Os pimpolhos do imortal José Sarney também foram penalizados: nem Zequinha se reelegeu deputado, nem Roseana — que governou o Maranhão por quatro legislaturas desde 1995 — conseguiu desbancar o pecedebista Flavio Dino, que foi reeleito governador com 59,29% dos votos válidos.
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domingo, 14 de outubro de 2018
ELEIÇÕES 2018 — FALTAM 14 DIAS
Os pimpolhos do imortal José Sarney também foram penalizados: nem Zequinha se reelegeu deputado, nem Roseana — que governou o Maranhão por quatro legislaturas desde 1995 — conseguiu desbancar o pecedebista Flavio Dino, que foi reeleito governador com 59,29% dos votos válidos.
domingo, 19 de setembro de 2021
COISAS DO BRASIL
Depois de desfilar no Rolls Royce Presidencial até o
prédio do Congresso Nacional, Bolsonaro assinou o termo de posse, jurou "manter,
defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do
povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil"
e recebeu de Michel Temer a faixa presidencial.
Bolsonaro jamais
leu a Constituição que jurou defender e, como o escorpião da fábula,
é incapaz de contrariar a própria natureza. Apesar de reconhecer que não
nasceu para ser presidente, mas para ser militar, foi expelido da Escola de Oficiais do Exército por indisciplina e insubordinação (mas acabou
sendo absolvido
das acusações pelo STM). No ano seguinte, elegeu-se vereador e depois deputado federal por
sete mandatos consecutivos, ao longo dos quais aprovou
dois míseros projetos e colecionou mais de trinta
ações criminais. Em 2018, foi alçado
à Presidência por uma esdrúxula conjunção de fatores, entre os
quais um
mal explicado atentado que sofreu durante um ato de campanha em Juiz de
Fora (MG).
Bolsonaro disputa com Dilma — o poste com que Lula empalou os brasileiros em 2010 — o título de pior mandatário desde a redemocratização (e não por falta de concorrentes de peso). Com a autoridade de quem sabe das coisas, o general Ernesto Beckmann Geisel — penúltimo presidente da ditadura e mentor intelectual da reabertura política lenta, gradual e segura — definiu o então capitão da ativa como “um caso completamente fora do normal, inclusive mau militar”.
O último general-presidente, João Baptista de Oliveira Figueiredo — que preferia
o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo (povo que, segundo ele, "não
sabe nem escovar os dentes, quanto mais votar para presidente"),
negou-se a passar a faixa presidencial a José Sarney (faixa
a gente transfere para presidente, não para vice, e esse é um impostor).
Coisas do Brasil.
A título de contextualização,
vale lembrar que a Revolução de 1964 — cuja
data “comemorativa” é 31 de março — foi um golpe de Estado
desfechado na madrugada de 1º de abril, por líderes civis e militares
conservadores, a pretexto de afastar do poder um grupo político que
supostamente flertava com o comunismo.
Nos movimentos pró “Diretas
Já”, pugnava-se pela aprovação da emenda
constitucional Dante de Oliveira, que visava restaurar o direito às
eleições diretas suspenso pelos militares. No dia da votação, exatos 20 anos
depois do golpe, uma manobra de bastidores tirou da Câmara 112 deputados. A
despeito do clamor das ruas, a emenda foi rejeitada — em outras palavras, o
povo foi traído (mais uma vez) pela classe política, o câncer social que,
infelizmente, é um mal necessário. Coisas do Brasil.
O desgaste do governo propiciou a vitória de Tancredo Neves em um colégio eleitoral — por 480 votos contra 180, a raposa mineira derrotou Paulo Maluf (que era apoiado pelos militares) depois de unir o PMDB à chamada Frente Liberal — formada por dissidentes do PDS, que dava sustentação ao governo militar.
Em janeiro de 1985, o deputado federal Ulysses Guimarães —
que chegou a ser cogitado para disputar a presidência da República pelo PMDB contra Maluf,
mas acabou sendo preterido pela chapa “mista” formada com o PFL de Sarney —
entregou a Tancredo o programa denominado Nova
República, que previa eleições diretas em todos os níveis, educação
gratuita, congelamento de preços da cesta básica e dos transportes, entre
outras benesses.
Com esperança e
ânimos redobrados, os brasileiros ansiavam pela chegada do dia 15 de março, data
prevista para a posse do primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura
militar. Mas Tancredo
foi hospitalizado 12 horas antes da cerimônia e teve o óbito
declarado 38
dias e sete cirurgias depois — ironicamente, no feriado de 21 de abril,
data em que o Brasil homenageia Tiradentes, o mártir da independência. Coisas
do destino.
Tancredo levou para o túmulo a esperança de milhões
de brasileiros, mas deixou de herança um neto que envergonharia o país e um mix de
oligarca maranhense, escritor, poeta e acadêmico chamado José Ribamar Ferreira
de Araújo Costa, mais conhecido como “Zé do Sarney”. A possibilidade de Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara, ser guindado ao
Palácio do Planalto chegou a ser cogitada, mas prevaleceu o entendimento de que
caberia a José
Sarney, vice na chapa de Tancredo e rebotalho do
coronelismo nordestino, assumir a Presidência. E foi o que aconteceu, para o
bem e para o mal.
Fisiologista como poucos e puxa-saco de carteirinha dos poderosos de plantão, Sarney (o filho) sobreviveu à ditadura, mas sua infausta gestão à frente da Presidência foi marcada pela hiperinflação. Tanto o Plano Cruzado quanto os "pacotes econômicos" que se lhe sucederam foram baseados no congelamento de preços e salários, e da feita que repetir o mesmo erro várias vezes esperando produzir um acerto é a melhor definição de idiotice que eu conheço, não causou estranheza o fato de todos fazerem água em questão de meses.
Em 20 de fevereiro de 1987, pressionado pela queda nas reservas
cambiais, Sarney fez um pronunciamento em rede nacional anunciando a
suspensão, por tempo indeterminado, do pagamento dos juros da dívida externa —
evitando usar a palavra "moratória", como se isso produzisse
algum resultado positivo (ou menos negativo) na medida adotada. Coisas do
Brasil.
Sarney deixou a Presidência com a popularidade em patamares abissais, tanto que transferiu seu domicílio eleitoral para o recém-criado Estado do Amapá, pelo qual teria chances de conseguir uma vaga no Senado. Como era esperado, seus adversários impugnaram se insurgiram contra o cambalacho, mas o STF o avalizou. Conta-se que o ministro Celso de Mello, que teve os ombros recobertos pela suprema toga graças ao oligarca maranhense, votou pela impugnação da candidatura do benfeitor.
O ex-ministro da Justiça Saulo
Ramos quis saber por quê. Mello respondeu que a Folha havia
publicado que Sarney tinha os votos certos de vários ministros e citara
seu nome como um deles. "E você votou contra porque a Folha noticiou
que votaria a favor?", perguntou Saulo. "Exatamente",
respondeu Mello. E Saulo: "Então você é um juiz de merda!"
Sarney
deixou a vida pública em 2014, aos 83 anos, a pretexto de se dedicar à
literatura em tempo integral. Conta-se que, após um dilúvio assolar o Maranhão,
a então governadora Roseana Sarney — filha do macróbio — telefonou
ao pai para informar que metade do Estado estava debaixo d’água. Sarney
perguntou-lhe candidamente: "A sua metade ou a minha?"
Nas eleições gerais de 2018, os pimpolhos do velho cacique
maranhense foram penalizados na urnas: nem Zequinha se
reelegeu deputado, nem Roseana — que governou o Maranhão por
quatro legislaturas desde 1995 — conseguiu desbancar o pecedebista Flavio
Dino — que se reelegeu governador com 59,29% dos votos válidos.
Como dito parágrafos acima, Figueiredo se recusou a
transferir a faixa presidencial a Sarney. Não foi o primeiro nem o único
caso na história republicana do Brasil. Coisa de país de terceiro mundo? Não
necessariamente. Nos EUA, o ex-presidente Donald Trump, ídolo e muso
inspirador do capitão-cloroquina, não só deu trabalho para ser desencalacrado
do cargo como não
compareceu à cerimônia de posse de Joe Biden, o que representa uma
quebra de protocolo na tradição democrática americana, mas, como dito, encontra
apoio na ala conservadora da política brasileira.
Na história do Brasil, o exemplo mais recente de um chefe do
Executivo que se recusou a comparecer à posse de seu sucessor foi Figueiredo,
conforme já foi dito nesta postagem. Sobre Sarney, o general disse à
revista IstoÉ, pouco antes de sua morte, em 1999: "Sempre foi
um fraco, um carreirista. De puxa-saco passou a traidor. Por isso não passei a
faixa presidencial para aquele pulha. Não cabia a ele assumir a Presidência".
A quebra de protocolo em Brasília foi relembrada pelo neto
do general, minutos depois de o presidente americano anunciar que não
compareceria à posse do sucessor. "Meu avô também não compareceu à
posse de seu sucessor, que chegava ao poder de forma ilegítima. Agiu conforme
suas convicções. Assim devem fazer os homens de caráter!", postou
no Twitter o empresário Paulo
Figueiredo Filho. Coisas do Brasil.
Figueiredo não foi o único a se recusar a cumprir os
ritos de transição no Brasil. A República ainda engatinhava quando Floriano
Peixoto, que governou de 1891 a 1894, decidiu não comparecer à posse de Prudente
de Morais porque não via com bons olhos a chegada de um civil ao poder. Afonso
Pena também não passou a faixa a seu sucessor, Nilo Peçanha (e nem
poderia, porque Nilo era vice de Pena, a quem substituir em virtude
de sua morte, em 1909). Em 1954, Café Filho viu-se presidente do dia para
a noite e começou a governar o país sem a bênção de seu antecessor, Getúlio
Vargas, que
"foi suicidado" com um tiro no peito em 24 de agosto de 1954.
Após o impasse entre Figueiredo e Sarney, somente dois presidentes eleitos diretamente (FHC e Lula) receberam e passaram a faixa a seus sucessores. O primeiro presidente eleito diretamente após a ditadura militar — o pseudo caçador de marajás Fernando Collor de Mello — recebeu a faixa de Sarney em março de 1990, mas renunciou ao mandato em dezembro de 1992 (e foi impichado mesmo assim, de modo que não passou a faixa a Itamar Franco).
Itamar, por sua vez, tomou posse em uma cerimônia breve e só usou a faixa presidencial no último de seus dois anos e três dias de governo, quando a colocou sobre os ombros de FHC. O tucano, presidente por dois mandatos, cumpriu o mesmo protocolo na posse de Lula, em 2003. Oito anos depois, foi a vez de Dilma ser destituída em um processo de impeachment — e não comparecer à posse de Michel Temer. Em janeiro de 2019, o vampiro do Jaburú repassou a faixa ao mandatário de fancaria que, por mal de nossos pecados, diz que "só Deus o tira da cadeira presidencial". Coisas do Brasil.
Bolsonaro na presidência era tudo de que o os brasileiros não
precisavam, mas tornou-se a única alternativa válida depois que o
ilustríssimo eleitorado tupiniquim o escalou para enfrentar o bonifrate do
presidiário de Curitiba no segundo turno do pleito de 2018. Voltando à paráfrase
de Bolsonaro a uma fala de Figueiredo, “plagiar é, implicitamente,
admirar”, como bem disse o intelectual lusitano Júlio Dantas.
Mas a pergunta que não quer calar é: se não nasceu para ser presidente, por
que Bolsonaro fez da reeleição seu projeto de governo?
"Prometo que, se eleito, vou trabalhar noite e dia,
durante os quatro anos do meu mandato… para ser reeleito”. Eis a promessa
mais sincera e verdadeira feita pelo então candidato, como salientou o
ex-delegado federal Jorge Pontes num artigo publicado em Veja. "Teremos
um lapso de quatro anos praticamente jogados fora, destinados apenas à
pavimentação de mais um — improvável — mandato presidencial",
profetizou o policial, em agosto
do ano passado.
Assim, graças à verdadeira
herança maldita deixada pelo grão-duque do Tucanistão, assistimos a um
mandatário eleito com juras de grandes mudanças e discursos anti-establishment
emular Dilma, a inesquecível, e fazer o diabo para se
reeleger.
A vitória de Bolsonaro foi um caso clássico de emenda
pior que o soneto. Embora seja preferível acender a vela a amaldiçoar a
escuridão, unir forças com os sectários do bolsonarismo boçal para evitar a
volta da cleptocracia lulopetista foi como libertar da garrafa um gênio
malfazejo e não saber como prendê-lo de volta. E urge fazê-lo, pois o Brasil dificilmente
sobreviverá a mais cinco anos sob o descomando desse mafarrico.
Segundo a revista eletrônica Crusoé,
o presidente de fato desta banânia (falo do centrista Ciro Nogueira)
disse a um empresário que Bolsonaro está "cada vez mais
mercurial e incontrolável". O diagnóstico perturbador do ministro
recém-empossado com promessas de carta branca jamais cumpridas reflete o estado
de ânimo atual de setores do Centrão e de boa parte do Congresso. Embora
estejam bem servidos em postos estratégicos e se lambuzando no poder desde que
que o chefe do Executivo de festim lhes entregou a chave do cofre, a
centralhada já entendeu que a aliança tem prazo de validade, e que esse prazo
não é longo. Para as marafonas
do parlamento, Bolsonaro é um político fadado ao infortúnio,
seja pelo impeachment, pela cassação no TST ou derrota nas urnas. E
convenhamos que não é preciso ser nenhum "Nostradamus" para
fazer tal previsão.
Ainda segundo a reportagem, depois que o desembarque do
governo passou a ser debatido a sério entre os partidos que compõem o Centrão,
o presidente pato-manco enviou pelo líder do governo na Câmara — o ilibadíssimo
Ricardo Barros, a quem o senador Omar Aziz, relator da CPI do
Genocídio, se refere como responsável por um balcão de negócios com o
Congresso que está a todo vapor — o recado de que continua em pé o esforço para
conter possíveis defecções em sua base de apoio.
Entrementes, a despeito da carestia, a inflação oficial segue
acima do esperado. O IPCA, medido pelo IBGE, acelerou para 9,68%
no acumulado em 12 meses, levando a uma onda de revisões entre os economistas. Na
segunda-feira, 13, o Boletim Focus, do Banco Central, registrou a
23ª alta consecutiva da mediana das projeções para o IPCA no fim de
2021, que agora está em 8%. Mas isso é assunto para uma próxima postagem.
terça-feira, 14 de dezembro de 2021
A MALDIÇÃO DA VICE-PRESIDÊNCIA — TERCEIRA PARTE
Observação: Anos depois, referindo-se ao político maranhense numa entrevista concedida à revista
IstoÉ, also sprach Zaratustra, digo, assim disse Figueiredo:
"Sempre foi um fraco, um carreirista. De puxa-saco passou a traidor.
Por isso não passei a faixa presidencial para aquele pulha. Não cabia a ele
assumir a Presidência".
A despeito de o "milagre econômico brasileiro" ser cantado em prosa e verso pelos saudosistas de plantão, Sarney herdou dos militares um país arrasado, com recessão, inflação, desemprego e dívida externa nas alturas. Todos os "pacotes de medidas econômicas" elucubrados durante sua gestão (por Dílson Funaro, Bresser Pereira e Maílson da Nóbrega) fizeram água numa questão de meses.
Aos trancos e barrancos, o oligarca nordestino terminou o mandato (de 5 anos, sem direito a reeleição), mas deixou de herança a seu sucessor uma inflação que beirava 2000% ao ano. Tamanha era sua impopularidade ao deixar o governo que, para disputar uma cadeira de senador, Sarney teve de mudar o domicílio eleitoral para o recém-criado Estado do Amapá.
Observação: O literato, acadêmico e político maranhense se
aposentou da vida pública em 2014, aos 83 anos. Conta-se
que certa vez, depois que um dilúvio assolou seu Estado natal, a então
governadora Roseana Sarney telefonou ao pai para dizer que "metade
do Maranhão estava debaixo d’água", e Sarney teria perguntado: "A
sua ou a minha?"
No apagar das luzes da desditosa gestão de Sarney, a récua de muares a que se convencionou chamar de "eleitorado", já então sob a égide de uma Constituição estalando de nova, foi às urnas pela primeira vez desde 1960 para escolher seu presidente.
Disputaram a chamada "eleição solteira de 1989" nada menos que 22 candidatos, entre os quais figuravam monstros sagrados da política tupiniquim, como Ulysses Guimarães e Mário Covas. Graças ao dedo podre dos apedeutas votantes, o segundo turno reuniu o que havia (e continua havendo) de pior em termos de populismo e demagogia sórdida. Ao fim e ao cabo, o sacripanta de direita venceu o salafrário de esquerda.
Como dito linhas acima, naquela época o mandato presidencial era de 5 anos, sem direito a reeleição. Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca termine: em 1997, um FHC picado pela mosca azul usou e abusou de meios não exatamente ilibados — embora não inusitados à luz de como funciona a política no Brasil — para alterar a Constituição de maneira a implementar a reeleição de presidente e vice-presidente (apenas uma vez para um mandato subsequente, mas sem restrição para um pleito não consecutivo).
Como quem parte e reparte e não fica com a melhor parte é burro ou não tem arte, o tucano de plumas vistosas fruiu do desserviço que ele e seus cupinchas prestaram à Nação, mas também abriu espaço para o projeto de poder lulopetista, que durou exatos 13 anos, 4 meses e 11 dias (considerando os dois mandatos do ex-presidiário e os 5 anos e fumaça durante os quais sua sucessora incompetenta "fez o diabo" para destruir a economia nacional).
O Brasil daria um grande passo se aprovasse o fim da reeleição. A proposta de emenda constitucional está pronta para ser votada pelo Senado, mas é difícil construir esse tipo de ajuste quando todos os adversários do sultão do bananistão querem vencer a disputa em 2022. Como a política permite todos os tipos de sonhos, alguns já se enxergam eleitos e fazem planos para 2026, parecendo não se dar conta de que, por pior que seja o atual governo, o general da banda, aboletado na cadeira da Presidência, goza de uma situação mais confortável que a dos adversários.
Com a chave do cofre nas mãos e dois mandachuvas do Centrão lhe dando respaldo (por motivos que não vem ao caso discutir neste momento), o inferno é o limite para o capetão-negação exacerbar seu populismo eleitoreiro. E como desgraça pouca é bobagem, o leque de a janela de oportunidade para o impeachment do lunático despirocado fica mais estreita à medida que a eleição se aproxima.
Observação: Vale destacar que todos os presidentes que concluíram seus mandatos e disputaram a reeleição (FHC, Lula e Dilma) foram reeleitos. Isso não significa que esse "dogma" não possa ser quebrado, mas, sim, que, se a terceira via não se consolidar, teremos em 2022 uma reedição do pleito plebiscitário de 2018, com a diferença de que em 2018 não faltaram a Bolsonaro cabos eleitorais de peso, como Lula na cadeia, Haddad de bonifrate, a facada do maluco (que livrou o psicopata de participar dos debates), o estelionato eleitoral, o impulsionamento espúrio nas redes sociais, a confiança representada por Paulo Guedes na Economia e Sergio Moro na Justiça.
Sabíamos que Bolsonaro carecia de competência, preparo
e envergadura para presidir o que quer que fosse, inclusive carrinho
de pipoca em porta de cinema. Mas a perspectiva de ver o país ser governado por um criminoso condenado e preso... Enfim, apostamos nossas fichas e
torcemos para a emenda não saísse pior que o soneto, mas diz um ditado que basta fazer planos para ouvir a gargalhada do diabo.
Observação: A expressão "pior a emenda que
o soneto" surgiu quando Bocage recebeu de um
jovem aspirante a poeta um soneto para correção, e o devolveu sem nenhuma
marcação. Perguntado pelo pupilo se não havia nada a ser corrigido, o mestre
respondeu que, dada a quantidade de erros, "a emenda ficaria pior que o
soneto".
Parafraseando o "enviado pela Divina Providência para acabar com a fome, presentear a imensidão de desvalidos com três refeições por dia e multiplicar a fortuna dos milionários", nunca antes na história deste país o Palácio do Governo amargou um inquilino tão indiferente à dor alheia, que tanto despreza a Democracia e o Estado Democrático de Direito e odeia a liberdade de expressão, a imprensa e qualquer um que ouse discordar de sua elevada opinião.
Do cruel “e daí?” ao “cale a boca”, passando pelo churrasco da morte (que depois fomos instados a acreditar que não passava de uma pilhéria), o Mefistófeles de botequim deixou de ser o palhaço negacionista da “gripezinha” para concorrer como franco-favorito ao título de Monstruosidade Pública Número 1 — embora estufe o peito e se jacte de ter sido eleito "personalidade do ano" pela revista Time.
Nos anos 1970, durante a ditadura militar, Pelé avisou: "os brasileiros não sabem votar". E o tempo demonstrou que ele estava coberto de razão. Da mesma forma que jabuti não sobe em árvore (se está lá, foi enchente ou mão de gente), político não brota em seu gabinete por geração espontânea (se está lá, é porque votaram nele).
É impossível discordar de Pelé, mas sempre há quem se recuse a ver o que está bem diante de seu nariz — não por falta claridade, mas, sim, de acuidade visual. Para um um cego, tanto faz se a luz estiver acesa ou apagada. E não é preciso ser cientista político para ver que a agenda nacional ocupa, mal e parcamente, o primeiro ano e meio de mandato — no segundo ano, o presidente de turno se preocupa com os pleitos municipais, que servem de ensaio para a disputa presidencial que ocorrerá dois anos depois, e quando se vai ver, os quatro anos se foram e o mandato terminou.
Esperar demais das pessoas é carimbar o passaporte rumo à decepção, e achar que a liturgia do cargo transformaria em estadista um dublê de mau militar e parlamentar medíocre foi ignorar os ensinamentos da fábula do sapo e o escorpião. Governar vai muito além de ganhar eleições, notadamente em tempos de guerra. Parafraseando FHC — que não foi um estadista como manda o figurino, mas, noves fora o episódio lamentável da PEC da Reeleição, foi o presidente "menos pior" que tivemos desde a redemocratização —, “você não lidera dando ordens ao povo, mas fazendo com que o povo siga junto com você”.
Se a maioria apedeuta aprendesse a votar, a minoria pensante não seria obrigada a escolher, a cada eleição, de qual borda da Terra (plana) pular para o inferno. Infelizmente, esse tipo de situação se tornou regra na "Nova República" e, pelo visto, a próxima eleição não será exceção. Com base no que se vê até onde a alcança, a menos que a terceira via se consolide continuaremos navegando rumo a uma borrasca que tem tudo para se tornar a tempestade perfeita.Continua no próximo capítulo.

