Mostrando postagens classificadas por data para a consulta josé sarney. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens classificadas por data para a consulta josé sarney. Ordenar por relevância Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de julho de 2026

E VIVA O POVO BRASILEIRO

OS BRASILEIROS NÃO SABEM VOTAR, E QUANDO VOTAM, NÃO SE LEMBRAM EM QUEM VOTARAM. 

Devidamente despida do glamour fantasioso atribuído pelos livros didáticos, a Proclamação da República foi um golpe de Estado político-militar que pôs fim à monarquia constitucional parlamentarista do Império, apeou do trono D. Pedro II e implementou o presidencialismo republicano como forma de governo.

Ao longo de 136 anos de história republicana, dos 36/39 brasileiros que chegaram à Presidência pelo voto popular, eleição indireta, linha sucessória ou golpe de Estado (o número depende de como se contam interinos, juntas militares e mandatos não-consecutivos), oito, a começar pelo primeiro — Deodoro da Fonseca —, foram de alguma maneira apeados do poder, e não houve nenhum que pudesse ser considerado "estadista" — lembrando que estadistas governam pensando nas próximas gerações, enquanto os populistas pensam exclusivamente nas próximas eleições.


Observação: Talvez Rui Barbosa ou o Barão do Rio Branco pudessem ser considerados como tal, mas nenhum deles presidiu o Brasil. Em contrapartida, populistas vicejaram como ervas daninhas.


Em 1960, o populista demagogo e cachaceiro Jânio Quadros derrotou o candidato governista, Marechal Henrique Teixeira Lott, e o ex-governador de São Paulo, Adhemar de Barros, tornando-se o primeiro presidente desta banânia a ocupar o então recém-inaugurado Palácio do Planalto. Mas sua renúncia, menos de 6 meses depois da posse, pavimentou o caminho para o golpe de estado de 64, que culminou com a deposição do então presidente João Goulart e a posse do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, dando início a uma ditadura militar que se estendeu por 21 anos, comandada pelos generais Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo, nessa ordem. 


Em 1968, o “linha-dura” Costa e Silva decretou o AI-5, produzindo um elenco de ações arbitrárias de efeitos duradouros que prevaleceram durante o período mais repressivo do governo militar. Em 1974, Geisel deu início ao processo de abertura que, dali a 11 anos, poria termo ao regime de exceção com a eleição (indireta) de Tancredo Neves, que venceu o candidato dos militares Paulo Maluf por 480 votos a 180. 


Em janeiro de 1985, o então presidente da Câmara Ulysses Guimarães — que chegou a ser cogitado para disputar o Planalto pelo PMDB, mas foi preterido pela chapa “mista” formada com o PFL de José Sarney — entregou a Tancredo o programa denominado Nova República, que previa eleições diretas em todos os níveis, educação gratuita, congelamento de preços da cesta básica e dos transportes, entre outras benesses.


O fim da ditadura não foi uma “consequência natural do espírito democrático” de Geisel e Figueiredo e tampouco transcorreu sem turbulências e acidentes de percurso. O processo só foi concluído graças às manifestações populares pró-diretas, que reuniram milhões de pessoas na Candelária, no Vale do Anhangabaú e na Praça da Sé, com faixas, cartazes e camisetas onde se lia a inscrição “EU QUERO VOTAR PARA PRESIDENTE”.


Observação: Nos movimentos pró-diretas, pugnava-se pela aprovação da emenda constitucional Dante de Oliveira, que visava restaurar o direito às eleições diretas, suspenso pelos militares. No dia da votação, exatos 20 anos depois do golpe, uma manobra de bastidores tirou da Câmara 112 deputados. Apesar do clamor das ruas, a emenda foi rejeitada — ou seja, o povo foi traído mais uma vez pela classe política.


Em 1985, com a esperança e os ânimos redobrados, os brasileiros ansiavam pela chegada do dia 15 de março — data prevista para a posse do primeiro presidente civil depois de 21 anos e a volta dos militares às casernas. Mas o que deveria ser a festa da democracia se transformou em luto nacional: Tancredo foi internado 12 horas antes da cerimônia de posse e morreu 38 dias e 7 cirurgias depois. 


Após algumas discussões jurídicas sobre a possibilidade de Ulysses Guimarães, então presidente da Câmara, ser guindado ao Planalto, prevaleceu o entendimento de que o rebotalho do coronelismo nordestino José Sarney, vice na chapa de Tancredo, deveria ser empossado. E foi o que aconteceu, para o bem e para o mal.


Ao contrário do que escreveu Karl Marx, a história nem sempre se repete como farsa; às vezes, ela reproduz fielmente o passado. Na eleição direta de 1989 — a primeira para presidente desde 1960 —, 22 candidatos (entre os quais Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola) disputaram o Planalto, mas a récua de muares que insiste em fazer a cada eleição, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez, por curiosidade, escalou para o segundo turno Lula, o desempregado que deu certo, e Collor, o caçador de marajás de mentirinha. E o resto é história recente.


Prestes a completar 81 anos, o macróbio petista busca seu quarto mandato, tendo como principal adversário filho do ex-presidente golpista que os cegos mentais tratam por "mito", mas na verdade não passa de um combo de mau militar e parlamentar medíocre aspirante a golpista.


Sobre o desgoverno Lula, a reprovação popular apontada pelos institutos de pesquisa dizem tudo. Já o primogênito do refugo da escória da humanidade enfrenta dois adversários inesperados: no Brasil, ele é mastigado por um movimento autofágico da madrasta; nos EUA, vive a síndrome da ameaça de um novo tarifaço de 25% do pseudoaliado Donald Trump.


A despeito da promessa de pacificar o país, o filhote de sacripanta não consegue sequer obter um armistício com Micheque, além de acenar com uma relação privilegiada com a Casa Branca, sem se dar conta de que a calopsita alaranjada não quer aliados, mas vassalos.


Fugindo do apelido de Tariflávio, o filho do pai endereçou nova carta a Washington — desta vez para o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o temível USTR —, na qual anotou que novas tarifas dariam "uma vitória política" ao governo Lula. Em vez de pedir a reversão das tarifas, rogou que a punição seja adiada para "depois das eleições". Ou seja, além de legitimar a natureza política da sanção mostrou-se preocupado com sua campanha, não com os exportadores brasileiros.


Rápido como o raio que o parta, o xamã petista recorreu às redes sociais para acusar a quadrilha, digo, a família Bolsonaro de entreguista. Escreveu que pedir o adiamento da sanção é coisa de "traidores da pátria", pois "não há qualquer justificativa para tarifaço agora ou depois".


Ao oscilar entre a autofagia e a trumpfobia, Bolsonarinho gira como um parafuso espanado em torno de problemas que ele próprio criou. Fornecendo material para o adversário, torna-se um caso raro de líder da oposição à sua própria candidatura.


E viva o povo brasileiro.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

WINDOWS SANDBOX — FINAL

QUEM DANÇA EM TODOS OS CASAMENTOS CHORA EM TODOS OS FUNERAIS. 

 

Por ser extremamente popular (72% de participação no mercado mundial), o Windows é mais suscetível a pragas e mais visado pelos cibercriminosos do que os concorrentes, mas conta com antimalware e firewall nativos tão eficientes quanto as melhores soluções de varejo.

Guardadas as devidas diferenças, o mesmo raciocínio se aplica ao Android (70%) e ao iOS (28%). No sistema do Google, o Play Protect checa automaticamente a segurança dos aplicativos no momento da instalação, mas pode ser convocado a qualquer momento, bastando acessar a Play Store, tocar em sua foto de perfil, selecionar a opção Play Protect e pressionar o botão Verificar. 


A Apple não oferece nada parecido para o iOS, e tampouco recomenda soluções de terceiros, mas dificulta a instalação de aplicativos fora da App Store e submete os programas criados por desenvolvedores parceiros a uma rigorosa revisão — que não é infalível, mas reduz os riscos de malware. 


Observação: Os softwares disponibilizados pela Google Play Store também são verificados, mas não com o mesmo rigor, e os usuários podem instalar APKs de fontes pouco confiáveis.


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


A Receita Federal revelou na quinta-feira 28 que uma organização criminosa ligada ao PCC movimentou R$ 52 bilhões em postos de combustíveis entre 2020 e 2024. A sofisticação do esquema chamou atenção dos investigadores, que identificaram o envolvimento de pelo menos 40 fundos de investimentos no maior centro financeiro do país, utilizando fintechs para inserir os valores no sistema financeiro formal.

Diante dos números bilionários, Fernando Haddad apresentou sua receita: "secar a fonte dos recursos para impedir que a atividade criminosa seja abastecida". A lógica é simples e, à primeira vista, irrefutável: “Se você prende uma pessoa, mas o dinheiro fica à disposição do crime, essa pessoa é substituída por outra. Estamos falando de operações que bloquearam mais de 100 imóveis, veículos e patrimônios que podem chegar aos bilhões. Assim você efetivamente estrangula o crime”, ensinou o ministro da Fazenda.

A proposta de intervenção estatal para "secar" recursos no sistema financeiro desperta ecos incômodos na memória econômica brasileira. Em 1985, José Sarney tentou uma fórmula mágica — o "canetaço" — para controlar a inflação galopante herdada dos desgovernos militares. Não funcionou. Fernando Collor foi ainda mais radical: congelou ativos financeiros, incluindo valores em contas-correntes e cadernetas de poupança, como forma de "enxugar a liquidez" e exterminar o "Dragão da Inflação". As consequências foram desastrosas: quebra de contratos, paralisia da economia e um trauma coletivo que marcou uma geração de brasileiros. Em outras palavras, a emenda ficou pior que o soneto.

O bloqueio de patrimônio criminoso é ferramenta jurídica estabelecida, respaldada pelo devido processo legal, e não se compara aos confiscos indiscriminados do passado, que atingiram poupadores honestos. Ainda assim, a história nos ensina cautela. Quando o Estado promete soluções simples para problemas complexos — sejam eles a inflação descontrolada ou o crime organizado —, convém lembrar que a linha entre a intervenção cirúrgica e o remédio que mata o paciente pode ser mais tênue do que imaginamos.

 

Tecnicamente, a distribuição de aplicativos para o iPhone fica restrita à App Store, mas a possibilidade de baixá-los dos sites dos respectivos desenvolvedores e de lojas alternativas (marketplaces) existe na União Européia desde a versão 17.5. Como os apps rodam em sandboxes, "tudo que acontece numa sandbox fica na sandbox", mas somente uma boa suíte de segurança — ainda que com acesso limitado ao sistema — protege o usuário de ataques de rede, links de phishing, softwares com acesso não autorizado a dados, sites falsos, spyware e ameaças que exploram vulnerabilidades em browsers e aplicações web. 


Falando em sandbox, a Microsoft finalmente integrou ao Windows um ambiente virtual onde é possível executar aplicativos ou arquivos suspeitos sem pôr em risco o sistema como um todo. Quando essa sandbox é fechada, tudo que foi feito lá desaparece como se nunca tivesse existido: arquivos, alterações no sistema, programas instalados, nada é salvo ou mantido após o encerramento. Se um arquivo tentar instalar um vírus, por exemplo, esse vírus ficará restrito ao ambiente virtual, e desaparecerá junto com ele sem deixar rastros. É como se houvesse um computador separado dentro do próprio PC, pronto para ser usado e descartado sem consequências. 


Windows Sandbox requer Windows 10 Pro, Enterprise ou Windows 11 com pelo menos 4 GB de RAM — a quantidade recomendável é 8 GB ou mais — e suporte à virtualização ativado no BIOS ou na UEFI, conforme o caso (saiba mais sobre virtualização nesta postagem). Para habilitar o recurso, vá ao Painel de Controle > Programas > Ativar ou desativar recursos do Windows, marque a opção Windows Sandbox, reinicie o computador (note que a sandbox só aparece na lista de recursos do Windows em computadores que atendem aos aos requisitos retrocitados). 


Para usar a ferramenta, basta clicar no ícone do Windows Sandbox, no menu Iniciar, copiar o arquivo do sistema principal, colar dentro da janela da sandbox e executá-lo normalmente, como se estivesse em outro computador. Isso inclui instaladores, aplicativos portáteis, arquivos compactados com programas internos e até documentos que pareçam estranhos. Mas é importante não transferir arquivos de dentro da sandbox de volta para o seu PC real sem ter certeza de que eles estão limpos.

 

A despeito das semelhanças com uma máquina virtual tradicional, o Windows Sandbox é mais simples e rápido, pois não exige configuração prévia, instalação de sistema ou alocação de recursos, além de ocupar menos espaço na memória. É só abrir e usar, lembrando que, embora seja uma forma prática de evitar problemas, especialmente com ameaças como ransomware, trojans e spywares, ele não substitui antivírus e firewall, nem tampouco dispensa cuidados com emails suspeitos e downloads desconhecidos. 


Divirta-se.

sábado, 7 de junho de 2025

O POPULISMO E O POPULACHO

SE ELES GOVERNAM, É PORQUE O POVO OBEDECE.

Durante visita oficial a Portugal, o então presidente brasileiro José Sarney se gabou de ter concedido o direito de voto aos analfabetos, e seu homólogo português respondeu: "Cá em Portugal não temos analfabetos". 

Na mesma viagem, o imortal maranhense foi a uma livraria em busca de determinada obra, mas não havia exemplares disponíveis. Quando o livreiro prometeu consegui-los em dois dias, ele perguntou se o estabelecimento fechava aos sábados. O livreiro respondeu: "Não, Excelência. Nossa livraria fecha às sextas-feiras, por volta das 17h, e reabre às segundas-feiras, pontualmente às 8h da manhã."
 
Havia analfabetos em Portugal — e ainda os há —, mas, no Brasil, qualquer pessoa que consiga assinar o nome é considerada como alfabetizada, o que não só prejudica a comparação como torna as estatísticas pouco confiáveis. O governo finge investir na alfabetização da população desde os anos 1940 — o MOBRAL, por exemplo, foi criado pelos militares em 1967 e funcionou durante 18 anos —, mas só produziu analfabetos funcionais, que até aprendem a ler, mas não são capazes de interpretar um texto nem de fazer contas.


Observação: Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), 29% da população entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais — ou seja, quase um terço dos brasileiros economicamente ativos estão fadados a subempregos com jornadas exaustivas e salários indignos. No caso daqueles que completaram o ensino superior, a taxa de analfabetismo funcional é de 12%. Os alfabetizados em nível elementar, que possuem capacidades básicas de escrita e leitura e conseguem resolver questões matemáticas simples, formam o maior grupo entre os brasileiros, com 36%. Pessoas com alfabetismo consolidado (que têm ao menos a capacidade de selecionar múltiplas informações em textos e compreender tabelas) são 35% da população. No segmento empregado, o levantamento aponta que 27% dos trabalhadores são analfabetos funcionais, 34% atingem o nível elementar e 40% têm níveis consolidados de alfabetismo. Em 2021 — segundo ano da pandemia — o (des)governo Bolsonaro destinou apenas R$ 6 milhões para alunos jovens e adultos, o menor nível neste século. Não à toa, o número de analfabetos funcionais entre jovens de 15 a 29 anos aumentou de 14% para 16%. De acordo com o indicador, 95% dos analfabetos só conseguem fazer um número limitado de tarefas nesse ambiente, e 40% dos alfabetizados proficientes (nível mais alto da escala) apresentam desempenho médio ou baixo em tarefas digitais.

Uma vez que apedeutas e iletrados são mais fáceis de manipular e formar "doutores com diploma" dá mais "Ibope", por que os políticos investiriam na alfabetização básica? Curiosamente, o mesmo governo que agrilhoa as pessoas à ignorância e as edulcora com promessas assistencialistas responsabiliza-as por dependerem de programas eleitoreiros, como o Bolsa Família e assemelhados. 
 
Manter o populacho analfabeto interessa aos políticos populistas, que se alimentam da ignorância e se reelegem repassando esmolas. Afinal, povo instruído dá trabalho: lê, compara, desconfia, questiona, não se contenta com pão velho nem com circo medíocre e tampouco aceita facilmente trocar o voto por um saco de cimento, um vale gás ou uma selfie com seu bandido de estimação. Assim, manter o rebanho ignorante não é somente uma consequência do descaso histórico, mas uma estratégia — e das mais eficazes.
 
O discurso é sempre o mesmo: a educação é prioridade. Mas basta uma greve de professores por melhores salários para os paladinos da austeridade fiscal trombetearam que "não há dinheiro". Curiosamente, sempre há recursos para emendas parlamentares, aumentos salariais do alto escalão, perdão de dívidas bilionárias de apaniguados ou construção de estádios superfaturados em cidades sem time. 
 
A lógica é perversa e bem conhecida: quanto pior, melhor. Melhor para quem governa com promessas vazias, com slogans publicitários, com programas que, em vez de emancipar, amarram. Melhor para quem lucra com a miséria alheia, travestindo assistencialismo de justiça social. Melhor para quem prefere um eleitorado submisso a um povo consciente.
 
Como não convém mexer em time que está ganhando — e ganhando muito — a ignorância segue firme, bem nutrida e institucionalizada. Afinal, o que seria do populista sem o populacho?

sexta-feira, 30 de maio de 2025

O PAÍS DA CORRUPÇÃO — 9ª PARTE

PIOR QUE O BANDIDO TRAVESTIDO DE POLÍTICO É O IDIOTA TRAVESTIDO DE ELEITOR, QUE VOTA NESSE TIPO DE GENTE.

Em momentos distintos da ditadura, Pelé e o general Figueiredo alertaram para o risco de misturar brasileiros e urnas em eleições presidenciais — e foram duramente criticados. Mas como contestá-los, se lutamos tanto pelo direito de votar para presidente e elegemos Collor, Lula, Dilma e Bolsonaro?


Nunca saberemos como estaria o Brasil se o golpe de Estado de 1889 não tivesse ocorrido. Ou se a renúncia de Jânio não tivesse levado ao golpe de 64. Ou se nosso primeiro presidente civil — eleito indiretamente após 21 anos de ditadura — não tivesse levado para o túmulo a esperança de milhões e deixado um neto que envergonharia o país e um vice que pavimentaria a vitória de um pseudo caçador de marajás sobre um desempregado que deu certo na primeira eleição direta desde 1960.

 

Muita coisa podia dar errado no capítulo final da novela da ditadura. Em 1984, o último dos cinco generais presidentes da ditadura — que, entre outros dislates, disse preferir o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo e que "daria um tiro no coco" se fosse criança e seu pai ganhasse salário-mínimo — confidenciou a Henry Kissinger, então secretário de Estado dos EUA, que uma parte das Forças Armadas apoiava a volta do governo civil, e a outra estava disposta a tudo para evitar que "os esquerdistas tomassem o país". Figueiredo considerava Tancredo uma pessoa capaz e moderada, mas cercada por muitos radicais de esquerda que talvez não conseguisse controlar.

 

No imaginário nacional, Tancredo foi o melhor de todos os presidentes — mas só porque, a exemplo da Viúva Porcina (personagem da novela Roque Santeiro), "foi sem nunca ter sido". Por uma trapaça do destino, ele baixou ao hospital horas antes da cerimônia de posse e morreu 38 dias e sete cirurgias depois — ironicamente, no feriado que homenageia o Mártir da Independência. Também não dá para saber o que aconteceria se ele tivesse governado, mas sabe-se que a posse de José Sarney ecoou como a gargalhada do diabo nos estertores da ditadura. 

 

Sarney  não tinha ideia do tamanho do "abacaxi" que seria assumir a presidência sem ter indicado seus ministros e herdando uma inflação de 220% ao ano. Cinco anos depois, entregou a Collor a faixa presidencial e uma superinflação de 1.800%, mudou seu domicílio eleitoral do Maranhão para o recém-criado estado do Amapá e conseguiu se eleger senador. Conta-se que, depois que pendurou as chuteiras, ao ser informado pela filha Roseana — então governadora do Maranhão — de que um dilúvio deixara metade do estado debaixo d’água, ele perguntou: "A sua metade ou a minha?"

 

Ao lado de Ulysses Guimarães, Mário Covas, Franco Montoro e Fernando Henrique, Tancredo liderou a campanha pelas "Diretas Já". A despeito da maior adesão popular da história, a Câmara sepultou a emenda Dante de Oliveira, que estabelecia a volta das eleições diretas para presidente. Ainda assim, a comoção social foi tamanha forçou a convocação do colégio eleitoral formado por 686 deputados, senadores e delegados estaduais. Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo venceu Maluf — que era apoiado pelos militares — 480 a 180 votos.

 

 Ulysses chegou a cogitar disputar mas foi preterido pela chapa mista formada com o PFL de José Sarney Sr. Diretas e entregou a Tancredo o programa denominado Nova República, que previa eleições diretas em todos os níveis, educação gratuita, congelamento dos preços da cesta básica e dos transportes, entre outras benesses. Se tivesse sido ele o escolhido pelo colégio eleitoral, talvez disputasse — e vencesse — a eleição solteira de 1989. Sem Collor no Planalto e Zélia no Ministério da Fazenda, não teria havido sequestro dos ativos financeiros, congelamento da poupança e a sequência de planos econômicos fracassados que precederam o Plano Real. Assim, talvez a redução da miséria brasileira tivesse começado muito antes e hoje houvesse mais gente com salário digno e casa para morar.

 

Nada garante que teria sido assim, mas, mesmo que fosse, o Brasil — esse eterno laboratório de desilusões políticas — ainda teria muito chão para tropeçar. A eleição direta de 1989, com 22 candidatos e uma população faminta por mudanças, virou palco de um espetáculo grotesco que consolidou a crença de que o próximo salvador da pátria viria embalado em promessas vazias, frases de efeito e, claro, uma bela embalagem televisiva. E assim seguimos, entre urnas e urros, tropeçando em nossas escolhas.

 

Continua...

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O BRASIL DA CORRUPÇÃO — 4ª PARTE: A DEMOCRACIA DOS IDIOTAS

OS INTELIGENTES APRENDEM COM A PRÓPRIA EXPERIÊNCIA; OS SÁBIOS APRENDEM COM A EXPERIÊNCIA DOS OUTROS, E OS IDIOTAS... OS IDIOTAS NUNCA APRENDEM.

Umberto Eco ensinou que a Internet promoveu os idiotas da aldeia a portadores da verdade; Tiago Paiva observou que só existem influencers porque existem "idioters"; e Nelson Rodrigues profetizou que os idiotas vão dominar o mundo — não pela capacidade, mas pela quantidade. 

Na Grécia Antiga, a palavra ηλίθιος designava os cidadãos que não se interessavam por assuntos públicos. Como ficar à margem da vida pública erva visto como sinal de ignorância, o termo ganhou a conotação negativa que nossos dicionários registram.
 
No início do século 20, os psicólogos franceses Alfred Binet e Theodore Simon calculavam o QI com base na capacidade das crianças de realizar tarefas como apontar para o nariz e contar moedas. Pessoas com QI abaixo de 70 eram consideradas "idiotas", e assim a palavra passou a ser usada em contextos jurídicos e psiquiátricos.
 
Em tese, os "idiotas" que não se interessam por política são governados por quem se interessa. Na prática, porém, existe o perigo de o idiota levar sua idiotice para a esfera pública e fazer como os eleitores brasileiros, que repetem a cada dois anos, por ignorância, o erro que a curiosidade levou Pandora a cometer uma única vez. 
 
A idiotice clássica consistia em ignorar a vida pública, mas a contemporânea é participar dela com tribalismo irracional e fé dogmática. José Saramago alertou que a pior cegueira é a mental, dos cegos que veem mas não enxergam. Nas redes, a polarização virou espetáculo: tanto à esquerda como à direita há mais briga de torcida do que debate, e essa polarização transformou o Brasil pós-ditadura num bestiário político. Senão vejamos:
 
Sarneyícone da oligarquia e da política de cabresto nordestina — deu início à farra da governabilidade fisiológica. 

Collor embrulhado no papel vistoso de "caçador de marajás" — revelou-se um farsante narcisista. 

Itamar é lembrado mais pelo topete — e pela foto icônica ao lado de uma modelo sem calcinha — do que por sua contribuição para o Plano Real. 

Fernando Henrique destoou, mas sucumbiu à vaidade do poder e vendeu a alma ao demônio da reeleição

Lula, o desempregado que deu certo, inaugurou a era da "narrativa acima dos fatos". 

Dilma, a gerentona de araque, lavou o país ao colapso econômico com frases tão herméticas quanto sua gestão.

Temer, o vampiro do Jaburu que encerrou a fase dos garranchos verbais, manteve a política no mesmo pântano de sempre.

Bolsonaro, o mix de mau militar e parlamentar medíocre, fez do negacionismo e do golpismo sua marca registrada.
 
Mancomunada com a cegueira mental, a polarização transformou esse desfile de desqualificados em santos de pés de barro (ou bandidos de estimação, como queiram) para suas torcidas. 

Os idiotas de direita gritam "volta, mito"; os idiotas de esquerda respondem com "viva, companheiro". Todos cegos. Cegos que veem, mas não enxergam.

Continua...

quinta-feira, 8 de maio de 2025

PARA O BEM OU PARA O MAL...

... NÃO HÁ NADA COMO O TEMPO PARA PASSAR.

Até onde se sabe, tudo que existe no Universo (incluindo o próprio Universo) tem começo, meio e fim. Em última análise, a morte é a única certeza que temos na vida. E começamos a morrer no exato instante em que nascemos.


Lula nasceu no agreste pernambucano, conheceu o pai aos cinco anos, veio para São Paulo num caminhão pau de arara com a mãe e uma penca de irmãos, foi engraxate, vendeu laranjas, amendoim, trabalhou numa tinturaria, diplomou-se torneiro mecânico pelo Senai, foi dirigente sindical, fundou o PT e, após três tentativas inexitosas, elegeu-se presidente da República por dois mandatos. Depois que deixou o Planalto, colecionou duas dúzias de processos criminais, foi condenado duas vezes por corrupção e lavagem de dinheiro, “descondenado” por uma decisão teratológica do STF e, graças ao antibolsonarismo, tornou a ser eleito presidente desta banânia. Agora, aos 79 anos, a despeito de ter prometido pendurar as chuteiras no final do atual mandato e de estar amargando os maiores índices de rejeição de sua trajetória política, o macróbio quer porque quer disputar a reeleição no ano que vem, mesmo .


Carioca de nascimento, Fernando Collor construiu sua carreira política em Alagoas, derrotou Lula na eleição solteira de 1989 e se tornou o primeiro presidente eleito pelo voto popular da “Nova República”. Seu envolvimento no famigerado “Esquema PC” resultou no processo de impeachment que o levou a renunciar horas antes do julgamento. Mas o Senado o condenou mesmo assim, e ele ficou inelegível por oito anos. Mais adiante, já como senador por Alagoas, rapinou os cofres da BR Distribuidora e foi sentenciado a oito anos e dez meses de reclusão. Por ter 75 anos, sofrer de Parkinson, apneia grave e transtorno bipolar, ganhou o direito de cumprir a pena em prisão domiciliar depois de passar menos de uma semana numa "hospedaria especial" em Maceió.


Bolsonaro nasceu no município paulista de Campinas, ingressou na AMAN, formou-se em Educação Física e tornou-se mestre em saltos pela Brigada Paraquedista do Rio de Janeiro. Em 1986, ganhou projeção nacional ao publicar na revista Veja o artigo “O salário está baixo”, que lhe rendeu 15 dias de prisão administrativa. No ano seguinte, a mesma revista noticiou que ele e o também capitão Fábio Passos da Silva pretendiam “explodir bombas em várias unidades da Vila Militar, da Academia Militar das Agulhas Negras (...) e em vários quartéis”. Uma sindicância autorizada pelo então ministro do Exército concluiu que os insurretos deveriam ser expulsos, mas o STM acolheu a tese da defesa e a expulsão não aconteceu. 


Bolsonaro passou para a reserva, elegeu-se vereador e, na sequência, foi deputado federal por sete mandatos e perambulou por oito partidos antes de se amancebar com o ex-presidiário do mensalão Valdemar Costa Neto. Ao longo de 27 anos como deputado do baixo clero, aprovou míseros dois projetos e recebeu míseros quatro votos quando disputou a presidência da Câmara. Em 2018, foi guindado ao Planalto graças a uma extraordinária conjunção de fatores (que eu detalhei em outras oportunidades). Mas seu projeto de governo nunca foi além de blindar a si e a seus rebentos, evitar o impeachment e se reeleger em 2022. Quando não conseguiu, partiu para o "plano B" golpista que havia urdido com seus cúmplices... e deu com os burros n'água porque não conseguiu o apoio incondicional das FFAA


Hoje, aos 70 anos, inelegível até 2030, réu por tentativa de golpe e alvo de outras investigações, o "mito" dos anencéfalos insiste em dizer que voltará a disputar a Presidência em 2026. Mas tudo indica que ele será julgado e condenado muito antes disso, ainda que confiar na Justiça tupiniquim seja como acreditar em horóscopo.


Resumo da ópera


Lula foi “descondenado” sob o pretexto de uma estranha incompetência territorial da 13ª Vara de Curitiba (tese que o próprio ministro Fachin havia rejeitado anteriormente em pelo menos dez oportunidades), e a prescrição impediu que os processos fossem reiniciados na JF de Brasília. 


Collor foi impichado, condenado em 2023, preso no final do mês passado e mandado para casa (uma mansão de R$ 9 milhões na orla de Maceió) por motivo de saúde, embora tenha dito na audiência de custódia, com um sorriso irônico nos lábios, que não tomava nenhum medicamento de uso contínuo. 


Maluf respondeu a mais de 50 processos e foi condenado diversas vezes. Depois de empurrar a prisão com a barriga por mais de 20 anos, foi trancafiado na Papuda em dezembro de 2017, mandado para casa poucos meses depois (por “razões humanitárias”) e cumpriu prisão domiciliar até maio de 2023, quando então sua pena foi extinta com base no indulto natalino concedido por Bolsonaro. Aos 93 anos, deve estar morrendo de rir dos idiotas que ainda acreditam na Justiça desta banânia.


Quanto a Bolsonaro, fazer qualquer prognóstico à luz do que foi dito até aqui seria arriscado. A aversão do diabo à concorrência explica por que, para algumas pessoas, velhice não significa estar com um pé na cova. A exemplo de Maluf e do ex-presidente José Sarney, também nonagenário (e que já se retirou da vida pública), o "trio assombro" sairá de cena, cada um a seu modo, ainda que não a seu gosto.


Lula escapou de um câncer na laringe e se recuperou de uma hemorragia intracraniana (decorrente de um prosaico tombo no banheiro, enquanto supostamente aparava as unhas dos pés). A saúde de Collor supostamente inspira cuidados que o sistema prisional tupiniquim não tem condições de prover. Bolsonaro foi vítima de um atentado a faca em 2018 e desde então passou por sete cirurgias (nenhuma delas no SUS). Visando a uma eventual prisão domiciliar, o malacafento tem dito que a próxima operação pode ser fatal, mas também diz que disputará o Planalto no ano que vem.


A carreira política de Collor acabou, não importa quantos anos ele permaneça encastelado em sua mansão. Bolsonaro somará mais alguns anos (ou décadas) de inelegibilidade quando — e se — for condenado pelo STF. Quanto a Lula, talvez o inesperado faça uma surpresa. Até o momento, tudo indica que o macróbio não tenciona largar o osso, mas nada indica que eventual reeleição sejam favas contadas. No feriado do Dia do Trabalhador de 2024, discursando para os gatos pingados que apareceram para prestigiá-lo, a autoproclamada alma viva mais honesta do Brasil disse que a atual gestão está sendo ainda melhor que as anteriores. As pesquisas de opinião discordam, mas o ególatra acha que suas mazelas, da volta da corrupção à escalada da inflação, não passam de um "problema de comunicação". 


Como Steve Jobs — versão revista e atualizada do Flautista de Hamelin —, Lula tenta criar um campo de distorção da realidade para iludir o eleitorado. Mas ele está velho, e seu pífaro, desafinado. Temendo um novo fiasco de público e de crítica neste 1º de maio (sobretudo em meio ao escândalo do INSS), escusou-se de participar ao vivo e em cores das festividades sindicais em São Bernardo do Campo (município da Grande São Paulo que é considerado “berço do PT”).


Crer na "justiça divina" talvez mitigasse o sentimento de revolta que acomete os cidadãos que pagam impostos escorchantes e veem seu dinheiro descer pelo ralo da corrupção. Todavia, à luz de como a humanidade vem se comportando ultimamente, a impressão que se tem é a de que o Criador (supondo que exista um Criador) jogou a toalha e deixar o barco correr.


A única certeza que nos resta — além da morte e dos impostos — é a de que, para o bem ou para o mal, não há nada como o tempo para passar.