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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

HUMOR À BRASILEIRA VS HUMOR À PORTUGUESA

A VIDA É CURTA DEMAIS PARA LEVAR TUDO A FERRO E FOGO. SE VOCÊ NÃO PUDER RIR DE SI MESMO, ME CHAME QUE EU RIO POR VOCÊ.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que foi firmado em 1990 entrou em vigor no Brasil em 2009 e se tornou obrigatório a partir de 2016 (em Portugal, a obrigatoriedade começou em 2015) nasceu com o propósito de aproximar e uniformizar a ortografia dos países lusófonos. Mas a tarefa não é simples, quanto mais não seja porque a língua natal faz parte da cultura de cada povo. 


A “Última Flor do Lácio”, como o poeta Olavo Bilac se referiu à língua portuguesa, é idioma oficial em Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Guiné Equatorial, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Só que os falantes de cá nem sempre — ou quase nunca — entendem perfeitamente o que falam os de lá e de acolá. E vice-versa.


Além de a cultura brasileira ser diferente, o próprio português falado aqui pelas nossas bandas está longe de ser uniforme. São comuns as variações de pronúncia, vocabulário e gramática conforme a região, a faixa etária, o grupo social e a situação de comunicação. Um paulista que estiver no Rio de Janeiro e quiser comprar “coxão mole”, por exemplo, deverá pedir “chã de dentro”; se estiver em Belém do Pará e quiser “carne moída”, terá de pedir “picadinho”.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Tem sido fabuloso o inverno brasileiro de 2026. Os presidentes do Senado e da República flertaram, namoraram ou se desentenderam, não por motivos políticos, mas para ganhar eleição ou dinheiro. O milagreiro — agora de chapéu — celebrou outra semeadura imaginária e prometeu que será ainda mais farta a colheita sucessivamente adiada desde 2024. Em agosto, garantiu que a picanha para todos estava prestes a descer do palanque em que se esconde desde a campanha de 2022. Até agora só deu as caras em churrascos no Palácio da Alvorada. Ocorrências espantosas animaram o inverno que vai terminando. Lula vive ensinando que quando um não quer dois não brigam, e que não há guerra que resista a uma conversa regada a cerveja no botequim da esquina. Mas agora anda provocando Donald Trump com desafios que o gringo valentão teme aceitar. Como se viu no desfile de 7 de Setembro, tropas armadas com carabinas, trabucos e facões deixam claro qual é a superpotência militar do subcontinente. É bom não mexer com o Brasil. Se mexerem com o País do Carnaval, aí estão a China, a Rússia, o MST e a agricultura familiar para enquadrar a extrema direita. Aparentemente insensatos, movimentos na seita lulista apenas reafirmam que, num inverno eleitoral, convém cumprir disciplinadamente as ordens do chefe que tudo sabe e tudo vê. Para que Fernando Haddad reprise em São Paulo o naufrágio de 2022, por exemplo, Lula ordenou à acriana Marina Silva e à sul-matogrossense Simone Tebet que disputem vagas no Senado discursando com sotaque de Piracicaba. Ao vice-presidente Geraldo Alckmin coube tornar-se o principal cabo eleitoral de José Dirceu. Janja parece ter guardado para as últimas horas da caça ao voto o trunfo que ensaiou ao longo do inverno: recitar com aquela voz de sessentona tatibitate os dois xingamentos em inglês que conseguiu decorar. Oitentão, Lula jura manter o tesão dos 30. O que anda piorando neste inverno é a memória do Biden brasileiro. Ele jurou, por exemplo, que nem sabia quem era a facilitadora de negociatas Roberta Luchsinger, comparsa do filho Lulinha. “Nunca vi essa mulher”, garantiu na sabatina na Globo. É possível que o buquê de fotos em que o presidente e a vigarista aparecem juntos seja parte de algum projeto secreto que logo mostrará ao mundo a sofisticação da inteligência artificial à brasileira. Como emergiram mais bandalheiras promovidas em parceria por Roberta, pelo filho Lulinha e por Marcola do Lula, seu chefe de gabinete, Lula pediu de volta a sala ao lado da sua. Mas faz de conta que mal conheceu o concorrente do Marcola do PCC. Com o estranhíssimo inverno entrando em seu último mês, muita gente imaginou que já vira coisas demais. Esses ignoram que a Era da Corrupção, inaugurada há quase 25 anos pela chegada da seita petista ao poder federal, transformou o Brasil numa espécie de clube dos cafajestes reservado a figurões que se julgam condenados à perpétua impunidade. Nunca faltaram representantes do Legislativo e do Executivo. A entrada de ministros do Supremo no bando dos que topam tudo por dinheiro transformou em questão de tempo o 15 de setembro de 2026. Daqui a muitas décadas, os brasileiros que tinham neste fim de inverno mais de 15 anos de idade e pelo menos 10 neurônios na cabeça continuarão lembrando com desoladora nitidez o que aconteceu no que deveria ter sido uma sessão extraordinária do STF convocada para tratar dos crimes cometidos pelo ministro Alexandre de Moraes. Que Vargas Llosa, que nada. Que García Márquez, que nada. Perto do que se viu e ouviu, os assombros eternizados pelos gênios do realismo mágico são coisa de principiante pouco imaginoso. No tribunal que existiu até o começo do século, nem haveria caso a julgar: juízes corruptos só agiam nos campos de futebol. O plenário do Supremo era reservado a homens honrados. Se as trapaças da sorte ali infiltrassem um Alexandre de Moraes ou um Dias Toffoli, o corpo estranho seria expulso em meia hora pela maioria esmagadora de juristas decentes. Nem precisariam meter-se em patifarias: bastaria abrirem a boca ou redigirem um parágrafo. No documento em que tentou livrar-se das provas e evidências empilhadas pela Polícia Federal, por exemplo, Moraes cometeu mais de 50 atentados à língua portuguesa. Não pode mais posar de juiz por ter usado seus poderes ou para tentar manter em atividade a usina de dinheiro sujo administrada por Daniel Vorcaro. Como sofre de um profundo apreço por castigos adicionais, merece ser matriculado num curso de alfabetização de adultos e comparecer às aulas carregando a guilhotina que amputa todos os erres finais de verbos no infinitivo. Ele ainda acha que tem muita gente “pra prendê” e muita multa “pra aplicá”. Toffoli considerou-se impedido de participar do julgamento. Moraes não viu problema algum em absolver-se, sustentar que o criminoso é o ministro André Mendonça, que ousou divulgar o que a Polícia Federal descobriu ao devassar um celular pertencente a Vorcaro. Moraes, que se considera perseguido por inimigos da democracia, tenta acreditar que não é um cadáver insepulto. Fingem acreditar na fantasia outras três cavalgaduras que, na terça-feira, tentaram matar de vergonha o Supremo e o Brasil decente. O líder do grupo é o decano Gilmar Mendes. A caminho da aposentadoria, ele exibe o humor de quem vive perdendo a namorada. Também por isso, forma uma dupla afinada com o cinismo debochado do comunista Flávio Dino. Devoto de Mao Tsé-tung até a morte do ditador chinês, Dino aprecia assaltos noturnos a geladeiras e passeios em carros blindados emprestados pelo Judiciário maranhense. Completa o quarteto Cristiano Zanin. O que há na cabeça do novato? Pelo visto, apenas fios de cabelo que, enquanto agonizam, são penteados com muito capricho pelo ex-advogado de Lula. Os destroços produzidos pela passagem das quatro cavalgaduras do apocalipse transformaram o plenário do STF num terreno baldio que empilha trechos dos Dez Mandamentos, alguns dos sete pecados capitais, páginas rasuradas dos códigos legais, cláusulas de contratos suspeitíssimos e, claro, exemplares destroçados da Constituição. Foram encontradas também duas anotações manuscritas. “Lula é Moraes, Moraes é Lula”, dizia uma delas. A outra já pertence ao patrimônio popular: “Gilmar: cuide de não encher meu saco”. Talvez coubesse aí um “Vossa Excelência”. Mas só se deve tratar com polidez quem merece respeito. Não é o caso de chicaneiros que fizeram do STF uma instituição agonizante.

Texto publicado por Augusto Nunes na revista OESTE sob o título "AS BESTAS DO APOCALIPSE — CAVALGADURAS DE TOGA DESMORALIZAM O SUPREMO".



Em quase todos os países europeus existem variedades linguísticas regionais que, em maior ou menor grau, foram suplantadas pelo idioma nacional. Na Itália, por exemplo, as diferenças linguísticas podem ser bastante marcantes entre regiões e até entre cidades. Mas convém não confundir dialeto com sotaque: embora um mesmo dialeto possa ser pronunciado com diferentes sotaques, o sotaque diz respeito principalmente à pronúncia, enquanto o dialeto envolve também vocabulário, gramática e outros aspectos estruturais da língua.


Em Portugal, quem tentar furar uma fila será mandado para o “rabo da bicha”. As “pastelarias” não vendem pastéis de carne, queijo, palmito etc., mas pães doces, bolinhos e outras guloseimas do gênero. Lá, não se vai necessariamente ao dentista, mas ao estomatologista. Puto é garoto, e canalha pode designar um grupo de crianças. Autocarro é ônibus; comboio é trem; e “almeida” pode designar, coloquialmente, um gari. Bica é cafezinho; cueca é o que no Brasil chamamos de calcinha, e “pica” pode significar injeção. Boceta é uma pequena caixa para guardar miudezas; punheta, em “punheta de bacalhau”, é um prato; cacete é pão; e grelo é o rebento ou haste de certas plantas, usado inclusive na culinária.


No Brasil, com 5.570 municípios espalhados por mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, não seria de esperar que mais de 200 milhões de habitantes falassem todos do mesmo jeito e se comportassem do mesmo modo. Mas convém lembrar que tamanho não é documento: o território da Itália é muito menor que o brasileiro e, ainda assim, apresenta uma enorme diversidade linguística.


Por essas e outras, não espere que alguém nascido e criado no município gaúcho de Santa Vitória do Palmar, na divisa com o Uruguai, entabule uma conversa perfeitamente fluente com um baiano de Ibó, na divisa com Pernambuco. Para ter uma ideia melhor do ponto que quero ressaltar, assista a este vídeo.


Tecnicamente, a língua é um sistema de comunicação compartilhado por uma comunidade; o idioma é a língua reconhecida como própria de determinado povo ou país; e os dialetos são variedades linguísticas associadas, entre outros fatores, a determinadas regiões ou grupos. No entanto, outras peculiaridades além do sotaque e das expressões idiomáticas “personalizam” a maneira como o idioma que herdamos dos colonizadores é falado no Brasil muda conforme a localização geográfica, a história, o grupo social e a situação em que é utilizado.


As variações podem ser diatópicas (regionais), diacrônicas (históricas), diastráticas (sociais) e diafásicas (estilísticas). Os dialetos, por sua vez, são variedades linguísticas associadas sobretudo a diferenças regionais, embora possam sofrer a influência de fatores históricos e sociais.


Palavras como “mandioca”, “aipim”, “macaxeira”, “castelinha”, “uaipi”, “maniva”, “maniveira” e “pão-de-pobre”, entre outras, designam a mesma raiz tuberosa, mas são usadas em diferentes regiões do Brasil. O chamado R caipira, característico de várias regiões do interior do país, é resultado de uma história linguística complexa, que envolve a formação do português brasileiro, o contato com línguas indígenas e africanas e a evolução regional da língua. Sua origem, portanto, não cabe numa explicação tão simples quanto a de que os indígenas “não conseguiam pronunciar” o R dos portugueses.


Isso também ajuda a explicar por que determinadas regiões desenvolveram pronúncias bastante particulares, inclusive fenômenos como a transformação de determinados sons em outros. E, com a chegada dos italianos a São Paulo, o sotaque paulistano incorporou características da pronúncia dos imigrantes, especialmente em bairros tradicionais como Moóca, Brás e Bexiga.


Já o R carioca, especialmente em determinadas posições, apresenta características que foram historicamente associadas à influência portuguesa e francesa, entre outras. O S chiado do Rio também tem uma história ligada ao português europeu. Em matéria de sotaque, como se vê, até a história da imigração deixa suas digitais.


Um poeta escreveu: “Entre doidos e doídos, prefiro não acentuar.” Às vezes, não acentuar parece ser mesmo a solução. Eu, por exemplo, prefiro a carne ao carnê e o coco ao cocô. Mas nem sempre a ausência do acento é favorável: pense no cágado, por exemplo, cujo nome pode ficar bastante comprometido quando alguém pensa que o acento é mera decoração. E há outros casos, claro. Eu não me medico; vou ao médico. Quem baba não é a babá. Você precisa ir à secretaria para falar com a secretária. Seus pais vêm do mesmo país?


A diferença na palavra pode ser apenas um acento — e assento não tem acento. Assento fica embaixo; acento, em cima. Embaixo é junto; em cima, separado. Seria maio o mês mais apropriado para usar maiô? Quem sabe mais entre a sábia e o sabiá? O que tem a pele do Pelé? O que há em comum entre o camelo e o camelô? O que será que a fábrica fabrica? E tudo que se musica vira música?


Será melhor lidar com as adversidades da conjunção “mas” ou com pessoas más? Será que tudo que eu valido se torna válido? E, entre o amem e o amém, que tal os dois? Na sexta, comprei uma cesta logo após a sesta. 


É a primeira vez que tu não o vês. Vão tachar de ladrão se taxar muito alto a taxa da tacha. Asso um cervo na panela de aço que será servido pelo servo. Vão cassar o direito de casar de dois pais no meu país. Por tanto nevoeiro, portanto, a cerração impediu a serração. Para começar o concerto, tiveram que fazer um conserto. Ao empossar, permitiu-se à esposa empoçar o palanque de lágrimas.


Uma mulher vivida é sempre mais vívida, profetiza a profetisa. Calça, você bota; bota, você calça. Oxítona é proparoxítona. Na dúvida, com um pouquinho de contexto, garanto que o público entenda aquilo que publico. E paro por aqui, sem mais delongas, que esta lista já está longa.


Toda essa conversa sobre língua nos leva, finalmente, ao assunto que motivou esta postagem: o humor. Da mesma forma que as palavras, as piadas e as anedotas também mudam conforme o país Ou seja, é quase a mesma língua, mas não é necessariamente o mesmo riso.


No Brasil, o humor costuma estar muito ancorado no cotidiano, no regional e nos personagens. A gente ri do sotaque mineiro, da tia do zap, do carioca malandro, da sogra, do sujeito atrapalhado. É um humor frequentemente baseado na identificação imediata. Por isso, o stand-up comedy encontrou terreno fértil por aqui: um sujeito sozinho, contando situações da própria vida, pode sustentar uma apresentação inteira. E não raro entram em cena o corpo, a careta, a imitação, o improviso e, sobretudo, a velocidade.


Em Portugal há uma forte tradição de humor baseado na observação social, na ironia, no jogo de palavras e no absurdo. Menos personagem necessariamente caricato; mais situação banal levada às últimas consequências. Uma reunião de condomínio, um telejornal, uma repartição pública: basta pegar uma coisa perfeitamente normal e esticá-la até ela se tornar surreal. E as referências históricas, políticas, literárias e culturais podem desempenhar um papel importante. No caso de Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, estudos sobre suas crônicas identificam justamente o uso recorrente da ironia, da intertextualidade, dos contrassensos e do nonsense.


No Brasil, “português” ainda é, há décadas, personagem recorrente de piada — geralmente por causa de supostos mal-entendidos linguísticos ou de uma pretensa ingenuidade. O próprio Ricardo Araújo Pereira já observou que muitas dessas piadas podem nascer justamente de diferenças na maneira de interpretar as palavras e as situações. E o caminho inverso também existe: em Portugal, o brasileiro frequentemente aparece como personagem humorístico por causa do sotaque, das novelas, dos estereótipos culturais e das diferenças de comportamento.


Há ainda uma diferença interessante de ritmo. No humor brasileiro, é comum a sucessão rápida de gags e punchlines. No humor português, muitas vezes a graça pode depender mais da ironia, da pausa, da construção da situação e do contraste entre o que é dito e a maneira como é dito. Mas convém ter em mente que isso é tendência, não regra. 


Há humoristas brasileiros de humor seco, cerebral e cheio de ironia, assim como há portugueses perfeitamente escrachados. O humor, felizmente, não respeita fronteiras nem tratados internacionais. Até porque o próprio intercâmbio entre os dois países mostra que as diferenças podem ser matéria-prima para a comédia. Gregório Duvivier e Ricardo Araújo Pereira, por exemplo, já transformaram as diferenças linguísticas entre Brasil e Portugal em espetáculo conjunto.


No fundo, talvez a diferença possa ser resumida assim: O brasileiro frequentemente quer fazer você rir junto. O português, muitas vezes, quer fazer você perceber o absurdo da situação — e rir depois. Ou, para simplificar ainda mais: Piada brasileira: “Olha o que aconteceu COMIGO.” Piada portuguesa: “Olha como NÓS somos ridículos.”


Se você não entendeu a piada, não se preocupe. Pode ser apenas uma questão de sotaque. Ou de acento. Ou de assento. Ou, quem sabe, de português mesmo. 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

O MONSTRO DE OLHOS VERDES

O CIÚME É UMA FORMA DE AMOR OU APENAS UMA FORMA DE POSSE?

Costuma-se dizer que “ciúme não é de todo ruim: a pessoa se sente valorizada”. No entanto, não se trata de uma opinião unânime. Para muita gente, “ciúme é uma merda” — e ponto final.


Mas afinal, o que é o ciúme? Uma reação natural à ameaça de perder alguém que amamos? Uma característica inata do Homo sapiens, desenvolvida ao longo da evolução para proteger parceiros, vínculos e descendentes? Ou simplesmente uma construção cultural das sociedades que adotaram a monogamia como modelo predominante?


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Ao decidir não decidir, os ministros do STF deram margem a dois finais, nenhum dos dois feliz; na melhor das hipóteses, Alexandre de Moraes passará de juiz implacável a investigado precário; na pior, as suspeitas sobre o relacionamento potencialmente criminoso do magistrado com Daniel Vorcaro serão ignoradas. 

A primeira alternativa seria melhor, pois abriria a perspectiva de que outras togas sob suspeição fossem investigadas. A segunda é pior porque representaria o suicídio do Supremo, que cavou a própria cova em fevereiro, ao ignorar as 35 milhões de razões que a PF apresentou para a abertura de um inquérito contra Dias Toffoli, e, ao blindar Moraes, joga terra em cima de si mesmo.

Não são apenas os erros que matam uma instituição, mas o modo como reagem seus membros depois de cometê-los. Certas togas aprendem tanto com seus erros que flertam com a tentação de cometer mais alguns. Todos são iguais perante a lei, mas são piores os que, tendo a obrigação de proteger a Constituição, afrontam os princípios constitucionais.

Moraes estreou na vida pública como promotor. Foi um exímio acusador. No Supremo, tornou-se um juiz implacável. Forçado pelas circunstâncias a advogar em causa própria, aplica mal os princípios que fizeram seu sucesso. Em vez de se defender, ataca. Rigoroso com os outros, pede ao país que seja condescendente com ele. Sua defesa tem 44 páginas, chama de "farsa" o relatório da PF, sustenta que André Mendonça encomendou o documento por "motivação político-eleitoral" e que é vítima de "vingança" de uma toga bolsonarista pelas condenações de Bolsonaro e seus cúmplices no complô do golpe.

Mendonça, de fato, não é cristão que se cheire. Virou boneco inflável em comício de Flávio Bolsonaro. Mas isso não apaga as 52 mensagens endereçadas por Daniel Vorcaro ao celular do ministro mais poderoso do Supremo até o ano passado. Se pudesse, Moraes diria: não recebo mensagem de bandido. Cuidadoso, preferiu construir um teste de múltipla escolha: Letra A) o conteúdo do bloco de notas de Vorcaro pode não ter sido enviado a alguém; letra B) pode ter sido remetido a diversas pessoas; letra C) as mensagens talvez tenham sido apagadas antes de serem visualizadas; letra D) as mensagens talvez nunca tenham sido efetivamente lidas. Por fim, Moraes realçou que não há vestígio de mensagem enviada por ele a Vorcaro. Portanto, os diálogos são fantasiosos".

O ministro não mencionou que trocou de celular. Como o aparelho não foi cedido nem apreendido pela PF, a tese da fantasia vale até certo ponto: o ponto de interrogação. A dúvida pede investigação. Moraes considera-se merecedor de uma estátua por ter ajudado a salvar a democracia. O problema é que virou pardal de si mesmo. Começou a sujar a calva de bronze ao avalizar o contrato de R$ 131 milhões do Master com o escritório da mulher. Descobre agora que o Olimpo não tem escadas.


A resposta, como quase sempre acontece quando o assunto é comportamento humano, parece ser: um pouco de cada coisa. Pesquisadores que estudam o comportamento sob uma perspectiva evolucionista consideram que o ciúme pode ter desempenhado uma função adaptativa: diante da ameaça real ou imaginária de um rival, ele poderia estimular comportamentos destinados a preservar uma relação considerada valiosa. Daí surgiriam estratégias de “retenção do parceiro”, que podem ir de atitudes perfeitamente inofensivas — demonstrar afeto, aproximar-se, reforçar o vínculo — até comportamentos de controle e, nos casos extremos, violência.


Mas Isso não significa que o ciúme seja um “programa genético” inevitável, nem que comportamentos destrutivos possam ser justificados pela evolução. A própria pesquisa mostra que a intensidade e a forma de manifestação do ciúme variam conforme a cultura, a experiência de vida, as características do relacionamento e até as atitudes de cada indivíduo diante da infidelidade.


Discussões acadêmicas à parte, o ciúme já rendeu muito boa literatura. Ele aparece em textos religiosos antiquíssimos — inclusive no livro de Números, onde existe uma curiosíssima “lei dos ciúmes”, destinada a lidar com a suspeita de infidelidade conjugal. O marido podia levar a mulher diante do sacerdote para que sua suspeita fosse submetida a um ritual. Ou seja: a humanidade já havia descoberto, há muitos séculos, que o ciúme também precisava de burocracia.


Na literatura clássica, o tema aparece sob inúmeras formas. Está por trás de conflitos da Ilíada, explode em episódios do Decameron, de Boccaccio, e reaparece, com roupagens diferentes, em incontáveis histórias de amor, traição e vingança. Mas sua expressão literária mais conhecida talvez seja mesmo Otelo, de William Shakespeare.


Embora a ideia não fosse original — Shakespeare baseou-se em uma narrativa italiana anterior —, o tratamento que deu ao tema, a construção dos personagens e, sobretudo, a exploração dos mecanismos psicológicos envolvidos fizeram da peça uma das obras-primas da literatura universal.


Otelo é, essencialmente, uma peça sobre o ciúme. Resumindo — e simplificando bastante —, a história começa em Veneza. Otelo, um general mouro a serviço da República, casa-se secretamente com Desdêmona, filha de um importante senador veneziano. Entre seus subordinados está Iago, que guarda ressentimento contra o comandante por ter sido preterido numa promoção em favor do jovem Cássio.


Iago é um sujeito ressentido, inteligente e perverso. E descobre uma arma muito mais poderosa que uma espada: a dúvida. Por meio de insinuações, meias-verdades e mentiras cuidadosamente construídas, ele faz Otelo acreditar que Cássio é amante de Desdêmona. O que começa como uma suspeita vai ganhando corpo na imaginação do general até se transformar, para ele, numa certeza. E é aí que Shakespeare mostra o verdadeiro poder destrutivo do ciúme.


Otelo deixa de enxergar o mundo como ele é e passa a enxergá-lo como o ciúme determina que ele seja. Cada gesto de Desdêmona pode ser interpretado como prova de infidelidade; cada coincidência, como evidência; cada explicação, como tentativa de encobrir a verdade.


O ciúme já não precisa de fatos. Ele próprio produz os fatos de que necessita. Iago percebe isso perfeitamente e pronuncia uma das frases mais famosas da literatura: “Oh, tende cuidado com o ciúme. É um monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta.”


A expressão “monstro de olhos verdes” entrou para a linguagem corrente como metáfora do ciúme. E há uma ironia deliciosa na imagem: o monstro alimenta-se justamente da pessoa que o abriga. Quanto mais ciúme, mais sofrimento; quanto mais sofrimento, mais motivos imaginários para sentir ciúme.


Shakespeare volta ao assunto pouco depois, quando Emília observa que certas pessoas “não são ciumentas por causa de alguma coisa: são ciumentas porque são ciumentas”. É uma observação extraordinariamente moderna. O ciúme pode deixar de ser reação a uma ameaça e transformar-se em um sistema autossustentável de suspeitas. É exatamente aí que a literatura encontra a psicologia.


O ciúme começa, muitas vezes, como uma emoção perfeitamente compreensível: “Tenho medo de perder alguém que considero importante.” O problema aparece quando o medo se transforma em vigilância; a vigilância, em controle; o controle, em posse; e a posse, em violência. E talvez seja justamente por isso que o ciúme tenha sobrevivido tão bem ao longo da história humana. Ele toca em algo bastante primitivo: o medo da perda.


Perder o parceiro, perder a atenção, perder o afeto, perder o lugar que ocupamos na vida de alguém. Em termos evolucionistas, a ameaça de um rival poderia representar perda de investimento, de proteção, de parceria ou, em sociedades ancestrais, problemas relacionados à reprodução e à sobrevivência da prole. Não é por acaso que a ciência trata o ciúme como uma emoção associada à ameaça de perda de um relacionamento valioso.


Mas seria simplista concluir que tudo se resume à biologia. A cultura entra em cena com enorme força. O que é considerado traição varia entre sociedades; o que um casal considera aceitável ou inaceitável também varia; e até a importância atribuída à exclusividade sexual e emocional pode mudar conforme a época e o grupo social.


Além disso, as pessoas não sentem ciúme exatamente da mesma maneira. Há quem sofra mais diante da possibilidade de uma ligação emocional do parceiro com outra pessoa; há quem se angustie principalmente diante da possibilidade de uma relação sexual. Pesquisas encontram diferenças médias entre homens e mulheres em determinados cenários, mas também mostram que essas diferenças são influenciadas por fatores culturais, biográficos e relacionais. Portanto, talvez a pergunta correta não seja se o ciúme é “inato” ou “cultural”.


É provável que exista uma predisposição humana para reagir à ameaça de perder um vínculo importante, enquanto a cultura, a personalidade e a história de cada pessoa determinam boa parte da maneira como essa predisposição será expressa. Em outras palavras: a natureza pode fornecer o pavio; a cultura e a experiência decidem, em boa medida, o que será feito com a pólvora.


E, por falar em literatura, há outro personagem que sempre me vem à lembrança quando penso no assunto: Luzia Cambará, de O Continente, primeira parte de O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. De todos os volumes da obra, o episódio que mais me fascina é justamente “A Teiniaguá”, narrativa em que surge Luzia, personagem extraordinariamente complexa, sedutora e inquietante.


Luzia é casada com Bolívar Cambará e parece exercer sobre ele uma espécie de fascínio que mistura desejo, medo, sofrimento e ciúme. É uma personagem de personalidade perturbadora, marcada por uma sensualidade quase ameaçadora e por uma relação peculiar com o sofrimento alheio. 


Seu apelido, “Teiniaguá”, não é gratuito: a Teiniaguá pertence à tradição lendária gaúcha da Salamanca do Jarau: uma princesa moura transformada em uma criatura semelhante a uma salamandra, com uma pedra preciosa na cabeça, cuja beleza e fascínio atraem os homens. A lenda foi registrada por João Simões Lopes Neto em Lendas do Sul e serviu de inspiração para Érico Veríssimo.


Luzia é, portanto, uma espécie de Teiniaguá humana: fascinante e perigosa. E aqui aparece uma diferença interessante em relação a Otelo. Em Shakespeare, o ciúme é essencialmente destrutivo para aquele que o sente e, sobretudo, para aquele que dele se torna vítima. Otelo acredita na infidelidade de Desdêmona, deixa-se consumir pela suspeita e acaba assassinando a mulher que ama — que, ironicamente, jamais o traiu.


Em O Tempo e o Vento, o ciúme de Bolívar assume outra configuração. Luzia não é simplesmente uma vítima passiva da paixão possessiva do marido. Ela parece provocar, explorar e até se alimentar desse sofrimento. O ciúme, nesse caso, participa do próprio jogo de poder e sedução entre os personagens. São, portanto, duas faces literárias de uma mesma emoção: Desdêmona é vítima do monstro de olhos verdes. Luzia parece brincar com ele.


E há uma curiosidade pessoal nessa história que talvez seja imperdoavelmente pouco científica, mas absolutamente verdadeira. No seriado O Tempo e o Vento, exibido pela Globo em 1985, e de Carla Camurati interpretando Luzia. O rosto da atriz ficou indelevelmente associado à personagem. Depois disso, tornou-se praticamente impossível encontrar Carla Camurati na televisão ou no cinema sem que aquela Luzia me viesse imediatamente à lembrança. Talvez seja esse o poder da literatura — e, por extensão, do cinema e da televisão: determinados personagens deixam de pertencer exclusivamente ao autor e passam a morar na memória de quem os conheceu.

Voltando ao ciúme, não creio em amor completamente desprovido de qualquer forma de ciúme. Afinal, se alguém ocupa lugar importante em nossa vida, é natural que a possibilidade de perdê-lo provoque alguma inquietação. Mas há uma diferença enorme entre “não quero perder você” e “você não pode pertencer a mais ninguém”. No primeiro caso, existe afeto; no segundo, existe existe posse. E talvez esteja aí a fronteira que realmente importa.


Um pouco de ciúme pode ser apenas o reconhecimento de que o outro é importante. Quando moderado e transformado em diálogo, pode até reforçar a percepção de valor e compromisso dentro de uma relação. Mas, quando se transforma em vigilância, desconfiança permanente, controle, isolamento ou ameaça, deixa de ser demonstração de amor e passa a ser uma forma de sofrimento — para quem sente e, principalmente, para quem é submetido a ele.


No fundo, amar alguém talvez seja aceitar uma coisa bastante incômoda: ninguém possui ninguém. O outro permanece porque quer permanecer, e talvez seja justamente isso que torne uma relação amorosa tão bonita — e tão assustadora. Porque, no amor, não existe contrato de propriedade. Existe escolha. Todos os dias.


E que saudades da Carla Camurati...

sexta-feira, 24 de abril de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — PSICOTRÔNICA, CONTROLE DA MENTE E EQMs

NA POLÍTICA, BURRICE NÃO É OBSTÁCULO. 

As primeiras pesquisas sobre telepatia, percepção extrassensorial, controle do pensamento e estados alterados de consciência foram reunidas sob o título de “psicotrônica” e se tornaram as precursoras da ciência noética moderna. 


Durante a Guerra Fria, a URSS investiu mais de um bilhão de dólares no estudo do controle da mente e psicovigilância. Ao saber disso, o governo dos EUA iniciou uma série de programas ultrassecretos de pesquisa neuromilitar, mas o fiasco do Stargate rendeu sérias críticas à CIA, que foi acusada de gastar rios de dinheiro em pseudociência para treinar espiões-fantasmas.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Durante o namoro e o noivado, é meu bem pra lá e meu bem pra cá. Com o divórcio, a história muda: meus bens pra cá e meus bens pra lá.

Mutatis mutandis, o mesmo raciocínio vale para a política: as campanhas são pavimentadas com promessas que os candidatos sabem que jamais cumprirão. Como observou Bismarck, nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada.

O ceticismo é saudável, mas convém lembrar que há custos eleitorais e institucionais reais para quem quebra promessas sistematicamente. A desonestidade política não é lei da natureza; é, muitas vezes, escolha.

Romeu Zema foi além dos seus interesses eleitoreiros ao divulgar um vídeo satírico contra ministros do STF. O problema não é a crítica à corte — essa é legítima, necessária e constitucionalmente protegida. O problema é que o ataque ultrapassou a instituição e atingiu Gilmar Mendes e Dias Toffoli como pessoas.

Essa distinção importa: figuras públicas no exercício do poder têm o limiar de proteção à honra deliberadamente elevado, justamente para não sufocar o debate democrático. Mas esse limiar existe — e, segundo a avaliação jurídica do episódio, pode ter sido cruzado. No esforço de crescer na corrida presidencial com retórica anti-Supremo, Zema pode ter levado sua fala às fronteiras da criminalidade, não por criticar a corte, mas por ofender pessoalmente dois de seus membros.

A crítica mais substancial, porém, recai sobre o inquérito das fake news, que foi "desvirtuado" ao longo dos anos e passou a abrigar casos sem relação direta com seu objetivo original. Os números falam por si: sete anos de duração, escopo progressivamente ampliado e relatoria nas mãos de Xandão — um ministro diretamente mencionado em parte dos episódios investigados.

Um inquérito conduzido pelo próprio tribunal para proteger seus membros cria um conflito de interesses estrutural que é difícil de defender, independentemente da posição política de quem o aponta. O STF existe para conduzir inquéritos, mas também para encerrá-los. Manter indefinidamente um instrumento jurídico multiuso, acionado de forma seletiva para apaziguar aflições internas da corte, não é exercício de jurisdição — é exercício de poder sem freios adequados.

A independência do STF é um valor constitucional inegociável. Mas ela não imuniza a instituição de críticas sobre seus próprios procedimentos. Confundir a defesa legítima da corte com a blindagem de comportamentos questionáveis de seus membros — ou, no sentido oposto, confundir a crítica aos ministros com ataque ao Estado de Direito — é o equívoco que alimenta tanto o populismo anti-institucional quanto o corporativismo judicial.

O debate brasileiro ganharia em qualidade se aprendesse a separar essas camadas.


Afirmar que as experiências de quase morte resultam do aumento da atividade cerebral nos últimos instantes de vida é fácil. O difícil é explicar como alguém que esteve clinicamente morto consegue lembrar como é estar morto. 


No livro Apagar a Morte, o médico e professor Sam Parnia escreve que um paciente que havia sofrido uma parada cardíaca descreveu com exatidão o trabalho dos médicos e enfermeiros e disse que foi submetido duas vezes ao choque dos desfibriladores — exatamente o número de tentativas feitas para ressuscitá-lo, embora ele não tivesse como saber disso porque seu cérebro estava inativo.


Em "The Spiritual Doorway in the Brain", o neurologista Kevin Nelson anota que os limites entre os estágios da consciência são tênues, e as fronteiras entre vigília, sono REM e sono não-REM, tão difusas que em momentos de crise o sono invade a vigília e causa os efeitos descritos nas EQMs, como se o cérebro acionasse um interruptor. Em Ciência da Vida Após a Morte, os autores abordam evidências científicas sobre a consciência após a morte, incluindo a mediunidade, as EQMs e a reencarnação. Vale assistir também a esta entrevista com o autor de Death is but a dream.


Desmaios podem desencadear EQMs, já que a sensação de perigo altera a pressão sanguínea nos olhos, deixa a visão borrada nas bordas e cria a impressão de que há um túnel com luzes. Já a sensação de "sair do corpo" pode ser explicada pelo "desligamento" da região cerebral responsável pela percepção espacial — quando a pessoa entra em REM, o cérebro ativa o mesmo mecanismo que produz os sonhos, o que explica as alucinações.


Continua... 

sábado, 4 de abril de 2026

QUANDO A TOGA JÁ NÃO ESCONDE OS GLÚTEOS

TEM SEMPRE UM DIA EM QUE A CASA CAI…

Diálogos entre Daniel Vorcaro e sua ex-noiva obtidos pela PF indicam que o ministro Alexandre de Moraes esteve com o banqueiro em datas próximas às viagens que realizou em jatos executivos dele e de seu cunhado, Fabiano Zettel.


Segundo levantamento feito pela Folha a partir de dados da ANAC e do DECEA da Aeronáutica, o magistrado e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, constam do registro de passageiros de terminais executivos no Aeroporto de Brasília. 


Em 21 de maio, véspera da viagem de Moraes de Brasília a São Paulo em um jato da Prime Aviation — empresa da qual Vorcaro foi sócio e que também é dona de sua mansão em Brasília — o ex-banqueiro disse à ex-noiva que estava com o ministro e o senador Ciro Nogueira. Na noite seguinte, Moraes aparece como passageiro em um hangar de aviação executiva no Aeroporto de Brasília às 19h. Segundo a Folha, 33 minutos depois, um avião da Prime Aviation decolou rumo ao Aeroporto de Catarina, voltado para jatos privados. 


Quatro dias depois, Vorcaro comenta com a ex-noiva que terá um encontro com Moraes e que resolveu organizar um jantar com ele, Viviane e outros dois convidados (o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e sua mulher, Patrícia Abravanel). Passados três dias, Moraes e senhora voaram de Brasília ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, a bordo de um jato Embraer pertencente à Prime Aviation.


Zettel é tratado pelos investigadores do caso Master como operador financeiro do esquema e controlador do fundo Arleen — que comprou por R$ 35 milhões a fatia do Resort Tayayá que pertencia ao ministro Dias Toffoli. Moraes alegou jamais ter viajado em aeronaves de Vorcaro e Zettel ou na companhia deles. O escritório de Viviane disse contratar “diversos serviços de táxi aéreo”, entre os quais o da Prime Aviation, mas alegou que Vorcaro e o cunhado jamais viajaram com integrantes da banca de advogados, e que todos os valores foram abatidos dos honorários advocatícios nos termos contratuais.


O histórico de conversas entre Vorcaro e a ex-noiva que chegou ao Congresso termina em 13 de agosto de 2025. Até a primeira prisão do banqueiro, em 17 de novembro, não há registro de diálogos para a conferência de outras convergências de datas, mas o levantamento da Folha revelou que casal Moraes viajou em jatos ligados ao grupo Master até um mês antes da segunda prisão de seu CEO — no Aeroporto Internacional de Guarulhos tentando embarcar em um jato rumo a Dubai com escala em Malta, o que foi encarado pelos investigadores como uma tentativa de fuga. 


Moraes procurou o presidente do BC, Gabriel Galípolo, pelo menos quatro vezes para discutir sobre o Master no período em que a tentativa de compra da instituição pelo BRB enfrentava resistências crescentes dentro da instituição. Àquela altura, já se sabia também que o contrato de Viviane com o banco previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos, com atuação em frentes no Judiciário, Legislativo e órgãos do Executivo, bem como a atuação do escritório junto ao BC, ao Cade, à PGFN e à Receita Federal. Todos esses órgãos informaram não haver registros da atuação de Viviane em nome do Master.


A discrepância entre o tamanho da remuneração e a falta de rastros administrativos deu novo fôlego às dúvidas sobre a natureza real dos serviços prestados. O BC afirmou que encontros com altas autoridades não são documentados, a despeito de Galípolo ter declarado publicamente que todas as discussões sobre o caso Master foram registradas pelo órgão regulador.


A pressão aumentou ainda mais em março, quando o conteúdo extraído do celular de Vorcaro revelou a troca de mensagens com Moraes em 17 de novembro do ano passado — dia de sua primeira prisão. Nos textos, o banqueiro relata tentativas de salvar o banco junto a investidores árabes e perguntava ao ministro: “Conseguiu bloquear?”.


Ao cruzar os céus em jatos executivos de Vorcaro, Moraes encostou sua reputação na fabulosa história de Ícaro, que voou com asas de penas coladas com cera, subiu alto demais e, maravilhado com a própria ascensão, ignorou o poder do Sol. No caso de Xandão, não há asas de cera, mas a analogia se impõe: nem todo prestígio resiste ao brilho intenso, e quanto mais alto se voa, mais arriscado se torna o deslumbramento. Sobre a alegada compensação dos serviços aéreos com os honorários advocatícios, o "xerife" que ama cobrar explicações e detesta ter que se explicar chamou a notícia de "fantasiosa". 


O ministro demora a notar o derretimento de sua reputação, mas não está sozinho. Toffoli, que ganhou a suprema toga de Lula em 2009, como recompensa pelos "bons serviços prestados ao Sindicato dos Metalúrgicos de SBC e ao PT" — a despeito de seu currículo ser abrilhantado por duas reprovações em concursos para juiz de primeira instância — viajou nas asas da Air Master para ir ao resort Tayayá e em pelo menos mais cinco voos patrocinados por empresários amigos. Procurado, defendeu-se com o silêncio.


Num primeiro momento, Moraes disse jamais ter voado em aeronaves de Vorcaro. Acuado pelos fatos, alegou que o serviço foi abatido dos honorários milionários que o escritório da mulher recebia do Master, mas faltou explicar por que ele fruiu das mordomias proporcionadas pelo contrato promíscuo. As obscenidades dele e do Maquiavel de Marília diferem entre si, mas têm um ponto em comum: a arrogância de quem acha que pode fazer o que bem entende sem dar explicações plausíveis. Vivendo numa realidade paralela, os semideuses togados demoram a notar que as togas já não lhes escondem os glúteos.


O jurista Potter Stewart, que atuou como juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos, pronunciou num julgamento uma frase que se tornou célebre: "Não sei definir obscenidade, mas eu a reconheço quando vejo." Mesmo quem não entende de despudor sabe reconhecer a pornografia quando a vê, e magistrado supremo que voa em aeronave de mafioso que tinha um banco é obscenidade que nenhuma toga consegue esconder.