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domingo, 30 de janeiro de 2022

A ÚNICA VACINA

 

Eu considerava a reeleição de Dilma o maior estelionato eleitoral da nossa história recente (e não foi por falta de concorrentes de peso), mas Bolsonaro deixou a mulher anta no chinelo e, entre outras bandeiras de campanha que enfiou em local incerto e não sabido, merece especial destaque a de "acabar com a 'velha política' do toma-lá-dá-cá", que jamais passou de mera demagogia. Ninguém fica na Câmara durante 27 anos sem se dar conta de como a banda toca, ou por outra, de que ex-presidentes que tentaram peitar o Congresso — como Jânio, Collor e Dilma, por razões diferentes e não necessariamente republicanas — perderam seus mandatos.

Ao nomear Ciro Nogueira ministro-chefe da Casa Civil, Bolsonaro entregou ao Centrão as chaves do reino e do cofre. Segundo apurou o EstadãoR$ 25,1 bilhões em emendas parlamentares foram destinadas a deputados e senadores da chamada “base aliada”. O STF considerou irregular o uso político dos recursos Mas e daí? Desde sempre que o capitão cria factoides para manter acirrada sua base ideológica e desviar a atenção da mídia de um tema polêmico para outro. 

Em abril de 2020, durante uma manifestação subversiva defronte ao QG do Exército, Bolsonaro discursou: “Nós não vamos negociar nadaTemos de acabar com essa patifaria. Esses políticos têm de entender que estão submissos à vontade do povo brasileiroÉ o povo no poder”. Para não dizer que nada aconteceu, alguns oficiais tiraram selfies e sorriram para a multidão. O inquérito que está sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes avança a passos de bicho-preguiça, juntamente com outras cinco investigações — inclusive a que apura a “suposta” interferência do capitão na PF.

Em agosto de 2021, Bolsonaro convocou uma blindadociata para pressionar o Congresso a aprovar a PEC do voto impresso — que acabou sepultada. Em seu enésimo comício em Santa Catarina, o "mito" referiu-se ao presidente do TSE como "aquele filho da puta do Barroso" — o vídeo foi prontamente apagado do Facebook, mas a ação não foi rápida o bastante para impedir que a cena viralizasse nas redes sociais. Discursando a apoiadores no feriado de 7 de setembro, chamou Alexandre de Moraes de “canalha”. Mas seu destempero foi alvo de críticas, nada além disso. 

O réu que preside a Câmara e serve de cão-de-guarda a cento e tantos pedidos de impeachment latiu, mas não mordeu; o presidente do Congresso reagiu com a mineirice que lhe é peculiar; o presidente do STF foi mais incisivo, mas tudo voltou a ser como antes no quartel de Abrantes depois que o tiranete despirocado leu a patética missiva redigida a rogo pelo folclórico vampiro que tem medo de assombração.

Os números mostram como o Congresso ampliou seu controle sobre o Orçamento da União ao longo dos anos. O processo começou antes do atual governo, mas cresceu a olhos vistos sob Bolsonaro. Os R$ 25,1 bilhões efetivamente pagos em 2021 representam três quartos dos R$ 33,4 bilhões que foram empenhados (quando o dinheiro é reservado no Orçamento), índice acima de anos anteriores, segundo os dados do Portal do Orçamento do Senado. Para este ano — em que boa parte dos parlamentares disputará eleições — o valor previsto é ainda maior, de R$ 37 bilhões

Para não correr o risco de esse dinheiro ser represado, Bolsonaro assinou um decreto no último dia 13 tirando do Ministério da Economia e dando à Casa Civil a palavra final sobre a gestão orçamentária. Na prática, a liberação dos recursos ficará a cargo do ministro Ciro Nogueira, mandachuva do Progressistas e comandante do Centrão, que passará a decidir sobre Orçamento.

As emendas são indicações feitas por parlamentares de como o Executivo deve gastar parte do dinheiro do Orçamento. Elas incluem desde obras de infraestrutura, como a construção de uma ponte, até valores destinados a programas de saúde e educação. Como mostrou o Estadão, o dinheiro foi utilizado nos últimos anos também para comprar tratores com sobrepreço — o chamado “tratoraço” —, e integrantes do próprio governo admitem que há corrupção envolvendo a liberação desses recursos. 

A despeito de suas promessas de campanha, Bolsonaro usou e abusou da liberação de dinheiro quando precisou de apoio dos adeptos da baixa política. O caso mais emblemático se deu em novembro, quando da votação da PEC dos Precatórios, que abriu caminho para criar o Auxílio Brasil — programa populista que o presidente vai usar como bandeira eleitoral para tentar a reeleição. Na véspera, o governo destinou R$ 1,2 bilhão dos cofres públicos para atender aos interesses dos parlamentares alinhados com o governo. 

Pelo voto de cada parlamentar foram pagos até R$ 15 milhões, como admitiram pelo menos dois deputados ao jornal O Estado de S.Paulo. Além disso, o governo priorizou aliados até na hora de liberar as chamadas emendas individuais — aquelas previstas na Constituição e que garantem a mesma quantia para todos os congressistas. Parlamentares de partidos do Centrão como o PL, o Republicanos e o Progressistas receberam cerca de 70% dos valores destinados a eles; legendas de oposição mais críticas ficaram para trás — PCdoB, Novo e PSOL foram os que receberam menos recursos. 

Políticos da base aliada argumentam que usam as emendas para irrigar programas capitaneados pelos próprios ministérios, o que agiliza o pagamento. Foram eles que mais indicaram recursos pelas transferências conhecidas como “emenda cheque em branco” e “PIX orçamentário”, mediante as quais o dinheiro cai diretamente na conta das prefeituras, ou seja, sem passar pelos ministérios.

A Secretaria de Governo contestou as informações da reportagem do Estadão. Alegou que seus dados são obtidos a partir do Tesouro Gerencial — sistema mantido pelo governo. Mas as informações do Siga Brasil, utilizadas pelo jornal, provieram da mesma base de dados. Questionada, a pasta não forneceu as informações que o Executivo afirma dispor.

Há uma frase lapidar de Abraham Lincoln: “Dê poder a um homem e descobrirá o seu caráter”. Demos o poder a Bolsonaro para evitar que o país fosse governado por uma marionete de presidiário e descobrimos, para além de seu caráter, o péssimo temperamento que o move. O Brasil contabiliza mais de 620 mil óbitos por Covid, boa parte dos quais se deve à desídia e ao viés negacionista do presidente e da caterva que o assessora. Também é conhecida sua falta de empatia e de sensibilidade em relação às vítimas do vírus assassino (falo do biológico) e às pessoas que ficaram sem pais, irmãos, filhos, cônjuges e amigos. 

Em face do exposto, parece-me evidente que nenhum brasileiro que perdeu parentes ou amigos para a pandemia entregará seu voto à reeleição de Bolsonaro — conforme, aliás, dão conta as enquetes eleitoreiras. Com exceção dos apoiadores incorrigíveis do mandatário de fancaria, é preciso ser muito masoquista para desejar a continuidade desse funesto governo.

A pandemia vai acabar um dia. O Sars-CoV-2, a exemplo dos demais vírus, vai se adaptar ao ser humano, e este a ele. Mas a eleição de 2022 engendra 2023, e a Bolsonaro não queremos adaptação. Diante da inércia do Congresso e do STF, o sufrágio é a única vacina contra ele.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

DESGRAÇA POUCA É BOBAGEM


Na última segunda-feira, quando os protestos contrários ao governo ocorridos no sábado anterior eram o assunto mais comentado nas redes sociais, Bolsonaro mudou o foco dos internautas anunciando a decisão de sediar a Copa América. Nesta quinta, feriado de Corpus Christi, driblou jornalistas na porta do Alvorada e foi passear de moto em Formosa (cidade goiana que fica a 80 quilômetros de Brasília), onde assistiu a uma missa e conversou com apoiadores locais.

Bolsonaro faz bem em rezar. O menosprezo pelas vítimas da pandemia, a inoperância administrativa, a falta de um plano econômico, as revelações trazidas à luz pela CPI do Genocídio, o Tratoraço e os escândalos no Ministério do Meio Ambiente estão cobrando seu preço. Levantamento feito pelo instituto Paraná Pesquisas mostra que 52,7% dos fluminenses desaprovam o governo e 45,9% consideram seu desempenho ruim ou péssimo — lembrando que o Rio de Janeiro é o reduto eleitoral do presidente. 

Mais de 460 mil pessoas já perderam a vida para a Covid no Brasil. Maio se tornou o terceiro mês com maior número de óbitos (59.010), atrás apenas de abril (82.266) e março (66.673). Na avaliação do epidemiologista Pedro Hallal, o negacionismo foi responsável por mais de 300 mil mortes. Para piorar, o ritmo da imunização segue lento — até a última terça-feira, apenas 10,6% dos brasileiros haviam recebido as duas doses da vacina. E depois a jornalista Daniela Lima, da CNN, que é quadrúpede.

O passeio desta quinta-feira não constava da agenda oficial do chefe do Executivo e ocorreu um dia depois de seu pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão — durante o qual um panelaço com direito a gritos de “Fora, genocida!” se fez ouvir em São Paulo, Rio e NiteróiRecifeBelo Horizonte, Florianópolis, Vitória, FortalezaPorto AlegreSalvadorBelém e várias regiões do Distrito Federal.

Em sua fala, além de enaltecer a própria gestão e divulgar números distorcidos sobre os avanços da vacinação, Bolsonaro afirmou que todos os brasileiros que assim o desejarem serão vacinados ainda este ano. Curiosamente, o governador João Doria havia anunciado horas antes que toda a população adulta do Estado de São Paulo estará vacinada até o final de outubro.

Na CPI da Pandemia, o senador Otto Alencar fez picadinho do conhecimento científico da Dra. Nise Yamaguchi, defensora de quatro costados do uso da hidroxicloroquina no combate à Covid. Médico como a depoente, o parlamentar fez uma série de perguntas — entre elas a diferença entre um protozoário e um vírus — que sua colega não soube responder, embora seja uma das principais integrantes do gabinete paralelo que dá sustentação pseudo científica às teses estapafúrdias do Executivo.

Já a infectologista Luana Araújo deu uma verdadeira aula aos membros da CPI — e aos milhões de brasileiros que assistiram à transmissão do circo parlamentar. Sobre tratamento precoce, kit-covid, cloroquina e assemelhados, as respostas da médica foram de uma precisão cirúrgica (se me desculpam o trocadilho). A certa altura, ela classificou a discussão de delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente: Nós ainda estamos discutindo uma coisa que não tem cabimento, como se a gente estivesse escolhendo de que borda da ‘Terra plana’ vai pular”.

Sobre sua rápida passagem pelo Ministério da Saúde — interrompida antes da nomeação oficial para o cargo de secretária extraordinária de Enfrentamento à Covid —, a médica disse que o ministro lhe havia garantido autonomia para agir na secretaria, mas que, dez dias depois, ele próprio comunicou “com pesar” que sua nomeação “não iria passar”. 

Em depoimento anterior à CPI, Marcelo Queiroga reconheceu que a confirmação de Luana no cargo dependia de “validação política”. Pelo visto, nem o próprio ministro tem autonomia para gerir a pasta que supostamente comanda.

A médica não deixou pergunta sem resposta. Esclareceu por que o modelo de testagem escolhido pelo governo está errado e não pode funcionar, explicou com clareza por que as medidas de isolamento e uso de máscara são absolutamente necessárias e mostrou que a ideia de “imunidade de rebanho natural” não faz sentido. 

Luana também deixou claro que todo profissional de saúde é favorável a tratamento precoce — desde que tal tratamento exista — e mostrou a diferença entre a autonomia pessoal do médico para, com a anuência do paciente, prescrever o que quiser, e a política pública de saúde, que tem a obrigação de seguir parâmetros científicos e recomendar medicamentos com eficácia comprovada. Diante da insistência do senador governista Marcos Rogério sobre o tratamento precoce, a resposta da doutora foi didática: “Se eu pegar essa cultura viral [da Covid] e botar no micro-ondas, os vírus vão morrer, mas não é por isso que vou pedir ao paciente que entre no forno duas vezes por dia.” 

Seu depoimento calou a tropa de choque e revelou um segredo de polichinelo: os ministros do capitão não têm poder de decisão, somente executam a política determinada pelo chefe.

Ao recepcionar no Brasil uma Copa América que a Argentina e a Colômbia se recusaram a sediar, escreveu Josias de Souza em sua coluna, Bolsonaro inaugurou uma nova fase da pandemia: a etapa do circo. 

Faz todo sentido, porque a inépcia fez com que a administração da crise ficasse muito parecida com o futebol. A diferença é que o campo não é demarcado, canelada é liberada e gol contra conta a favor. Mal comparando, a pandemia é uma avalanche. Infectadas, as pedras deslizam por um penhasco de incertezas e contágios. Esse movimento, quando foge ao controle, soterra o sistema de saúde, provocando mortes.

Quem enxerga nesse ambiente fúnebre razões para autorizar competições esportivas e promover aglomerações potencializa um desastre que abarrota os hospitais, tira o sono dos profissionais da saúde, sobrecarrega os coveiros e dilacera a alma dos familiares e amigos dos quase 500 mil mortos que a Covid já produziu no Brasil.

Se a sociedade brasileira estivesse próxima da imunização coletiva, a irresponsabilidade já seria intolerável. Num cenário em que a maioria dos brasileiros enxerga na vacina que não chega algo tão indispensável quanto o pão, as concessões ao circo são desvios patológicos.

Em tempo

O Exército informou ontem que o procedimento administrativo contra o ex-ministro da Saúde, por participação no comício bolsonarista no Rio, foi arquivado: “Acerca da participação do General de Divisão EDUARDO PAZUELLO em evento realizado na Cidade do Rio de Janeiro, no dia 23 de maio de 2021, o Centro de Comunicação Social do Exército informa que o Comandante do Exército analisou e acolheu os argumentos apresentados por escrito e sustentados oralmente pelo referido oficial-general. Desta forma, não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar por parte do General PAZUELLO. Em consequência, arquivou-se o procedimento administrativo que havia sido instaurado”.

Fato é que Pazuello participou de um ato político em meio a uma aglomeração, sem máscara, dias depois de ter defendido o uso da proteção na CPI do Genocídio, da qual ele é um dos principais alvos. Sua postura deixou nítido que ele estava ali a mando do capitão, do qual foi uma patética marionete no comando do Ministério da Saúde. Por ter mentido e omitido em seu depoimento à CPI visando blindar o chefe, o general ganhou um cargo de ASPONE, ou melhor, de secretário de Assuntos Estratégicos, que somará R$ 16 mil aos cerca de R$ 13 mil que ele recebe como general da ativa

Só um idiota não vê que punir o protegido do capetão produziria represálias (quiçá nova troca do comando do Exército). O megalômano lunático e psicótico que acontece de ser comandante em chefe das Forças Armadas acha que essa e outras prerrogativas inerentes ao cargo de Presidente lhe dão o direito de agir como Luiz XIV (L'État, c'est moi), logo não admite que seu poder absoluto seja posto em xeque. 

Não é bem assim (ou não deveria ser), mas nem o Legislativo nem o Judiciário tiveram peito para botar trambelha nesse destrambelhado. Além disso, conforme eu já mencionei em outras oportunidades, ser ministro ou exercer outro cargo de confiança do inquilino de turno do Planalto exige dar o rabo e pedir desculpas por estar de costas. Assim, para não criar nova crise com o Executivo, o general Paulo Sérgio cedeu às pressões do presidente... e criou uma crise no meio militar. 

Durma-se com mais essa.

domingo, 21 de abril de 2024

LIRA DOS OITO ANOS


A lira é um instrumento musical de cordas que simboliza a conexão com o divino e a expressão da alma por meio da música e da arte — dizem que Nero dedilhava a sua durante o Grande Incêndio de RomaLira dos Vinte Anos é uma antologia póstuma de poesias de Álvaro de Azevedo (1831-1852), e Arthur Lira, o imperador da Câmara que, na reta final do segundo mandato, começa a perceber que o Olimpo não tem escada. 

No início do próximo ano legislativo, Lira dará adeus ao cetro e à coroa e trocará a mansão oficial com geladeira cheia, mordomo de libré e um batalhão de serviçais pelos rigores maldição que marcou a trajetória de antecessores que não souberam se reinventar, como Marco Maia, que não conseguiu se reeleger deputado pelo RS, e João Paulo CunhaHenrique Eduardo AlvesEduardo Cunha, que fizeram escala na cadeia — o primeiro, carbonizado pelo mensalão, renunciou ao mandato; o segundo, após exercer 44 anos de mandatos ininterruptos como deputado, perdeu uma eleição para o governo do RN, tentou retornar à Câmara, mas foi novamente barrado pelo eleitor; e o terceiro, artífice do impeachment de Dilma, foi afastado do cargo pelo STF e cassado pelos colegas. 

Rodrigo Maia, um dos presidentes mais longevos da Casa do Povo, viu naufragar o plano de fazer seu sucessor graças a Bolsonaro e seu tratoraço (o emedebista Baleia Rossi foi feito picadinho por Arthur Lira). Representante do Rio de Janeiro, "Botafogo" virou secretário do governo paulista sob João Doria; vigiado pela Abin paralela do capetão, foi acossado pelo bolsonarismo nas redes sociais; antevendo um novo fiasco se tentasse a sorte das urnas, migrou para a iniciativa privada. 
 
Alheio à síndrome do que está por vir, Lira desafina, digo, desafia o ocaso exercitando o pecado capital da soberba. Apaixonado pela própria voz, chamou de "incompetente" o articulador político do Planalto Alexandre Padilha. O tiro ricocheteou no dono da articulação. Lula atirou de volta: "Só de teimosia, Padilha vai ficar muito tempo nesse cargo". Pressentindo o cheiro de queimado, o deputado Elmar Nascimento, candidato de Lira à própria sucessão, tentou apagar, nos bastidores, o incêndio que afugenta o governo para candidaturas alternativas. 
 
Os poderes de Lira decrescem na proporção direta do avanço do calendário eleitoral. Premidos pela necessidade de acomodar aliados nas prefeituras de seus redutos, os deputados estão mais interessados nas urnas do que na agenda econômica do ministro Fernando Haddad — o que transforma a irascibilidade de Lira numa aposta arriscada: com sua "teimosia", Lula sinaliza a disposição de demonstrar que a divindade da Câmara e o pedaço do Centrão que carrega o seu andor têm mais a perder do que o Planalto. 
 
Dono e senhor da pauta Câmara, Lira pode facilitar ou infernizar o segundo ano de um governo que mantém um olho na inflação dos alimentos e outro na curva descendente das pesquisas. Dono do Diário Oficial, Lula como que convida Lira e sua turma a lançarem um olhar para a caixa registradora da Codevasf, da CEF e dos ministérios terceirizados ao centrão. 

Nesse jogo, uma mão suja a outra. O xamã do PT não ignora que seu governo alimenta parlamentares que estarão na trincheira inimiga em 2026. Minoritário no Congresso, move-se como se desejasse esclarecer que todos que quiserem continuar comendo na mesa do governo terão ao menos que lavar os pratos. 
 
Lira abespinhou-se com o Planalto contra um pano de fundo manchado pelo caso Marielle. Um pedaço do Centrão uniu-se à milícia parlamentar bolsonarista na malograda articulação para abrir a cela do deputado Chiquinho Brazão. O soberano da Câmara enxergou as digitais do articulador político do Planalto na difusão da maledicência segundo a qual sua debilidade ficou gravada no painel eletrônico que manteve o preso na tranca. Daí os disparos contra Padilha, que, para desassossego de Lira, continua dando expediente na Presidência da República. 

A presença de Chiquinho Brazão e seus cúmplices em presídios federais evidencia uma mudanças dos ventos na PF, que desmonta velhas blindagens. O mesmo ânimo parece pautar as ações da PGR depois que a fábrica de escudos que operava sob Augusto Aras encerrou suas atividades. Nesse contexto, até os aliados já avaliam que Lira, cultor de mumunhas orçamentárias e sócio fundador da confraria do antigo orçamento secreto, brinca de corda sem atentar para o nó que asfixiou alguns dos seus antecessores.
 
Com Josias de Souza

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

ESQUERDA X DIREITA

É A INGUINORANSSA QUE ASTRVANCA O POGRESSO.

Em sua fase larval, o PT se jactava de não roubar nem deixar roubar, mas bastou seu Pontifex Maximus ascender ao poder para a petralhada institucionalizar a corrupção e transformar o Brasil numa organização criminosa pluripartidária. 
 
Rivalidade na política sempre existiu. Lula começou a semear a cisão 
entre a classe operária e as "elites"quando ainda era líder sindical, e essa polarização se consolidou na disputa acirrada entre ele e Collor, na eleição solteira de 1989.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA

Existem duas maneiras de ser enganado. Uma é acreditar no que não é verdade, a outra é não acreditar no que é verdade. Os bolsonaristas acham que a vitória de Trump abre as portas para a volta do mito em 2026, ao passo que os lulopetistas acreditam que Lula disputará e obterá um quarto mandato. Já quem não se rendeu ao fanatismo militante tem o dever de duvidar desse efeito Orloff. Se as eleições municipais não servem para projetar com precisão as eleições presidenciais de dois anos depois, menos confiável é o reflexo presumido nos resultados eleitorais em dois países muito diferentes. 
Bolsonaro não ganhou em 2018 devido à ascensão de Trump ao poder em 2016, mas graças uma conjunção de fatores internos. O que nos aproxima dos EUA é o mau humor do eleitorado que a direita sabe bem capturar e a esquerda ainda não faz ideia de como reconquistar. Tudo o mais nos distancia: sistema eleitoral, organização pluripartidária, trauma do passado de golpes e governos autoritários, existência de Justiça Eleitoral, barreiras legais a candidaturas fichas-sujas, Suprema Corte em alerta e a inelegibilidade do capetão-golpista.

Antes do golpe de 1964, a hipótese de um semianalfabeto chegar à Presidência era tão improvável quanto minha ascensão ao Trono de Pedro, mas Einstein ensinou que o impossível só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário, e Lula provou — não uma, mas três vezes!
 
Ainda que o PSDB tenha sido o adversário natural do PT durante décadas,
 os tucanos sempre foram de "centro" (se de centro-esquerda ou centro-direita, nem eles próprios sabem; quando há dois banheiros na casa, tucano que é tucano mija no corredor). Com a derrota de Aécio Neves em 2014, o partido perdeu o protagonismo e iniciou um processo de autocombustão. 

Observação: De 2018 para cá, as disputas presidenciais lembram a anedota do barítono, que, vaiado, provocou a plateia: "Não gostaram da minha performance? Esperem para ouvir o tenor!
 
O esquema de corrupção administrado pelo Planalto não "existe desde sempre". Ele começou com o Mensalão, evoluiu para Petrolão e desaguou no Tratoraço de Bolsonaro. Com a volta do desempregado que deu certo — que sempre negou o Mensalão e o Petrolão e atribuiu o desastre econômico à breve passagem de Michel Temer pelo Planalto —, a retomada da putaria franciscana eram favas contadas.

Pandora abriu sua caixa de desgraças uma única vez, mas os brasileiros borrifam merda na conjuntura a cada eleição. Nosso país vem sendo administrado como uma usina de processamento de esgoto, onde a merda entra pela porta das urnas, muda de aparência, troca de nome, recebe nova embalagem e sai pela outra porta, na posse do novo mandatário.
 
A merda reprocessada no governo Lula desaguou no governo Dilma e se reprocessou no governo Temer — parte integrante da herança que os desgovernos petistas deixaram para os próximos mandatários. Por um breve período, a Lava-Jato nos deu a impressão de que lei valia para todos. Mas o STF voltou atrás na jurisprudência sobre prisão em segunda instânciaanulou as condenações do xamã da petralhada e pregou no ex-juiz Sergio Moro a pecha da parcialidade. Essa sucessão de descalabros levou a usina de compostagem a produzir o bolsonarismo

Enquanto Lula oscilava entre a prisão e o Planalto, uma combinação mal-ajambrada de mau militar e parlamentar medíocre comia pelas beiradas. À luz da Teoria das Probabilidades, um anormal ser guindado à Presidência era improvável; dois, inacreditável; três, e em seguida, virtualmente impossível. Mas não no Brasil. Lula ocupou o Planalto de 2003 a 2010; Dilma, de 2011 a 12 de maio de 2016; e Bolsonaro, de 2019 a 2022. 
 
Graças à sucessão de decisões teratológicas emanadas do STFLula voltou a desgovernar esta banânia em janeiro de 2023. Bolsonaro está inelegível até 2030, mas alardeia que voltará em 2026, talvez porque a PGR e o ministro Alexandre de Moraes venham protelando sua conversão a réu pela fieira de crimes que lhe são atribuídos. 

Observação: Talvez isso mude agora, à luz dos detalhes estarrecedores revelados pela Operação ContragolpeA PF mirou em especial quatro militares, presos no contexto da suspeita de integrarem um plano que tinha como ponto de partida a decretação de um estado de exceção e, a partir daí, prisão, sequestro ou assassinato do então presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, e da chapa presidencial eleita (Lula-Alckmin).
 
Minha pergunta, caro leitor, é a seguinte: você se enxerga como "de esquerda", "de direita" ou "isentão"? 

Continua...

domingo, 16 de maio de 2021

COISAS DO BRASIL


Começo a postagem deste domingo (que redigi de véspera) com algumas perguntas retóricas: Quem imaginaria que o candidato vitorioso à prefeitura de São Paulo em 2020, que mal ingressou na confraria dos quarentões, estaria, dali a seis meses, desenganado pelos médicos e aguardando o minuto fatal de sua passagem por este vale de lágrimas? (Me ocorreu escrever “com o pé na cova”, mas achei a expressão desrespeitosa, sem mencionar que resultaria num trocadilho infeliz e de muito mau gosto).

Observação: Bruno Covas morreu às 8h20 deste domingo (16) aos 41 anos. Ele foi diagnosticado com a Covid em julho do ano passado, quando a doença já havia matado quase 5.600 pessoas no estado de São Paulo, mas não resistiu a câncer no sistema digestivo com metástase no fígado, contra o qual vinha lutando desde 2019. Minhas condolências à família do falecido.

Ou que um ex-presidente condenado a mais de 20 anos de cadeia (da qual saiu pela porta da frente graças a uma manobra espúria de seus sectários no STF) seria guindado à bizarra situação de “ex-corrupto” e reabilitado politicamente a tempo de disputar em carne e osso a próxima eleição presidencial? Ou quão desastrosa seria para esta republiqueta de bananas a vitória do dublê de mau militar e parlamentar medíocre (com pitadas de psicopatia, se me permitem parafrasear o ministro Luiz Roberto Barroso, um dos poucos que se salvam no supremo ninho de urubus) sobre o bonifrate do ex-presidiário no pleito de 2018? Ou, ainda, que um vírus genocida (falo do Sars-CoV-2, porque há outros por aí, com nome, endereço e CPF) dizimaria quase 0,2% da população tupiniquim em “apenas” 15 meses de pandemia?

Todas elas levam a situações em que o imprevisto teve voto decisivo na assembleia dos acontecimentos. Aliás, sempre que imagino ter visto de tudo neste caldeirão de merda que atende por cenário político nacional, surge um episódio ainda mais surreal, como que para me dizer que eu ainda não vi nada. 

Não bastasse o cheiro pútrido que emana dos fatos revelados pela CPI da Covid — sem mencionar os que ainda virão à luz, considerando que o ex-ministro Eduardo Pesadelo prestará depoimento na próxima quarta-feira, a não ser que consiga arrumar outra desculpa para não dar o ar de sua graça (quem sabe uma caganeira como a que acometeu D. Pedro I há quase 200 anos) —, aflorou do mar de lama do Planalto, graças a um trabalho exaustivo e minucioso do jornal O Estado de S. Paulo, a monumental maracutaia vem sendo chamada de Tratoraço das Emendas Secretas.

A matéria apresenta fortes indícios de que o governo montou um esquema paralelo para o manejo das emendas parlamentares ao Orçamento da União a fim de assegurar apoio no Congresso. Pouco antes disso surgiram na CPI evidências sobre o uso do mesmo tipo de recurso obscuro no Ministério da Saúde, onde a gestão da pandemia conta com um grupo de aconselhamento do presidente da República que atua à margem das orientações da estrutura oficial.

Muito antes, mais exatamente em maio do ano passado, o país tomou conhecimento de que numa reunião ministerial ocorrida no mês anterior (22 de abril de 2020) o presidente da República revelara contar com um “sistema particular de informações” por não se sentir atendido pelas instâncias formais da área, tais como a Polícia Federal, a Agência Brasileira de Inteligência e até o setor de inteligência das Forças Armadas.

Voltando ainda mais no tempo, desde o início do mandato de Jair Bolsonaro sabemos da atuação, digamos, informal, de filhos e correligionários do presidente na comunicação governamental, motivo, inclusive, de atritos com aqueles oficialmente nomeados para funções nesse setor. Alguns saíram, outros preferiram ficar, simulando não perceber a impropriedade — quando não o risco do flerte com a ilegalidade — dessa maneira oficiosa de lidar com assuntos oficiais. Ali viceja o chamado gabinete de ódio, de composição e atuação envoltas em sombras.

Isso é o que por ora conhecemos sobre o conjunto de sujeitos ocultos em ação no que poderíamos chamar de Planalto profundo. Ainda que não se estabeleça com isso a existência de um governo paralelo como algo extensivo a todas as áreas, é o suficiente para constatar a predileção do presidente Bolsonaro por trabalhar, desorganizada e indisciplinadamente, com instâncias montadas à margem da máquina do Estado.

Se confirmados os indícios de uma reserva de bilhões de reais do Orçamento da União para o atendimento privilegiado (e sem transparência) de deputados e senadores, teremos a ocorrência de um crime de responsabilidade. Isso, no máximo. No mínimo, ficará demonstrada a adesão do governo aos costumes da velhíssima política.

Vestidas com roupa nova, as mesmas práticas que há quase trinta anos ensejaram uma CPI cujo resultado foi a cassação de seis deputados e a renúncia de outros quatro entre os 37 investigados, conhecidos como “anões do Orçamento”. Na gestão da crise sanitária, as posições do presidente contrárias às orientações da ciência pareciam ser fruto exclusivo da cabeça dele. A CPI da Covid vem nos mostrando que Bolsonaro bebia também em outras fontes, buscando respaldo em gente que nada tinha a ver com a equipe presidencial. Pessoas que desconheciam procedimentos normativos, como ocorreu no caso do preparo daquela minuta de decreto para incluir na bula da hidroxicloroquina o tratamento para a Covid, ao arrepio das exigências legais.

O episódio da notória reunião do fatídico 22 de abril foi o mais explícito sobre os métodos presidenciais de operação, fundados no aconselhamento de uma rede de conhecidos que compartilham das posições dele. Ali o presidente, sem imaginar que a gravação viria a ser de conhecimento público, criticou fortemente a Polícia Federal (“não me dá informações”), “as inteligências das Forças Armadas” e a Abin. Todas por não o atenderem de acordo com seus desejos e poderes que ele acredita ter.

Daí foi que revelou a existência de um “sistema particular de informações”. Ele mesmo tratou de descrever o perfil e o funcionamento do tal sistema. “É o sargento do batalhão do Bope do Rio de Janeiro, é o capitão do grupo de artilharia lá de Fortaleza, é o policial civil que tá em Manaus, é meu amigo que tá na reserva e me traz informação da fronteira”, disse ele, ressaltando a eficácia do assessoramento e ao mesmo tempo atribuindo a ineficiência das instâncias formais ao “aparelhamento das instituições”.

A solução encontrada pelo presidente, ao que se viu e se vê agora de maneira ampliada, foi montar aparelhos paralelos para exercer a chefia da administração federal como quem toca uma reforma em casa sob critérios de vontade e de conveniências pessoais. Um indubitável desvio dos ditames a que está submetido o exercício da Presidência da República.  

Com Dora Kramer 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

NÃO IGNORE O VÍRUS. IGNORE O IGNORANTE

Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amigo, é a véspera do escarro / A mão que afaga é a mesma que apedreja”. (ANJOS, Augusto dos. Versos Íntimos -1901)

A Lava-Jato, a maior operação anticorrupção de toda a história do Brasil, foi deflagrada na gestão de Dilma, a inolvidável. Em virtude de suas apurações, foram tirados de circulação centenas de maus elementos, entre políticos corruptos e empresários corruptores. Ironicamente, o condenado mais emblemático foi justamente o antecessor, criador e mentor da nefelibata da mandioca.

Graças à falta de vergonha na cara do povo brasileiro, o picareta dos picaretas passou míseros 580 dias numa cela VIP da PF em Curitiba. No final de 2019, por 6 votos a 5, o STF reverteu a jurisprudência que permitia a prisão de criminosos condenados em 2ª instância. Em abril último, provocado por uma estratégia mal ajambrada do togado supremo Luís Edson Fachin, o plenário decidiu, por 8 votos a 3, promover Lula de “ex-presidiário” a “ex-corrupto”, além de restabelecer seus direitos políticos.

Em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro prometeu combater a corrupção na política e apoiar a Lava-Jato. Em 2020, o presidente Jair Bolsonaro disse que acabou com a Lava-Jato porque “não havia mais corrupção no governo”. Como assim, cara pálida?

Em novembro do ano passado, após 2 anos de investigações, o MP-RJ denunciou o filho mais velho do capitão, sua mulher, Fernanda, o ex-factótum do clã, Fabrício Queiroz, sua mulher, Márcia Aguiar, e uma dúzia de ex-assessores do gabinete de Zero Um por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita.

Observação: A denúncia, de 290 páginas, ainda aguarda análise do TJ-RJ. A demora em tornar réu o filho do pai se deve muito mais a “embargos procrastinatórios” apresentados pela defesa do acusado do que ao mérito das acusações. Luiza Souza Paes, ex-assessora de Flávio, já confessou ao MP a existência do esquema no gabinete do então deputado na Alerj (antes de se eleger senador, FB foi deputado federal pelo RJ por 3 mandatos consecutivos). Luiza apresentou extratos bancários e disse ter sido orientada a devolver a maior parte do que recebia como salário.

Investigados sob a suspeita de serem “fantasmas”, cinco ex-assessores do então deputado federal Jair Bolsonaro que tiveram o sigilo quebrado na investigação contra Zero Um receberam R$ 165 mil só em auxílios. Na última quinta-feira, 27, o TCU deu prazo de 5 dias para o Palácio do Planalto e o Ministério da Economia entregarem cópias dos documentos ainda ocultos doTratoraço” (esquema supostamente montado pelo presidente, no final do ano passado, para garantir sua sustentação na Câmara Federal e no Senado).

Como os parlamentares da família Bolsonaro sempre cultivaram o hábito de trocar assessores entre si, a investigação que envolve Flávio poderá se encontrar com as apurações sobre suspeitas semelhantes sobre seu irmão Carluxo. Na apuração das “rachadinhas” no gabinete do vereador carioca que dá expediente no Palácio do Planalto são investigados vários parentes da também investigada Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro, que “trabalhou” como assessora do enteado. Um dos casos apontados envolve Marta Valle, cunhada de Ana Cristina, que passou sete anos e quatro meses lotada no gabinete de Carlos Bolsonaro, mas afirmou à revista Época: “Não trabalhei em nenhum gabinete não”.

Em setembro, o Estadão revelou que Zero Dois também fez transações imobiliárias incomuns. Em 2003, quanto tinha 20 anos de idade, ele pagou R$ 150 mil em dinheiro vivo por um imóvel na Tijuca, zona norte do Rio. Seis anos depois, desembolsou um valor 70% abaixo do avaliado pela prefeitura na compra de um apartamento em Copacabana. As duas práticas — uso de dinheiro em espécie e declaração de compra de imóveis por preços inferiores aos de mercado para efeito do cálculo de imposto — costumam despertar suspeitas de lavagem de dinheiro e são, inclusive, pontos presentes na investigação contra o irmão mais velho. 

Carluxo é citado nada menos que 43 vezes no inquérito dos atos antidemocráticos e investigado por suspeitas de ser líder do chamado “gabinete do ódio” — grupo de assessores que disseminavam, nas redes sociais e grupos de apoiadores do presidente, fake news envolvendo ministros da corte e pedidos de fechamento do Congresso e do Supremo, além da volta do AI-5 e da ditadura militar com o capitão no comando da nação.

Observação: Para surpresa de ninguém, tanto o pai quanto os filhos negam as acusações e alegam perseguição política. No dia 31, ao fazer uma live, Jair Bolsonaro colocou em dúvida a imparcialidade do MP-RJ e questionou o que o órgão faria se o filho de um promotor fosse investigado por tráfico de drogas.

Depoimentos na CPMI das Fake News apontaram a participação de dois filhos do capitão e de assessores próximos à Famiglia Bolsonaro em campanhas na internet para atacar adversários com uso frequente de notícias falsas. Alvo de ataques em sites e redes sociais, a deputada federal Joice Hasselmann apresentou um dossiê à comissão em que aponta “milícias digitais”, ligadas ao presidente, que praticam ataques orquestrados a críticos de sua gestão.

O TSE passou a investigar a campanha presidencial de Jair Bolsonaro depois que uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo apontou que empresas compraram, sem declarar a Justiça Eleitoral, pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp. Segundo a lei eleitoral, um candidato pode divulgar conteúdo a seus eleitores se respeitar os termos de uso das plataformas digitais e pagar a essas redes sociais para alcançar fatias específicas do eleitorado. Mas esse dinheiro deve vir dos recursos do partido ou de doações de pessoas físicas, e não de empresas.

Observação: O envio em massa associado à disseminação de informações falsas pode levar, em última instância, à perda do mandato, pagamento de multa e exclusão do conteúdo falso. Não declarar esses gastos à Justiça Eleitoral pode ser também considerado caixa dois. O WhatsApp afirmou ter banido mais de 400 mil contas no Brasil, nos três meses anteriores ao pleito de 2018, por práticas que violam os termos de uso, como robôs para disseminar informações e criação automatizada de grupos. Em outubro do ano seguinte, a plataforma admitiu pela primeira vez a existência de envios de disparos em massa durante a campanha presidencial.

Eduardo Bolsonaro — o fritador de hambúrgueres que quase virou embaixador — é investigado por “suposta” violação da LSN em declarações postadas nas redes sociais e por pagamentos em dinheiro vivo na compra de dois apartamentos no Rio, em 2011 e 2016. Nem mesmo o caçula Jair Renan, que não tem mandato, foge à regra que baliza os “negócios da Famiglia”. No final do ano passado, o pimpolho articulou e participou de uma reunião entre o ministro Rogério Marinho e um grupo de empresários da Gramazini Granitos e Mármores — empresa que patrocina a Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia, cuja sede fica num camarote do estádio Mané Garrincha. O compromisso, que não constava na agenda oficial de Marinho, foi revelado pela revista Veja. O ministro informou que o filho do chefe “participou na qualidade de ouvinte e por acreditar que o sistema construtivo teria potencial de reduzir custos para a União”, e que a reunião foi um pedido do Planalto.

ObservaçãoAs relações da empresa de Renan com o Planalto vão além de promover reuniões entre os investidores de seu negócio e ministros. Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, a Astronautas Filmes, produtora de audiovisual que possui contrato milionário com o Governo, realizou gratuitamente a cobertura da festa de inauguração da Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia. Somente neste ano, a produtora recebeu R$ 1,4 milhão do governo federal. Em nota, a empresa afirma que não existe nenhum “laço de favorecimento”. O deputado federal Ivan Valente solicitou à PGR que investigue suposto tráfico de influência no caso.

Jair Bolsonaro, o autodeclarado “Messias que não miracula” que sempre disse ser um “defensor da família”, tem se mostrado realmente preocupado em proteger pelo menos uma delas: a própria. O primeiro passo foi articular a troca no comando da PF, em abril de 2020, com a exoneração do diretor-geral da entidade, o delegado Maurício Valeixo. O então ministro Sérgio Moro denunciou a maracutaia. Mais adiante, vieram à tona imagens da folclórica reunião ministerial em que o capitão-honestidade disse que não esperaria alguém “foder” a família dele, ou amigo, para trocar integrantes da “segurança”. A fala também fazia referências ao Rio de Janeiro, onde as investigações já roçavam os calcanhares dos filhos Flávio e Carlos.

O negacionismo psicótico que norteia as ações e omissões do (ainda) inquilino do Palácio do Planalto rendeu-lhe a pecha de pior líder mundial no enfrentamento da pandemia e uma parte substantiva dos 120 pedidos de impeachment que dormitam preguiçosamente sobre a mesa do deputado-réu e líder do Centrão Arthur Lira — que, ironicamente, foi guindado à presidência da Câmara graças ao apoio daquele que ao longo de toda a campanha à Presidência e durante o primeiro ano de sua funesta gestão teceu duras críticas ao toma-lá-dá-cá da “velha política”.

De médico e de louco todo mundo tem um pouco, diz o ditado. Mas doido de pedra que se preza come merda e rasga dinheiro. Bolsonaro pode ter seus arroubos psicóticos, mas não se deixem enganar: ele é um estrategista de mão cheia. Tosco, rude, primário, raso, mas tinhoso como Cheitã, o infernal. 

Logo depois de deixar o quartel pela porta dos funndos (acusado de indisciplina e insubordinação), o mau militar se elegeu vereador e dali a dois anos conquistou o primeiro de seus sete mandatos de deputado federal. Isso sem mencionar que uma extraordinária conjunção de fatores, entre os quais uma expressiva rejeição ao lulopetismo corrupto, colocou-o, em 2018, no gabinete mais cobiçado da Praça dos Três Poderes.

Fosse esta republiqueta de bananas uma democracia consolidada, a atual gestão teria sido interrompida quando o capitão da caverna sem luz trocou a Ciência pela Incompetência, nomeando ministro da Saúde um general triestrelado, supostamente especializado em logística, que não era capaz de diferenciar a porta do banheiro da porta de saída do gabinete. Demais disso, é no mínimo inaceitável um presidente trocar três vezes o comando da Saúde em meio à pandemia e manter no cargo, por dez longos meses, um ministro que não sabia sequer o que é o SUS. Claro que pesou na escolha a subserviência do fardado — que cuspiu nas estrelas de sua insígnia ao se sujeitar a servir de capacho para um comandante aluado. Mas isso é outra conversa.

A consequência dessa subserviência foi fatal para o Brasil. Em cerca de 10 meses de gestão, o ministro militarizou a pasta com quadros sem experiência em áreas estratégicas, não se consultou com especialistas para a tomada de decisões importantes, tentou esconder dados da pandemia e postergou medidas que poderiam ter salvado vidas. Enquanto o títere manobrado pelo maluco dançava, a pilha de cadáveres produzidos pela Covid crescia assustadoramente (de aproximadamente 15 mil para quase 300 mil). Por causa dessa tragédia, o agora ex-ministro se tornou alvo de uma série de investigações e peça chave na CPI do Genocídio no Senado.

Haveria muito mais a dizer, mas a extensão deste texto, comparável à da ignorância dos negacionistas de plantão, recomenda deixar o restante para uma próxima postagem e resumir em uns poucos parágrafos outras tantas considerações sobre a resposta da oposição à manifestação pró-governo do dia 23

No sabado 29, protestos pedindo o impeachment de Bolsonaro e a ampliação da oferta de vacinas se espalharam por centenas de cidades em quase todos os estados brasileiros, incluindo o distrito federal, e ganharam destaque em alguns dos principais jornais e televisões do mundo inteiro. A cobertura da imprensa internacional afirma que estes podem ter sido os maiores protestos no Brasil desde o início da pandemia, e aponta o momento de fragilidade do chefe do Executivo, que vê sua popularidade cair enquanto a média de mortes no país continua próxima de 2 mil por dia, e o total de vítimas fatais da Covid já passa de 460 mil. 

,O argumento de que Bolsonaro ofereceria mais risco à população do que o próprio vírus apareceu no francês Le Monde e no britânico Guardian. A agência de notícias Reuters classificou o capitão como “líder de extrema-direita”, disse que ele “minimizou a seriedade da pandemia, descartou o uso de máscaras e lançou dúvidas sobre a importância das vacinas”, e que sua popularidade “despencou durante a crise”. 

Tanto a Reuters quanto a BBC inglesa mencionaram o lamentável episódio na capital pernambucana — no qual a PM disparou balas de borracha e gás lacrimogêneo contra manifestantes, e a vereadora petista Liana Cirne foi agredida com spray de pimenta por um policial. Segundo familiares, os dois homens que foram atingidos nos olhos e perderam parte da visão tinham ido ao centro da cidade para trabalhar.

A queda de braço entre os dois extremos do espectro político-ideológico divide opiniões. Mas uma coisa é certa: o protesto do último sábado contra o governo se estendeu pelo país, deixando no chinelo o movimento pró-governo do dia 23, limitado à cidade do Rio de Janeiro. No entanto, para ser levado a sério, avalia Josias de Souza, o “Fora, Bolsonaro” deveria ser acompanhado de um Mourão já”, sem o que as manifestações que encheram o asfalto serviram para duas coisas: expor a falta de nexo da oposição e presentear o coronavírus com muitas aglomerações.

A exemplo de Bolsonaro, seus opositores contribuíram para elevar (ainda mais) o número de infectados e de mortos. Para quê? Ganha duas doses de vacina quem for capaz de responder. Que a popularidade do capitão derrete já se sabia. Ironicamente, Bolsonaro virou um desastre sozinho, dispensando o auxílio da oposição para se tornar um conto do vigário no qual 57,8 milhões de brasileiros caíram.

Bolsonaro vendeu-se como político antissistema e anticorrupção, mas comanda uma organização familiar com fins lucrativos e, por motivos já exaustivamente discutidos, acabou acorrentado ao sistêmico Centrão. A pandemia se encarregou de agregar um conteúdo fúnebre à inépcia do capitão: num primeiro momento, morria-se de Covid; depois que o Butantan e a Pfizer deixaram de entregar os milhões de doses que o Ministério da Saúde demorou a comprar, morre-se de falta de vacina.

Bolsonaro cometeu crimes de responsabilidade no atacado — embora Rodrigo Maia não tenha sido capaz de enxergá-los e Arthur Lira (ainda) não veja motivos para responsabilizá-lo. É isso que acontece quando se encarrega a raposa de tomar conta do galinheiro, e ela incumbe as outras raposas de investigar o sumiço das galinhas. 

Sobram razões para despejar o inquilino de turno do Palácio do Planalto. O que falta é interesse em levar a coisa às últimas consequências. Engana-se quem imagina que os organizadores dos protestos deste sábado estão interessados no impeachment. Os interesses ficarão mais nítidos à medida em que a CPI do Genocídio for se aproximando do final.

Seguindo as pistas que Bolsonaro deixou, a comissão estabelece conexões entre as mortes e o negacionismo do mandatário. Logo ficará claro que ele cometeu, por ação ou omissão, crime comum e crime de responsabilidade. O primeiro levará o relatório final da CPI à mesa do passador-de-pano-geral da República, a quem cabe processar o presidente junto ao STF. O segundo fará companhia aos 120 pedidos de impeachment que, como dito, dormitam placidamente na mesa do réu que preside a Câmara.

Ainda que Aras ou Lira decidissem abrir suas gavetas, o que não parece ser o caso, os processos só avançariam se 342 dos 513 deputados votassem contra o capitão. Mas os organizadores das manifestações de rua, majoritariamente simpáticos à candidatura de Lula, estão de olho nas urnas de 2022. Querem enfraquecer Bolsonaro, não trocá-lo por Mourão. Na outra ponta, os aliados do presidente no Centrão querem Bolsonaro fraco para arrancar dele mais verbas e cargos, não para retirá-lo do trono.

Num instante em que o Brasil se apavora com a terceira onda de uma pandemia que está prestes a produzir meio milhão de mortos, o ronco da rua é mero charlatanismo. Favorece apenas o vírus. Na articulação do impeachment de Bolsonaro, é tão eficaz quanto a cloroquina no tratamento da Covid.

Bolsonaro foi infectado pelo vírus que inocula a ilusão no organismo. Em fase de delírio, acha que é uma coisa, mas sua reputação revela que já se tornou outra coisa. Sobretudo depois que perdeu o monopólio do asfalto. Alheio a tudo, o imorrível, imbrochável e incomível pendurou nas redes sociais uma foto segurando uma camiseta com essas três palavras. Mas será mesmo?

Na política, a morte é anterior a si mesma. Às vezes, o sujeito já começou a morrer e não sabe. Bolsonaro, por exemplo, é um vivo tão pouco militante que o eleitor começa a lhe enviar coroas de flores — segundo o Datafolha, sua taxa de rejeição bateu em 54%.

A virilidade, quando é real, costuma ser exercitada em silêncio. A de Bolsonaro parece existir apenas no gogó. O imbrochável que prometia há semanas editar decreto para revogar medidas sanitárias restritivas brochou no instante em que protocolou no STF ação contra três estados sabendo que será derrotado.

Incomível? Em cartaz há apenas um mês, a CPI já desnudou o capitão falastrão. Uma mosca jura ter testemunhado, na intimidade do Alvorada, o instante em que o presidente colocou na vitrola a música do grupo Mamonas Assassinas cujo verso mais pungente fala do drama de uma alma atormentada que se meteu numa suruba: “Já me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém.”

Nem imorrível, nem imbrochável, nem incomível. Bolsonaro revela-se, na verdade, um rematado incompetente.

sexta-feira, 14 de maio de 2021

DURMA-SE COM UM BARULHO DESSES!


Carlos Murillo, chefe da farmacêutica americana Pfizer no Brasil à época das negociações para compra de vacinas contra a Covid e ora gerente-geral da empresa para a América Latina, foi ouvido na sessão de ontem da CPI da Pandemia. Em seu depoimento, ele afirmou que o governo brasileiro ignorou por três meses negociações de vacina, que a empresa sugeriu 100 milhões de doses a serem entregues entre 2020 e 2021, mas só recebeu resposta no dia 9 de novembro, e que o vereador carioca Carlos Bolsonaro e o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins, participaram das negociações feitas entre a Pfizer e o governo federal

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A AGU prepara um pedido de habeas corpus para garantir ao ex-ministro Pazuello o direito de ficar calado durante seu depoimento à CPI da Covid, marcado inicialmente para o último dia 5, mas reagendado para o dia 19 depois que o general alegou ter tido contato com duas pessoas que testaram positivo para a Covid (doença que ele já contraiu e da qual se recuperou em outubro do ano passado). Foi sortado relator o ministro Lewandowski, que deve decidir ainda hoje sobre o pedido. Vale relembrar que dois dias depois do reagendamento o general — que já havia sido flagrado desfilando sem máscara em um shopping certe de Manaus — foi visto em companhia do ministro Onyx Lorenzoni e perambulando sem máscara pelo hotel onde mora. 

Consoante a coluna de Josias de Souza, Bolsonaro não gostou de saber que seu ex-ministro e bonifrate flerta com a ideia de buscar no STF um habeas corpus que lhe permita exercitar na CPI da Covid o direito constitucional de ficar calado para não se autoincrimiar. A serviço do Planalto, operadores civis e militares tentam retomar, por assim dizer, o controle sobre o general, visando convencê-lo a seguir o roteiro ensaiado nas sessões de treinamento a que se submeteu na Presidência. 

Prevalece a avaliação de que o ex-ministro dificilmente obteria respaldo do Supremo para trocar a pele de testemunha, que o obriga a dizer a verdade, pela camuflagem de investigado, que oferece a trincheira do silêncio. Ademais, auxiliares do presidente acham que a simples tentativa de obter o habeas corpus seria ruinosa, na medida em que reforçaria a tese de que o general — que comandou a pasta da Saúde guiando-se pelo lema segundo o qual “um manda e o outro obedece” — tem algo a esconder. 

Uma equipe de advogados da União está coletando documentos sobre aquisição de respiradores e sobre fabricação de cloroquina para subsidiar o depoimento de Pazuello, que além de ser investigado pelo MPF, acusou políticos interessados em verbas públicas e “pixulés”. Na avaliação dos senadores, o general tem conhecimento de escândalos que podem comprometer o Planalto, daí o esforço da AGU em blindar o presidente — não por acaso esta é a primeira vez que a AGU desloca uma equipe para orientar o depoimento de um ex-ministro, conforme apurou o Estadão junto a servidores do órgão.

A princípio, o habeas corpus visava desobrigar Pazuello de prestar depoimento à CPI, mas entendeu-se que garantir ao depoente o direito de não responder perguntas comprometedoras bastaria para livrar de problemas tanto o vassalo quanto seu suserano. 

Segundo o colunista Lauro Jardim, um interlocutor palaciano afirmou que “se os senadores perguntarem a Pazuello se Bolsonaro o proibiu de comprar a ‘vacina do Doria”, o ex-ministro fará uso do direito ao silêncio; se lhe perguntarem para qual time ele torce, ele responderá.” Sobre o general ter ou não sido reinfectado pelo coronavírus ninguém mais fala nada — se for perguntado sobre isso na CPI, é provável que ele fique calado.

Thaís Oyama publicou em sua coluna que a frase “não vai dar em nada” é a que mais se ouve no Palácio do Planalto quando se trata dos efeitos que a CPI da Covid terá sobre Bolsonaro e seu macabro governo. 

Do ponto de vista político, o argumento é que o povo não está interessado em acompanhar um “ringue com finalidades eleitorais”, mas em se vacinar e voltar a trabalhar e tocar a vida. Do ponto de vista jurídico, se ficar entendido que Bolsonaro cometeu crime de responsabilidade, caberá ao deputado alagoano, líder do Centrão e presidente da Câmara Arthur Lira — que até hoje não se animou a dar andamento a nenhum dos mais de 110 pedidos de impeachment que abarrotam suas gavetas — a decisão sobre a abertura do processo. 

Já se a Comissão entender que houve crime comum, ficarão a cargo de Augusto Aras, o passador-de-pano-geral da República — fiel escudeiro do capitão por conta da improvável indicação para a vaga do decano Marco Aurélio Mello no STF — dar início a eventual investigação e, em sendo o caso, apresentar a respectiva denúncia.  

O Planalto espera que a CPI produza resultados pífios, o que parece pouco provável à luz da desfaçatez com que Bolsonaro e seus sectários cantam em verso e prosa a mais absoluta probidade do governo federal. Vale lembrar que o presidente disse ter acabado com a Lava-Jato porque não havia mais corrupção no governo — probidade essa fulminada pela reportagem publicada pelo Estadão sobre a existência de um “orçamento paralelo” que teria beneficiado parlamentares seguidores da cartilha do capetão.

O “Tratoraço”, como esse descalabro vem sendo chamado pela mídia — um neologismo recente que deve entrar para os dicionários como sinônimo de “corrupção”, “depravação”, “devassidão” —, será para o governo Bolsonaro algo parecido com o que foi o “Mensalão” para a primeira gestão do ex-presidiário guindado recentemente pelo STF à condição de “ex-corrupto”.

Parafraseando a jornalista Olga Curado, a pequenez dos que se beneficiam com a iniciativa de uso do dinheiro público e que junta parlamentares e o gabinete da Presidência da República revela o real compromisso de cada um: a sobrevivência eleitoral em 2022.

De um lado, um “ministério paralelo” escondido do regramento institucional cria a estratégia de comunicação do presidente e estabelece políticas de Saúde, enquanto um filho numerado organiza os argumentos e define a postura do capitão, fiel à crença de que ele foi eleito pela ação de sua milícia na internet. É um gabinete à margem do escrutínio das decisões técnicas e institucionais, onde deliberações surgem nos discursos e comportamentos erráticos de um mandatário cujo limite de entendimento da realidade nacional parece cada vez mais improvável. De outro lado, surge um “orçamento paralelo” estruturado no fisiologismo e aparentemente avalizado pelo presidente da Câmara, que, com a conivência do chefe do Executivo, pressiona “os seus” a se apropriarem da “quota” que lhes garantirá as campanhas para a reeleição. 

Aqueles que se habituaram a viver em palácios atropelam a honradez, chafurdam no erário e dão de ombros para barbáries de toda espécie — notadamente a morte de quase 430 mil cidadãos, resultante, em grande medida, da incompetência irresponsável de poder central e seus acólitos. O que se têm, na vida real, é uma gestão macabra, onde a morte tem uma única explicação: são todos bandidos. É a justificativa para a inépcia, a incompetência e a hipocrisia que fazem parte do desmonte da campanha de um ex-capitão que, acalantado pela cantilena do ódio, ora dorme no colo esplêndido do Centrão.