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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 69ª PARTE

NÃO HÁ DEFEITO MAIS IRRITANTE QUE O DE CRITICAR DEFEITOS ALHEIOS.

A ânsia de acreditar que já fomos visitados por seres do futuro nos leva a enxergar “provas” em fotos borradas e lendas extravagantes, mas convenhamos: um viajante do tempo que deixa cair um relógio suíço numa tumba chinesa não merece sequer a passagem de volta. Além disso, todo fato tem ao menos três versões: a sua, a minha e a verdadeira. Quando as versões se sobrepõem aos fatos nascem os mitos, os boatos e as teorias da conspiração


Mitos são narrativas ancestrais que buscam explicar a origem do mundo ou transmitir crenças sobre o desconhecido; boatos surgem de informações distorcidas que são espalhadas de boca em boca, por mensagens instantâneas e nas redes sociais. Já as teorias da conspiração se baseiam em interpretações subjetivas de evidências circunstanciais e atribuem eventos políticos ou sociais a esquemas secretos arquitetados por grupos poderosos 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Há líderes políticos cuja obra só será entendida daqui a um século. No caso de Trump — cuja credibilidade como parceiro continua sub-zero —, a história é um dossiê criminal com a documentação de culpas que só poderiam ser perfeitamente entendidas se o relógio da Europa fosse atrasado para a década de 1930. Sob Trump, os Estados Unidos estão do lado errado.

No Brasil, entre várias esquisitices, o caso Master expôs as vísceras do nepotismo processual. Toffoli não se constrange com a revelação dos negócios de dois de seus irmãos com um dos alvos da investigação, nem Moraes se incomoda com a descoberta de que o banco falido pagava R$3,6 milhões mensais à advogada Viviane Barci, sua mulher.

A penúltima tentativa de golpe mostrou que a democracia precisa de um Judiciário forte, mas Fachin defende o STF valendo-se da tática de confundir o joio com o trigo — ou seja, os ministros com a instituição. Na nota divulgada na semana passada, a expressão “Código de Conduta” não aparece uma única vez nas 582 palavras que compõem as três páginas que formam o documento.


As teorias conspiratórias são particularmente sedutoras para aqueles que a cegueira mental impede de enxergar o óbvio. Elas são tão antigas quanto a própria humanidade, mas continuam entre nós, como aponta um estudo que analisou mais de 100 mil cartas enviadas por leitores ao The New York Times e ao Chicago Tribune entre 1890 e 2010. A diferença, segundo Umberto Eco, é que a Internet promoveu os idiotas da aldeia a portadores da verdade. Antes, eles falavam apenas no bar, sem causar maiores danos, e agora têm o mesmo direito à palavra que um Prêmio Nobel.

 

Bastou a Apollo 11 alunissar e Neil Armstrong e Buzz Aldrin darem seus primeiros passos na superfície lunar para que os teóricos da conspiração começassem a acusar a NASA de encenar uma farsa — supostamente filmada na Área 51. Segundo eles, a "tremulação" da bandeira fincada no solo lunar seria impossível sem a presença de vento, mas o movimento observado foi causado pelo manuseio da haste metálica costurada na borda superior da bandeira, projetada justamente para mantê-la estendida em um ambiente sem atmosfera. 

 

A ausência de estrelas se deveu ao fato de as câmeras terem sido configuradas para captar a superfície lunar intensamente iluminada pelo Sol, o que impossibilitou a captura de objetos menos brilhantes no fundo nas fotos, mas também foi alvo de suspeitas. As chamadas "sombras inexplicáveis" resultaram da combinação entre o relevo irregular da Lua e os ângulos das imagens, e os supostos "objetos estranhos" nos visores dos capacetes, do reflexo equipamento que os astronautas carregavam.


As missões Apollo foram acompanhadas por observadores independentes que verificaram as transmissões ao vivo e os sinais de rádio vindos da Lua. Além disso, 382 kg de amostras de rochas lunares foram analisadas por cientistas de todo o mundo, e imagens de alta resolução feitas por sondas e telescópios modernos mostram claramente os locais de pouso, incluindo as marcas dos módulos lunares e equipamentos deixados para trás na superfície do satélite. O físico David Grimes, da Universidade de Oxford (UK), concebeu uma equação levando em conta o número de conspiradores envolvidos (411 mil funcionários da NASA) e o tempo transcorrido desde o evento e concluiu que alguém fatalmente teria dado com a língua nos dentes depois de 3,7 anos.
 

No fim das contas, todas essas narrativas dizem mais sobre nós do que sobre o passado. Revelam nossa dificuldade em aceitar que povos antigos podiam ser inteligentes sem precisar de ajuda externa, e nossa vontade de acreditar que o futuro já esteve aqui, dando pistas em baixo-relevo, fotos borradas e lendas fantásticas. 


Convenhamos: se um viajante do tempo realmente tivesse deixado cair um relógio suíço dentro de uma tumba chinesa, talvez não merecesse nem a passagem de volta.


Continua...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

SOBRE O QUE VEM DEPOIS...

NA NATUREZA NADA SE CRIA, NADA SE DESTRÓI, TUDO SE TRANSFORMA. 

Tudo que existe no Universo é formado por partículas elementares, que se combinam de modo a criar qualquer coisa — de uma massa amorfa de moléculas a um ser vivo. 

Diante disso, o que entendemos por realidade é apenas um "visual" que o Universo escolheu para o imenso número de partículas que o compõem. 

Se tudo é basicamente energia, a vida em si é energia, e se a vida é energia, a morte não a destrói, apenas transforma. Mas transforma em quê, exatamente? 

Um Universo infinito com um número finito de combinações possíveis de partículas sugere a existência de universos paralelos. Como a imensa quantidade de matéria do Universo gera uma força gravitacional igualmente imensa, capaz de curvá-lo até deixá-lo esférico, vivemos numa superfície tridimensional inserida em uma esfera 4D.  Assim como um avião que voa rumo ao oeste por tempo suficiente acaba retornando ao ponto de partida, um viajante cósmico que seguir em linha reta pelo espaço por tempo suficiente acaba voltando a seu ponto de origem. Mas isso é outra conversa; a questão que se coloca é a finitude da vida. 

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

A despeito do mensalão, Lula se reelegeu em 2006, fez sua sucessora em 2010 e deixou o Planalto nos píncaros da popularidade. Também em 2006, o “poste” que o xamã petista fez eleger para prefeitar a capital paulista foi fragorosamente derrotado pelo “outsider” João Dória logo no primeiro turno — algo inédito desde a redemocratização.

Lula respondeu a duas dúzias de processos e foi condenado em dois a penas que, somadas, perfizeram mais de 20 anos de cadeia, mas deixou sua cela VIP na PF de Curitiba depois de míseros 580 dias e, graças a Jair Bolsonaro — o pior mandatário desde Tomé de Souza —, foi “descoordenado”, reabilitado politicamente e eleito para um inusitado terceiro mandato. 

Ministro da Fazenda desde o início da terceira gestão de Lula, Haddad — um dos piores prefeitos que Sampa já amargou — deve deixar o comando da pasta em fevereiro para colaborar com a campanha à reeleição de seu amo e senhor.

Haddad não chega a ser uma Dilma, mas jamais será um Palocci. Ele ajudou a conceber uma âncora fiscal — que só existiu para efeito de propaganda — e passou os últimos três anos tentando dourar a pílula do déficit, reafirmando um compromisso de equilíbrio das contas públicas que Lula e os números tratavam de desmoralizar diariamente. 

Se o Lula do primeiro mandato ainda se preocupava em dar ao mercado e aos investidores a impressão de que trataria as contas públicas com seriedade, o Lula do terceiro mandato pisou no acelerador dos gastos sem qualquer pudor. “Não tem macroeconomia, não tem câmbio: se tiver dinheiro na mão do povo, está resolvido o nosso problema”, disse ele no final do ano passado.

Sob certos aspectos, o eterno bonifrate de Lula encerrará sua gestão como o ministro da Fazenda possível dentro de uma gestão petista com essas características. A despeito de seu esforço pela aprovação da reforma tributária sobre o consumo, Haddad foi incapaz de defender a segunda parte da reforma — que alteraria o Imposto de Renda —, sucumbindo aos imperativos populistas de Lula e protagonizando o constrangedor pronunciamento em rede de rádio e TV no qual foi obrigado a anunciar o plano eleitoreiro do presidente de isentar de IR quem ganha até R$ 5 mil. Foi talvez o ponto mais baixo de sua trajetória como ministro da Fazenda.

Vade retro! 

Viver para sempre é um sonho antigo. Os gregos acreditavam a água de um rio que nascia no Monte Olimpo tornava os homens imortais, mas não sobrou ninguém vivo para contar a história. Ponce de León partiu de Porto Rico em busca da lendária Fonte da Juventude, descobriu Flórida, mas morreu sem jamais encontrar o que perseguia. Graças à evolução da Ciência, nossa expectativa de vida, que era de 47,1 anos na década de 1950, aumentou para 73,4 anos em 2023, e deve alcançar 82,1 no final deste século. Ainda assim, a "lei" segundo a qual todo ser vivo nasce, cresce e morre ainda não foi revogada.
 
O gerontologista Aubrey de Grey afirma que o envelhecimento não é uma consequência biológica. Segundo ele, se a medicina se antecipasse aos danos celulares, seria possível vivermos por séculos sem os transtornos da velhice". Já o biogerontologista molecular João Pedro de Magalhães sustenta que a chave para a longevidade está na reescrita de nossos "softwares" genéticos. "Se conseguíssemos criar células resistentes ao câncer e imunes ao envelhecimento, nossa expectativa de vida aumentaria para mais de mil anos", diz ele. Mas parece que falar é mais fácil que fazer: a pessoa mais longeva da história — noves fora Matusalém, que, segundo a Bíblia, teria vivido 969 anos — foi a francesa Jeanne Calment, que morreu com 122 anos e 164 dias. 
 
Moisés anotou no Gênesis que Deus criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. O arcebispo irlandês James Ussher foi mais além: em "The Annals of the World", ele cravou o início da obra divina pontualmente às 9h00 da manhã de 23 de outubro de 4004 a.C. Mas o que é a Bíblia senão um conjunto de mitos, lendas e tradições culturais transmitidos oralmente por várias gerações, até serem escritos em papiro, entre os séculos XV e XIII a.C.?
 
As narrativas que compõem o Gênesis não fornecem uma explicação científica ou histórica sobre o passado, mesmo porque os fatos não foram registrados em tempo real. Já a Ciência busca evidências, procura comprová-las por meio de experimentos e pode modificá-las à medida que novas descobertas surgem. Assim, dar por verdade absoluta o que diz a Bíblia é rejeitar todo o conhecimento que a Física, a Atronomia e a Biologia acumularam nos últimos séculos. 
 
Segundo o que as evidências científicas indicam, o Universo nasceu há 13,8 bilhões de anos, a partir de uma colossal liberação de energia e matéria. O gênero Homo surgiu há 2,5 milhões de anos, e o Homo Sapiens, há cerca de 300 mil anos. Não se trata de conjecturas, mas de estimativas baseadas em fósseis, datações radiométricas e estudos de ossos e crânios descobertos por arqueólogos e paleontólogos. Consequentemente, a fábula de Adão, Eva e a serpente tentadora não passa de mera cantiga para dormitar embalar bovinos. 
 
O risco de ignorar a Ciência fica evidente quando novas descobertas desafiam antigas crenças. Mesmo quando elas soam ousadas demais — como quando Copérnico deslocou o homem do centro do cosmos, Darwin refutou o criacionismo e Freud questionou a centralidade da mente humana sobre si mesma — a comprovação pode até tardar, mas raramente falha. Evidências são indícios que apontam para a ocorrência de fatos; fatos são os acontecimentos propriamente ditos; e provas são os meios usados para demonstrar que os fatos efetivamente ocorreram. 
 
Se uma evidência cientifica contradiz um "ensinamento" bíblico, a chance de erro é a mesma de uma árvore arrancar as raízes do solo e sair andando, mas há quem a rejeite "em nome da fé", embora o faça por cegueira mental. A questão é que ignorar os fatos não os torna menos verdadeiros. A realidade se impõe, gostemos dela ou não. Negar as evidências científicas para sustentar dogmas é como insistir que a Terra é plana enquanto se viaja de avião ao redor do globo.
 
Fé e religião costumam andar juntas, mas não se deve confundi-las. A fé é uma experiência subjetiva, uma crença íntima que pode existir independentemente de qualquer doutrina ou instituição. Já a religião envolve ritos, dogmas e uma estrutura organizacional. Muitas pessoas praticam uma religião por tradição familiar ou convenção social, enquanto outras cultivam uma fé pessoal sem seguir nenhuma religião.
 
Voltando à pergunta inicial, nosso nascimento marca o início de uma viagem rumo a um futuro que nunca chega — vivemos sempre no hoje, que é o amanhã de ontem e o ontem de amanhã. Não sabemos sequer se o tempo existe realmente ou se foi inventado para facilitar nossa compreensão do mundo. A única certeza que temos na vida é a da inevitabilidade da morte, mas se tudo se resume basicamente a energia, então a "vida" pode ser um estado organizado e consciente dessa energia, e a morte, a dissipação desse arranjo.
 
No nível físico, os restos mortais se reintegram ao ciclo da natureza — átomos que um dia foram parte de estrelas e, noutro, formaram um vivente, voltam à terra, ao ar, ao oceano. Mas o que acontece com a consciência? Será ela um fenômeno emergente da organização da matéria que a morte do corpo funde ao tecido do universo ou apaga como a chama de uma vela? A Física sugere que informação não se perde, apenas se redistribui, mas tentar entender isso é descobrir que, na prática, a realidade pode ser ainda mais maluca do que imaginamos. 
 
Talvez o aspecto mais fascinante da Ciência não seja as respostas que oferece, mas as perguntas que se descortinam a partir dessas respostas. A busca pelo conhecimento e a exploração de incógnitas abrem caminho para novas descobertas e levantam hipóteses que são testadas e discutidas, e a carência de respostas leva a novas pesquisas visando a uma compreensão mais profunda do Universo. Em suma, a Ciência é um processo contínuo e as perguntas são o motor que a impulsiona.
 
Se a vida é energia organizada de forma complexa, a questão central passa a ser o que define essa organização e o que acontece quando ela se desfaz. Se a energia nunca desaparece, apenas muda de forma, a morte não a extingue, apenas a redistribui na forma de energia térmica, química, ou mesmo eletromagnética. Mas e a consciência? Será que ela é um simples epifenômeno do cérebro, um efeito colateral da atividade neural, um software rodando no hardware do corpo? Se for assim, ela se apaga quando o cérebro morre e fim de papo. Mas se ela for um tipo de padrão energético que sobrevive à morte biológica, então temos um enigma cuja solução deve estar em algum ponto entre a Ciência e a especulação filosófica. 
 
Pode ser que, ao fim e ao cabo, nossa existência seja um tipo de fractal energético que se rearranja infinitamente, ou um flash temporário de organização dentro do caos cósmico, como uma faísca que brilha por um instante antes de se apagar. Algumas correntes da física teórica, como a interpretação da mecânica quântica por Roger Penrose e Stuart Hameroff, sugerem que a consciência pode estar ligada a processos quânticos nos microtúbulos das células cerebrais. 
 
Talvez a informação da consciência possa ser transferida de alguma forma, mas para onde ela iria? Se espalharia pelo universo como uma onda dissipada? Se conectaria a um "campo" maior de informação? E se a realidade que percebemos for apenas um efeito da maneira como interagimos com essas partículas fundamentais? Seria a morte apenas uma mudança na interface, após a qual a "energia consciente" continuaria existindo de outra forma? 

The answer, my friend, is blowing in the wind.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

OS IDIOTAS VÃO DOMINAR O MUNDO...

... NÃO PELA CAPACIDADE, MAS PELA QUANTIDADE.

Em Ensaio sobre a cegueira, o escritor português José Saramago — Nobel de Literatura em 1998 — elencou diversas frases que poderiam descrever nosso surreal cotidiano. Entre elas, eu detaco: 1) "se queres ser cego, sê-lo-ás"; 2) "a pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos pela frente"; 3) "a cegueira é uma questão privada entre a pessoa e os olhos com que nasceu, não há nada que se possa fazer a respeito."

A cegueira pode ser congênita ou adquirida, reversível ou irreversível, mas, metaforicamente falando, "o pior cego é aquele que não quer enxergar". É fato que os efeitos tendem a desaparecer quando se lhes suprime a causa, mas argumentar com quem acredita nas próprias mentiras é o mesmo que dar remédio a um morto.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O Banco Master é um daqueles escândalos que envolve tanta gente, mas tanta gente, que mal nasce e já há um rosário de voluntários se propondo a assar uma pizza em sua homenagem, e as ações de Toffoli, como uma acareação fora de hora entre o dono do banco e o diretor de fiscalização do Banco Central cheiram a marguerita.

O ministro não conseguiria extinguir a liquidação do banco, que morreu bem antes de ser enterrado pelo BC, mas pode livrar a cara de Daniel Vorcaro e garantir que ele mantenha o bico fechado, já que a canto dessa ave, em forma de delação, levaria ao apocalipse em Brasília.

Faria bem ao país se o caso fosse apurado dentro da lei e longe da promiscuidade, mas o problema é o de sempre: a instrumentalização para um lado ou para o outro do resultados de investigações. Além disso, tudo indica que muita gente tem culpa no cartório, mas o sistema nunca age por contra própria e sempre se protege. 

Em outras palavras, um crime dessa magnitude não se sustenta sem apoio político. Daniel Vorcaro construiu ou comprou amizades em um espectro ideológico amplo. Ao contrário de Mauro Cid, que era de Jair, Vorcaro é de muitos. 

Se a investigação sobre o golpe expôs o projeto autoritário de um grupo político, o caso Master tem condições de escancarar o modo de financiamento de parte da política brasileira, o condomínio de interesses que transforma banco em máquina de fabricar dinheiro público para campanhas, consultorias de fachada e patrimônio oculto em paraíso fiscal.

Claro, tudo isso depende de as instituições estarem dispostas a ir até o fim. A experiência de delações passadas mostra que, no Brasil, o sistema político tem uma capacidade impressionante de metabolizar escândalos sem se depurar. Não falta advogado caro, voto em tribunal superior ou narrativa patriótica para transformar propina em "erro contábil" e fraude em "risco de mercado".

Num país em que banqueiro é tratado como gênio disruptivo mesmo quando vende vento por bilhões, talvez seja simbólico que a maior bomba não esteja em instalações militares, mas num banco em liquidação.


Um poema atribuído ao dramaturgo alemão Bertolt BrechtO pior analfabeto / É o analfabeto político / Ele não ouve, não fala / Nem participa dos acontecimentos políticos / Não sabe que o custo de vida / O preço do feijão, do peixe / Da farinha, do aluguel, do calçado / Depende de decisões políticas — resume magistralmente o conceito de "idiota" (do grego ἰδιώτης, idiṓtēs). Originalmente, o termo não tinha relação com inteligência (ou com a falta dela) e, portanto, não era considerado insultuoso — na verdade, ele era usado para definir um cidadão comum em contraposição a um estudioso ou alguém que ocupava cargo público e agia em nome do Estado. Para os gregos, sem a participação cívica a democracia entraria em colapso; todos os cidadãos deveriam estar familiarizados com assuntos públicos — ou, por outra, não deveriam ser idiotas.

 

Como permanecer à margem da vida pública era sinal de ignorância, quem não contribuía para os debates políticos era considerado absolutamente inútil. Nesse contexto, a palavra "idiota" adquiriu a desdenhosa conotação negativa que a acompanha até hoje — segundo o Michaelis, "idiota" é alguém que "sofre de idiotia, que demonstra falta de inteligência, de discernimento ou de bom senso, estúpido, imbecil, tolo etc."

 

No início do século passado, os psicólogos Alfred Binet e Theodore Simon criaram o primeiro teste de inteligência moderno, que aferia o QI com base na capacidade das crianças de realizar tarefas como apontar para o nariz e contar moedas. Mais adiante, pessoas com quociente intelectual superior a 70 passaram a ser consideradas "normais", e aquelas que superassem 130, "superdotadas". Para lidar com pessoas com QI inferior a 70, criou-se uma nomenclatura segundo a qual um adulto com idade mental inferior a 3 anos foi rotulado de "idiota"; entre 3 e 7, de "imbecil"; e entre 7 e 10, de "débil mental".

 

A exemplo do que ocorreu com "imbecil", o termo "idiota" passou a ser usado em contextos jurídicos e psiquiátricos para descrever graus de deficiência psíquica — e daí a se tornar insultuoso foi um passo. Algumas culturas deixaram de usar o termo por considerá-lo ofensivo, mas ele continua figurando no Diccionario de la lengua española, da Real Academia Española, com o sentido de "transtorno caracterizado por uma deficiência muito profunda das faculdades mentais".

 

Segundo Walter C. Parker, professor emérito da Universidade de Washington, a antiga etimologia pode ser uma ferramenta valiosa para uma compreensão contemporânea da democracia e da cidadania: "idiota é alguém cuja vida privada é sua única preocupação, alguém que não toma iniciativa na política, alguém imaturo, com desenvolvimento truncado, que pode ter vida social, mas não vida pública", diz ele. 


Já para a historiadora e filósofa Hannah Arendt, todos podemos ter uma vida social — com nossos amigos e familiares, redes sociais, trabalho, lazer — sem necessariamente termos uma vida pública (ou política). De acordo com ela, "o ideal da democracia liberal é que o povo participe, estabelecendo o governo e criando as regras que o defendam do tipo de vida pública que não deseja".

 

O idiota rejeita tudo isso. Ele simplesmente se enterra na sua vida privada e na sua vida social, permitindo que populistas, demagogos e aproveitadores da pior espécie assumam o poder. Apesar de viver num mundo em que as pessoas têm meios de acesso à informação, ele acredita mais nas versões do que nos fatos, o que resulta num terreno fértil — e muito perigoso — para a demagogia. E daí para a polarização é um passo.

 

Atribui-se a Nelson Rodrigues a máxima segundo a qual os idiotas vão dominar o mundo, não por capacidade, mas pela quantidade. A julgar pelo comportamento dos eleitores, que fazem a cada dois anos, por ignorância, o que Pandora fez, por curiosidade, uma única vez, nada indica que haja luz no fim desse túnel. 


E assim seguimos: com cada vez mais idiotas nas redes, no Congresso, no poder. No fim das contas, a democracia pode até sobreviver aos canalhas, mas dificilmente resistirá aos idiotas — esses, afinal, estão por toda parte, até mesmo aqui, lendo este texto. Ou não.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

MENTIRAS QUE SOAM VERDADEIRAS

É MELHOR UM FIM HORROROSO DO QUE UM HORROR SEM FIM.  

A maioria de nós já ouviu dizer que avestruzes enterram a cabeça na areia quando estão assustados, que preguiças são preguiçosas, que porcos são sujos, que golfinhos estão sempre sorrindo, que elefantes nunca esquecem, que Lula foi absolvido e que Bolsonaro foi condenado injustamente. Só que nada disso é verdade. 


No que tange aos avestruzes, as fêmeas colocam a cabeça no buraco que usam como ninho para virar os ovos várias vezes durante o dia — se realmente enterrassem a cabeça para não ver o perigo, como diz a lenda, as pobres aves morreriam asfixiadas. 


As preguiças se movem devagar porque seu metabolismo as obriga a economizar energia, e como não andam sobre as solas dos pés, mas se arrastam com suas longas garras, sua locomoção nas árvores e no solo é lenta e desajeitada. Por outro lado, elas se movem velozmente na água e dormem cerca de 10 horas por dia — bem menos que os gatos e outros animais domésticos.


Os porcos são animais naturalmente asseados. Eles defecam longe de onde comem, dormem e acasalam, mas, como não conseguem suar, refrescam-se chafurdando na lama — o que lhes dá a aparência de sujos. Por outro lado, é impossível manter-se limpo quando se vive confinado num chiqueiro pequeno, superlotado e imundo.


Os golfinhos são brincalhões e parecem sorrir porque o formato de suas mandíbulas cria essa ilusão. Mas são incapazes de mudar de expressão, e podem ser surpreendentemente desagradáveis e traiçoeiros, chegando a atacar outros mamíferos marinhos e até pessoas quando se sentem ameaçados.


Os elefantes possuem o maior cérebro entre os mamíferos terrestres. Seu lobo temporal — extremamente desenvolvido — permite memorizar cheiros, vozes, lugares, hierarquias, vínculos familiares e comandos de voz. Eles são capazes de reconhecer outros elefantes — e até humanos — após décadas de separação, bem como de manter relações complexas dentro da manada, que a matriarca conduz por rotas migratórias antigas, guiada por lembranças de locais com água e comida.


Assim como afirmar que “os elefantes não esquecem” é uma simplificação poética embasada na ciência, dizer que os eleitores brasileiros fazem, a cada dois anos, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez por curiosidade, é uma simplificação poética embasada na mitologia grega.


Celebrizada pelo jornalista Ivan Lessa, a máxima segundo a qual os brasileiros esquecem, a cada 15 anos, o que aconteceu nos últimos 15, ilustra a quintessência da falta de memória — ou de preparo — do nosso eleitorado. Aliás, em momentos distintos da ditadura, Pelé e o ex-presidente João Figueiredo alertaram para o risco de misturar brasileiros e urnas em eleições presidenciais. Ambos foram muito criticados, mas como contestá-los, se lutamos tanto pelo direito de votar para presidente e elegemos gente como Lula, Dilma e Bolsonaro?


Em 135 anos de história republicana, 35 brasileiros foram alçados à Presidência pelo voto popular, eleição indireta, linha sucessória ou golpe de Estado. Em agosto de 1961, a renúncia de Jânio Quadros ladrilhou o caminho para o golpe de 1964, que depôs João “Jango” Goulart do Palácio do Planalto e deu início a duas décadas de ditadura militar.


Em 1989, depois de 29 anos sem votar para presidente e podendo escolher entre Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola — de um cardápio com mais de 20 postulantes — a plebe ignara preferiu despachar Collor e Lula para o segundo turno. O caçador de marajás de mentirinha derrotou o desempregado que deu certo por 683.920 a 215.177 votos válidos, provando que memória histórica e senso crítico não são pré-requisitos para exercer o direito de voto.


Collor foi empossado em março de 1990 e penabundado em dezembro de 1992. Em 1994, graças ao bem-sucedido Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, elegeu-se presidente no primeiro turno. Picado pela “mosca azul”, comprou a PEC da Reeleição.


Como quem parte, reparte e não fica com a melhor parte é burro ou não tem arte, o tucano de plumas vistosas renovou seu mandato no ano seguinte — novamente no primeiro turno. Mas não há nada como o tempo para passar. Em 2002, sem novos coelhos para tirar da velha cartola, não conseguiu eleger seu sucessor: Lula derrotou José Serra por 61,27% a 38,73% dos votos válidos.


Em 2006, apesar do escândalo do mensalão, o petista venceu Geraldo Alckmin por 60,83% a 39,17% dos votos válidos. Em 2010, visando manter aquecida a poltrona que tencionava disputar dali a quatro anos, fez eleger um “poste” — Dilma Rousseff —, que pegou gosto pelo poder, fez o diabo para se reeleger, entrou em curto-circuito e foi desligada em 2016, pondo fim a 13 anos e fumaça de lulopetismo corrupto.


Com o impeachment da mulher sapiens, Michel Temer passou de vice a titular do cargo. Num primeiro momento, a troca de comando pareceu alvissareira. Depois de mais de uma década ouvindo garranchos verbais de um semianalfabeto e frases desconexas de uma destrambelhada que não sabia juntar sujeito e predicado, ter um presidente que sabia falar — até usando mesóclises — foi como uma lufada de ar fresco numa catacumba. Mas há males que vêm para o bem e bens que vêm para pior.


O prometido “ministério de notáveis” revelou-se uma notável agremiação de corruptos, e a “ponte para o futuro”, uma patética pinguela. Depois que sua conversa de alcova com Joesley Batista veio a lume, Temer pensou em renunciar, mas foi demovido por sua tropa de choque.


Escudado das flechadas de Janot pelas marafonas da Câmara, o nosferatu que tem medo de fantasma concluiu seu mandato-tampão como pato manco e transferiu a faixa para um mix de mau militar e parlamentar medíocre travestido de outsider antissistema, que se tornou o pior mandatário tupiniquim desde Tomé de Souza.


Para provar que era amigo do mercado e obter o apoio dos empresários, o estadista que sempre acreditou em Estado grande e intervencionista e lutou por privilégios para corporações que se locupletam do Estado há décadas, foi buscar Paulo Guedes..


Para provar que era inimigo da corrupção e obter o apoio da classe média, o deputado adepto das práticas da baixa política, amigo de milicianos, que em sete mandatos aprovou apenas dois projetos e passou por oito partidos diferentes, todos de aluguel, foi buscar Sérgio Moro. 


Para obter o apoio das Forças Armadas, o oficial de baixa patente, despreparado, agressivo e falastrão, condenado por insubordinação e indisciplina e enxotado da corporação, foi buscar legitimidade numa penca de generais saudosos da ditadura.


Bolsonaro obrigou Moro a reverter uma nomeação, tomou-lhe o Coaf, forçou-o a substituir um superintendente da PF e esnobou seu projeto contra a corrupção. O ex-juiz fingiu que não viu, tentou negociar e, por fim, desembarcou do governo para tentar salvar o pouco prestígio que lhe restava.


Bolsonaro desautorizou Guedes, interferiu em seu ministério, sabotou seus projetos e, com o Centrão, enterrou de vez a agenda econômica. A maneira como gerenciou a pandemia de Covid foi catastrófica. Os crimes comuns e de responsabilidade cometidos pelo aspirante a genocida só ficaram impunes graças à leniência de Rodrigo Maia e Arthur Lira, que presidiram a Câmara durante sua gestão, e à cumplicidade de Augusto Aras, seu antiprocurador-geral.


Bolsonaro jamais escondeu a admiração pela ditadura militar e a vocação para o autoritarismo. Em 2019, poucos meses após a posse, reconheceu que não nasceu para ser presidente, mas para ser militar, embora tenha passado menos anos no Exército do que na política e, ao longo de 27 anos no baixo clero da Câmara, tenha apresentado 172 projetos, relatado 73 e aprovado apenas dois.


Na eleição de 2014, ao ver o poste de Lula derrotar o neto corrupto de Tancredo, Bolsonaro resolveu disputar a Presidência “com a cara da direita”. Ignorado pelo PP, que apoiou a campanha de Dilma, lançou seu ultimato: “Ou o partido sai da latrina ou afunda de vez”. Graças à Lava-Jato, a sigla afundou de vez. Graças à sua pregação antipetista, Bolsonaro renovou seu mandato como deputado mais votado do Rio de Janeiro, saltando de 120,6 mil votos em 2010 para 464,5 mil em 2014.


Derrotado em 2022 graças à sua nefasta gestão, Bolsonaro pôs em marcha a tentativa de golpe que lhe rendeu a condenação a 27 anos e 3 meses de prisão, além do pagamento de multa e indenização. O acórdão publicado na terça-feira (22) abriu o prazo de cinco dias para a interposição de embargos de declaração e de 15 dias para embargos infringentes.


Os embargos de declaração servem apenas para pedir esclarecimentos sobre o texto do acórdão — nada de rediscutir o mérito. Já os embargos infringentes permitiriam um novo julgamento no plenário, mas o Supremo já decidiu em outros casos que eles só são admissíveis quando há pelo menos dois votos favoráveis à absolvição — condição que, adivinhe, não se aplica à condenação do ex-presidente. Ele cumpre prisão domiciliar desde agosto e pode ser enviado ao Complexo Penitenciário da Papuda antes do final do ano.


Há males que o tempo cura, males que vêm para pior e males que pioram com o passar dos anos. Lula 3.0 é uma reedição piorada das versões 1 e 2 e, como nada é tão ruim que não possa piorar, o macróbio quer, porque quer, disputar a reeleição em 2026 — para nossa alegria (risos nervosos).


Vale lembrar que o ministro Fachin tomou a decisão teratológica de anular as condenações de Lula em caráter eminentemente processual. Como o mérito não foi analisado, o ex-presidiário não foi absolvido. Em outras palavras, o ministro agiu como um delegado que manda soltar um criminoso porque ele foi preso em flagrante pela Guarda Civil Metropolitana, e não pela Polícia Militar. Mesmo assim, o macróbio eneadáctilo alega que foi inocentado — e sua claque amestrada acredita.


As consequências da inconsequência do eleitorado tupiniquim são lamentadas todos os dias, inclusive por quem abriu a Caixa de Pandora achando que estava escolhendo o menor de dois males — o que só se justificaria se não houvesse outra opção. Tanto em 2018 quanto em 2022 havia alternativas; só não viu quem não quis ou não conseguiu, porque sofre do pior tipo de cegueira, que é a mental.

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Reza uma velha (e filosófica) anedota que quando Deus estava distribuindo benesses e catástrofes naturais pelo mundo recém-criado, um anjo apontou para o que seria futuramente o Brasil e perguntou: Senhor, por que brindas essa porção de terra com clima ameno, praias e florestas deslumbrantes, grandes rios e belos lagos, mas não desertos, geleiras, vulcões, furacões ou terremotos? E o Criador respondeu: Espera para ver o povinho filho da puta que vou colocar lá.


Resumo da ópera:


Bolsonaro foi eleito em 2018 graças ao antipetismo, mas a emenda ficou pior que o soneto. Sua nefasta passagem pelo Planalto resultou na “descondenação” de Lula e culminou com seu terceiro mandato, que vem se revelando pior do que os anteriores. E a possibilidade de ele se reeleger é assustadoramente real, mesmo porque, ironicamente, seu maior cabo eleitoral é Bolsonaro — e seus filhos despirocados, claro.


Se Sérgio Moro não tivesse trocado a magistratura pelo ministério da Justiça no desgoverno do capetão, é possível que a Lava-Jato ainda estivesse ativa e operante, e Lula ainda estivesse cumprindo pena em Curitiba, na Papuda ou no diabo que o carregue. Tanto ele quanto Bolsonaro são cânceres que evoluíram para metástases e, portanto, se tornaram inoperáveis. Mais cedo ou mais tarde, a Ceifadora livrará o Brasil desse mal. Até lá, a abjeta polarização seguirá a todo vapor — a menos que uma “terceira via” surja e se consolide ao longo do ano que vem.


Políticos incompetentes e/ou corruptos que ocupam cargos eletivos não brotam nos gabinetes por geração espontânea; se estão lá, é porque foram eleitos por ignorantes polarizados, que brigam entre si enquanto a alcateia de chacais se banqueteia e ri da cara deles — e dos nossos, de brinde.


Einstein teria dito que o Universo e a estupidez humana são infinitos, mas salientou que, no tocante ao Universo, ele ainda não tinha 100% de certeza. Alguns aspectos de suas famosas teorias não sobreviveram à passagem do tempo, mas sua percepção da infinitude da estupidez humana deveria ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta e pendurada no hall de entrada do Congresso.


Não há provas de que boas ações produzam bons resultados. A lei do retorno é mera cantilena para dormitar bovinos, mas insistir no mesmo erro esperando produzir um acerto é a melhor definição de imbecilidade que conheço, e más escolhas inevitavelmente geram péssimas consequências — como temos visto a cada eleição presidencial desde 2002.


Triste Brasil.