direito de defesa. Talvez as tais pedaladas fiscais tenham pesado menos na decisão dos parlamentares do que o “conjunto da obra” da bruxa má do Castelo do Inferno, mas afirmar que ela não sabia do aparelhamento nas estatais, da promiscuidade com as empreiteiras, dos superfaturamentos milionários, das escaramuças no Orçamento com fins eleitorais é insultar a inteligência do povo e menosprezar a própria presidanta, que jamais abriu mão de centralizar todas as decisões.

É certo que a “grande chefa” jamais foi política ou demonstrou vocação para gerir o que quer que fosse. Prova disso é que levou à falência duas lojinhas de badulaques importados em apenas 17 meses, na década de 1990 — justamente quando a paridade entre o real e o dólar favorecia esse tipo de negócio. Dilma foi um arremedo de guerrilheira que jamais disparou um tiro a não ser no próprio pé, ao se reeleger, devido ao tamanho da encrenca que herdou de si mesma. Nunca passou de um Pacheco de terninho, que sem ter sido vereadora virou secretária municipal; sem passar pela Assembleia Legislativa virou secretária de Estado, sem estagiar no Congresso virou ministra; sem ter inaugurado nada de relevante posou de gerente de país; sem saber juntar sujeito e predicado virou estrela de palanque; sem ter tido um único voto na vida até 2010 virou presidente do Brasil. Não podia mesmo dar certo.

Corta para a década passada: Com Dirceu, Palocci e outros ícones do alto escalão petista no xadrez, restava a Lula levar adiante o golpe que lhe garantiria um terceiro mandato (via emenda constitucional) ou escolher alguém (que por algum motivo deveria ser mulher) para manter quente a cadeira presidencial até 2014. Sua opção natural seria a então petista Marina Silva, mas ele preferiu a ilustre desconhecida Dilma, que seria mais fácil de manipular e, por não ser política, não se apegaria ao cargo. Ledo engano: a nefelibata da mandioca — apresentada ao eleitorado como uma dublê de mãezona e gerentona competente — não só tomou gosto pelo poder como “fez o diabo” para se reeleger.

Corta de volta para 2018: Depois de ingressar com uma batelada de recursos, agravos e chicanas em todas as instâncias do Judiciário e não conseguir soltar Lula, a defesa aposta agora na revisão da jurisprudência sobre o cumprimento provisório da pena. Enquanto presidente do Supremo, a ministra Cármen Lúcia  esquivou-se de pautar as ADCs que questionam a constitucionalidade da prisão em segunda instância, entendo que discutir o assunto novamente seria apequenar a Corte. Mas Toffoli, que assumiu a presidência em setembro, rendeu-se à insistência do ministro laxante Marco Aurélio, relator das tais ações, e pautou o julgamento para 10 de abril de 2019. A ala garantista, ora capitaneada pelo vira-casaca Gilmar Mendes, quer a volta da prisão somente após o trânsito em julgado — regra que vigeu no Brasil em apenas 7 dos últimos 77 anos, mais exatamente entre 2009 e 2016 —, mas Toffoli, o conciliador, tem defendido a decisão de terceira instância como marco inicial para cumprimento da pena.

No Brasil, permitir que bandido do colarinho-branco aguarde em liberdade o trânsito em julgado da condenação é o mesmo que determinar o dia de São Nunca como início do cumprimento da pena. Com o dinheiro rapinado do Erário, essa corja pode pagar advogados estrelados para empurrar o processo com a barriga até a prescrição da pena (não é à toa que associações de advogados — aí incluída a própria OAB — são contrárias à prisão após decisão de segunda instância, não por entenderem que isso fere a presunção de inocência, mas porque o cumprimento antecipado da pena afunda o seu pesqueiro).  

A propósito da presunção de inocência, volto a frisar que o reexame de matéria fática (provas) só é possível até a segunda instância, cabendo às cortes superiores a análise de questões acerca das regras aplicáveis — a legislação federal, no caso do STJ, e a Constituição, no do STF. Portanto, o início do cumprimento da pena após a decisão de segunda instância, sem prejuízo dos recursos pendentes de apreciação pelas cortes superiores, é totalmente admissível. Segundo o art. 637 do Código de Processo Penal, os recursos especial e extraordinário não têm efeito suspensivo; uma vez arrazoados pelo recorrido os autos do traslado, os originais baixarão à primeira instância para a execução da sentença. Aliás, como bem assinalou o ministro Jorge Mussi, do STJ, na decisão em que rejeitou o HC impetrado pela defesa de Lula, “o estado de inocência vai se esvaindo à medida que a condenação vai se confirmando”.

Falando nisso, o STJ deve se pronunciar em breve sobre o agravo regimental interposto contra a decisão do ministro Felix Fisher, que negou monocraticamente o pedido de absolvição de Lula ou, alternativamente, de anulação do processo do tríplex. Encerradas os recurso nessa instância e mantida a decisão do TRF-4, Lula continuará preso mesmo que a condenação em terceira instância venha a ser definida como divisor de águas. Daí porque amigos, correligionários e familiares do pulha vermelho vêm tentando quebrar sua resistência em relação à prisão domiciliar. Seus advogados sabem que anulação do processo triplex é uma possibilidade remota, mas a redução da pena tem alguma chance de ser obtida.

Lula foi condenado a oito anos e quatro meses pelo crime de corrupção passiva e a três anos e nove meses por lavagem de dinheiro. Se o STJ aceitar o pedido de redução, a somatória das penas cairia para cinco anos (dois anos de corrupção passiva e três por lavagem de dinheiro), o que garantiria a prisão domiciliar. Mas o julgamento iminente das duas ações que tramitam na 13ª Vara Federal do Paraná (detalhes no capítulo anterior) deve resultar em novas condenações, inviolabilizando a redução da pena e, consequentemente, a prisão domiciliar.

Resumo da ópera: Lula é uma pálida sombra do que foi um dia, mas ainda é um incômodo. Talvez não mais como uma enxaqueca ou um dente infeccionado, mas ainda como um chiclete grudado na sola do sapato ou uma meleca que se recusa a descolar do dedo. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

LULA LÁ



Como eu mencionei no post de quarta-feira, o presidente supremo Dias Toffoli teria até domingo para se pronunciar sobre a liminar do ministro supremo Marco Aurélio, o libertador, no mandado de segurança interposto pelo senador Lasier Martins. Se não o fizesse, o abacaxi cairia nas mãos do ministro supremo Luiz Fux, que assume o plantão da Corte na próxima segunda-feira. Como era esperado — até por uma questão de coerência com a decisão tomada em relação à votação para a presidência da Câmara —, Toffoli considerou que a liminar viola o regimento interno do Senado e fere sua autonomia, botando água no chope da tropa de choque de Bolsonaro, já que o voto aberto eliminaria do páreo Renan Calheiros, o eterno cangaceiro das Alagoas. 

Dito isso, passemos ao assunto de hoje: 

Até poucos anos atrás, quase ninguém acreditava que Lula seria réu um dia, ou que Dilma seria mesmo impichada. Mas a anta foi penabundada e seu criador e mentor, condenado e preso depois que o TRF-4 ratificou a decisão de Moro (e, de quebra, aumentou a pena para 12 anos e um mês de prisão em regime fechado). Mesmo assim, a maioria dos brasileiros continuava achando que o molusco seria novamente candidato à Presidente e que retornaria ao Planalto, como o Datafolha fazia questão de lembrar quase todo mês.

Não foi fácil prender Lula, e mais difícil ainda está sendo mantê-lo preso (basta lembrar o caso Favreto e a liminar circense do ministro Marco Aurélio). A despeito de toda a podridão revelada pela Lava-Jato, os devotos da seita do inferno, apoiados por artistas, intelectuais, jornalistas e outros desmiolados, continuam defendendo com unhas e dentes a libertação do criminoso que assaltou o povo a quem dizia defender.

Em 2007, Lula se autodefiniu como uma “metamorfose ambulante”. Faz sentido: de retirante nordestino pobre e analfabeto, ele passou a torneiro mecânico, sindicalista pelego (vale a pena ler este texto), líder populista, deputado federal e, após três tentativas frustradas, elegeu-se Presidente da República (por dois mandatos consecutivos). A partir do mensalão, porém, tornou-se “o cara que não sabia de nada”, e quando foi indiciado na Lava-Jato, transmudou-se na “alma viva mais honesta do Brasil”. Ao se tornar réu, o pulha virou uma “célula de cada brasileiro”; às vésperas de ser preso, transformou-se numa “ideia” e, na cadeia, transmudou-se no “preso político perseguido pelas ‘elites’”.

Réu em oito ações criminais e  condenado no processo do triplex, Lula foi preso em abril e está prestes a ser sentenciado novamente, seja pela juíza substituta Gabriela Hardt, encarregada provisoriamente dos casos da Lava-Jato na 13ª Vara Federal do Paraná, seja pelo magistrado que será designado para ocupar a vaga aberta com a exoneração de Sérgio Moro. São dois processos, e ambos estão conclusos para sentença (ou seja, a decisão pode sair a qualquer momento). Um deles envolve uma cobertura em São Bernardo e um terreno em São Paulo (onde seria erguida a nova sede de seu “Instituto”), e o outro, um sítio no município paulista de Atibaia. 

Na ação sobre o Sítio Santa Bárbara, a defesa apresentou alegações finais na última segunda-feira — um calhamaço de 1.643 páginas sustentando basicamente que Moro não atuou com imparcialidade para um julgamento isento e que Lula jamais foi dono do sítio. O primeiro argumento não para em pé, quando mais não seja porque ainda não houve julgamento — a argumentação até caberia num eventual recurso, mas não se pode recorrer de uma sentença que ainda não foi proferida. Já o segundo não quer dizer nada, pois corrupção é crime que não passa recibo.

Observação: Um dos capítulos desse "tratado sobre o nada" é dedicado integralmente a Sérgio Moro e seu aceite para integrar o novo governo. A defesa também não poupou a juíza substituta Gabriela Hardt. Os dez signatários da peça afirmam que "não obstante a troca do órgão julgador, Lula permanece sendo processado de forma parcial e afrontosa a seus direitos e garantias individuais". Uma foto da primeira dama Michele Bolsonaro também foi anexada aos autos. Na camiseta verde que ela veste, aparece a célebre frase dita pela juíza ao ex-presidente no início de seu último interrogatório: "Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema". 

O Sítio Santa Bárbara tem uma área equivalente a 24 campos de futebol, passou por uma reforma em regra entre o final da segunda gestão de Lula e o ano de 2014. A primeira etapa, realizada no fim de 2010 e ao longo de 2011, contou com a participação da Odebrecht por meio do engenheiro da empresa Frederico Barbosa (o mesmo que conduziu as obras do estádio do Corinthians, em São Paulo, e que, como a Folha revelou, foi o responsável pela condução dos trabalhos no sítio de Lula). A execução foi coordenada pelo arquiteto Paulo Gordilho a mando de Léo Pinheiro, então presidente da OAS. Dentre outras benfeitorias, o lago foi remodelado (Lula gosta de pescar, e a ex-primeira-dama, providenciou um barco, que fazia companhia a dois pelinhos brancos, em formato de cisne, com os nomes dos netos do ex-presidente. A piscina foi aumentada e a cozinha, remodelada pela mesma empresa que instalou a do tríplex no Guarujá. Além disso, foram construídos um anexo com quatro suítes, um alojamento para os seguranças do ex-presidente, uma sauna e um campo de futebol society.

"No papel", os donos do sítio são Fernando Bittar e Jonas Suassuna Filho, ambos filhos de velhos amigos de Lula e sócios de Lulinha, que passou de catador de bosta no Zoo de São Paulo a gênio das finanças depois que o papai se elegeu, e se mudou para um apartamento — também registrado em nome de Jonas Suassuna — cujo aluguel foi estimado pelo fisco federal em salgados R$ 40 mil mensais (parece que essa história de morar de favor se deve a uma estranha predisposição genética dos Lula da Silva, mas isso já é outra conversa).

Ao deixar o Palácio da Alvorada, Lula despachou para “o sítio que nunca foi dele” 200 caixas contendo parte de sua mudança. Em depoimento, um ex-assessor da Presidência afirmou ter recepcionado pessoalmente 70 caixas de vinho. Em 2016, em entrevista a Veja, o delegado federal Igor de Paula disse que não foi encontrado na propriedade um único item que não fosse do clã — tudo o que estava lá era de Lula e seus familiares, incluindo camisetas e canecas com o escudo do Corinthians, fotografias de parentes, charutos, chapéus e calçados de Lula e Marisa, cartões de boas festas e até medicamentos manipulados em nome da ex-primeira-dama.

Observação: Até eclodirem as primeiras denúncias, Lula e seus familiares estiveram na propriedade rual nada menos que 111 vezes, e sua assessoria emitiu pelo menos 12 notas oficiais dando conta de que “o ex-presidente passaria o fim de semana em sua casa de veraneio em Atibaia”. Depois que a coisa começou a feder, o petralha passou a negar sistematicamente a posse do sítio. Aliás, dizem as más-línguas que ele aconselhou a mesma estratégia de defesa ao médium estuprador João de Deus, ou seja, dizer que o pinto não era dele, mas isso também é outra conversa  

Em depoimento, José Carlos Bumlai, ex-consiglieri do clã dos Lula da Silva, declarou ter ouvido de Jacó Bittar que a compra do sítio era uma surpresa para Lula, e que foi ele, Bumlai, quem deu início às obras no local e pagou parte das despesas por meio de um empréstimo fraudulento contratado junto ao Banco SchahinLéo Pinheiro, ex-presidente da OAS, reiterou que bancou reformas no imóvel, e que todas as despesas, tal como na reforma do triplex, seriam abatidas de uma conta corrente de propinas mantida com João Vaccari, que agia como representante do PT.

Quando o escândalo do mensalão veio a público — a partir de uma reportagem veiculada pela Globo, na qual o então presidente dos Correios Maurício Marinho era visto recebendo propina de um empresário, e das revelações bombásticas feitas por Roberto Jefferson em entrevista à FolhaLula “pediu desculpas”, disse que foi “traído”, e coisa e tal. Mais adiante, vendo que escaparia incólume, o cara-de-pau passou a negar o mensalão — e continuou a fazê-lo mesmo depois que o Supremo mandou para a cadeia 24 réus da ação penal 470, dentre os quais Dirceu, Genoíno, Vaccari, Delúbio e outros petralhas de grosso calibre. Com a Lava-Jato, no entanto, a coisa mudou de figura. Mas isso é assunto para o post de amanhã.

TEMPESTADES DE VERÃO — TRANSPOSIÇÃO DE ALAGAMENTOS E O RISCO DO CALÇO HIDRÁULICO (PARTE FINAL)

A HORA DO SIM É UM DESCUIDO DO NÃO.
Vimos que o motor de quatro tempos aspira a mistura ar-combustível no ciclo de admissão, comprime-a no ciclo de compressão, gera potência no ciclo de explosão (ou combustão) e expele os gases resultantes no ciclo de exaustão (ou descarga).
A expulsão dos gases é fundamental, como você pode constatar entupindo com uma batata a saída do cano de descarga do seu carro (ou do carro de algum desafeto) e dando a partido no motor (que não vai “pegar). Daí ser importante manter o giro elevado (2.000 RPM, aproximadamente) ao atravessar um alagamento, já que a saída dos gases impede a entrada de água pelo cano de descarga, evitando que o motor “morra”.
O calço hidráulico é um fenômeno que decorre da entrada de água na câmara de combustão, ou seja, quando o motor aspira água juntamente com o ar (que, como vimos, forma a mistura que é comprimida e inflamada no interior dos cilindros para produzir a energia que move as rodas motrizes do veículo). Ao atingir o interior dos cilindros, a água não só impede a queima da mistura como submete os pistões a um esforço para o qual eles não foram dimensionados (ao contrário dos gases, os líquidos não são compressíveis), resultando no entortamento das bielas (hastes metálicas que ligam os êmbolos à árvore de manivelas, ou virabrequim) e consequente travamento do motor.
Observação: Para ter uma ideia da resistência da água à compressão, encha uma garrafa até o gargalo e tente fechá-la com uma rolha. Por mais que você force, a rolha não vai entrar; se você aumentar muito a pressão (batendo na rolha com um martelo, por exemplo), o vidro vai ceder, e a garrafa, quebrar.
No caso de o veículo ficar submerso e o motor morrer, ou se estiver estacionado e for apanhado pela inundação, também existe o risco de calço hidráulico por conta da água que entra pelo cano de descarga. Mas o mais comum ela é “sugada” pelo sistema de admissão (de novo: com o motor girando a cerca de 2.000 RPM, a expulsão dos gases impede que a água entre pelo escapamento).

É por isso que jipes, picapes e outros veículos projetados para uso off-road severo, além do cano de descarga posicionado verticalmente, têm o sistema de captação de ar elevado, próximo ao teto (o chamado snorkel, como no detalhe da figura que ilustra esta matéria). Isso lhes permite atravessar córregos, riachos e trechos alagados sem maiores problemas (dentro de certos limites, naturalmente).
Observação: Em motores de alto desempenho, como o M4 GTS, da alemã BMW, injeta-se uma determinada quantidade de água (vaporizada) no coletor de admissão, para reduzir a temperatura dos gases, prevenindo o superaquecimento, e permitir o avanço da ignição, aumentando a potência gerada pelo propulsor. Mas isso já é outra conversa.

Como regra geral, se o motor “apagar” no meio da travessia, não tente religá-lo, nem dando a partida, nem “no tranco”. Coloque a transmissão em ponto morto (ou na posição N, nos automáticos e automatizados) e empurre o veículo para fora da água. Quem tem um mínimo de habilidade manual — e dispõe das ferramentas necessárias — pode retirar as velas de ignição e dar a partida — sem as velas, não haverá compressão, mas o movimento dos pistões expulsará a água do interior dos cilindros.

Supondo que os componentes do sistema eletrônico de injeção (como a sonda lambda) não tenham sido afetados, basta recolocar as velas, reconectar os cabos e dar a partida para o motor voltar a funcionar. Mas o recomendável é chamar um guincho para rebocar o carro até uma oficina confiável, onde o mecânico fará um exame mais detalhado.

Boa sorte.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O BRASIL FORA DA CURVA



Até meados dos anos 1970, escreveu Dora Kramer em sua coluna na edição desta semana da revista Veja, os concursos de fantasia promovidos por grandes clubes e hotéis, principalmente no Rio de Janeiro, eram um acontecimento de sucesso absoluto no Carnaval. Havia duas categorias: luxo e originalidade. Na primeira, valia o esplendor; na segunda, a capacidade de surpreender. Se houvesse hoje um campeonato mundial entre países no quesito originalidade, o Brasil seria hors-concours, tal a fertilidade do país em ineditismos.

De Fernando Henrique Cardoso costumava-se dizer que era um presidente fora da curva, dado seu preparo intelectual e sua “vivência de mundo”. Isso depois de o Brasil já ter se inscrito no campo das primazias com um impeachment presidencial na estrita regra democrática, sem quebra institucional, a despeito da proximidade do finado período autoritário e da ainda incipiente cultura democrática nas esferas pública e privada.

De lá para cá vem sendo produzida uma série de originalidades, a mais recente delas de novo atinente a um presidente. Jair Bolsonaro poderia também ser considerado um ponto fora da curva (pelas razões opostas às que assim enquadravam FHC) se nos últimos anos o país não tivesse se notabilizado pela transformação da exceção em regra. Era um governador baiano, Otávio Mangabeira, quem dizia: “Pense num absurdo, na Bahia tem precedente”.

A constatação, ampliada em âmbito nacional, não poderia ser mais atual quando se pensa na eleição para presidente de um deputado de atuação inexpressiva no Parlamento, com posições extremadas, muitas vezes caricatas, e que até outro dia não influía nem contribuía com coisa alguma para a cena política do país.

A fim de economizarmos espaço e evitarmos repetições, deixemos aqui de lado os detalhes da devastação ainda em andamento ocasionada pela Lava-Jato e derivados nos grandes, médios e pequenos escalões políticos e empresariais. Vamos direto ao seu efeito mais vistoso: um ex-presidente da República altamente popular, tido por muita gente (inclusive pelo próprio) como inimputável, preso e com mais de meia dúzia de processos nas costas. E o que dizer da prisão dos quatro últimos governadores do Rio de Janeiro, dois ainda na cadeia?

Um segundo impeachment presidencial em menos de 25 anos também não é algo corriqueiro, embora o inusitado ainda reservasse outra surpresa: o governo substituto daquele amplamente rejeitado viria a fazer história como o mais impopular dos tempos democráticos, apesar de ter estancado uma trajetória ao inevitável fundo do poço.

É assim, em ambiente de coisa nunca vista, que finalizamos o ano e mais um período presidencial: com Michel Temer tendo evitado o desastre maior e, por força de ter virado vidraça na Presidência, deixando agora o cargo na condição de investigado, denunciado, processado, todo enrolado com a lei, assim como boa parte dos companheiros que com ele durante anos foram condôminos do poder.
Tivessem deixado ao PT, Dilma e Lula as batatas, Temer e a turma do MDB talvez estivessem agora em melhores lençóis. Mas o Brasil não saberia da missa a metade.

TEMPESTADES DE VERÃO — SEXTA PARTE (TRANSPOSIÇÃO DE ALAGAMENTOS E O RISCO DO CALÇO HIDRÁULICO)

CORRENDO EM BUSCA DO PRAZER, TROPEÇA-SE NA DOR.
Quando o volume da água despejada por um temporal ultrapassa a capacidade de absorção do solo (que a crescente impermeabilização dos logradouros torna cada vez menor) e de drenagem das galerias pluviais (quase sempre obstruídas por dejetos de toda espécie, já que o povo é porco e descarta o lixo de maneira inadequada), os alagamentos são inevitáveis.

Carros de passeio não são veículos anfíbios. Portanto, a menos que você tenha um Jet Ski ou um submarino, evite trafegar por locais que alagam ao menor sinal de temporal. Mas se cair um dilúvio justamente quando você estiver na "Baixada do Deus-me-livre", suba a primeira ladeira que encontrar, entre com o carro no estacionamento de um supermercado ou num posto de combustíveis, por exemplo, e espere até o temporal passar e o nível da água baixar.
Há situações, porém, em que é preciso enfrentar o alagamento. Nesses casos, observe como se comportam os veículos à sua frente; se eles transpuserem o lençol de água sem maiores percalços — sem cair em buracos ou bueiros sem tampa, por exemplo — e o nível não lhes ultrapassar a metade da altura das rodas, “fé em Deus e pé na tábua”.
Observação: Ônibus e caminhões não servem de parâmetro, porque são mais altos e atravessam o alagamento com mais facilidade.
Pé na tábua” é força de expressão, pois deve-se atravessar o alagamento em primeira marcha e com velocidade reduzida. Mas convém manter a rotação do motor por volta de 2.000 RPM, para evitar que ele morra durante a travessia. Se o câmbio for manual, pressione parcialmente o pedal da embreagem enquanto acelera, de modo a manter o giro elevado e a velocidade sob controle. Nos automáticos e automatizados, coloque a alavanca seletora na posição 1, de modo que a transmissão permaneça na primeira marcha, e dose a aceleração, pois não há pedal de embreagem e você não terá como elevar o giro do motor sem que as rodas motrizes respondam na mesma medida.

Inicie a travessia somente depois que o carro da frente tiver terminado de passar, mas evite fazê-lo se outro veículo vier no sentido contrário, pois as ondas que ele produz potencializam o risco de o motor do seu carro morrer — ou mesmo de ser danificado pelo famigerado “calço hidráulico” (detalhes mais adiante).
Vale relembrar que o motor gera torque e potência a partir da compressão e posterior combustão de uma mistura de ar e gasolina (ou álcool). Para entender isso melhor, reveja este resumo sobre os princípios básicos do funcionamento do motor de combustão interna (ciclo Otto). Numa explicação sucinta, a mistura é “preparada” pelo sistema de injeção (ou pelo carburador, nos modelos mais antigos) e sugada para o interior da câmara (ou cilindro do motor) pela depressão produzida pelo movimento descendente dos pistões durante o ciclo de admissão. O ar captado da atmosfera passa por um filtro, que bloqueia partículas de poeira, insetos e outros detritos, mas não impede a passagem de água.
Para complicar ainda mais a situação, é difícil avaliar visualmente a profundidade do alagamento (sobretudo com água barrenta), sem falar no risco de você deparar com obstáculos submersos (buracos, pedras, galhos de árvores, bueiros sem tampa, etc.). Em tese, seguir pelo meio da pista é mais seguro do que trafegar próximo ao meio fio, mas, de novo, não dê início à travessia se houver outro veículo à frente, ao lado, ou vindo no sentido contrário, pois isso potencializa o risco de o motor “morrer” no meio do caminho e ser danificado pelo famigerado calço hidráulico, que, por uma questão de espaço, será detalhado na próxima postagem.