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sábado, 31 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 70ª PARTE

TIME AND TIDE WAIT FOR NO MEN.

Desde as mais priscas eras, o tempo se apresenta ora como um deus implacável, ora como um fluxo sereno, ora como uma ilusão. Na mitologia grega, Cronos usa sua foice para castrar seu pai, Urano, que aprisionava os filhos por receio de ser destronado, e passa a devorar os seus


Trata-se de uma metáfora cruel, em que o tempo surge como uma força que tudo consome, destruindo sem concessões pai e filho, criação e criador. Não por acaso, a iconografia ocidental transformou a foice de Cronos na imagem tradicional da morte ceifadora.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Pelo andar das carruagens, Flávio Bolsonaro terá que brigar com um candidato do seu próprio campo ideológico por uma vaga no segundo turno para se consolidar como um anti-Lula oficial. No melhor estilo Marcola, Fernandinho Beira-Mar e Cia. Ltda.,, Bolsonaro produziu de dentro da cadeia uma briga autofágica da direita por território e vem tratando facções do Centrão como drones operados por controle remoto desde a Papudinha.

Noutros tempos, o fardo do divisionismo era carregado pela esquerda. A falta de opção faz de Lula um fator de união desse segmento. Na outra ponta, Bolsonaro impõe seu estilo canibal ao conservadorismo brasileiro.

A primeira novidade da sucessão de 2026 surgiu em dezembro de 2025, quando Zero Um disse ter sido escolhido pelo pai como candidato do PL ao Planalto. Decorridos quase dois meses, Tarcísio de Freitas foi à Papudinha para ouvir dos lábios do criador que seu sonho presidencial foi pelos ares.

A segunda novidade surgiu dias atrás, com o desembarque de Ronaldo Caiado no PSD. Sua chegada afunilou a articulação do partido de Kassab para oferecer uma opção ao eleitorado conservador. Vai à urna Ratinho Júnior, Caiado ou Eduardo Leite — o que estiver mais musculoso nas pesquisas até abril —, e o pior é que o eleitorado medíocre, desinformado e mal-ajambrado baterá os cascos em apoio a esse tipo de gente.

 

Enquanto poemas, músicas como Dust in the Wind e pinturas traduzem a inevitável transitoriedade da vida, Proust devolve ao presente aquilo que o passado parecia ter devorado, como na célebre cena da Madeleine, e o cinema faz do tempo um personagem central, tanto nas narrativas fragmentadas de Amnésia quanto nos paradoxos temporais de Interestelar, que transforma em drama humano a dilatação di tempo prevista por Einstein.

 

Na filosofia, Santo Agostinho sintetiza sua angústia na frase: “Se ninguém me pergunta, eu sei o que é; mas se me perguntam, já não sei responder” — para ele, presente e futuro só existem dentro da consciência, como memória, atenção e expectativa. Séculos depois, Henri Bergson distingue entre o tempo mensurável da ciência e a duração subjetiva da vida, fluida e elástica, enquanto Martin Heidegger faz do tempo a condição fundamental da existência.

 

Mas é na ciência moderna que o tempo se torna questão de medição e de leis. Newton falava de um “tempo absoluto”, invisível mas necessário para ordenar os movimentos do mundo. Essa noção foi revolucionada por Einstein, que demonstrou com suas equações relativísticas que não somos viajantes imóveis em um rio inexorável, e sim habitantes de um tecido cósmico onde espaço e tempo formam uma única realidade. A partir daí, tornou-se possível compreender que o tempo não é igual para todos.

 

Devido às dilatações do tempo e da gravidade, o relógio anda mais devagar para quem se move em altas velocidades ou habita regiões onde a atração gravitacional é mais intensa. Um minuto numa espaçonave viajando a uma velocidade próxima à da luz equivale a milhares de anos terrestres, e um minuto no topo do Monte Everest corresponde a 60,000000000058 segundos no nível do mar — uma diferença de míseros 58 nanossegundos, mas mensurável com relógios atômicos de alta precisão.

 

Na cosmologia, o tempo como o conhecemos nasceu com o Big Bang — especular sobre o que havia antes dele faz tanto sentido quanto perguntar o que existe ao norte do Polo Norte. Alguns físicos sugerem que o tempo pode não ser uma dimensão primordial, e sim uma propriedade emergente das relações entre partículas e energias, ao passo que outros chegam a questionar se ele existe de fato ou é apenas uma ilusão fabricada por nossa mente para ordenar as mudanças que percebemos.

 

Nossos antepassados começaram a medir o tempo quando notaram que as fases da Lua e a mudança das estações influenciavam o comportamento dos animais — uma questão vital para quem vivia da caça e da pesca. Em meados do terceiro milênio a.C., os sumérios criaram o primeiro calendário lunar, e os egípcios, um modelo solar com 365 dias divididos em 12 meses de 30 dias, mais 5 dias ao final do ano para completar o ciclo. O calendário juliano foi criado em 46 a.C., e o gregoriano — utilizado atualmente em 168 países — em 1582 d.C. 

 

De acordo com a causalidade (não confundir com casualidade), o que aconteceu ontem impõe restrições ao que acontece hoje, e o que acontece hoje influencia o que acontecerá amanhã. Como esse princípio dá ao Universo uma direção única, a possibilidade de voltar no tempo põe a ciência em xeque. Mas em algumas interpretações da física — como a da gravidade quântica — o tempo se resume a uma dimensão secundária que surge da interação entre eventos e partículas, sem existir como entidade independente. No entanto, se causa e efeito estão relacionados pela ordem dos eventos, e não pela passagem do tempo em si, então o tempo é ilusório e a causalidade pode se manter através dessas relações ordenadas.


Continua...

sábado, 3 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 64ª PARTE

QUANTO MAIS LONGA A EXPLICAÇÃO, MAIOR A MENTIRA.

No ano 800 d.C., Tikal pulsava sob o sol, em meio à selva guatemalteca. Cem mil almas caminhavam entre pirâmides, templos e mercados. Nenhum sinal de chips, circuitos ou propulsores interplanetários — apenas pedra, suor e engenho humano. 


Se os deuses vieram das estrelas, por que demoraram tanto a ensinar o básico? Ou será que o verdadeiro milagre é o tempo e o que fazemos com ele? 

 

A tese de que os deuses mitológicos eram seres extraterrestres que transmitiram técnicas e conhecimentos avançados aos humanos primitivos não deixa de ser sedutora — como dizem os espanhóis, yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O conservadorismo nacional esperava chegar a janeiro de 2026 em triunfo. Se tudo corresse como planejado, os aliados adulariam Bolsonaro com o projeto de redução da sua pena, Tarcísio de Freitas compraria o apoio do aliado preso com a apólice do indulto e o centrão se unificaria em torno de um anti-Lula competitivo, cultivando o sonho de conquistar o Planalto e virar um centrãozão. Mas faltou combinar com os russos.

Aprovada na Câmara e no Senado, a proposta da dosimetria subiu para a mesa de Lula como matéria-prima para um veto esperando na fila para acontecer na simbólica data de 8 de janeiro. Com pavor de se tornar irrelevante, o ex-mito preferiu trocar a promessa de um indulto a prazo por uma cobrança à vista do apoio dos aliados à candidatura presidencial do primogênito Flávio.

A manobra aprisionou o centrão num cercadinho familiar, o sonho presidencial de Tarcísio apodreceu antes de amadurecer, e a direita chega ao Ano Novo zonza.

A nada negligenciável hipótese de uma pulverização das forças conservadoras favoreceria o projeto de reeleição de Lula, a despeito de a popularidade do presidente continuar no vermelho em todas as pesquisas de opinião.

 

Ao estabelecer os fundamentos da lógica e do pensamento científico, Aristóteles postulou que, diante de múltiplas hipóteses para um mesmo conjunto de evidências, a mais simples tende a ser a correta. Mas, como bem se diz, os sábios falam porque têm algo a dizer; os tolos, porque precisam dizer algo — e adoram o som da própria voz.

 

A Teoria da Relatividade Especial, publicada por Albert Einstein em 1905, introduziu o conceito de espaço-tempo. Dez anos depois, a Relatividade Geral expandiu esse conceito ao demonstrar que a gravidade não é uma força propriamente dita, mas a curvatura do espaço-tempo provocada pela presença de massa e energia. Segundo Einstein, viajar para o futuro é teoricamente possível, mas retornar ao passado envolve desafios complexos, como o célebre “paradoxo do avô”.

 

De acordo com o fenômeno da dilatação temporal, quanto mais rápido alguém se move, mais lentamente o tempo passa para ele em relação a um observador em repouso. O famoso “paradoxo dos gêmeos” ilustra isso com clareza: um astronauta que viajasse por um ano a uma velocidade próxima à da luz e retornasse à Terra teria envelhecido apenas alguns segundos, enquanto seus contemporâneos teriam comemorado dezenas de aniversários.

 

Na prática, os relógios internos dos satélites artificiais confirmam essa teoria, pois avançam 0,00447 segundo por dia em razão da velocidade com que orbitam a Terra e da menor gravidade a 20 mil km de altitude. Sem as devidas correções, os sistemas de GPS apresentariam erros de até 10 km por dia.

 

A curvatura extrema do espaço-tempo causada por objetos supermassivos pode dar origem aos buracos de minhoca — hipotéticos atalhos entre regiões distantes do Universo, ou mesmo entre diferentes momentos da linha temporal. Em tese, dobrar o espaço-tempo como se fosse uma folha de papel permitiria deslocamentos instantâneos entre dois pontos, seja no espaço, seja no tempo.

 

No entanto, criar e estabilizar um buraco de minhoca exigiria a manipulação de energia negativa ou exótica em escala cósmica — algo ainda não observado na prática. Especula-se que, se uma extremidade do buraco permanecesse na Terra e a outra fosse levada por uma nave em velocidade relativística, quem o atravessasse poderia emergir em um momento anterior ao início da viagem. Isso resolveria o paradoxo do avô: se o buraco só permitisse viagens a momentos posteriores à sua criação, não haveria como alterar os eventos que levaram à sua existência.

 

Segundo os princípios da mecânica quântica, o espaço-tempo está sujeito a variações de energia — inclusive negativa — que poderiam, em teoria, deformá-lo a ponto de permitir viagens temporais. Contudo, as flutuações quânticas são extremamente raras e efêmeras, o que torna sua exploração um desafio tecnológico colossal.

 

A viagem no tempo é o fruto mais cobiçado da árvore da Relatividade. Quando — e se — ele for colhido, surgirão dilemas filosóficos profundos sobre livre-arbítrio, determinismo e a própria natureza do tempo. Se for possível alterar o passado, como isso afetaria o presente e o futuro? E mais: a criação de tecnologias capazes de manipular o espaço-tempo teria implicações monumentais, não apenas para a exploração do cosmos, mas para a própria estrutura da realidade como a conhecemos.

 

As viagens no tempo alimentam a imaginação humana e a criatividade literária desde a publicação de A Máquina do Tempo (1895), mas sua realização prática continua sendo um desafio. A ciência oferece pistas teóricas e possibilidades fascinantes, mas alcançar esse sonho requer avanços profundos na física fundamental — e na engenharia capaz de dobrar o tecido do Universo.

 

Se um dia dominarmos o tempo, não será para corrigir erros do passado, mas para entender por que os cometemos. A viagem temporal não será um bilhete dourado para mudar destinos, mas um espelho cruel — revelando que, mesmo com todo o conhecimento do Universo, ainda somos reféns das escolhas que fazemos agora.

 

Continua... 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 60ª PARTE

NÃO DÁ QUEM TEM, DÁ QUEM QUER BEM.

À luz da Teoria Geral da Relatividade, a possibilidade de viajar no tempo existe. Para avançar anos, décadas, séculos ou milênios rumo ao futuro, basta viajar a 99,999999999% da velocidade da luz e fruir da dilatação do tempo. Retornar ao passado, no entanto, é um pouco mais complicado.

Como já comentei em outros capítulos, o problema não se limita aos limites da nossa limitada tecnologia atual (se me concedem a redundância). Como se não bastasse o fato de a maior velocidade já alcançada por uma sonda espacial ter sido de 700.000 km/h — míseros 0,064% da velocidade da luz —, voltar ao passado geraria incongruências temporais — como o célebre paradoxo do avô. 

 

Os paradoxos parecem intransponíveis à primeira vista, mas a física quântica oferece algumas saídas elegantes — ainda que mirabolantes. A interpretação de muitos mundos, proposta por Hugh Everett III em 1957, sugere que cada evento quântico cria infinitas ramificações da realidade, cada uma explorando uma possibilidade diferente. Aplicada à viagem no tempo, essa teoria oferece uma solução surpreendentemente simples para o paradoxo retrocitado: se alguém voltasse ao passado e impedisse que seus avós se conhecessem, esse alguém não estaria alterando seu próprio passado, mas criando uma linha temporal alternativa que se desenvolveria sem sua existência.

 

A teoria do multiverso, por sua vez, expande ainda mais essas possibilidades. Se existe um número infinito de universos paralelos, cada qual com suas próprias leis físicas, constantes e histórias, a viagem no tempo poderia ser uma forma de navegação interdimensional. Ao "voltar" a 1955, por exemplo, o viajante do tempo não estaria retornando ao seu 1955, mas saltando para um universo paralelo onde o ano é 1955. Assim, as mudanças que ele promovesse nessa realidade não afetariam sua linha temporal original, eliminando qualquer paradoxo. Seria como editar um livro diferente numa biblioteca infinita.

 

A interpretação transacional da mecânica quântica, desenvolvida por John Cramer, oferece outra perspectiva fascinante. Segundo essa visão, as partículas se comunicam tanto para frente quanto para trás no tempo, criando uma espécie de "negociação" temporal que determina os eventos observados. Aplicando essa ideia à viagem no tempo, tentativas de alterar o passado seriam automaticamente compensadas por ajustes quânticos microscópicos, mantendo a consistência causal — como se o próprio universo "negociasse" internamente para evitar paradoxos. O famoso princípio de autoconsistência de Novikov funcionaria não como uma lei rígida, mas como um processo dinâmico de equilíbrio temporal.

 

Mas talvez a implicação mais fascinante dessas teorias seja a possibilidade de já estarmos fazendo turismo interdimensional sem saber. Cada decisão que tomamos poderia nos deslocar sutilmente entre realidades paralelas quase idênticas. A diferença é que, em vez de grandes saltos temporais dramáticos, estaríamos constantemente deslizando entre variações infinitesimais do presente. Nessa perspectiva, a viagem no tempo tradicional seria apenas um salto consciente e direcionado entre as infinitas possibilidades do multiverso.

 

Por outro lado, se cada ação cria infinitas realidades, pode existir uma versão de nós que salvou o mundo e outra que o destruiu. Mas o que isso significa para o livre-arbítrio e a responsabilidade pessoal? E mais: ainda que essas teorias estejam corretas e consigamos desenvolver a tecnologia necessária para navegar conscientemente entre realidades, como distinguiríamos entre um "verdadeiro" retorno ao passado e um salto para um universo paralelo historicamente anterior?

 

Por enquanto, responder a essas perguntas cabe aos físicos teóricos e aos escritores de ficção científica. Mas é precisamente na fronteira entre o possível e o imaginário que as ideias mais revolucionárias costumam nascer. Quem sabe as viagens no tempo — ou, ao menos, as viagens entre realidades — não sejam apenas uma questão de descobrir a tecnologia certa para surfar nas ondas do multiverso?

 

Até lá, continuamos presos em nossa única linha temporal, observando o tempo fluir inexoravelmente numa única direção. Mas talvez isso não seja uma limitação — talvez seja exatamente onde precisamos estar para apreciar a extraordinária complexidade e beleza do cosmos em que vivemos.

 

Continua...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 59ª PARTE

O CORAÇÃO TEM RAZÕES QUE A PRÓPRIA RAZÃO DESCONHECE. 

 

Até as equações relativísticas de Einstein demonstrarem que o espaço e o tempo formam uma estrutura inseparável (espaço-tempo) e que o tempo pode se dilatar e se contrair ao sabor da velocidade e da gravidade, achava-se que o fluxo temporal ocorria como um rio corre da nascente para a foz, não obstante a localização e a velocidade do presso. 


CONTO DEPOIS DA POLÍTICA


O primogênito de Bolsonaro abriu a porta do hospício. Sabendo-se inviável, Flávio se autoproclamou presidenciável predileto do pai na sexta-feira. No sábado, já tinha virado uma piada. No domingo tornou-se uma chantagem: "Eu tenho um preço."

No mercado da política, quem não tem valores sempre tem um preço. A questão é sabe se tem quem compre. O Datafolha sinaliza que a maioria do eleitorado acha que a anistia cobrada por Flávio Bolsonaro para desistir de sua pseudocandidatura presidencial é uma mercadoria cara demais.

Para 54% dos eleitores, a prisão de Bolsonaro é justa. Pode-se intuir que a maioria do eleitorado considera injusta uma anistia que abra a cela do chefe da organização criminosa do golpe. Metade dos brasileiros diz que jamais votaria em alguém indicado pelo condenado. E apenas 8% acham que Flávio é o melhor nome para ser apoiado pelo pai.

Ou seja: Bolsonaro deve continuar preso. Mas seu primogênito abriu a porta do hospício. Sabendo-se inviável, Flávio se autoproclamou presidenciável predileto do pai na sexta-feira. No sábado, já tinha virado uma piada. No domingo tornou-se uma chantagem: "Eu tenho um preço."

No mercado da política, quem não tem valores sempre tem um preço. A questão é sabe se tem quem compre. O Datafolha sinaliza que a maioria do eleitorado acha que a anistia cobrada por Flávio Bolsonaro para desistir de sua pseudocandidatura presidencial é uma mercadoria cara dera 54% dos eleitores, a prisão de Bolsonaro é justata.

 

Devido à dilatação do tempo — ilustrada magistralmente pelo Paradoxo dos Gêmeos e comprovada experimentalmente pelos relógios atômicos dos satélites — o tempo passa mais devagar conforme a velocidade do observador aumenta, mas esse efeito só é significativo em velocidades próximas à da luz. Se ele parece passar mais rápido quando estamos ocupados, é porque nossa percepção da realidade é influenciada pelo que estamos fazendo e por nossa concentração na tarefa. Se estivermos prestes a borrar as calças e ouvirmos de quem está no banheiro o inevitável "só um minutinho!", esse minuto nos parecerá uma eternidade. 

 

A ideia de que a seta do tempo é unidirecional surgiu no século XIX, com base nas leis da termodinâmica e no princípio da entropia. Em 1927, o astrofísico Arthur Eddington observou que a maioria dos processos físicos no nível macroscópico parecem ter uma direção preferencial, e concluiu que a seta do tempo aponta sempre para o futuro. À luz desse pressuposto, os eventos ocorrem de forma irreversível, mas o que define a passagem do tempo no Universo não é o aumento da entropia, e sim a expansão do tecido do cosmos em todas as direções.

 

A Teoria da Relatividade dá azo à possibilidade de deformar o espaço-tempo e viajar ao passado, mas Stephen Hawking pondera que essa deformação poderia causar um raio de radiação capaz de destruir a espaçonave e o próprio espaço-tempo. No livro Uma Breve História do Tempo (1988), ele anotou que a seta do tempo pode ser entendida de diferentes maneiras em diferentes áreas, e que as leis da física não proíbem sua inversão em determinados contextos — no nível quântico, alguns fenômenos subatômicos exibem simetria temporal, sugerindo que os processos podem ocorrer em ambas as direções temporais. Ademais — e isso sou eu quem está dizendo —, o tempo negativo já deixou de ser um conceito eminentemente teórico (clique aqui para mais detalhes).

 

Em 2009, Hawking deu uma festa na Universidade de Cambridge, pendurou um grande banner com os dizeres "bem-vindos, viajantes no tempo", enviou os convites no dia seguinte e ficou esperando os viajantes do futuro. No capítulo Viagem no tempo da série Into the Universe with Stephen Hawking, ele comentou: "Que lástima! Eu gosto de experiências simples e... champanhe. Então, combinei duas das minhas coisas favoritas para ver se a viagem do futuro para o passado é possível, mas ninguém apareceu". 

 

A possibilidade de viajantes do tempo terem estado entre nós levou dois físicos americanos a vasculhar a Web em busca de conteúdos que só poderiam ter sido publicados por quem tivesse conhecimento prévio de eventos ainda não ocorridos. Segundo os pesquisadores, referencias inequívocas não foram encontradas devido à amplitude limitada da busca, à impossibilidade de os viajantes deixarem rastros duradouros — inclusive digitais — ou de leis da física ainda desconhecidas impedirem qualquer forma de comunicação entre diferentes linhas temporais.

 

No romance Contato, o astrofísico e cosmólogo Carl Sagan ensinou que "ausência de evidência não é evidência de ausência" — referindo-se à possibilidade de existir vida alienígena. "Se formos só nós, um universo que se estende por todos os lados por 46,5 bilhões de anos-luz (cerca de 440 sextilhões de quilômetros) é um imenso desperdício de espaço", ponderou o astrofísico. A propósito, o filme baseado no livro também é excelente.

 

Lá pela virada do século, alguém com o nickname "TimeTravel_0" escreveu em um chat IRC (sistema de bate-papo baseado em texto) que viera de 2036 a 1975 para conseguir um IBM 5100 — necessário, segundo ele, para depurar programas antigos e evitar o Efeito 2038, que causa falhas em sistemas que usam contagem de tempo em segundos a partir de 1970. Em outras postagens, ele detalhou seus deslocamentos temporais, postou desenhos esquemáticos do projeto e uma foto de sua "unidade de deslocamento no tempo de massa estacionária alimentada por duas singularidades positivas girando no topo", além de revelar que o CERN descobriria como viajar no tempo em 2001, e que máquinas do tempo criadas para transportar pequenos objetos seriam adaptadas para coisas grandes e seres humanos. 

 

A guerra civil que profetizou para 2004 não aconteceu, a exemplo da Terceira Guerra Mundial — que teria início em 2015 e dividiria EUA em cinco países —, mas a "doença da vaca louca" aporrinhou pecuaristas nos anos seguintes, e a China realmente mandou um homem ao espaço em 2003. Ele desapareceu dos fóruns em março de 2001, deixando uma frase misteriosa ("traga uma lata de gasolina com você quando seu carro morrer na estrada"). O IBM 5100 foi lançado em 1975 e retirado do mercado em 1982, mas causa espécie o desaparecimento misterioso de uma unidade rara, dotada de uma interface que permitia acessar todos os códigos da empresa, que foi reconhecido pela própria Big Blue.

 

Em 2009, o jornal britânico Daily Telegraph publicou que o tal viajante do tempo era uma ficção criada pelos irmãos Larry e John Haber. Um detetive norte-americano encontrou um registro de marca com o nome de "John Titor Foundation", onde Larry era registrado como presidente, mas cuja sede não passava de uma caixa postal no estado da Flórida. Para os teóricos da conspiração, as previsões não falharam, apenas deram a abertura temporal para que o viajante conseguisse corrigi-las antes que ocorressem. 

 

O próprio Titor avisou que alguns eventos poderiam não acontecer, já que o "modelo Everett-Wheeler da física quântica" estava certo: sua viagem ao passado criaria duas linhas do tempo — a original (vivida por ele) e outra, paralela, surgida após sua viagem ao passado (lembrando que, segundo a Interpretação de Muitos Mundos, cada vez que ocorre um evento quântico que pode ter múltiplos resultados, o universo se divide em tantos universos quantos forem os resultados possíveis. 

Observação: Talvez tudo isso não passe de uma fraude, mas, se for, quem a criou sabia muito bem do que estava falando. Além disso, ninguém jamais reivindicou a autoria da brincadeira, e muitas questões levantadas pelo suposto viajante permanecem sem resposta. A quem interessar possa, nos sites John Titor TimesJohn Titor’s Story e Anomalies é possível ler todas as postagens na íntegra. 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 55ª PARTE

entender como e por que o universo é como é nos ajuda a compreender por que estamos aqui.

 

Repetições são cansativas, mas necessárias em situações específicas. No caso do blog, a audiência rotativa exige contextualizações. Vamos a elas: 

 

Viajar no tempo pode parecer uma ideia tão maluca quanto as do Concorde nos tempos do 14-Bis e de uma viagem tripulada à Lua na Era das Grandes Navegações. Como não há nada como o tempo para passar, o supersônico que cruzava o Atlântico em cerca de três horas virou peça de museu, e a NASA não só enviou seis missões tripuladas bem-sucedidas à Lua, como também lançou duas sondas que já deixaram o Sistema Solar rumo ao espaço interestelar. 


Viajar no tempo como nos filmes de ficção científica é o fruto mais cobiçado — e ainda não alcançado — da "árvore da relatividade", mas a história está repleta de exemplos de teorias e tecnologias mirabolantes que se tornaram realidade. A maioria de nós dificilmente testemunhará o assentamento da primeira colônia em Marte, mas passar férias no planeta vermelho pode vir a ser tão normal para os netos de nossos netos como veranear na praia ou na montanha é para nós. No entanto, é improvável que eles voltem no tempo até o "nosso presente" para relatar suas estrepolias interplanetárias.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A Famiglia Bolsonaro é especialista em criar crises, mas tenta resolvê-las criando outras ainda maiores, como se toda confusão não tivesse um custo e qualquer tentativa de pechinchar não aumentasse o prejuízo. Foi o que aconteceu na madrugada deste sábado, quando o ministro Alexandre de Moraes foi comunicado sobre a violação da tornozeleira eletrônica e ordenou a prisão preventiva do chefe do clã em uma sala da PF em Brasília. 

Xandão enxergou o óbvio propósito de fuga potencializado pela “vigília” pela saúde de Jair Bolsonaro, convocada via Xwitter pelo filho Flávio. Em seu despacho, o magistrado realçou que o tumulto nos arredores da residência do réu — que fica a 15 minutos de carro da embaixada dos EUA — poderia facilitar sua fuga. Lideranças e governadores bolsonaristas correram às redes sociais para acusar o ministro de impor suplícios a um mito dodói. A defesa declarou ter recebido a ordem de prisão com "profunda perplexidade", já que a detenção “coloca em risco a vida de seu cliente”. 

O lero-lero derreteu nas imagens de um vídeo produzido pela equipe de inspeção da Secretaria de Administração Penitenciária do DF, no qual se vê a tornozeleira com sinais de grave avaria e se ouve Bolsonaro dizer à diretora-adjunta do órgão que “por curiosidade, meteu um ferro de solda no dispositivo”. 

Moraes escreveu: “não bastassem os gravíssimos indícios da eventual tentativa de fuga de Bolsonaro, o corréu Alexandre Ramagem, a aliada política Carla Zambelli e o filho Eduardo se valeram da estratégia de evasão do território nacional para evitar a aplicação da lei penal”.

O ministro deu 24 horas para a defesa explicar o atentado contra a tornozeleira, enquanto os filhos, insatisfeitos em aprofundar o buraco em que o pai se meteu, resolveram jogar terra em cima do sacripanta moribundo.

 

As viagens no tempo são plausíveis e matematicamente possíveis, mas os benefícios da dilatação do tempo — magistralmente ilustrados pelo paradoxo dos gêmeos — só são significativos em velocidades próximas à da luz. A velocidade que a Parker Solar Probe atingiu em dezembro de 2024 (692 mil km/h) corresponde a 0,064% da velocidade da luz. Isso deixa claro que a tecnologia de que dispomos atualmente não permite sequer cogitar o envio de uma missão exploratória tripulada aos confins do Sistema Solar.


Em tese, a distância entre dois pontos no Universo pode ser significativamente reduzida por buracos de minhoca (ou pontes Einstein-Rosen). Para muitos astrofísicos conceituados, provar a existência desses atalhos é apenas uma questão de tempo, mas daí a visitarmos mundos longínquos — neste ou em outro universo, no presente ou em outro ponto da linha do tempo — vai uma longa distância. Tão longa quanto os 14,76 quatrilhões de quilômetros que nos separam do buraco negro GaiaBH1, que fica a 1.560 anos-luz do nosso Sistema Solar. 

 

Ainda que os buracos de minhoca realmente existam e que haja um exemplar nas profundezas de Gaia BH1, ir até ele levaria 1.560 anos à velocidade da luz ou 2,5 milhões de anos na velocidade que a sonda mais veloz fabricada até agora alcançou no final do ano passado. Como os efeitos da dilatação do tempo só são significativos em velocidades próximas à da luz, nem Matusalém — que, segundo a Bíblia, viveu improváveis 969 anos — sobreviveria a uma viagem tão longa.

 

Não se descarta a possibilidade de um buraco de minhoca ser detectado a qualquer momento em alguma esquina do Universo, mas essa esquina pode estar tão longe que seria impossível ir até lá conferir e passar recibo. Pelo menos por enquanto: um engenheiro da NASA vem desenvolvendo um motor que usa íons e eletroímãs para acelerar partículas em loop helicoidal e gerar empuxo suficiente para impulsionar uma nave espacial a 99% da velocidade da luz. A ideia viola o princípio da conservação do momento linear, mas, se vingar, pode mudar o futuro das viagens espaciais.

 

Outra possibilidade promissora é dobrar o espaço-tempo ao redor da nave criando uma "bolha" que se move mais rápido que a luz sem violar a relatividade (porque não é a nave que se move dentro da bolha, e sim o espaço ao redor dela). Essa ideia encontra respaldo na física teórica, mas colocá-la em prática exigiria energia negativa e/ou matéria exótica, cuja existência carece de confirmação experimental direta). 

 

Também se cogita construir uma Esfera de Dyson, usar feixes de laser para impulsionar velas ultraleves a 20% da velocidade da luz (não parece grande coisa, mas daria para ir até Alpha Centauri em cerca de 22 anos), ou reatores como o ITER e o SPARC, que replicam o funcionamento das estrelas para gerar energia limpa e praticamente ilimitada — um passo crucial para viabilizar as ambições interestelares da humanidade.

 

Por ora, o sonho de entrar num buraco de minhoca e sair na Roma Antiga ou numa Terra apinhada de robôs conscientes permanece no território da ficção científica, mas existem outros caminhos que não a luz e a gravidade para contornar a tirania do tempo. A maioria das propostas nesse sentido é meramente especulativa (como foi um dia o helicóptero projetado pelo polímata Leonardo da Vinci), mas a história nos ensinou que tanto a arte imita a vida quanto a vida imita a arte, e que ficção de hoje pode ser a ciência de amanhã.

 

Os chamados cristais do tempo — estruturas exóticas que mudam de estado de forma periódica sem gastar energia, desafiando a Termodinâmica — podem não ser a chave para viagens temporais propriamente ditas, mas abrem precedentes curiosos sobre como o tempo pode ser manipulado em escalas microscópicas. Em teoria, eles seriam como relógios que funcionam ao contrário, isto é, no sentido inverso ao da seta do tempo.

 

Interpretação de Muitos Mundos — ramificação da mecânica quântica segundo a qual o Universo se divide a cada escolha ou evento — sustenta a existência de incontáveis realidades paralelas, cada qual representando uma versão diferente da História. Se essa teoria estiver correta, navegar entre esses mundos permitiria visitar uma realidade onde os dinossauros vão muito bem, obrigados, ou em que Klara Hitler abortou o feto que, na nossa realidade, nasceu, cresceu e protagonizou o Holocausto, entre outros requintes de crueldade. 

 

Mais pé-no-chão (mas ainda ambicioso) é o conceito de recriar o passado por meio da simulação computacional ultra-avançada. Com o fabuloso poder de processamento que os computadores quânticos devem atingir no médio prazo, seria possível reconstruir o estado do Universo com tamanha precisão que permitiria "reviver" o passado virtualmente, como num filme interativo da História. Não seria propriamente uma viagem física no tempo, mas seria o mais próximo disso que poderemos ter até que nossa tecnologia ombreie com a dos alienígenas que supostamente visitam nosso planeta há milhares de anos.

 

Cogita-se ainda a possibilidade de manipular o próprio tecido causal do universo. Na Teoria dos Conjuntos Causais, o espaço-tempo não seria contínuo, mas composto por blocos fundamentais — algo como os pixels de uma imagem digital. Se um dia conseguirmos manipular essa rede microscópica de eventos, talvez possamos saltar de um ponto a outro na linha do tempo como quem avança ou retrocede uma faixa de áudio digital. 


Claro que nenhuma dessas ideias inclui a tão sonhada fórmula mágica que permitiria saborear um filé de brontossauro em Bedrock, ao lado de Fred Flintstone e Barney Rubble. Mas o que realmente importa é que seguimos desafiando o tempo com aquilo que nos torna humanos: a curiosidade, a imaginação — e a teimosia científica de nunca aceitar o impossível como definitivo.

 

Continua...