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sábado, 30 de maio de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — MAIS SOBRE PSICOTRÔNICA, RELIGIÃO E CIÊNCIA NOÉTICA

O HOMEM TEME O QUE NÃO COMPREENDE — E MAIS AINDA O QUE COMPREENDE PROFUNDAMENTE.

Vimos que a Psicotrônica — como os russos chamavam suas primeiras pesquisas envolvendo fenômenos paranormais — pode ser considerada a precursora daquilo que hoje se convencionou chamar de ciência noética, e que, durante a Guerra Fria, a URSS e os EUA teriam investido somas vultosas nesse campo.


Fala-se que a CIA mordeu a isca da desinformação russa e "correu atrás do próprio rabo com ciências marginais", como o projeto Stargate, que buscava desenvolver uma técnica conhecida como “visualização remota”, na qual pessoas em estado de transe profundo projetam a consciência para além do corpo visando observar eventos à distância. 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Segundo a mitologia grega, Pandora foi criada por Hefesto e Palas Atena a mando de Zeus, que queria castigar Prometeu por roubar o fogo dos deuses e dá-lo aos homens. Depois de ganhar um dom de cada divindade de Olimpo, Pandora recebeu de Zeus uma caixa que jamais deveria ser aberta e a missão de seduzir o irmão de Prometeu, que, encantado com a formosura da moça e ignorando as advertências do irmão sobre aceitar presentes do deus dos deuses, tomou Pandora como esposa. 

Mas ao criar a mulher, Deus criou também a curiosidade. E a curiosidade levou Pandora a abrir a caixa e libertar todos os males que recaíram sobre a humanidade. A esperança ficou presa no fundo da caixa para nos ajudar a enfrentar as adversidades, mesmo que o mal muitas vezes vença o bem. E foi assim que "abrir a Caixa de Pandora" se tornou uma metáfora para ações que desencadeiam consequências maléficas e irreversíveis.

Revisito essa fábula por três motivos: 1) sempre gostei de mitologia; 2) muita gente usa essa metáfora sem saber sua origem; 3) insistir no erro esperando produzir um acerto é a melhor definição de imbecilidade que conheço. 

Em momentos distintos da ditadura, Pelé e o general Figueiredo alertaram para o perigo de misturar brasileiros com urnas em eleições presidenciais. Ambos foram muito criticados, mas o tempo provou que eles estavam certos: a cada dois anos, os eleitores tupiniquins fazem nas urnas, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez, por curiosidade. E como ensinou o Conselheiro Acácio (personagem do romance O Primo Basílio), as consequências vêm sempre depois. 

Ao acompanhar o golpe de Estado que levou Napoleão III ao poder, Karl Marx concluiu que a história acontece como tragédia e se repete como farsa. Já o Barão de Itararé dizia que político brazuca é um sujeito que vive às claras, aproveita as gemas e não despreza as cascas, e o saudoso maestro Tom Jobim, que o Brasil não é para principiantes. E com efeito. 

Em 2018, nenhum dos 13 postulantes ao Planalto empolgava, mas por que se arriscar a acertar com Geraldo Alckmin, Álvaro Dias, Henrique Meirelles ou João Amoedo quando se podia errar com certeza escalando Bolsonaro e o bonifrate do então presidiário Lula para o segundo turno? Em 2022, as opções eram ainda menos atraentes, mas, de novo: por que correr o risco de acertar votando em Simone Tebet, Felipe D'Avila ou mesmo Ciro Gomes (situações desesperadoras justificam medidas desesperadas) quando se podia errar com certeza despachando Lula e Bolsonaro para o 2º turno?

Em ambos os pleitos a fatídica polarização fez com que tanto a merda quanto as moscas permanecessem as mesmas. A diferença é que em 2018 a parcela minimamente pensante do eleitorado foi levada a apoiar Bolsonaro para evitar que o país fosse presidido por um fantoche do presidiário, e em 2022 essa mesma parcela se viu forçada a embarcar na falaciosa "Frente Democrática" capitaneada pelo ex-presidiário "descondenado" para evitar mais 4 anos (ou sabe-se lá quantos) sob a batuta do refugo da escória da humanidade.

Há males que tempo cura, males que vêm para pior e males que pioram com o passar do tempo. Lula 3.0 é uma reedição piorada das versões 1 e 2, e como nada é tão ruim que não possa piorar, o macróbio cogita disputar a reeleição em 2026 (que os deuses nos livrem tanto dessa desgraça quanto da volta do aspirante a golpista encarnado em seu abominável primogênito).

As consequências da inconsequência do eleitorado tupiniquim são lamentadas todos os dias, inclusive por quem abriu a Caixa de Pandora achando que estava escolhendo o menor de dois males - o que se justifica quando e se não há outra opção. E tanto em 2018 quanto em 2022 havia alternativas; só não viu quem não quis ou não conseguiu porque sofre do pior tipo de cegueira que existe.

Einstein achava que o Universo e a estupidez humana eram infinitos, mas salientou que, quanto ao
Universo, ele ainda não tinha 100% de certeza. Alguns aspectos de suas famosas teorias não sobreviveram à passagem do tempo, mas sua percepção da infinitude da estupidez humana merece ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta. 


O conceito básico da visualização remota tem mais de sete mil anos. Os antigos sumérios registraram suas "viagens às estrelas" — experiências místicas fora do corpo nas quais a mente ia até as estrelas para observar mundos distantes. Supõe-se que alucinógenos como o ópio e o ácido lisérgico foram largamente utilizados para induzir estados alterados de consciência. De textos antigos como Rigue Veda e Mistérios de Elêusis até o clássico As Portas da Percepção, de Aldous Huxley, grandes autores sugeriram que substâncias psicodélicas poderiam expandir a consciência  — lembrando que essas sensações fora do corpo são um reflexo da realidade sem filtros, não de alucinações. Mas isso é outra conversa.


A habilidade fundamental de um visualizador remoto é a capacidade de induzir uma experiência fora do corpo, mas a questão é que pouquíssimas pessoas conseguem ter essas experiências espontaneamente — com a possível exceção dos epiléticos, mas isso também é outra conversa. Interessa dizer que vida após a morte é uma convenção criada pelas religiões para mitigar o medo da finitude e manter o "rebanho" na rédea curta com a promessa de recompensar os bons e punir os maus. 


Qualquer pessoa minimamente esclarecida deveria refutar a ideia de passar a eternidade tocando harpa numa nuvem ou assando lentamente em um espeto. A possibilidade de existir um ser superior é plausível — desde que não seja o deus vingativo dos pastores papa-dízimo e dos padres pedófilos. Todas as religiões são a verdade sagrada para quem as professa e uma fantasia para sectários de outros credos.


Mesmo as crenças mais estúpidas têm fiéis seguidores e fanáticos dispostos a defendê-las com unhas e dentes, embora elas sejam como um golpe de seguro: os fiéis pagam o prêmio e não têm como reclamar quando descobrem que a empresa que levou seu dinheiro não existe. No fim das contas, viemos do mistério e ao mistério retornaremos; caso exista algo além, dificilmente será o deus das igrejas.


Fiz uma pesquisa no Google e fiquei perplexo com a quantidade de vertentes religiosas. Católicos, metodistas, episcopalianos, mórmons, anglicanos, luteranos, presbiterianos, adventistas do sétimo dia, ortodoxos gregos, quacres, muçulmanos, budistas, judeus, hindus, etc., todos alegam ter linha direta com o Todo-Poderoso, mas muitos foram construídas sobre sangue e ossos dos que se recusaram a aceitar a ideia de Deus que eles pregam.


Romanos atiraram cristãos aos leões; cristãos mutilaram e queimaram hereges; Hitler sacrificou milhões de judeus ao falso deus da pureza racial; outros milhões de seres humanos foram eletrocutados, enforcados, esquartejados e envenenados... tudo em nome de um deus.


A promessa de que o Céu nos espera e que lá tudo fará sentido nos é impingida desde a infância na versão segundo a qual Papai Noel traz presentes para as crianças bem-comportadas e deixa as malcriadas a ver navios. Mais adiante, a falácia passa a ser "céu para os bons, inferno para os maus". Mas o paraíso é a cenoura, e o inferno, a vara. Padres, pastores. rabinos e afins ameaçam os pequenos com o fogo eterno por roubarem uma bala ou mentirem, mas não existe prova alguma disso, apenas uma certeza cega de que tudo tem um propósito.


A morte é a única certeza que temos na vida, porém o que acontece depois — se realmente existir um "depois" — intriga a humanidade desde as mais priscas eras. Os católicos acreditam que os bons vão para o Céu e os pecadores, para o Inferno, e os espíritas, que os maus reencarnam para evoluir espiritualmente. Entre os judeus, cada grupo tem sua própria versão do que seria a vida após a morte, e por aí segue o desfile de crenças, que é tão variado quanto o das escolas de samba na Marquês de Sapucaí.


A perspectiva da vida eterna vem sendo explorada desde sempre por proselitistas que alegam falar em nome de um deus cuja existência conseguem provar, embora soem convincentes — afinal, o sucesso do vigarista depende da capacidade de ludibriar as vítimas, como bem ilustra a origem do termo conto do vigário. No entanto, é fundamental não confundir fé com religião: ainda que elas andem de mãos dadas, tanto é possível ter fé sem ser religioso quanto seguir uma religião sem ter fé (apenas por tradição familiar ou convenção social). 


A fé individual independe de rituais, hierarquias ou dogmas. Ela surge movida por experiências profundas e pessoais — como um momento inesperado de conexão com a existência —, e se desenvolve sem a necessidade de intermediários ou tradições rígidas. Já a religião deveria servir para "religar" o homem a Deus, mas cada vertente define "Deus" à sua maneira.


Os primeiros textos védicos remontam a 1500 a.C., mas os conceitos que eles encerram foram transmitidos oralmente durante séculos. A frase "este é meu corpo", que Cristo teria dito na Última Ceia, é repetida até hoje durante a Eucaristia. Quando "lavou as mãos", Pilatos deixou clara a ligação entre religião e política — aliás, Igreja e Estado foram as duas faces da mesma moeda até a Revolução Francesa, e velhos vícios e maus hábitos são difíceis de erradicar.


Toda sociedade tem uma religião, toda religião tem um propósito social e toda cerimônia religiosa tem um ritual. O Seder de Pessach e a comunhão são adaptações litúrgicas de uma prática observada nos chimpanzés. Ainda que as religiões tenham perdido muito da empatia de antanho, fenômenos complexos se desenvolvem a partir de começos simples, e tudo o que fazemos é influenciado por nossa história biológica e cosmológica.


Ao longo da História, Cristo, Buda, Maomé, Krishna e outros ícones religiosos deixaram mensagens para determinados povos em determinadas épocas, mas em vez de levarem à unidade, ao amor e ao bem de todos, essas mensagens foram deturpadas para atender a interesses escusos daqueles que detêm o poder e o utilizam para manipular seus semelhantes. 


Há fortes evidências de que o Universo surgiu há 13,8 bilhões de anos e o homo sapiens, há cerca de 300 mil anos — a partir da evolução de outros primatas, e não de Adão e Eva. O Velho Testamento foi transmitido oralmente até 1200 a.C., quando as lendas e tradições que o compõem foram compiladas por Moisés durante sua longa jornada pelo deserto do Sinai em busca da terra supostamente prometida por Jeová a Abraão e seus descendentes. 


Observação: Talvez o sol escaldante explique por que o autor do Pentateuco retratou o Criador como uma entidade rancorosa e vingativa, tão diferente da imagem vendida nas igrejas, templos, mesquitas e sinagogas por padres, pastores, imãs e rabinos que, em vez de oferecer orientação e conforto espiritual aos fiéis, ameaçam-nos com a "danação eterna".

 

As religiões são como os vaga-lumes: precisam da escuridão para brilhar e são úteis para os poderosos, que lhes dão ares de verdade para ludibriar os menos esclarecidos, e portanto é fundamental questionar as crenças enraizadas, pois somente a partir da reflexão que se alcança uma espiritualidade mais ampla e profunda.


A possibilidade de existir um ente superior é admissível, mas como acreditar num "criador" que concede livre-arbítrio às criaturas, promete recompensar os "bons" com a vida eterna num inverossímil "paraíso celestial" e punir os "maus" com o fogo eterno num hipotético inferno comandado por um "anjo caído"?

 

A rigidez das religiões perpetua tradições e práticas que raramente resistem ao questionamento crítico, enquanto a fé resultante de experiências espirituais e emocionais leva as pessoas a acreditarem em algo que não lhes foi enfiado goela abaixo por dogmas religiosos. A flexibilidade faz com que a fé se adapte aos valores e interpretações de cada um, e sua relação com a religião é ainda mais intrigante quando se questiona a natureza da divindade. 


A ciência não invalida a fé — ela a expande. Mas a complexidade do Universo pode ser contemplada e apreciada sem uma explicação esotérica. Ao afirmar que somos poeira das estrelas, o astrofísico Carl Sagan descortinou um vasto Universo sem uma figura divina. Ainda assim, a fé (não confundir com as religiões) pode ser definida como uma admiração pelo Universo, uma disposição para o questionamento, uma abertura ao desconhecido, uma busca por novas respostas, um modo de honrar o mistério da existência. 


Einstein dizia que "o mistério é a fonte de toda verdadeira arte e ciência". Spinoza e outros grandes pensadores viam no Universo uma ordem tão majestosa que, mesmo sem acreditar em um deus pessoal, sentiam-se conectados a uma força criadora e consideravam a busca pelo conhecimento um ato quase espiritual.


A busca pelo autoconhecimento mostra que a espiritualidade desvinculada das religiões pode ser uma maneira de nos conectarmos com o mundo sem a necessidade de um conjunto de crenças formais. Nesse contexto, a fé se torna uma prática interior, uma jornada de descoberta pessoal que aceita as incertezas da existência.


Enquanto as religiões tradicionais impõem normas e rituais rígidos, a espiritualidade pessoal se ajusta aos valores e necessidades de cada um. Meditação, contemplação da natureza ou mesmo o simples exercício de gratidão são maneiras de alinhar a vida com uma ordem maior. Uma fé íntima e universal, que respeita o mistério sem se prender às religiões formais nem enjeitar as tradições, aceita respostas parciais, valoriza o caminho, celebra o mistério e dá um sentido mais original à espiritualidade. 


Continua…

sexta-feira, 4 de outubro de 2024

A CAIXA DE PANDORA — O MITO E A REALIDADE

NÃO ESPEREIS O JUÍZO FINAL; ELE SE REALIZA TODOS OS DIAS.

 

"Abrir a Caixa de Pandora" é uma metáfora para ações que desencadeiam consequências maléficas e irreversíveis. 

Segundo a mitologia grega, Pandora ("aquela que tem todos os dons") foi criada por Hefesto e Palas Atena a mando de Zeus, que queria castigar Prometeu ("aquele que pensa antes") por roubar o fogo dos deuses e dá-lo aos homens. 

Depois de ganhar um dom de cada divindade de Olimpo, Pandora recebeu de Zeus uma caixa que jamais deveria ser aberta e a missão de seduzir Epimeteu ("aquele que pensa depois"). Encantado com a beleza da moça e ignorando as advertências do irmão, Prometeu, sobre aceitar presentes do deus dos deuses, Epimeteu tomou a moça como esposa (e eu que achava que "presente de grego" tinha a ver com a lenda do Cavalo de Troia). 
 
Quando criou a mulher, Deus também criou a curiosidade. A curiosidade levou Pandora a abrir a caixa e libertar todos os males que recaíram sobre a humanidade. Mas a esperança, que é "a última que morre", ficou presa no fundo da caixa, talvez para nos dar forças para lutar contra as adversidades, mesmo que o mal muitas vezes vença o bem.
 
Revisito essa fábula por três motivos: 1) sempre gostei de mitologia; 2) muita gente usa essa metáfora sem saber sua origem; 3) insistir no erro esperando produzir um acerto é a melhor definição de imbecilidade que eu conheço. 
 
Em momentos distintos da ditadura, Pelé e o general Figueiredo alertaram para o perigo de misturar brasileiros com urnas em eleições presidenciais. Ambos foram muito criticados, mas o tempo provou que eles estavam certos: a cada dois anos, os eleitores fazem nas urnas, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez, por curiosidade. E como ensinou o Conselheiro Acácio (personagem do romance O Primo Basílio), as consequências vêm sempre depois. 
 
A ditadura militar implantada pelo golpe de 1964 durou 21 longos anos. A reabertura, lenta e turbulenta, não se deveu ao "espírito democrático" dos presidentes-generais Geisel e Figueiredo, mas ao ronco das ruas e à pressão da imprensa, que se intensificaram em 1984, depois que uma manobra de bastidor sepultou a emenda Dante de Oliveira

Em janeiro de 1985 Tancredo Neves derrotou Paulo Maluf por 480x180 votos de um colégio eleitoral formado por 686 deputados, senadores e delegados estaduais. A exemplo da Viúva Porcina (aquela que foi sem nunca ter sido), a raposa mineira entrou para a história como nosso primeiro presidente civil desde João "Jango" Goulart, mas quis o destino que baixasse ao hospital horas antes da cerimônia de posse e morreu 38 dias e 7 cirurgias depois.

Tancredo levou para a sepultura a esperança de milhões de brasileiros e deixou de herança um neto que envergonharia o país e um combo de puxa-saco dos militares, oligarca da politica de cabresto nordestina, escritor, poeta e acadêmico que se chamava José Ribamar Ferreira de Araújo Costa, mas era conhecido como José Sarney

Sem o carisma e o traquejo administrativo do finado, Sarney tentou descascar o formidável abacaxi econômico (inflação, dívida externa e desemprego nas alturas) através de uma série de pacotes de medidas econômicas baseadas no congelamento de preços e salários. Ao final de sua aziaga gestão, a inflação estava em 4.853% ao ano, mas os prefeitos haviam voltado a ser eleitos diretamente, a Constituição Cidadã fora promulgada (aumentando de 4 para 5 a duração de seu mandato) e a primeira eleição presidencial direta desde 1960, realizada.   
 
Em 15 de novembro de 1989, o cardápio de postulantes ao Planalto oferecia 22 opões, incluindo Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola. E o que fez esclarecido eleitorado ao quebrar o jejum de urna de 29 de urna? Escalou Lula e Fernando Collor para disputar o 2º turno. O caçador de marajás de mentirinha venceu o desempregado que deu certo, mas o envolvimento no esquema PC lhe rendeu um impeachment.
 
Observação: Em maio do ano passado, o STF condenou Collor a 8 anos e 10 meses de reclusão, mas ele continua livre, leve e solto graças a um pedido de vista apresentado pelo ministro Dias Toffoli na véspera do último carnaval. Em contrapartida, qualquer "reles mortal" que acessar o Xwitter durante a suspensão ordenada pelo ministro Alexandre de Moraes corre o risco de ser multado em R$ 50 mil. Dá para acreditar numa coisa dessas?
 
Com a deposição do Rei-Sol, o baianeiro e namorador Itamar Franco foi promovido a titular, nomeou Fernando Henrique ministro da Fazenda e editou o Plano Real, cujo sucesso pavimentou o caminho que levou o grão-duque tucano a vencer o pleito presidencial de 1994 no 1º turno. Em 1997, picado pela mosca azul, sua alteza comprou a PEC da reeleição

Como quem parte, reparte e não fica com a melhor parte é burro ou não tem arte, o tucano de plumas vistosas disputou a reeleição em 1998 e foi eleito no 1º turno, mas em 2002, sem novos truques para tirar da velha cartola, não conseguiu eleger seu sucessor.
 
Após três derrotas consecutivas, Lula venceu José Serra e deu início aos 13 anos, 4 meses de 12 dias de lulopetismo corrupto que só foi interrompidos em 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff, a inolvidável gerentona de araque

Num primeiro momento, a troca de comando pareceu uma lufada de ar fresco numa catacumba: depois de mais de uma década ouvindo garranchos verbais de um ex-retirante semianalfabeto e frases desconexas de uma mandatária incapaz de juntar lé com cré numa frase que fizesse sentido, ter um presidente que sabia falar – e que até usava mesóclises – era um refrigério.
 
Temer conseguiu reduzir a inflação (que havia retornado firme e forte sob Dilma) e aprovar o Teto de Gastos e a Reforma Trabalhista, mas seu prometido "ministério de notáveis" se revelou uma notável agremiação de corruptos e sua "ponte para o futuro", uma patética pinguela. 

A conversa de alcova gravada à sorrelfa por Joesley Batista só não derrubou o vampiro do Jaburu porque sua tropa de choque – capitaneada pelo deputado Carlos Marun – comprou votos das marafonas da Câmara para escudá-lo das "flechadas de Janot". Apesar do desgaste, o nosferatu claudicou como "pato manco" até o final do mandato-tampão e transferiu a faixa para Jair Bolsonaro. 
 
Sem a proteção do manto presidencial, o vampiro que tinha medo de fantasma chegou a ser preso, mas foi socorrido pelo desembargador Ivan Athié, então presidente da 1ª Turma do TRF-2, que havia sido afastado do cargo durante 7 anos por suspeitas de corrupção e venda de sentenças, mas fora reintegrado em 2011, quando o STF trancou o processo contra ele. E viva a Justiça brasileira!
 
Ao acompanhar o golpe de Estado que levou Napoleão III ao poder, Karl Marx concluiu que a história acontece como tragédia e se repete como farsa. O Barão de Itararé dizia que político brazuca é um sujeito que vive às claras, aproveita as gemas não despreza as cascas, e o saudoso maestro Tom Jobim (que era brasileiro até no nome), ensinou que o Brasil não é para principiantes. E com efeito. 
 
Em 2018, nenhum dos 13 postulantes ao Planalto empolgava, mas por que se arriscar a acertar com Geraldo Alckmin, Álvaro Dias, Henrique Meirelles ou João Amoedo quando se podia pode errar com certeza escalando para o embate final um mau militar e parlamentar medíocre travestido de "outsider antissistema" e um patético bonifrate do então ex-presidiário mais famoso do Brasil?

Em 2022, as opções era ainda menos atraentes — sobretudo depois que o "establishment" fulminou a quimérica "terceira via". Mas, de novo: por que correr o risco de acertar votando em Simone Tebet, em Felipe D'ávilaou mesmo em Ciro Gomes (situações desesperadoras justificam medidas desesperadas) quando se podia errar com certeza despachando Lula e Bolsonaro para o 2º turno?
 
Tanto num caso como no outro a maldita polarização fez com que tanto a merda quanto as moscas permanecessem as mesmas. A diferença é que, em 2018, a parcela minimamente pensante do eleitorado se viu obrigada a apoiar o ex-capitão para evitar que o país fosse presidido pelo fantoche do presidiário, e em 2022, precisou embarcar na falaciosa "Frente Democrática", capitaneada pelo então ex-presidiário "descondenado", para evitar mais 4 anos (ou sabe-se lá quantos) sob a batuta do refugo da escoria da humanidade.
 
Há males que tempo cura, males que vêm para pior e males que pioram com o passar do tempo. Lula 3.0 é uma reedição piorada das versões 1 e 2, e como como nada é tão ruim que não possa piorar, o macróbio petista cogita disputar a reeleição em 2026 (que os deuses nos livrem tanto dessa desgraça quanto da volta do capetão-golpista).
 
As consequências da inconsequência do eleitorado tupiniquim são lamentados todos os dias, inclusive por quem abriu a Caixa de Pandora achando que estava escolhendo o menor de dois males - o que se justifica quando e se não há outra opção. E tanto em 2018 quanto em 2022 havia alternativas; só não viu quem não quis ou não conseguiu porque sofre do pior tipo de cegueira que existe. 
 
Observação: Um levantamento feito pelo portal g1 apurou que 61 pessoas com mandados de prisão em aberto (leia-se fugitivos da polícia) se candidataram a prefeito ou a vereador nas eleições deste ano. A maioria dos casos envolve dívida de pensão alimentícia, mas há suspeitos de estelionato, roubo, homicídio e estupro. 
 
Reza uma velha (e filosófica anedota) que Deus estava distribuindo benesses e catástrofes naturais pelo mundo que acabara de criar, quando um anjo apontou para o que seria futuramente o Brasil e perguntou: "Senhor, por que destinastes a essa porção de terra clima ameno, praias e florestas deslumbrantes, grandes rios e belos lagos, mas não desertos, geleiras, vulcões, furações ou terremotos?" E Deus respondeu: "Espera para ver o povinho filho da puta que vou colocar aí."
 
Políticos incompetente e/ou corruptos que ocupam cargos eletivos não brotam nos gabinetes por geração espontânea; se eles estão lá, é porque foram eleitos por ignorantes polarizados, que brigam entre si enquanto a alcateia de chacais se banqueteia e ri da cara deles. 
 
Einstein achava que o Universo e a estupidez humana eram infinitos, mas salientou que, quanto ao Universo, ele ainda não tinha 100% de certeza. Alguns aspectos de suas famosas teorias não sobreviveram à passagem do tempo, mas sua percepção da infinitude da estupidez humana merece ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta. 
 
Não há provas de que boas ações produzam bons resultados – a "lei do retorno" é mera cantilena para dormitar bovinos – mas sabe-se que más escolhas costumam gerar péssimas consequências, como prova e comprova a história desta republiqueta de bananas: nossa independência  foi comprada, a Proclamação da República foi um golpe militar (o primeiro de muitos), o voto é um "direito obrigatório", nossa democracia é uma piada e o sistema político está falido. 
 
Desde 1889, 35 brasileiros alcançaram a Presidência pelo voto popular, eleição indireta, linha sucessória ou golpe de Estado (o número depende de como alguns casos específicos, como presidências muito breves ou interinas, mas isso não vem ao caso neste momento). Oito integrantes dessa seleta confraria – começando pelo primeiro, Deodoro do Fonseca – deixaram o cargo prematuramente, e dos cinco que foram eleitos pelo voto direto desde a redemocratização, dois acabaram impichados. 

Dos mais de 30 partidos políticos que mamam nas tetas dos fundos eleitoral e partidário (ou seja, são bancados pelo suado dinheiro dos "contribuintes"), nenhum representa os interesses da população, e alguns são verdadeiras organizações criminosas. 

O Brasil de hoje lembra aquelas fotos antigas de reis africanos, que imitavam os trajes e trejeitos dos governantes de nações mais evoluídas e recebiam aulas de civilização dos oficiais do Império Britânico, mas achavam que para se transformar em soberanos civilizados bastava copiar as vestes e adereços daqueles que lhes falavam das maravilhas da Rainha Vitória ou de Napoleão III. 

O resultado se vê nas fotografias. As mais clássicas mostram negros magros, ou gordíssimos, com uma cartola de segunda-mão na cabeça, calças rasgadas ou remendadas, pés descalços ou calçados com uma bota só, velha e sem graxa. Imaginavam-se nobres, esses coitados, iguais a seus pares europeus, mas, junto com as novas roupas e os acessórios, continuavam usando colares feitos de ossos, pulseiras de metal e argolas na orelha ou no nariz, enquanto eram roubados até o último papagaio pelos que supostamente vieram ensiná-los a ter valores cristãos, avançados e democráticos.
 
O Brasil aparece na foto como uma democracia de Primeiro Mundo, mas a realidade do dia a dia mostra pouco mais que uma cópia barata e malsucedida do artigo legítimo. Nossas eleições são subordinadas a todo tipo de patifaria, do voto obrigatório ao anacrônico horário eleitoral "gratuito", passando por deformações propositais que entopem a Câmara Federal com políticos das regiões que têm meia dúzia de eleitores. 

O resultado é um monumento à demagogia, à corrupção e à estupidez. Acordos políticos são urdidos na surdina por parlamentares que votam com base em seus interesses pessoais. Milícias e fações criminosas têm representantes no Congresso, nas Assembleias Legislativas estaduais e nas Câmaras Municipais. Candidatos só entram em algumas regiões se tiverem proteção dos criminosos, e os moradores são "convidados" a votar na "turma da casa".
 
Os direitos dos cidadãos representam a área mais notável das semelhanças com reis africanos. Nunca houve tantos direitos escritos nas leis nem o poder público foi tão incompetente para mantê-los. O Congresso não representa o povo que o elegeu para tal, e há uma recusa sistemática em combater o crime por parte de nove entre dez políticos com algum peso. Com quase 50 mil assassinatos por ano, o Brasil é um dos países onde a vida humana tem menos valor. 
 
Se nossas instituições funcionassem – e suas excelências não se cansam de dizer que elas funcionam –, a Câmara teria aberto pelo menos um dos quase 150 pedidos de impeachment contra Bolsonaro, e o Centrão não teria transformado a ocupação do Orçamento num processo de bolsonarização das instituições. Pode passar pela cabeça de alguém que exista democracia num país como esse? 
 
Quando nossos nobres parlamentares perderam a credibilidade e o mais alto cargo do funcionalismo público federal passou a ser ocupado por uma sequência de mandatários que, noves fora Fernando Henrique — já foram presos ou respondem a processos criminais, o Judiciário se tornou nosso último bastião. Mas faz tempo que as opiniões e os vieses político-partidários dos eminentes togados (que deveriam ser isentos, imparciais e apartidários) se tornaram públicos e notórios.
 
O Supremo poderia nos ter livrado do aspirante a golpista em diversas oportunidades (motivos para tal não faltaram), mas as excelências que tudo decidem – do destino dos presidentes ao furto de codornas — acharam melhor dar tempo ao tempo, apostando na sapiência inigualável dos eleitores. 

É fato que Alexandre de Moraes impediu a consumação do golpe, mas também é fato que ele já deveria ter tirado de circulação o "mito" dos extremistas de direita, que mesmo inelegível até 2030 faz pose de cabo eleitoral de luxo e articula com seus comparsas no Congresso uma improvável (mas não impossível) anistia a si e aos golpistas do 8 de janeiro. 
 
Como o chanceler Charles De Gaulle não disse, mas a frase lhe é atribuída, "le Brésil n’est pas un pays serieux". 
 
Continua...