Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta asgard. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta asgard. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de outubro de 2020

SEMIDEUSES TOGADOS — PARTE II

Para fugir à mesmice da mitologia grega (mais detalhes nesta postagem), esqueçamos por um instante o célebre Monte Olimpo e foquemos Asgard, a morada dos deuses na mitologia nórdica.

Asgard se contrapõe a Niflheim, o mundo da névoa e da ilusão, e se liga ao reino dos mortais (Midgard) pela ponte do arco-íris (Bifrost). Nesse mundo mítico e místico fica o suntuoso palácio de Valhala, de onde Odin, o deus dos deuses, sentado em Hlidskialf, seu trono mágico, observa tudo que se passa nos nove mundos. 

Atribuem-se-lhe (ao deus, não ao trono) poderes como o de ver o passado e o futuro dos mortais, de cegá-los e de deixá-los surdos  dizem as más as más línguas que ele os teria usado impiedosamente contra a militância petista e a récua de bolsomínions. Quando cavalga Sleipnir, o mais belo dos cavalos, Odin se faz acompanhar dos corvos Hugin e Munin, que sobrevoam os nove mundos e o mantêm a par de tudo o que neles acontece.

No hemisfério sul de um certo planetinha azul, encravada no planalto central de uma republiqueta de almanaque, fica a mitológica Brasília das Maravilhas — cidade projetada no final dos anos 1950 por Oscar Niemayer para substituir o Rio de Janeiro como distrito federal e capital do país. No extremo leste de seu Plano Piloto, dividem a Praça dos Três Poderes o Palácio do Planalto, sede executivo federal; o Congresso Nacional, sede do poder legislativo; e o Supremo Tribunal Federal, o órgão máximo do judiciário tupiniquim.

O STF ocupa uma área de 14.000 metros quadrados, que dá e sobra para abrigar confortavelmente o Plenário (salão de debates dos 11 togados), a sala do presidente da Corte (com respeitáveis 100 m2) e as duas Turmas (cada qual com cinco integrantes)

Os ministros, como são intitulados os membros dessa e das demais cortes superiores na tal republiqueta, são alçados ao supremo cargo pelo presidente da República, mas dependem de autorização expressa dos senadores (maioria simples, de 41 dos 81 votos possíveis) para se aboletarem nas supremas poltronas de couro cor de caramelo, de onde virão a condenar os pobres e absolver os ricos, soltar traficantes e chefes de organizações criminosas, criar leis sob medida para favorecer um ex-presidente ladrão, e por aí afora.

O cargo de ministro do STF não é vitalício no sentido estrito da palavra, já que o prazo de validade determinado pela Constituição Federal expira quando o ocupante completa 75 anos de idade. No entanto, nada impede um togado de vestir o supremo pijama quando bem entender, como fez dias atrás o decano Celso de Mello, que adiantou em três semanas seu desligamento da Corte, e antes dele o ministro Joaquim Barbosa, que se aposentou em 2014, aos 59 anos. 

Enquanto ministros do Supremo, esses semideuses são inamovíveis — ou seja, só correm o risco de ser expelidos da Corte se forem condenados por crime de responsabilidade (note bem o leitor que eu não disse "se cometerem crime de responsabilidade", mas "se forem condenados por crime de responsabilidade").

Diferentemente das imagens da deusa Têmis que decoram fóruns e tribunais mundo afora, a estátua de pedra erigida diante do STF está sentada. Como as demais, ela tem os olhos vendados e porta a indefectível espada, mas sua balança foi roubada há alguns anos por um deputado, que, por ter direito a foro especial por prerrogativa de função, ainda não foi julgado pela suprema corte, onde uma decisão tanto pode demorar duas horas quanto vinte anos para ser proferida — a depender do ministro que a toma e a quem ela favorece. Assim, por medida de extrema cautela, a deusa da Justitia tupiniquim espera sentada.

A despeito do “periculum in mora”, celeridade nunca foi o ponto forte do STF. E a situação piorou a partir de 2002, quando as sessões plenárias começaram a ser transmitidas ao vivo pela TV Justiça. Sob os holofotes, os vaidosos ministros, cujos egos gigantescos mal cabem nos amplos salões da Corte, passaram a ler votos cada vez mais longos e a se desentender mais frequentemente com seus pares. 

Observação: Somados, os votos proferidos pelo colegiado a cada sessão perfazem, em média, 60 mil palavras, o que daria um livro de mais de 200 páginas. É muita lenha queimada para pouca fumaça do bom direito produzida.

Até o início do século XIX, nossa republiqueta de bananas não contava com uma corte suprema. Com a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, o príncipe regente criou a Casa da Suplicação do Brasil, que é considerada a versão 1.0 do STF. Mas a função de suprema corte só se solidificou após a declaração da independência, criação do Supremo Tribunal de Justiça e sua subsequente promoção a Supremo Tribunal Federal (noves fora um curto período em que o tribunal foi efetivamente chamado de Corte Suprema).

Passados dois séculos, o STF rescende ao bolor dos tempos do Império, com seus paramentos, rapapés, salamaleques, linguagem empolada, votos repletos de citações em latim e outras papagaiadas. 

Os ministros trazem os votos prontos e raríssimas vezes mudam de opinião por conta das sustentações orais de advogados, amici curiae, membros da PGR e quem mais subir à tribuna e fizer solilóquios — enquanto aguardam sua vez de falar, suas excelências se entretêm com a monteira de papéis que se empilham em suas bancadas, navegam na Web, jogam Solitaire ou tiram um cochilo; afinal, ninguém é de ferro.

Após o voto do relator, os demais magistrados se pronunciam na ordem inversa ao tempo de casa (ou seja, seja, do novato ao decano). Em havendo empate, cabe ao presidente de turno dar o voto de minerva. 

Ainda que os magistrados pudessem se limitar a dizer se acompanham ou não o voto do relator e, no caso de divergência, expor em poucas palavras o motivo que os levou a discordar, a leitura dos voto costuma levar horas. Há casos em que a leitura de um único voto preenche uma sessão inteira — tempo mais que suficiente para julgar dois ou mais processos, agilizando os trabalhos e aprimorando a performance do tribunal.

Observação: Até hoje, o STF concluiu apenas dois julgamentos de parlamentares em ações criminais oriundas da operação Lava-Jato. No mesmo espaço de tempo, a força-tarefa contabilizou 242 condenações contra 155 pessoas em 50 processos e recuperou R$ 2,5 bilhões (uma média de R$ 1,37 milhão por dia devolvido aos cofres públicos desde 2014). Segundo estimativas dMPF, o valor apurado pode chegar a R$ 40 bilhões.

Manter essa máquina gigantesca funcionando custa aos contribuintes mais de R$ 1 bilhão por ano. Se somarmos a essa exorbitância os R$ 6 bilhões que custam o STJ e o TST, os salários e mordomias de senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores, bem como os bilhões tragados pelo ralo da corrupção, teremos um pisto do motivo pelo qual o país nunca tem recursos para investir na Saúde, na Educação, na Segurança etc., ainda que a arrecadação anual ultrapasse a casa dos R$ 3 trilhões.

Observação: No Brasil, cada contribuinte trabalha mais de 5 meses por ano só para fazer frente à carga tributária, que consome 41,80% da sua renda. Como disse certa vez o economista Delfin Netto, nosso país virou uma INGANA, com impostos da Inglaterra e serviços públicos de Gana

Continua...

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

VALHALA FICA LÁ EM CIMA, MAS O BURACO É MAIS EMBAIXO



Asgard é o correspondente nórdico do Monte Olimpo da mitologia grega; Valhala, um majestoso e enorme salão com 540 portas, dominado pelo deus Odin; Loki, o deus da trapaça e da travessura. Isso me veio à mente junto com um versinho infantil "Caguri cagou, caiu na merda e se afogou   quando li um texto de Josias de Souza,  Vamos aos porquês.

O supremo togado que preside todos os togados supremos foi buscar lã e saiu tosquiado. A pretexto de resguardar a imagem do STF e proteger os seus membros, abriu em março uma investigação para apurar fake news e ameaças contra as togas. Decorridos sete meses, o processo revela-se uma gambiarra jurídica com potencial para eletrocutar a supremacia da Corte.

Escolhido pelo Odin de toga para atuar como relator do caso, Loki de Moraes decidiu fatiar o inquérito. Procuradores e juízes que operam na primeira instância trataram o processo de Valhala contra fake news como uma espécie de fake inquérito, e pelo menos três dessas fatias foram arquivadas.

Dois arquivamentos ocorreram em São Paulo. Em nota, o Ministério Público disse ter identificado "vício de origem e de forma" na iniciativa do monarca de Asgard. A investigação não poderia ter nascido no Judiciário, sem requisição da polícia e sem a participação da Procuradoria. De resto, as pessoas investigadas não dispunham do foro privilegiado, e que o Supremo não só acumulou os papéis de vítima, investigador e julgador, como contrariou o devido processo legal ao instaurar a investigação ex officio e descrever o objeto da apuração de forma ampla e genérica.

O terceiro arquivamento se deu na cidade mineira de Pouso Alegre, onde a Justiça Federal acatou pedido do Ministério Público que apontava aberrações jurídicas em séria: violação do princípio do juiz natural, violação do sistema acusatório, alijamento da Procuradoria da investigação e a escolha sem sorteio do deus da trapaça como relator do caso.

As anomalias já haviam sido apontadas pela ex-procuradora-geral Raquel Dodge, mas Odin ignorou se pedido de arquivamento do inquérito secreto. Na época, Loki reagiu às críticas como se alguma coisa lhe tivesse subido à calva pelo elevador de serviço: "Pode espernear à vontade, pode criticar à vontade", disse. "Quem interpreta o regimento do Supremo é o Supremo. O presidente abriu, o regimento autoriza, o regimento foi recepcionado com força de lei, e nós vamos prosseguir". Deu no que está dando.

A divindade poderia ter requisitado na origem, à PGR, a abertura de inquéritos. Preferiu agir por conta própria. Escorou-se no artigo 43 do regimento interno do STF, que atribui poderes para defender a Corte contra "infrações à lei penal ocorridas na sede ou dependência do tribunal", tratando todo o mapa do Brasil como uma versão hipertrofiada da sede da Suprema Corte. Aos pouquinhos, a investigação secreta foi ganhando características de um inquérito multiuso. Serviu para censurar uma notícia da revista eletrônica Crusoé (pressionado, o calvo teve de recuar, liberando a veiculação. Incluíram-se também no rol de investigados auditores do Fisco e procuradores da Lava-Jato.

O ministro Marco Aurélio estrilou: "O que ocorre quando nos vem um contexto que sinaliza prática criminosa? Nós oficiamos o procurador-geral da República, nós oficiamos o estado-acusador. Somos estado-julgador. E devemos manter a necessária equidistância quanto a alguma coisa que surja em termos de persecução criminal".

Relator de ações protocoladas no Supremo contra o inquérito secreto, o ministro Edson Fachin pede desde maio a inclusão do tema na pauta de julgamentos do plenário. Dono da pauta, o presidente togado dos togados presididos se abstém de marcar a data. Embevecido por um sentimento de supremacia que exclui o componente da dúvida, parece cultivar o mito da excepcionalidade. Mas mesmo na suprema Valhala, apinhada de semideuses, é inédita essa pretensão de ser uma potência moral que só deve contas a sua própria noção de superioridade.

Igualmente inédita é a fidelidade com que Loki se dispõe a ceder sua mão de obra e seu gênio jurídico à onipotência do chefe. Mais um pouco e ele terá de converter a si próprio e ao grande Odin em alvos do inquérito sigiloso. No momento, nenhum outro brasileiro ofende mais o Supremo do que os responsáveis pelo inquérito que apura ataques ao Tribunal.

Com Josias de Souza.

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

A VERDADE ESTÁ LÁ FORA (DÉCIMA SEXTA PARTE)

NO CREO EN BRUJAS, PERO QUE LAS HAY, LAS HAY

 

Avultam por toda parte monumentos e realizações cujas origens e finalidades não são explicadas satisfatoriamente — como as pirâmides da península de Gizé (detalhes no capítulo anterior), os misteriosos balizamentos entalhados em altas penedias do Pacifico oriental, os calendários maias e a origem e a finalidade de Stonehenge. 
 
No livro "Stonehenge decoded", o astrônomo Gerald Hawkins estima que a estrutura formada no condado de Wiltshire por círculos concêntricos de pedras (que chegam a ter 5 metros de altura e pesar até 50 toneladas) foi erguida no final do período neolítico, quando as Ilhas Britânicas eram habitadas por povos mais atrasados que seus contemporâneos mediterrâneos. Não se sabe ao certo a que propósito ela serviu, mas a hipótese mais aceita é a de que se tratava de um calendário solar — o que denota avançado conhecimento astronômico de um povo que viveu milhares de anos antes do início da era Cristã.
 
Estima-se que o Homo Sapiens surgiu há cerca de 300 mil anos e os Neandertais — que já utilizavam instrumentos de pedra para furar peles e confeccionar roupas —, entre 70.000 e 40.000 anos atrás. No entanto, bem pouco se conhece do passado da humanidade para além dos últimos seis mil anos. 
 
Tanto na mitologia grega quanto na nórdica, "deuses" habitavam algum lugar acima das nuvens — o cume do Monte Olimpo e Asgard, respectivamente. "Divindades" que voavam em carruagens celestiais, com rodas cuspindo fogo, são descritas tanto nos apócrifos de Abraão quanto nos de Moisés, como lembra Erich von Däniken em "Eram os deuses astronautas?" (detalhes nos capítulos anteriores). 
 
A tese esposada pelo escritor — de que os deuses de quase todas as mitologias antigas eram, na verdade, seres extraterrestres, e que eles trouxeram técnicas e conhecimentos avançados para os humanos primitivos — é um tanto forçada, mas isso não a torna menos sedutora. Como reza um dito popular de origem galega, "no creo en brujas, pero que las hay, las hay". 
 
O apogeu da civilização maia se deu por volta do começo da era Cristã, com grandes cidades, pirâmides, praças majestosas e uso extenso de um tipo complicado de escrita. Como tamanhos monumentos de pedra poderiam ter sido erigidos no meio da floresta tropical do México, da Guatemala e de Belize? 
No século 19, antes que esse prodígio fosse atribuída a alienígenas ou a habitantes do continente perdido da Atlântida, os maias (assim como os incas e os astecas) eram vistos como colonos esquecidos das civilizações do Egito, da Grécia, de Cartago, de Israel ou de Roma. Embora seu parentesco biológico com tribos de caçadores-coletores da Amazônia ou do Arizona seja indiscutível, a influência egípcia é zero. Mas a questão que coloca é que os impérios das Américas não surgiram num passe de mágica.
 
Observação: Crenças e crendices à parte, se alienígenas avançadíssimos tivessem sido mesmo os responsáveis pelo surgimento das grandes civilizações, por que a evolução aconteceu de forma lenta e gradual? Por que os antigos maias demoraram tanto para dar início a projetos faraônicos — como a construção de Tikal, que, por volta do ano 800, tinha mais de 100 mil habitantes? 
 
Até pouco tempo, atrás achava-se que meteoros não poderiam cair do céu porque no céu não havia pedras. No século XIX, acreditava-se que os passageiros morreriam asfixiados se um trem superasse a "prodigiosa" velocidade de 34 km/h. Somente no início do século XX que os Irmãos Wright e Santos Dumont demonstraram que um objeto mais pesado que o ar era capaz de voar. 
 
Felizmente, sempre houve fantasistas suficientemente audaciosos e surdos às críticas que lhe eram feitas. Sem eles, não haveria trens-bala, aviões a jato ou naves espaciais. Ao considerar a obra de Homero mais que meros contos de fadas, Heinridh Schliemann pavimentou a descoberta de Tróia

Continua... 

terça-feira, 25 de março de 2025

ENTRE DEUSES E TOGADOS

ALEA JACTA EST.

Asgard, o equivalente nórdico do Monte Olimpo da mitologia grega, liga-se Midgard, o reino dos mortais, por Bifrost, a ponte do arco-íris. Lá, num um majestoso salão com 540 portas, fica Hlidskialf, o trono mágico de onde o todo-poderoso Odin observa tudo que acontece nos nove mundos.

 

Num certo planetinha azul, encravada no Planalto Central de uma republiqueta de almanaque, fica a mitológica Brasília da Fantasia. No extremo leste de seu Plano Piloto, as sedes do Executivo federal, do Legislativo e do Judiciário dividem a Praça dos Três Poderes


Até o início do século XIX, nossa republiqueta de bananas não tinha uma corte suprema. Com a vinda da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, foi criada a Casa da Suplicação do Brasil, mas a função de suprema corte só se solidificou em 1829, com a criação do Supremo Tribunal de Justiça, que passou a se chamar Supremo Tribunal Federal em 1890, nas pegadas da Proclamação da República.

 

O STF ocupa uma área de 14.000 m2 (100 dos quais reservados para a sala do presidente da Corte). Seus 11 membros, chamados de ministros, são indicados pelo presidente da República e aprovados no Senado por maioria simples (41 dos 81 votos possíveis). O cargo não é vitalício, mas a aposentadoria só é compulsória quando o semideus togado completa 75 anos.

 

Diferentemente das imagens da deusa Têmis que decoram fóruns e tribunais mundo afora, a estátua de pedra erigida diante do STF está sentada. Como as demais, tem os olhos vendados e uma espada na mão, mas sua balança foi roubada por um deputado que, graças ao foro privilegiado, ainda não foi julgado. Em nossa corte suprema, uma decisão tanto pode demorar duas horas quanto vinte anos, a depender do ministro que a toma e de quem ela favorece — vide o caso de Collor, que foi condenado a mais de oito anos de prisão em 2023 e continua livre, leve e solto graças a sucessivos embargos procrastinatórios. É a prova provada de que, conforme o nível de renda, poder e influência, criminosos condenados não vão para a prisão ou a deixam pela porta da frente arrotando inocência.

 

Passados dois séculos, o STF rescende ao bolor dos tempos do Império, com seus paramentos, rapapés, salamaleques, linguagem empolada e votos repletos de citações em latim. Manter essa máquina gigantesca funcionando custa mais de R$ 1 bilhão por ano aos "contribuintes". Some essa exorbitância aos R$ 6 bilhões anuais gastos com o STJ e o TST, acrescente os salários e mordomias dos senadores, deputados federais, governadores, deputados estaduais, prefeitos e vereadores, e a dinheirama que vasa pelo ladrão da corrupção, e você entenderá  por que um país que arrecada quase R$ 3 trilhões por ano não tem dinheiro para investir em Saúde, Educação, Segurança etc.

 

Além do papel de corte constitucional, cabe ao STF processar parlamentares, ministros de Estado, presidentes e outros detentores de foro privilegiado, bem como julgar recursos extraordinários contra decisões de outros tribunais. Os magistrados deveriam ser técnicos, impessoais e apartidários, mas tomaram gosto pela política — e quem consegue poder político não abre mão dele facilmente — e, a exemplo de 90% dos brasileiros, sucumbiram à polarização.

 

Essa sucumbência ficou evidente em 2019, quando, por 6 votos a 5, o tribunal mudou seu entendimento sobre o cumprimento antecipado da pena após a confirmação da condenação por um juízo colegiado, pavimentando o caminho para "a volta do criminoso à cena do crime" (como disse Geraldo Alckmin em 2021, quando ainda não cogitava disputar a vice-presidência na chapa encabeçada pelo xamã petista).

 

O mesmo se deu em 2021, quando, por 8 votos a 3, o tribunal anulou as condenações impostas a Lula com base na incompetência territorial da 13ª Vara de Curitiba — mal comparando, foi como determinar a soltura de um criminoso preso em flagrante pela Guarda Civil Metropolitana sob o pretexto de que a prisão caberia à Polícia Militar. Mas daí a dizer que o STF interferiu no resultado da eleição presidencial de 2022 e que o capetão vem sendo perseguido por "Xandão" e seus pares vai uma longa distância.

 

Dá-se de barato que Bolsonaro será promovido a réu entre hoje e amanhã. Ainda que a decisão coubesse ao plenário, não haveria garantias de que Kássio Nunes Marques e André Mendonça votariam a favor daquele que cobriu seus ombros com a suprema toga. O "ministro tubaína", que o ex-presidente considerava 10% dele no STF, votou com a maioria que indeferiu os pedidos de afastamento de Moraes, Dino e Zanin do julgamento da denúncia. O voto do "ministro-pastor" não reverteu a goleada, mas evitou a unanimidade. Em última análise, Mendonça ganhou a toga por serviços prestados previamente, ao passo que Marques mostrou que esperar fidelidade a posteriori é como contar com o ovo no cu da galinha.

 

Enquanto a 1ª Turma do STF decide se aceita ou não a denúncia contra Bolsonaro et caterva, partidos do Centrão já descartam o "mico" como possível candidato à presidência em 2026 e relutam em embarcar no pedido de urgência da votação da anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8/1. E ainda que a proposta passasse na Câmara, o Senado certamente a barraria. Seus advogados sabem que as chances de absolvição são as mesmas de um pároco de aldeia ser ungido papa, de modo que fazem o possível para poluir a sentença com suspeitas de perseguição política. 

 

Bolsonaro chegará ao banco dos réus ainda algemado à tese da perseguição — uma fabulação que reduz tudo a uma sedutora versão de complô do sistema e da imprensa sensacionalista. Mas tudo o que salta aos olhos — indícios, documentos, mensagens, áudios e vídeos — não pode ser um conjunto de anomalias da lei das probabilidades conspirando contra um pobre inocente e seus seguidores ingênuos. Em off, ele diz a aliados que seu maior "receio" é ser surpreendido por acordos subterrâneos costurados à margem da viagem de Lula ao Japão. 

 

Com os atuais presidentes da Câmara e do Senado e seus antecessores integrando a comitiva presidencial, o projeto de anistia, apoiado com vigor pela direita bolsonarista e combatido energicamente pelos partidos de esquerda, continuará cozinhando em banho-maria. E ainda que assim não fosse, não há garantias de que eventual aprovação favoreça o ex-presidente, já que o Supremo pode considerar o projeto inconstitucional. Sem falar que ele não afetaria a inelegibilidade decorrente das prováveis condenações no STF, cujas penas podem chegar a 46 anos. 

 

Quanto ao andamento da denúncia do golpe "com a velocidade da luz", vale lembrar que no caso do tríplex do Guarujá, que resultou na prisão de Lula em abril de 2018, foram 11 meses entre o indiciamento feito pela PF e a condenação pelo então juiz Sérgio Moro. No mesmo ritmo, o destino de Bolsonaro estará selado em outubro. 


Alea jacta est

sábado, 10 de janeiro de 2026

DE VOLTA ÀS VIAGENS NO TEMPO — 66ª PARTE

ÀS VEZES O UNIVERSO COSPE COINCIDÊNCIAS QUE NENHUM ESCRITOR DE FICÇÃO OUSARIA SEQUER IMAGINAR. 

Pessoas trajando roupas incompatíveis com a época, “artefatos fora de lugar” (OOPart) e construções arquitetônicas cuja complexidade desafia até mesmo os recursos tecnológicos atuais são tidos como possíveis evidências de viajantes do tempo ou sugerem a intervenção de civilizações extraterrestres. Isso pode até soar como teoria da conspiração — e talvez seja —, mas certos fatos simplesmente não se explicam por meios convencionais.


Tomemos como exemplo a maior das três Pirâmides de Gizé — que foi construída durante reinado do faraó Quéops (2589-2566 a.C.). Ainda que 30 mil operários tenham se revezado durante duas décadas para erguer esse monumento de 230 metros de base e 146 metros de altura, extrair 2,3 milhões de blocos de pedras de até 80 toneladas usando prosaicos cinzéis, rolá-los sobre toras de madeira por centenas de quilômetros de deserto e empilhá-los com o auxílio de guindastes e rampas em espiral rudimentares foi, sem dúvida, um trabalho hercúleo — e Hércules, vale lembrar, era grego, não egípcio.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Durante um evento de caráter político-eleitoral realizado no interior do Palácio do Planalto nesta quinta-feira, Lula vetou integralmente o Projeto de Lei da Dosimetria das penas. A participação popular no ato foi baixa, e o veto foi entendido como comício, inclusive pelos presidentes dos outros Poderes, cujas ausências foram amplamente notadas, assim como as de lideranças de partidos que não o PT.

O simbolismo eleitoreiro não residiu no número de participantes, mas na clara escolha de uma estratégia política. O PL havia sido articulado como uma tentativa de acomodação entre os Poderes — uma espécie de pacificação institucional que permitiria avançar para outras agendas. Havia, inclusive, a percepção de aval informal do próprio STF, responsável pela imposição de penas severas aos participantes dos atos de depredação de 8 de janeiro.

Vamos ver que bicho vai dar.


Chama igualmente a atenção o fato de a grande pirâmide estar perfeitamente alinhada com os pontos cardeais e com a constelação de Órion, além de sua latitude — 299.792°N — coincidir com a velocidade da luz: 299.792.458 m/s. Primeiro, porque essa constante só foi determinada no final do século XIX; segundo, porque, mesmo que a conhecessem — o que se admite apenas como exercício especulativo —, os antigos egípcios teriam de tê-la registrado em “côvados por segundo”, já que o sistema métrico só foi criado em 1791.

 

Além de dominarem escrita e utilizarem um sistema decimal três mil anos antes do início da era cristã — o que por si só já é espantoso —, os egípcios criaram seu calendário com base não no Sol ou na Lua, mas na estrela Sírius. Essa estrela só se tornava visível durante o inicio da enchente do Nilo, que não ocorria anualmente nem começava sempre no mesmo dia. Embora fossem obcecados por proporções, salta aos olhos as discrepância entre a cabeça e o corpo da Esfinge de Gizé. O rosto não se assemelha às representações conhecidas do faraó Quéfren, e o corpo não lembra o de um felino, e sim o de um chacal (talvez porque o rosto do deus Anúbis, associado à morte, fosse retratado como tal.

 

Como explicar que os autores dos Contos das Mil e Uma Noites tenham descrito tapetes voadores e cavernas repletas de tesouros que se abriam por comando de voz — como o célebre Abre-te Sésamo — se aviões e edifícios com portas automáticas só surgiram mais de 4 mil anos depois? De duas, uma: ou a imaginação dos "escritores das Arábias" era mais prodigiosa que a dos autores de ficção científica contemporâneos, ou essas "fantasias" retratavam coisas que eles já conheciam.

 

Tanto os deuses da mitologia grega quanto os da nórdica habitavam lugares acima das nuvens — o cume do Monte Olimpo e Asgard, respectivamente. Textos cuneiformes  dos antigos assírios descrevem divindades vindas das estrelas, que viajavam em barcos celestes. Os sumérios faziam cálculos lunares com precisão de quinze casas decimais. Seus deuses eram associados a estrelas orbitadas por planetas numa época em que sequer se cogitava a existência de sistemas solares, e eram retratados como seres com estrelas na cabeça ou cavalgando esferas aladas. 

 

Carruagens celestiais com rodas cuspindo fogo foram descritas tanto nos apócrifos de Abraão quanto nos de Moisés, como aponta Erich von Däniken em "Eram os deuses astronautas?". Suas obras foram rotuladas como “pseudocientista” por acadêmicos como Pierre Houdin e Bob Brier, mas venderam mais de 80 milhões de cópias mundo afora, e sua Teoria dos Antigos Astronautas inspirou a bem-sucedida série Alienígenas do Passado, produzida pelo History Channel. 

 

É fato que muitas teorias da conspiração permeiam o assunto, mas algumas proposições de Däniken, embora não comprovadas, contam com defensores ilustres. O russo Zecharia Sitchin também contribuiu para difundir o tema com sua interpretação de textos antigos do Oriente Médio, ainda que sem o mesmo alcance do colega suíço. Atualmente, o britânico Graham Hancock dá continuidade às teorias seguindo a linha de argumentação de Däniken, embora a considere incompleta.

 

Com base na obra de HomeroHeinrich Schliemann pavimentou a descoberta de Tróia. No apogeu da civilização maia (entre 250 e 900 d.C.), grandes cidades, pirâmides e praças majestosas foram erguidas em plena floresta tropical do México, da Guatemala e de Belize. Teóricos da conspiração atribuem esse prodígio ora a alienígenas, ora a habitantes do continente perdido de Atlântida. 

 

Em "Stonehenge decoded", o astrônomo Gerald Hawkins estima que a estrutura de pedras concêntricas de até 5 metros de altura e 50 toneladas foi erguida no período neolítico, quando as Ilhas Britânicas eram habitadas por povos considerados atrasados em relação a seus contemporâneos mediterrâneos. 

 

Os chineses conhecem e aplicam a eletrólise há mais de mil e seiscentos anos. Textos de 3.000 anos encontrados na Índia fazem referência a uma arma cuja descrição evoca a bomba atômica. Também na Índia, foi encontrado um esqueleto humano de 4.000 com radioatividade 50 vezes superior à do ambiente. Um alfarrábio contendo "toda a ciência da antiguidade" foi destruído pelo imperador inca Pachacuti, e milhão de volumes pertencentes a Ptolomeu I Sóter foram incinerados por ordem do califa Omar porque, sob a alegação de que afrontavam o Alcorão. 

 

Não se sabe o destino das bibliotecas de Jerusalém e de Pérgamo, nem quantos segredos se perderam com as destruições em massa dos livros históricos, astronômicos e filosóficos ordenadas pelo imperador chinês Chi-Huang, por Hitler e por Mao Tsé-Tung.

 

O homem almeja voar como os pássaros desde tempos imemoriais. Ícaro tentou com asas de cera, mas caiu no mar porque não deu ouvidos ao pai e se aproximou demais do Sol. Leonardo da Vinci concebeu seu "parafuso aéreo" quase 500 anos antes do primeiro voo de helicóptero, mas foi somente no século XX que os Irmãos Wright e Santos Dumont provaram que objetos mais pesados que o ar podiam voar. Até pouco tempo atrás, acreditava-se que meteoros não podiam cair do céu — afinal, no céu não havia pedras —, e que passageiros de um trem a mais de 34 km/h morreriam asfixiados.
 
Felizmente, sempre houve fantasistas suficientemente audaciosos e surdos às críticas que lhe eram feitas. Sem eles, não haveria trens-bala, aviões a jato ou viagens interplanetárias. Quem sabe, um dia, viajar no tempo se torne tão “simples” quanto foi enviar o homem à Lua em 1969. 

 

Continua...