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sexta-feira, 22 de abril de 2022

A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS...


A vida é feita de escolhas, escolhas têm consequências e o problema com as consequências é que elas sempre vêm depois. Numa encruzilhada da vida, se escolhermos virar à direita, abdicamos de seguir em frente ou a esquerda, por exemplo. Quando o resultado não é o esperado, somos assombrados pelo bendito “se”. 


O presente nada mais é senão a consequência da somatória das escolhas que fizemos no passado, mas o futuro do pretérito, também chamado pelos gramáticos de condicional, referencia um presente que poderia ter existido se nossas escolhas fossem outras. 


Em 2018, fomos meio que obrigados a apoiar o bolsonarismo boçal para evitar a volta do lulopetismo corrupto, e a consequência foi o calvário que já dura três anos e quatro meses e, pior, pode ser prorrogado por mais quatro anos — ou sabe-se lá por quanto tempo mais; em se tratando de Bolsonaro, a única perspectiva impossível é a de uma gestão competente de pautada pela probidade.

 

Foi também em 2018 que Sergio Moro escolheu abandonar a magistratura em troca de um ministério no futuro governo, edulcorado pela promessa de uma cadeira no STF. Como consequência, o ex-juiz foi privado do Coaf e obrigado a reverter nomeações, enquanto seu projeto anticorrupção era desmontado. Por algum tempo, ele fingiu não ver, tentou relativizar, mas não se sujeitou ao papel de consultor jurídico informal do enrolado clã presidencial e acabou tendo de engolir sapos e beber a água da lagoa. 

 

Moro abandou a canoa que deveria saber ser furada para tentar salvar o prestígio que ainda lhe restava. Mas já era tarde demais. Odiado por Lula e seus abjetos sectários, viu-se tachado de traidor pelos igualmente abjetos baba-ovos do “mito” de fancaria. A indicação para o STF jamais aconteceu. Segundo a narrativa palaciana, o então magistrado vinculara seu embarque no governo à suprema toga, quando na verdade foi Bolsonaro que lhe prometera a dita-cuja como forma de tê-lo a bordo e de cativar o eleitorado avesso à roubalheira lulopetista. 


Passados dois anos da demissão de Moro — ele “não saiu atirando”, apenas relatou um fato que, se não era público, tornou-se notório depois que o então decano do STF retirou o sigilo da gravação da reunião ministerial de 22 de abril de 2020, o inquérito instaurado para investigar a interferência criminosa de Bolsonaro na PF deu em nada (a exemplo de tantas outras envolvendo o sultão do Bolsonaristão). 


Nesse entretempo, o presidente que, quando candidato, prometeu pegar em lanças contra a corrupção e a velha política do toma-lá-dá-cá, cometeu toda sorte de barbaridades. Flertou incontáveis vezes com o autogolpe. Chamou o presidente do TSE de filho da puta e um ministro do STF de canalha. Tornou-se alvo de mais de 140 pedidos de impeachment e de uma dezena de inquéritos. Quatro de seus cinco filhos são igualmente investigados. Mais recentemente, vieram a lume evidências gritantes de corrupção no MEC. 


Observação: Ontem, a cereja do bolo: sua alteza irreal anistiou o deputado troglodita baba-ovos Daniel Silveira antes mesmo que a condenação transitasse em julgado. Mais uma vez, o sociopata estica a corda. Se será enforcado com ela ou se a pusilanimidade do STF permitir-lhe-á sair impune, com vem acontecendo desde sempre, só o tempo dirá. O pouco tempo que falta até as cada vez mais próximas eleições. Se alguém acha que esse sujeito vai mesmo largar o osso se assim decidir a ospália votante, esse alguém está redondamente enganado.

 

Políticos pegos com manchas de batom na cueca sempre têm alguma desculpa idiota. Lula se disse traído; Dilma, indignada; Bolsonaro afirma não pode saber de tudo — e para evitar que se venha a saber de (mais) alguma coisa que o desabone, decreta sigilo sobre fatos de interesse público. 


Em julho do ano passado, o Planalto impôs um segredo de 100 anos sobre informações dos crachás de acesso em nome dos filhos 02 e 03. Um cumpre na sede do governo federal (diz-se que no “gabinete do ódio”) seu quinto mandato de vereador, quando deveria dar expediente na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. O outro é deputado federal por São Paulo, mas acompanha o pai em viagens internacionais, frita hambúrguer nas horas vagas e chegou a ser cotado para chefiar a embaixada do Brasil nos EUA.

 

Em janeiro de 2021, o Planalto decretou 100 anos de sigilo cartão de vacinação do mandatário negacionista e antivacina, a pretexto de os dados dizerem respeito "à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem do presidente”. Em junho de 2021, mandou o Exército impor sigilo de 100 anos ao processo interno isentou de punição o então general da ativa Eduardo Pazuello


Dias atrás, o GSI repetiu a dose em relação às visitas dos pastores Arilton Moura e Gilmar Santos ao Planalto, alegando que “a divulgação poderia colocar em risco a vida do presidente da República e de seus familiares”. Pressionado, o gabinete comandado pelo general Augusto Heleno liberou os registros, que apontam mais de 30 acessos. O pastor Arilton visitou gabinetes de Mourão, ministros e do responsável pela agenda de Bolsonaro; o pastor Gilmar esteve pelo menos 10 vezes na sede do governo. Detalhe: ambos voltaram ao Planalto mesmo após pedido de apuração

 

Voltando a Sergio Moro — que deve estar tão arrependido de ter aceitado participar deste espúrio governo quanto Lula de ter feito Dilma sua sucessora —, lulistas, bolsonaristas, magistrados ditos “garantistas” e parte da mídia promoveram a párias o ex-juiz federal e o ex-coordenador do braço paranaense da maior operação anticorrupção da história desta banânia, que colocou na cadeia dezenas de empresário e políticos que se locupletaram nos governos petistas. 


No Brasil, a corrupção é como a Hidra de Lerna — bicharoco mitológico com corpo de dragão, hálito venenoso e nove cabeças de serpente capazes de se regenerar. Tudo ia de vento em popa até que, um belo dia, o semideus togado que manda e desmanda no STF virou a casaca, passando de apoiador a inimigo figadal da Lava-Jato. E o resto é história recente.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS (PARTE 4)

Entre as seis razões que Bolsonaro alegou para indultar Daniel Silveira destaca-se a "comoção social": "Considerando que a sociedade encontra-se em legítima comoção, em vista da condenação de parlamentar resguardado pela inviolabilidade de opinião deferida pela Constituição, que somente fez uso de sua liberdade de expressão (...)"


De acordo com o professor e historiador Marco Antonio Villa, Bolsonaro tem problemas cognitivos; para o jornalista Ricardo Noblat, ele não domina bem o português — a exemplo de quem escreve seus pronunciamentos — e não se sabe exatamente qual o sentido que ele atribui à palavra “comoção”. 


Quando o presidente proferiu esse destino, a grande preocupação dos paulistas e cariocas era o carnaval (o Brasil se tornou um país tão surpreendente que o fato do reinado de Momo coincidir com o feriado de Tiradentes não chega a surpreender). 


O STF ainda não decidiu como se comportar em mais uma batalha que trava contra um mandatário medíocre, carente de votos para se reeleger e aparentemente disposto a tudo. Talvez seja mais prudente deixar as coisas esfriarem. Mas a pergunta que é: Que coisas? A euforia da caterva com a “atitude de macho” que seu "mito" adotou? Ou a alegria dos generais de pijama, que planejam o próximo golpe enquanto jogam dominó?


*** 


Depois que a Executiva Nacional do União Brasil confirmou a indicação de Luciano Bivar como pré-candidato à Presidência, o leque de opções do autoproclamado Centro Democrático cresceu, mas as chances de Sergio Moro de disputar o pleito caíram a subzero. 


Se nada mudar, UniãoBrasil, MDB, PSDB e Cidadania devem lançar um candidato de consenso no dia 18 do mês que vem, e tudo indica que o nome do deputado pernambucano será confirmado. Mas tudo pode mudar, e com a rapidez das nuvens no céu. Pela andar da carruagem, o ex-juiz está candidato a tudo (menos deputado) e pode não concorrer a nada. Bivar tem tantas chances de se eleger quanto eu de ser ungido papa. Pelo visto, o UB vai investir a bufunfa do fundo eleitoral nas candidaturas proporcionais e deixar a presidência para uma próxima vez (quanto maior a bancada na Câmara Federal, maior a parcela dos fundos partidário e eleitoral que as legendas abocanham).


Segundo Josias de Souza, pior que o UB matar a candidatura de Moro ao Planalto é a intenção da Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo de retirar do presidenciável natimorto até o poder de espantar as moscas. Moro e sua mulher, Rosângela, tornaram-se alvos de uma notícia-crime que questiona no Ministério Público Eleitoral a legalidade da transferência dos seus domicílios eleitorais do Paraná para São Paulo



Numa eventual campanha à Presidência, Moro poderia trazer à tona a tragédia econômica da gestão Dilma — que Lula tenta esconder em sua campanha — e explorar a funesta gestão da pandemia por Bolsonaro e seus paus-mandados na Saúde. Seria a oportunidade de mostrar como os petistas, que ora se levantam contra o bolsonarismo, silenciaram diante da barbárie do atual governo, rejeitando o impeachment do capitão por questões nitidamente eleitoreiras, ao custo de milhares de vidas, e de expor os excessos e omissões da ala do Judiciário que acusa a força-tarefa da Lava-Jato de parcialidade. Um debate em rede nacional sobre esse temas e com esses atores seria inédito, histórico. Mas a vida é feita de escolhas...

 

A depender do julgamento da queixa-crime, não restará a Moro sequer a possibilidade de disputar uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo, já que novas eleições para vereador só devem ocorrer em 2024. Mais um pouco e o ex-juiz terá dificuldades para disputar até a posição de síndico no edifício de flats para o qual ele diz que se mudou.

quarta-feira, 19 de abril de 2023

QUE BARBARIDADE!


Ao encerrar sua passagem relâmpago pelo Ministério da Saúde, Nelson Teich salientou que "a vida é feita de escolhas". Muitos anos antes disso, o Conselheiro Acácio já dizia que "as consequências vêm sempre depois".
 
A Lava-Jato teve início em 2008, mas só ganhou notoriedade a partir de 2014. Foi devido a ela que Sergio Moro, responsável pelos processos do braço paranaense da operação, viveu seus dias de glória à frente da 13ª Vara Federal de Curitiba. 

Além de expor as entranhas putrefatas do sistema político, a Lava-Jato propiciou a condenação de corruptores e corruptos de alto coturno e recuperou bilhões de reais desviados durante os governos petistas. Mas não mal que sempre dure nem bem que nunca termine. 
 
Em 2018, para conquistar o apoio da classe média, Bolsonaro convidou Moro para chefiar o "super ministério" da Justiça e Segurança Pública. Edulcorado pela promessa de ser indicado para o STF, o juiz abriu mão de 22 anos na magistratura para embarcar numa canoa que deveria saber furada, e desde então vem trilhando um a um os nove círculos do inferno.
 
Após 1 ano e 4 meses engolindo sapos e bebendo a água suja da lagoa bolsonarista, Moro finalmente desembarcou do governo. E foi acusado de traição. Não muito depois, a vaza-jato transformou o herói da pátria em pária. 
Sem o apoio prometido pelo Podemos, Moro migrou para o União Brasil. Teve as asas podadas por Luciano Bivar, mas conseguiu se eleger senador pelo Paraná

Se Moro tivesse permanecido à frente da 13ª Vara Federal de Curitiba, é bem possível que a prisão em segunda continuasse valendo, que Lula ainda estivesse cumprindo pena e que a vaza-jato tivesse ido para a lata do lixo da História. Mas, de novo, a vida é feita de escolhas e as consequências sempre vêm depois.

Neste arremedo de banânia, os políticos se elegem para roubar, roubam para se reeleger e legislam em causa própria e/ou para favorecer seus bandidos de estimação. Mesmo que seja flagrada na porta do galinheiro com penas grudadas no focinho, a raposa é considerada inocente até vomitar a galinha, devolver-lhe a vida e tornar a comê-la dentro do galinheiro, sob as vistas das corujas supremas — que só enxergam o que lhes convêm e quando lhes convém.
 
Sob um mandatário com uma capivara invejável e quatro filhos investigados, era esperado que processos foram anulados, que condenações fossem canceladas e que agentes públicos corruptos recuperassem a liberdade e os direitos políticos. É como se nossas cortes interpretassem as leis de modo a ensejar a sobrevivência do Brasil velho, corrupto, subdesenvolvido e desigual, governado por parasitas da máquina pública e lobistas de favores e privilégios.
 
Todos são iguais perante a lei, mas a conversão do direito de defesa em impunidade resultou num Estado de exceção onde as pessoas que mandam valem mais que todas as outras. Só falta agora escreverem com todas as letras que ninguém mais pode ser preso no Brasil por cometer crimes de corrupção. 

No faroeste à brasileira, só os fora-da-lei têm direito a final feliz, como atestam os mais recentes episódios da novela em que perseguir defensores da lei e castigar juízes, procuradores e policiais envolvidos na Lava-Jato tornou-se tão rotineiro quanto os duelos nos minutos finais dos bangue-bangues macarrônicos, só que, nos filmes, é o mocinho que vence o bandido e sai cavalgando rumo ao sol poente. 
 
Depois de conseguir as 27 assinaturas necessárias para o desarquivamento do projeto de lei que trata da prisão em segunda instância que ele próprio apresentou quando ainda era ministro — e que acabou sendo automaticamente arquivado porque não foi apreciado na legislatura anterior —, Moro experimentou mais uma vez o contra-ataque establishment: um vídeo divulgado nas redes sociais em que ele fala em "comprar habeas corpus do Gilmar Mendes" levou a subprocuradora-geral Lindôra Araújo a denunciá-lo por calúnia.
 
De acordo com a subprocuradora, o senador "agiu com a nítida intenção de macular a imagem e a honra objetiva do ofendido, tentando descredibilizar a sua atuação como magistrado da mais alta Corte do País", e que a polêmica frase foi dita "na presença de várias pessoas, com o conhecimento de que estava sendo gravado por terceiro, o que facilitou a divulgação da afirmação caluniosa, que tornou-se pública em 14 de abril de 2023, ganhando ampla repercussão na imprensa nacional e nas redes sociais".
 
Moro reconheceu que sua fala foi infeliz, mas demonstrou indignação com a ação da PGR 
— segundo ele, as palavras foram tiradas do contexto de brincadeira e manipuladas por pessoas que querem incriminá-lo falsamente e indispô-lo com o STF (detalhes neste vídeo). 

De acordo com a revista Fórum — cujos editores morreriam afogados se Lula se aboletasse numa banheira de hidromassagem —, Moro entrou em "modo desespero" e está "provando do próprio veneno". Na avaliação dos juristas ouvidos pelo pasquim, a condenação do político é líquida e certa.
 
Na visão do deputado Deltan Dallagnol, a denúncia é inepta, absurda, e denota alinhamento com governo Lula em clara perseguição ao ex-juiz. O ex-coordenador da Lava-Jato em Curitiba lembrou que Gilmar "caluniou e injuriou os procuradores da Lava-Jato várias vezes", chamou a força-tarefa de "organização criminosa" e se referiu a seus integrantes como "cretinos", "gângsters", "espúrios" e "crápulas". 
 
Vale relembrar também, por oportuno, que em março de 2018 o ministro Luís Roberto Barroso chamou o colega de toga de "fotografia ambulante do subdesenvolvimento brasileiro, mais um na multidão de altas autoridades que constroem todos os dias o fracasso do país (...) uma pessoa horrível, mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia", e em outubro do mesmo ano, ao comentar sobre uma corrupção estrutural e sistêmica envolvendo recursos públicos e a impunidade no país, disse que havia
 no STF "gabinete distribuindo senha para soltar corrupto sem qualquer forma de direito e numa espécie de ação entre amigos". Ao ser questionado sobre quais gabinetes se encontrariam nessa situação, Barroso sorriu e ficou em silêncio.

Resumo da ópera:  


Conhecida pela seletividade aguçada, Lindôra Araújo costumava confundir ofensa com liberdade de expressão quando o ofensor era Bolsonaro, anotou Josias de Souza em sua coluna. Com Moro, prossegue o jornalista, ela não quis saber de "brincadeira": acusou-o caluniar o ministro e pediu condenação, cadeia e perda do mandato. 


Josias pondera ainda que uma improvável condenação não resultaria em prisão, pois o suposto crime não prevê tal punição. Em última análise, Moro foi presenteado com uma contenda contra um dos mais impopulares ministros do STF, que decidiu acionar a PGR por acreditar que o senador precisa se responsabilizar pelo que diz. 


Conhecido pelo destempero, Gilmar gosta de falar o que não aprecia ouvir. Já se divertiu diante das câmeras da TV Justiça referindo-se aos procuradores da Lava-Jato como "gentalha", disse que integravam "máfias" e "organizações criminosas" e que "força-tarefa é sinônimo de patifaria". Se um extraterrestre descesse em Brasília num desses instantes em que autoridades trocam chumbo, informaria ao seu planeta que, na Terra, políticos e magistrados brincam num parque de diversões chamado Código Penal. 


A cena pública brasileira tornou-se um ambiente divertidamente degenerado.

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

INTERDIÇÃO JÁ!

Como o sapo, que não pula por boniteza, mas por precisão, Bolsonaro viu-se diante de duas opções: ou se desculpava, ou amargava o risco de o impeachment se tornar uma possibilidade (ainda mais) real. 

Mas o confronto das manifestações de 7 e 12 de setembro não quer dizer grande coisa. Nem o presidente está com a vida ganha porque 150 mil muares bateram os cascos na mais paulista das avenidas, nem os que o querem ver pelas costas estão numa batalha perdida porque reuniram míseros 6 mil manifestantes, na mesma hora e local, cinco dias depois. 

Por outro lado, o contraste evidencia que a oposição vai precisar comer muito feijão para levar sua vontade às ruas de maneira contundente, já que os propósitos que amarram os defensores do "mito" uns aos outros, a capacidade de mobilizar recursos (públicos, inclusive), a existência de um rosto e de uma voz na figura do capitão a falar por eles são alguns dos fatores que faltam aos opositores.

Na seara oposicionista sobram vaidades, ressentimentos e a ideia de reeditar o clima da campanha das Diretas Já, que entre 1983 e 1984 levou multidões às ruas num chamamento à união nacional em prol da eleição de um civil no Colégio Eleitoral de 1985  após a derrota no Congresso da emenda Dante de Oliveira, que instituía eleições diretas. 

Lá se vão quase quarenta anos e com eles uma distância monumental entre o país da época e o Brasil de hoje, onde a inexistência de um pré-requisito para a repetição daquele tipo de movimento desaconselharia a fixação do olhar no retrovisor — insistir nesse caminho inviabiliza a adoção de uma estratégia eficaz para a realização do objetivo comum de livrar o Brasil de mais quatro anos sob Bolsonaro ou, numa hipótese remota, da interrupção de seu mandato.

Em 83/84, a bandeira era única e já vinha sendo levantada em campanhas anteriores, como a da anistia. Além disso, as forças políticas não tinham vivido embates entre si. Havia um inimigo comum, o regime autoritário. Agora, pode-se argumentar, o arbítrio de novo se apresenta como risco a ser evitado, mas a situação é diferente. 

Nessas quase quatro décadas houve disputas eleitorais, ocorreram dois impeachments, o PT enterrou sua mítica de reserva ética nos escândalos do mensalão e da Petrobras, as negociatas entre políticos e empresários não haviam sido expostas pela Lava-Jato nem tinha sido introduzida no cenário a dinâmica do “nós contra eles” instituída pelo demiurgo de Garanhuns e incorporada pelo Caronte da Covid.

Tudo isso divide, mas são as dores da democracia — suportáveis e até desejáveis ante a alternativa do sufocamento das ditaduras. Em situações difíceis, contudo, as divergências precisam ser politicamente conduzidas e adaptadas à nova era, em que não estão mais em cena aquelas grandes figuras credenciadas ao comando de mobilização da sociedade por atributos de habilidade, experiência, espírito público, conduta moral e capacidade de liderança.

A composição das divergências, a tolerância e a contenção dos atos ao limite da legalidade movimentam as engrenagens institucionais. O isolamento e o apego a crenças paralisam. Quem ironiza “a turma das instituições estão funcionando”, achando que com isso enxerga o que a maioria não vê, contribui para minar a confiança nas balizas democráticas a ser defendidas. A semeadura do descrédito quem faz é o adversário a ser combatido.

Fala-se tanto em inclusão social, mas não se vê esforço na superação do sectarismo exacerbado ao qual se dá o nome de polarização. Embora seja natural que a esquerda não queira se associar a atos onde há um boneco inflável de Lula vestido de presidiário e que o centro e a direita civilizada resistam a pôr azeitona na empada da petralhada, com um pouco de inspiração, muita transpiração e disposição ao desapego é possível chegar lá, até porque tronou-se impossível suportar esse negacionista-sociopata-golpista seguir destruindo nossa democracia, nossa economia, nossas vidas...

Não bastasse substituir Mandetta por Teich — que desembarcou da canoa furada antes de completar um mês a bordo, ensinando-nos que a vida é feita de escolhas — e este por um fardado tido e havido como o obelisco da logística, mas que era incapaz de amarrar os coturnos sem pedir a benção do chefe — ensinando-nos que é simples assim: "um manda e o outro obedece" —, Bolsonaro escolheu para preposto da vez mais um vassalo que, ao invés de corrigir os erros do incompetente que o antecedeu, adota o negacionismo a serviço do bolsonarismo boçal e — a cereja do bolo! — usa adolescentes para criar uma tripla cortina de fumaça visando ocultar os persistentes e cada vez mais graves erros do governo no combate à pandemia.

Enquanto demoniza a CoronaVac e promove motociatas e aglomerações — chegando mesmo a retirar a máscara do rosto de uma criança de colo e a sinalizar a outra que fizesse o mesmo em meio a uma multidão —, Bolsonaro se comporta como um galo egocêntrico, que acha que o sol nasce para ouvi-lo cantar, quando na verdade é ele que canta porque o sol nasce. Mas toda araruta tem seu dia de mingau, e a semana chegou ao fim com a revelação do Datafolha de que o amor do capitão pela mentira nunca foi tão correspondido.

A grossa maioria do eleitorado (85%) ouve o presidente com a pulga atrás da orelha — 57% nunca confiam naquilo que ele declara, 28% confiam só de vez em quando e apenas uma minoria (15%) confia 100% no que escorre dos lábios do suposto chefe da nação, que opera num mundo com duas verdades: a dele e a verdadeira. O primeiro Bolsonaro personifica a nova política, abomina a corrupção, afugenta o comunismo e cultua um versículo do Evangelho de João: "Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". O Bolsonaro retratado pelo Datafolha é parecido com o primeiro, só que mente um pouco, e seu desapreço pelos fatos acabou convertendo-o numa espécie de fake presidente. Mas justiça se lhe faça: ninguém chega a tal posição por acaso.

Não é que o personagem flerta esporadicamente com a inverdade. É preciso reconhecer que o progresso de Bolsonaro está alicerçado na mentira. Enquanto o Brasil piora, as finanças da Famiglia Bolsonaro não param de melhorar. O clã presidencial prosperou na vida pelo trabalho duro — trabalho do contribuinte, naturalmente. O capo é um grande defensor do patriotismo e da instituição familiar. Educou os filhos para amar a bandeira verde e amarela. Seus rebentos não hesitaram em seguir os passos do pai. Casaram-se com a pátria e foram morar no déficit público.

Bolsonaro se refugiou num contracheque do Estado pela primeira vez aos 18 anos, quando entrou para o Exército. Hoje, à frente do governo civil mais militar da história, jacta-se da origem castrense, embora tenha sido expurgado do quartel pela porta dos fundo apenas 15 anos depois de sentar praça. Político há 32 anos, ele acumula mais tempo de rachadinha do que de farda; presidente há quase três, faz aos brasileiros o favor de se sacrificar pelo bem da coletividade. Queixou-se em 21 de julho: "Costumo dizer aos meus amigos: não queiram essa cadeira, que isso aqui tem Kryptonita, brocha o Super-homem, que dirá eu!" Há uma semana, reclamou: "A vida de presidente não é fácil. Se alguém quiser trocar comigo, troco agora."

Para Bolsonaro, a Presidência é "uma missão de Deus." Sem receio de que a CPI o convoque para uma acareação com o Todo-Poderoso, o capitão se oferece para resolver até os problemas que o brasileiro não sabia que tinha, como o comunismo. Na última sexta-feira, de passagem por Minas Gerais, o morubixaba tranquilizou a aldeia: "Uma das coisas que mais me confortam é saber que naquela minha cadeira lá em Brasília não está sentado um comunista." Confirmou que estará em Nova York na próxima terça, quando discursará na abertura da Assembleia Geral da ONU. Anunciou que dirá algumas "verdades" sobre o Brasil.

Antes mesmo de ouvir as "verdades" que Bolsonaro despejará sobre a tribuna da ONU, o brasileiro, já vacinado contra as mentiras do orador, percebe que a vida de presidente é muito fácil, difícil é ser presidido diariamente por ele. Se a passagem do capitão pelo Planalto serve para alguma coisa é para provar que governar o Brasil não é tão difícil. O horário é bom, o dinheiro é razoável, viaja-se de graça para Nova York, passeia-se de moto nos finais de semana, e há sempre a possibilidade de demitir o ministro Marcelo Queiroga, o que deve proporcionar uma sensação muito boa.

Bolsonaro conseguiu realizar o prodígio de reverter o Brasil aos anos 1990 em relação ao consumo de proteína animal e atirar 40% da população na chamada "insegurança alimentar" — condição em que uma pessoa ou não faz as três refeições diárias adequadamente ou sequer come todos os dias. Sob o desgoverno do capitão, cresce a cada dia o número de brasileiros que recorrem à tripa bovina e suína e asas e pés de aves para agregar proteína animal à alimentação. 

Refeições que estão sendo preparadas, aliás, em fogões à lenha por causa do preço do gás. Em breve — que ninguém duvide —, além dos milhões de lares com a energia elétrica cortada por falta de pagamento, teremos outros milhões iluminando os cômodos com velas e lanternas. Mais: o tempo dos carros populares passou — seja pelo preço dos modelos novos ou usados, seja pelo valor absurdo dos combustíveis. Preparemo-nos para voltar a conviver com bicicletas e carroças.

Quem imagina que 600 mil mortos por Covid é o que há de pior na catástrofe que atente por governo Bolsonaro, ou a insistência insana desse "governante" emplacar um golpe de Estado, colocando fim à nossa jovem democracia, não perde por esperar. Imaginar que a proximidade das eleições de 2022 e sua iminente derrota para o meliante de São Bernardo fará com que o amigão do Queiroz não retome as hostilidades contra a democracia é o mesmo que acreditar na inocência da alma viva mais honesta do Brasil

Com isso, o dólar continuará nas alturas e a pressão inflacionária crescerá como o patrimônio do Clã das Rachadinhas. Para piorar o que já é ruim, o Banco Central elevará os juros, diminuindo a atividade econômica e conduzindo o país para um dos piores — senão o pior — quarto ano de governo desde a redemocratização.

Por uma trapaça da sorte, Bolsonaro acredita que a falta do voto impresso desvirtuará as urnas eletrônicas que já lhe concederam tantos mandatos eletivos. Dias atrás, em resposta às mentiras sobre o voto auditável que o presidente repetiu nos palanques de 7 de Setembro, o ministro Luís Roberto Barroso chamou-o de "farsante". 

Ecoando a maioria que se expressou por meio do Datafolha, o presidente de turno da corte eleitoral disse que o lema do chefe do Executivo é diferente daquele que está anotado em João 8:32. "Conhecereis a mentira, e a mentira vos aprisionará", declarou o magistrado, que pode ter soado premonitório.

Toda araruta tem seu dia de mingau. A CPI do Genocídio já prepara o relatório final, que contará com a colaboração de juristas insuspeitos, como Miguel Reale JúniorBolsonaro deixou de ser um caso de impeachment para se tornar um caso de polícia, de interdição e internação — e não na semana que vem ou no mês que vem, mas já.

Com Dora Kramer, Josias de Souza e Ricardo Kertzman

sábado, 14 de março de 2026

A ALEGORIA DA CAVERNA E O ELEITORADO BRASILEIRO

TENTAR ARGUMENTAR COM QUEM ABDICOU DA LÓGICA É COMO MEDICAR DEFUNTOS.

Quanto mais não seja, a desditosa passagem de Jair Bolsonaro pelo Planalto deixou duas importantes lições: a primeira foi ministrada pelo ortopedista Luiz Henrique Mandetta, que nos brindou com sua versão da Alegoria da Caverna, e a segunda foi ensinada pelo oncologista Nelson Teich, que substituiu Mandetta no comando do Ministério da Saúde — e se demitiu antes de completar um mês no cargo.

Numa alusão velada ao negacionismo desbragado do então presidente, Mandetta se valeu do Mito da Caverna — uma alegoria sobre o conhecimento na qual Platão ensinou que, acorrentados à ignorância, os homens são privados do aprendizado. Ao comunicar à imprensa seu desembarque, Teich enfatizou que "a vida é feita de escolhas", e que ele havia escolhido sair.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Alexandre de Moraes sobrevoava a conjuntura com ares de Super-Homem, mas, ao se relacionar com Vorcaro, o homem se sobrepôs ao herói e descobriu de maneira trágica que pedestal não tem escada e, pior, que não se pode girar a Terra ao contrário para retroceder no tempo.

Sua proximidade com o banqueiro era tão inusitada quanto uma parceria de Lex Luthor com Super-Homem. Sem Moraes, Vorcaro se considera "fogueira sem brasa, futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola." Tudo muito constrangedor

Discursando para chefes de tribunais de todo país nesta terça-feira, Edson Fachin incluiu a "crise de confiança pública" entre os desafios que o Judiciário precisa enfrentar, mas se absteve de citar o caso Master e o descrédito que assedia seus colegas Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Segundo ele, é "a imparcialidade" que conduz à "equidade", e as decisões judiciais devem ser "capazes de sobreviver ao mais impiedoso exame público".

O problema é que, ao invés de elevar a própria estatura, os magistrados preferem rebaixar o pé direito do Judiciário ao se recusarem a limitar os contracheques ao teto constitucional.

Quanto às debilidades éticas, faltam explicações aceitáveis para o relacionamento piromaníaco de Moraes e Toffoli com Vorcaro. Sem esclarecimentos convincentes, a pregação de Fachin em favor da restauração da "confiança pública" soa como uma análise das normas de prevenção contra o incêndio em meio a labaredas que disseminam o cheiro de queimado, convertendo em cinzas a supremacia do Supremo.

Para piorar, Viviane Barci de Moraes demorou quase três meses para se explicar, e quando o fez, a emenda ficou pior do que soneto.. A banca da família Moraes recebeu R$ 3,6 milhões mensais durante 22 meses. Coisa de R$ 79,2 milhões. O trabalho resultou em 267 horas de reuniões e 36 pareceres.

Bons advogados conhecem vasta jurisprudência. Grandes advogados conhecem muitos juízes. Para Vorcaro, a advogada genial é casada com o ex-xerife do Supremo. A diferença básica entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites.

Ironicamente, a doutora informa que parte do seu tempo a serviço de Vorcaro foi desperdiçado com a produção de coisas como a revisão do "Código de Ética" do Master e a formulação de políticas de "relacionamento com o poder público" e de "conflito de interesses". A ética de Vorcaro é a amoralidade. Seu apreço por compliance é nulo. Seu relacionamento com o poder é monetário. Quanto ao conflito de interesses, ele salta do contrato firmado com a esposa de Moraes como pulgas do dorso de um vira-latas.

Todos têm seu preço, dizem as línguas ferinas. Não é verdade. O que leva certas pessoas a se complicarem é a mania de morder oportunidades antes de se certificar do tamanho do anzol oculto.


A metáfora criada por Platão descreve o processo de libertação da ignorância rumo ao conhecimento real. Para os prisioneiros da caverna, as sombras projetadas na parede representam toda a realidade possível — sem que percebam tratar-se apenas de reflexos distorcidos de objetos que não conseguem ver. Ela mostra como aceitamos percepções superficiais como se fossem fatos absolutos, sem questionar sua origem.

A metáfora criada por Platão descreve o processo de libertação da ignorância rumo ao conhecimento real e profundo. Mandetta traçou um paralelo entre a caverna e a administração do aspirante a genocida, que vivia acorrentado a superstições num universo paralelo de sombras. A insistência em combater o coronavírus à luz da ciência fazia do médico o ex-acorrentado que viu a luz e foi morto ao tentar libertar os demais dos grilhões da ignorância.

Para os prisioneiros da caverna, as sombras projetadas na parede representavam a única verdade existente e inquestionável em suas vidas limitadas. Eles não percebiam que aquelas formas eram apenas reflexos distorcidos de objetos reais carregados por pessoas fora de seu campo de visão habitual. Essa limitação sensorial reflete como aceitamos informações superficiais sem questionar a origem.


Viver em um estado de ignorância confortável impede que o indivíduo explore o potencial máximo de sua própria consciência e intelecto crítico. As sombras modernas podem ser comparadas às notícias falsas ou às percepções sociais distorcidas que aceitamos como fatos absolutos no dia a dia. Desafiar essas ilusões exige coragem para encarar o desconhecido além das paredes familiares.


Quando o prisioneiro se liberta e sai da caverna, inicialmente a luz do sol causa dor e cegueira em seus olhos desacostumados. Esse desconforto físico simboliza a dificuldade de abandonar crenças antigas para abraçar novas verdades que desafiam o senso comum estabelecido.


O processo de aprendizado real raramente é fácil ou livre de resistências internas profundas. Com o tempo, porém, a visão se ajusta e o indivíduo passa a contemplar o mundo em sua plenitude cromática e estrutural vibrante. Essa transição marca o nascimento do pensamento filosófico e da autonomia intelectual necessária para governar a própria vida com sabedoria. A luz representa a clareza mental que surge quando decidimos buscar o conhecimento além das aparências superficiais.


Atualmente, a caverna pode ser vista como as bolhas de algoritmos que reforçam nossos próprios preconceitos e limitam o acesso a perspectivas divergentes. Sair dessa escuridão digital requer um esforço consciente para buscar fontes diversas e praticar a reflexão crítica constante sobre o que consumimos. A educação é a ferramenta principal para romper essas correntes invisíveis.


Devido à polarização semeada por Lula com seu "nós contra eles" — e estrumada por Bolsonaro, que ora cumpre pena na Papudinha pela tentativa malograda de golpe de Estado —, o eleitorado tupiniquim, que teima em repetir a cada eleição, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez, por curiosidade, cultua seus bandidos de estimação. O fiel da balança é representado pelos "isentões", que não apoiam o macróbio eneadáctilo nem o rebento do refuto da escória da humanidade. Mas essa minoria não é suficiente para furar a bolha e abrir espaço para um candidato alternativo (a chamada "terceira via").    


Voltando à alegoria, o filósofo que conheceu a luz sente o dever moral de retornar à escuridão para libertar seus antigos companheiros de prisão. No entanto, ele enfrenta a resistência e o deboche daqueles que ainda acreditam nas sombras como única realidade possível e segura. Esse conflito ilustra a dificuldade de comunicar verdades complexas em uma sociedade resistente a mudanças.


Tentar educar os outros exige paciência e empatia, pois a ignorância funciona como um mecanismo de defesa contra o medo do novo. A verdadeira liderança intelectual consiste em guiar as pessoas para fora da caverna sem impor a verdade de forma agressiva. O diálogo persistente continua sendo a ponte mais eficaz entre a escuridão e a clareza.


A lição de Platão fundamenta a ideia de que o conhecimento é a base para uma governança justa e ética na sociedade. Políticos e cidadãos devem buscar a luz da verdade para evitar que o poder seja exercido através da manipulação de imagens e ilusões.


Sem o compromisso com a realidade, qualquer sistema social corre o risco de desmoronar rapidamente. No entanto, argumentar com quem abdicou da lógica é como medicar defuntos.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

SOBRE A MANIFESTAÇÃO DO ÚLTIMO DOMINGO


Se ainda restavam dúvidas de que a extrema-direita é uma espécie de gênio do mal que não volta mais para a garrafa, elas foram dissipadas no último domingo por um número extraordinário de rato dançando ao som da flauta do "golpista de Hamelin" ao longo de 7 quadras da mais paulista das avenidas. Como o dono do circo franqueou o ingresso, as estimativas de público variam de algumas dezenas de milhares a quase um milhão

Mestre de cerimônia da função, o mesmo Bolsonaro que comparou sua vitória em 2018 a uma "cagada do bem" e exortou seus paus-mandatos a "virar a mesa" acedeu ao picadeiro, digo, subiu no carro de som e discursou num timbre de ex-BolsonaroEmbriagado de si mesmo, o orador disse que é preciso "passar uma borracha" no passado e anistiar os "pobres coitados" condenados pelo 8 de janeiro. 

O chamamento à mobilização por anistia aos selvagens (e por extensão ao próprio ex-presidente, que, assim, se inclui na roda dos defensores da ruptura) não tem a menor chance de prosperar: ainda que tivesse apoia da sociedade, não passaria pelo Congresso; se passasse, morreria no STF.

Observação: Convém lembrar que o alimento do bolsonarismo raiz é a agressividade. A exacerbação de ânimos é o seu motor, que perde tração quando chamado à moderação — que precisará ser duradoura se o capitão da tropa não quiser se complicar ainda mais e afugentar políticos que só subiram no trio elétrico porque a promessa era de fogo baixo.
 
A lengalenga do devoto da cloroquina (tome um Plasil e clique aqui para ver o vídeo) não só explicitou sua intenção de salvar a própria pele como deu a impressão de que ele se vê numa posição parecida com a de Lula em 2017, quando o STF avalizou sua prisão e o TSE o declarou inelegível. Isso sem mencionar que o apego oportunista à serenidade evidencia (não que pairassem dúvidas) a má intenção do ex-mandatário quando, confirmada sua derrota nas urnas, encastelou-se no Alvorada e, 40 dias depois, picou a mula para os EUA, onde aguardou, homiziado na cueca do Pateta, o desenrolar dos acontecimentos urdidos aqui por seus comparsas de conspirata golpista. 

Quem sabe ouvir nas entrelinhas percebeu que o sonho de Bolsonaro é evitar que seus piores pesadelos se tornem realidade  ou por outra, sonhar o mesmo sonho que o Lula realizou ao saltar do degredo judicial para um novo mandato no Planalto. A alturas tantas, o discursante como que calçou os sapatos do petista: "Não podemos pensar em ganhar as eleições afastando os opositores do cenário político." A lamúria contém um quê de ridículo, já que o lamuriento foi o grande beneficiário da exclusão do adversário das urnas em 2018. 

Coube a Tarcísio de Freitas reforçar a analogia afirmando que seu padrinho político "já não é apenas uma pessoa, tornou-se a personificação do movimento que lotou a Paulista", e que representa "todos aqueles que descobriram que vale a pena brigar pela família, pela pátria, pela liberdade." Lula soou parecido horas antes de se entregar à PF, em 2018. Ao discursar para a militância, declarou: "Eu não sou um ser humano, sou uma ideia" — uma "ideia" que passou 580 dias na cadeia, mas que a Vaza-Jato livrou das sentenças e que os quatro anos ruinosos de Bolsonaro ajudaram a compor o "arco democrático" que lhe deu o terceiro mandato. 

A diferença é que o pesadelo do ex-presidente golpista é 100% construído no STF, e que lhe falta um hacker para invadir as comunicações do ministro Alexandre de Moraes e quatro anos de uma gestão tão ruinosa quanto a sua (pior seria impossível). Mas o mais provável é que ele seja acordado desse sonho pela voz de prisão de um agente da PF.

Discursando em defesa de Bibo Pai, Bobi Filho perorou que "o inquérito conduzido por 'Xandão' é um grande teatro". Vale lembrar que foi sob a presidência de Moraes que o TSE condenou o filho do pai (não uma, mas duas vezes) a oito anos de inelegibilidade. Se for condenado pelos crimes de tentativa de golpe de Estado, abolição do Estado democrático de Direito e associação criminosa, Bolsonaro terá de se candidatar para um cargo no inferno (como ele completa 69 anos daqui a menos de um mês e pode amargar 23 anos de prisão e ser banido das urnas por mais de 30...). 

Observação: O castigo cairia sobre a biografia do "mico" das rachadinhas e das mansões milionárias como uma lápide, o que explica esse apreço momentâneo e oportunista pela "pacificação" e esse desejo incontido de manusear uma "borracha" capaz de apagar seu passado criminoso. 
 
Moraes vê a bandeira branca içada pelo capetão como um flerte com o apaziguamento que deu asas ao regime nazista de Hitler. A referência histórica encosta a tentativa de golpe no Brasil na Conferência de Munique. No despacho em que determinou o afastamento de Ibaneis Rocha do governo do DF, o ministro anotou que a democracia brasileira não irá mais suportar a ignóbil politica de apaziguamento, cujo fracasso foi amplamente demonstrado na tentativa de acordo do então primeiro-ministro inglês Neville Chamberlain com Adolf Hitler. Ao
 assegurar que todos serão responsabilizados civil, política e criminalmente pelos atos atentatórios à democracia e às instituições, ele evoca uma das célebres frases de Churchill: "Um apaziguador é alguém que alimenta um crocodilo esperando ser o último a ser devorado." 

Observação:O destrambelho seletivo de Bolsonaro não só desnuda suas intenções anteriores como evidencia quão escassos são seus instrumentos de reação em busca de proteção — que, na real, se resumem a apenas um: a fotografia da multidão que não aliviará em um milímetro as agruras judiciais dele e de seus cúmplices. Quando ordenou a batida de busca e apreensão nos endereços do deputado bolsonarista Carlos Jordy, Moraes pontuou que "a democracia brasileira não será submetida à ignóbil política de apaziguamento à moda de Chamberlain" Ou seja: se depender do togado, o desejo do capitão de "passar uma borracha no passado" será tratado como uma tese natimorta.
 
Ao reiterar seu apoio ao padrinho político, Tarcísio de Freitas desperdiçou a melhor chance que a conjuntura já lhe proporcionou para se credenciar como alternativa política da direita civilizada. Ser grato pela ascensão ao governo de São Paulo é uma coisa, esticar o convívio com alguém que coleciona inquéritos criminais é outra. Ele disse que atendeu a convocação para "celebrar o verde e amarelo, o amor ao nosso país, o Estado Democrático de Direito", mas na verdade ascendeu ao picadeiro como coadjuvante de um número apoteótico concebido por um golpista contumaz para posar de vítima. Herdeiro potencial dos votos que levaram Bolsonaro ao Planalto em 2018, o afilhado soa como se acreditasse que o sonho do padrinho de liderar a direita que retirou do armário em 2018 continua intacto. Só que não.
 
A direita paleolítica que congestionou a Paulista já havia demonstrado no 8 de janeiro quão profundas são suas raízes, mas a direita civilizada que ajudou a defenestrar Bolsonaro em 2022 continua órfã de uma alternativa que o ora inquilino do Palácio dos Bandeirantes se recusa a personificar. Se ele espera que o
 Messias que não miracula o declare seu herdeiro, deve puxar uma cadeira. Ou um ronco, pois o discurso do padrinho deixa clara sua pretensão de voltar às urnas. Mas o detalhe — e o diabo mora nos detalhes — é que o mesmo STF que propiciou a Lula o sonho da anulação das sentenças está prestes a impor a Bolsonaro o pesadelo da condenação.

Faltou ao governador perspicácia para traçar um risco no chão, separando sua biografia dos crimes atribuídos àquele emporcalhou o principal cartão postal de Sampa com o rastro pegajoso de meia dúzia de processos à espera da suprema sentença — além da tentativa de golpe, há o escândalo das joias sauditas, a fraude no cartão de vacinas, as perversões da pandemia, o vazamento de inquérito sigiloso e o aparelhamento da PF. Abstendo-se de estabelecer a fronteira a partir da qual não avançaria e encerrando seu discurso com um "muito obrigado, Bolsonaro, sempre estaremos juntos", Tarcísio vincula-se aos indiciamentos, denúncias, ações penais e sentenças que estão por vir. Enfim, a vida é feita de escolhas, escolhas têm consequências, e as consequências sempre vêm depois.
 
Ricardo Nunes não discursou, mas o fato de ter participado da arlequinada bolsonarista ensejou críticas de seus principais adversários na disputa pela prefeitura paulistana. Guilherme Boulos classificou de "vergonhoso" alguém que se elegeu vice do democrata e anti-bolsonarista Bruno Covas defender um ataque à democracia; Tábata Amaral não só lamentou que o evento tenha sido um incentivo à polarização como acusou o o prefeito de "topar qualquer negócio para se manter no cargo".
 
Valdemar Costa Neto — que se amancebou com o verdugo do Planalto a despeito dos prejuízos de encampar a extrema direita e sua luta antidemocrática contra as urnas eletrônica — é um jogador de grandes tacadas, e sabe que ganhar ou perder faz parte do jogo. Mas sua aposta só se sustenta porque a mídia e os adversários continuam a dar palanque a Bolsonaro.
 
Em qualquer democracia que se dá ao respeito, a incompetência não funciona como atenuante em golpes fracassados. No Brasil, a justiça não só tarda como muitas vezes não chega, e políticos poderosos sempre acham um caminho para contornar obstáculos (volto a lembrar o caso de Lula, que foi condenado, preso, descondenado, reabilitado politicamente e eleito presidente da banânia pela terceira vez). 
 
É difícil alguém chegar a algum lugar por meio de uma sucessão de derrotas e lances equivocados. Esse privilegio é exclusivo de fanáticos religiosos que veem os sofrimentos como degraus da longa escadaria que leva ao reino dos céus. E não me consta que a Papuda seja exatamente o Paraíso.

A conferir.