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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

A ORIGEM DO TERMO "VIGARICE" E O GOLPE DO BILHETE PREMIADO

LÁGRIMAS NÃO SÃO ARGUMENTOS.

Como dito no post anterior, a engenharia social não é o golpe em si, mas a técnica de persuasão mediante a qual o vigarista alcança seu objetivo.

Vigarista remete a vigário, que o Pai dos Burros define como: 1) aquele que faz as vezes de outro ou o substitui; vicário; 2) padre que substitui o prelado de uma paróquia; 3) aquele que trapaceia outrem; velhaco, vigarista.

Em uma crônica publicada no jornal “O Sol”, em 1926, o poeta português Fernando Pessoa anotou que um proprietário rural chamado Manuel Peres Vigário teria comprado gado e pagado os vendedores com notas falsas de 100 mil réis. O episódio ficou conhecido como “os contos de réis do Manuel Vigário” e, mais adiante, como conto do Vigário.

Outra versão alude a uma disputa pela imagem de Nossa Senhora entre as paróquias de Pilar e da Conceição, em Ouro Preto (MG). Segundo ela, um dos párocos sugeriu amarrar a santa a um burro e soltá-lo entre as duas igrejas — o animal foi para a igreja de Pilar, que ficou com a imagem até que se descobriu que o dono do burro era o próprio vigário da paróquia.

Um terceira hipótese remonta ao final do século XIX, quando atuava na Espanha, em Portugal e no Brasil uma quadrilha que enviava cartas a famílias abastadas, relatando passagens dramáticas e comoventes. Em meio às lágrimas, assomava a história de uma suposta herança deixada em nome do destinatário, que era chancelada por um insuspeito religioso.

Há no Brasil ao menos três registros de pessoas que receberam a tal correspondência, todas assinadas pelo vigário Manuel Suarez Lopes, da suposta Iglesia Parroquial de Santa Maria, na província espanhola de Pamplona. Para cuidar dos trâmites legais do testamento, as vítimas mandavam um valor em dinheiro e nunca mais ouviam falar do vigário. Em um relato da época pode-se ler: “O conto do vigário é um laço armado com habilidade à boa-fé do próximo ambicioso. É o caso em que os espertos se fazem de tolos e o tolo quer ser esperto.” E assim é até hoje.

O célebre “conto do bilhete premiado é tão antigo quanto a Loteria — que foi instituída no Brasil durante o segundo Império e passou a ser controlada pela Caixa Econômica Federal no início da década de 1960 —, mas ainda dá bom caldo. Ele é aplicado geralmente por dois golpistas; um se passa por alguém humilde e ingênuo, e o cúmplice, por uma pessoa mais articulado e com boa verbalização.

O golpista nº 1 afirma ter um bilhete premiado, mas não pode receber o prêmio porque não dispõe dos documentos necessários, por razões de caráter religioso ou por outro motivo qualquer. A narrativa varia e quase sempre é comovente, mas o objetivo é um só: “depenar o pato” (como se dizia antigamente). Se a certa altura da conversa a vítima não tiver se oferecido para receber o prêmio, o golpista faz a sugestão e a adoça com a promessa de uma polpuda gratificação. E é aí que entra o golpista nº 2.

Bem vestido, bem falante e aparentando ser uma alguém que merece confiança, o cúmplice diz que não pôde deixar de ouvir a conversa, pede licença para verificar o bilhete, finge ligar para alguém na Caixa e confirma a história do cúmplice. Ato contínuo, ele sugere à vítima que deixe algum bem de valor ou importância em dinheiro como garantia de que voltará com o prêmio. E enquanto a vítima vai à lotérica, os dois vigaristas tomam chá de sumiço.

sábado, 8 de novembro de 2025

O CONTO DO VIGÁRIO DIGITAL

O GOLPE TÁ AÍ, CAI QUEM QUER.

Navegar na Web é como atravessar um campo minado. É preciso “confiar desconfiando”. Cibercriminosos se valem da engenharia social para obter acesso a senhas, números de documentos e cartões de crédito, informações pessoais e assim por diante. Como não existe ferramenta de segurança capaz de nos proteger de nós mesmos, somos o elo mais fraco da corrente.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Ao aprovar projeto que dificulta a realização de aborto em meninas estupradas, a Câmara estuprou o Código Penal, que autoriza a interrupção da gravidez nesses casos. O texto anota, por exemplo, que crianças e adolescentes devem ter prioridade nos serviços de aborto legal, "sem a imposição de barreiras sem previsão legal".

Dificultar a aplicação da lei não diminui o número de abortos, apenas impede o aborto seguro, elevando o número de meninas que sofrem a violência da gravidez indesejada, têm complicações de saúde ou que morrem devido à realização do procedimento clandestinos.

A interrupção da gravidez de meninas estupradas —na maioria dos casos, em ambiente doméstico. O estuprador é um problema de direito penal. A estuprada é questão de saúde pública. A aberração da Câmara seguiu para o Senado. Resta torcer para que os senadores abortem a estupidez.


Os dicionários registram vigarice como sinônimo de trapaça, embuste, fraude e logro, e vigário como a pessoa que auxilia o pároco, que cuida da paróquia ou que substitui o padre em determinadas situações. No entanto, em uma crônica publicada em 1926 no jornal O Sol, o poeta Fernando Pessoa anotou que um proprietário rural chamado Manuel Peres Vigário pagou pelo gado que comprou com notas falsas de 100 mil réis. O episódio ficou conhecido como os contos de réis do Manuel Vigário e, mais adiante, como conto do vigário.

Outra versão alude a uma disputa pela imagem de Nossa Senhora entre as paróquias do Pilar e da Conceição, em Ouro Preto (MG). Visando pôr fim ao impasse, um dos párocos sugeriu amarrar a santa a um burro e soltá-lo entre as duas igrejas. O animal foi para a igreja do Pilar, que ficou com ela — até que se descobriu que o dono do burro era o vigário da paróquia.

Uma terceira hipótese remonta ao final do século XIX, quando uma quadrilha enviava cartas a famílias abastadas relatando passagens dramáticas e comoventes. Em meio às lágrimas, assomava a história de uma suposta herança deixada em nome do destinatário, chancelada por um insuspeito religioso. Para cuidar dos trâmites legais do testamento, as vítimas enviavam um valor em dinheiro — e nunca mais tinham notícias do tal vigário.

Há pelo menos três registros de pessoas que receberam a tal correspondência, todas assinadas pelo vigário Manuel Suarez Lopez, de uma suposta Igreja Parroquial de Santa Maria, na cidade espanhola de Pamplona. Em um relato da época lia-se que “o conto do vigário é um laço armado com habilidade à boa-fé do próximo ambicioso — um caso em que os espertos se fazem de tolos e os tolos querem ser espertos”. E assim é até hoje.

O célebre conto do bilhete premiado, tão antigo quanto a loteria, continua sendo aplicado, geralmente por um golpista que se passa por alguém humilde e ingênuo e um cúmplice articulado e de boa verbalização. A narrativa varia, mas o objetivo é “depenar o pato”, como se dizia antigamente.

O vigarista nº 1 diz ter um bilhete premiado, mas não pode receber o prêmio — seja por não dispor dos documentos necessários, por razões religiosas ou outro motivo qualquer. A certa altura da conversa, se a vítima ainda não se ofereceu para receber o prêmio, ele faz a sugestão e a adoça com a promessa de uma polpuda gratificação. Ato contínuo, o cúmplice diz que não pôde deixar de ouvir a conversa, pede licença para verificar o bilhete, finge ligar para alguém na Caixa, confirma a história e sugere à vítima que deixe algum bem de valor ou uma quantia em dinheiro como garantia de que voltará com o prêmio. Assim que a pessoa vai à lotérica, os vigaristas tomam chá de sumiço.

Promessas de segurança absoluta não passam de conversa mole para boi dormir — ou de estratégia de marketing para vender softwares de proteção. Muitos cibercriminosos criam páginas falsas ou “sequestram” páginas legítimas para induzir os incautos a fornecer credenciais de acesso ou informações bancárias.

O golpe da Nigéria é antigo, mas ainda faz vítimas. Na maioria das vezes, a pessoa recebe um email alegando que um nobre nigeriano lhe deixou uma grande soma e oferecendo uma polpuda recompensa em troca da ajuda para receber o dinheiro. A certa altura, ela pede à vítima que lhe transfira um determinado valor para o pagamento de taxas bancárias ou algo parecido e, então… enfim, o golpe está aí — cai quem quer.

Escroques digitais se valem de desastres naturais para pedir doações; que se passam por amigos ou parentes da vítima e pedem dinheiro emprestado; que aproveitam datas como Dia das Mães, dos Pais, dos Namorados ou o Natal para enviar cartões virtuais com os dizeres “clique neste cartão” — e, quando a pessoa clica, um software malicioso é instalado em seu dispositivo.

Observação: uma variação desse golpe exibe uma janela pop-up dizendo que foram identificados vírus no computador ou smartphone e induz a vítima a seguir um link para “solucionar” o problema.

Tome cuidado com mensagens informando que um cartão de crédito pré-aprovado está à sua disposição e lhe será enviado assim que você preencher um cadastro com nome, endereço, números de documentos e informações bancárias. O mesmo cuidado deve ser tomado se uma empresa desconhecida lhe oferecer ouro ou prata mediante pagamento por Pix, cartão de crédito ou transferência bancária.

Desconfie de promessas de ingressos para shows ou festivais concorridos; de mensagens de texto supostamente enviadas por bancos, administradoras de cartão de crédito, Receita Federal, Justiça Eleitoral, Detran etc. Tenha em mente que ninguém ganha na Mega-Sena se não apostar, nem na Loteria Federal se não comprar bilhete.

Fuja de produtos anunciados por preços muito abaixo do praticado pelo mercado; de diplomas oferecidos mediante o preenchimento de um questionário e o pagamento de uma taxa; de pacotes de viagem bons demais para serem verdade; de mensagens ou ligações que pedem resgate para libertar um parente; de anúncios que prometem lucros mirabolantes por algumas horas de trabalho remoto, e por aí vai.

No fim das contas, mudam os meios, não a malícia. Os vigários de outrora usavam batina e anel de sinete; os de agora usam Wi-Fi, atendem por login e senha, falam por aplicativo e rezam em nome do algoritmo. Trocou-se o púlpito pelo servidor, o confessionário pelo chat e a bênção pela notificação “você ganhou um prêmio!” O milagre da multiplicação agora, é PIX, o burro somos nós, que clicamos no link que amarra a corda em nosso pescoço.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

SOBRE A DEEPFAKE

PARA ANDAR SOBRE AS ÁGUAS É PRECISO SABER ONDE ESTÃO AS PEDRAS.

Os termos "vigarice" e "vigarista" têm como origem a palavra "vigário", que os dicionários definem como aquele que faz as vezes de outro, substitui o prelado de uma paróquia ou trapaceia outrem. 

Numa crônica publicada em 1926, Fernando Pessoa anotou que um proprietário rural chamado Manuel Peres Vigário comprou gado com notas falsas de 100 mil réis, e o episódio ficou conhecido como "os contos de réis do Manuel Vigário" e, mais adiante, como "conto do vigário". 
 
Outra versão remete a um episódio no qual duas paróquias ouro-pretenses disputavam uma imagem de Nossa Senhora, e um dos vigários sugeriu amarrar a santa a um burro e soltá-lo entre as duas igrejas. A paróquia para a qual o animal se dirigiu ficou com a imagem, até que se descobriu que ele pertencia ao vigário daquela paróquia. 

Uma terceira hipótese remonta ao final do século XIX, quando uma quadrilha enviava cartas a famílias abastadas, relatando passagens dramáticas e comoventes. Em um relato da época, lia-se que "no conto do vigário, os espertos fazem de tolos os tolos que querem ser espertos".

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

A privatização das praias tem sido um tema altamente controverso e polarizador. Enquanto alguns argumentam a favor como forma de melhorar a infraestrutura e a gestão das áreas, outros veem como uma ameaça ao acesso público a estes espaços naturais. E não sem razão, haja vista casos recorrentes de assédio e constrangimento por parte de funcionários de hotéis e resorts, em áreas defronte à praias, a banhistas não hospedados. 
A discussão segue no Senado sob relatoria do senador conhecido pelas rachadinhas em seu gabinete na Alerj e operações imobiliárias lucrativamente fora do comum, muitas delas realizadas em dinheiro vivo vindo da venda panetones de chocolate, e ganhou ainda mais destaque após manifestações de alguns governos praianos, que argumentam que tal medida poderá levar a uma onda de investimentos em infraestrutura, serviços e segurança. Já os críticos, alertam para os riscos de exclusão e limitação do acesso, e argumentam que praias são bens naturais que devem ser protegidos e acessíveis a todos, independentemente de sua condição financeira. Além disso, há preocupações sobre possível degradação ambiental e descaracterização das áreas sob gestão privada, risco sensivelmente real diante o histórico de pouco caso do Poder Público. 
Outro fato que chama a atenção é a colidência com outro Projeto de Lei, em trâmite no Congresso Nacional, que visa legalizar e regulamentar os cassinos e jogos de azar. O litoral, como sabido, é costumeiramente palco para grandes empreendimentos do setor pelo mundo inteiro. Flávio Bolsonaro e o também senador Irajá Filho já viajaram juntos a Las Vegas, nos EUA, para tratar deste tema. O debate continuará fervendo, com diferentes partes interessadas e, muitas vezes, antagônicas. Encontrar equilíbrio entre desenvolvimento sustentável, preservação ambiental e garantia do direito público requer diálogo aberto e abordagem criteriosa, o que, via de regra, não acontece. 
Quando o assunto é privatização, também a política deveria passar para as mãos de gestores privados. Leia-se: privatize-se o Congresso Nacional (texto de Ricardo Kertzman).
 
Com a popularização da Internet, o conto do vigário ganhou roupagem digital e o nome "phishing scam". 
Em outras palavras, trata-se do velho 171 adaptado ao universo digital (para saber mais sobre "engenharia social", clique aqui). Para induzir as vítimas a seguirem suas instruções (abrir um anexo suspeito ou clicar num link malicioso, por exemplo), os cibervigaristas se valem de "ofertas imperdíveis" a notificações aparentemente expedidas por órgãos públicos — como SPC/Serasa, Receita Federal, Justiça Eleitoral, etc. —, operadoras de telefonia e/ou de TV por assinatura, instituições financeiras, administradoras de cartões de crédito, etc. E como os golpes têm "data de validade", novas modalidades surgem dia sim, outro também.

Os avanços da Inteligência Artificial são sopa no mel para os cibertrambiqueiros. Vídeos produzidos por meio de efeitos visuais eram comuns no cinema, mas, a deepfake (técnica usada para adulterar arquivos multimídia) tornou essa "magia", que até então era cara e trabalhosa, acessível através de aplicativos móveis e plataformas online. 
 
Para criar um vídeo de deepfake de determinada personalidade, o sistema precisa ser alimentado com fotos e vídeos em que a pessoa aparece. Quanto mais material houver, maiores serão as chances de obter um bom resultado. Treinada com base no conteúdo fornecido, a IA aprende como a pessoa se comporta e usa uma técnica chamada GAN (acrônimo de "rede adversária generativa" em inglês) para reproduzir seus movimentos e sua fala. 
 
No início de 2019, uma das ferramentas de deepfake mais conhecidas era o ZAO — um app chinês criado para iOS que permitia capturar uma selfie e embutir o rosto no corpo de um personagem de filme ou série em segundos. Por questões de segurança, o programa limitava as cenas em que os usuários podiam editar vídeos falsos, de modo a evitar que a técnica fosse usada para a criação de fake news. Mas não há nada como o tempo para passar.
 
FSGAN — criado por Yuval Nirkin e disponível na Open University of Israel — reproduz os trejeitos do rosto e a voz da fonte, mas requer um hardware de altíssimo desempenho. Já o Deepfakes Web processa as informações na nuvem e pode ser contratado por qualquer pessoa disposta a pagar US$ 2 por hora de uso.
 
Enquanto algumas deepfakes podem ser criadas por efeitos visuais ou abordagens de computação gráfica, as manipulações mais convincentes são desenvolvidas usando modelos de aprendizado profundo. O 5G e o poder de computação da nuvem permitem que o vídeo seja manipulado em tempo real, deixando a situação ainda mais complicada, já que as técnicas podem ser aplicadas em configurações de videoconferência, serviços de vídeo ao vivo e televisão.
 
Como sói acontecer o problema não é a ferramenta em si, mas no uso que se faz dela. Armas não matam pessoas; pessoas matam pessoas. Na educação, por exemplo, a deepfake pode revolucionar as aulas de história. Em 2018, o Illinois Holocaust Museum and Education Center criou entrevistas hologramáticas que permitiam aos visitantes interagir com os sobreviventes do Holocausto. Na medicina, vídeos manipulados podem ajudar no desenvolvimento de novas práticas de diagnóstico e monitoramento. Nos treinamentos empresariais, a técnica permite usar "pessoas virtuais" para substituir clientes reais. 
 
Por outro lado, a deepfake pode incrementar os ataques de phishing e de engenharia social, facilitar a fraude de identidade e burlar dispositivos de segurança — como a validação do login de usuários por reconhecimento facial —, e será mais um desafio com que a ministra Carmen Lucia, atual presidente do TSE, terá de lidar durante as campanhas eleitorais deste ano. 

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

O CONTO DO VIGÁRIO


O topo da montanha de mais de 15 mil cadáveres, erguida em 40 dias de guerra, é o melhor posto de observação do acordo firmado entre Israel e o Hamas. Os terroristas libertam 50 mulheres e crianças israelenses e recebem em troca 150 mulheres e adolescentes palestinos encarcerados quando Israel cultivava a ilusão de que dispunha de um escudo de ferro intransponível. 

Após o escambo de três por um,  feito durante um cessar-fogo de exíguos quatro dias, restaurar-se-á a incivilidade. Depois de reduzir o norte da Faixa Gaza a escombros e não conseguir arrancar o Hamas pela raiz, Netanyahu avançará rumo ao sul, para onde mandou os civis correrem. 

A pilha de 1.200 cadáveres chacinados pelo Hamas e os 14 mil abatidos pelas forças israelenses escalará o céu antes que o primeiro-ministro admita um novo acordo para trocar mais palestinos presos por reféns que os terroristas mantêm em seus túneis. Ao final do conflito, não fará diferença para os mortos, os órfãos e os despossuídos saber se a destruição insana se deu em nome do extermínio do Estado de Israel, da bandeira do Hamas ou da relutância em aceitar a formação de um Estado palestino.

Num cenário assim, os acordos também servem para escancarar o drama de uma guerra sem vencedor. 


***
O Brasil nunca teve um presidente digno de elogios, mas alguns ficaram abaixo da críticaJânio Quadros, cuja renúncia pavimentou o caminho para o golpe de 64 e a ditadura, e Fernando Collor, o caçador de marajás de fancaria, são bons exemplos

Em 2002, a vitória de Lula me surpreendeu. Oito anos depois, a eleição de Dilma me pareceu um pesadelo do qual o país despertaria 2014, mas só terminou en 2016, com o impeachment da gerentona de araque.

Depois de 13 anos ouvindo garranchos verbais de um semianalfabeto e frases desconexas de uma destrambelhada, voltamos a ter no Planalto alguém capaz de juntar sujeito e predicado numa frase (e até usar mesóclises). Seria impossível resolver todos os problemas da noite para o dia, mas Michel Temer conseguiu reduzir a inflação, baixar a Selic e aprovar a PEC do Teto dos Gastos e a Reforma Trabalhista

Como não há mal que sempre dure nem bem que nunca termine, a realidade não demorou a se impor: o ministério de notáveis prometido pelo vampiro do Jaburu se revelou uma notável agremiação de corruptos, que foram caindo como pedras de dominó — o primeiro defenestrado foi Romero Jucá, que pediu o boné depois que veio a público uma gravação em que ele defendia um pacto para “estancar a sangria” (referindo-se à Lava-Jato)

O ministro da Transparência caiu semanas depois  ele foi gravado orientando Renan Calheiros sore como se comportar em relação à PGRJunho levou ministro do Turismo, agosto varreu o advogado geral da União (que bateu boca com o todo-poderoso Geddel Vieira Lima, em cujo apartamento a PF encontrou R$ 51 milhões em caixas de papelão), e por aí seguiu a procissão. 
 
Temer queria entrar para a história como "o cara que recolocou o Brasil nos eixos", mas conseguiu se tornar o primeiro presidente denunciado por crime comum no exercício do cargo. Por mal de nossos pecados, um coro de 251 marafonas da Câmara recrutadas pelo puxa-saco mor, Carlos Marun, entoou o cântico fúnebre enquanto a segunda denúncia da PGR contra o presidente era sepultada. 

A honestidade e a lisura no trato da coisa pública são virtudes esperadas de chefes de governo, ministros, parlamentares e políticos em geral, mas há muito que fizeram as malas e partiram do Brasil. Para onde? Ninguém sabe. Ninguém viu. Graças ao compadrio entre políticos corruptos e a alta cúpula do Judiciário, uma dúzia de denúncias em desfavor do senador Renan Calheiros dormitam nos escaninhos do STF.  

Devido à péssima gestão de Bolsonaro, togas companheiras descondenaram e reabilitaram politicamente o ex-presidiário mais famoso do Brasil, e 60 milhões de jegues munidos de título eleitoral reconduziram-no ao Planalto, como se não houvesse outra opção senão mais quatro anos sob o alfange do verdugo do Planalto. Mas 580 dias de férias compulsórias na PF de Curitiba não fizeram o Pai dos Pobres e Mãe dos Ricos deixar de ser quem sempre foi — segundo Ricardo Kertzman, um vigarista que enganava as viúvas pensionistas no sindicato, os empresários na FIESP e os trabalhadores grevistas.
 
O termo vigarista vem de vigário, que o Pai dos Burros define como "padre que substitui o prelado de uma paróquia" e "aquele que trapaceia outrem; velhaco, golpista". O bardo lusitano Fernando Pessoa relatou em 1926, numa crônica batizada de "O Sol", que um proprietário rural chamado Manuel Peres Vigário comprou gado com notas falsas de 100 mil réis, e o episódio ficou conhecido como "os contos de réis do Manuel Vigário" 
— e, mais adiante, como conto do Vigário

Outra explicação reza que, em meio à disputa das paróquias ouro-pretanas de Pilar e da Conceição por uma imagem de Nossa Senhora, um dos vigários sugeriu amarrar a santa a um burro e soltá-lo entre as duas igrejas. Assim foi feito, e a paróquia de Pilar ficou a imagem  até que se descobriu que o dono do burro era o próprio vigário.

A Justiça Eleitoral exige que candidatos a cargos executivos registrem seus planos de governo, e o Código Eleitoral tipifica algumas condutas, mas o estelionato eleitoral não se enquadra em nenhuma delas. Assim, no país onde sobram leis e falta vergonha na cara, prometer em campanha o que não se pretende ou não se pode cumprir não é crime.
 
Triste Brasil

terça-feira, 7 de agosto de 2018

LULA E SEU CONTO-DO-VIGÁRIO



Nem todo mundo sabe que, na origem da expressão conto-do-vigário, não há um golpista de batina. O vigário entrava na história apenas para agregar respeitabilidade à lorota do trapaceiro. O sentido, que todo mundo conhece, é de trapaça, ou seja, o vigarista tece uma história rebuscada, geralmente envolvendo uma grande soma em dinheiro, com o intuito de explorar a ingenuidade ou a cobiça das vítimas. Nada muito diferente, aliás, do que fazem os políticos nos palanques, do alto dos quais buscam votos mediante promessas que jamais irão cumprir. 

Um bom exemplo é a autodeclarada alma viva mais honesta do Brasil, cuja trajetória política, de tão imaculada, garantiu-lhe nada menos que 7 ações criminais e (por enquanto) uma condenação a 12 anos e um mês de prisão. Concluindo esse preâmbulo, segue a transcrição da coluna de J.R. Guzzo, que foi publicada na edição impressa de Veja desta semana.

Está sendo feita hoje no Brasil o que talvez seja a maior campanha pela ilegalidade já tentada neste país desde que os acionistas majoritários da vida pública nacional resolveram que isso aqui deveria ficar com cara de lugar sério e fizeram uma Constituição com 250 artigos e mais de 100 emendas — sendo que boa parte dessa maçaroca não foi regulamentada até hoje, de maneira que não dá para saber direito o que vale e o que não vale. Escreveram mais leis do que qualquer outro país do planeta. Criaram uma espécie de Espírito Santo chamado “instituições”, ente invisível que flutua em cima de tudo e de todos, embora muito pouca gente saiba realmente o que vem a ser isso.

O tempo e os fatos mostraram que esse esforço para montar um Brasil civilizado se transformou numa piada — na verdade, a democracia moderna que se pretendia criar foi sendo desmanchada, na prática, a cada artigo da Constituição que ia sendo escrito. A ofensiva, agora, é para desmontar de vez o princípio básico segundo o qual a lei tem de ser obedecida por todos. É isso, e apenas isso, que quer dizer a campanha para soltar o ex-presidente Lula da cadeia, achar um jeito para ele concorrer à próxima eleição presidencial e garantir que volte ao Palácio do Planalto.

Trata-se de um conto do vigário de tamanho inédito, a começar pela ambição da mentira contada ao público. Nada do que o sistema de apoio a Lula pretende, e que a mídia divulga diariamente como a coisa mais normal do mundo, pode ser feito sem desrespeitar a lei. É como se alguém quisesse participar de um concurso popular para ser escolhido imperador vitalício do Brasil, ou algo parecido — não dá para fazer uma coisa dessas, não é mesmo? Mas é este o tema número 1 do debate político do momento.

Lula, como se sabe, está no xadrez, condenado a doze anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Recebeu sua sentença de condenação na 13ª. Vara Criminal da Justiça Federal em Curitiba, no dia 12 de julho de 2017, e de acordo com a lei, recorreu em liberdade da decisão. Essa sentença foi confirmada e aumentada seis meses depois, em 24 de janeiro de 2018, por unanimidade de votos, por três desembargadores do TRF-4 de Porto Alegre, o tribunal superior encarregado de julgar o caso. No último dia 7 de abril, enfim, não havendo mais nada a se fazer, Lula foi preso. Ao longo dessa história, seus advogados entraram com mais de 70 recursos; não dá para dizer, em nenhum momento, que qualquer dos direitos do réu para se defender foi violado.

O ex-presidente está na cadeia porque não poderia, muito simplesmente, estar em nenhum outro lugar — é para lá que a lei penal manda os criminosos depois de condenados em segunda instância. Fazer o quê? Muita gente pode achar que a sentença foi injusta, assim como há muita gente achando que foi justíssima. Mas achar uma coisa ou a outra não muda nada. Só a Justiça, e ninguém mais, tem autorização para resolver, no fim de todas as contas, se alguém é culpado ou não.  Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, o sistema judiciário precisa dizer se as provas apresentadas contra o réu são válidas ou não; se forem consideradas válidas, o sujeito vai para a penitenciária. Isso não depende da opinião de quem gosta de Lula ou de quem não gosta. É a lei que decide ─ e ela é igual para todos. Ou se faz assim ou ninguém é condenado nunca, porque os advogados vão continuar dizendo até o fim da vida que seus clientes não fizeram nada de errado.

Só que Lula e os seus fiéis não aceitam isso. Obviamente, um indivíduo que está preso não pode, ao mesmo tempo, ser presidente da República. A saída da esquerda, então, tem sido manter de pé uma fake news monumental — Lula é um “preso político” que tem de ser solto para candidatar-se à Presidência, ganhar a eleição e recomeçar os seus “programas sociais” em favor dos pobres. Além do mais, “todas as pesquisas” dizem que o presidente tem de ser ele. Onde já se viu uma bobagenzinha como a aplicação da lei penal, mais a Lei da Ficha-Suja, ficarem atrapalhando tamanho portento?

É essa novena que vem sendo pregada todos os dias pelo Brasil pró-Lula ─ artistas, “intelectuais”, “celebridades”, a maior parte da mídia, a Rede Globo, os empreiteiros de obras, os fornecedores de lixo enferrujado para a Petrobras e todos os que estão impacientes para voltarem a roubar em paz. Não há nem sequer uma sombra de presença do povo brasileiro, não do povo de verdade, em nada disso aí. É pura sabotagem contra o que ainda sobra de nossa escassa legalidade.

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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A APROVAÇÃO DAS CONTAS DE BOLSONARO E O CONTO DO VIGÁRIO DO SENADO




Nas últimas eleições, coube a cada Estado da Federação eleger dois senadores. Das 54 cadeiras em disputa, os eleitores elegeram 46 novos nomes, o que representa uma taxa renovação de 85%, demonstrando claramente que o eleitor, mais do que cansado, está enojado das práticas políticas que se tornaram habituais no País.

Contrariando boa parte das projeções, que previam um pequeno nível de renovação dos membros do Congresso, os brasileiros foram às urnas no dia 7 de outubro mostrar que desejam algo muito diferente, do que vem prevalecendo nos últimos anos em Brasília. Mas o que ouve é que o nome que desponta para presidir o Senado (e o Congresso Nacional) no ano que vem é do alagoano Renan Calheiros, cabal personificação da velha política.

Com tantos novos senadores, não se conseguir pensar em nenhum outro nome para a presidência do Senado é uma coisa medonha, porque os hábitos e práticas políticas de Renan são públicos e notórios. Por exemplo, apesar de pertencer ao MDB, partido do presidente Michel Temer, o cangaceiro das Alagoas fez insistente oposição à reforma da Previdência, com discursos demagógicos e populistas. Em vez de apoiar as reformas de que o País tanto precisa, preferiu aliar-se ao ex-presidente Lula em negociações que selam o atraso de Alagoas (estado que teve o pior Índice de Desenvolvimento Humano nas edições de 2000, 2010 e 2014). Em vídeo publicado em junho nas redes sociais, declarou apoio à então pré-candidatura do presidiário petista. “Lula é candidato a voltar à Presidência da República, tem direito de fazer campanha porque não cometeu crime algum e foi condenado sem provas”, disse o estafermo que ora tenta assumir pela quarta vez a presidência do Senado (Renan já presidiu a Casa de 2005 até 2007, de 2013 a 2015 e de 2015 a 2017; em 2007, renunciou ao cargo após escândalo de corrupção).

Seus malabarismos político-partidários vêm de longa data. Se nos últimos anos tem sido um aliado habitual de Lula, o senador alagoano já esteve no lado oposto. Em 1989, filiado ao PRN, foi um dos principais assessores do então candidato à presidência da República Fernando Collor de Mello. Meses depois, como líder do governo no Congresso, defendeu o pacote de medidas econômicas de Collor, que incluía o famoso confisco da poupança.

Renan não é conhecido apenas pelos cargos que ocupou ao longo de quatro décadas de vida política. Fez-se notório por seu contumaz envolvimento com fatos definidos no Código Penal. Responde a mais de uma dezena de processos e inquéritos criminais. Diversas vezes foi citado em escândalos de corrupção relacionados à Operação Lava-Jato. Num dos casos, a PGR apresentou ao Supremo denúncia contra ele por corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo a Transpetro, subsidiária da Petrobrás. Noutro caso, ele é investigado por um suposto esquema de desvio de recursos do Postalis, fundo de pensão dos Correios.

A ampla campanha habilmente desenvolvida por Renan para ocupar a presidência do Senado no próximo biênio submete o eleitor a um conto do vigário. As eleições mostraram que a população deseja que o país ande para a frente e renove suas práticas políticas. De volta à presidência do Senado, sua insolência representaria um total retrocesso e uma evidente quebra de expectativa. Seria como se o que ocorre no Congresso não tivesse nenhuma relação com a vontade da população.

É uma lástima que Alagoas tenha sido capaz de eleger mais uma vez o senador Renan Calheiros, mas isso de forma alguma é pretexto para ampliar o problema, alçando-o à presidência da Casa. A tolerância do brasileiro tem limites.

Baseado num texto publicado no Estadão

EM TEMPO: Em parecer concluído na última sexta-feira, a área técnica do TSE recomendou a aprovação, com ressalvas, das contas de campanha do presidente eleito. As ressalvas deveram-se à “identificação de irregularidades e impropriedades que, no conjunto, não comprometem a regularidade das contas” — como a utilização de financiamento coletivo sem que a empresa escolhida para tal finalidade tivesse registro no TSE, por meio da subcontratação, e o descumprimento do prazo para entrega do relatório financeiro. Trata-se de um procedimento padrão — o mesmo, aliás, que foi utilizado em 2014 em relação à chapa Dilma-Temer, que obteve aprovação, mas mantendo possíveis investigações. No caso de Bolsonaro, as campanhas do PT e do PDT ingressaram com ações para apurar eventual abuso de poder econômico na campanha. Ciro Gomes chegou a pedir a anulação da eleição liminarmente, o que foi negado. Dentro do TSE, a avaliação é a de que, no cenário atual, esses processos não devem prosperar.


ATUALIZAÇÕES:

1) Após os verborrágicos votos dos ministros Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes, a sessão de ontem no STF foi encerrada e o julgamento da ADI proposta pelo PGR contra o “insulto” de Natal assinado pelo presidente Michel Temer no ano passado — que estimula a impunidade e põe em risco o combate à corrupção — foi adiado para a tarde desta quinta-feira, 29. O placar está em 1 a 1, e tudo indica que o resultado será apertado. Logo antes do julgamento, o presidente eleito Jair Bolsonaro postou nas redes sociais que “se houver indulto neste ano, certamente será o último”. Ele afirma que foi escolhido presidente do Brasil para atender aos anseios do povo brasileiro, e que pegar pesado na questão da violência e criminalidade foi um de seus principais compromissos de campanha.  

2) Falando em Bolsonaro, sua defesa informou ao TSE que o presidente eleito devolverá aos cofres públicos R$ 8.275  para reparar supostas irregularidades apontadas pela área técnica do tribunal, e pediu que as contas da campanha sejam, portanto, aprovadas sem nenhuma ressalva. A expectativa é que isso ocorra na sessão do dia 4 de dezembro.

3) Por 2 votos a 1, a 8ª Turma do TRF-4 reduziu a pena de Antonio Palocci para nove anos e dez dias. Dada a efetividade de sua delação premiada, o ex-braço-direito de Lula — que está preso em Curitiba desde 2016 — deverá deixar a cadeia e cumprir a pena em regime semiaberto diferenciado (prisão domiciliar com monitoramento por tornozeleira eletrônica).

4) Enquanto eu atualizo esta postagem, a PF está nas ruas para cumprir um mandado de prisão contra o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

A OSPÁLIA NACIONAL

A CPI do Genocídio é um circo, ou melhor, mais um circo, até porque o povo brasileiro é visto pelos políticos em geral como uma ospália (em atenção a quem não está familiarizado com o termo, “ospália”, no bom português do asfalto, significa “bando de palhaços”). Mas a política é a arte do possível e o ótimo, inimigo do bom. 

Em última análise, a CPI é o que se tem para hoje. Quando mais não seja, as investigações trouxeram a lume aberrações de cuja existência a maioria de nós já desconfiava. O problema é que eternizar as discussões pode levar a nada. E cada depoimento — mesmo aqueles em que os depoentes se valem do direito de ficar calados, como fez Carlos Wizard na última quarta-feira — suscita mais fatos espúrios que demandam investigação. Chegou-se mesmo a ressuscitar a frase que ouvi pela primeira vez do ex-ministro supremo Teori Zavascki, que, referindo-se à Lava-Jato, disse a seus pares: “A gente puxa uma pena e vem uma galinha”.

ObservaçãoAziz disse que a comissão vai recorrer da decisão que permitiu a Wizard ficar em silêncio e que o empresário não pode ficar sem punição por defender abertamente o tratamento precoce com remédios sem comprovação e, pior, debochar das pessoas mortas no município de Porto Feliz (SP), que, segundo ele, só foram a óbito porque decidiram ficar em casa. 

O depoimento de Francisco Maximiano, sócio da Precisa Medicamentos, estava agendado para ontem, mas o presidente da Comissão alterou o cronograma depois que a ministra Rosa Weber concedeu ao empresário o direito de ficar calado. Com isso, o depoente da vez passou a ser o policial militar Luiz Paulo Dominguetti, que disse à Folha ter iniciado tratativas com o governo, em nome da empresa Davati Medical Supply, para vender 400 milhões de doses da vacina AstraZeneca. O acordo não foi adiante, segundo ele, porque o diretor cobrou propina de US$ 1 por dose. A AstraZeneca disse não ter intermediário para venda de sua vacina, que no Brasil é distribuída pela Fiocruz.

Vamos ver se eu entendi: Um cabo da PM de MG, endividado até a medula, troca a farda pela mala de mascate e se apresenta como representante uma empresa americana que oferece 400 milhões de doses de vacina justamente ao país que esnobou a Pfizer e tripudiou da “vachina do Doria”, enquanto governantes do mundo inteiro davam o reino por um cavalo, digo, por imunizantes. 

As negociações são feitas num botequim cujo prato do dia são US$ 400 milhões em propina. Eis senão quando surge um áudio que desacredita o deputado Luis Miranda, mas, que logo assume ares de cavalo de Troia (a gravação foi feita no ano passado e tinha a ver com luvas cirúrgicas). O cabo recua. Seu celular é apreendido para perícia. 

Chapéu de otário é marreta”, diz o presidente da CPI. O setor de logística da Saúde tornou-se cu de Maria Joana durante a gestão de Pazuello, o ás da logística, e Bolsonaro não dá um pio sobre a participação do deputado Ricardo Barros nos negócios do Ministério. 

Passados dez dias, o presidente não desmentiu a informação do ex-amigo Miranda, e Barros permanece na liderança do governo. Continua em pé a acusação de propina no conto do vigário da multinacional americana. Suspenso, o contrato da Covaxin ainda não foi revogado. Permanece retida a cifra de R$ 1,6 bilhão reservada para o pagamento do imunizante indiano, ainda sem o aval da Anvisa. Brasília vive mesmo dias surreais

A denúncia resultou na exoneração de Roberto Dias, que nega as acusações (para surpresa de ninguém) e diz sofrer retaliações, mas emails comprovam que governo negociou oficialmente com a empresa. Dias foi indicado para o cargo pelo líder do governo na Câmara, deputado Ricardo Barros. Também segundo a Folha, a empresa buscou a pasta com uma proposta feita de US$ 3,5 por dose (depois disso passou a US$ 15,5). “O caminho do que aconteceu nesses bastidores com o Roberto [Dias] foi uma coisa muito tenebrosa, muito asquerosa”, afirmou Dominguetti.

Observação: Segundo O Antagonista, desde que foi avisado por Luis Miranda sobre o esquema da Covaxin no Ministério da Saúde, Bolsonaro se encontrou com Ricardo Barros ao menos dez vezes, mas o deputado diz que em nenhum desses encontros o presidente mencionou a denúncia ou questionou-o sobre o assunto. Por vias tortas, o líder do governo entregou o governante.

Segundo o relator da CPI, senador Renan Calheiros, a página do “negacionismo ideológico” do governo em relação à pandemia já foi virada. Agora, diz ele, o foco será as acusações de irregularidades na compra de vacinas, e o caso da Covaxin é relevante porque há indícios da participação direta do presidente Jair Bolsonaro. Já o senador Marcos Rogério, vice-líder do governo, diz que a Comissão não vai encontrar irregularidades na compra da Covaxin, e que o pagamento nem chegou a ser feito. e que a CPI vem blindando os governadores suspeitos de corrupção. “No caso dos governos estaduais, pagaram adiantado. Se quiserem investigar pra valer, contem comigo, mas se quiserem fazer circo, jogo pré-eleitoral, não. Aí é a CPI da palhaçada, da patifaria, do faz de conta”, disse o senador.

Diante do avanço das investigações, o governo busca manter de pé a aliança com o Centrão e evitar o alastramento da crise política, que tem no líder do governo na Câmara o personagem central. A pressão se agravou na quarta-feira, 30, com a apresentação do superpedido de impeachment assinado por partidos de esquerda, centro-direita, parlamentares que romperam com o governo e integrantes de movimentos sociais, reunindo mais de 120 representações já protocoladas na Câmara.

Acuado, Bolsonaro voltou a atacar a CPI: “Não conseguem nos atingir, não vai ser com mentiras ou com CPI integrada por sete bandidos que vão nos tirar daqui”, disse o presidente, referindo-se ao grupo de senadores que é maioria na comissão. Mas não disse quantos bandidos há no Planalto e cercanias, talvez porque “não sabe o que se passa em seus ministérios”.

Na segunda-feira (28) a Folha revelou que Flávio Pansieri, advogado do deputado Ricardo Barros, atuou como representante legal da vacina chinesa Convidecia no Brasil, participando, inclusive, de uma reunião com a Anvisa. A CPI quer agora apurar a negociação da Convidecia com o Ministério da Saúde.

No dia 27, após ter sido apontado por Luis Miranda como o parlamentar que atuou em favor da aquisição de vacinas superfaturada, Ricardo Barros divulgou nota apresentando a íntegra da defesa preliminar enviada à Justiça Federal. O documento é assinado por Pansieri, que era sócio do genro do deputado até março passado, e acompanhou Barros durante encontro com o presidente em 24 de fevereiro.

Ao ser questionado sobre o superpedido de impeachment, o presidente da Câmara, Arthur Lira, minimizou a estratégia: “O que houve nesse pedido? Uma compilação de tudo o que já existia nos outros. E, sobre esses depoimentos, quem tem de apurar é a CPI. É para isso que ela existe. Então, ao final dela a gente se posiciona aqui, porque, na realidade, impeachment como ação política a gente não faz com discurso, a gente faz com materialidade”, disse o deputado-réu, mandachuva do Centrão e adversário de Barros dentro do PP.

Voltando a Roberto Dias, a demissão sumária e sem explicações de um diretor com cargo estratégico na Saúde deixou clara a pressão sofrida pelo governo. Ao mesmo tempo, o Planalto tenta identificar se há mais bombas de efeito retardado programadas para explodir no ministério. Zero Três se reuniu na última quarta com o ministro Marcelo Queiroga para saber detalhes do pente fino que está sendo feito nos contratos para aquisição de imunizantes. Wagner do Rosário, ministro da CGU, disse que apresentará suas conclusões no prazo de dez dias (foi dele quem partiu o parecer recomendando a suspensão do contrato com a Precisa).

Setores do governo avaliam que Arthur Lira estimulou o deputado Luiz Miranda a denunciar a suspeita de prevaricação de Bolsonaro à CPI para enfraquecer Barros, seu rival dentro do Progressistas. Apesar do lamaçal, o Planalto ainda não decidiu se afastará o deputado da liderança. A princípio, isso vai depender do depoimento dele à Comissão. Se for bem e sobreviver, ele poderá continuar no cargo; se for mal, será rifado.

A decisão de dar ou não seguimento a pedidos de impeachment do presidente da República é do presidente da Câmara. Lira foi guindado ao posto por Bolsonaro, que até o momento não tem do que reclamar, como também não tem motivos de queixa do desembargador piauiense que promoveu a ministro do STF em outubro do ano passado, mas isso é outra conversa. Enquanto o líder do Centrão blindar o chefe, não haverá processo de impeachment — e ainda que assim não fosse, não haveria quórum para apear Bolsonaro da Presidência.

Para quem não se lembra de como funciona esse circo, a apresentação da denúncia do P.R. por crime de responsabilidade (no caso de crimes comuns, cabe ao PGR apresentar a denúncia e ao STF autorizar a abertura do processo) pode ser feita por qualquer cidadão brasileiro, mas a análise — ou seja, se a denúncia cumpre os requisitos previstos em lei — é prerrogativa exclusiva do presidente da Câmara (vejam quanto poder se concentra nas mãos de uma única pessoa). Caso a denúncia seja aceita, uma Comissão Especial (constituída por representantes de todos os partidos) é formada e incumbida de analisar o caso.

A partir de então o acusado tem o prazo de dez dias para apresentar sua defesa (note que a Comissão pode determinar a realização de outras diligências para esclarecer melhor a denúncia, como ouvir testemunhas, por exemplo). Ao final, se o parecer for favorável, a instauração do processo só se dará se 342 deputados (maioria de 2/3) votarem a favor. Atingido esse quórum, a denúncia é enviada ao Senado e analisada à luz da admissibilidade da acusação. Nessa etapa, porém, o Senado apenas autoriza ou não o prosseguimento do processo (por maioria simples, ou seja, 41 votos se todos os 81 senadores participarem da sessão). 

A essa altura o mandatário acusado passa a ser considerado réu e é afastado do cargo por 180 dias ou até o final do processo, o que ocorrer primeiro. O julgamento também final fica a cargo dos senadores. Para que haja condenação, é preciso que mais de 2/3 do plenário vote nesse sentido — ou seja, mais de 54 dos 81 senadores. Caso o quórum seja alcançado, o presidente afastado perde o cargo definitivamente e é inabilitado (ou seja, tem os direitos políticos cassados) pelo período de oito anos.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

TRISTE BRASIL!

HÁ TRÊS ESPÉCIES DE CÉREBROS: UNS ENTENDEM POR SI PRÓPRIOS; OUTROS DISCERNEM O QUE OS PRIMEIROS ENTENDEM; E OS DEMAIS NÃO ENTENDEM NEM POR SI PRÓPRIOS NEM PELOS OUTROS; OS PRIMEIROS SÃO EXCELENTÍSSIMOS; OS SEGUNDOS, EXCELENTES; E OS TERCEIROS, TOTALMENTE INÚTEIS.

Em 1993, o general Ernesto Geisel qualificou Bolsonaro como “anormal e mau militar”. Em momentos distintos da ditadura, Pelé e o general Figueiredo alertaram para o perigo de misturar brasileiros com urnas em eleições presidenciais. Geisel era um sábio; Pelé e Figueiredo, profetas que não sabiam.

Em 2021, o empresário Paulo Marinho — que transformou a própria casa em estúdio de programa eleitoral para a campanha bolsonarista de 2018 — disse que o então presidente sabia que seria preso pelos crimes que havia cometido (e ainda cometeria até o fim do mandato) e planejava “virar a mesa”. Meses depois, farejando a derrota nas urnas, Bolsonaro rosnou que só haveria eleições se houvesse voto impresso.

Ao longo de sua passagem pelo Planalto, o refugo da escória da humanidade incitou — ou participou pessoalmente de — manifestações pró-ditadura, promoveu "motociatas", cavalgou pela Esplanada dos Ministérios (mimetizando o ex-chefe do SNI, Newton Cruz) e articulou um desfile de tanques defronte ao Congresso para pressionar os parlamentares a aprovar a PEC do voto impresso.

Sempre que se via ameaçado, o capetão fingia recuar. Mas pau que nasce torto morre torto, e ele logo reencarnava o “anormal e mau militar” que, numa democracia séria, seria inexoravelmente apeado do cargo. Como o Brasil é uma republiqueta de bananas, o antiprocurador-geral, o imperador da Câmara e o próprio STF fingiram não ver o que o pior mandatário desde Tomé de Souza estava fazendo.

Antes de se tornar réu, Bolsonaro admitiu em entrevista ao UOL que, se sua prisão fosse decretada, ele se refugiaria em alguma embaixada (como fez em fevereiro do ano passado, quando passou dois dias na embaixada da Hungria após ter o passaporte apreendido). Mauro Cid montou em slides um plano de fuga para o chefe e produziu fake news sobre hackers terem encontrado vulnerabilidades nas urnas. A célebre “minuta do golpe” foi apresentada aos comandantes, e o plano Punhal Verde e Amarelo foi impresso no Palácio do Planalto pelo então secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência, general Mário Fernandes.

Os militares golpistas não têm do que se queixar, pois o golpe veio. Não na forma da ditadura que eles desejavam, mas como um conto do vigário no qual acabaram caindo. Tudo o que parecia ser deixou de ser quando Bolsonaro, já indiciado, negou ter discutido o golpe e classificou o plano de assassinar Lula, Alckmin e Moraes como “papo de quem tem minhoca na cabeça”. E como o Brasil é o país da piada pronta, estamos sob ataque do POTUS — também conhecido como “calopsita do penacho alaranjado.”

O abantesma do Planalto assombrou a democracia por quatro anos com o bordão do “meu Exército”. Se ele e seus acólitos fardados não concordavam em tudo, ao menos não discordavam no golpismo. A tentativa de instrumentalizar as FFAA falhou no atacado; no varejo, seu ex-comandante-em-chefe arrastou para o rol de indiciados 25 fardados (67,5% do total de candidatos à tranca).

A caminho do patíbulo supremo, o verdugo do Planalto se apega ao cinismo como um náufrago se agarra a um jacaré, pensando ser um tronco, enquanto seu rebento número três se torna uma prova ambulante de que dinheiro não tem pátria. O medo da prisão o impede de voltar, mas ele não cogita renunciar ao mandato. A partir de amanhã, voltará a receber salário mensal de R$ 46,3 mil. Se nada for feito, será remunerado pela pátria para traí-la em tempo integral.

Pela lógica, o filho do pai deveria ser cassado por atentar contra o artigo do regimento da Câmara que impõe aos deputados o dever de “promover a defesa do interesse público e da soberania nacional”. Mas a Câmara é uma Casa ilógica. Excluída a hipótese da cassação, aliados do conspirador empinam duas propostas para impedir a perda do mandato por excesso de faltas: numa, o deputado Evair Mello sugere que o traidor passe a exercer o mandato à distância, votando remotamente; noutra, Sóstenes Cavalcante propõe esticar a licença por mais 120 dias.

Adaptado aos tempos de tornozeleira, o slogan do bolsonarismo ficou assim: “Anistia acima de tudo, Trump acima de todos.” A velha tríade que o integralismo nacional importou do fascismo europeu — Deus, pátria e família — ganhou novos sentidos. Deus é um imperador laranja chocado com a “caça às bruxas”. A pátria deslocou-se para o Norte. E a família Bolsonaro, a única que importa, virou célula-mártir de uma conspiração antipatriótica desde que Eduardo escolheu os Estados Unidos como terra mortal.

Mantidos o mandato e o salário do deputado, o contribuinte brasileiro entra nesse enredo no papel de idiota involuntário.

sábado, 9 de setembro de 2023

A TEORIA DO BIG BANG ESTÁ ERRADA?

ALGUMAS COISAS PODEM SER APRENDIDAS, MAS JAMAIS PODEM SER ENSINADAS.

 

Os planos do Planalto para transformar o 7 de Setembro numa festividade tediosamente monótona funcionaram. Sumiu o clima de fim do mundo da era Bolsonaro e o próprio bolsonarismo: em vez de gritar "mito", a plateia ensaiou um coro de "democracia" antes da execução do hino nacional. Chefes de outros poderes dividiram a cena com ministros e comandantes militares. Janja e Marina Silva vestiam (pasmem!) vermelho. Havia um microfone no palco, defronte de Lula, que não ousou discursar.
O único resquício da atmosfera de histeria de verões passados surgiu nas redes sociais. Recolhido em casa, o imbrochável inelegível levou à internet imagem do 7 de Setembro do ano passado, com a Esplanada bem mais apinhada do que neste ano. Seu conto de fadas golpista de 2022 é investigado no TSE como um conto do vigário passível de punição — diante desse pano de fundo radioativo, o desfile soporífero deste 7 de Setembro foi um bálsamo. Emissoras e portais que transmitiram a celebração de Brasília ao vivo levaram ao ar cenas de um impacto entediante. Numa, o Zé Gotinha acenou para a plateia do alto de um caminhão dos bombeiros; noutra, Lula, os comandantes militares e o ministro da Defesa, mãos sobrepostas, sinalizaram ao país que continua existindo uma linha direta entre o Planalto e as Forças Armadas.
A conferir.

***

Para a maioria dos astrofísicos e cosmólogos, o Big Bang foi "o início de tudo". Entre as evidências que sustentam essa teoria estão a Lei de Hubble, a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, a abundância de elementos primordiais, a evolução e distribuição galáctica e as nuvens de gás primordiais. Mas algumas questões inexplicadas dão azo a "hipóteses complementares", como a de que a "grande expansão" foi apenas uma etapa da transição para o cosmos que conhecemos atualmente e o porquê de de existir mais matéria do que antimatéria no Universo.
 
Observação: Quando o Universo era jovem e muito quente, havia a mesma quantidade de bárions e antibarions (os bárions são compostos por três quarks, enquanto os antibárions são compostos por três antiquarks), mas observações recentes apontaram que o cosmos é feito quase inteiramente de matéria, e a cosmologia convencional não consegue explicar isso.
 
Ao observar que as galáxias e demais estruturas se afastam umas das outras, o astrônomo Edwin Hubble concluiu que o Universo está em constante expansão 
 o que foi comprovado pela quantidade de luz que objetos distantes desviam para o vermelho conforme a distância que os separa do observador aumenta. Mas um novo estudo sugere que o cosmos pode se encolher até um novo Big Bang (volto a essa questão mais adiante).
 
Se nos fosse possível voltar no tempo, veríamos o cosmos se condensar até se tornar compacto e quente. Voltando um pouco mais, veríamos as galáxias ficarem menores, mais densas, numerosas e compostas por estrelas mais jovens e mais azuis. Retrocedendo até a singularidade (ou momento zero do cosmos), vislumbraríamos um cenário em que tudo estava espremido num pontículo infinitesimal, mas tão denso que se expandiu como um balão cada vez mais cheio de ar, mas que nunca estoura.
 
Outro problema tem a ver com o CMB (sigla para Fundo Cósmico de Micro-ondas em inglês). Trata-se de uma radiação fraca, mas detectável, que está presente em qualquer lugar do Universo que conseguimos ver com os poderosos telescópios atuais, e que remonta ao momento em que o cosmos se tornou transparente. 

No início, tudo não passava de um mar de plasma de fóton-bário, quente e denso, onde os fótons (partículas de luz) eram rapidamente dispersos. Quando essas partículas passaram a percorrer livremente um caminho mais longo, tudo ficou "transparente", ensejando surgimento do CMB — sinal omnidirecional que se tornou fundamental em todos os modelos cosmológicos por fornecer informações sobre o Universo primitivo. 
 
A questão é que o CMB é exatamente o mesmo em regiões que nunca poderiam ter interagido entre si em algum momento da história do Universo. Isso não pode ser explicado pelos modelos clássicos, como o do Big Bang — o que nos leva ao Problema do Horizonte (mais detalhes no próximo capítulo).