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sexta-feira, 31 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A TEORIA DE TUDO (CONTINUAÇÃO)

A REALIDADE É AQUILO QUE NÃO DESAPARECE QUANDO VOCÊ PARA DE PENSAR NELA.

Até o início do século XX, as leis de Newton explicavam o movimento dos planetas, as maçãs caindo das árvores, e por aí afora. Em 1905, Einstein publicou uma série de artigos que viraram esse entendimento de pernas para o ar, começando pela Teoria da Relatividade Restrita, segundo a qual o tempo e espaço formam um único tecido contínuo — o espaço-tempo — onde até os relógios atômicos mais precisos seguem caminhos diferentes, e que o tempo não é uma regra universal válida para todo o cosmos. 


A ideia central fica mais palatável quando imaginamos duas pessoas e um trem, uma viajando num vagão a uma velocidade constante e a outra parada na plataforma da estação. De acordo com as leis de Newton, a primeira pessoa acha que a segunda está se afastando, enquanto a segunda acha que a primeira está se movendo. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Em maio, Flávio prevalecia sobre Lula entre os brasileiros que afirmam não ser lulistas nem bolsonaristas: 38% a 32%. Desde a explosão do caso Dark Horse, a tendência se inverteu. Lula agora aparece à frente do filho de Bolsonaro nesse nicho do eleitorado: 40% das intenções de voto, contra 31% atribuídos a Flávio na simulação de segundo turno.

No quadro geral, os dados coletados pelo Datafolha revelam um cenário de estabilidade. Lula continua à frente. Mas não disparou. Flávio, a despeito da desvantagem, não derreteu. No primeiro turno, a dianteira de Lula oscilou de 10 para 8 pontos percentuais: 40% a 32%. No segundo turno, foi de 4 para 5 pontos: 48% a 43%.

São variações dentro da margem de erro da pesquisa, que é de dois pontos. Normalmente, seriam consideradas como um ativo eleitoral de Flávio. Sobretudo quando se considera que o candidato do clã Bolsonaro tropeça numa agenda negativa que inclui a relação promíscua com Daniel Vorcaro, as desavenças com a madrasta, o tarifaço de Trump, os desencontros com o centrão, o ataque às urnas eletrônicas e um interminável etcétera.

Nesse contexto, a estratégia que distancia Flávio do eleitor de centro não faz nexo. Foi esse eleitor que deu a Lula, em 2022, a vitória sobre Bolsonaro pela pequena margem de 1,8 ponto percentual. O jogral do pai preso — "É sangue do meu sangue" —com filho-refém — "Aqui tem sangue de Bolsonaro" — desce à crônica da sucessão como uma esperteza do avesso.

É como se a dinastia desejasse transformar limonada em limão.


O problema surge quando experiências como a que Michelson e Morley realizaram no final do século XIX demonstraram que a velocidade da luz no vácuo é sempre a mesma, não importa se a fonte está em movimento ou se o observador está parado. Isso parece ser apenas um detalhe, mas, segundo a física clássica, a velocidade de uma bola arremessada dentro de um trem seria a velocidade da bola somada à velocidade do trem, e com a luz a velocidade continuaria exatamente a mesma (na percepção de quem está parado).


Isso levou Einstein a propor dois postulados simples, mas revolucionários: 1) A velocidade da luz no vácuo é constante (299.792.458 m/s ou cerca de 1,08 bilhão de km/h) para todos os observadores, independentemente do seu movimento; 2) As leis da física são as mesmas em todos os referenciais inerciais, ou seja, para observadores que não estão acelerando.


A combinação dessas duas ideias foi de encontro (e não ao encontro) do senso comum, segundo o qual o tempo e espaço simplesmente não podem se comportar da forma que se imaginava até então. Isso levou Einstein a concluir que, para o universo continuar a fazer sentido, era preciso abandonar a noção clássica de tempo e espaço e abraçar a ideia de que o tempo não é um valor absoluto, igual para todos, que flui como um relógio cósmico universal, mas algo relativo que leva a um conceito ainda mais profundo — que é o do espaço-tempo.


Para entender melhor a gravidade, imaginemos o espaço-tempo como uma grande tela elástica, e objetos massivos como planetas e estrelas deformando essa tela. Se colocarmos uma bola de boliche no centro dessa tela elástica, o tecido irá afundar. Se acrescentarmos uma bola de tênis, ela vai se mover em direção à bola maior, não porque uma força misteriosa a puxa, mas porque a superfície está deformada. Na visão de Einstein, a gravidade funciona assim, como o resultado da curvatura do espaço-tempo, e não como uma força invisível exercida à distância..


Einstein demonstrou ainda que o tempo também é afetado pela gravidade, e que, quanto mais intenso for o campo gravitacional, mais lentamente ele fluirá. É devido a esse efeito — conhecido como dilatação gravitacional do tempo — que um relógio anda mais devagar ao nível do mar do que no alto de uma montanha, onde a atração gravitacional é menor. 


Isso tem implicações profundas na forma como entendemos o universo e a nós mesmos, pois desmonta a ideia segundo a qual o tempo é um rio que corre de maneira uniforme para todos.


Continua…

quarta-feira, 29 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A TEORIA DE TUDO

O TEMPO SE DOBRA; O ESPAÇO SE QUEBRA.

O fato de o tempo não ser universal nem fixo afronta nossa noção de simultaneidade, já que dois eventos que parecem acontecer ao mesmo tempo para um observador podem não parecer simultâneos para outro. Voltando ao exemplo do trem (capítulo anterior), se dois relâmpagos atingirem a locomotiva e o último vagão ao mesmo tempo, ambas as descargas parecerão simultâneas para quem está na plataforma e sucessivas para quem está no trem em movimento.


Embora tenha sido considerada inicialmente absurda, essa ideia abriu caminho para toda a física moderna — da mecânica quântica à cosmologia, da compreensão dos buracos negros ao estudo da origem do universo, e continua valendo quase um século depois. Mas a questão que se coloca é: se o tempo não é universal e cada qual segue sua própria linha temporal, a possibilidade de se desviar, pegar atalhos ou fazer o caminho inverso permitiria voltar ao passado?


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Guindado por Bolsonaro a uma poltrona do Supremo sob o argumento de que o tribunal precisava de um ministro "terrivelmente evangélico", André Mendonça rodou a toga, na última quinta-feira, e serviu ao filho do pai o pão que o Tinhoso amassou ao autorizar a Polícia Federal a abrir inquérito para investigar o financiamento de Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse. 
Dono do próprio tempo, Mendonça poderia ter agido na segunda-feira. Caprichoso, optou por tomar a decisão às vésperas da convenção que formalizou a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. 
O início da investigação vinha sendo travado por um empecilho burocrático. Uma ação do deputado petista Lindbergh Farias pedia que a encrenca ficasse com Alexandre de Moraes, acusado de perseguição pelo clã Bolsonaro. Sob aplausos da família, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, transferiu o caso para a mesa de Mendonça, relator do caso Master. 
Mendonça é "irmão em Cristo" da amiga evangélica Michelle Bolsonaro, que vive às turras com o enteado Flávio. Nos bastidores, aliados do candidato enxergaram digitais da madrasta no despacho do ministro, mas o rigor com que Mendonça trata o senador petista Jaques Wagner, também arrastado para o caldeirão do Master, enfraquece o argumento. 
Por uma trapaça do azar, a decisão de Mendonça chegou ao noticiário no mesmo dia em que o rebento do refugo da escória da humanidade pendurou nas redes um vídeo se desculpando com Michelle, que, em meio à crise. foi questionada por repórteres sobre o áudio em que o enteado pediu dinheiro a Vorcaro, e se limitou a dizer que a pergunta deveria ser dirigida ao primogênito do capetão — que teve a oportunidade de se explicar, mas preferiu administrar o problema a golpes de barriga. 
Diante das crises que desidratam o projeto político da família Bolsonaro, os operadores da campanha tentavam calafetar as janelas do comitê, porém, assombrados com o rigor de Mendonça, passaram a temer que a investigação vaze pelas frestas do birô eleitoral, recém-transferido para São Paulo, durante toda a campanha. A cúpula do PL receia que a sangria se torne hemorrágica.

A física moderna trata a viagem no tempo para o futuro como uma consequência direta das leis do universo, pois quanto mais rápido algo ou alguém se move, mais lentamente o tempo passa para esse alguém em relação a um observador parado. Para entender melhor, a velocidade da luz — representada pela letra "c" considerada o limite máximo no universo — equivale a 299.792.458 m/s. Viajando a 99% de "c" e voltando à Terra depois de 5 dias, um hipotético astronauta encontraria seus familiares e amigos 35 dias mais velhos.


Vale ressaltar que a diferença (fator de Lorentz) cresce à medida que o viajante se aproxima de "c." A 99,9999%, os mesmos 5 dias na nave representam cerca de 9 anos na Terra, e a 99,99999999%, a quase 1.000 anos. Com energia suficiente, seria possível cruzar galáxias inteiras numa questão de minutos, enquanto milhares de anos se passariam na Terra. 


Observação: Teoricamente, o fator de Lorentz não tem limite, mas qualquer objeto com massa precisa de energia para ser acelerado, e, na velocidade da luz, a energia necessária para ele continuar acelerando seria infinita.


Não se trata de ficção científica, mas de evidências comprovadas experimentalmente: partículas subatômicas aceleradas em laboratórios vivem mais tempo do que se estivessem paradas, e relógios atômicos colocados em aviões viajando a grandes velocidades atrasam exatamente como a relatividade prevê.


Colher o fruto mais ambicionado da árvore da relatividade — ou seja, viajar no tempo — é admissível à luz das leis da física; se não o fazemos na prática, é porque o custo é altíssimo: para que a dilatação do tempo seja realmente significativa, é preciso atingir velocidades muito próximas à da luz, e nossas tecnologias de propulsão ainda não o permitem. 


sonda espacial mais veloz lançada pela NASA cravou "modestos" 693 mil km/h (ou 0,0643 da velocidade da luz) no final de 2024 — e isso porque se aproveitou da gravidade solar. A essa velocidade, seria possível ir da Terra à Lua em meia hora, a Marte em 15 dias e aos confins do Sistema Solar em pouco menos de 3 anos, mas uma viagem de ida a Alpha Centauri levaria mais de 6 mil anos.


Resumo da ópera: viajar para o futuro, embora seja possível em teoria, é impraticável com os recursos de que dispomos atualmente. Mas o que realmente mexe com a imaginação é a ideia de voltar para o passado, pois aí as coisas ficam mais complicadas, como veremos no próximo capítulo.


Continua...

quarta-feira, 22 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — AINDA SOBRE A NATUREZA DO TEMPO

o tempo é lento demais para os que esperam, rápido demais para os que temem, longo demais para os que lamentam, curto demais para os que celebram e eterno para os que amam. 

Para entender melhor a essência do tempo é preciso abandonar a ideia de que o espaço é um “recipiente que contém as coisas” e o tempo, uma linha pela qual os acontecimentos fluem do passado para o presente e deste para o futuro (mais detalhes nesta postagem).

Einstein já havia sugerido que o tempo e o espaço formam um todo único — o “espaço-tempo” — e que o tempo varia conforme a velocidade com que o observador se move e a atração gravitacional que atua sobre ele.

Se não percebemos isso, é porque os relógios que usamos no dia a dia não são precisos o bastante. Mos relógios atômicos dos satélites GPS que orbitam a Terra adiantam 38,4 µs/dia (+45,6 µs/dia por conta da gravidade menor e −7,2 µs/dia graças à velocidade maior), tornando esse efeito mensurável.

Observação: Em velocidades próximas à da luz, a dilatação do tempo se torna extrema — a pouquíssimo menos de "c", um segundo para o viajante equivale a anos para quem ficou na Terra (como bem demonstrado pelo paradoxo dos gêmeos).

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Para entender melhor a teoria da gravidade quântica, é preciso abandonar a ideia segundo a qual existe um gigantesco relógio cósmico que marca o tempo do Universo, mesmo porque um dia é o tempo que a Terra leva para dar uma volta em torno do próprio eixo, e um ano, o tempo que ela leva para dar uma volta completa em torno do Sol. Esse "dia" de 24 horas e esse “ano” de 365 dias e 6 horas só fazem sentido para os terráqueos — em Plutão, por exemplo, a translação leva 248 anos terrestres.

Nosso conceito de tempo é uma convenção que pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Cada objeto do Universo possui um tempo próprio. Se na Terra, em altitudes diferentes, o tempo varia, imagina em Marte ou em Proxima Centauri. Séculos antes de Einstein publicar suas famosas equações relativísticas, Newton já havia dito que não é possível medir o “verdadeiro” tempo, mas, assumir sua existência permitiria descrever vários fenômenos da natureza. Mas na escala quântica o tempo como o conhecemos não funciona.

O espaço é um campo e o Universo é um sem-número de campos quânticos que não habitam o espaço-tempo, já que são o próprio espaço-tempo. Da mesma forma que os fótons se comportam tanto como partículas quanto como ondas, o espaço-tempo é formado por quanta de gravidade, e assim como os fótons medeiam a interação entre as ondas de luz, esse quanta possibilita a interação entre espaço e tempo.

Segundo o físico Carlo Rovelli, o preço conceitual pago para entender a teoria da gravidade quântica em loop é a renúncia à ideia de espaço e tempo como estruturas gerais para enquadrar o mundo. Talvez a dificuldade em entender o conceito se deva ao fato de que é praticamente impossível pensar em um mundo sem tempo e sem espaço, pois essa ideia coloca em xeque a própria realidade — e daí para o niilismo é um pulo. Mas para compreender o mundo pode ser preciso contrariar nossa própria intuição.

Uma das maiores contribuições da gravidade quântica em loop é a visão de mundo que ela oferece: por definir que existe um limite para o espaço e o tempo, a tensão entre a relatividade geral e a mecânica quântica não existe mais. Não é preciso entender o que se passa em um universo infinitamente pequeno, onde as leis de Einstein não se aplicam, mesmo porque os quanta de gravidade eliminam a ideia de espaço contínuo.

Por outro lado, é preciso ter em mente que tanto a teoria da gravidade quântica em loop quanto a teoria das cordas são tentativas de explicar o mundo. Como vários conceitos clássicos da ciência, elas carecem de comprovação experimental, mas nem por isso devem ser subvalorizadas. Vale lembrar que até serem confirmadas (em 2016), as ondas gravitacionais não passavam de especulações, e o mesmo vale para o bóson de Higgs e para as ondas eletromagnéticas.

Na física, quando uma teoria não pode ser comprovada, alternativas continuam sendo avaliadas; teorias são aceitas, ajustadas ou descartadas conforme evidências experimentais. Não se pode afirmar taxativamente que uma teoria seja absolutamente correta ou incorreta, já que não temos acesso a todos os níveis de informação. Mas quanto mais aprendemos de forma interdisciplinar, melhor compreendemos as coisas, e quanto mais desvendamos o mundo, mais descobrimos coisas a desvendar.

Parafraseando Rovelli: a única coisa realmente infinita no Universo é a nossa ignorância.

Continua…

segunda-feira, 20 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO (CONTINUAÇÃO)

O QUE CHAMAMOS DE DESTINO NÃO PASSA DE FÍSICA DISFARÇADA

Como vimos, a ciência ainda não se sabe se o tempo existe, se é apenas uma convenção criada para impor alguma lógica ao caos, nem se é uma estrutura, uma substância ou uma metáfora. Ainda assim, é o tempo que define nossos horários, organiza nossos dias, dita compromissos, aniversários, prazos e calendários.


Em última análise, tudo gira em torno do tempo — ou girava, já que um experimento envolvendo um relógio atômico extremamente preciso suscitou a possibilidade de estarmos errados sobre o tempo desde o começo. Mas façamos como o velho marinheiro, que durante um nevoeiro leva o barco devagar.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O primogênito do golpista perdeu de lavada para o molusco eneadáctilo no quesito tarifaço, como se viu da pesquisa Quaest, na qual o filho do pai gabaritou negativamente o questionário feito sobre o assunto. No universo da política, a avaliação também foi ruim, a começar pelo candidato que já havia reconhecido o prejuízo no pedido de adiamento para não favorecer o adversário. Quem não criticou, calou, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. 

O xamã petista ganhou esse lance, mas passou do ponto ao mandar o governo se enrolar na bandeira brasileira e tomar a frente do batalhão chamando o presidente americano para travar com ele uma "guerra de narrativas".

A pergunta que se impõe é: por quanto tempo e qual o poder que um tema de comércio exterior tem sobre a decisão do voto do eleitorado premido por dificuldades do cotidiano?

Os dois principais oponentes de hoje trocam acusações que nada têm a ver com as preocupações prioritárias da população, como segurança, combate à corrupção e serviços públicos prestados de forma razoavelmente adequada. Espera-se de candidatos sérios que respondam a essas necessidades sem recorrer aos subterfúgios fornecidos pela disputa da posse do verde-louro da flâmula nacional. 

Por outro lado, como esperar políticos sérios disputando a Presidência, se a maioria do eleitorado é apedeuta, desinformada e polarizada, e se digladia para eleger seus bandidos de estimação?


Fomos condicionados a acreditar que o tempo existe, mas não sabemos o que ele é nem tampouco conseguimos defini-lo sem usar a palavra "tempo". Nós o associamos à passagem dos segundos, à duração das coisas ou à sequência dos acontecimentos, mas essas definições se baseiam de forma indireta no próprio conceito de tempo. Curiosamente, podemos "sentir" o tempo, medi-lo e organizar nossa vida em função dele, mas não conseguimos defini-lo sem cair numa espécie de círculo vicioso lógico. 


Como você explicaria o tempo para uma entidade que nunca o vivenciou? Diria que ele mede o intervalo entre dois eventos? Essa definição faz sentido, mas o que seria esse intervalo sem o tempo, se é o tempo que organiza os acontecimentos do passado em direção ao futuro? Como se vê, diferenciar passado e futuro sem o tempo é como tentar explicar o que é esquerda sem mencionar a direita ou qualquer outro ponto de referência espacial. 


Vemos o sol nascer e se pôr todos os dias, notamos a mudança das estações, usamos relógios cada vez mais precisos, capazes de medir intervalos absurdamente pequenos, mas isso prova que o tempo realmente existe ou é apenas a forma como o nosso cérebro interpreta as mudanças ao nosso redor, ou por outra, uma espécie de ilusão convincente? Ademais, o fato de percebermos o tempo não significa que ele é um componente fundamental da realidade. Para entender isso melhor, entremos em nossa máquina do tempo e voltemos ao início do século XX, quando a teoria da relatividade demonstrou que o tempo não é absoluto, pois depende do observador.


Nosso cérebro é uma máquina incrivelmente sofisticada, que armazena memórias do passado e projeta possibilidades para o futuro. No entanto, nossa percepção do tempo está longe de ser constante: quando estamos imersos numa atividade aprazível, ele parece voar, mas quando estamos prestes a borrar as calças e ouvimos de quem está no banheiro “só um minutinho!”, esse minuto pode parecer durar uma eternidade. 


Em vez de ler o tempo diretamente, o cérebro usa mecanismos internos para estimar a passagem do tempo. Esses mecanismos não são exatamente confiáveis: quando vivemos experiências novas, intensas ou fora da rotina, o registro de mais detalhes dá a sensação de que o tempo se alonga, ao passo que na repetição do dia a dia, quando nos damos conta, a semana já acabou. Além disso, nossas experiências se tornam mais previsíveis à medida que envelhecemos, dando-nos a sensação de que o tempo passa cada vez mais depressa, mesmo que os ponteiros do relógio avancem com a mesma velocidade com que avançavam na nossa infância. 


A despeito de os dias sucederem as noites (e vice-versa) a cada doze horas, o tempo não é o mesmo em todos os lugares. Dependendo da velocidade com que duas pessoas se movem e/ou da intensidade da gravidade a que estão submetidas, elas podem experimentar a passagem do tempo de maneiras diferentes. Numa velocidade próxima à da luz, a dilatação do tempo reduz milhares de anos terrestres a poucos segundos. Além disso, a dilatação gravitacional faz com que o tempo passe mais devagar ao nível do mar do que no topo do Monte Everest (fato comprovado por relógios atômicos posicionados com uma diferença de altitude de apenas alguns milímetros, mas suficiente para detectar que o tempo passa em ritmos distintos em cada um deles).


No livro Beyond Time, o pesquisador francês Michel Siffre relata que passou dois meses numa caverna escura, sem relógio nem qualquer outra maneira de saber o tempo, que tomava o próprio pulso e contava os segundos até 120 sempre que se comunicava por rádio com a equipe de apoio, e que o tempo real, cronometrado por seu staff, era de quase 5 minutos. Sem os indicadores naturais (como nascer e pôr-do-sol), seu ciclo circadiano  passou de 24 para 48 horas, e o tempo psicológico foi reduzido à metade do cronológico. O experimento se estendeu por dois meses — que pareceram para ele menos de um.


De acordo com um estudo publicado recentemente pela Nature Reviews Neuroscience, o hipotálamo dos "atrasados crônicos" os faz subestimar o tempo necessário para chegar ao local do compromisso, já que as estimativas são baseadas no tempo gasto para realizar a mesma tarefa no passado, e essas memórias nem sempre são precisas. Ademais, o estado emocional negativo nos dá a sensação de que o tempo está passando mais devagar, e o positivo, a sensação oposta. 


No auge da pandemia da Covid, muitas pessoas queriam "acelerar o tempo" para retomarem a "vida normal". Como emoção e motivação estão interligadas, o tempo pareceu passar ainda mais devagar — quanto maior a motivação, mais acentuada a mudança na percepção de tempo. Enquanto a sensação de aceleração tende a facilitar as conquistas, a desaceleração costuma evitar que demoremos muito em situações potencialmente prejudiciais. Quanto mais o tempo "demora a passar" numa situação de medo, por exemplo, mais rapidamente agimos para nos livrarmos do perigo.


Vale destacar que “ganhar tempo” ou “perder tempo” é um erro de perspectiva. O tempo não é uma moeda que podemos guardar ou desperdiçar, ele simplesmente passa, e tentar “economizá-lo” fazendo várias coisas simultaneamente (multitasking) nos leva a “perder” mais tempo do que se realizássemos uma atividade por vez. Dizem que as mulheres até conseguem, mas eu, particularmente, acho que isso não passa de folclore.


Pensamos no tempo como algo externo, mas ele é um conceito profundamente enraizado em nossa mente. Todos temos um "relógio interno" que regula o sono, a fome e a energia ao longo do dia, e é regulado pelo tempo. Alterá-lo trabalhando à noite ou dormindo em horários irregulares, por exemplo, afeta nossa saúde e compromete nosso bem-estar. Até a invenção da escrita, media-se o tempo com base em fenômenos naturais sazonais; mais adiante, os sumérios dividiram o ano em 12 meses de 30 dias e os egípcios criaram um calendário lunar baseado na estrela Sirius. No final do século XVI, o calendário Juliano foi substituído pelo modelo Gregoriano, que atualmente é adotado pela maioria dos países.


Na maioria das línguas, o passado é descrito como algo que ficou para trás, e o futuro, como algo que está sempre mais adiante. Mas até o idioma e o sistema de escrita (da esquerda para a direita ou vice-versa) fazem diferença. No inglês, as distâncias percorridas são usadas para explicar a duração dos eventos; no grego, o fluxo temporal é percebido como um volume crescente, não como distância física.

Para a física moderna, no entanto, a ideia de que o passado deixou de existir e o futuro ainda não aconteceu pode ser apenas uma limitação dos nossos sentidos. É aqui que entra o conceito do Universo em Bloco: imagine que a realidade é como evento filmado em película: embora nós, os personagens, só consigamos ver um frame por vez (o presente), o rolo inteiro — com o início, o meio e o fim — já está lá, impresso e estático.

Nessa perspectiva, o tempo não flui; ele simplesmente é. O nascimento de uma estrela, sua primeira xícara de café e o último suspiro do universo coexistem em uma estrutura quadridimensional de espaço-tempo. Se isso for verdade, o "agora" não passa de uma coordenada, como o número de uma página em um livro que já foi escrito. O destino, portanto, deixaria de ser uma escolha ou uma maldição para se tornar uma propriedade geométrica da realidade

Em face do exposto, atribuir um número de série a cada ano é como tentar aprisionar o tempo num calendário de parede — sempre haverá um ministro do STF disposto a soltá-lo. Brincadeiras à parte, talvez não seja o tempo que passa por nós — nós é que passamos por ele como grãos de areia entre as câmaras de uma ampulheta. Ou talvez a forma como o sentimos seja em grande parte uma construção da nossa mente.


Continua…

segunda-feira, 13 de julho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — SOBRE A NATUREZA DO TEMPO

O TEMPO É O FOGO QUE NOS CONSOME.

A despeito do avanço substantivo da ciência desde a invenção da roda, ainda não sabemos se o tempo é uma realidade física ou apenas uma convenção para organizar o caos, nem se ele flui através de nós ou somos nós que o atravessamos.

Para o cosmólogo Carlo Rovelli, o tempo não é uma linha reta pela qual os acontecimentos deslizam do passado ao futuro, mas uma variável emergente, resultante do aumento da entropia do cosmos ao longo dos últimos 13,8 bilhões de anos. Já o matemático e metafísico J. M. E. McTaggart chegou à mesma conclusão por meio da lógica pura, demonstrando a inconsistência da ideia de tempo com um simples exercício de pensamento.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A nova rodada do Datafolha em São Paulo intensificou a luz amarela que pisca no painel de controle do comitê de campanha de Lula ao reforçar a hipótese de Tarcísio de Freitas prevalecer sobre Fernando Haddad no primeiro turno — algo que, se confirmado, deixaria o molusco sem um palanque na segunda rodada no maior colégio eleitoral do país.

Tarcísio aparece no com 46% das intenções de voto, 16 pontos à frente de Haddad. Na contagem oficial, a Justiça Eleitoral leva em conta apenas os votos válidos, e aí a porca torce o rabo para o petismo. Numa projeção que desconsidera os eleitores que sinalizaram ao Datafolha a intenção de votar em branco ou anular o voto, Tarcísio prevaleceria hoje sobre Haddad por 52% a 34%. Nessa hipótese o governador seria reeleito no primeiro round, pois somaria mais do que o mínimo necessário: 50% dos votos válidos mais um.

Na sucessão de 2018, quando Lula estava preso, o PT foi representado na corrida presidencial por Haddad. Bolsonaro chegou ao Planalto porque obteve no Sudeste 5,1 milhões de votos a mais do que o rival petista. Com isso, conseguiu anular a vantagem que o PT tradicionalmente obtém na região Nordeste.

Dos 23 municípios do Sudeste com mais de 500 mil habitantes em que Bolsonaro derrotou Haddad, dez ficavam em São Paulo. Em 2022, Haddad mediu forças com Tarcísio na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Perdeu no segundo turno. Mas seu desempenho foi crucial para que Lula reduzisse a desvantagem no Sudeste. Lula voltou a perder para Bolsonaro na região. Mas reduziu a desvantagem para 784 mil votos. O que foi fundamental para a vitória nacional pela pequena margem de 1,8 ponto percentual.

Confirmando-se a hipótese da ausência de um segundo turno em São Paulo, o comitê do xamã petista ganha desafios novos, entre os quais o aperfeiçoamento da linguagem digital. A campanha no estado escorregaria naturalmente das ruas para as redes sociais — um ambiente no qual a direita costuma levar vantagem sobre a esquerda.

Essas premissas podem soar contraditórias, mas a contradição se desfaz quando consideramos, por exemplo, que a Grande Pirâmide de Gizé foi erguida no presente do faraó Queóps — o que, para nós, equivale a 4,5 mil anos atrás. Em outras palavras, se a realidade depende do ponto de vista do observador, o presente não é uma data fixa no calendário. Assim, um olhar verdadeiramente objetivo não pode se apoiar em categorias como presente, passado ou futuro — da mesma forma que “eu”, “aqui” ou “lá” só têm sentido para quem fala, mas não existem de forma absoluta.


Se o tempo, a exemplo do espaço — que compreende apenas relações entre lugares —, comporta somente relações entre acontecimentos mensuráveis, uma descrição objetiva do mundo não comporta presente, passado e futuro. E se presente, passado e futuro não existem, então o tempo também não existe — ou talvez exista, mas não do jeito que nós imaginamos.


Na antiguidade, o tempo era visto ora como um deus implacável, ora como um fluxo sereno, ora como uma ilusão. Na mitologia grega, Cronos usou sua foice para castrar seu pai, Urano, que aprisionava os filhos por receio de ser destronado… e passou a devorar os seus.


Músicas como Dust in the Wind traduzem a inevitável transitoriedade da vida, enquanto o cinema faz do tempo um personagem central, tanto nas narrativas fragmentadas de Memento quanto nos paradoxos temporais de Interestelar, que transformam em drama humano a dilatação do tempo prevista pela Teoria da Relatividade de Einstein., segundo a qual o espaço não é uma caixa rígida e inerte, mas algo como um imenso molusco que se comprime e se retorce na presença de massa e energia.


Já a mecânica quântica revelou que tudo ao nosso redor é formado por pequenos pacotinhos — como os fótons que formam a luz. O problema é que as duas teorias não se falam: uma descreve o espaço como contínuo e suave; a outra sugere que tudo o mais é granular e discreto. Conciliá-las é uma das maiores questões em aberto da física. 


Observação: A relatividade geral e a mecânica quântica se expressam em idiomas diferentes, mas ambas parecem dizer a verdade. Uma metáfora usada por Rovelli compara a natureza a um velho rabino que, consultado por dois homens para resolver uma disputa, deu razão a ambos, e quando sua mulher ponderou que eles não poderiam ter razão ao mesmo tempo, disse que ela também estava certa.


A gravidade quântica em loop visa compatibilizar a relatividade geral e a mecânica quântica. Nesse contexto, a hipótese de o espaço ser um recipiente amorfo desaparece da física com a gravidade quântica, e as coisas (quanta) não habitam o espaço, mas os arredores umas das outras. Se o espaço não for um tecido contínuo que tem como limite o limite dos pacotinhos que o formam, então o tempo não é uma linha reta pela qual as coisas fluem, nem tampouco uma sucessão de acontecimentos formados por passado, presente e futuro.


Devido às dilatações do tempo e da gravidade, o relógio anda mais devagar para quem se move em altas velocidades ou habita regiões onde a atração gravitacional é mais intensa. Um minuto numa espaçonave viajando a uma velocidade próxima à da luz equivale a milhares de anos terrestres, e um minuto no topo do Monte Everest corresponde a 60,000000000058 segundos no nível do mar — uma diferença de míseros 58 nanossegundos, mas mensurável com relógios atômicos de alta precisão.


Observação: Um relógio sobre um móvel registra que o tempo passa mais depressa quando comparado com outro que está no chão. Pelo mesmo motivo, o tempo passa mais depressa no cume do Everest do que na praia. Quanto mais próximo do centro da Terra, mais intensa é a gravidade e, consequentemente, mais devagar o tempo passa, como foi comprovado experimentalmente por relógios atômicos altamente sofisticados.


Para entender a teoria da gravidade quântica é preciso abandonar a ideia de que um gigantesco relógio cósmico marca o tempo do Universo. Um ano é apenas o tempo que a Terra leva para dar uma volta completa em torno do Sol, mas nosso conceito de “ano” só faz sentido em nosso planeta — para um hipotético habitante de Saturno, um ano corresponderia a 29,5 anos terrestres.


Nosso conceito de tempo pouco tem a ver com as leis do Universo como um todo. Em última análise, as coisas mudam apenas umas em relação às outras; no nível fundamental, o tempo não existe. Na filosofia, Santo Agostinho sintetizou sua angústia na frase: “Se ninguém me pergunta, eu sei o que é; mas se me perguntam, já não sei responder”. Para ele, presente e futuro só existiam dentro da consciência, como memória, atenção e expectativa. Séculos depois, Henri Bergson distinguiu entre o tempo mensurável da ciência e a duração subjetiva da vida, fluida e elástica. Mas é na ciência moderna que o tempo se torna questão de medição e de leis. 


Newton falava de um “tempo absoluto”, invisível mas necessário para ordenar os movimentos do mundo. Essa noção foi revolucionada por Einstein, que demonstrou com suas equações relativísticas que não somos viajantes imóveis em um rio inexorável, e sim habitantes de um tecido cósmico onde espaço e tempo formam uma única realidade. A partir daí, tornou-se possível compreender que o tempo não é igual para todos.


Nossos antepassados começaram a medir o tempo quando notaram que as fases da Lua e a mudança das estações influenciavam o comportamento dos animais — uma questão vital para quem vivia da caça e da pesca. Na cosmologia, o tempo como o conhecemos nasceu com o Big Bang, e especular sobre o que existia antes dele faz tanto sentido quanto perguntar o que existe ao norte do Polo Norte. 

 

De acordo com a causalidade (não confundir com casualidade), o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o que acontece hoje influencia o que acontecerá amanhã. Como esse princípio dá ao Universo uma direção única, a possibilidade de voltar no tempo põe a ciência em xeque. Mas algumas interpretações da física — como a da gravidade quântica — atestam que o tempo se resume a uma dimensão secundária que surge da interação entre eventos e partículas, sem existir como entidade independente.


Por outro lado, se causa e efeito estão relacionados pela ordem dos eventos, e não pela passagem do tempo em si, então o tempo é ilusório e a causalidade pode se manter através dessas relações ordenadas. Mas isso é assunto para o próximo capítulo.