Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta política é como as nuvens. Ordenar por data Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por relevância para a consulta política é como as nuvens. Ordenar por data Mostrar todas as postagens

sábado, 20 de junho de 2020

A POLÍTICA É COMO AS NUVENS...



A melhor maneira de não se decepcionar com as pessoas é não esperar demais delas. E esperar que Jair Bolsonaro fizesse um bom governo seria querer demais.

Apenas para relembrar alguns episódios que lustram o reluzente currículo do presidente, o general-ditador Ernesto Geisel referiu-se ao então oficial da ativa como um “caso completamente fora do normal, inclusive mau militar“ (o capitão teve sua carreira no exército abortada por indisciplina e insubordinação), e os anais da Câmara Federal comprovam que o parlamentar medíocre em que se transformou o mau militar conseguiu o prodígio de aprovar dois míseros projetos ao longo de quase 28 anos como deputado do baixo clero.

Pode-se gostar ou não do capitão da caverna das trevas — e fica mais difícil gostar dele a cada dia —, mas não se pode acusá-lo de estelionato eleitoral, nem sua gestão manifestamente inepta, incompetente, desnorteada, fisiologista, ideológica e lunática, de não proporcionar fortes emoções.

Parte dos 57,7 milhões de votos que elegeram o candidato Bolsonaro a presidente Bolsonaro proveio não dos bolsomínions atávicos e outros bolsonaristas de raiz, mas de eleitores que se viram sem alternativa para impedir a volta da quadrilha petista ao Planalto com a eleição do patético bonifrate do então presidiário de Curitiba, pois engrossar a ala dos 42 milhões de brasileiros que votaram em branco, anularam o voto ou se abstiveram de votar só fortaleceria o aprendiz de desempregado que deu certo.

Guardadas as devidas proporções, fizemos em 2018 o que Bolsonaro tem feito desde seus primeiros no Planalto: cavar ainda mais fundo para tentar sair do buraco. Felizmente, noves fora a inexorabilidade da morte, para tudo nesta vida há remédio, conquanto seja importante atentar para a dosagem, pois é justamente a dose que diferencia o fármaco do veneno. Dizendo de outra maneira, uma dose insuficiente da medicação não cura, mas uma overdose pode matar o paciente.    

Por mal de nossos pecados, não bastasse a tempestade perfeita que desabou sobre o mundo na forma de uma crise sanitária de proporções bíblicas, combinada com uma recessão econômica para ninguém botar defeito, temos na ponte de comando desta nau de insensatos um oficial incapaz de encontrar o próprio rabo usando as duas mãos e uma lanterna. Do jeito que a coisa vai, ou trocamos o comandante, ou o naufrágio será inevitável.

Política é como nuvem; você olha e ela está de um jeito, olha de novo e ela já mudou...”, dizia Magalhães Pinto. E com efeito. Ao observar o cenário político que se descortinou ao longo da semana que termina amanhã — de acordo com a Organização Internacional de Padronização (ISO), o primeiro dia da semana é a segunda-feira, a despeito de religiões como o islamismo, catolicismo e judaísmo, considerarem o domingo aparece como sendo o primeiro dia da semana —, chamou-me a atenção uma ironia do destino, da qual tratarei depois de uma breve contextualização.

Até não muito tempo antes das eleições passadas, as chances de um certo deputado federal tosco e inexpressivo — mas polêmico e dono de uma grosseria a toda prova — vencer a disputa presidencial, sobretudo sendo filiado a um partido nanico e igualmente inexpressivo (o oitavo em seus 30 anos de vida pública), que havia elegido 1 deputado em 2014 e não tinha dinheiro nem tempo de rádio e televisão, eram as mesmas de o inferno congelar. Mas a onda a favor desse candidato inexpressivo e contra o PT emplacou não só o dito-cujo, mas também promoveu o partido até então inexpressivo a dono da segunda maior bancada na Câmara (atrás apenas do PT).

O ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro e o ex-fuzileiro naval e juiz federal Wilson Witzel defendiam bandeiras similares para áreas como segurança e costumes. Witzel surfou na onda do crescimento do PSL e passou de ilustre desconhecido a favorito entre os candidatos ao governo fluminense quando desenvolveu agendas em conjunto com o então candidato a senador Flávio Bolsonaro (o tal deputado da rachadinha). Mas vento soprou e as nuvens mudaram: Bolsonaro e Witzel passaram de aliados políticos a desafetos depois que o já então governador fluminense cometeu o “pecado mortal” de não atribuir sua vitória ao já então presidente da República, e, pior, aventar em entrevista à GloboNews a possibilidade de disputar a presidência em 2022.

No último dia 10, Bolsonaro comemorou a aprovação da abertura de processo de impeachment de Witzel, por suspeitas de superfaturamento na compra de respiradores e irregularidades na construção de hospitais de campanha para o combate ao coronavírus. O governador chegou a ser alvo de operação da PF no Palácio das Laranjeiras. Na segunda-feira passada, Bolsonaro festejou a publicação (no DOERJ) da abertura do processo de impeachment contra o desafeto, mas na quinta-feira desta mesma conturbada semana, quando a Alerj instalou a comissão especial que irá analisar o processo de impeachment contra Witzel, não houve clima para o presidente comemorar: o ex-PM Fabrício Queiroz, seu amigo de três décadas e ex-chefe de gabinete do primeiro-filho (o da rachadinha) foi preso logo pela manhã, numa casa em Atibaia (SP).

Segundo o caseiro, Fabrício Queiroz estava mocosado ali havia mais de um ano. O dono do imóvel, Frederick Wassef, é advogado de Flávio Bolsonaro e se jacta de ser íntimo do clã presidencial, verdadeiro arroz de festa nos Palácios do Planalto e da Alvorada. Na última quarta-feira, ele compareceu à posse do novo ministro de Comunicações, Fábio Faria. No dia seguinte, depois que seu hóspede ilustre foi preso, o digníssimo anfitrião tornou-se apenas “o advogado de Flávio”. Não demora e os defensores lunáticos do general da banda começarão a dizer que os dois sequer se conheciam. Frederick o quê? Nunca ouvi falar.

Em nota, a advogada Karina Kufa, que defende o presidente nas ações eleitorais que pedem a cassação da chapa Bolsonaro/Mourão e cuida dos detalhes legais da criação do partido Aliança pelo Brasil, disse que Wassef representa apenas Flávio. “Todas as ações do senhor Jair Messias Bolsonaro, sejam elas cíveis, criminais ou eleitorais, em curso no poder judiciário, exceto aquelas de competência da AGU, estão sob a responsabilidade deste escritório, cuja única sócia é sua fundadora, Karina Kufa”.

A gargalhada do diabo: de aliados, o presidente e o governador passaram a desafetos, e agora ambos pisam em brasas. Contra o primeiro já tramita um processo de impeachment; o segundo é investigado no STF por interferência na PF e pode ser arrastado para o olho do furação Queiroz/Flávio Bolsonaro.

Como se vê, as nuvens mudaram. Resta saber como se comportarão ao longo dos próximos dias. Mas isso a gente só vai saber nos próximos dias.

domingo, 5 de setembro de 2021

FALTAM DOIS DIAS...

 

A dicotomia semeada décadas atrás pelo demiurgo de Garanhuns com seu abjeto "nós contra eles" se espalhou como metástase e alcançou os píncaros com a oposição do bolsonarismo boçal ao lulopetismo corrupto (como bem sabe quem "frequenta" redes sociais, onde fake news disputam espaço com toda sorte de vitupérios trocados entre defensores atávicos dos dois extremos do espectro político-ideológico). 

Longe de mim defender a censura ou seja lá o que for que impeça as pessoas de expressar livremente suas opiniões (afinal, quem dá voz a burros não pode reclamar dos zurros). Mas para tudo deve haver limites, e a polarização desbragada não é exceção, sobretudo quando ela chega ao ponto de criar um clima de incerteza que desestimula investimentos, prejudica a formação de consensos mínimos para reformas e afeta o funcionamento das instituições e a governabilidade do país.

Estamos prestes a assistir mais dois dias de comícios, um “em defesa das liberdades” e outro “contra o fascismo”, num exercício de grandiloquência a gosto pela toxina política poucas vezes visto por estas bandas. O diabo é que a hiperpolarização transborda, inundando com a lógica da política as demais áreas da vida. As amizades, por óbvio, começam a balançar quando João vai à Paulista no dia 7 e a Catarina, no dia 12. Daí o traço do exagero. O debate feito à moda do espantalho. A ideia de que o outro lado é “inadmissível”, pois nós somos a “própria democracia”.

A polarização aguda está longe de ser um fenômeno da base da sociedade. Seu ecossistema é o da minoria barulhenta, que dá o tom do debate público, em especial na Internet. A democracia digital se tornou um gigantesco mecanismo de seleção adversa. Em vez de selecionar gente ponderada para liderar, disposta a gerar consensos e resolver problemas (pasmem: é para isso que a política foi inventada), tende a premiar o bufão ou o “grande moralista”. O senador que lacra na CPI, o deputado que bomba detonando o STF (achando que não acabará na cadeia) e assim por diante.

O resultado disso é a mediocrização do debate público. A maioria dos temas importantes da vida pública não se encaixa na lógica do tudo ou nada, e só ao pequeno mundo político interessa ir contra ou a favor de alguma coisa apenas porque ajuda ou atrapalha o governo.

Há, em regra, boas razões a favor e contra qualquer política relevante. Há ajustes a fazer e gente diferente a ser escutada. Mas a polarização doentia expulsa a sutileza e a atenção a efeitos adversos de qualquer decisão e, de quebra, torna boa parte da imprensa acrítica, ao confundir senso crítico com a adoção de uma agenda política — que em geral se resume a variações sem fim dos mesmos xingamentos.

A polarização obsessiva esgarça as instituições, mas é essencialmente um tema da cultura política de nossas democracias. Vivemos em paz, mas é a estética da guerra que parece dar o tom no atual cenário político. Daí o interesse renovado pela obra de Carl Schmitt. Suas construções sombrias, feitas nos anos difíceis que assistiram ao fim da República de Weimar, parecem pairar sobre a política atual.

Da ideia de que a vida política “é a vida essencial”, a descrença na suavidade e nas abstrações da democracia liberal advém a ideia de que é a inimizade, e não o diálogo, que define o sentido da política. Nada das palavras doces de Joe Biden sobre converter inimigos em adversários. O elemento natural da política é a relação amigo-inimigo. Definimo-nos como comunidade política, precisamente sabendo quem é nosso “outro”, e o limite disso tudo é a guerra, não o direito.

A democracia liberal, nessa visão, com seu respeito ao pluralismo, direitos individuais e toda a parafernália de freios e contrapesos, torna-se algo como uma fantasia. É evidente que não estamos nesse ponto, entre outras razões porque não estamos na Alemanha dos anos 30. Mas há nuvens no horizonte.

Meio século depois da adesão de Schmitt ao nazismo, Norberto Bobbio fazia uma conferência em Milão sobre a Mitezza — a serenidade ou “moderação” como a virtude desejável na democracia. Seu argumento, depois transformado em livro, prefaciava um tempo em que não há mais tiroteios pelas ruas, mas os modos da guerra, seus jeitos e sua intolerância, pareciam sobreviver. E isso não era bom. Daí sua pregação algo utópica sobre a Mitezza. A virtude das pessoas simples que não desejam o poder pelo poder. A virtude horizontal, das pessoas que se miram na altura dos olhos, como iguais em legitimidade e direitos. A virtude “fraca”, diz Bobbio, por definição “impolítica”, novamente contrastando com Schmitt, nos lembrando que a política não é tudo, que ela tem limites e que o poder não pertence aos homens, mas ao direito. E, por fim, uma virtude estética: a suavidade ao invés da arrogância.

O 7 de setembro se aproxima e ninguém sabe o que esperar. A promessa bolsonarista era algo realmente perigoso, com muita gente armada, incluindo policiais, ameaça escancarada de invasão do STF e golpe de Estado. Mas o tom baixou, e o foco foi deslocado para uma defesa vaga da “liberdade” — não no conceito moderno, em que a liberdade de um termina onde começa a do outro, mas no da lei do mais forte: liberdade para desmatar, recusar máscaras e vacinas, comprar fuzil, mentir, difamar, ameaçar.

É repugnante, mas não configura risco real. A mudança de foco, entretanto, não tranquiliza. Ninguém controla uma turba depois de insuflada, e ela vem sendo insuflada há muito tempo. O próprio presidente voltou a subir o tom. “Nunca outra oportunidade para o povo brasileiro foi ou será tão importante quanto esse nosso próximo 7 de setembro (...) chegou a hora de nós, no dia 7, nos tornarmos independentes para valer (...) esse norte será dado com muita força no próximo dia 7 (...) eu tenho três alternativas: estar preso, estar morto ou a vitória (...) se você quer paz, prepare-se para a guerra.”

Em que pese Bolsonaro ser bravateiro, o recado é claro. Além disso, o presidente é naturalmente beligerante, deixa-se açular com facilidade e age por impulso: uma vez no palanque, diz o que a multidão quer ouvir. Não é impossível que uma frase sua leve à invasão do Supremo ou do Congresso. (É bom lembrar que Trump jamais ordenou a seus fãs que invadissem o Capitólio; ele disse apenas que protestassem, mas o “protesto” foi o que se viu.)

A situação no Brasil é crítica. Aproximamo-nos dos 600.000 mortos, e vão morrer muitos mais antes que a pandemia esteja sob controle. O crescimento está comprometido, o desemprego está nas alturas, a inflação e os juros sobem, o risco de apagão é real. E há a CPI. Ninguém no governo tem competência ou credibilidade para reverter a situação. Não apenas a esquerda reclama de Bolsonaro, mas também jornalistas, economistas, empresários, industriais, banqueiros, o setor moderno do agronegócio, e até militares.

Ninguém mais aguenta tanto desgoverno. A popularidade do presidente cai, a rejeição sobe. A reeleição parece remota, e Bolsonaro dá mostras de que teme ser preso quando deixar o poder (não sem motivo, pois se multiplicam as acusações de que cometeu crimes).

As manifestações do 7 de setembro não têm o poder de melhorar a situação do presidente. Se fracassarem, ele ficará ainda mais fragilizado do que já está; se forem grandes e pacíficas, ele terá dado uma demonstração de força, mas isso não tornará o cenário menos crítico nem aumentará suas chances de ser reeleito. Já se houver arruaça à sua revelia, o clamor pelo impeachment crescerá. E se, acuado, ele partir para o tudo ou nada e tentar o golpe, os militares, como já deixaram claro, não o seguirão. O dano será grande, mas Bolsonaro cairá. Em vez de ser preso no futuro, será preso agora. (O que não deixará de ser, de certa maneira, uma proclamação de independência — para ele e para todos nós.)

Com Fernando Schüller e Ricardo Rangel

sexta-feira, 7 de junho de 2019

O PACTO INSTITUCIONAL PARA INGLÊS VER



A postura de enfrentamento é da natureza de Jair Bolsonaro. Recuos e tentativas conciliatórias há, mas parecem carecer de sinceridade, pois o presidente é useiro e vezeiro e desdizer o que disse — e até o que desdisse. Às vezes, ele age como um estrategista de alto coturno; noutras, como um parlapatão irresponsável. Mas mais irresponsáveis ainda foram os eleitores — refiro-me ao primeiro turno, pois na fase final já não havia para onde correr.

Voltando ao capitão, há quem veja sua beligerância atávica, no velho estilo estudantil “não levo desaforo pra casa”, como um papel que ele interpreta, mas eu acho que isso faz parte de sua personalidade. É como o escorpião da fábula, que convence o sapo a levá-lo nas costas até o outro lado do rio, argumentando que ambos morrerão se ele aguilhoá-lo, mas tasca-lhe a ferroada mesmo assim, porque é da sua natureza e não há nada que ele possa fazer para mudar.

Se o presidente é como é, os deputados e senadores também são como são: demagogos, fisiologistas, venais, interesseiros. Com raríssimas exceções, eles só se preocupam com o próprio umbigo, às favas com os interesses da nação. O presidente da Câmara, por exemplo, brinca de cabo-de-guerra com o chefe do Executivo enquanto uma caudalosa enxurrada de desditos, desmentidos, acordos, pactos e que tais tentam demonstrar o indemonstrável. A exemplo daquelas famílias numerosas do início do século passado, que posavam para a posteridade diante da câmera de um lambe-lambe, Bolsonaro e Maia — e por vezes Alcolumbre — são todos sorrisos, tapinhas nas costas e apertos de mão, mas só nas fotos.

Em entrevista à Globo no último domingo, Maia, que foi lembrado de forma nada elogiosa nas manifestações do último dia 26, disse que falta ao Planalto um plano de governo, que a reforma previdenciária não é a panaceia para todos os males, que o país ruma para um “colapso social” e que nada está sendo feito para impedir que isso aconteça. Na sequência, detonou o tal pacto institucional, afirmando que Toffoli apresentou uma proposta “mais de princípios” e o governo, uma contraproposta “mais política, mais ideológica”, que “Lorenzoni entregou um documento que ninguém leu”, que ficou parecendo que o pacto fora fechado “em cima daquele texto”, e que ele (Maia) só poderia firmar qualquer pacto se “tivesse apoio majoritário” dos partidos, o que dificilmente conseguirá. Aproveitando o embalo, criticou o folclórico ministro da Educação, que não poderia se comportar como "um ator da Disney". Com aliados assim, quem precisa de inimigos?

De acordo com a revista VEJA, o pacto proporcionou uma bela imagem, mas enfrenta resistência de parlamentares e magistrados. No Supremo, o ministro Marco Aurélio (que, graças ao bom Deus, deixa a Corte no ano que vem) botou mais lenha na fogueira ao declarar que Toffoli não tem procuração do tribunal para negociar pactos com outros poderes (e a verdade é que ele não tem mesmo).

No Congresso, o governo continua a colher derrotas. Alcolumbre disse que não vai pôr em votação a medida provisória assinada pelo então presidente Michel Temer (com a anuência de Bolsonaro), que flexibiliza o Código Florestal. Ele alega que a casa não terá tempo suficiente para debatê-la, mas, nas entrelinhas, reforça o coro puxado por Maia sobre a necessidade de pôr um freio na edição de medidas provisórias pelo presidente da República. Na Câmara, os reveses também são sucessivos. Sob a batuta de Maia — cuja caneta, segundo Bolsonaro, tem menos tinta e poder —, os deputados engessara ainda mais o Orçamento da União, anularam um decreto presidencial sobre sigilo de informações, deram início à tramitação de uma proposta de reforma tributária diferente da defendida por Paulo Guedes e, caso da Previdência, declararam que não têm compromisso com a aprovação integral do projeto elaborado pelo superministro. Ambos prometem patrocinar mudanças no texto, para que ele fique mais ao feitio dos congressistas que do Executivo, demonstrando que há uma disputa clara pela paternidade do avanço da agenda econômica.

Nos bastidores, a atuação do presidente da Câmara é vista como uma tentativa de implantar um “parlamentarismo branco”. Há políticos, no entanto, que defendem passos mais ousados. Um grupo suprapartidário de senadores, que reúne quadros do PSDB ao PT, tem debatido a possibilidade de pôr em votação uma emenda constitucional para implantar o parlamentarismo no Brasil a partir de 2022, o que reduziria os poderes de Bolsonaro caso seja reeleito. Outra ideia em estudo é votar o chamado recall do mandato presidencial, que também só valeria a partir de 2022. Ele funcionaria como uma espécie de plebiscito para que os eleitores decidam sobre a continuidade ou não do governo. Apesar das conversas, prevalece por enquanto o entendimento (correto, por sinal) de que ainda não é hora de tirar tais projetos da gaveta, para não conturbar um ambiente político já devidamente conturbado.

A PEC previdenciária será aprovada (só não se sabe com que alcance), mas apenas porque a sociedade civil tem exercido pressão sobre o Congresso, e há nada que os políticos temam mais do que o rugido das ruas. Suas insolências não querem ficar com a pecha de culpados por obstruir a colagem dos cacos da Economia, mas é nítida sua intenção de pôr cabresto em Bolsonaro através da limitação dos poderes do Executivo. Segundo a Folhaesse antigo desejo de deputados e senadores está no topo da lista de ações do “parlamentarismo branco” promovido em meio à desarticulação política do governo.

Observação: Criadas pela Constituição de 1988 em substituição aos decretos-lei da ditadura, as medidas provisórias são o principal instrumento do presidente para legislar, pois têm força de lei, embora precisem ser aprovadas em até 120 dias pelo Congresso para virarem, de fato, uma lei. Por enquanto, não há limite para o uso desse instrumento — em cinco meses de mandato, Bolsonaro editou nada menos que 14 medidas provisórias.

A política é como as nuvens no céu. A gente olha e elas estão de um jeito; olha de novo e elas já mudaram. Um dia depois de ler entrevistas nas quais Rodrigo Maia declarou que a falta de agenda do governo conduz o país ao colapso social, Bolsonaro, em visita à Câmara, tratou o presidente da Casa com respeito e fidalguia, e foi tratado por ele com ensaiada amabilidade — Maia chegou a chamar de projeto de lei importante a peça que o visitante lhe entregou, uma proposta considerada secundária e extemporânea, concebida para afagar motoristas infratores, sobretudo entre os caminhoneiros. Foi o segundo encontro dos dois desde a manifestação pró-governo. No primeiro, discutiu-se o tal pacto entre os Poderes.

Que conclusão se pode extrair de tanta desavença que evolui do cheiro de queimado para a conciliação — e vice-versa — como se tudo se resolvesse num passe de mágica?  Segundo o evangelho de Josias de Sousa, a explicação é a seguinte:

Por um lado, é bom que Bolsonaro e Maia continuem a se falar; por outro, o tipo de relacionamento que a dupla mantém apenas reforça a convicção de que a política é o território da falsidade, da hipocrisia. É como se eles informassem à plateia que não convém levá-los a sério. Coube ao presidente da Comissão Especial sobre a reforma da Previdência, deputado Marcelo Ramos, gritar no Twitter o que Maia e os parlamentares do centrão cochicham em privado: "…O presidente Bolsonaro não tem noção de prioridade e do que é importante pro país. Enquanto estamos num seminário sobre reforma da Previdência ele está vindo pra Câmara apresentar PL (projeto de lei) que trata de aumentar pontos na carteira de maus motoristas."

E cosi la nave va.   

sábado, 7 de setembro de 2024

ELEIÇÕES 2024 — POLARIZAÇÃO, BAIXARIA E CEGUEIRA MENTAL DÃO O TOM


 
Faltando menos de um mês para as eleições municipais, Ricardo Nunes, Guilherme Boulos e Pablo Marçal estão tecnicamente empatados, Tábata Amaral aparece em 4º lugar e José Luiz Datena carrega a lanterninha. 
Pelo que se pôde inferir dos debates e do anacrônico "horário eleitoral gratuito" — gratuito para os partidos e candidatos, já que quem paga a conta somos nós — nenhum deles tem condições de administrar nem carrinho de pipoca, quanto mais a maior metrópole da América Latina. A proposta de Tábata é a "menos pior", mas, a julgar pelas pesquisas, a moça precisa de um milagre para chegar ao segundo turno. 
 
No Brasil, presidente, governadores, prefeitos e senadores são eleitos com base no sistema majoritário, e deputados (federais e estaduais) e vereadores, pelas regras do sistema proporcional. Como eu comentei esses dois sistemas em outra postagem, vou resumir a ópera relembrando somente que, em municípios com mais de 200 mil eleitores inscritos, se nenhum candidato a prefeito obtiver 50% + 1 dos votos válidos no primeiro turno, os dois mais votados disputarão uma segunda eleição 
— conhecida como "segundo turno" — que é decidida por maioria simples, ou seja, vence o candidato mais votado.

ObservaçãoNos últimos 24 anos, o segundo turno das eleições paulistanas foi disputado por um candidato da esquerda contra um da direita. Mesmo em 2016, quando Dória venceu no primeiro turno, Haddad ficou em segundo lugar. Seguido esse padrão, um embate final entre dois candidatos da direita — no caso, Marçal e Nunes — é no mínimo improvável. Nesse cenário, Boulos deve representar a esquerda. Resta saber quem será seu oponente. Datena parece não ter a menor chance, e Tábata tem menos de um mês para se consolidar na disputa.
 
Situações desesperadoras exigem medidas desesperadas, mas abster-se de votar, votar em branco, anular o voto ou recorrer ao "voto útil" no primeiro turno é estupidez, mas a nefasta polarização vem produzindo pleitos plebiscitários, e um eleitorado despreparado, mal-informado e eivado de apedeutas e idiotas de carteirinha tende a votar não no candidato com quem mais se identifica, mas naquele que supostamente tem mais chances de derrotar o candidato "deles", o que acaba falseando o resultado final do pleito.
 
Magalhães Pinto ensinou que "política é como as nuvens; a gente olha e elas estão de um jeito, olha de novo e elas já mudaram" e Ciro Gomes, que "eleição é filme, pesquisa é frame". Se admitirmos
 que a opinião de alguns milhares de entrevistados representa fielmente o que pensam 9,32 milhões paulistanos aptos a votar, o resultado das pesquisas constitui um "instantâneo" do humor do eleitorado no momento da abordagem. O bom senso recomenda analisar os números com a devida cautela, mas explicar isso a quem sofre de cegueira mental é como dar remédio a um defunto.
 
Uma das características da democracia brasileira é produzir "salvadores da Pátria". Vimos isso em 1989 com Collor, em 2002 e 2006 com Lula e em 2018 com Bolsonaro. Talvez a história se repita em 2026, tendo como protagonista o "coach motivacional" que teve a candidatura ao Planalto barrada pelo TSE, conseguiu se eleger deputado federal, foi impedido de assumir e agora mira a prefeitura paulistana com um olho e a Presidência com o outro. 

A exemplo de Bolsonaro em 2018, Marçal se vende como candidato "antissistema", mas já acena uma aproximação com o sistêmico União Brasil, que um dos principais partidos do Centrão. Se for eleito, cairá no colo do UB, exatamente como o "mito" caiu no colo do Centrão — e lhe deu o orçamento secreto em troca do engavetamento de 150 pedidos de impeachment. 
 
Campanha eleitoral movida a ódio não é novidade por estas bandas, mas terminou mal todas as vezes que a raiva foi industrializada com propósitos políticos: Jânio renunciou, Collor foi impichado, Bolsonaro perdeu a reeleição, está inelegível, vive sob a sombra de uma sentença criminal esperando para acontecer enquanto posa de cabo-eleitoral de luxo. 
A diferença entre ele e Marçal é que as redes sociais dão a este um alcance maior que o daquele

Com a repetição do fenômeno de forma mais turbinada na seara municipal paulistana, resta torcer para que o eleitor despache a aberração antes que ela se consolide como um fenômeno eleitoral. A despeito de estar claro que se trata de um produto estragado, quem tem que comprá-lo ou não é o eleitor.

domingo, 13 de julho de 2025

CROQUETES DE CARNE

OS MELHORES PRESENTES QUE A VIDA NOS DÁ SÃO AS LEMBRANÇAS, E  OS PIORES SÃO AS SAUDADES.

 

No último domingo, vimos como fazer baurus iguais aos que eu comia na Leiteria Lírico, nos idos anos 1980. Hoje, a bola da vez são os croquetes de carne — os servidos lá eram dourados por fora, úmidos por dentro... enfim, deliciosos. 


Esse petisco surgiu na França e se popularizou no Brasil com diversas variações de recheio, mas o de carne moída se destaca por ser uma maneira de reaproveitar sobras de carne (como ensinou Lavoisier, o bife que sobra vira picadinho, e o picadinho que sobra, croquete de carne). Além de ser uma receita econômica, o preparo é simples, e você pode servir como tira-gosto, acompanhado de caipirinha, cerveja, vodca-tônica, uísque, etc.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Magalhães Pinto ensinou que política é como as nuvens: a gente olha e elas estão de um jeito; olha de novo, e já mudaram. Acompanhar essas mudanças é como trocar o pneu com o carro em movimento — e, graças à polarização, o que já era ruim conseguiu piorar.
Einstein dizia que duas coisas são infinitas: o Universo e a estupidez humana. A prova cabal desse axioma é o eleitorado tupiniquim repetir, a cada eleição, o que Pandora fez uma única vez. Em 2018, a desgraça que escapou da caixa se chamava Jair Bolsonaro — eleito para evitar que o país fosse presidido por um presidiário. Em 2022, elegeu-se o mesmo presidiário retrocitado (então libertado, descondenado e reabilitado politicamente), numa espécie de desforra surreal: o mal menor era livrar-se da perpetuação do estrupício golpista no poder. E como nada é tão ruim que não possa piorar, a polarização promete novo embate em 2026 entre a esquerda lulopetista e a direita bolsonarista. 
Bolsonaro está inelegível e na bica de ser sentenciado por tentativa de golpe de Estado, mas “Micheque”, “Dudu Bananinha” e Tarcísio de Freitas disputam a "honra" de lhe servir de bonifrate — a exemplo do que Haddad fez por Lula em 2018. Lula, mesmo combalido pela idade, pela saúde e pelos maiores índices de rejeição de sua trajetória, não abre mão de disputar um quarto mandato, e para isso está disposto a aumentar ainda mais o déficit público — o maior da história republicana desta banânia — com seus pacotes de bondades populistas e eleitoreiras. 
Há duas semanas, havia no palácio um presidente enfraquecido à procura de um discurso. Mas quem tem padrinho não morre pagão — mesmo que o padrinho seja vermelho, tenha chifres, cascos e rabo em ponta de seta. Lula foi agraciado pelos adversários com dois inimigos que teria pedido a Deus, se porventura acreditasse em Deus — os bilionários e o Tio Sam — e retirou da mochila duas ferramentas velhas de guerra: a luta de classes e o nacionalismo. 
Se virasse roteiro de cinema, a conjuntura das últimas semanas renderia uma tragicomédia. Deve doer nos operadores da oposição bolsonarista perceber que comprometem a cena ao fazer o papel de vassalos desastrados, num enredo confuso em que o protagonista é um gorila cor de laranja, o coadjuvante é um capitão golpista — e o epílogo é a cadeia.

Você vai precisar de:

 

1) 1 kg de patinho ou coxão-mole; 

2) 2 batatas médias;

3) 1 colher (sopa) de manteiga; 

4) 3 dentes de alho picados; 

5) 1 cebola média picada ou ralada; 

6) ½ pimentão médio picado (sem as sementes);

7) ½ xícara de farinha de trigo e o mesmo tanto de farinha de rosca; 

8) 1 xícara de leite; 

9) 2 ovos (clara e gema); 

10) Um pacote (100 g) de queijo parmesão ralado; 

11) Sal, pimenta do reino, cheiro verde e molho inglês a gosto.

Se não sobrou nada do churrasco de domingo, limpe um pedaço de patinho ou coxão-mole, cozinhe na pressão junto com as batatas, deixe esfriar e passe tudo pelo processador (ou duas vezes por moedor convencional).

 

Aqueça a manteiga numa panela de tamanho adequado, coloque a carne e as batatas já processadas ou moídas e, sempre mexendo com uma colher de pau, acrescente os ovos, o alho, a cebola, o cheiro-verde, o pimentão, o queijo ralado e os demais temperos, a farinha dissolvida no leite, e continue mexendo. 

 

Quando a massa ficar bem homogênea, desligue o fogo, deixar esfriar, unte as mãos com um pouco de óleo, enrole os croquetes (o tamanho fica a seu critério), passe-os na farinha de trigo, depois numa mistura de ovo batido e água e então na farinha de rosca. Separe a quantidade que for você consumir, coloque os que sobrarem num pote (tipo Tupperware) com tampa e guarde na geladeira por até 3 dias ou no congelador por até 3 meses (proceda da mesma maneira se sobrarem croquetes fritos, e use o forno, o micro-ondas ou a airfryer para reaquecer).

 

Esquente bem o óleo numa panela ou frigideira do borda alta (mergulhe um palito de fósforo no óleo; quando ele acender, é porque está no ponto) e frite os croquetes em pequenas quantidades, de modo a evitar que o óleo esfrie e encharque a fritura. Quando estiverem dourados, transfira-os para uma travessa forrada com toalhas de papel, deixe absorver o excesso de gordura e sirva.

 

Dicas: Se preferir, asse os croquetes no forno preaquecido a 200°C por 20 a 30 minutos (de acordo com a potência do seu forno). Para que eles fiquem mais crocantes, deixe-os na geladeira por pelo menos uma hora antes de fritar. Para deixar o recheio ainda mais saboroso, coloque um pedaço de muçarela ou gorgonzola dentro de cada croquete (ou de alguns croquetes, ao gosto do freguês).


Bom proveito.