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quarta-feira, 17 de junho de 2026

MISTÉRIOS DA MEIA-NOITE — OS DEZ (OU QUINZE?) MANDAMENTOS

PER ASPERA AD ASTRA.

O fato de a Bíblia ser uma compilação de lendas e relatos fantásticos não diminui sua influência, mas é importante não confundir mitos com evidências factuais.


O literalismo religioso leva à aceitação de dogmas e crenças arcaicas em detrimento de descobertas científicas, o que dá razão, cada qual à sua maneira, a dois iconoclastas do século XX: a Einstein, que teria afirmado não ter certeza sobre a infinitude do universo, mas estar convicto da infinitude da estupidez humana; e a Saramago, cujo romance premiado com o Nobel sugere que o pior tipo de cegueira é a mental.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Daniel Vorcaro foi tirado do isolamento do presídio federal de Brasília no pressuposto de que colaboraria com a Justiça, mas suas duas propostas de delação foram rejeitadas. 

Instado a decidir onde vai enfiar o preso, o relator da encrenca, ministro André Mendonça, terá que desagradar a alguém, pois ninguém quer hospedar o ex-banqueiro em Brasília.

No momento, Vorcaro está trancado numa sala especial da Superintendência da PF em Brasília — mesma em que ficou Bolsonaro —, mas a PF requisitou sua transferência para uma cela comum. Ele poderia ser devolvido ao presídio federal, mas seus gestores alegam que a unidade foi concebida para isolar chefes de facções criminosas, não presos temporários.

Chamado de Papudinha, o 19º Batalhão da Polícia Militar do DF seria uma alternativa, mas ele abriga o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, subornado por Vorcaro, que negocia um acordo de delação, e o comando do presídio alega informalmente que não consegue garantir a ausência de contato entre corrupto e corrompido.

André Mendonça percebe que tirar gênios da garrafa é mais fácil do que colocá-los de volta. No limite, pode manter Vorcaro sob os cuidados da PF, autorizando a realocação do preso numa cela convencional, no mesmo prédio. Só não faria sentido enviar o ex-quase-futuro-delator para a prisão domiciliar, como deseja a defesa.

A conferir.


O conhecimento é uma ferramenta e, como tal, seu impacto está nas mãos do usuário. Experimentos heterodoxos — parte deles publicados em periódicos revisados por pares, parte ignorados pelo establishment científico — sugerem que o crescimento de plantas, o comportamento de animais em cativeiro e até processos celulares podem responder à presença e à intenção humanas de maneiras que nossos modelos ainda não explicam satisfatoriamente.


Se o mantra "a mente domina a matéria" é mais do que uma frase de efeito extraída dos livros de autoajuda é uma questão em aberto — sobretudo quando a física quântica demonstra que, no mundo subatômico, a simples intenção de observar uma partícula altera seu comportamento. Se esse princípio opera apenas na escala do elétron ou ressoa em níveis maiores da realidade é algo que a ciência ainda não comprovou.


Controlar o "verdadeiro poder do pensamento" exige treinamento, e a história sugere que pouquíssimos indivíduos se tornaram verdadeiros mestres nisso — e esse pode ser o elo perdido entre a ciência moderna e o misticismo antigo. A história abençoou a humanidade com Buda, Jesus, Maomé e outras mentes profundamente iluminadas, cuja compreensão dos mistérios espirituais e intelectuais pode superar muito do que hoje chamamos de entendimento. No entanto, os livros mais estudados do mundo são justamente os menos compreendidos.


Einstein e Hawking foram gênios modernos reverenciados por seus pares, mas quase ninguém lê Ptolomeu, Pitágoras e Arquimedes — apesar de seu conhecimento científico ser impressionante. Os antigos egípcios dominavam na prática princípios que a ciência ocidental levaria milênios para formalizar — como se o conhecimento fosse uma roda que a humanidade insiste em reinventar. E o trabalho dos primeiros alquimistas era suficientemente sofisticado para ser considerado precursor do que hoje chamamos de química.


Toda cultura tem seu próprio livro sagrado — para os cristãos, a Palavra é a Bíblia; para os muçulmanos, o Alcorão; para os judeus, a Torá; e assim por diante. No fundo, todos guardam estruturas semelhantes e sobreviveram a tantas turbulências ao longo de milênios graças a suas alegorias, simbolismos e parábolas — que escondem, segundo seus intérpretes mais atentos, um vasto acervo de conhecimentos até hoje incompreendidos, já que a linguagem usada pelos profetas para compartilhar seus segredos seria deliberadamente cifrada.


O que hoje chamamos de Bíblia — mais especificamente o Novo Testamento — consolidou quatro evangelhos canônicos: os de Mateus, Marcos, Lucas e João. Mas isso está longe de ser o quadro completo. Nos primeiros séculos do cristianismo, circularam dezenas de evangelhos apócrifos — entre os quais os de Tomé, Filipe, Maria Madalena e Judas. Em outras palavras, o cristianismo primitivo era mais plural do que a versão "oficial" que chegou até nós.


O Evangelho segundo Marcos diz: "A vós é dado saber os mistérios… mas… todas essas coisas se dizem por parábolas." Os Provérbios advertem que as palavras dos sábios são "enigmas". O Evangelho de João anuncia: "Falarei em parábolas… e direi coisas ocultas", enquanto Coríntios afirma que as parábolas têm duas camadas de significado.


Não por acaso, os monges cristãos estudaram incansavelmente as Escrituras, e os místicos e cabalistas judeus se debruçaram sobre o Velho Testamento durante séculos. O matemático, físico, astrônomo, alquimista e teólogo Isaac Newton — descrito por seus contemporâneos como um "filósofo natural" — escreveu mais de um milhão de palavras na tentativa de decifrar o verdadeiro significado das Escrituras.


Sir Francis Baconque era rosa-cruz e escreveu A Sabedoria dos Antigos — esteve envolvido no projeto da Bíblia King James em que medida exatamente, os historiadores ainda debatem, mas ficou tão convencido de que as Escrituras continham um significado cifrado que criou seus próprios códigos, estudados até hoje. Até mesmo o poeta iconoclasta William Blake sugeriu em seus versos que devemos ler nas entrelinhas: "Nós dois lemos a Bíblia dia e noite, mas tu lês negro onde eu leio branco."


Ao contrário das tábuas com os mandamentos, a formação do cânon não caiu do céu: foi um longo processo que envolveu debates teológicos, disputas políticas e interesses institucionais. Segundo o Êxodo 19–20 e 31–34, o Deus do Velho Testamento entregou a Moisés duas tábuas de pedra com os dez mandamentos. Mas uma anedota clássica do humor judaico, encenada por Mel Brooks no filme History of the World, Part I (1981), condensa com ironia cirúrgica toda a arbitrariedade desse processo: Moisés desce do Monte Sinai carregando três tábuas e anuncia solenemente: "O Senhor, Deus de Israel, deu-vos estes quinze..." — e aí uma das tábuas escorrega e se despedaça no chão — "...dez mandamentos!"

O texto bíblico alimenta essa imaginação porque narra de fato a quebra das tábuas: quando Moisés desce o monte e encontra o povo adorando o Bezerro de Ouro, ele as arremessa com raiva (Êxodo 32:19). Depois, Deus manda esculpir um segundo par (Êxodo 34), que seria a versão guardada na Arca da Aliança.


Ou seja, há de fato duas versões das tábuas na narrativa bíblica — o que torna a piada de Brooks ainda mais inteligente, pois brinca com um elemento que já está no texto original. Continua…

sábado, 8 de fevereiro de 2025

SOBRE PAPAS E ESCÂNDALOS (FINAL)

TALVEZ EXISTA UM DEUS, MAS EU DUVIDO QUE SEJA O DEUS QUE MOISÉS DESCREVEU NO VELHO TESTAMENTO E QUE AS RELIGIÕES PERPETUARAM POR INTERESSES ESCUSOS.

Durante o Renascimento, Inocêncio VIII (r. 1484-1492) e Leão X (r. 1513-1521) abusaram de indulgências para financiar seus luxos e campanhas militares, mas o caso mais notório foi o de Rodrigo Bórgia, nomeado cardeal pelo tio Calisto III e eleito papa no conclave de 1492, quando passou a atender por Alexandre VI

Seus filhos Cesare Lucrécia foram a personificação do nepotismo e da corrupção — ele abandonou o cardinalato para se tornar um líder militar implacável (inspirando Maquiavel a escrever O Príncipe), enquanto ela foi usada como peça de barganha nas alianças do clã, mediante conspirações e casamentos políticos. 

Apesar da fama de cruel e manipuladora, Lucrécia era uma administradora habilidosa e mecenas das artes. Seus atributos negativos podem ter sido exagerados por desafetos e pela propaganda anticlerical da época. Como peça fundamental nas alianças políticas dos Bórgia, ela foi casada três vezes, sempre de acordo com os interesses de sua família. Seu primeiro marido, Giovanni Sforza, foi descartado quando deixou de ser útil; o segundo, Alfonso de Aragão, assassinado em circunstâncias suspeitas (supõe-se que a mando de seu irmão, Cesare Bórgia); o terceiro, Alfonso d’Este, garantiu-lhe uma vida mais estável e respeitável. Apesar das acusações de envenenamento e incesto, sua fama de femme fatale parece ter sido mais fruto da lenda do que da realidade.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Há situações em que virar a página não basta. É preciso arrancá-la. O terceiro mandato de Lula é uma delas, pois prova que eguns mal despachados sempre voltam para nos assombrar. 

Diz um velho ditado que a justiça tarda, mas não falha, No Brasil, ela nem sempre chega, e, quando chega, pode pode mudar de ideia. Foi o que aconteceu com a condenação de Lula, depois que uma epifania revelou ao ministro Fachin, com cinco anos de atraso, que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era a vara competente para processar, julgar e condenar o xamã petista. 

Bolsonaro é outro egun mal despachado. Ele fala como se não estivesse inelegível e já fosse candidato à presidência em 2026. Por mal dos nossos pecados, o PL definiu como prioridade a aprovação do Projeto de Lei Complementar 141/2023, que esvazia a Lei da Ficha Limpa e reduz de 8 para 2 anos o período de inelegibilidade dos condenados por abuso de poder político, como é o caso do refugo da escória da humanidade.

Bolsonaro e outros 39 aspirantes a golpistas estão na bica se tornarem réus no STF. Se for condenado pela 1ª turma por abolição do estado democrático de direito, roubo e venda de joias do acervo da União e falsificação de cartões de vacina contra Covid, o ex-mandatário pode ser agraciado com até 28 anos de prisão. 

As chances de votos divergentes seriam maiores no plenário, já que André Mendonça e Nunes Marques devem suas togas ao capetão. Mas o ministro Luís Roberto Barroso, presidente de turno da Corte, deixou claro que o caso só irá a plenário se o relator (Alexandre de Moraes) assim o desejar. 


Liderada por Martinho Lutero em 1517, a revolta protestante resultou na fragmentação do cristianismo ocidental. O Concílio de Trento (1545-1563) tentou reformar a Igreja, mas a estrutura de poder permaneceu intacta. Com a Revolução Francesa (1789) e a unificação da Itália (1870), o poder político dos pontífices foi reduzido, e o fim dos Estados Papais limitou a Igreja às questões espirituais. Mesmo assim, sua influência persistiu, apesar dos escândalos financeiros e de abusos sexuais que abalaram sua credibilidade do Vaticano.
 
Atualmente, a Igreja Católica tende ao conservadorismo, mas sua história de corrupção e ingerência política continua a influenciar o mundo ocidental — com a omissão de Pio XII diante do avanço do nazismo durante a 2ª Guerra Mundial. A renúncia de Bento XVI, em 2013, foi a primeira desde 1415, quando Gregório XII abdicou ao Trono de Pedro o Concílio de Constança. O primeiro papa a abdicar foi Ponciano (r. 230-235), que foi exilado na Sardenha e morreu em decorrência dos maus-tratos impostos pelo imperador Máximo, e o penúltimo foi Gregório XII (r. 1406-1415), que renunciou para pôr fim à crise que levou a Igreja a ter até três papas disputando a autoridade máxima simultaneamente. 
 
Voltando agora à morte de João Paulo I, o Vaticano informou que sua santidade sofreu um ataque cardíaco enquanto dormia, que seu corpo foi encontrado pela manhã pelo bispo irlandês John Magee, seu secretário pessoal, e que a família se opôs à autópsia. Mais adiante, soube-se que quem encontrou o cadáver foi uma das freiras que cuidavam de afazeres domésticos (e que fez voto de silêncio), que o papa morreu no escritório e que o laudo da autópsia não foi divulgado porque acusou envenenamento. Somada ao breve pontificado (33 dias), essa sequencia de contradições, erros e imprecisões deram azo a diversas teorias conspiratórias. 
 
Passados mais de 40 anos, o mafioso Antoni Raimondi, sobrinho de Lucky Luciano, revelou em seu livro de memórias que envenenou o papa a mando do arcebispo norte-americano Paul Marcinkus, seu primo e então presidente do Banco do Vaticano, para evitar que um fraude financeira bilionária viesse a público. Em In God's Name, o escritor britânico David Yallop anota que plano era drogar o chá que o pontífice tomava antes de dormir, entrar em seus aposentos e lhe administrar uma dose letal de cianeto (versão foi dramatizada por Mario Puzzo e Francis Ford Copolla no terceiro capítulo da imperdível trilogia "The Godfather"), e que o Marcinkus se encarregou pessoalmente dessa tarefa.
 
Marcinkus começou sua carreira como secretário de Estado em Roma e presidiu o Banco do Vaticano de 1971 até 1989. Foi investigado por envolvimento com ações falsas avaliadas em mais de 13 milhões de euros, por participação no escândalo do colapso do Banco Ambrosiano e pelo assassinato do banqueiro Roberto Calvi e do jornalista Mino Pecorelli. Mas as investigações não seguiram adiante por falta de provas de provas, e ele morreu aos 84 anos, no Arizona, sem jamais ter sido formalmente acusado. 
 
Ao longo da história, o nepotismo tem sido uma prática tão comum quanto condenável. Desde os tempos antigos, líderes políticos, religiosos e monarcas favoreceram parentes com cargos, títulos e privilégios, frequentemente à revelia da competência ou do interesse público. O termo, aliás, tem raízes na Igreja Católica, onde papas concediam benesses a sobrinhos ("nipoti"), consolidando um sistema que perduraria por séculos. Mais recentemente, o termo "nepobaby" passou a ser usado para aludir a filhos/parentes de pessoas famosas, que prosperam na carreira graças ao vínculo familiar.
 
Os papas transformaram o nepotismo em arte — caso mais notório foi o de Alexandre VI, mas Júlio IIPaulo III e tantos outros seguiram o mesmo roteiro, distribuindo bispados e fortunas a parentes, muitas vezes sem o menor escrúpulo —, mas muitas monarquias seguiram suas pegadas, garantindo que o sangue valesse mais do que a capacidade. No absolutismo francês, a nobreza se perpetuava com privilégios herdados, enquanto o povo arcava com os custos da corte. No Império Otomano, o sistema de sucessão frequentemente envolvia intrigas e assassinatos dentro da própria família real para garantir que o poder ficasse em mãos "seguras".
 
Com a ascensão das democracias, esperava-se que o mérito finalmente superasse os laços de sangue, mas o nepotismo se adaptou, e dinastias familiares continuam garantindo que o poder permaneça entre os seus — como bem sabe quem acompanha a abjeta política tupiniquim. Nos setores privado e público, filhos de empresários e apadrinhados políticos recebem vantagens que não raro os colocam à frente de candidatos mais qualificados. 
Afinal, vícios e velhos hábitos são difíceis de erradicar.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

AINDA SOBRE PAPAS E ESCÂNDALOS

MEIAS VERDADES BEM CONTADAS PODEM LEVAR ALGUÉM A CULPAR O INOCENTE E APLAUDIR O MENTIROSO.

 

Poder e corrupção sempre andaram de mãos dadas. Na Igreja Católica, a ascensão política e econômica se deu através de alianças com impérios, manipulação de monarcas, interesses escusos e casos de corrupção de deixar a banda podre do Congresso Nacional se roendo de inveja. Mas nada se compara ao pontificado de Alexandre VI (r. 1492-1503), que foi marcado por acusações de nepotismo, promiscuidade, simonia e corrupção. Não à toa, ele é lembrado como o papa mais corrupto de todos os tempos (detalhes nesta postagem).

Pedro, cujo nome original era Simão, foi o primeiro chefe da Igreja Católica, mas jamais recebeu o título de "papa" e foi crucificado por ordem do imperador Nero, o déspota crossdresser, cruel e violento que governou Roma de 54 a 68 e, dizem as más-línguas, assistiu ao grande incêndio dedilhando sua lira e cantando. 

Depois que Calígula foi assassinado, Cláudio subiu ao trono e se casou com Agripina, mãe de Nero, que já tramava a ascensão do filho ao trono imperial. Com a morte "misteriosa" do marido e Nero no poder, a maquiavélica achou que seria a éminence grise, mas morreu esfaqueada a mando do filho, que se suicidou quando o Senado o declarou inimigo público.
 
Nos primeiros séculos do cristianismo, a Igreja conviveu com a perseguição romana. Em 313, o imperador Constantino legalizou a fé cristã, e Silvestre I assumiu o papado no ano seguinte. Com a queda do Império Romano do Ocidente (476), os papas passaram a atuar como líderes políticos, e a Igreja se tornou a instituição mais poderosa da Europa, detendo, inclusive, o poder de coroar e excomungar reis. 

A rivalidade entre pontífices e governantes era flagrante, e a simonia (comercialização de cargos eclesiásticos) e a interferência na política feudal, tão corriqueiras quanto a corrupção na política dos dias atuais. Leão I (r. 461-468) ficou conhecido por convencer Átila a não saquear Roma em troca de uma pilha de saques. Formosus (r. 891-896) foi exumado em 897, vestido com trajes completos, sentado em um trono papal, levado a julgamento e condenado, seus éditos papais foram considerados inválidos, os dedos que ele usava para oficiar sacramentos foram decepados. Seus restos mortais foram jogados no rio Tibre.
 
Consta que o papa João (r. 855-877) teria sido uma mulher, mas não há provas que sustentem essa versão. Em 964, cansados do comportamento corrupto e venal dos pontífices, os romanos guindaram Bento V ao Trono de Pedro, mas ele renunciou quando o Rei Otto elegeu Leão VIII como "antipapa". Já Bento IX foi papa em três ocasiões entre 1032 e 1048 e o
 primeiro a vender papado.
 
Vários papas morreram dias ou semanas depois do conclave — entre os quais Estêvão (752), Damásio II (1048) e Celestino IV (1241) —, mas o reinado mais breve da história foi o de Urbano VII (1590), que durou apenas 12 dias. 

João Paulo I foi encontrado morto em seus aposentos 33 dias após a unção. Na véspera, dizem, ele havia confidenciado a seu secretário que "alguém mais forte e que merecia estar em seu lugar sentou-se a sua frente durante o conclave". Esse alguém era o cardeal polonês Karol Wojtyla, que se tornou João Paulo II (mais detalhe no próximo capítulo).

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

PONTOS A PONDERAR...

DE PENSAR MORREU UM BURRO.

Quem leu O Príncipe sabe que o bem deve ser feito aos poucos e mal, de uma só vez. Mas a récua de muares que atende por "eleitorado" certamente não leu, e repete a cada dois anos o que Pandora fez uma única vez.
 
Churchill ensinou que a democracia é a pior forma de governo, exceto por todas as outras já tentadas, mas ressaltou que o melhor argumento contra ela é uma conversa de cinco minutos com um eleitor mediano. Se tivesse conhecido o eleitor brasileiro, o estadista britânico certamente reduziria esse tempo para 30 segundos.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Em entrevista publicada pelo The New York Times, Bolsonaro disse que estava tão animado com o convite do Trump que nem ia mais tomar Viagra. Mas tomou na tarraqueta: horas depois, alegando que em diversas ocasiões o indiciado manifestou-se favoravelmente à fuga de condenados no caso do 8 de janeiro e admitiu em entrevista a UOL a hipótese de ele próprio "evadir-se e solicitar asilo político para evitar eventual responsabilização penal no Brasil", Moraes indeferiu o pedido de liberação de seu passaporte
O ministro anotou ainda que Zero Três, intermediário do convite da família Trump ao pai, também endossou a defesa da fuga de condenados. Na véspera, a PGR havia se manifestado contra a ida do capetão à posse de seu ídolo, sustentando que a viagem serve ao "interesse privado" do ex-presidente, em contraposição ao "interesse público", que "se opõe à saída do requerente do país". A defesa de Bolsonaro recorreu, mas Moraes manteve sua decisão
A manifestação de Gonet e as decisões de Xandão são prenúncios do que vem pela frente na excursão do refugo da escória da humanidade pelos nove círculos do inferno. Em outras palavras, o que o PGR e o supremo togado disseram foi que não convém fornecer material para a fuga de um ex-presidente da República que frequenta o inquérito do golpe como uma condenação criminal esperando na fila par acontecer. Nesse entretempoBolsonaro escalou Celso Vilardi, um dos criminalistas mais experientes do país, reforçar o time de defensores do indefensável.
 
Em momentos distintos da ditadura, Pelé Figueiredo alertaram para o risco de misturar brasileiros e urnas em eleições presidenciais. Ambos foram muito criticados, mas como contestá-los se lutamos tanto pelo direito de votar para Presidente e elegemos gente como Lula, Dilma, Bolsonaro?
 
Não se sabe como o Brasil estaria hoje se golpe de Estado de 1889 não acontecesse, Ou se a renúncia de Jânio Quadros não levasse ao golpe de 64 e subsequentes 21 anos de ditadura militar. Ou se Tancredo Neves não fosse internado horas antes de tomar posse e batesse as botas 38 dias e 7 cirurgias depois, levando para a sepultura a esperança de milhões de brasileiros e deixando de herança um neto que envergonharia o país e um vice que promoveu a anarquia econômica e administrativa que levou à vitória de um pseudo caçador de marajás sobre um desempregado que deu certo na eleição solteira de 1989.
 
Usamos o tempo verbal "futuro do pretérito" (chamado de "condicional" até 1959) para falar de eventos cuja concretização depende de uma condição ou para fazer pedidos de forma educada. Embora usemos as palavras "pretérito" e "passado" de forma intercambiável no dia a dia, elas possuem nuances diferentes. Assim, o futuro do pretérito é um futuro que poderia ter acontecido, mas não aconteceu porque estava condicionado a algo que não se concretizou. 
 
No imaginário nacional, Tancredo foi o melhor de todos os presidentes, já que, a exemplo da Viúva Porcina no folhetim Roque Santeiro, "foi sem nunca ter sido" — mutatis mutandis, é como nos discursos fúnebres, onde virtudes que o falecido nunca teve são exaltadas. Conta-se que um padre recém-ordenado assumiu sua paróquia um dia antes da morte do prefeito, que era corrupto, rabugento e malquisto pelos locais. Sem elementos para embasar a homília fúnebre, o batina exortou os presentes a relembrar as qualidades do "nosso querido alcaide". Como ninguém se manifestou, a viúva, constrangida, ponderou: "O pai dele era ainda pior."
 
Muita coisa podia dar errado no capítulo final da novela da ditadura. Em 1984, numa conversa com Henry Kissinger, o ainda presidente João Figueiredo confidenciou que uma parte das Forças Armadas apoiava a volta do governo civil e a outra parte estava disposta a tudo para evitar que "os esquerdistas tomassem o país". Figueiredo considerava Tancredo uma pessoa capaz e moderada, mas cercada e apoiada por muitos radicais de esquerda que talvez não conseguisse controlar. 
 
Como estaríamos hoje se Tancredo tivesse presidido o Brasil? The answer, my friends, is blowing in the wind. De 15 de janeiro de 1985 — quando a raposa mineira derrotou o turco lalau, que era apoiado pelos militares, por 480 a 180 votos de um Colégio Eleitoral composto por deputados federais, senadores e delegados das Assembleias Legislativas dos Estados — até 14 de março, quando baixou ao hospital, ecoaram rumores de que os militares não deixariam o presidente eleito tomar posse, e os boatos ganharam força depois o general Newton Cruz revelou que, a três meses da votação, Maluf o havia procurado para propor um golpe 
 
Alguns conspirólogos alardearam que Tancredo havia sido baleado enquanto assistia a uma missa na Catedral de Brasília (faltou luz durante a cerimônia, e alguns presentes disseram ter ouvido um tiro), outros, que ele havia sido envenenado por militares apoiados pela CIA (por uma estranha coincidência, seu mordomo morreu dias depois, vítima de complicações gastrointestinais). A alteração da causa mortis de "infecção generalizada" para "síndrome da resposta inflamatória sistêmica" deixou muita gente com a pulga atrás da orelha — lembrando que alguns anos antes o papa João Paulo I, com apenas 33 dias de pontificado, foi encontrado morto em seus aposentos (após tomar uma mui suspeita xícara de chá0.
 
Observação: No livro "In God's Name", David Yallop popularizou a tese de envenenamento, mas as evidências em que ele se escorou não foram confirmadas pelas investigações, que apontaram "infarto fulminante" como causa mortis. Outras teorias sugerem que o assassinato foi orquestrado por grupos maçônicos ou resultou de uma conspiração envolvendo cardeais que se opunham a suas ideias e às reformas que ele pretendia implementar no Banco do Vaticano. A falta de autópsia e de uma investigação transparente alimentou as teorias conspiratórias, mas a maioria delas se baseia em especulações, rumores e testemunhos duvidosos.
 
A posse de Sarney ecoou como a "gargalhada do diabo" nos estertores da ditadura — que só terminou três anos depois, com a promulgação da Constituição Cidadã, que distribuiu diretos a rodo sem apontar de onde viriam os recursos para bancá-los (e que foi remendada mais de uma centena de vezes em 136 anos, enquanto a constituição norte-americana, que tem apenas 7 artigos, recebeu 27 emendas em 237 anos).
 
Observação: A palavra "direito" é mencionada 76 vezes na Carta, enquanto "dever" aparece apenas quatro e "produtividade" e "eficiência". duas e uma vez, respectivamente. O que esperar de um país que tem 76 direitos, 4 deveres, 2 produtividades e 1 eficiência? Na melhor das hipóteses, uma política pública de produção de leis, regras e regulamentos que quase nunca guardam relação com o mundo real.
 
O último dos 5 generais-presidentes da ditadura — que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo e que daria um tiro no coco se fosse criança e seu pai ganhasse salário-mínimo — se recusou a transferir a faixa para Sarney (faixa a gente transfere para presidente, não para vice, e esse é um impostor), lembrando que o obelisco da política de cabresto nordestina trocou a ARENA pelo MDB para integrar a chapa de oposição.

Sarney nem imaginava o tamanho da encrenca que seria assumir a presidência sem ter indicado os ministros nem participado da elaboração do plano de governo, mas herdado dos militares uma inflação de 220% a.a. Durante sua aziaga gestão, ele enfrentou mais de 12 mil greves e foi vítima de pelo menos um atentado. Em março de 1990, além da faixa presidencial, ele entregou a Collor uma superinflação de 1.800% a.a. e mudou seu domicílio eleitoral do Maranhão para o recém-criado estado do Amapá, onde conseguiu se eleger senador. Em 2014, aos 83 anos, deixou a vida pública para se dedicar à literatura em tempo integral — conta-se que um belo dia a governadora Roseana Sarney telefonou para informar que um dilúvio havia deixado metade do Maranhão debaixo d’água, e ouviu do pai a singela pergunta: "Sua metade ou a minha?
 
Tancredo, Ulysses e Covas lideraram a campanha pelas "Diretas Já", que reuniu mais de 1 milhão de pessoas no Anhangabaú em 1984. O movimento fracassou, mas o político mineiro foi escolhido pelo Colégio Eleitoral. Se ele, e não Sarney, tivesse presidido o Brasil de abril de 1985 a março de 1990, talvez a estabilidade econômica alcançada em 1994 com o Plano Real (conquista que Lula 3 vem tentando reverter) tivesse chegado mais cedo, livrando-nos dos nefastos planos Cruzado, Bresser, Verão e Collor.

Talvez Collor não se elegesse presidente e Lula assistisse à visita de Obama ao Brasil pela TV — sem à oposição ao "Rei-Sol", é possível que xamã da petralhada continuasse como deputado federal (cargo para o qual ele foi eleito em 1986) ou se aboletasse no Senado. Sem Collor, sem Zélia nem sequestro dos ativos financeiros e o congelamento da poupança, que derrubou quase à metade a venda de imóveis residenciais. 
Sem essas medidas heterodoxas e a sucessão de planos econômicos escorados no congelamento de preços e salários, a redução da miséria brasileira poderia ter começado muito antes, e hoje mais gente teria casa para morar.

Nada garante que seria assim, mas poderia ter sido. Só que não foi. 

Triste Brasil.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

HABEMUS PAPAM

 

O título desta postagem advém do fato de que a indesejável mistura de política com religião trouxe matizes de conclave a uma sucessão presidencial que a imbecilidade chapada do eleitorado tupiniquim já havia convertido em pleito plebiscitário. Dito isso, segue o texto que escrevi no início da tarde de ontem — antes de conhecer o resultado das urnas, portanto —, convicto de que, parafraseando um inusitado rompante de coerência do ainda presidente, o candidato que tivesse mais votos venceria a disputa. 

 

Uma vez que a polarização infeccionou mais de 80% da récua de muares travestidos de eleitores, é possível (e até provável) que seu candidato a presidente, caríssimo leitor, tenha vencido a disputa. Em sendo o caso, meus parabéns. Ao Brasil, minhas condolências. 


A menos que o imprevisto tenha voto decisivo na assembleia dos acontecimentos, o país do futuro que nunca chega amargará mais quatro anos de desgoverno abjeto e ímprobo (nunca é demais lembrar que maus governantes não brotam nos gabinetes por geração espontânea; se estão lá, é porque foram votados, e se você votou nessa caterva, não pode reclamar de não estar devidamente representado).

 

Mudando de um ponto a outro, depois de ser nomeado bispo por João XXIII e cardeal pelo Papa Paulo VI, Albino Luciani foi eleito papa na terceira votação do conclave que se seguiu à morte de Paulo VI, superando Giuseppe Siri por 99 votos a 11, e entrando para a História como o primeiro pontífice desde Clemente V a recusar uma coroação formal e o pioneiro na adoção de um nome papal duplo — que ele escolheu para homenagear seus dois antecessores, Paulo VI e João XXIII.

 

João Paulo I morreu 33 dias depois de ter sido guindado ao Trono de Pedro e um dia após ter confidenciado ao bispo John Magee, seu secretário, que: "Alguém mais forte que eu, e que merece estar neste lugar, estava sentado à minha frente durante o conclave. Ele virá, porque eu me vou". Esse alguém era o cardeal polonês Karol Wojtyla, que se tornou João Paulo II


Na época, chegou-se a comentar à boca pequena que o finado tinha bom coração, mas não estava à altura do ambiente maquiavélico do Vaticano, e que sua morte decorreu de um complô. Consta que ele sentiu fortes dores no peito durante o chá da tarde do dia 27 de outubro de 1978, e que foi encontrado morto, na manhã seguinte, pela freira que o acordava havia muitos anos (e que fez voto de silencio após esse trágico episódio).  No entanto, a versão oficial do Vaticano dá conta de que um dos secretários do papa — Diego Lorenzi — teria encontrado o corpo, e que a causa mortis fora um infarto do miocárdio (associado às terríveis pressões do cargo). 

 

Essas e outras declarações inconsistentes deram azo a diversas teorias da conspiração. No livro In God's Name, o escritor britânico David Yallop afirma que o papa foi morto porque estava prestes a desvendar escândalos financeiros que envolviam o Vaticano. Passados mais de 40 anos, o mafioso Antoni Raimondi, sobrinho de Lucky Luciano, revelou em seu livro de memórias que envenenou o João Paulo I a mando de seu primo, o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus — então presidente do Banco do Vaticano. A ideia era evitar que o pontífice de tornar públicos documentos que comprovavam uma fraude financeira bilionária (ainda segundo o mafioso, João Paulo II não revelou o escândalo do banco do Vaticano por temer pela própria vida, mas isso é outra conversa).


O plano era drogar o chá que João Paulo I tomava antes de dormir, entrar em seus aposentos e lhe administrar uma dose letal de cianeto (essa versão foi dramatizada por Mario Puzzo e Francis Ford Copolla no terceiro capítulo da imperdível trilogia "The Godfather"), e que o arcebispo Marcinkus se encarregou pessoalmente dessa tarefa. Raimondi diz só ficou na porta, pois assassinar o papa com as próprias mãos lhe garantiria um bilhete só de ida para o inferno (o curioso código de ética da Onorata Società será discutido em outra oportunidade).

 

Marcinkus começou sua carreira no Vaticano como secretário de Estado em Roma e chegou a ser um dos guarda-costas de Paulo VI. Em 1971, ele foi nomeado presidente do banco do Vaticano (cargo que ocupou até 1989). Quando assumiu o posto, foi interrogado pelo departamento da Justiça norte-americano sobre seu envolvimento com ações falsas avaliadas em € 13.07 milhões (de um total estimado quase € 1 bilhão), mas não houve provas suficiente para avançar com a investigação  até porque, sob o pretexto de não quebrar o sigilo que envolvia as operações conduzidas pelo banco, o arcebispo se recusou a revelar detalhes sobre o esquema de corrupção. 

 

Observação: Em 1982, Marcinkus foi implicado no escândalo do colapso do Banco Ambrosiano e, mais adiante, nos assassinatos de Roberto Calvi e do jornalista Mino Pecorelli, que vinha escarafunchando a podridão que cercava o banco do Vaticano. Mas sua participação na emissão das ações falsas e nos assassinatos e raptos relacionados com o escândalo não restaram provadas, e ele morreu aos 84 anos, no Arizona, sem ter sido formalmente acusado por crime algum.

 

Voltando ao aviltante cenário político tupiniquim, o desafio, para os pesquisadores, será explicar como este país alcançou um nível de deterioração das instituições democráticas que seria inimaginável em 2018, quando vinha de um traumático processo de impeachment e de um momento marcado por sucessivas acusações de corrupção.

 

As manifestações em prol da deposição de Dilma começaram em 2013, mas a ascensão de Temer ao Planalto, em 2016, não produziu um sentimento de esperança como o de 1992, quando Fernando Collor foi apeado e Itamar Franco assumiu a Presidência. As forças democráticas, desorganizadas, sem lideranças de expressão nacional nem programa político e tendo o PT na oposição, produziram um enorme vazio político, nenhuma renovação frente à dualidade eleitoral, que vinha desde 1994 (entre PT e PSDB), nem quaisquer soluções programática para os problemas nacionais que surgiram após a trágica crise de 2015 e 2016. 

 

Segundo o historiador, youtuber e suplente de deputado federal Marco Antonio Villa, o Brasil virou uma enorme delegacia de polícia, com um entra-e-sai constante de acusados. As propostas de ação político-econômica foram deixadas de lado. Mas não chegamos aonde chegamos por acaso. O desafio, agora, é encontrar o caminho da superação desse descalabro — que, aliás, pode estar numa insuspeita xícara de chá.


Que Deus nos ajude.