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sábado, 14 de março de 2026

A ALEGORIA DA CAVERNA E O ELEITORADO BRASILEIRO

TENTAR ARGUMENTAR COM QUEM ABDICOU DA LÓGICA É COMO MEDICAR DEFUNTOS.

Quanto mais não seja, a desditosa passagem de Jair Bolsonaro pelo Planalto deixou duas importantes lições: a primeira foi ministrada pelo ortopedista Luiz Henrique Mandetta, que nos brindou com sua versão da Alegoria da Caverna, e a segunda foi ensinada pelo oncologista Nelson Teich, que substituiu Mandetta no comando do Ministério da Saúde — e se demitiu antes de completar um mês no cargo.

Numa alusão velada ao negacionismo desbragado do então presidente, Mandetta se valeu do Mito da Caverna — uma alegoria sobre o conhecimento na qual Platão ensinou que, acorrentados à ignorância, os homens são privados do aprendizado. Ao comunicar à imprensa seu desembarque, Teich enfatizou que "a vida é feita de escolhas", e que ele havia escolhido sair.

CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


Alexandre de Moraes sobrevoava a conjuntura com ares de Super-Homem, mas, ao se relacionar com Vorcaro, o homem se sobrepôs ao herói e descobriu de maneira trágica que pedestal não tem escada e, pior, que não se pode girar a Terra ao contrário para retroceder no tempo.

Sua proximidade com o banqueiro era tão inusitada quanto uma parceria de Lex Luthor com Super-Homem. Sem Moraes, Vorcaro se considera "fogueira sem brasa, futebol sem bola, Piu-piu sem Frajola." Tudo muito constrangedor

Discursando para chefes de tribunais de todo país nesta terça-feira, Edson Fachin incluiu a "crise de confiança pública" entre os desafios que o Judiciário precisa enfrentar, mas se absteve de citar o caso Master e o descrédito que assedia seus colegas Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Segundo ele, é "a imparcialidade" que conduz à "equidade", e as decisões judiciais devem ser "capazes de sobreviver ao mais impiedoso exame público".

O problema é que, ao invés de elevar a própria estatura, os magistrados preferem rebaixar o pé direito do Judiciário ao se recusarem a limitar os contracheques ao teto constitucional.

Quanto às debilidades éticas, faltam explicações aceitáveis para o relacionamento piromaníaco de Moraes e Toffoli com Vorcaro. Sem esclarecimentos convincentes, a pregação de Fachin em favor da restauração da "confiança pública" soa como uma análise das normas de prevenção contra o incêndio em meio a labaredas que disseminam o cheiro de queimado, convertendo em cinzas a supremacia do Supremo.

Para piorar, Viviane Barci de Moraes demorou quase três meses para se explicar, e quando o fez, a emenda ficou pior do que soneto.. A banca da família Moraes recebeu R$ 3,6 milhões mensais durante 22 meses. Coisa de R$ 79,2 milhões. O trabalho resultou em 267 horas de reuniões e 36 pareceres.

Bons advogados conhecem vasta jurisprudência. Grandes advogados conhecem muitos juízes. Para Vorcaro, a advogada genial é casada com o ex-xerife do Supremo. A diferença básica entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites.

Ironicamente, a doutora informa que parte do seu tempo a serviço de Vorcaro foi desperdiçado com a produção de coisas como a revisão do "Código de Ética" do Master e a formulação de políticas de "relacionamento com o poder público" e de "conflito de interesses". A ética de Vorcaro é a amoralidade. Seu apreço por compliance é nulo. Seu relacionamento com o poder é monetário. Quanto ao conflito de interesses, ele salta do contrato firmado com a esposa de Moraes como pulgas do dorso de um vira-latas.

Todos têm seu preço, dizem as línguas ferinas. Não é verdade. O que leva certas pessoas a se complicarem é a mania de morder oportunidades antes de se certificar do tamanho do anzol oculto.


A metáfora criada por Platão descreve o processo de libertação da ignorância rumo ao conhecimento real. Para os prisioneiros da caverna, as sombras projetadas na parede representam toda a realidade possível — sem que percebam tratar-se apenas de reflexos distorcidos de objetos que não conseguem ver. Ela mostra como aceitamos percepções superficiais como se fossem fatos absolutos, sem questionar sua origem.

A metáfora criada por Platão descreve o processo de libertação da ignorância rumo ao conhecimento real e profundo. Mandetta traçou um paralelo entre a caverna e a administração do aspirante a genocida, que vivia acorrentado a superstições num universo paralelo de sombras. A insistência em combater o coronavírus à luz da ciência fazia do médico o ex-acorrentado que viu a luz e foi morto ao tentar libertar os demais dos grilhões da ignorância.

Para os prisioneiros da caverna, as sombras projetadas na parede representavam a única verdade existente e inquestionável em suas vidas limitadas. Eles não percebiam que aquelas formas eram apenas reflexos distorcidos de objetos reais carregados por pessoas fora de seu campo de visão habitual. Essa limitação sensorial reflete como aceitamos informações superficiais sem questionar a origem.


Viver em um estado de ignorância confortável impede que o indivíduo explore o potencial máximo de sua própria consciência e intelecto crítico. As sombras modernas podem ser comparadas às notícias falsas ou às percepções sociais distorcidas que aceitamos como fatos absolutos no dia a dia. Desafiar essas ilusões exige coragem para encarar o desconhecido além das paredes familiares.


Quando o prisioneiro se liberta e sai da caverna, inicialmente a luz do sol causa dor e cegueira em seus olhos desacostumados. Esse desconforto físico simboliza a dificuldade de abandonar crenças antigas para abraçar novas verdades que desafiam o senso comum estabelecido.


O processo de aprendizado real raramente é fácil ou livre de resistências internas profundas. Com o tempo, porém, a visão se ajusta e o indivíduo passa a contemplar o mundo em sua plenitude cromática e estrutural vibrante. Essa transição marca o nascimento do pensamento filosófico e da autonomia intelectual necessária para governar a própria vida com sabedoria. A luz representa a clareza mental que surge quando decidimos buscar o conhecimento além das aparências superficiais.


Atualmente, a caverna pode ser vista como as bolhas de algoritmos que reforçam nossos próprios preconceitos e limitam o acesso a perspectivas divergentes. Sair dessa escuridão digital requer um esforço consciente para buscar fontes diversas e praticar a reflexão crítica constante sobre o que consumimos. A educação é a ferramenta principal para romper essas correntes invisíveis.


Devido à polarização semeada por Lula com seu "nós contra eles" — e estrumada por Bolsonaro, que ora cumpre pena na Papudinha pela tentativa malograda de golpe de Estado —, o eleitorado tupiniquim, que teima em repetir a cada eleição, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez, por curiosidade, cultua seus bandidos de estimação. O fiel da balança é representado pelos "isentões", que não apoiam o macróbio eneadáctilo nem o rebento do refuto da escória da humanidade. Mas essa minoria não é suficiente para furar a bolha e abrir espaço para um candidato alternativo (a chamada "terceira via").    


Voltando à alegoria, o filósofo que conheceu a luz sente o dever moral de retornar à escuridão para libertar seus antigos companheiros de prisão. No entanto, ele enfrenta a resistência e o deboche daqueles que ainda acreditam nas sombras como única realidade possível e segura. Esse conflito ilustra a dificuldade de comunicar verdades complexas em uma sociedade resistente a mudanças.


Tentar educar os outros exige paciência e empatia, pois a ignorância funciona como um mecanismo de defesa contra o medo do novo. A verdadeira liderança intelectual consiste em guiar as pessoas para fora da caverna sem impor a verdade de forma agressiva. O diálogo persistente continua sendo a ponte mais eficaz entre a escuridão e a clareza.


A lição de Platão fundamenta a ideia de que o conhecimento é a base para uma governança justa e ética na sociedade. Políticos e cidadãos devem buscar a luz da verdade para evitar que o poder seja exercido através da manipulação de imagens e ilusões.


Sem o compromisso com a realidade, qualquer sistema social corre o risco de desmoronar rapidamente. No entanto, argumentar com quem abdicou da lógica é como medicar defuntos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

EDITORES DE IMAGEM ONLINE

MAIS IMPORTANTE DO QUE O QUE PENSAM DE TI É O QUE PENSAS DE TI.

 

Levantamento feito pela FGV revelou que 258 milhões dos 480 milhões de dispositivos digitais ativos no Brasil são smartphones e 222 milhões são desktops, notebooks e tablets. Isso significa que o celular ainda não aposentou o desktop e o notebook, mas só porque algumas tarefas combinam melhor com teclados físicos e telas de grandes dimensões, mas u

 

Qualquer smartphone tira fotos e grava vídeos, mas a oferta de filtros e editores de imagem para Android é maior do que para Windows e muito maior do que para macOS. A Microsoft criou o Paintbrush (e o rebatizou posteriormente de MS-Paint) quando seu festejado sistema operacional ainda era uma simples interface gráfica que rodava no MS-DOS


Embora não fosse um editor de imagens poderoso, ele ajudou centenas de milhões usuários a desenhar casinhas, árvores e bonecos e fazer edições simples em fotos e figuras, e deixou um sem-número de "viúvas desconsoladas" em 2017, quando foi substituído pelo Paint 3D. Mas a emenda saiu pior que o soneto, e a Microsoft ressuscitou a versão clássica e a embutiu no Win11 com melhorias significativas e ferramentas baseadas em inteligência artificial (Copilot). 


CONTINUA DEPOIS DA POLÍTICA


O Supremo chega a 2026 em situação paradoxal. A inédita condenação de um ex-presidente e de militares graduados por crimes contra a democracia fez subir alguma coisa à cabeça de alguns magistrados, que, achando que o feito histórico bastaria para elevá-los à condição de estátua, comportam-se como pombos de si mesmos, sujando com desenvoltura dialética suas testas de bronze.

Apagaram-se as luzes do inquérito sobre o escândalo do Master depois que o relator voou de carona em jatinho particular, ao lado de um advogado de diretor do banco. A toga mais poderosa foi constrangida com a apreensão de contrato firmado pelo escritório de advocacia de sua mulher com o banco liquidado. A julgar pelo valor — R$ 129 milhões —, o contratante estava mais interessado em comprar influência do que assessoria jurídica.

Num movimento constrangedor, o decano editou uma liminar-blindagem para bloquear no Senado pedidos de impeachment contra si e seus pares. Negociou no balcão da baixa política um recuo parcial. Mas manteve o bode na antessala do Ano Novo. Paralelamente, o Código de Ética sugerido pelo presidente do tribunal é torpedeado internamente por colegas viciados em conchavos palacianos, embargos auriculares, indicações de cupinchas para tribunais inferiores, paloozas e rega-bofes bancados no exterior pelo déficit público e pelo lobby empresarial. 

Nesse ambiente, apenas o Supremo pode socorrer o Supremo. A tarefa, que já era incontornável, tornou-se um desafio urgente.


Usuários do Mac — como este que vos escreve — têm de se virar com a espartana Pré-visualização ou instalar um editor de imagens que rode no sistema da Apple. As opções são poucas, e as gratuitas, raras como moscas brancas de olhos azuis. Para nossa sorte, diversos editores de imagem online preenchem essa lacuna, dispensando a instalação de mais um app residente no computador. 


Com interface intuitiva e fácil de usar, o BeFunky permite importar fotos do computador e pode ser integrado ao Google Drive ou ao Dropbox. A gama de ferramentas é restrita, mas capaz de suprir nossas necessidade básicas, e aplicar textos sobre as imagens com fontes estilizadas está entre os recursos mais atrativos.

O Fator também é uma boa escolha para quem quer um editor simples e ágil. Sua tela inicial apresenta três alternativas — editor, colagem e design — e cada uma leva a uma tela com ferramentas diferentes, especificas para cada necessidade, e os menus autoexplicativos em português facilitam a vida dos usuários.


iPiccy é um editor mais completo, mas sua interface é intuitiva até mesmo para quem não domina programas do gênero. Ele permite cortar, girar ou redimensionar arquivos de maneira simples e rápida, oferece mais de 100 efeitos que podem ser aplicados nas fotos e permite alterar a exposição, o brilho, e a paleta de cores, mas exige que o login seja feito via Facebook. 


Inspirado no visual do Adobe Photoshop, o Photopea é a melhor escolha para quem está familiarizado com editores de imagem profissionais. Seus recursos avançados permitem remover manchas, trabalhar com camadas e até salvar arquivos com a extensão PSD — que pode ser editada no Photoshop. As ferramentas são as mesmas nas versões gratuita e premium — esta última apenas suprime os anúncios —, mas o programinha é caro quando comparados a outros editores profissionais.
 
Também inspirado no Photoshop, o Pixlr é pródigo em ferramentas, mas exige conhecimentos básicos de edição. Pode-se tanto criar arquivos em branco para iniciar um trabalho quanto importar imagens pesadas. Os formatos compatíveis são JPEG, PNG e TIFF — além do PXD, que é exclusivo do editor. Existe uma opção paga, mas a versão gratuita é suficiente para a maioria das pessoas.


Canva é mais voltado à criação de designs, mas não desaponta como editor de fotos; o Fotoflexer se destaca pela variedade de ferramentas avançadas de edição e interface amigável e intuitiva; e o Adobe Express oferece uma série de ferramentas poderosas para ajustes e melhorias em suas imagens com a confiabilidade da Adobe e sem a necessidade de instalar um programa pesado (e caro) no computador.


Escolha a opção que mais lhe agradar e divirta-se.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

MENTIRAS QUE SOAM VERDADEIRAS

É MELHOR UM FIM HORROROSO DO QUE UM HORROR SEM FIM.  

A maioria de nós já ouviu dizer que avestruzes enterram a cabeça na areia quando estão assustados, que preguiças são preguiçosas, que porcos são sujos, que golfinhos estão sempre sorrindo, que elefantes nunca esquecem, que Lula foi absolvido e que Bolsonaro foi condenado injustamente. Só que nada disso é verdade. 


No que tange aos avestruzes, as fêmeas colocam a cabeça no buraco que usam como ninho para virar os ovos várias vezes durante o dia — se realmente enterrassem a cabeça para não ver o perigo, como diz a lenda, as pobres aves morreriam asfixiadas. 


As preguiças se movem devagar porque seu metabolismo as obriga a economizar energia, e como não andam sobre as solas dos pés, mas se arrastam com suas longas garras, sua locomoção nas árvores e no solo é lenta e desajeitada. Por outro lado, elas se movem velozmente na água e dormem cerca de 10 horas por dia — bem menos que os gatos e outros animais domésticos.


Os porcos são animais naturalmente asseados. Eles defecam longe de onde comem, dormem e acasalam, mas, como não conseguem suar, refrescam-se chafurdando na lama — o que lhes dá a aparência de sujos. Por outro lado, é impossível manter-se limpo quando se vive confinado num chiqueiro pequeno, superlotado e imundo.


Os golfinhos são brincalhões e parecem sorrir porque o formato de suas mandíbulas cria essa ilusão. Mas são incapazes de mudar de expressão, e podem ser surpreendentemente desagradáveis e traiçoeiros, chegando a atacar outros mamíferos marinhos e até pessoas quando se sentem ameaçados.


Os elefantes possuem o maior cérebro entre os mamíferos terrestres. Seu lobo temporal — extremamente desenvolvido — permite memorizar cheiros, vozes, lugares, hierarquias, vínculos familiares e comandos de voz. Eles são capazes de reconhecer outros elefantes — e até humanos — após décadas de separação, bem como de manter relações complexas dentro da manada, que a matriarca conduz por rotas migratórias antigas, guiada por lembranças de locais com água e comida.


Assim como afirmar que “os elefantes não esquecem” é uma simplificação poética embasada na ciência, dizer que os eleitores brasileiros fazem, a cada dois anos, por ignorância, o que Pandora fez uma única vez por curiosidade, é uma simplificação poética embasada na mitologia grega.


Celebrizada pelo jornalista Ivan Lessa, a máxima segundo a qual os brasileiros esquecem, a cada 15 anos, o que aconteceu nos últimos 15, ilustra a quintessência da falta de memória — ou de preparo — do nosso eleitorado. Aliás, em momentos distintos da ditadura, Pelé e o ex-presidente João Figueiredo alertaram para o risco de misturar brasileiros e urnas em eleições presidenciais. Ambos foram muito criticados, mas como contestá-los, se lutamos tanto pelo direito de votar para presidente e elegemos gente como Lula, Dilma e Bolsonaro?


Em 135 anos de história republicana, 35 brasileiros foram alçados à Presidência pelo voto popular, eleição indireta, linha sucessória ou golpe de Estado. Em agosto de 1961, a renúncia de Jânio Quadros ladrilhou o caminho para o golpe de 1964, que depôs João “Jango” Goulart do Palácio do Planalto e deu início a duas décadas de ditadura militar.


Em 1989, depois de 29 anos sem votar para presidente e podendo escolher entre Ulysses Guimarães, Mário Covas e Leonel Brizola — de um cardápio com mais de 20 postulantes — a plebe ignara preferiu despachar Collor e Lula para o segundo turno. O caçador de marajás de mentirinha derrotou o desempregado que deu certo por 683.920 a 215.177 votos válidos, provando que memória histórica e senso crítico não são pré-requisitos para exercer o direito de voto.


Collor foi empossado em março de 1990 e penabundado em dezembro de 1992. Em 1994, graças ao bem-sucedido Plano Real, Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda de Itamar Franco, elegeu-se presidente no primeiro turno. Picado pela “mosca azul”, comprou a PEC da Reeleição.


Como quem parte, reparte e não fica com a melhor parte é burro ou não tem arte, o tucano de plumas vistosas renovou seu mandato no ano seguinte — novamente no primeiro turno. Mas não há nada como o tempo para passar. Em 2002, sem novos coelhos para tirar da velha cartola, não conseguiu eleger seu sucessor: Lula derrotou José Serra por 61,27% a 38,73% dos votos válidos.


Em 2006, apesar do escândalo do mensalão, o petista venceu Geraldo Alckmin por 60,83% a 39,17% dos votos válidos. Em 2010, visando manter aquecida a poltrona que tencionava disputar dali a quatro anos, fez eleger um “poste” — Dilma Rousseff —, que pegou gosto pelo poder, fez o diabo para se reeleger, entrou em curto-circuito e foi desligada em 2016, pondo fim a 13 anos e fumaça de lulopetismo corrupto.


Com o impeachment da mulher sapiens, Michel Temer passou de vice a titular do cargo. Num primeiro momento, a troca de comando pareceu alvissareira. Depois de mais de uma década ouvindo garranchos verbais de um semianalfabeto e frases desconexas de uma destrambelhada que não sabia juntar sujeito e predicado, ter um presidente que sabia falar — até usando mesóclises — foi como uma lufada de ar fresco numa catacumba. Mas há males que vêm para o bem e bens que vêm para pior.


O prometido “ministério de notáveis” revelou-se uma notável agremiação de corruptos, e a “ponte para o futuro”, uma patética pinguela. Depois que sua conversa de alcova com Joesley Batista veio a lume, Temer pensou em renunciar, mas foi demovido por sua tropa de choque.


Escudado das flechadas de Janot pelas marafonas da Câmara, o nosferatu que tem medo de fantasma concluiu seu mandato-tampão como pato manco e transferiu a faixa para um mix de mau militar e parlamentar medíocre travestido de outsider antissistema, que se tornou o pior mandatário tupiniquim desde Tomé de Souza.


Para provar que era amigo do mercado e obter o apoio dos empresários, o estadista que sempre acreditou em Estado grande e intervencionista e lutou por privilégios para corporações que se locupletam do Estado há décadas, foi buscar Paulo Guedes..


Para provar que era inimigo da corrupção e obter o apoio da classe média, o deputado adepto das práticas da baixa política, amigo de milicianos, que em sete mandatos aprovou apenas dois projetos e passou por oito partidos diferentes, todos de aluguel, foi buscar Sérgio Moro. 


Para obter o apoio das Forças Armadas, o oficial de baixa patente, despreparado, agressivo e falastrão, condenado por insubordinação e indisciplina e enxotado da corporação, foi buscar legitimidade numa penca de generais saudosos da ditadura.


Bolsonaro obrigou Moro a reverter uma nomeação, tomou-lhe o Coaf, forçou-o a substituir um superintendente da PF e esnobou seu projeto contra a corrupção. O ex-juiz fingiu que não viu, tentou negociar e, por fim, desembarcou do governo para tentar salvar o pouco prestígio que lhe restava.


Bolsonaro desautorizou Guedes, interferiu em seu ministério, sabotou seus projetos e, com o Centrão, enterrou de vez a agenda econômica. A maneira como gerenciou a pandemia de Covid foi catastrófica. Os crimes comuns e de responsabilidade cometidos pelo aspirante a genocida só ficaram impunes graças à leniência de Rodrigo Maia e Arthur Lira, que presidiram a Câmara durante sua gestão, e à cumplicidade de Augusto Aras, seu antiprocurador-geral.


Bolsonaro jamais escondeu a admiração pela ditadura militar e a vocação para o autoritarismo. Em 2019, poucos meses após a posse, reconheceu que não nasceu para ser presidente, mas para ser militar, embora tenha passado menos anos no Exército do que na política e, ao longo de 27 anos no baixo clero da Câmara, tenha apresentado 172 projetos, relatado 73 e aprovado apenas dois.


Na eleição de 2014, ao ver o poste de Lula derrotar o neto corrupto de Tancredo, Bolsonaro resolveu disputar a Presidência “com a cara da direita”. Ignorado pelo PP, que apoiou a campanha de Dilma, lançou seu ultimato: “Ou o partido sai da latrina ou afunda de vez”. Graças à Lava-Jato, a sigla afundou de vez. Graças à sua pregação antipetista, Bolsonaro renovou seu mandato como deputado mais votado do Rio de Janeiro, saltando de 120,6 mil votos em 2010 para 464,5 mil em 2014.


Derrotado em 2022 graças à sua nefasta gestão, Bolsonaro pôs em marcha a tentativa de golpe que lhe rendeu a condenação a 27 anos e 3 meses de prisão, além do pagamento de multa e indenização. O acórdão publicado na terça-feira (22) abriu o prazo de cinco dias para a interposição de embargos de declaração e de 15 dias para embargos infringentes.


Os embargos de declaração servem apenas para pedir esclarecimentos sobre o texto do acórdão — nada de rediscutir o mérito. Já os embargos infringentes permitiriam um novo julgamento no plenário, mas o Supremo já decidiu em outros casos que eles só são admissíveis quando há pelo menos dois votos favoráveis à absolvição — condição que, adivinhe, não se aplica à condenação do ex-presidente. Ele cumpre prisão domiciliar desde agosto e pode ser enviado ao Complexo Penitenciário da Papuda antes do final do ano.


Há males que o tempo cura, males que vêm para pior e males que pioram com o passar dos anos. Lula 3.0 é uma reedição piorada das versões 1 e 2 e, como nada é tão ruim que não possa piorar, o macróbio quer, porque quer, disputar a reeleição em 2026 — para nossa alegria (risos nervosos).


Vale lembrar que o ministro Fachin tomou a decisão teratológica de anular as condenações de Lula em caráter eminentemente processual. Como o mérito não foi analisado, o ex-presidiário não foi absolvido. Em outras palavras, o ministro agiu como um delegado que manda soltar um criminoso porque ele foi preso em flagrante pela Guarda Civil Metropolitana, e não pela Polícia Militar. Mesmo assim, o macróbio eneadáctilo alega que foi inocentado — e sua claque amestrada acredita.


As consequências da inconsequência do eleitorado tupiniquim são lamentadas todos os dias, inclusive por quem abriu a Caixa de Pandora achando que estava escolhendo o menor de dois males — o que só se justificaria se não houvesse outra opção. Tanto em 2018 quanto em 2022 havia alternativas; só não viu quem não quis ou não conseguiu, porque sofre do pior tipo de cegueira, que é a mental.

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Reza uma velha (e filosófica) anedota que quando Deus estava distribuindo benesses e catástrofes naturais pelo mundo recém-criado, um anjo apontou para o que seria futuramente o Brasil e perguntou: Senhor, por que brindas essa porção de terra com clima ameno, praias e florestas deslumbrantes, grandes rios e belos lagos, mas não desertos, geleiras, vulcões, furacões ou terremotos? E o Criador respondeu: Espera para ver o povinho filho da puta que vou colocar lá.


Resumo da ópera:


Bolsonaro foi eleito em 2018 graças ao antipetismo, mas a emenda ficou pior que o soneto. Sua nefasta passagem pelo Planalto resultou na “descondenação” de Lula e culminou com seu terceiro mandato, que vem se revelando pior do que os anteriores. E a possibilidade de ele se reeleger é assustadoramente real, mesmo porque, ironicamente, seu maior cabo eleitoral é Bolsonaro — e seus filhos despirocados, claro.


Se Sérgio Moro não tivesse trocado a magistratura pelo ministério da Justiça no desgoverno do capetão, é possível que a Lava-Jato ainda estivesse ativa e operante, e Lula ainda estivesse cumprindo pena em Curitiba, na Papuda ou no diabo que o carregue. Tanto ele quanto Bolsonaro são cânceres que evoluíram para metástases e, portanto, se tornaram inoperáveis. Mais cedo ou mais tarde, a Ceifadora livrará o Brasil desse mal. Até lá, a abjeta polarização seguirá a todo vapor — a menos que uma “terceira via” surja e se consolide ao longo do ano que vem.


Políticos incompetentes e/ou corruptos que ocupam cargos eletivos não brotam nos gabinetes por geração espontânea; se estão lá, é porque foram eleitos por ignorantes polarizados, que brigam entre si enquanto a alcateia de chacais se banqueteia e ri da cara deles — e dos nossos, de brinde.


Einstein teria dito que o Universo e a estupidez humana são infinitos, mas salientou que, no tocante ao Universo, ele ainda não tinha 100% de certeza. Alguns aspectos de suas famosas teorias não sobreviveram à passagem do tempo, mas sua percepção da infinitude da estupidez humana deveria ser bordada com fios de ouro nas asas de uma borboleta e pendurada no hall de entrada do Congresso.


Não há provas de que boas ações produzam bons resultados. A lei do retorno é mera cantilena para dormitar bovinos, mas insistir no mesmo erro esperando produzir um acerto é a melhor definição de imbecilidade que conheço, e más escolhas inevitavelmente geram péssimas consequências — como temos visto a cada eleição presidencial desde 2002.


Triste Brasil.


terça-feira, 9 de setembro de 2025

A QUE PONTO CHEGAMOS!

NÃO É POSSÍVEL CONVENCER UM FANÁTICO DE COISA ALGUMA, POIS SUAS CRENÇAS NÃO SE BASEIAM EM EVIDÊNCIAS, MAS SIM NUMA PROFUNDA NECESSIDADE DE ACREDITAR.   


O saudoso Ivan Lessa ensinou que o brasileiro esquece a cada 15 anos o que aconteceu nos últimos 15 anos. Isso explica por que a récua de muares supostamente capacitada a votar repete a cada eleição o erro que Pandora cometeu uma única vez.

 

Depois de 21 anos de ditadura e 29 de jejum de urna, os brasileiros recuperaram o direito de votar para presidente. Na eleição solteira de 1989, o cardápio incluía Ulysses Guimarães, Mario Covas e Leonel Brizola, mas o esclarecidíssimo eleitor achou por bem despachar para o segundo turno um caçador de marajás demagogo e populista e um ex-metalúrgico populista e demagogo

 

Collor derrotou Lula em 1989 e Fernando Henrique, em 1994 e 1998 — ambas as vezes no primeiro turno. Mas faltaram ao tucano de plumas vistosas novos coelhos para tirar da velha cartola e assim Lula venceu José Serra em 2002 e Geraldo Alckmin em 2006 — a despeito do escândalo do mensalão. Quatro anos depois, ainda com a popularidade maior que o ego, travestiu de “gerentona” uma incompetente de quatro costados  e a incumbiu de manter aquecida a poltrona que ele pretendia disputar novamente em 2014.

 

Dilma derrotou Aécio no segundo turno, mas foi afastada do cargo em abril de 2016 e apeada em definitivo no final de agosto, quando então seu vice, Michel Temer, foi efetivado no cargo. Num primeiro momento, a troca de comando foi como uma lufada de ar fresco numa catacumba: depois de 13 anos ouvindo garranchos verbais de um ex-retirante semianalfabeto e frases desconexas de uma gerentona de araque, um presidente que sabia falar — e até usar mesóclises — foi um refrigério. 

 

Temer conseguiu baixar a inflação e aprovar o Teto de Gastos e a Reforma Trabalhista, mas seu prometido "ministério de notáveis" se revelou uma notável confraria de corruptos, e sua "ponte para o futuro", uma patética pinguela. Depois que uma conversa de alcova com Joesley Batista veio a público, o emedebista pensou em renunciar, mas foi demovido pelo então deputado Carlos Marun, que se encarregou de escudá-lo das “flechadas de Janot”. 

 

Nosso folclórico “Vampiro do Jaburu” terminou seu mandato-tampão como um pato manco e transferiu a faixa ao pseudopatriota eleito em 2018 para evitar que o Brasil fosse governado por um fantoche de presidiário. Mas foi pior a emenda que o soneto: a nefasta gestão de Bolsonaro — um mau militar e parlamentar medíocre de viés golpista — levou o STF a anular as condenações de Lula, embora elas já tivessem transitado em julgado no STJ quando o ministro Fachin, relator da Lava-Jato na Suprema Corte, acolheu a tese da incompetência territorial da 13ª Vara Federal de Curitiba — que ele próprio já havia rejeitado mais de dez vezes. 

 

Assim que o plenário da Corte reverteu (por 6 votos a 5) a jurisprudência que permitia o cumprimento antecipado da pena após condenação em segunda instancia, o petista deixou a cela VIP onde ficou hospedado por míseros 580 dias e, tão logo foi “descondenado” e reabilitado politicamente (por uma sequência de decisões teratológicas), voltou ao palanque e se derrotou Bolsonaro por uma vantagem de 1,8% dos votos válidos.

 

Evitar mais quatro anos (ou sabe Deus quantos) sob a batuta do capetão-golpista era crucial, mas reconduzir o criminoso à cena do crime era opcional. Ainda assim, a quimérica “terceira via” — tanto com João Dória quanto com Henrique Mandetta, Sergio Moro e Simone Tebet — não prosperou, e Lula, que jamais desceu do palanque, segue candidatíssimo a um nada improvável quarto mandato. Mas querer nem sempre é poder.

 

É claro como o sol do meio-dia que Bolsonaro e seus cúmplices do “núcleo crucial da trama golpista” serão condenados na próxima sexta-feira, e podem "pegar" mais de 40 anos de prisão se as penas máxima previstas para os cinco crimes forem aplicadas. Sem embargo, o 7 de Setembro foi marcado por manifestações contra e a favor do perdão aos atos golpistas — na Praça da República, 8,8 mil manifestantes entoaram gritos de “sem anistia” e exaltaram a soberania nacional; na Avenida Paulista e em Copacabana, 84,9 mil bolsonaristas pediram “anistia já”, criticaram o STF e elogiaram os EUA — com direito a uma enorme bandeira americana. 

 

Tarcísio de Freitas transformou sua aparição no alto do caminhão de som num espetáculo pornográfico. Despido desavergonhadamente do que seria seu maior patrimônio político — a presunção de moderação — o governador paulista cavalgou o Kama Sutra em posições ideológicas exóticas. “Ninguém aguenta mais a tirania de Alexandre de Moraes”. Gilmar Mendes saiu em defesa do colega de toga: “o que o Brasil realmente não aguenta mais são as sucessivas tentativas de golpe”.

 

Tarcísio sabe que a condenação consolidará o expurgo do "mito" das urnas, mas, de olho no espólio, soou tão radicalmente inaceitável quanto seu padrinho político. Para criador e criatura, o cinismo é uma forma de patriotismo, mas a candidatura do governador ao Planalto apodreceu antes de amadurecer, enquanto sua reeleição em São Paulo, antes provável, vai se tornando um roliço ponto de interrogação. 


Como era de esperar, o pano de fundo das manifestações foi impregnado de 2026. O ex-presidiário prevalece sobre qualquer rival em todas as pesquisas, enquanto o futuro presidiário ora veste a fantasia de vítima, ora a alegoria de “réu dodói”. Só não troca o papel de candidato fake, embora 65% dos eleitores avaliem que devesse admitir a morte política e apressar o testamento do que lhe restou de espólio eleitoral. Sem falar que 61% dos entrevistados pelo Datafolha fizeram cara de nojo para presidenciáveis que prometem anistiar o "ex-mito" de suas culpas.

 

A persistência com que o ódio de uma fação extremada mobiliza multidões não serve senão para aguçar a extrema angústia de brasileiros que já estão com o saco cheio de tudo o que não se pareça com um projeto consistente de futuro. E essa gente não costuma gritar no meio da multidão — ao contrário, prefere o escondidinho da cabine eleitoral.