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sexta-feira, 3 de julho de 2020

DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS E UM MAFIOSO DE COMÉDIA


A educação no Brasil está horrível” disse Bolsonaro a apoiadores, na tarde de ontem, no chiqueirinho defronte ao Alvorada. Menos mal que o presidente tenha descoberto que merda fede. Falta agora ele descobrir quem foi o autor da cagada, ou por outra, quem empossou a piada de humor negro colombiana em janeiro de 2019, quem a substituiu pelo dublê de ativista combativo e ministro de merda (que ganhou uma diretoria no Banco Mundial como prêmio pelos bons serviços à frente de MEC) e, finalmente, por um suposto oficial da marinha, professor e pós-doutor, cuja permanência no cargo se tornou insustentável devido a divergências entre seu lustroso currículo e os fatos à luz inclemente da realidade. Não podia mesmo ter dado certo. Dito isso, passemos à postagem do dia.

O Brasil não é, positivamente, um país para distraídos. A verdade que vale hoje pode não estar valendo nada amanhã, e se o sujeito não presta muita atenção nas mudanças súbitas que fazem o certo virar errado e o errado virar certo vai acabar andando fora do passo.

Até outro dia, quando havia por aqui algo chamado Operação Lava-Jato e os corruptos viviam no medo de acordar com o camburão da Polícia Federal na sua porta, era exigida das autoridades públicas, como se exige de um muçulmano diante de Alá, uma obediência cega, surda e muda ao “direito de defesa”. Hoje, quando a grande atração em cartaz é o combate ao que se considera ameaças à democracia, e quem está aflito com a PF são os suspeitos de extremismo de direita, o que se cobra da Justiça é o contrário: vale passar por cima da lei e de seus detalhes incômodos para punir tudo o que possa ser descrito como “fascismo”.

Trocaram os polos da pilha – de negativo para positivo e vice-versa. O primeiro dos dez mandamentos, nos tempos de Lava-Jato, era: é preciso combater a corrupção, sim, mas desde que as leis sejam respeitadas em suas miudezas mais extremadas. O problema do Brasil, na época, não era o saque ao erário e a punição dos ladrões; era a possibilidade de haver o mais delicado arranhão em qualquer direito dos acusados. Muito melhor deixar um culpado sem castigo do que correr o mínimo risco de punir alguém se não for cumprido tudo o que as milhões de leis em vigor no país oferecem em sua defesa. O primeiro mandamento, hoje, é o oposto: não se pode ficar com essa história de “cumprir a lei” ao pé da letra, pois “a democracia tem de estar acima de tudo”.

Onde foram parar os “garantistas”? Você talvez ainda se lembre deles: eram os ministros do STF, advogados de corruptos milionários e toda uma multidão de juristas amadores que acusavam a Lava-Jato de desrespeitar o direito de defesa, exigiam que suas decisões fossem anuladas e pediam punição para o juiz Sérgio Moro e os procuradores da operação. O ministro Gilmar Mendes chamou a Lava-Jato de “operação criminosa” e acusou a PF da prática de “pistolagem”. Também disse que “a República de Curitiba é uma ditadura de gente ordinária” e que a Lava-Jato foi “uma época de trevas”.

O presidente do STF, Antônio Dias Toffoli, acusou a operação de “destruir empresas”. Seu colega Marco Aurélio Mello disse não queria ser substituído por Moro quando se aposentasse.

Temos agora o episódio da “ativista” de direita que foi presa por um mínimo de cinco dias sob a acusação de atentar contra a Lei de Segurança Nacional. Sara xingou a mãe do ministro Alexandre de Moraes; disso não há dúvida. Mas desde quando xingar a mãe de ministro ameaça a segurança do Brasil, ou de qualquer país? O crime, aí, se a Justiça assim o decidir, é o de injúria, previsto no artigo 140 do Código Penal. Não pode ser outro, e para ele a lei não prevê prisão temporária de cinco dias, nem de mais e nem de menos. Conclusão: extremistas de direita devem ter menos direitos que extremistas de esquerda, ou que delinquentes de outros tipos.

Da mesma forma, há muito escândalo porque o grupo de Sara foi soltar rojões na frente do STF. Mas ninguém achou que a segurança nacional foi ameaçada quando picharam de vermelho o prédio da ministra Cármen Lúcia, dois anos atrás, em Belo Horizonte, ou quando manifestantes “a favor da democracia” e “contra o fascismo” jogam pedra na polícia, destroem propriedade e tocam fogo em bancas de jornal. O que se condena, no Brasil de hoje, não é o que foi feito. É quem faz.

Mudando de um ponto a outro, quando Fabrício Queiroz foi preso num simulacro de escritório do então advogado de Flávio Bolsonaro em Atibaia, o mafioso de comédia parecia ter violado a ética da advocacia e a própria legislação. Mas suas manifestações mais recentes demonstraram tratar-se de uma alma superior.

Wassef contou à revista Veja que soube que Queiroz estava às voltas com um câncer. Ficou sensibilizado. O presidente, amigo do ex-factótum do clã desde sempre, cortara qualquer contato com ele, a exemplo de seu ex-chefe na Alerj. Assim, o nobre causídico decidiu ajudar. Não porque era advogado de Flávio, mas por razão "100% humanitária", como declarou esse ser humano especial.

Depois, Wassef descobriu que havia uma trama para matar Queiroz e colocar a culpa na família Bolsonaro, acusando o presidente e seu filho de queima de arquivo para evitar uma delação. O que seria, naturalmente, uma fraude. A partir desse momento, além de proteger a vida de Queiroz, Fred passou a favorecer o presidente e seu filho, evitando que um cadáver lhes caísse no colo. Fez isso sem avisar aos Bolsonaro. O presidente poderia ter acionado a Polícia Federal. Mas por que preocupá-lo com algo tão trivial? O doutor revelou-se um sublime cultor da amizade.

Tratado como criminoso, Wassef diz que a Justiça e o MP-RJ deveriam lhe agradecer. Não fosse por suas iniciativas, Queiroz não estaria vivo. Bolsonaro e sua família estariam sendo investigados por um suposto assassinato.

O advogado disse ter pedido desculpas ao presidente pelos dissabores que possa ter causado. Mas não receia ser esquecido pela primeira-família. Além de todas as qualidades que fazem dele um ser notável, Wassef realça sua lealdade. "Não traio ninguém nunca."

Wassef pronunciou uma frase simbólica: "Não se deveria virar as costas para antigos aliados." Um observador maldoso poderia interpretar como um recado. Mas o douto jurisconsulto se declara apaixonado por Bolsonaro: "Amo o presidente", disse ele. Confesso que fiquei decepcionado comigo mesmo por ter pensado mal de alguém como o doutor Wassef. Se alguém tem culpa nessa história, sou eu.

Na tarde de ontem, em depoimento presencial tomado pelo promotor Eduardo Benones no Complexo Penitenciário de Bangu, Queiroz falou por cerca de duas horas e meia. 

Segundo Benones, “o depoimento dele não inocentou ninguém, foi capaz de tirar ninguém da cena do crime, entendeu? Dá pra continuar investigando. Foi um bom depoimento. A gente continua acreditando que a partir de hoje, mais do que nunca, que as investigações devem prosseguir”. Analistas da GloboNews avaliaram que o depoimento reforça as suspeitas de vazamento (conforme denúncia do empresário Paulo Marinho, que participou da campanha de Bolsonaro à presidência).

Esse foi o segundo depoimento do ex-assessor de Flávio Bolsonaro. No primeiro, prestado à PF do Rio em 29 de junho, no inquérito que também analisa as denúncias na operação, Queiroz disse que não obteve informações privilegiadas, que não foi demitido porque Flávio teve conhecimento prévio da Operação Furna da Onça, mas sim exonerado a pedido, porque estava “cansado de trabalhar no cargo” e que precisava tratar de sua saúde”.

O MP-RJ intimou o ex-chefe de Queiroz a depor, a despeito de sua defesa ter conseguido procrastinar a investigação alegando conflito de competência (na semana passada, a Justiça do Rio transferiu a apuração do caso para a segunda instância, o Órgão Especial do Tribunal de Justiça fluminense; o STF deve devolvê-lo à instância de origem, mas somente em agosto, devido ao recesso do Judiciário). 

Os advogados de Zero Um estrilaram, mas o MP-RJ afirmou em nota que a chefia institucional delegou aos promotores de Justiça do GAECC os poderes para prosseguirem nas investigações até seu termo final. "Diante disso, as investigações seguem seu curso normal, sem paralisações desnecessárias por conta de mudanças de competência jurisdicional", acrescentou o MP.

Com J.R. Guzzo e Josias de Souza

domingo, 23 de agosto de 2020

MAIS SOBRE QUEIROZ E MADAME E O MAFIOSO DE COMÉDIA

De acordo como a coluna de Ricardo Noblat em Veja, os áudios divulgados pela revista, com o desabafo de Márcia Aguiar, deixam claro que ela e o marido, Fabrício Queiroz, sentiam-se como prisioneiros de Frederick Wassef — ex-consultor jurídico do clã presidencial e ex-advogado de Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas

A versão do casal guarda pouca (ou nenhuma) semelhança com a história contada por Fred quando Queiroz foi preso em sua casa/escritório em Atibaia. Ou com as histórias, melhor dizendo, pois o versátil mafioso de comédia tirava da cartola uma nova narrativa a cada nova entrevista — e ele concedeu uma porção delas nos dia em que o fantasminha camarada reapareceu misteriosamente (e foi capturado) numa de suas propriedades.

Wassef se jactava de ser próximo do presidente. Com a prisão de Queiroz, tornou-se suspeito de ser o “Anjo” que vinha protegendo o ex-factótum do clã presidencial, sua esposa e outros familiares, todos mergulhados até o pescoço na merdeira que começou a refluir, como quando se dá descarga numa privada entupida, no finalzinho de 2018, e cujas peças foram aos poucos se encaixando.

Em 20 de junho passado, numa entrevista à Folha, o douto jurisconsulto não só negou ter "escondido" Queiroz como também disse não ser o "Anjo". Em outra entrevista, afirmou  ser conselheiro jurídico dos Bolsonaro e advogado de Flávio no caso das rachadinhas. No dia seguinte, em entrevista à CNN Brasil — a quarta entrevista naquele final de semana —, negou que Jair e Flávio Bolsonaro soubessem que Queiroz estava escondido em sua propriedade, e teceu críticas contundentes a Karina Kufa, que dias antes soltara uma nota dizendo que ele, Wassef, não representava o Presidente. 

No mesmo dia, Wassef havia telefonado a Kufa e, aos berros, dito que iria desmenti-la. Disse também que substabeleceria um colega para assumir a defesa de Zero Um, e desculpou-se por “qualquer dano de imagem que pudesse ter causado ao Presidente e ao senador”. Mas em momento algum da longa e confusa entrevista ele explicou por que Queiroz estava morando em seu imóvel quando foi capturado. Em vez disso afirmou não tinha seu telefone (de Queiroz) e que não falava com ele. Perguntado por que o dito-cujo, sendo do Rio, escolhera Atibaia, no interior de SP, para tratar do câncer, especulou: "Quem sabe ele estava sem dinheiro, abandonado?"

Wassef afirmou que "movimentação atípica não é crime" (e não é mesmo), e que poderia dar “mil explicações para as tais movimentações financeiras”. O problema é que não deu explicação nenhuma. Repetiu sem parar que seu cliente era vítima de perseguição, de uma “Santa Inquisição”, e seguiu com sua narrativa confusa e repleta de contradições, dizendo, inclusive, que Queiroz nunca transferiu dinheiro para Flávio Bolsonaro.

Observação: Uma mentira deslavada (ou mais uma, porque são tantas), pois sabe-se agora que até a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, teria recebido 21 depósitos em cheques do ex-assessor de Zero Um. E falando em mentiras e no primogênito do Presidente, parece incrível, mas o senador não encontrou um único horário vago em sua agenda para encaixar a acareação com o empresário Paulo Marinho, que o acusou de ter recebido informações privilegiadas sobre a deflagração da Operação Furna da Onça. Nem a Velhinha de Taubaté engoliria tamanha potoca.

Wassef, o benemérito causídico de coração mole e mente criativa, disse que "se comoveu com a situação de Queiroz" — a quem nunca havia visto mais gordo —, procurou-o sem que ninguém o orientasse a fazê-lo e ofereceu abrigo para ele, a mulher e os parentes. Só por “razões humanitárias”, disse. Isso quando Queiroz já havia se tornado um dos homens mais procurados do país pela imprensa e, mais adiante, pelo MP-RJ, de cujas convocações para interrogatório a alma penada fugia feito o diabo da Cruz.

Por que Queiroz e a mulher aceitariam a oferta de abrigo feita por um desconhecido? Por que passariam a confiar em um homem que surgiu do nada, sem que ninguém o recomendasse? Não faria o menor sentido. Wassef deve ter sido bancado por alguém com bastante influência sobre o casal Queiroz. E não é tão difícil imaginar quem de quem se trata. 

Os áudios de Márcia datam de novembro do ano passado, quando ela e o marido eram mantidos numa espécie de cativeiro, deixam claro que ambos estavam contrariados por serem impedidos de sair de lá. Em conversas com a advogada Ana Flávia Rigamonti, contratada por Wassef para vigiá-los junto com um empregado da casa, Márcia traiu toda a sua insatisfação.

Ao longo de um ano, a mulher de Queiroz fora obrigada a abrir mão de sua vida particular, privar-se de ir ao médico até para fazer exames de rotina e, em alguns momentos, não podia sequer utilizar o celular. As medidas cautelares foram ditadas pelo “Anjo”, codinome de Wassef, segundo o Ministério Público Federal, empenhado em manter sob segredo o paradeiro de Queiroz

A gente não é foragido. Isso está acabando comigo, amiga, acabando. De boa mesmo. Está acabando. Está me destruindo por dentro. Eu estou aqui me desabafando, porque não consigo passar isso para ele [Queiroz]. E a minha preocupação é esse stress, esse emocional dele abalado, piorar a situação dele com essa doença”, disse Márcia a Ana Flávia.

Ana Flávia retruca: “Eu sei que ele não está bem. Ele está tentando se distrair. Mas a gente sabe que não está fácil. […] Ele mesmo falou para o Anjo: ‘Olha, eu não estou aguentando mais. Quero ir para minha casa’”. 

E Márcia completa: “Eu estou vendo que todo mundo está vivendo a sua vida. Agora, a gente não. Então, somos foragidos para viver fugindo? Não é possível isso, entendeu?

Márcia não estava com Queiroz quando ele foi preso em 19 de junho último. Havia uma ordem de prisão contra ela, que fugiu e só reapareceu quando o marido deixou a cadeia (no dia 10 de julho) para cumprir prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. Desde então o casal está junto, ambos com tornozeleira. O Ministério Público Federal aposta que um deles acabará delatando.

A prisão de Queiroz contribuiu para a mudança de comportamento do Presidente. Saiu de cena o Bolsonaro incendiário, o promotor de crises, o falastrão, o agitador que marcava presença em manifestações de rua hostis à democracia, e entrou em cena o Bolsonaro moderado, que loteia cargos do governo com os partidos e chama os parlamentares do Centrão “sócios”. No bom sentido, é claro.

Resta saber quanto tempo isso vai durar.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

O 8 DE JANEIRO E A POLARIZAÇÃO (QUARTA PARTE)

O que se vê no Brasil de hoje é basicamente uma divisão entre sectários do lulopetismo e adeptos do bolsonarismo. Para os que têm o imbrochável insuportável na conta de "mito", o deus pai da Petelândia é o exemplo pronto e acabado do desempregado que deu certo. Faz sentido: o ex-tudo deixou de ser operário quando fundou do PT (1980), mas já não dava expediente em chão de fábrica desde 1972, quando se tornou dirigente sindical. Numa conta de padeiro, dois terços de seus 78 anos recém-completados foram dedicados à "arte da política", não ao batente diário que consome o tempo de milhões de brasileiros. 


O mentecapto mefistofélico com vocação para tiranete também nunca foi fã do batente. Quando assumiu a Presidência, seu expediente diário era de, em média, 5,6 horas; no segundo ano de mandato, de 4,7 horas; no terceiro, de 4,3 horas; no último, de pouco mais de 3 horas. Depois da derrota nas urnas, a média caiu para ridículos 36 minutos por dia. Isso também também faz sentido: se o capetão nunca foi pegar no pesado, por que mudaria seus hábitos a 2 meses de deixar o cargo? 


Observação: O estudo Deixa o homem trabalhar? apontou que o mandrião trabalhava 18 horas semanais a menos que um trabalhador celetista e 14 horas a menos que um servidor público federal da administração direta. Que gastava mais tempo em almoços (média de 1,3 hora) do que em reuniões com ministros de Estado (menos de 1 hora). Que participou de apenas cinco eventos "envolvendo explicitamente o tema vacina", nos quais investiu, em média, 0,9 hora por compromisso. Sua média diária só ultrapassava 4 horas quando ele estava em trânsito (como em 18 novembro de 2012, quando regressou do Catar). Mas esse critério nos levaria a considerar o tempo como "jornada de trabalho" o tempo gasto em motociatas pelo país, comendo farofa nas ruas de Brasília ou passeando de jet-ski no Guarujá e no litoral catarinense. 
 
Pendurado no erário desde os tempos da caserna, o dublê de mau militar e parlamentar medíocre sempre gostou mais de dinheiro que de ideologia. E se valeu desta como instrumento para obter aquele. Quando percebeu que havia mercado para a parolagem estúpida e brutalista, rendeu-se a ela. E ela lhe rendeu — a ele e sua prole — votos, dinheiro e patrimônio. E assim tornou-se um homem de muitos milhões. Sob o escudo de uma impunidade quase absoluta, fez da Presidência sua Disneylândia particular, que tentou perpetuar através de um golpe Estado. O golpe fracassou, mas o golpista jamais descuidou do caixa. Nem mesmo quando fingia lutar uma cruzada moral e patriótica. 
 
Derrotado pelo ex-presidiário mais famoso do Brasil, o mandrana sacripanta se encastelou no Planalto, de onde assistiu aos protestos antidemocráticos protagonizados por fanáticos acampados em portas de quartéis. A dois dias de entregar a faixa, homiziou-se na cueca do Pateta, onde ficou o final de março de 2023. Inelegível até 2030 por decisão do TSE, passou a posar de vítima enquanto explora seus devotos — um bando de imbecis travestidos de militantes, comandado por um imbecil travestido de ex-presidente — que, cegos pelo fanatismo ou por interesses ocultos, parecem não se constranger com suas desculpas esfarrapadas. 
 
O naufrágio do Titanic tornou-se a melhor metáfora para o ponto final de qualquer enredo trágico. No papel de maestro da orquestra da célebre embarcação, o capitão deveria ser o primeiro a notar que um script que evolui do patriotismo épico para um reles caso de roubo de joias é o roteiro de um desastre. A imagem mais fascinante é a dos militares deslizando pelo salão como músicos fieis de uma banda marcial a caminho do fundo. Ao arrastar para o epicentro do escândalo o general Cid, a PF mostrou que a água invadiu os trombones: o pai do tenente-coronel enrolado migrou da condição de estrelado de mostruário para a de contrabandista de joias quatro estrelas
 
A tradicional família militar dividiu a ribalta com um mafioso de comédia e criminalista de estimação da Famiglia Bolsonaro. Com as caldeiras explodindo, os fardados continuam tocando sem desafinar, evitando incluir no fundo musical a partitura de uma delação. É como se, com a água pelos beiços, o futre mandasse a orquestra tocar com brio. Expurgado do Poder, já não podia mandar cortar o salário dos músicos, mas eles continuam a postos e, parecendo enxergar virtude na depravação, mostravam-se dispostos a executar a partitura do abantesma da ditadura até o último glub-glub, quando já não haveria mais botes salva-vidas à disposição.


Continua...

domingo, 3 de julho de 2022

HOJE É O AMANHÃ DE ONTEM E O ONTEM DE AMANHÃ

 

No apagar das luzes de junho de 2018, eu escrevi que a libertação do delinquente José Dirceu, condenado em segunda instância a 30 anos e 9 meses de prisão, escancarou uma verdade inverossímil: a sala ocupada pela 2ª Turma do Supremo se transformara numa gigantesca porta de saída da cadeia. 

 

Essa bofetada na cara do país que presta foi desferida a seis mãos — por Gilmar MendesRicardo Lewandowski e Dias ToffoliGilmar inaugurou (e comanda) a primeira usina de habeas corpus do planeta, Lewandowski ganhou a toga porque era filho de uma vizinha da ex-primeira-dama Marisa Letícia, e Toffoli, por ser uma alma subalterna a serviço de Dirceu. Disfarçados de juízes, os três agem como cúmplices de bandidos de estimação — e enxergam no povo brasileiro um bando de otários que só explodem de indignação quando a seleção vai mal numa Copa do Mundo.

 

Como bem pontuou J.R. Guzzo em Veja, os eminentes togados têm o poder de aplicar ou não as leis e, para além disso, de decidir quais leis são válidas. Dizem, é claro, que suas sentenças estão de acordo com a legislação — mas são eles, e só eles, que decidem o que as normas jurídicas querem dizer. 


Não existe em lugar nenhum do mundo, e nunca existiu, uma democracia em que a última instância do Poder Judiciário faz uso da lei para impedir a prestação de justiça. Se as atuais leis brasileiras, como garantem os nobres ministros sempre que soltam um ladrão de dinheiro público, os obrigam a transformar o direito de defesa em impunidade, então todo o sistema de justiça está em colapso, e o que existe é um Estado de exceção, onde as pessoas que mandam valem mais que todas as outras. 

 

Faz sentido um negócio desses? Claro que não. Mas a questão, à esta altura, já não é o que os corruptos fizeram ou foram acusados de fazer, mas os julgadores estão fazendo ao abrir as celas de quem roubou o erário neste país. Pelo que escrevem em suas sentenças, os magistrados decidiram na prática que ninguém mais pode ser preso no Brasil por cometer crimes de corrupção. É possível existir democracia num país onde os membros da mais alta cúpula do Judiciário, com a ajuda de algumas nulidades assustadas e capazes de tudo para remar a favor da corrente, decidem o que é permitido e o que é proibido para 219 milhões de pessoas?

 

Quando ainda comemorávamos a derrota do bonifrate do presidiário mais famoso do Brasil pelo presidente eleito em 2018 — e que viria a ser o pior mandatário desta banânia desde Tomé de Souza —, surgiram os primeiros indícios das "movimentações financeiras atípicas" de Fabrício Queiroz, amigo de longa data de Jair Bolsonaro e factótum do clã do ex-capitão. A primeira notícia foi publicada em 6 de dezembro de 2018 no Estadão. A partir daí, Jair Flávio Bolsonaro tentaram se manter a uma distância segura do amigo de três décadas do primeiro e dublê de motorista e assessor parlamentar do segundo.

 

Corrupção, como se sabe, é uma doença que demanda cuidados médicos intensivos. Tanto que uma "inesperada crise de saúde" impediu Queiroz de prestar esclarecimentos ao MP-RJ em duas oportunidades. Perguntado sobre as suspeitas que recaíam sobre se ex-assessor, o ex-deputado estadual e então senador eleito Flávio Bolsonaro disse que era ele (Queiroz) quem deveria esclarecer os fatos. "Pela enésima vez, não posso ser responsabilizado por atos de terceiros e não cometi nenhuma ilegalidade. O ex-assessor é quem deve dar explicações. Todos da minha equipe trabalham e a prova de que o gabinete funciona bem são minhas crescentes votações", postou Zero Um no Twitter. 

 

Quando há justificativa, os fatos falam. Quando não há, as versões sussurram e as suspeitas prosperam. Queiroz — que, segundo Flávio, teria uma “história plausível”, foi submetido a uma cirurgia no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e virou fumaça tão logo teve alta médica. No dia seguinte ao do Natal de 2081, Queiroz reapareceu tão misteriosamente quanto havia sumido e falou em público pela primeira vez. Em entrevista ao SBT, negou ser laranja e atribuiu o dinheiro a negócios com venda de carros, mas não explicou os depósitos feitos em sua conta por funcionários do gabinete e familiares empregados por Flávio Bolsonaro e pelo presidente eleito. E então desapareceu de vez.

 

Em setembro de 2019, uma reportagem de Veja revelou o paradeiro de Queiroz, mas o espírito que anda voltou a tomar chá de sumiço e permaneceu desaparecido até meados do ano seguinte, quando foi localizado e preso em Atibaia (SP) — não no famoso sítio Santa Bárbara, que Lula frequentava amiúde e que lhe rendeu uma pena de 12 anos e 11 meses de prisão (posteriormente anulada pelo ministro Edson Fachin), mas num imóvel pertencente a Frederick Wassef, o folclórico dublê de mafioso de comédia e "consiglieri" da Famiglia Bolsonaro. 

 

Após passar três semanas no Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste do Rio, Queiroz foi beneficiado por um habeas corpus deferido pelo ministro João Otávio Noronha, do STJ, e seguiu para prisão domiciliar. Dizendo-se "grande admirador de Roberto Jefferson" (cujo nome dispensa apresentações), o ex-fantasminha tenciona se candidatar a deputado federal nas eleições deste ano. 

 

Observação: Durante a cerimônia de posse de André Mendonça como ministro da Justiça e de José Levi como AGU, o capitão disse a Noronha, então presidente do STJ, que sua relação com ele era um caso de amor à primeira vista. E não é para menos. Além de conceder a Queiroz o mimo da prisão domiciliar, o magistrado estendeu o benefício à esposa do ex-Gasparzinho — que estava foragida e, segundo as más-línguas, flertava com a delação. Detalhe: Assim como Augusto Aras, o procurador-geral que não procura, o ministro do STJ acalenta o sonho de ter os ombros recobertos por uma suprema toga. Foi preterido nas duas indicações feitas por Bolsonaro, mas quem sabe se numa próxima... 

 

Bolsonaro faz no governo o que ele e seus filhos sempre fizeram na vida pública: explorar mecanismos de liberação de dinheiro do povo para atender a interesses privados. Zero Um e Zero Três tiveram cargos remunerados em Brasília enquanto faziam faculdade no Rio de Janeiro. A caseira do imóvel de veraneio da família também tinha. E o próprio presidente, como confirmou o Ministério Público em ação contra ele por improbidade administrativa, fez os brasileiros pagarem durante 15 anos por uma "assessora parlamentar" fantasma (Wal do Açaí), registrada em seu gabinete de deputado federal, enquanto ela dava água para o cachorro em Angra dos Reis (RJ).

 

Depois de comprar o apoio do Congresso com o orçamento secreto, de emissoras de rádio e TV com a liberação obscura de verbas de publicidade federal, de parte da população de baixa renda com o que ele próprio chamava de "Bolsa Farelo", e de pastores aliados com o perdão da dívida de igrejas com o Estado, Bolsonaro mandou o ministro-pastor Milton Ribeironas palavras do próprio Ribeiro — atender aos interesses específicos de Gilmar Santos e Arilton Moura, dois pastores mui suspeitos. De acordo com Felipe Moura Brasil, o sacrilégio bolsonarista chegou ao cúmulo da aparente lavagem de dinheiro sujo em livros bíblicos. É a imagem mais emblemática até hoje da exploração da religião por interesses escusos e para fins criminosos, ambos condenados pela doutrina cristã. A propaganda do "governo sem corrupção" apenas encobre a corrupção sem governo.

 

Um dia depois de quatro ministros do STJ indicados pelo PT terem condenado Deltan Dallagnol a indenizar Lula pelo powerpoint da denúncia contra o petista, o outro Gilmar — o Mendes, aliado de Lula e Bolsonaro na vingança do sistema — revelou ter dito ao capitão que seu legado é "nomear Sergio Moro e devolvê-lo ao nada". Moro, ao contrário de Ribeiro, se recusou a compactuar com a perversão privada do Estado, de modo que ele próprio se devolveu a um "nada" de cargos em troca de princípios, muito mais digno que o "tudo" por poder e impunidade. 


Mas o legado real de Bolsonaro vai além da blindagem geral. Ao transformar o debate público em guerra de gangues, onde, em nome de Deus, os crimes de um lado — e em benefício deste lado — são relativizados e legitimados pela comparação com os crimes do outro, o presidente, seus filhos e sua claque — para a qual o problema é ser pego — corrompem não só as tradições liberal e conservadora, como também a moral cristã, anestesiando a população com o conformismo em ser roubada. Em outubro, os eleitores vão decidir se querem ser assim "a vida toda". 

 

Infelizmente, a alternativa que se coloca a Bolsonaro é a pior possível. Rezemos para que o imponderável tenha voto decisivo na assembleia dos acontecimentos, pois, sem Lula no páreo, Simone Tebet tem chance de derrotar o capetão no segundo turno (como também teriam Moro e Doria se não tivessem sido elididos da disputa). 


Triste Brasil.

terça-feira, 5 de julho de 2022

SERGIO MORO DE VOLTA ÀS ORIGENS

 

Em 1º de novembro de 2018, quando aceitou o convite para ser “superministro” da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro embarcou numa canoa que deveria saber furadaNo encontro que teve com o então presidente eleito, o então juiz da Lava-Jato disse que aceitava o cargo "com certo pesar”, pois teria que pedir a exoneração da Justiça Federal. Mas a perspectiva de implementar uma forte agenda anticorrupção e anticrime organizado e a promessa de uma cadeira no STF levaram-no a abandonar 22 anos de magistratura para integrar aquele que viria a ser o pior governo da história desta banânia.

 

Como juiz linha-dura, Moro enquadrou poderosos. Trabalhou em casos de grande repercussão, como o escândalo do Banestado, a Operação Farol da Colina e a Operação Fênix. Também assessorou a ministra Rosa Weber no julgamento do mensalão. Titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, condenou figuras do alto escalão da política e do empresariado, como o ex-ministro José Dirceu, o ex-governador Sérgio Cabral e o empreiteiro Marcelo OdebrechtEm 16 de março de 2016, derrubou o sigilo do áudio em que Dilma dizia a Lula que lhe enviaria o termo de posse como ministro, na tentativa de evitar sua prisão — a nomeação foi impedida pelo ministro Gilmar Mendes, que viu desvio de finalidade na nomeação por causa do áudio.


No governo, Moro foi traído pelo presidente. Na política, filiou-se ao Podemosmigrou para o União Brasilfoi sabotado e teve a pré-candidatura à Presidência sepultada por Luciano Bivar (aquele do laranjal, lembram-se?), que fingiu interesse em concorrer ao Planalto para tirá-lo do jogo depois de o ter tirado do Podemos. 


A falaciosa candidatura do dono do UB visava: 1) favorecer a polarização Lula x Bolsonaro; 2) criar um biombo para deixar os filiados livres, em suas regiões, para apoiar qualquer um dos dois; 3) investir o dinheiro do fundão na eleição de volumosa bancada de deputados federais — lembrando que a participação das legendas nos fundos partidário e eleitoral é diretamente proporcional ao tamanho de suas bancadas, e o sistema proporcional transformaria Moro em puxador de votos. 


Moro condenou Lula a 9 anos e seis meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. Somente depois que a decisão foi confirmada por unanimidade no TRF-4 — e a pena, aumentada para 12 anos e um mês — que ele determinou, a mando do tribunal, a prisão do condenado. Lula se encastelou por dois dias na sede do Sindicato do Metalúrgicos do ABC, onde discursou a apoiadores contra decisões do Judiciário e de onde finalmente foi levado para uma cela VIP na Superintendência da PF em Curitiba, na qual gozou férias compulsórias por míseros 580 dias.


Em 13 de fevereiro de 2019, já como “superministro”, Moro montou uma operação de guerra que culminou com a transferência de Marcola e outros 21 presos ligados ao PCC da penitenciária de Presidente Venceslau para penitenciárias federais (só no primeiro semestre daquele ano, 113 chefes de facções criminosas de quatro estados diferentes foram transferidos para presídios de segurança máxima). 


Uma de suas primeiras derrotas no governo foi a transferência do Coaf do Ministério da Justiça para a Economia, depois que o órgão identificou “movimentações financeiras atípicas” e mal explicadas na conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, amigo de longa data do presidente e factótum da Famiglia Bolsonaro. Depois de tomar chá de sumiço e ficar desaparecido por mais de um ano, Queiroz foi localizado e preso numa propriedade do mafioso de comédia Frederick Wassef, que acontece de ser um dos causídicos que atendem o clã presidencial (ou Famiglia Bolsonaro, como queiram).  

 

Observação: Bolsonaro & filhos atuavam de forma tão coesa que era virtualmente impossível dizer onde terminava um gabinete e começava o outro — e, portanto, as responsabilidades de cada um. Desde que vieram a público as primeiras notícias sobre as movimentações financeiras atípicas do factótum, o presidente e seu clã passaram a tratar os brasileiros como um bando de idiotas. Queiroz é um lembrete da falta de transparência de uma família com quatro homens públicos que influenciam os destinos do país pelo fato de o presidente governar como um patriarca de clã e perder a linha (força de expressão; ninguém perde algo que nunca teve) quando era questionado sobre o paradeiro do “espírito que anda”. Queiroz se prontificou a ir para o sacrifício, mas somente se sua família — notadamente a mulher e a filha, que também trabalharam em gabinetes dos Bolsonaro — ficassem protegidas. No dia 16 do mês passado, o TJ-RJ rejeitou a denúncia envolvendo Zero Um no caso das chamadas “rachadinhas”, depois que boa parte das provas de acusação foram invalidadas pelo STJ e pelo STF. Triste Brasil!

 

Acabou que Moro viu sua principal bandeira — o pacote anticrime — ser desfigurada pelo Congresso e sancionada pelo chefe do Executivo sem os vetos recomendados (isso aconteceu entre 9 de maio e 25 de dezembro de 2019). Em 24 de abril de 2020, depois de 14 meses engolindo sapos e sorvendo água pútrida da lagoa, desembarcou do governo e disse à imprensa que havia tomado tal decisão devido às diuturnas tentativas de Bolsonaro de interferir politicamente na PF


Na folclórica reunião ministerial de 22 de abril, o mandatário disse (litteris): "Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estruturaVai trocar; se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira(a quem interessar possa, segue o vídeo da tal reunião).

 

O desembarque de Moro criou uma crise no governo e levou à abertura de um inquérito a pedido da Procuradoria-Geral (com um “empurrãozinho” dado pelo então decano do STF). Este ano, no entanto, a PF concluiu que não houve crime na conduta de Bolsonaro.


Moro tinha uma biografia respeitável, estabilidade no emprego, um olho na toga e outro no Planalto, uma mulher chamada Rosângela e a vida a lhe sorrir. Desde que rompeu com Bolsonaro e ensaiou uma pré-candidatura presidencial, passou a acumular derrotas. Depois de ser moído politicamente e de ter sua transferência de domicílio eleitoral negada pelo TRE-SPRosângela é tudo que lhe restouNo último dia 14, ele anunciou que seu futuro político está no Paraná e será decidido “mais adiante” (antes tarde do que nunca).

 

Continua...

domingo, 23 de maio de 2021

A SAGA DE PINÓQUIO — NOS MELHORES CINEMAS

 

Embora a produção audiovisual tupiniquim esteja parada, a performance do senador Jorge Kajuru no curta “A gravação” garantiu a indicação do parlamentar ao Oscar. Só não ficou claro se ele concorrerá no gênero Comédia — faltou o “punchline”, que poderia ter aproveitado a rima óbvia com Kajuru (ei, Kajuru, vai... ganhar um Oscar?). Ou Drama — houve quem chorou de desespero ao ouvir a trilha sonora. Ou Ficção, dada a inverossimilidade dos diálogos — o personagem principal, por exemplo, parece preocupado com o bem do Brasil.

Difícil mesmo vai ser superar a performance do general da ativa e ex-capacho da Saúde Eduardo Pazuello no longa “O milico está presente” apresentado na Contemporary Performance Institute. “A obra do enfant terrible das artes era para ser uma releitura da icônica performance ‘O artista está presente’, em que Marina Abramovic passou três meses sentada em silêncio diante do público do Museu da Arte Moderna de Nova York, mas Pazuello preferiu falar, e está mentindo até agora”, explica o texto do curador Markinhos Show

Depois de agitar colecionadores do eixo Muzema-Vivendas da Barra, a expectativa é de que a apresentação ds quintessência da logística seja refeita no circuito Papuda-Bangu das artesFrederick Wassef, o mafioso de comédia que faz as vezes de empresário do general, afirma que existe também o plano de um retiro de seu cliente em uma propriedade isolada em Atibaia. Mas não antes de ele enfrentar o maior desafio de sua carreira.

Após viver um ministro no pastelão sádico “Um Interino Muito Louco” e um general submisso no thriller de ação “Tropa de Elite 17 – Omissão dada é omissão cumprida”, o fardado triestrelado se prepara para interpretar Pinóquio — o boneco mentiroso criado pelo marceneiro Genocidappeto. A diferença entre a versão original e esse remake criado pelos Estúdios Bolsonaro não é o nariz, mas a curva de contaminação por Covid que cresce a cada mentira contada. “Senhores, é simples: ele manda e eu obedeço, mas tem um sintequinho”, dirá o boneco cara de pau. “E cara de pau é o que ele mais tem”, salienta Markinhos Show.

A participação do general na CPI é pra calar a boca dos críticos que ainda tinham dúvida quanto à capacidade dele de mentir em público. Depois da performance de hoje, nada mais justo do que presenteá-lo com esse papel”, explicou o jornalista (sic) Alexandre Garcia, assessor informal do governo Bolsonaro, ao final do depoimento do ex-ministro que precisou de duas sessões para cascatear a caudalosa torrente de potocas em que nem a Velhinha de Taubaté (*) acreditaria.

E já que o tema é absoluta falta de absolutamente, se existe algo que o mandatário de fancaria com tendências absolutistas fez com maestria ao longo dos últimos 28 meses foi alargar as fronteiras do que um presidente pode fazer de ruim, inadequado e inacreditável. Depois de entrar para o Guinness Book of Records como o líder que esgotou os adjetivos negativos, o capitão luta para ser o presidente que mais palavrões inspirou por milhão de habitantes.

De tanto superar limites, o morubixaba de turno será patrocinado por uma marca de energético voltada a esportes radicais. “Já bancamos um homem que pulou do espaço sideral para a Terra, mas destruir um país inteiro em tão pouco tempo é a coisa mais radical que alguém já fez”, disse o CEO do fabricante. Agora, crescem as apostas sobre quais limites o “imbrochável, irremovível e incomível” ainda pode ultrapassar. Uma das poucas coisas que faltam é atirar saquinhos de merda no STF, na calada da madrugada.

Entrementes, as instituições continuam vivendo numa espécie de Noruega utópica, onde tudo funciona normalmente. O Congresso deve em algum momento investigar se a Constituição continua vigendo e a CPI precisa decidir se o capitão — que não é coveiro — é culpado ou se tem culpa pelos quase 500 mil cadáveres produzidos com a mão do gato pelo coronavírus.

O deputado-réu que preside a Câmara Federal vem inspirando empreendedores. Uma empresa lançou a Almofada Lira, que permite acomodar o buzanfã com conforto em cima de qualquer coisa, inclusive do futuro do país (como o parlamentar homônimo fez com os mais de 120 pedidos de impeachment contra Bolsonaro). O sucesso de vendas foi imediato e a empresa já está pensando em lançar o Colchão Pacheco, inspirado no presidente do Senado — o slogan será: perfeito para quem só faz corpo mole. Mas o produto que o brasileiro mais quer são as algemas Bolsonaro — aquelas que servem para a família inteira.

Com Piauí e Sensacionalista

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

VERGONHOSO É POUCO...

A investigação contra o primogênito do general da banda chegou ao fim e a tendência é de ele seja denunciado pelo MP-RJ

Segundo os investigadores, o hoje senador, quando era deputado estadual, comandava um esquema de “rachadinhas” operado por seu chefe de gabinete na Alerj, cujas “movimentações financeiras atípicas”, identificadas pelo Coaf em 2018, deram início a uma cadeia (sem trocadilho) de eventos que, entre outras consequências, levaram o atual inquilino do Palácio do Planalto a despir sua reluzente armadura de cruzado contra a corrupção. 

Ao slogan “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos” é preciso juntar os dizeres “e a família do Presidente em primeiro lugar”, ou esse mote chauvinista e demagogo não vale sequer o papel em que foi escrito.

Fabrício Queiroz — esse é o nome do abantesma que tomou chá de sumiço quando viu que a situação estava malparada e que o chefinho ia tirar (como realmente tirou) o cu da reta — jamais se dignou a atender aos convites do Ministério Público para um bate-papo esclarecedor. Em julho, porém, o fantasminha camarada foi encontrado e prezo em Atibaia, num simulacro de escritório do dublê de mafioso de comédia, consultor jurídico da Famiglia Bolsonaro e fiel escudeiro do ex-deputado no caso das rachadinhas. 

Tal qual seu ex-cliente e respectivo ex-assessor, o conspícuo causídico está enrolado que nem fumo de corda e sujo feito papel higiênico servido. Aliás, recomenda-se a quem for a Brasília levar máscara contra gás, caso vá se aventurar pela Praça dos Três Poderes e adjacências.

Voltando ao impoluto senador, o relatório final está com o subprocurador-geral de Justiça de Assuntos Criminais e Direitos Humanos, Ricardo Martins. O mais provável é que ele ofereça a denúncia apenas após o STF decidir qual é o foro adequado para a tramitação do caso. Se depender da ala garantista da Corte (alguns falam em “banda-podre”, mas eu acho essa expressão um tanto rude), provavelmente será decidido que competência e de um juizado qualquer do planeta Marte, e que será expedida uma carta rogatória... Enfim, deixa pra lá, que hoje é domingo e eu não estou a fim de me aborrecer com toda essa pouca-vergonha. 

Fato é que tanto o ex-deputado quanto seu então assessor negam todas as acusações. Para o primeiro, a investigação é completamente ilegal, mera perseguição política. Parece até ele fez um curso intensivo de desfaçatez com certo molusco que ainda se arroga o direito de falar merda sempre que segmentos mais abjetos da imprensa lhe dão essa oportunidade. Já o segundo passou uns dias em cana, mas foi despachado para casa, onde cumpre prisão domiciliar graças ao grande coração do desembargador João Otávio Noronha, a quem o morubixaba do Planalto se refere como “um caso de amor à primeira vista”. Vai vendo...

Falando em desfaçatez, o passador de pano geral da República implantou em São Paulo uma franquia culinária. Segundo Josias de Souza publicou em sua coluna, Aras queria fritar o núcleo bandeirante da Lava-Jato sem tocá-lo, e assim incumbiu da tarefa a procuradora Viviane de Oliveira Martines, instalada há seis meses na chefia do 5.º Ofício Criminal da Procuradoria na capital paulista. Na última quarta-feira, já bem tostados, os sete membros da força-tarefa arrastaram Aras para dentro da frigideira, apresentando-lhe uma renúncia coletiva.

O PGR obteve o que desejava. Um dia depois de degustar o desembarque de Deltan Dallagnol da coordenação da Lava-Jato de Curitiba, viu-se diante da perspectiva de limpar a cozinha de São Paulo. Mas ficou com a marca do óleo quente na bochecha. Às vésperas da aposentadoria de Celso de Mello, dono de uma cobiçada poltrona no Supremo, consolida-se o esbirro do Presidente no papel para o qual foi escalado: Abafador-Geral da República.

Por uma trapaça do destino, o processo de combustão da Lava-Jato intensifica-se no momento em que chega às manchetes uma mensagem inédita enviada por Bolsonaro para o celular de Sergio Moro. Nela, irritado com uma notícia de jornal, o presidente mostra a porta de saída ao então ministro da Justiça: "...Tenha dignidade para se demitir." O recado é de 12 de abril. A ficha de Moro demorou uma dúzia de dias para cair. Demitiu-se apenas em 24 de abril.

Em dezembro de 2018, dias antes de assumir a pasta da Justiça, o ex-juiz da Lava-Jato disse ter aceitado o convite do presidente-eleito porque estava "cansado de levar bolas nas costas" na 13.ª Vara Federal do Paraná. Demorou 16 meses para se dar conta de que o lançamento de bolas nas costas tornou-se o esporte preferido do Messias que não miracula. A indicação de Aras para o comando da Procuradoria compôs essa rotina.

Dizia-se que Bolsonaro não ousaria escolher o sucessor de Raquel Dodge sem consultar Moro. Escolheu. Afirmava-se que jamais indicaria um nome que não tivesse a simpatia pela Lava-Jato. Indicou. A escolha produziu um fenômeno usual na política: a junção dos interesses de sujos e mal lavados. Aras aproximou Bolsonaro de Renan Calheiros. Uniu-os a simpatia pela ideia de impor freios ao ímpeto investigativo inaugurado pela Lava-Jato em 2014.

A harmonização de propósitos foi exposta na frente das crianças durante a sabatina que precedeu a aprovação do nome de Aras no plenário do Senado. Renan não conseguiu conter o entusiasmo. "Sou oposição, integro esse campo com muita satisfação. Sou um crítico do governo, mas tenho isenção suficiente para reconhecer que, de todos os atos do presidente Jair Bolsonaro, talvez o mais acertado e significativo seja o da indicação do doutor Augusto Aras para exercer esse honroso posto de chefe da Procuradoria-Geral da República." Freguês de caderneta da Lava-Jato, o cangaceiro das Alagoas passou a conviver no Senado com Flávio Bolsonaro, investigado por suspeita de peculato e lavagem de dinheiro.

Interessa ao campeão do arcaísmo e ao primogênito de um hipotético modernizador da política aplicar um sedativo no aparato fiscalizatório do Estado. Aras mostrou-se à altura do desafio. Durante a sabatina, referiu-se à Lava-Jato como um "marco importante" no combate à corrupção. Mas avisou que os métodos da força-tarefa de Curitiba seriam aperfeiçoados. Numa resposta em que comentou os excessos atribuídos a Deltan Dallagnol, disse ter faltado "cabelos brancos" ao grupo de jovens procuradores que ele coordenou em Curitiba. Defendeu a restauração do "princípio da impessoalidade".

Dentro de um mês, a chefia de Aras na Procuradoria completará um ano. Foi um período de alta produtividade. Além de desossar a Lava-Jato, o PGR e sua equipe ajudaram a levantar o tapete de Wilson Witzel, cavando o afastamento judicial do desafeto dos Bolsonaro do governo do Rio.

Às voltas com um estado em ruínas, o governador interino Rio, Cláudio Castro reuniu-se na última quinta-feira com Paulo Guedes para tratar da renovação de acordo de rolagem da dívida fluminense. Abre-se a perspectiva de que o Planalto influencie na escolha do novo chefe do MP-RJ, o órgão que tritura o Zero Um.

Para quem tramava apenas uma intervenção na PF do Rio de Janeiro, Bolsonaro já foi longe demais.

quarta-feira, 14 de junho de 2023

DE VOLTA AO NEGÓCIO DO JAIR


Um pedido mui particular que Pero Vaz de Caminha incluiu na famosa carta a El-Rey plantou a semente do nepotismo em Pindorama. Séculos depois, a "rachadinha" se tornou tão comum para alguns parlamentares quanto o ato de respirar. 

Em "O Negócio do Jair — A História Proibida do Clã Bolsonaro", Juliana Dal Piva relata que o ex-presidente lançou mão dessa prática tão logo se elegeu deputado federal, fazendo escola para os filhos Flávio, na Alerj, e Carlos, na Câmara Municipal do Rio. Mas a maracutaia só ganhou destaque no final de 2018, quando o Estadão publicou que o Coaf havia identificado movimentações atípicas na conta de Fabrício Queiroz.
 
Queiroz se tornou íntimo de Jair nos anos 1980 e prestou serviços ao clã até outubro de 2018, quando Zero Um, informado por um delegado da PF de que a Operação Furna da Onça seria "segurada" para não respingar na campanha presidencial, exonerou o assessor e recomendou ao pai que fizesse o mesmo com Natália Queiroz, filha de Fabrício, que figurava na folha de pagamento do gabinete de Jair na Câmara, mas trabalhava como personal trainer no Rio de Janeiro.
 
Em entrevista a Veja, "Jacaré" — outro velho amigo de Jair — revelou que 
Ana Cristina Valle, segunda esposa do então deputado e mãe de Jair Renan, era responsável pela contratação de "funcionários fantasmas" no gabinete do marido e dos filhos. A separação do casal produziu montes de dinheiro: entre 2019 e 2022, madame movimentou R$ 9,3 milhões e comprou uma mansão em Brasília avaliada em R$ 2,9 milhões, embora seu salário fosse de R$ 6,2 mil mensais.
 
A novela Flávio/Queiroz teve inúmeros desdobramentos e foi interrompida diversas vezes — tanto por intervenções diretas do então presidente quanto por decisões de magistrados camaradas. Entre os episódios mais emocionantes, vale relembrar as explicações estapafúrdias dos envolvidos, o vídeo em que Queiroz aparece dançando no quarto do Hospital Albert Einstein (onde estava internado para tratar de um câncer no intestino) e o pagamento em dinheiro vivo de R$ 133,6 mil (referentes aos honorários médicos e serviços de hotelaria) feito pelo sambista de enfermaria. 

Observação: Queiroz passou três semanas em Bangú, mas sua mulher nem chegou a ser presa. No capítulo em que a novela virou comédia, o casal teve a prisão preventiva convertida em domiciliar pelo então presidente do STJ (com quem Jair Bolsonaro disse ter um caso de amor à primeira vista). 
 
O inquérito que sobre as rachadinhas foi arquivado com base no "mandato cruzado" — quando o parlamentar deixa de ocupar um cargo eletivo para assumir outro em uma casa legislativa diferente (o
 STJ anulou as provas e o STF manteve a decisão). Consta que a investigação prossegue, mas em sigilo, e que o primogênito do ex-presidente tinha planos de disputar a prefeitura do Rio no ano que vem, mas foi demovido por seu papai.

Após receber alta, Queiroz foi visto novamente seis meses depois, quando uma equipe de Veja o flagrou na lanchonete do hospital onde fora operado, e descobriu que ele estava morando a poucas quadras dali. Mas o fantasminha tornou a desaparecer e ficou invisível até ser preso no simulacro de escritório de advocacia de Frederick Wassef — o mafioso de comédia que, pego com batom na cueca, insultou a inteligência alheia ajustando sua narrativa em tempo real, como quem troca um pneu com o carro em movimento.
 
A eclosão de escândalos por atacado — marca registrada do governo Bolsonaro — levou a mídia a perder o interesse por Queiroz, que disputou a uma cadeira na Alerj, mas não conseguiu se eleger — o que é surpreendente, considerando à vocação inata do eleitorado tupiniquim para fazer sempre as piores escolhas (vide Damares, Mourão, Pazuello, Tiririca etc.).

E vamos que vamos!